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Depoimento de Luciano Pires

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“Em 2005 eu buscava formas de ampliar o alcance de meu trabalho. Queria levar para mais gente, buscar meios de falar às pessoas que não estavam conectadas ao limitado universo da internet. Foi quando meu amigo Jackson Dorta sugeriu que eu procurasse uma rádio, indicando a Mundial FM, em São Paulo. Fiquei curioso e marquei uma reunião com a diretora da rádio. Expliquei quem eu era, mostrei meus livros e disse que queria comprar um horário para colocar um programa no ar, com os mesmos conteúdos de meus textos. A diretora gostou. Era uma terça-feira e ela disse: “Muito bem, sexta-feira você está no ar…” Como assim? Entrar no ar em três dias? Eu estava fazendo apenas uma sondagem, vendo quanto custava, conhecendo a rádio… E ela me colocava na parede: é pegar ou largar! É claro que eu topei. Adoro entrar em frias! E numa sexta-feira 13, em maio de 2005, estreei na rádio meu programa Café Brasil.

Quando ouço hoje o primeiro programa, fico com vergonha. Um horror… Mas trabalhei bastante para melhorar, chegando a um formato interessante. A ideia era lançar “iscas intelectuais”, usando meus textos e de meus conhecidos (ou outros que encontro em publicações e na internet), mesclados com música popular brasileira. Com uma característica: as músicas teriam que ter relação com o assunto do programa, o que me abriu oportunidade de tocar qualquer artista. Em nenhum outro lugar você escuta um programa que começa com Monsueto, vai a Antônio Nóbrega, retorna para Mamonas Assassinas, segue com André Abujamra, vai pra Villa Lobos e termina com Tião Carreiro e Pardinho… Uma festa!

Ainda em 2005 um fornecedor propôs colocar os programas no ar pela internet, num esquema que ele chamou de Rádio Café Brasil. Era um sisteminha tosco, que tocava os programas mas não permitia download. E um dia recebi um contato de uma pessoa que se gabava de ter baixado todos os programas. Como eu não entendia nada do assunto, especulo que o nerd usou algo através do “temp” e conseguiu montar uma coleção de programas… Hummmm… Será que dava?

Um ano e meio após o nascimento do programa concluí que precisava encontrar uma forma mais fácil de deixar os programas à disposição das pessoas. Pô, dava um trabalhão, ia pro ar e depois acabava? E em setembro de 2006 assinei com a Podbr um contrato para distribuição do programa Café Brasil como podcast. Lembro-me que no momento em que fechei o contrato comentei com o pessoal da Podbr:

“O dia em que eu tiver 3 mil downloads por mês estarei realizado.”

Nessa época o Café Brasil era gravado no estúdio do músico Sérgio Sá, que compôs as vinhetas do programa. Em 2007 encontrei a Ciça Camargo, que assumiu as funções de produtora do programa, ajudando imensamente a colocar ordem na casa. E também em 2007 conheci o Lalá Moreira que logo mais assumiu a direção técnica do programa. Lalá vem do rádio e é um conceituado DJ. Sua rapidez e criatividade nos permitiram um ganho de qualidade e produtividade excepcional. O Café Brasil é um dos raríssimos podcasts que está pronto para ir ao ar 10 minutos após ser gravado.

Em 2007 foram 427 mil downloads. Em 2008, 887 mil. 2009, 1.095 mil. 2010 chegamos aos 1,3 milhões de downloads. E em 2013 quebramos a barreira dos 3 milhões. Em 2015 atingimos 6,8 milhões, com uma média de 150 mil downloads por programa. Em 2016, vamos atingir 8 milhões, um número excepcional, que coloca o Café Brasil e pé de igualdade com muitas revistas e programas de rádio conhecidos que não têm esse número de ouvintes! Mais à frente retornarei a esse tema.

Na edição de 2008 do Prêmio Podcast Brasil, o Café Brasil foi escolhido pelo Júri Técnico como o melhor podcast de Variedades e Entretenimento.

Em 2009, na derradeira edição do Prêmio conquistamos mais uma vez como o Melhor podcast de Variedades, no voto do Juri e no do Popular. E fomos o podcast mais votado em todas as categorias.

Em 2010 cheguei à uma compreensão do que é que eu chamo de “Cultura brasileira” quando falo do Café Brasil. É diferente do que se convenciona chamar de cultura por aí… Dividi a Cultura Brasileira em quatro blocos:

  • EXPRESSÃO: o idioma falado, as artes, a mídia, o folclore, a literatura
  • CIDADANIA: a política, a organização social
  • EDUCAÇÃO: a escola, a política educacional
  • COMPORTAMENTO: as relações dos brasileiros com o meio-ambiente,com o mundo, a religião, etc

É nesses quatro blocos que eu costumo reinar…

Hoje o Café Brasil está sólido, tendo se transformado numa parte importante das receitas do Café Brasil Editorial, sem perder a essência. Costumo dizer que se eu pegar o conteúdo do programa número 1, lá de Abril de 2005 e regravar com os recursos técnicos de hoje, funciona perfeitamente. Mantive a essência, o propósito, a coerência, e se o programa tem algum sucesso, essa é a explicação fundamental.

Para ter uma visão mais abrangente de onde chegamos, assista os vídeos que produzi e que estão aqui:

http://www.portalcafebrasil.com.br/tudo-sobre-podcasts/mundo-dos-podcasts/

E aqui um vídeo promo do episódio 500 que mostra algumas cenas do processo de produção do programa no estúdio:

E aqui você pode acompanhar uma sessão completa de gravação do Podcast 516, em 7 de julho de 2016.

Mas preciso deixar uma recomendação. Não encare o Café Brasil de forma maniqueísta, do oito ou oitenta, preto ou branco, cheio ou vazio. Considere-o como um estímulo, uma provocação.

Escrevo sem freios, com o coração, interessado no debate. Escrevo para provocar reações. Não estou interessado em provar que estou certo, em ter seguidores ou em ganhar discussões. E não venha me cobrar coerência. Sou um habitante do novo milênio. Não sei mais o que é verdade e o que é mentira. Apenas desconfio. Quando muito, reflito. Quando pouco, provoco. Já se passou um bom tempo desde 2005. E os pocotós continuam, firmes, fortes, cheios de planos e dominando.

Mas eu sou chato.”

 

Luciano Pires