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Luciano Pires -
Download do Programa

Luciano: Muito bem, mais um LíderCast. Os meus cabelos são os mesmos, mas a minha voz, quanta diferença! Isso aqui é uma mudança de tempo terrível em São Paulo, a voz vai para o buraco, mas eu estou me esforçando aqui, eu não posso perder esta oportunidade. A nossa convidada de hoje chega aqui, isso aqui é um recado para todas as agências de comunicação, assessorias de imprensa, isso aqui foi um release. Entrou um release na minha caixa postal, eu não sei, não conheço quem mandou, não conheço quem estava inscrito lá, mas a hora que eu vi o título, li duas linhas, falei aqui pode dar samba. Mandei de volta, se quiserem vir conversar, estamos na mão, pronto, aqui estamos.

Quase terminando o ano, chegando no finalzinho. São três as perguntas fundamentais aqui e as únicas que você não pode errar. As demais você pode chutar à vontade, essas três, não. Quero saber seu nome, sua idade e o que você faz.

Lucia: O meu nome é Lucia, eu tenho 56 anos e sou psicóloga e escritora.

Luciano: Psicóloga e escritora? Você nasceu aonde?

Lucia: Eu nasci em São Paulo mesmo.

Luciano: Daqui da capital mesmo?

Lucia: Daqui da capital.

Luciano: Que tem aquele sotaque da Mooca, aquelas coisas, ou não?

Lucia: Não tenho, eu tenho mais sotaque do interior, porque eu passava muito a minha infância no interior. Então sabe “pórrrrrrta”, essas coisas bem interioranas mesmo.

Luciano: É, não tira sarro, porque eu sou de Bauru e eu falo “pórrrrrrta”, “porrrrrrco” e tudo o mais.

Lucia: Então, eu também [riso].

Luciano: Aonde é que você passeava lá?

Lucia: Presidente Prudente.

Luciano: É longe, hein.

Lucia: É, bem longe.

Luciano: Seu pai, sua mãe, o que eles faziam?

Lucia: O meu pai médico, faleceu, infelizmente, ele era pediatra. A minha mãe era professora e depois disso passou no concurso do tribunal, então passou a trabalhar no tribunal. Hoje é aposentada.

Luciano: Seu pai trabalhava por conta própria, tinha o consultório dele e tudo o mais?

Lucia: Ele tinha o consultório dele.

Luciano: Então você via o seu pai como médico, dono do consultório.

Lucia: Isso.

Luciano: E sua mãe foi de professora para servidora pública.

Lucia: Para servidora pública.

Luciano: Legal. Tem irmãos?

Lucia: Sim, tenho três.

Luciano: Mais novos, mais velhos?

Lucia: Dois mais velhos e uma mais nova. Nós somos em quatro.

Luciano: Como é que era teu apelido quando era criança?

Lucia: Meu apelido? Quando criança, eu não tive, não. Eu tive um apelido já quando eu estava lá pelos meus 20 anos, que o pessoal me chamava de Elba, por causa do cabelo.

Luciano: Do cabelo, está certo. Mas aí já é muito tarde, eu preciso lá atrás, então eu vou pegar a Lucinha lá atrás, o que a Lucinha queria ser quando crescesse?

Lucia: Atriz.

Luciano: Atriz? E por quê? Pelo desbunde de ver na televisão?

Lucia: Eu sempre adorei representar, sempre. Representar, para mim, ser uma outra pessoa, sair de mim e criar um personagem, viver uma outra vida, explorar outros mundos é uma coisa tão fantástica, porque quando você não é você, você tem coragem para fazer tudo. Você se expõe, você não tem medo, você não tem vergonha.

Luciano: Mas essa percepção você tem aos 56. E como Lucinha, que não tinha essa imagem? De onde vem aquilo? Você viu a televisão, viu a novela, ficou enlouquecida, você viu um teatro ou viu um cinema, o que é que foi?

Lucia: Eu gostava muito quando eu brincava, eu entrava muito dentro do personagem. Eu entrava tanto no personagem, que eu vivia aquela história. Eu brincava com as minhas primas, com a minha irmã e, quando eu percebia, eu estava vivendo aquela história. Então eu pensei, como eu gosto de fazer isso, como eu gosto de estar em outro papel. Então eu sabia que era esse mundo que eu queria, esse mundo de representar, de ser outro personagem, de ser uma outra pessoa, de ser várias pessoas, na verdade, eu queria ser várias pessoas, eu não queria ser somente eu.

Luciano: E você pensou em seguir isso seriamente, foi estudar para isso?

Lucia: Fui, eu fiz um curso, fiz no Macunaíma um curso de teatro, apesar de que meu pai era totalmente contra, minha família toda era contra, achavam que teatro não era uma boa coisa.

Luciano: Que idade você tinha?

Lucia: 18, mais ou menos.

Luciano: 18, nós estamos falando dos anos 77, 78. Final dos anos 70, seus pais ainda tinham aquele resquício de que teatro, atores…

Lucia: Sim, não prestava. Atriz assim, não tanto de televisão, mas atriz de teatro mesmo, eles tinham uma coisa assim.

Luciano: Estigma.

Lucia: Ia tirar a roupa no meio da peça, tinha essas coisas. E aí então eu fiz esse curso de teatro, depois eu fiz teatro amador e tudo, representei um pouquinho. Era muito gostoso, eu gostava demais, mas acabei seguindo outros caminhos.

Luciano: Quer dizer, aquilo não ia dar, você sabia que não ia conseguir levar aquilo adiante.

Lucia: Não, eu não ia.

Luciano: Qual foi a opção, qual foi a saída?

Lucia: Eu fui estudar computação.

Luciano: Começo dos anos 80?

Lucia: Isso.

Luciano: Os computadores começando a aparecer. De onde veio, você ganhou um videogame?

Lucia: Não. Começou aquela febre de computação, de programação e eu comecei a ver que eu gostava muito, eu sempre gostei muito de lógica, sempre gostei muito de resolver problemas, de resolver exercícios. Matemática, sempre adorei matemática e era uma coisa nova para mim. Então eu comecei a ver assim, nossa eu gosto disso, estou gostando disso aí. Aí eu fui fazer um curso de linguagem de programação, eu acho que na época era o basic e adorei.

Luciano: Uma sala com 40 gordos barbudos e você?

Lucia: Mais ou menos [riso].

Luciano: É mais ou menos assim. Você a única mulher lá dentro.

Lucia: A única mulher. Nossa, e eu me apaixonei, comecei a fazer programação, fiquei apaixonada. Mas assim, demorou. Na verdade, a minha vida é um pouco diferente assim dos padrões normais. Na época em que era para fazer faculdade, eu não quis fazer. Aí eu entrei no Banco do Brasil.

Luciano: Prestou concurso.

Lucia: Isso. Meu pai queria que eu fizesse faculdade, eu não fiz, fui prestar concurso, entrei no Banco do Brasil. Aí meu pai ficou feliz que eu estava no Banco do Brasil, eu saí do Banco do Brasil e fui morar nos Estados Unidos.

Luciano: Com que idade?

Lucia: Uns 21, mais ou menos. Aí meu pai ficou louco da vida.

Luciano: Você imagina, o sonho de um pai era um filho trabalhando no Banco do Brasil, filho ou filha, que aquilo, naquela época, era o máximo. E você pegou e abriu mão disso, o que foi, uma paixão?

Lucia: Não. Porque eu trabalhava em agência, e eu, sinceramente, não me via ali o resto da minha vida. Eu não estava nem aí para estabilidade, não estava nem aí com dinheiro, eu queria era viver minha vida.

Luciano: Aos 21 é assim.

Lucia: Eu queria ser feliz. Eu tinha uma prima que morava nos Estados Unidos e ela vivia me convidando para ir para lá. Aí falei eu vou e fui com a cara e a coragem. Larguei o emprego e fui com a cara e a coragem mesmo e voltei com a cara e a coragem, voltei sem mais nada.

Luciano: Quanto tempo você ficou lá?

Lucia: Fiquei cinco meses. Aí é que eu fui fazer faculdade, aí é que eu resolvi fazer faculdade. Até aí o meu pai já estava ficando meio louco da vida comigo, porque eu não fazia nada do que ele queria. Aí eu fiz a faculdade de computação na FAPEC. Comecei a trabalhar na área, adorei.

Luciano: Você se formou, então, você pegou um diploma?

Lucia: Sim, de analista de sistemas, me formei, trabalhei durante 20 anos na área de computação. Voltei para o Banco do Brasil, mas dessa vez para trabalhar na área de computação. Então eu fiquei 20 anos trabalhando nessa área.

Luciano: Vem cá, entrar no Banco do Brasil é a coisa mais difícil do mundo, como é que faz para entrar duas vezes? Qual é o segredo?

Lucia: Não sei, acho que a paixão. Eu, quando eu punha uma ideia na minha cabeça, sempre assim me esforcei muito, nunca veio nada de graça na minha vida, nada. Eu sempre me esforcei muito, sempre pus minha cabeça no que eu queria e ia atrás. Eu não desistia, não deixava ninguém falar que eu não ia conseguir, não deixava ninguém me desestimular. Mesmo hoje, com os meus livros, que todo mundo fala que é muito difícil, eu não me deixo desanimar, eu vou em frente, eu quero uma coisa e sei que lá no fim eu vou conseguir.

Luciano: Estamos então trabalhando no Banco do Brasil, com 23 anos de idade, como analista de sistemas.

Lucia: Certo. Aí fui morar em Brasília.

Luciano: Então, mas aí você não estava lá tranquila, você estava lá com uma ideia de que aquilo era de passagem ou era assim vou fazer minha carreira aqui dentro?

Lucia: Não, ali eu estava muito feliz, eu adorava o que eu fazia. Eu era uma pessoa, eu me sentia assim privilegiada, porque gostava demais do que eu fazia, eu ia trabalhar feliz. Para mim não tinha essa de domingo, de tardezinha ficar deprimida, não, eu adorava trabalhar. Eu realmente gostava muito do que eu fazia. Aí surgiu uma oportunidade de ir para Brasília, que era mais ou menos ou vai para Brasília, ou você volta para uma agência. Aí eu fui para Brasília.

Luciano: Sozinha.

Lucia: Eu e o meu marido.

Luciano: Aí você já tinha casado então?

Lucia: Já. Já estava casada.

Luciano: Achou ele aonde, lá dentro do Banco do Brasil?

Lucia: Dentro do Banco do Brasil. Sim.

Luciano: Trabalhando lá também, então ficou o casal lá dentro. Legal.

Lucia: Isso. Exatamente.

Luciano: E aí, mas a transferência era sua e você carregou ele com você?

Lucia: Sim. Na verdade, foi uma coincidência, ofereceram um cargo para ele também, independente comigo, então nós dois fomos com cargos lá.

Luciano: Então juntou a fome com a vontade de comer.

Lucia: Isso.

Luciano: Brasília?

Lucia: Brasília, 12 anos moramos em Brasília. E sinto muitas saudades de lá, foram anos maravilhosos. E aí chegou uma hora que o serviço começou a terceirizar, o que eu gostava de fazer já não era valorizado. Programação não era mais uma coisa tão valorizada.

Luciano: Com que idade você estava?

Lucia: 40 e…

Luciano: É, você já tinha cruzado o Cabo da Boa Esperança. É aquilo que eu digo assim, depois dos 40 muda tudo. Eu sempre brinco aqui, vou repetir com você, mulher eu não sei como é que é, mas o homem, a bolsa escrotal perde a elasticidade e ele não tem mais saco, entendeu? Depois dos 40 acaba o saco, você não tem mais saco para discutir de novo, ouvir um idiota falando bobagem na tua frente. Cara, não tenho mais saco. E aí o trabalho que então eu dava tudo, eu ia para cima e brigava, fazia questão com 30 anos de idade, aos 40 você fala, cara, não tem mais sentido ficar discutindo.

Lucia: Exatamente, é isso mesmo. Exatamente, a gente começa a ver outros valores. E o serviço que eu fazia começou a ser desvalorizado, não era mais serviço nobre. O serviço nobre era participar de reunião e escrever ata, que era uma coisa que eu não gostava. E eu comecei a dar aula de linguagem de programação e peguei um grupo.

Luciano: A convite de alguém?

Lucia: Lá do banco mesmo.

Luciano: No próprio banco.

Lucia: No próprio banco. E tinha pessoas com necessidades especiais. Eu dava aula para pessoas com deficiência de visão. E foi uma experiência incrível, eu achei uma experiência muito boa estar lidando com aquelas pessoas. A dificuldade delas era uma coisa muito engraçada, porque eu ia dando aula e falava “olha, aqui está errado, você está vendo que aqui está errado?” Claro que ele não está vendo, mas a gente…

Luciano: Mas até a gente pegar a embocadura, eu sei o que você está falando.

Lucia: E eles morriam de rir, eles davam risada, porque o jeito que a gente fala, nosso jeito de falar já é errado. E eu gostei demais dessa experiência. E antes de ir para Brasília, eu já tinha começado a fazer faculdade de psicologia, porque me deu vontade de fazer, mas não era nada ainda, falei vou estudar psicologia, eu gosto e tal. Mas quando comecei a trabalhar com essas pessoas, despertou esse lado em mim. Falei eu quero trabalhar com gente, não quero mais trabalhar com dados.

Luciano: Quer dizer, você que era de exatas, era cálculo, era lógica, era um mais um dava dois, não tinha por onde, ia migrar de lado. O que foi isso aí, como é que é? Deus abriu uma janela e falou “Alô, Lucia, muda o mindset”, o que foi?

Lucia: Não sei te explicar. Parece assim que os dados começaram a me cansar um pouco, tipo as pessoas em computação conversam com if then else, ou é preto ou é branco.

Luciano: O que é if then else?

Lucia: Se senão, ou é isso ou é aquilo. Na computação, você não tem por onde escapar, você não fala é meio branco, é meio preto. Ou é preto ou é branco e é tudo muito bom, porque é tudo muito lógico. Só que chega uma hora que você fala eu quero nuance, eu não quero mais ficar só nesse lugar certinho, nessa certeza da vida, eu quero incerteza, eu quero buscar outras coisas, eu quero a complexidade da mente humana. Eu queria a complexidade da mente humana: por que as pessoas são assim, por que elas agem dessa forma? E eu conversava muito, sempre fui muito expansiva, sempre conversei muito com as pessoas, para mim a interação com as pessoas era mais importante do que qualquer outra coisa. Então eu vi muito sofrimento, eu vi muita coisa que eu não conseguia explicar. E eu pensei, cansei de lidar com dados, vou lidar com gente. Larguei o Banco do Brasil pela segunda vez.

Luciano: Pediu para sair?

Lucia: Pedi.

Luciano: Estava com quanto tempo de casa, 15 anos de casa?

Lucia: 20 anos.

Luciano: 20 anos de casa de Banco de Brasil. Aos 40…

Lucia: 48, mais ou menos.

Luciano: Aos 48 anos de idade, depois de 20 anos de Banco do Brasil, você resolve que vai sair.

Lucia: Resolvi que não queria mais. Voltei para São Paulo. Nessa época, o meu marido já tinha entrado no Bacen, ele já era funcionário do Bacen, então ele conseguiu transferência para cá. Eu voltei para cá, voltei para a faculdade de psicologia e aí, pronto, não parei mais.

Luciano: Como é que foi você chegar um dia para o seu marido, como é o nome dele?

Lucia: Cláudio.

Luciano: Falar Cláudio, eu queria falar uma coisa para você, senta aí… eu vou sair do Banco do Brasil, o que você acha? Como é que foi isso? Como é que foi esse processo?

Lucia: Ele aceitou numa boa.

Luciano: Numa boa? Mas você não dividiu com ele que está chegando a hora, eu vou cair fora.

Lucia: Sim. Sim.

Luciano: Eu estou pensando em sair.

Lucia: A gente já discutia isso fazia bastante tempo.

Luciano: E ele deu suporte a você?

Lucia: Deu. Deu todo o suporte.

Luciano: Legal.

Lucia: Ele está bem acostumado comigo já, ele já sabe que a vida comigo, ele fala que pode ser qualquer coisa, menos monótona, porque é sempre uma novidade, sempre uma surpresa, ele já sabe que ele não pode esperar nada de mim.

Luciano: Você sabe que é fundamental ter alguém assim do seu lado, porque você fica imaginando essa vida louca como essa sem ter um suporte de alguém. E quando você acha alguém que dá o suporte assim, isso é fundamental, torna tudo muito mais fácil.

Lucia: Exatamente.

Luciano: É tudo muito mais fácil.

Lucia: Exatamente.

Luciano: Mas aí você volta para São Paulo então com ele e sem emprego.

Lucia: Sem emprego.

Luciano: E vem para estudar psicologia?

Lucia: Psicologia. Sem emprego, sem nada, só estudando. Aí terminei a faculdade e em seguida fui fazer o curso de neuropsicologia, fui me especializar em neuropsicologia, porque é a área do cérebro que eu sou apaixonada.

Luciano: Mas você descobre isso durante o curso?

Lucia: Durante o curso. Descobri isso lendo aquele livro do Oliver Sacks, O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu. Eu li aquele livro e fiquei apaixonada. Falei neuropsicologia, é esse o caminho que eu quero. E aí eu fiz no INESP.

Luciano: Fala desse livro aqui, que o povo aqui é louco para…

Lucia: Oliver Sacks?

Luciano: É.

Lucia: O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu. Ele é um médico e trabalha com essa parte da neurocirurgia. E ele explica, é muito interessante, esse livro eu acho que todo mundo tinha que ler para entender como o ser humano é interessante e como a gente tem sorte de ter tudo funcionando bem, porque um detalhe faz toda a diferença. Então tem a história do rapaz que tem aquela síndrome de Korsakoff, que você depois de um minuto não lembra de mais nada, você não tem mais presente, você tem o passado, mas você não tem mais presente, não tem mais futuro. Então é uma coisa terrível.

Luciano: Ou você tem o presente e o futuro, não tem o passado? Você esquece tudo?

Lucia: Não, esse você se lembra. Por exemplo, o rapaz ele ficou eternamente com 20 anos.

Luciano: E dali para a frente ele não processa mais nada?

Lucia: Não processa mais nada, ele tem 20 anos até o fim da vida. Até uma hora que ele se olha no espelho, que ele vê aquele senhor idoso e começa a chorar, porque ele não é aquilo.

Luciano: Isso está no livro?

Lucia: Sim. Esse livro é fantástico. Então ele conta várias histórias. Essa do homem que confundiu a mulher com um chapéu, ele tinha agnosia. Ele tinha um problema visual, então ele não conseguia enxergar direito… Ele enxergava direito, ele não processava direito no cérebro. Então ele viu a cabeça da mulher e ele foi pegar a cabeça da mulher, achando que fosse um chapéu. Então são histórias muito interessantes e quando eu li eu me apaixonei.

Luciano: Vou seguir por esse caminho, aí você fez um curso de neuropsicologia.

Lucia: E agora eu me formei em reabilitação cognitiva.

Luciano: Então, mas você se forma na psicologia?

Lucia: Sim.

Luciano: Depois faz o curso, que é uma especialização, uma coisa assim.

Lucia: Isso.

Luciano: E aí? Vou trabalhar com isso?

Lucia: Vou trabalhar com isso.

Luciano: Vou abrir um consultório, vou fazer o quê? O que você resolveu que vai fazer?

Lucia: Aí eu aluguei uma sala e comecei a atender as pessoas.

Luciano: Clinicando?

Lucia: Clinicando. E comecei a escrever os livros. Paralelamente, quando eu terminei a faculdade, eu já comecei a lançar meus livros, comecei a escrever. Primeiro eu escrevi um livro que chama Você me Conhece, que é um livro bem de psicologia mesmo, onde eu analiso diversas personalidades. Então sabe quando você conhece uma pessoa e você fala, nossa, parece que eu já conheci essa pessoa antes? Conheço uma pessoa muito parecida. Minha vizinha é assim, minha sobrinha é assim, não é? Eu percebi que tem um grupo, não querendo generalizar, mas tem certas características que as pessoas têm em comum e que transformam, fazem delas um padrão e que parece que você já as conheceu antes. Então eu pego esse grupo de características, junto numa pessoa só e falo dessa pessoa. Então eu não estou falando de nenhuma pessoa em particular.

Luciano: Você está falando de um comportamento, um conjunto de hábitos e comportamentos que determinam.

Lucia: Isso. E aí eu tento analisar com base na psicologia. Então por que essa pessoa age assim? Então tem aquele cara que é o máximo, ele conquista todas as mulheres, ele é demais, nada dá errado na vida dele.

Luciano: Em Bauru, a gente diz que é o fodão.

Lucia: Isso [riso]. Então ele está no meu livro. Tem a mulher que é a fatal, ela conquista todos, ela é aquela mulher vamp, que todo mundo gosta dela, ela sempre recebe um presente.

Luciano: Não dá para dizer que é fodona, porque fica feio, entendeu? Então você está vendo como… como é que? Olha o mansplaining aqui, olha eu entrando, meu Deus do céu, mas entendi.

Lucia: Tem aquela que é muito boazinha.

Luciano: Mas então deixa eu falar do teu business, teu negócio. Você então pega na mão o certificado. Vou ganhar a minha vida agora montando o meu próprio consultório. Ou seja, você remeteu ao seu pai lá atrás, vou fazer o que o meu pai fazia. Tenho o meu próprio consultório e estou aqui. O livro surge como o quê? É uma necessidade de eu me expressar, é um jeito de eu ganhar dinheiro ou é uma forma de eu ficar conhecida, o que é o livro?

Lucia: É uma necessidade de eu me expressar. É eu querer passar para o mundo alguma coisa minha. Eu querer deixar no mundo uma experiência minha.

Luciano: E você começou a escrever já com 40 e pancada?

Lucia: Sim.

Luciano: Já tinha mais de 40?

Lucia: Sim, já.

Luciano: E a aventura de você descobrir que escrever um livro é a parte mais fácil do processo?

Lucia: É, realmente.

Luciano: Sentar e escrever o livro é moleza.

Lucia: A mais fácil e a mais gostosa.

Luciano: É moleza. E depois para transformar aquilo… é um terror.

Lucia: Depois é um terror. Aí eu escrevi então dois livros, lancei e então eu falei, vou escrever o terceiro. Comecei a escrever o terceiro. Eu já estava fazendo neuropsicologia na época e apareceu um transtorno ali no meu terceiro livro. Falei, que interessante, vou explorar esse transtorno. Aí comecei a escrever o outro livro.

Luciano: Espera aí, como que aparece um transtorno?

Lucia: A minha personagem principal apresenta…

Luciano: Era um romance que você estava escrevendo?

Lucia: Era um romance.

Luciano: Ah, então você saiu do técnico e foi se aventurar em escrever um romance. Sabe que eu não tive coragem até hoje?

Lucia: Não?

Luciano: Não. Eu não tive coragem de pegar e falar vou sentar para escrever uma história com um cara… Não, eu não consegui. Eu escrevi oito livros e todos eles são livros, não vou dizer que é técnico, mas livros de análise, de opinião. Mas assim de sentar e falar vou criar personagens, até hoje eu não tive coragem de começar.

Lucia: É, eu queria escrever uma história bonita.

Luciano: Isso é a atriz lá de trás, você vai se colocar no lugar de alguém e vai criar personagens ali, só que em vez de estar no palco, você está escrevendo.

Lucia: Isso. Exatamente. Eu estou me expressando através da escrita. E surge um transtorno na minha personagem principal. Aí escrevi o livro, terminou, muito bem.

Luciano: Desculpe, mas como é que surge o transtorno? Se você é Deus, você está criando o personagem, você diz o que ele faz, como é que ele se veste, como é que aparece um transtorno, da onde vem? Lúcifer chegou e jogou ali?

Lucia: De mim. A minha cabeça.

Luciano: Vou botar um “migué” na cabeça?

Lucia: É, sabe assim, é aquela coisa de musa. Não tem a musa, que você está pintando o quadro e ela vai falando o que você tem que fazer? Era uma musa na minha cabeça ali, não sei se mulher pode ter musa também, ou se é só homem.

Luciano: Acho que musa… hoje em dia, do jeito que está vai, é muso, é musa, musatrans, está tudo valendo.

Lucia: Então parece que alguém pegou a minha mão e foi escrevendo e aquela mulher foi se modificando aos meus olhos. Eu percebi a transformação nela, conforme a história, conforme eu ia contando a história era como se estivesse fora de mim, eu estava criando um monstro, vamos dizer assim e eu não consegui fazer nada para parar e a história foi assim até o fim. E eu achei interessante, falei gostei desse livro. Comecei a escrever outro e o que a minha musa fez? Começou a criar outro transtorno para a minha segunda protagonista. Falei, ôpa, está surgindo um outro transtorno aí. Eu estou indo na mesma direção que o outro. E aí me veio a ideia, eu vou escrever dez livros e vou chamar a coleção de dezequilíbrios, com z. Vão ser dez livros falando de desequilíbrios, de transtornos mentais. Cada personagem meu vai ter um transtorno mental, tudo em forma de romance, suspense, não é nada técnico, é uma leitura leve, uma leitura fácil, é um romance bem gostoso, mas eu vou ensinar alguma coisa de psicologia.

Luciano: Você está passando conceito de psicologia e tudo o mais em torno desse transtorno.

Lucia: Exatamente. Então os meus dez livros, cada um deles vai ter um transtorno, onde eu vou desmistificar muita coisa que as pessoas não entendem, onde eu vou falar de transtornos que são desconhecidos, que as pessoas não têm ideia que eles existam, às vezes, até já ouviu falar, mas não sabe o que é.

Luciano: Dá um exemplo.

Lucia: Ah, mas aí eu estrago a surpresa!

Luciano: Pode ser genérico.

Lucia: Bom, vou falar de um transtorno, que aí esse de cara você já sabe o que é.

Luciano: E não vai dar spoiler.

Lucia: É. A depressão.

Luciano: Esse está na ordem do dia.

Lucia: Isso. Então um dos transtornos é a depressão. Porque assim, a graça do livro é você chegar no fim do livro e descobrir qual é o transtorno da pessoa e como tem suspense, dependendo do transtorno, você realmente só vai descobrir no fim. Mas a depressão tudo bem, porque logo no começo a moça já aparece com todos os sintomas, então esse não tem problema você saber. Você, quando eu digo você, eu digo…

Luciano: Quantos livros já foram, dos dez?

Lucia: Então, já publiquei seis.

Luciano: Poxa, 60% já foi. E olha que é um desafio no Brasil. Continuar fazendo livro aqui é complicado. Você continua com a clínica?

Lucia: Continuo.

Luciano: Então você é uma profissional de psicologia que está praticando.

Lucia: Isso.

Luciano: Muito bem. Eu não posso me furtar a fazer algumas perguntinhas de curiosidade, porque eu não me lembro quantas vezes eu conversei aqui com alguém da área de psicologia que está clinicando, “ex” eu já falei, que está com outras coisas, mas clinicando eu não me lembro. O Brasil está estranho, o país está complicado. A gente passou por um período agora de eleições que acho que tiraram a tampa, eu não sei. Quem assistiu aquele filme Constantine, com Keanu Reaves, vai lembrar da cena que é quando ele está andando na rua, ele acende um isqueiro, ilumina o céu e todos os demônios do céu estão em volta dele para pular em cima dele. Parece que foi isso que aconteceu com o Brasil, alguém acendeu a luz, destampou e todos os demônios saíram. Então é pai brigando com filho, filho com a mãe, irmão com irmão e vizinho com vizinho, quebrou o pau, esse país aqui ficou uma loucura. Tem de um lado uma crise econômica que já dura um tremendo tempo, bastante tempo. De outro lado, uma crise ética, moral e ética, que o Brasil afundou nessa crise. E no meio disso tudo as consequências, desemprego, mídias sociais com todo mundo xingando todo mundo, então a estima do brasileiro cai lá para baixo. Isso se reflete no teu consultório? Você consegue enxergar que há uma demanda maior por gente procurando?

Lucia: Sim, eu percebo na minha prática as pessoas um pouco perdidas, de uma forma que a gente não via antigamente. É como se os valores tivessem mudado e as pessoas não sabem mais a que se apegar. Então parece que elas estão se apegando a coisas assim que a gente não consegue entender muito bem onde que essa pessoa está querendo chegar com isso, por que ela está indo por esse caminho? Parece assim, não é só a situação política do Brasil, parece que a situação das redes sociais.

Luciano: É a sociedade como um todo.

Lucia: É, onde todo mundo é feliz no Facebook, não importa como a tua vida está, mas no Facebook você tem que ser feliz. Então é gente que briga com o namorado, que está quase para terminar, mas no Facebook, “seis meses de namoro, meu amor, como eu te adoro” e aquelas coisas de contos de fadas. Parece que as pessoas estão… a gente tem uma necessidade já nossa de nos mostrar bem. Com as redes sociais, eu acho que isso chegou num nível muito alto. Parece assim, puxa, está todo mundo se dando bem, só eu que não? Como é que eu posso reverter essa situação? Ah, não, deixa eu tirar uma foto minha comendo aqui no shopping, vou colocar a foto lá no Facebook. Então parece que as pessoas estão se agarrando muito mais hoje às aparências do que era antigamente. Parece que hoje viver de aparência é a coisa mais importante que tem.

Luciano: Se você for no Instagram então é o cúmulo. O Instagram é o cúmulo. E você está falando uma coisa interessante, que antigamente, pré-mídias sociais, o que você tinha? Você tinha essa coisa, a Revista Caras. Era na Revista Caras que estava lá o desbunde, o rico, estava na televisão, você via no cinema alguma coisa. Você não tinha o acesso tipo assim é o meu vizinho que eu estou vendo aqui.

Lucia: Isso!

Luciano: E é um cara igualzinho a mim que está ali esnobando coisa que eu não tenho aqui.

Lucia: Isso!

Luciano: Antigamente era um artista, era alguém que estava longe, agora não. Agora é um mané igual a mim que aparece lá com um carro melhor que o meu.

Lucia: Que está muito melhor do que você.

Luciano: Com uma mulher mais bonita que a minha, viajando mais do que eu. Eu olho para aquilo tudo, falo, cara essas coisas estão acontecendo em volta de mim e isso talvez possa trazer algum tipo de ansiedade. Você não acha que a gente está com problema de falta de referências?

Lucia: Eu acho.

Luciano: Os pais desapareceram, sumiram os pais. Eu não tenho pai para me… Eu estou escrevendo um programa que vai ao ar agora, começo de janeiro, chama-se Father Hunger, fome pelo pai e a tese que é descrita ali é um negócio muito interessante, que eu falo sobre a história, o que aconteceu com a paternidade. Você vem até a Revolução Industrial, o pai era um cara que estava dentro de casa, caçando junto com o filho, plantando, pescando, protegendo a família, o tempo todo em casa, então havia uma permanência. Quando vem a Revolução Industrial, o pai sai de casa para trabalhar e volta à noite, há uma mudança completa, então aquela figura onipresente, que ensinava ao filho o que era ser pai desaparece e passa a existir alguém que sai de casa de manhã e volta de noite. Então ele não tem mais as obrigações que ele tinha, da paternidade dentro de casa, agora a obrigação dele é trazer comida e dinheiro para dentro de casa. E ele não é mais avaliado pela sociedade pela capacidade de ser um bom pai, que está ensinando, agora é pelo sucesso que ele tem no trabalho. E, de repente, ele passa a ser o trabalho dele, ele não é mais o pai e essa coisa vai crescendo de tal forma que uma geração nova começa a surgir de filhos que têm o pai ausente. E o ausente não é o ausente de não existir, o pai existe, ele está lá, só que ele não tem mais a presença que o avô dele teve, que o pai do pai dele teve. E isso gera uma geração de adolescentes que vão ficar adolescentes para o resto da vista, à procura, cadê aquela figura que saiu de perto de mim? Você não acha que uma boa parte do que está acontecendo no Brasil é a gente ter perdido referências e não ter mais para onde olhar e falar puxa, é ali que eu vou seguir?

Lucia: Com certeza. Com certeza. A família perdeu muito porque hoje em dia o que acontece, não criticando os pais que trabalham fora, de jeito nenhum, mas é uma realidade.

Luciano: Você não tem o que fazer, vai fazer o quê? Qual é a alternativa? É assim que a sociedade existe, uma mudança não tem como evitar.

Lucia: Pois é, não tem como. Então hoje pai e mãe trabalham fora o dia inteiro, os filhos ficam na escola, ficam com babá, têm atividades o dia inteirinho. Aquela coisa nossa de brincar, quando a gente era criança, não existe mais. Hoje brincar é ficar na frente do celular, isso é o brincar, mas a criança hoje vai para natação, vai para o inglês, vai para o judô, ela não tem mais aquele tempo só para ela, aquele tempo de não fazer nada.

Luciano: Deixe fazer uma pausa aqui, porque tem gente aí com o dedo coçando para mandar mensagem aí, para xingar nós dois. Eu estou ouvindo o barulho aqui da respiração do cara, desesperado para mandar um e-mail, xingando nós dois aqui. Nós não estamos generalizando. A gente está falando de uma ideia, como é que vou dizer, não é todo mundo que pode ter o filho com 16 atividades, porque não tem dinheiro para pagar 16 atividades. Não é todo mundo que o pai e a mãe trabalham fora. O que a gente está falando é de um extrato da sociedade, que é aquele que está visível, que é aquele que convive com a gente, que está perto de nós aqui. Eu não estou falando de um cara que está lá dentro da favela, vivendo uma vida que não tem nada a ver com a minha. Eu estou falando de coisas que eu consigo enxergar, está perto de mim aqui. E que, de certa forma, se repete quando eu olho em volta, eu tenho muitos amigos que estão assim. E aí começa a aparecer, porque até então era um ou outro, agora, não, agora é tudo assim. E quanto mais jovem for, mais complicado fica, porque ficam juntos menos tempo, casa e descasa com uma facilidade gigantesca. Não tem essa história de vou arrumar uma carreira, vou fazer uma carreira no Banco do Brasil de 20, 30 anos. Não, cara, eu vou onde der, a hora que doer, eu largo e troco. Vou me juntar com você, se me encher o saco, amanhã eu troco. E tomo decisões na dor do momento, não tem aquela decisão pensada como alguém da geração nossa, que espera aí, eu estou entendendo que é uma dor do momento, mas eu tenho todo um compromisso que eu assumi lá atrás e que é maior do que a dor do momento, então eu não posso desistir de tudo pela dor que eu sinto agora, eu tenho que dar um jeito de extrapolar isso e levar adiante. Você encontra gente da nossa idade casado há 10, 15, 20, 30, 40, 50 anos, não é? A garotada nova olha para isso aí, fala meu Deus do céu.

Lucia: Eles não acreditam.

Luciano: Eu vou aguentar essa mulher 50 anos? Há uma disposição diferente aí. Desculpa, eu te cortei. Eu sei o que vai vir. Eu já sei o que vai vir de comentário.

Lucia: Não, a questão é: não é uma crítica. Eu sempre gostei de trabalhar fora, eu sempre quis trabalhar fora, então não é uma crítica. Só que o que acontece, hoje em dia, como os pais não têm tempo de ficar com os filhos, eles têm que dar coisas materiais para compensar. Então, hoje em dia é o ter que é o importante, não mais o ser.

Luciano: Você não tem filhos?

Lucia: Eu não tenho.

Luciano: Foi uma escolha? Foi um acidente da natureza, o que foi?

Lucia: Foi uma escolha.

Luciano: É? Por que você escolheu não ter filho?

Lucia: Eu achei que eu não ia ser uma boa mãe. Eu me achava muito egoísta, muito individualista. Eu queria ter a minha vida, eu queria ter a minha carreira. Provavelmente, se eu tivesse filhos eu pararia de trabalhar e eu não queria. Então não sei se foi a melhor decisão do mundo.

Luciano: Se arrepende dessa decisão?

Lucia: Não me arrependo. Eu às vezes imagino como a minha vida poderia ter sido diferente, mas como o se não existe.

Luciano: Seus amigos têm filhos?

Lucia: Alguns sim, alguns não.

Luciano: Também na tua idade, escolheram também não ter.

Lucia: Escolheram não ter.

Luciano: Tem uma discussão gigante da sociedade, das mulheres que não querem ser mães. Uma parte dizendo que é um absurdo, outra parte dizendo que é assim mesmo que tem que ser. E tudo se extrapola aqui, não tem mais nenhuma discussão que você chega assim vamos trocar uma ideia. Não, já sai na porrada. Então eu tenho visto isso de montão.

Lucia: Então, é o preto ou o branco. Ou é certo, ou é errado.

Luciano: E se você não concorda comigo, você está na ala dos bandidos, então eu não vou nem analisar o mérito da tua opinião, porque se ela vem contra a minha, ela não serve, não presta, eu não quero nem saber.

Lucia: Tem muita gente que diz que eu não sou feliz, porque eu não tive filhos, então já me julgaram, já me condenaram. Eu não sei, eu acredito que eu seja feliz, mas eu seria mais feliz com filhos? Não sei. Jamais vou saber.

Luciano: Seu marido, tudo bem?

Lucia: Ele está ótimo com essa decisão. Ele não queria tanto assim. Ele falou não, está tão bom assim. Acho que nós somos dois egoístas, para dizer a verdade.

Luciano: Pode ser, de novo, se… Eu tive meus dois filhos. Tive dois filhos, feliz da vida, que legal, saíram duas figuras que amos os dois, maravilha. E se não tivesse tido, eu não sei o que teria acontecido, mas o fato de ter os dois joga a tua vida numa direção totalmente diferente daquela que, se eu não tivesse tido, teria acontecido outra coisa. Mas também não dá para julgar, não consigo julgar. Meu filho agora está com 34 anos e já virou para nós e já falou pode esquecer, que neto aí tão cedo não vem, não. Minha filha quer, meu filho, não e não está nem aí.

E aí você olha, aconteceu um fenômeno na minha família. Eu venho de uma família grande, avô e avó com todos os tios, sobrinhos em volta, aquele natal gigantesco com 30, 40 pessoas na casa do vô e da vó. Aquela infância, aquele natal maravilhoso, aquela baita molecada, era uma festa. Hoje em dia, a minha família é um núcleo menor só de adulto, não tem uma criança. O mais novo tem 27 anos, o mais novo, dali para a frente são todos mais velhos. O mais velho tem oitenta e poucos. E não tem uma criança na família, sendo que tem quatro ali, duas meninas e dois meninos que com a idade deles eu já tinha filho mesmo, todo mundo já tinha filho. E virou uma família que no natal não tem criança. E a gente se reúne no natal e não tem criança. Então, para quem viveu os natais que eu vivi quando era criança, olhar para isso agora, falar cara, eu estou aqui com 62 anos de idade, não tenho neto, meu natal não tem criança e eu não sei quanto tempo vai levar para ter, talvez quando chegar a criança, eu já vou estar muito velho para curtir. E aí de vez em quando dá um nó na cabeça, mas é uma realidade nova. Eu costumo dizer que esse mundo não é mais meu, é deles. É um mundo que eles estão construindo, eu já passei dele aí.

Como é que essas coisas se refletem no teu consultório? Você está lá, bate alguém na porta e fala doutora, eu vim aqui… se for num ginecologista, eu sei o que acontece, levo minha mulher, ela vai lá, ela vai dizer o que ela sentindo. Eu vou num urologista, é igual, vou ver a barriga, é tudo igual. Quando eu chego num psicólogo, não é uma dor na cabeça, não estou com dor no olho, dor na cabeça, não estou com tremura. Eu estou com algo que eu não consigo entender o que é. Como é que alguém senta na tua frente e você olha para ele e você não pode dizer que é virose? Como é que é essa relação? Senta alguém na tua frente com algo que ela não sabe o que é, mas ela sabe que precisa de ajuda. Não tem certeza absoluta se é você, podia ser o pastor, podia ser o pai de santo, mas ela veio num psicólogo. Como é que é isso, essa relação?

Lucia: Eu costumo dizer que é uma relação linda de um quebra-cabeças, porque quando a pessoa aparece na tua frente, é um quebra-cabeças todo desmontado. Tem um monte de peça que você não sabe onde vai se encaixar. Você não sabe que figura que vai sair de lá, você não sabe nada. E aí você começa um trabalho de formiguinha, com muita paciência, com muita consideração, com muita empatia e vai tentando pegar as pecinhas, vai tentando montar. A hora que você consegue montar é uma sensação tão incrível. Quando você começa a ver a figura surgindo. Quando você começa a ver, nossa, é isso… é isso que está acontecendo na vida dessa pessoa.

Luciano: Mas isso leva tempo, não leva?

Lucia: Leva tempo, claro, precisa ter paciência para fazer terapia.

Luciano: A pessoa que está com você na terapia não tem consciência de que isso não é o resultado de curto prazo. Ela vai e sai de lá meio igual. Ela vai ter que ter paciência durante um bom tempo, para lá na frente esse resultado aparecer, que não é que eu tomei o remédio e passou minha dor, não é assim, não é?

Lucia: Não. Então, tem algumas terapias, não é que tem algumas terapias… Às vezes, a pessoa está com um problema imediato, que você consegue resolver aquele problema pontual. A pessoa não consegue andar de avião e o trabalho dela exige que ela ande de avião e ela não consegue andar de avião.

Luciano: Ela te procurou para resolver uma fobia. Ela tem uma fobia.

Lucia: Isso, você tem que resolver isso. Você não pode ficar cinco anos para ver o passado da pessoa, para descobrir por que a pessoa… você tem que ser meio rápido ali. Mas esse é um problema pontual. Agora, o que é que vem por trás disso, aí é mais demorado. Então tem problema, principalmente com a terapia cognitiva e comportamental, você consegue ser um pouco mais rápido, você consegue ir direto no problema da pessoa e vamos resolver isso aqui primeiro, a gente resolve, tira você dessa angústia, depois a gente vai ver, mais para a frente, depois a gente vai com mais calma. E existem outras terapias que aí, não, já vamos começar devagar e vamos devagar mesmo.

Luciano: Você trabalha com criança também?

Lucia: Trabalho.

Luciano: Essa questão do déficit de atenção, da hiperatividade. Na nossa época tinha outros nomes, era outra coisa. Hoje em dia, tudo tem uma sigla, tem um nome complicado. É impressão minha, ou isso aumentou muito? Você tem muito mais pacientes crianças precisando de ajuda desse tipo do que tinha na nossa época?

Lucia: Olha, na nossa época não era muito conhecido, então é meio difícil a gente…

Luciano: Não é que não existia o problema.

Lucia: Não é que não existia, é que a gente não… então é difícil falar na nossa época não tinha. De repente, tinha do mesmo jeito que tem hoje, só que não era conhecido, então as pessoas não tratavam da mesma forma que a gente trata hoje. Então, por exemplo, eu acabei de me formar em reabilitação cognitiva. Então a gente aprende muito sobre o que é, por exemplo, o TDAH, que é a pessoa, ah, não consegue prestar atenção, não sei o que. Essas crianças eram consideradas burras, porque elas tinham dificuldade em ir bem na escola, elas tinham problema de aprendizagem.

Então lá na nossa época quantas crianças, quantos coleguinhas nossos que a gente não teve que, aí, aquele é burrinho, não adianta, ele não consegue aprender. Hoje, você não fala isso, de jeito nenhum. As crianças não são burras. Ela tem uma dificuldade por n motivos. Então o TDAH, esse é um mito. Eu gosto de desmistificar, porque a criança, o adolescente com TDAH não é de modo algum menos inteligente, de modo algum. Só tem um problema de focar a atenção. Não é nem que não presta atenção, não, presta, sim, só que presta a atenção em tudo, então não consegue focar a atenção em nada. Então fica difícil você aprender, se você não presta atenção, você não guarda na memória, se você não guarda na memória, você não lembra, então fica muito difícil você aprender. Mas de burras elas não têm nada. Só que a gente sabe, na nossa época, o quanto que as crianças foram estigmatizadas por não conseguirem aprender. Então não dá para a gente falar, hoje tem mais, hoje tem menos. Eu acredito até que às vezes as pessoas se aproveitam de títulos para justificar alguma atitude do filho.

Luciano: Eu concordo plenamente, na medida em que você consegue estabelecer ali um rótulo e classificar no rótulo, bom, até minha angústia passou. Eu não sei o que o moleque tem, agora botou no rótulo, acabou. Minha mãe dizia que eu era neurastênico, quando eu era moleque. Eu, o que é neurastênico? Fui olhar no dicionário, é um cara nervoso, não sei o que. Devia ter um déficit qualquer. Devo ter até hoje, mas na época não tinha nada disso, então eu era um neurastênico ali.

Fala uma coisa, isso aqui é um programa de liderança e empreendedorismo, essa tua função que você faz como psicóloga, vamos tentar levar isso para dentro do ambiente de trabalho, o ambiente da corporação, aquele ambiente onde eu, quando eu entro na empresa e boto minha gravata, estou lá dentro da empresa, eu sou uma outra persona, eu não posso ser aquilo que eu sou na rua. Tanto que está dando rolo para todo lado, porque a pessoa é uma coisa lá dentro, na mídia social é outra.

Lucia: Isso.

Luciano: Bota um negócio na mídia social que explode na empresa, gente perdendo emprego, é uma confusão gigantesca aquilo lá. E eu não gosto de usar muito essa palavra, porque quem sofre disso acha um horror, mas é quase que a sociedade te obriga a uma esquizofrenia. Das 8h às 18h eu sou uma coisa e o resto do tempo, eu sou outra coisa. Eu tenho que viver essas duas realidades separadas, eu não posso muito bem ser um ou outro, eu tenho que separar. Então eu sou obrigado a viver essa dupla personalidade no meu dia a dia.

Eu não acho que isso aí aconteça à revelia de algum problema, acaba dando um tilt, em algum momento vai dar um tilt. Quando você cruza isso, se você não estiver bem centrado, você mistura o canal. Eu vou tentar levar para a minha casa o que eu sou na empresa, o trabalho que eu tenho na empresa e vou tentar levar para a empresa aquilo que eu sou em casa. Então chega um garoto de 20 anos que você contrata, ele chega na empresa para trabalhar achando que aquilo é a casa dele. Então se o papai não me deu, mamãe não me deu, se não for agora eu vou ficar bravo, não é assim que eu quero, estou melindrado, cadê as coisas na hora certa? Mãe, traz o papel, cadê a toalha, aquelas coisas todas ele acaba arrastando para a empresa e aí vai dar um nó sem tamanho, porque a empresa não vai fazer isso por ele. Da mesma forma como um pai que trabalha desesperadamente. A mãe que leva trabalho para casa, chega lá no computador e abre, está levando para dentro de casa a realidade daquele escritório onde ela trabalha e o filho está vendo aquilo. Cara, ele vai olhar, isso é que é trabalhar? Isso é que a mamãe faz? Fica o dia inteiro e de noite ainda vem e traz essa coisinha. Então tem uma mistureba complicada aí que é muito diferente do que era quando eu era criança. Meu pai ia para almoçar meio-dia, ficava até duas horas da tarde deitado na cama, descansando, duas horas ele retomava e ia até o final da tarde. Não tinha essa paúra da gente estar aqui conversando e o celular aqui do lado. Eu estou trabalhando, à noite eu vou estar trabalhando. Eu estou conectado, eu estou agitando, estou fazendo tudo ao mesmo tempo agora. Havia uma outra divisão muito clara, hoje não tem mais, está muito misturado. Você enxerga isso? Eu estou falando bobagem, ou isso tem a ver e você está recebendo gente com essa confusão de mistura, que não sabe para que lado ir? Como é que é?

Lucia: Constantemente, porque realmente a gente não tem só duas personalidades, na verdade, a gente tem várias. A gente usa máscara, não no mau sentido, mas é uma coisa necessária para a nossa vida, mas a gente usa essa máscara em todos os lugares que a gente vai. E essa máscara, ela serve para te proteger. É exatamente o que você falou, eu chego no trabalho, eu não vou agir no trabalho que nem eu ajo na minha casa. O ambiente é diferente, eu tenho que saber me comportar de acordo com o ambiente. Do mesmo jeito, você vai agir de uma forma diferente com os teus amigos, com os teus parentes, numa reunião de Rotary, por exemplo. Cada situação vai exigir uma máscara diferente. Agora, existe o perigo de você se confundir com a máscara, que é aquela pessoa que fala “você sabe com quem você está falando?” A pessoa está se confundindo com a máscara dela. Ela está se confundindo com o cargo dela, ela está se confundindo com o dinheiro que ela tem. Nada daquilo é ela. Ela está fazendo uma confusão. E existe o perigo hoje de as pessoas não estarem mais sabendo fazer essa diferença, não estarem sabendo usar essa máscara de uma forma apropriada. Então, ou elas não usam e acham que podem ser as mesmas em qualquer situação, ou elas se confundem com a máscara e elas não sabem mais quem elas são. Então o problema de identidade hoje está realmente bastante sério. As pessoas não sabem mais quem elas são. As pessoas não sabem mais o que elas querem. Elas não sabem, elas estão perdidas. Parece assim que não tem rumo mais. Antigamente a gente sabia aonde a gente queria chegar.

Luciano: Então, você não acha interessante isso aí, quer dizer, esta aqui é uma sociedade onde nunca se falou tanto sobre liderança, nunca se estudou tanto liderança, nunca teve tanto workshop, tanto treinamento em liderança e o que você está dizendo para mim é que as pessoas estão perdidas, porque não têm ideia de como assumir a liderança da própria vida. Não é interessante isso? Ao mesmo tempo em que esse assunto é altamente explorado, a necessidade por ele cresce na medida em que quanto mais se explora, mais ele cresce, o que é isso? As pessoas não estão entendendo nada, ou estão ensinando errado?

Lucia: Então, o que acontece, como que eu vejo, eu vejo que hoje em dia você ser pessoa não é mais tão importante quanto você ser um homem bem-sucedido, quanto você ser um homem rico, quanto você ter todas as mulheres que você quer, entendeu? Você ser pessoa, uma pessoa decente, uma pessoa íntegra, uma pessoa honesta, você ser feliz, porque ser feliz não depende de nada externo, depende só do nosso interno. Então as pessoas estão preocupadas com a liderança no sentido de que “eu quero ter sucesso, eu quero ser uma pessoa de sucesso, eu quero aparecer na mídia, eu quero fazer e acontecer”. Mas e eu por dentro, e a minha vida, a minha felicidade, os meus valores? Como é que eu acordo de manhã todos os dias? Eu acordo feliz, ôba, que gostoso, hoje é mais um dia que eu vou viver, o que será que vai acontecer hoje? Ou eu acordo, não, hoje eu tenho que fazer isso, eu tenho que fazer aquilo, tenho que aparecer, porque eu tenho que dar resultado, porque meu chefe precisa gostar de mim porque… Então parece assim que tudo… Tudo na vida é um equilíbrio, tudo é um equilíbrio. Se você se afasta muito de um polo, você vai acabar chegando perto do outro, assim, você vai em direção a um polo, você se afasta do outro e vice-versa, não tem jeito. Então parece que hoje em dia a liderança é sucesso, a minha vida externa e as pessoas estão se esquecendo da vida interna, estão se esquecendo de serem pessoas. A gente tem que ser pessoa, a gente tem que ser gente. A gente tem que buscar a nossa felicidade, porque não tem nada mais importante nesse mundo do que a nossa felicidade.

Luciano: Eu tenho que pagar minhas contas no final do mês, tem conta de água chegando, de luz, tem comida.

Lucia: Equilíbrio, olha o equilíbrio.

Luciano: Tem meu carro, IPVA, aluguel, tem que pagar as contas.

Lucia: Sim.

Luciano: Eu preciso disso aí, eu não estou nem pensando em ser rico, milionário, eu estou pensando que no final do dia eu vou ter que pagar minhas contas.

Lucia: Mas você tem que pensar que no final do dia você tem que ter saúde. Você precisa ter saúde, senão não vai adiantar nada.

Luciano: Esse material que eu estou falando para você que eu estou terminando de montar, ele chega num momento em que a discussão fica sendo a seguinte, eu tenho que sobreviver numa sociedade que me valoriza pela minha capacidade de gerar riqueza. Então quanto mais rico, bem-sucedido e poderoso eu mostro para a sociedade que eu sou, mais eu sou bem avaliado e mais eu sou um sucesso. Se eu não for capaz disso tudo, eu sou um fracasso.

Lucia: Sim.

Luciano: E a sociedade coloca isso claramente.

Lucia: Exatamente.

Luciano: Ela valoriza aqueles lá e desvaloriza os que estão aqui. Sendo que a maioria absoluta é o pessoal que vai fracassar. Não porque seja ruim, porque poucos vão conseguir atingir aquela posição. Eu estou lá em cima, quanto mais alto eu estou, quanto mais rico eu sou, menos gente tem lá em cima. E a maioria está aqui embaixo, o que deve criar uma frustração brutal, porque eu batalho, batalho, trabalho que nem um desgraçado, no final do mês eu estou aqui, ferrado outra vez e eu sei que mês que vem vai ser outra vez, vai ser outra vez. Então, como é que eu faço para ficar são num mundo como esse, que demanda tanto de mim, eu tenho um monte de compromissos, eu tenho esposa, tenho filho, eu tenho tudo isso aqui, laços que eu criei e que eu tenho que responder isso tudo, não posso simplesmente chutar o pau da barraca, vou cuidar da minha vida, vou morar em Trancoso, na beira do mar. Não dá, não é? Eu não consigo fazer isso ainda. Como é que eu faço para ficar são?

Lucia: Então, você tem que estabelecer prioridades. Trabalhar, precisa trabalhar, precisa pagar as contas, precisa cuidar da família, precisa de tudo isso, mas até que ponto você vai? Teu filho, até que ponto você vai deixar o teu filho, para você ganhar um pouco mais no fim do mês? Ah, mas o meu filho no natal ele quer ganhar, não sei, tal coisa. Então eu vou ter que me matar agora, pegar o décimo-terceiro para comprar. Será que ele precisa mesmo daquela coisa de natal? Então, o que eu estou dizendo é assim, que são coisas pequenas, não é nada absurdo, mas é estabelecer prioridades. É você saber até onde vai o teu limite. É você saber ficar no meio, não ir nem para um lado, nem para o outro. Não é fácil e hoje em dia, a sociedade exige mesmo, é isso que você falou, ou você é um sucesso, ou você é um fracasso, não tem meio termo. E as pessoas felizes normalmente são as consideradas fracassadas [riso], vamos dizer assim.

Luciano: Outro dia eu escrevi um texto para dizer o seguinte, que as coisas mais legais que eu fiz na minha vida, aquelas que estão gravadas no meu coração, que eu me lembro que foi uma delícia, nenhuma delas dependeu de dinheiro. Claro, ah, foi uma viagem que eu fiz, mas eu não fiz aquela viagem porque eu tinha dinheiro, eu tinha um dinheirinho de nada. Era na praia com os amigos, tomando cerveja lá, não era aquela história, preciso de muita grana para fazer. Tudo aquilo que eu curti de montão eu não tinha dinheiro, eu estava duro. E depois que eu tive dinheiro fiz coisas legais, mas não foi o dinheiro que me deu aquela oportunidade, até porque se eu esperar ter dinheiro para poder usufruir, acontece como agora, eu tenho grana para poder viajar, mas minhas costas estão doendo, não consigo mais andar 16 horas, entendeu? Já me enche o saco, não vou dormir de madrugada, já não encho a cara à noite. Se eu encho a cara à noite, não dá para acordar de manhã. Não dá para jantar num restaurante maravilhoso, eu vou dormir, não consigo dormir. Então as coisas começam, com o tempo, a mudar. Mas eu fiz uma palestra… aqui é assim, é bate-papo, então eu não estou te entrevistando, estou trocando ideia com você. Eu tenho uma palestra chamada o “Ão e o “Inho”, é o nome dela.

Então o que é o “Ão”? O “Ão”  é o mainstream, o “Ão” é o lugar onde mora a Lady Gaga, o Pabllo Vittar, todo esse povo que você sabe que está aí explodindo, faz aquele barulho gigantesco, que dá muita audiência, que vende muito disco, vende muito livro, dá bilheteria no cinema. Esse pessoal está no mainstream, aquele povo fantástico lá em cima, que a gente olha aquilo fala, cara, eu também queria fazer como a Beyoncé, eu também queria estar lá. Só que estar nesse lugar tem um preço terrível a ser pago e esse preço terrível é que você perde a tua liberdade completamente. Começa com a liberdade física, quer dizer, não posso ir num shopping fazer uma compra. A Beyoncé não pode ir num shopping center fazer uma compra, ela não pode dar uma volta na rua, não pode levar o cachorro para passear, se ela fizer isso, para o quarteirão dela inteirinho, então ela perdeu liberdade naquele momento. Outra coisa que ela perde, ela não pode mais cantar a música que ela quiser, do jeito que ela quiser. Vai ter um time de gente em volta dela dizendo não é assim. Então você acaba redesenhando o teu trabalho, que muitas vezes deixa de ser aquilo que te levou até aquele lugar. Então eu sou escravo do mainstream, mas está lá, está milionário.

Na outra ponta tem o underground, o Zé, que dirige um Uber e que faz música no final de semana, que toca no boteco à noite no final de semana, que se ferra, está doido para lançar um CDzinho mas o dinheirinho dele… é um fodido, ele está no underground.

“Ão” e “Inho”. O “Ão” tem aquele problema de eu ser escravo e o “Inho” tem o problema de eu estar o dia inteiro ferrado. No meio tem o que eu chamei de meio stream. O que é? É o cara que nunca vai ter avião, que não vai ter um apartamento em Paris, que não vai ganhar um milhão por mês, que não vai ter um monte de seguidores, mas que é feliz assim, consegue viver a vida dele dignamente, consegue pagar as contas, consegue viver a vidinha dele no meio stream. Eu não preciso me tornar aquele escravo que está lá em cima e nem preciso ser o mané que está arrebentado aqui embaixo, eu posso estar no meio. E ali nessa palestra eu bato muito nessa tecla assim é possível ser feliz no meio stream.

E o que é que significa isso? É você olhar, falar, cara, quanto custa eu contratar uma assessoria de imprensa para ficar botando meu nome lá fora, porque eu tenho que ir no Bial? Será que eu tenho que ir no Bial? Será que eu tenho que estar no Bial? Será que eu preciso estar na capa da revista? Será que eu tenho que estar lá? Eu preciso mesmo disso ou é possível estabelecer um negócio e me dar bem e viver minha vida sem estar lá, sem ser reconhecido na rua?

Então acho que quando você reconhece isso e consegue determinar, você tem toda a liberdade. Eu consigo viver dignamente sem ser um milionário, mas eu preservo toda a minha liberdade de poder fazer o trabalho que eu quero, sair de casa a hora que eu quero, conviver com as pessoas numa boa, sem perder essa liberdade toda. Agora, conseguir estabelecer esse equilíbrio com a mídia te bombardeando inteiro com as mulheres do Neymar, o carro do Neymar, com as viagens do Neymar, com o Papa chamando o Neymar. Você olha aquilo tudo, cara, eu quero ser igual esse cara aí, não é? Você conseguir brecar isso aí é complicado, especialmente se você tiver 19 anos de idade, que é uma boa parte de quem escuta a gente aqui.

Lucia: Sim. Com certeza. Agora, uma coisa que eu sempre pensei muito a respeito desse negócio de fama, de sucesso, de dinheiro. Quando a gente olha, por exemplo, aquelas pessoas que aparentemente têm tudo e elas estão drogadas, elas não saem das instituições lá onde elas ficam trancafiadas, vamos dizer assim, porque estão com algum problema, ou de bebida, ou de droga, ou de qualquer outra coisa. Pessoas se matando, pessoas realmente cometendo suicídio porque a vida não tem graça. Então a gente começa a analisar, é isso mesmo que é importante? É o dinheiro, é o sucesso? Isso do jeito que você falou, nesse exagero. Porque, é claro, tudo na medida certa é bom, tudo no equilíbrio é bom, mas se fosse tão bom assim, a gente não veria essas pessoas tão perdidas, essas pessoas indo para a droga. Hoje em dia, parece que droga é solução para tudo, as pessoas não conseguem mais ficar sem beber, sem se drogar. Elas estão procurando a felicidade no lugar errado. Elas querem a felicidade, nós precisamos da felicidade, o ser humano precisa da felicidade, mas se a gente não acha de um jeito, a gente acaba procurando de outro.

Luciano: E aí sorte sua, que o consultório vai ficar lotado, não é isso?

Lucia: Mais ou menos, eu não fico feliz.

Luciano: Você fica feliz com uma sociedade assim, não te satisfaz uma sociedade assim?

Lucia: Não fico. Prefiro ter menos pacientes e a sociedade estar mais saudável.

Luciano: É verdade. Poxa, que interessante. Vamos lá, vamos partir aqui para os nossos finalmentes. Você então continua produzindo os seus livros. Pelo que eu entendi você tem uma coleção que está andando aí, que está no sexto livro, vem mais quatro aí. Você tem uma editora que está te lançando? Como é que funciona?

Lucia: Isso, sim, estou com uma editora.

Luciano: E quem quiser encontrar os livros, vai encontrar aonde?

Lucia: Pode encontrar no meu site.

Luciano: Que é?

Lucia: www.Luciamoyses.com.br e pode encontrar, tem na Amazon, tem na Livraria Cultura.

Luciano: E para te visitar e falar doutora, eu quero trocar umas ideias, porque eu acho que eu estou com umas ideias malucas aí, também no site?

Lucia: Também no site, pode me procurar no meu site.

Luciano: Já fez teu blog?

Lucia: Olha, não. Eu comecei um blog, que chama Gastronomia com Letras, que é onde eu gosto muito de comer, gosto muito de restaurantes, então eu vou visitar um restaurante e escrevo sobre o restaurante, contando uma historinha. Então eu crio uma história, eu invento uma história que se passa naquele restaurante. Mas é assim, foi uma coisa bem que eu fiz…

Luciano: Pensa nisso, viu, porque eu também tenho oito livros lançados e para mim está muito claro que o tempo e energia que eu dispendo para fazer um livro hoje em dia se eu aplicar na internet vai me dar um resultado imensamente maior do que eu consigo com o livro, então eu meio que tirei livro, eu uso livro como cartão de visita. Então se está na hora de eu lançar o meu próximo livro, com que intenção? A única intenção é de fazer barulho, só, porque não vai vender, não vai acontecer nada, não vai ser distribuído, não vai acontecer coisa nenhuma com ele. Mas o esforço que eu uso para fazer, para botar no livro, se eu colocar na internet, eu tenho um resultado infinitamente… não terei o livro na mão, no final das contas, mas terei o resultado em termos de alcance muito maior do que o livro pode me dar. E essa transição está acontecendo agora. Então eu estou olhando aqui, foi muito bem, deixe eu colocar dinheiro na jogada aqui e ver o seguinte, como é que eu remunero o livro, como é que eu remunero na internet. E eu já cheguei numa equação tal que, cara, para mim está muito claro, livro eu não quero mais saber. Então eu vou botar na geração de conteúdo para a internet, que me dá muito mais liberdade, eu não estou na mão de livraria nenhuma, não tenho editora me enchendo o saco, não tem ganhar 8% do preço final, o livro vendido a 40, eu ganhando 3 reais e pouco, não tem essa bobajada toda, porque ali eu sou o dono do pedaço. Também não me dará a oportunidade de eu correr o risco de, de repente, ser uma Bruna Surfistinha, lança um livro e o livro explode do nada. Isso eu não posso querer, fazendo o trabalho que eu estou pensando na internet, porque ele vem todo fragmentado, mas me dá a sensação de que eu estou no controle, eu tenho o controle do que eu estou publicando, da forma como, quando, onde.

Por isso que eu te perguntei do blog, e o blog é o canal inicial, é nele que as ideias começam, é ele que recebe o input das pessoas, é nele que eu testo uma ideia, é nele que eu lanço, escuto o que acontece, a partir dali eu posso elaborar melhor esse post que eu coloquei e esse post vai virar um capítulo do livro. E é uma coisa orgânica, é uma experiência fabulosa, porque os livros que eu escrevi, eu fiz tudo quietinho, sozinho em casa, agora o meu trabalho sai com a colaboração de quem me ouve, eu boto no ar a ideia, recebo um monte de comentário, dali eu refino aquilo lá e sai uma coisa muito melhor. Ou seja, é uma loucura que Machado de Assis não poderia fazer isso nunca, que é testar uma ideia, receber de volta, testar de novo, como a gente faz agora. Presta atenção nisso, olha para a internet.

Lucia: Sim, obrigada! Obrigada pela dica.

Luciano: Eu acho que você podia ir atrás.

Lucia: Sim, com certeza.

Luciano: Está bom, doutora, então vamos lá de novo. www…

Lucia: Luciamoyses, com y e s. Lucia M-O-Y-S-E-S.

Luciano: Ok, Luciamoyses.com.br. Se alguém está precisando aqui de uma psicóloga que ajuda você a botar a cabeça nos trilhos, doutora Lucia está aqui. Está bom? Obrigado pela visita.

Lucia: Obrigada, viu, Luciano.

 

 

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