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Luciano Pires -
Download do Programa

Bem-vindo ao LíderCast, o podcast para quem quer saber mais sobre liderança. Apresentação Luciano Pires.

Luciano: Bom-dia, boa-tarde, boa-noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o podcast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. No programa de hoje, falo com Maria Lujan, jovem argentina com vivência em vários países e que escolhe vir morar no Brasil, país pelo qual se apaixona e quer ajudar a revolucionar pela educação. Este não é um programa de entrevistas, não tem perguntas programadas, nem roteiro definido, é um bate-papo informal com gente que faz acontecer, que vai para lugares onde nem eu e nem o meu convidado imaginamos. Por isso eu não me limito a fazer perguntas, mas eu dou os meus pitacos também. Você entendeu aí? Isto aqui não é uma entrevista, é um bate-papo. O LíderCast é lançado por temporadas. Os assinantes da Confraria Café Brasil e do Café Brasil Premium têm acesso imediato à temporada completa assim que ela é lançada, os não-assinantes receberão os programas gratuitamente, mas um por semana. Para assinar, acesse o cafebrasilpremium.com.br.

Muito bem, mais um LíderCast. Como de praxe, eu vou contar como é que essa pessoa chegou aqui. Aliás, não é LíderCast, na língua dela é LíderCast, ela fala LíderCast. A long long time ago, in a galaxy far far away, ela mandou para mim um e-mail contando uma história em espanhol porque era uma argentina que estava no Brasil para morar aqui, para ver o que ia acontecer aqui no Brasil. Mandou um e-mail, eu me lembro que ela foi visitar a gente na gravação, eu li o e-mail dela, foi muito legal, a gente acabou se conhecendo ali, eu acompanhei um pouquinho as loucuras que ela vinha fazendo e a gente depois perdeu o contato, ficamos um tempão só acompanhando de longe. Aí uma hora dessa eu vi que ela tinha feito tanta doideira, tanta loucura e tem tanto plano para loucura, que eu falei, preciso conversar com essa moça aí. Acho que vai dar um baita LíderCast. Tem três perguntas que são as fundamentais do programa, são as únicas que você não pode errar. É o seu nome, a sua idade e o que você faz. A idade, a gente pode até negociar, mas vamos lá, nome, idade e o que você faz.

Maria: Então, meu nome é Maria Lujan Tubio, eu tenho 37 anos e eu faço um monte de coisas.

Luciano: Você nasceu aonde?

Maria: Eu nasci em Buenos Aires.

Luciano: Buenos Aires? É portenha de sangue azul, não é? O que o seu pai e sua mãe faziam?

Maria: Meu pai trabalhava na empresa de meu avô, eles faziam botões para as camisas, para várias marcas argentinas e estrangeiras e depois a empresa começou a crescer, trabalhar com outras coisas, sempre com roupa. E minha mãe era professora numa escola primária.

Luciano: Você tem irmãos?

Maria: Eu tenho uma irmã.

Luciano: O que a Maria queria ser quando crescesse?

Maria: Eu queria ser veterinária… dançarina, veterinária.

Luciano: Mas por quê? Porque gostava de bicho?

Maria: É gostava de bicho, gostava de dançar, escrever, então escritora, dançarina.

Luciano: Legal, sonhos de criança, não é? E aí, você foi estudar e foi fazer o quê? Aliás, só para recapitular, seu pai então tinha o negócio dele? Seu pai era um empreendedor, é isso? Não trabalhava para ninguém, ele tinha negócio próprio.

Maria: Sim. Um negócio próprio.

Luciano: E sua mãe era professora?

Maria: Sim.

Luciano: Teu modelo foi um empreendedor e uma professora. Um excelente ponto de partida aí. Você foi estudar o quê?

Maria: Eu fui estudar letras e filosofia lá na França.

Luciano: Você largou pelo caminho a veterinária. Um belo dia você achou que não dava para aquilo.

Maria: Ah, eu percebi que biologia e eu não tinha nada a ver, eu apenas gostava de animais, mas o que eu queria era ter o privilégio de ter o máximo de ideias novas dentro da minha cabeça, no mínimo prazo possível. Eu achei que o mundo da literatura e da filosofia seria o caminho certo para tentar aprender o máximo com o mínimo de vivência possível. Eu era muito nova. Aos 17 anos, na verdade, eu fui estudar na Califórnia, antes de terminar a escola. Eu fiz um curso de filosofia e religião comparada lá na Califórnia e eu fiquei apaixonada.

Luciano: Como é que uma garota de 17 anos vai fazer um curso de religião comparada? Isso não é normal para uma garota de 17 anos. Não é, da onde vem isso, o que te conquistou?

Maria: É, não é. Eu tinha uma crise existencial, eu queria descobrir o significado da vida, eu não me sentia identificada pelas minhas amigas, que iam nas baladas, que voltavam bêbadas, eu não me sentia identificada com isso, eu queria saber por que a gente estava aqui. E as respostas que eu encontrava não faziam sentido. Eu não tinha uma religião, não tinha nenhuma crença específica, então comecei a pesquisar todas as religiões, filosofias, franceses e foi assim.

Luciano: Com 17 anos?

Maria: É.

Luciano: E aí você encontra lá nos Estados Unidos essa… eu já te conheço o suficiente para dizer que você tem esse arrojo, eu me atiro e vou fazer, tem que acontecer. Mas como é que isso? Como é que você toma uma decisão dessa, chega para o seu pai e sua mãe e fala, pai e mãe, a los diecisiete, estou me mandando para os Estados Unidos, vou estudar lá, vou fazer. Como é que foi a reação deles, que esperavam ter uma filha doutora, uma coisa assim?

Maria: Olha, eu acho que eu tive muita sorte, porque eu venho de uma geração de pais que não tiveram muita escolha, eles não tinham uma situação financeira boa quando eles eram mais jovens, quando estavam no ensino médio, então eles quiseram me deixar fazer tudo o que eu queria. Qualquer coisa que eu pedia, que fosse andar a cavalo, ou patinação no gelo, estudar inglês, eles se esforçavam e davam todas as oportunidades para mim que eles não tiveram. Então eles não entravam tanto na questão do “o que” mas do “como”, como vou fazer isso acontecer. Então eles não debatiam comigo o que eu queria fazer, nesse aspecto eu tive muita sorte.

Luciano: E teve sorte que essa liberdade total podia ter levado para um outro caminho, não é? Muito bem, mas por que Estados Unidos?

Maria: Eu tinha vontade de estudar orginalmente nos Estados Unidos, então fui conhecer uma universidade lá, em Berkeley, na Califórnia, aí que eu fiz os cursos, gostei muito, mas percebi também que era muito caro e que tinha outras opções. Então comecei a pesquisar outras opções e gostei mais do modelo europeu. Na verdade, a universidade em que eu estudei era uma mistura do modelo americano com o modelo europeu.

Luciano: Em que ano foi isso?

Maria: Eu fui em 1998 para a Califórnia e depois mudei para a França, no ano 2000.

Luciano: Você ficou dois anos nos Estados Unidos, só?

Maria: Não, nos Estados Unidos eu fiquei foram só uns meses, que eu fiz um curso intensivo, aí voltei para a Argentina, fiz um ano de faculdade, também para tentar que ficasse mais barato, porque aí você junta os créditos universitários, essas disciplinas que você faz e consegue fazer validar essas matérias na outra universidade onde você vai concluir os estudos.

Luciano: E aí você decidiu ir para a França?

Maria: É, originalmente, eu ia para os Estados Unidos, aí mudei os planos, fui para a França.

Luciano: Fazer o que lá?

Maria: Aí fiz literatura comparada, que seria uma versão de filosofia, letras e outras coisas e afins. Muita teoria.

Luciano: Para ser o que, quando crescesse?

Maria: Ah, eu não sabia, eu funciono muito de forma intuitiva. Eu gosto muito dessa palestra que você já deve conhecer, do Steve Jobs, que fala que você só entende as coisas olhando para trás.

Luciano: Sim, que um dia as coisas se cruzam lá na frente, não é?

Maria: É. E é assim, se você não vai saber, e é o que eu falo também toda vez que eu dou algum tipo de orientação para uma pessoa tão jovem, eu falo, você se preocupa mais para a frente sobre como você vai ganhar dinheiro com isso. A questão, quando você está se formando é seguir, mesmo que pareça clichê, é seguir teu coração, seguir tua intuição, se permitir errar, mudar de opinião, porque a gente está aqui para isso, para se conhecer, para explorar as possibilidades que a vida pode te trazer ou não e permitir isso acontecer.

Luciano: E aí, lá na França como é que você fez? E o idioma, você já dominava Francês?

Maria: Não, eu me empolguei muito. Na verdade, eu pensava estudar nos Estados Unidos e eu fui, na minha escola, é uma escola alemã, aí todo mundo, no final da escola, na formatura, depois da formatura todo mundo ia para a Alemanha. Eu não quis ir com eles, eu viajei sozinha, então pedi para meus pais me deixarem viajar, só que em vez de ir com a turma inteira, fui fazer um tour em vários países da Europa e me apaixonei pela França, senti que era o país para eu estudar, fez muito sentido. Aí me esforcei, consegui umas bolsas e deu certo.

Luciano: E o idioma?

Maria: É, então, eu tenho facilidade, aí comecei a estudar, peguei livros, comecei a fazer aula particular, estudar sozinha com livros, eu estudava o dicionário. Eu pegava o dicionário e pegava as diferentes palavras e depois eu fazia testes e tentava lembrar de todas as palavras do dicionário, uma piração que eu tinha, novinha.

Luciano: Vocês querem ver como é que é essa figura? Como é que você aprendeu a falar português?

Maria: Com você.

Luciano: Lá na Argentina, ouvindo podcast Café Brasil. É isso?

Maria: Na Colômbia, eu já estava na Colômbia.

Luciano: Ah, espera aí, eu já dei um salto, você já estava na Colômbia?

Maria: Sim. Eu comecei a baixar os podcasts do Café Brasil.

Luciano: Espera aí, nós vamos chegar lá.

Maria: Ok.

Luciano: Aí você vai, quanto tempo você ficou na França?

Maria: Quanto tempo?

Luciano: Quanto tempo ficou lá?

Maria: Quatro anos e meio.

Luciano: E se formou?

Maria: Eu me formei e comecei a trabalhar seis meses e aí decidi estudar em outro país.

Luciano: Então você não estava ainda de olho, focada no “vou ser isso, vou fazer isso”?

Maria: Aí o que aconteceu, eu terminei, falei, o que eu vou fazer agora? Tipo, eu vi que não dava para trabalhar, realmente, com esse diploma, sem experiência, eles me ofereciam bem pouco dinheiro. Eu tentei ver, aí falei, não, ainda a minha formação não acabou. Eu queria estudar mais, aí pensei, vou tentar estudar uma coisa mais prática, ver se minhas possibilidades de conseguir um emprego ou alguma coisa melhoram talvez. E aí fui fazer um mestrado em tradução e interpretação na Inglaterra, também consegui uma bolsa. Depois que você consegue a primeira bolsa, as outras vêm, é mais fácil.

Luciano: Sim, mas vêm por quê? Por sorte ou porque você tem os atributos, você já tem o caminho das pedras, é isso?

Maria: Olha, é que nem, sabe quando você está namorando e de repente aparece um monte de outras opções e quando você não está namorando, não tem nenhuma? É mais ou menos isso.

Luciano: É por aí.

Maria: É, você tem uma bolsa e os outros veem que você tem uma bolsa e falam, alguma coisa, por alguma razão deve ser, aí tem mais credibilidade.

Luciano: É a tal da lei da atração, não é isso?

Maria: É, eu acho.

Luciano: Você cria um ambiente e o ambiente acaba atraindo aquilo tudo lá.

Maria: É, mas também tem um discurso, não é? Você aprende a pedir as bolsas, você aprende a se apresentar, a falar por que você e não outra pessoa.

Luciano: E aí você conseguiu bolsa para os Estados Unidos?

Maria: Estados Unidos foi total, eu não paguei nada.

Luciano: Voltou para lá?

Maria: É, aí voltei para os Estados Unidos.

Luciano: Quanto tempo você ficou lá?

Maria: Cinco anos.

Luciano: E tirou um diploma em?…

Maria: Voltei para literatura comparada.

Luciano: De novo.

Maria: É, porque eu percebi que o diploma de tradução e interpretação era muito prático. Eu sou uma pessoa muito criativa, então me senti um pouco constrangida nessa profissão. Mesmo que a tradução, quando é literária, eu acho que requer muita, muita criatividade, mas eu queria ser eu a pessoa que estivesse sendo traduzida, ou a pessoa que estivesse falando, em vez da pessoa que traduz. Aí falei, bom, vamos voltar para o ambiente acadêmico e aprofundar, mas sempre teve também essa questão existencial que eu queria resolver de alguma forma, por isso que eu voltei para a literatura, a filosofia.

Luciano: Bom, você estava nos Estados Unidos agora?

Maria: Sim.

Luciano: Ficamos lá mais quatro anos?

Maria: Uhum.

Luciano: Terminou esse período, o que você faz?

Maria: Aí eu fui morar na Colômbia.

Luciano: Por que Colômbia?

Maria: Eu conheci um colombiano, casei.

Luciano: Ah, aí já entrou um outro componente. Foi morar aonde lá?

Maria: Em Bogotá.

Luciano: Então, recado aos amigos de Bogotá, que eu sei que tem um monte de colombiano que escuta o Café Brasil, que escuta o LíderCast. Há poucos dias eu tive uma visita de três deles, que vieram de Medellín para dizer, cara, tem um monte de gente ouvindo você lá, é fascinante isso, não é? E foi lá que você encontrou o Café Brasil?

Maria: Sim.

Luciano: Você já estava com a ideia de aprender português, era isso?

Maria: Não, na verdade, eu era professora universitária e depois de um tempo, enfim, a gente tinha decidido passar um ano fora. Você, quando é professor universitário pode passar um ano fora, um ano sabático e a ideia foi vir para o Brasil. A gente falou, bom, a língua a gente pode começar a aprender. E falei, bom, eu tenho facilidade, é muito parecido com espanhol, um pouco de francês, italiano e tudo o mais, eu vou tentar aprender só ouvindo. E aí eu comecei a ouvir os podcasts, no começo eu não entendia nada, tinha algumas palavras soltas quando você falava. Eu colocava no carro, enquanto dirigia em Bogotá e, de repente, comecei a entender frases inteiras, ideias principais. Falei, olha, está acontecendo.

Luciano: Você sabe que é uma coisa interessante, é o Olavo de Carvalho que diz o seguinte, que quando você pegar um conteúdo que é difícil de entender, ele fala para livros, ele fala, tem livro que você pega, você não consegue passar da primeira, segunda página, porque é absolutamente ininteligível, não dá para entender, e ele falou, o que você faz? Lê de novo e lê de novo e lê de novo e leia outra vez, uma hora abre-se alguma coisa. É alguma coisa misteriosa, que parece que ajuda você a alinhar, ele falou que dali para a frente, você começa a compreender. Imagino que idioma deve ser uma coisa parecida. Mas aí vocês vieram para cá para ficar um ano no Brasil?

Maria: Sim.

Luciano: Foi quando eu te conheci?

Maria: Sim.

Luciano: Então, ela chegou aqui e aí foi interessantíssimo, que ela começou a escrever algumas coisas e foi uma delícia acompanhar a perplexidade de uma argentina, com experiência na França, Estados Unidos, entrando na cultura brasileira. E ela contava umas histórias que eu morria de rir, falava, cara, como é que vocês se conformam em ficar na fila? Como é que pode ser um metrô assim? Vindo da experiência de fora e experimentando aqui, aquilo foi divertidíssimo de ver os relatos dela de como é que ela se incorporava. Mas uma coisa me chamou a atenção nisso, é que você passou por três culturas que são muito diferentes, a cultura francesa, a cultura norte-americana, a cultura colombiana, que é parecida com a nossa aqui e veio cair na brasileira, que tem suas particularidades. Como é que você faz para assimilar uma cultura que é tão diferente da sua, ou seja, eu vou para lá e vou me tornar um deles, que foi o processo que eu vi acontecer com você aqui, vou para o Brasil e vou me tornar uma brasileira. Você lembra que eu até comentei com você, falei, aproveita agora, que daqui a seis meses você está estragada, não é? Você vai virar brasileira.

Maria: Você disse.

Luciano: Aí você não vai se chocar com mais coisa nenhuma, não é? Como é que é esse processo de assimilação de cultura?

Maria: Em qualquer país?

Luciano: A assimilação de uma culura. Eu entendo que tem particularidades, mas a tua predisposição, “estou indo para assimilar uma cultura”, que cuidados, ou o que você fez? Como é que você faz isso?

Maria: Olha, uma coisa que é importante primeiro é tentar fazer amizade com as pessoas do país. Eu vejo muitos estrangeiros que ficam querendo encontrar estrangeiros do próprio país, em vez de realmente se misturar com pessoas do país. Então você vai morar na França, em vez de ficar com brasileiros, faz amigos franceses e conhece eles e sobretudo observa como eles se comportam, observa o que eles fazem diferente, as palavras que eles usam e começar a replicar isso, sem questionar muito, porque muitos dos problemas culturais saem dessa falta de observação, você vem e faz do jeito que você conhece e aí não funciona. Então tem que observar um pouquinho mais e também sem se preocupar muito, porque na maioria dos países que eu morei, visitei, eles são muito abertos quando você é respeitoso pela cultura, você mostra interesse.

Luciano: Como é que foi esse teu choque de Brasil? Fala um pouquinho dessa tua chegada aqui.

Maria: Foram muitas coisas, muitas coisas. Os horários, porque mesmo sendo argentina, eu sempre fui uma pessoa muito pontual, mas aqui a dificuldade para chegar num horário marcado, a dificuldade para falar não, as pessoas não conseguem falar não, aí você acha que a pessoa vai aparecer, porque ela disse talvez eu vou, talvez eu vá lá e ela não aparece, ou vamos ver, talvez consiga e tudo isso não existe, eu não sabia nada disso, demorei muito para entender essas coisas. Mas hoje eu falo direto, “ah, vamos marcar”. Mas, enfim, teve essas coisas de que eu não estava preparada, digamos, dessa dificuldade, mas teve também uma surpresa, um tesouro muito grande que eu encontrei, que eu vejo até hoje e que é a razão pela qual eu ainda gosto muito de morar aqui, que são as pessoas. Eu não me senti tão acolhida em nenhum país como aqui. Aqui tem sido o país com mais abertura para me receber, eu tenho me sentido tão bem tratada, acolhida, respeitada. As pessoas são muito queridas.

Luciano: Alô, você que está nos ouvindo aqui, essa moça está descrevendo os brasileiros, tá? Esse povo que ela descreve não é de outro país, é daqui do Brasil. Você contou uma história, você até escreveu a respeito disso, ela vai fazer uma viagem para o exterior, do aeroporto de Cumbica e resolve que vai de metrô e pega sua mala gigantesca e vai para o metrô de São Paulo às seis e meia da tarde, sem fazer ideia do que era aquilo. E chega lá aquilo é um terror, se você não é de São Paulo, você não sabe o que é aquilo, mas o metrô é uma loucura, centenas de milhares de pessoas tentando entrar no trem ao mesmo tempo e ela lá, paradinha, com a mala dela na mão, sem saber o que fazer, para que lado ir.

Maria: Duas malas.

Luciano: Duas malas. Sem saber, nem ter condições de entrar no trem e aí o que acontece?

Maria: Eu estava desesperada. As pessoas entravam no metrô, não era metrô, era outro… CP…

Luciano: Sim, CPTM.

Maria: É, CPTM. Aí todo mundo entrava e eu ficava no mesmo lugar que eu estava, porque não dava para entrar. As pessoas entravam todas juntas e as portas se fechavam, eu falei, vou perder o voo, acabou, esquece, não tem forma de você chegar ao aeroporto, não tem, esquece. E pegar táxi agora vai ser pior, então já deu, esquece. Aí comecei a ficar desesperada, falei, olha, vamos fazer uma coisa pouco convencional mas que tem servido em outros contextos aqui no Brasil, tem funcionado, vamos pedir ajuda. Aí parei qualquer duas pessoas que estavam do meu lado e falei “olha, é o seguinte, eu estou indo para o aeroporto, eu não sabia que ia ser assim…”

Luciano: Seu português não era esse que você está usando hoje.

Maria: Não, falava muito pouco português, ainda falo mal, mas naquela época falava bem menos. E eles entenderam, primeiro eles não tiveram… eles estavam muito surpresos em me ver lá, com as malas, malas gigantes e tentando entrar no metrô e eles falaram “tranquilo, a gente vai dar um jeito”. Aí as portas se abriram, eles impediram as outras pessoas de entrar, entraram com as minhas malas, aí o resto das pessoas entraram no metrô, eu fiquei fora, olhando eles dentro do metrô, com as minhas malas, falei acabou, agora, pensando que não podia piorar, agora piorou mesmo. Aí eles me fazem assim com as mãos para eu entrar dentro do metrô, “vem, vem, vem!” E eu entrei. E eles me trouxeram as malas e falaram, “não faz mais isso, hein, mas aqui tuas malas, pode pegar”. Falei, gente, incrível, incrível, maravilhoso! Imagina, até hoje, só lembrando essa capacidade de ajudar uma pessoa desconhecida.

Luciano: Eu me lembro que você falou que o que chamou a atenção foi isso, cara, quando eu pedi ajuda, imediatamente, a ajuda veio e eu consegui resolver o problema.

Maria: Imediatamente. Não, eles resolveram uma coisa que era impossível de resolver, eles chamaram outras pessoas desconhecidas para impedir as pessoas de entrar pela porta, imagina, bloquearam tudo, eles entraram, aí todo mundo entrou e eu fiquei observando, paralisada.

Luciano: Você sabe que para nós, que somos brasileiros, a gente não consegue enxergar isso. O brasileiro não consegue ver isso. Eu fiz até um Café Brasil que eu falava sobre essa coisa de quem é de fora enxergar o Brasil e contar e descrever um país que para nós, que estamos aqui, a gente não enxerga, a gente não consegue ver. Mas como assim, que história é essa, cara? Esse aqui é um povo bruto, é um povo que mata a troco de nada, a gente perdeu a educação, a gente é incompetente e esse é o nosso olhar aqui. E, de repente, você vem de fora, não contaminada e chega aqui e fala, gente, não é bem assim, eu estou vendo o valor. Tanto viu que você está aqui há quanto tempo?

Maria: Cinco anos.

Luciano: Cinco anos que você está, que você acabou ficando aqui, não é?

Maria: Mas, olha, tem essas coisinhas assim, de repente, que eu falei, os horários, o não falar não, mas ao mesmo tempo eu comecei a curtir também esses aspectos que eu achava meio negativos, porque faz parte da cultura. Por exemplo, a falta de capacidade para marcar alguma coisa dá muita liberdade, a gente em outros países fica meio que constrangido, porque você falou que ia fazer alguma coisa e tem que fazer, não pode desmarcar. By the way, é o único país que eu conheço que tem uma palavra que não é cancelar, tem desmarcar, é a única língua que eu conheço que tem esse conceito, está desmarcado. Então isso dá muita liberdade para, realmente, você se conectar com o que você quer fazer na hora nesse dia e vai e faz e essa possibilidade também de desmarcar, que ninguém vai ficar assim muito chateado e todo mundo aceita você desmarcar, até certo ponto, lógico. Traz muita liberdade.

Luciano: Você sabe que eu tenho uma tese para isso, eu não me lembro se eu comentei isso com você uma vez, que era o brasileiro está tão acostumado com essa, de novo aquele gesto horrível, “flexibilização”, que a gente já trabalha em função dela. Então, por exemplo, uma coisa que chamou a minha atenção quando eu fui aos Estados Unidos, quando tem um acidente de automóvel nos Estados Unidos e o acidente é numa rua qualquer, não na estrada, na cidade aqui, toda vez que se via um acidente, nunca era um acidentezinho, uma batidinha, era uma porrada gigantesca, mas eram porradas, eu falava, mas cara, como é que alguém consegue dar uma porrada dessa nesse lugar aqui? Não tem como bater desse jeito, não é? E os caras se destruíam ali. Até o dia que eu entendi como é que é o esquema lá, o brasileiro dirige já esperando que alguém vai furar o farol vermelho, alguém vai ultrapassar pelo lado que não pode, alguém vai fazer uma curva, o brasileiro já sabe disso, então ele já tem, ele já está preparado para isso. O americano, não passa pela cabeça dele que alguém vai cruzar o farol vermelho, então ele entra com tudo e o outro vem com tudo, os caras se matam lá, porque não há esse cuidado. E essa postura do brasileiro serve para tudo. Eu vou fazer um investimento em alguma coisa, eu já sei que o valor vai ser maior do que eu estou esperando, eu já sei que eu vou dançar, eu já sei que alguém vai contar uma história, eu marquei com você, vamos às dezoito horas, eu já sei que o teu táxi vai atrasar, eu já sei que você teve um problema, eu já sei que eu vou ficar esperando. Então esse “eu já sei” do brasileiro, cria um colchão, a gente trabalha com isso. De um lado é muito interessante, porque nos protege de uma série de problemas, e o exemplo mais básico é esse dos americanos. O Brasil não vai morrer na esquina lá que o americano morre, porque o brasileiro já sabe disso. Agora, isso tem um custo tremendo, porque fica tudo mais caro. Então se eu tenho que ter mais área de manobra, vai ficar mais caro. Então eu não consigo fazer como o americano faz, é sharp, é desse jeito para chegar lá, o brasileiro, não, não vai em linha reta, dá um voltinha.

Maria: Uma coisa que sempre me surpreendeu aqui, quando tem alguma coisa tecnológica, por exemplo, sei lá, uma máquina para comprar ingressos, sempre tem um funcionário do lado, ensinando como funciona a máquina.

Luciano: Sim, até que a turma pegue a manha para fazer, não é?

Maria: Tem muito disso, mas em outros países, você tem que se virar, se você não sabe, dificilmente alguém vai vir te ajudar.

Luciano: Sim, um ponto interessante. Mas aí, aquele ano que você veio então, vocês vieram para passar um ano aqui e aí, desistiu, quando você viu o Brasil, falou, não, é aqui mesmo que eu vou ficar? Como é que foi isso?

Maria: Ah, eu falei, vou ficar aqui. Essa busca que eu estava te falando, essa crise existencial desde a adolescência meio que aqui se resolveu, de alguma forma. Eu me senti muito feliz aqui no Brasil, eu senti uma possibilidade de crescimento pessoal, que ia ter essa oportunidade, uma oportunidade grande para eu me conhecer, explorar o meu potencial, criar coisas novas. É um país que está muito aberto para mudança, para inovação, que trata bem os estrangeiros. E também a cultura, eu estava com muita vontade de ter acesso de novo a tantas opções culturais e me divertir, esse dia a dia que a gente cria de poder ir a um teatro, um show de música. Eu nunca vi um país com tanto talento musical, aqui é impressionante. E eu me apaixonei, falei não vou voltar, nada contra a Colômbia, mas eu falei, meu amor é aqui, é o Brasil, eu não vou sair daqui, eu vou ficar. Aí eu separei, eu fiquei.

Luciano: Mandou o colombiano de volta e resolveu ficar aqui. Muito bem, aí você decide que vai ficar aqui, parou de estudar?

Maria: Não, eu fiz um pós-doutorado.

Luciano: Ainda fez um pós-doutorado aqui no Brasil, em?…

Maria: Comunicação.

Luciano: Comunicação. E foi trabalhar aqui. E ai, eu quero saber onde é que aparece o bichinho empreendedor, tipo eu não vou arrumar um emprego, como a gente chama aqui CLT, com a minha carteira assinada etc. e tal, mas vou trabalhar para fazer alguma coisa minha. Como é que foi esse momento?

Maria: Olha, para mim, o empreendedorismo é uma consequência direta do autoconhecimento. Você não vai poder construir algo se você não sabe quem você é. Então, para mim foi a consequência direta de um trabalho grande que eu fiz para me conhecer, saber o que eu tenho de bom, as dificuldades que eu tenho e, no mundo ideal, como eu podia usar meus talentos para tentar resolver essas dificuldades. Então, por exemplo, se você é uma pessoa tímida, como você vai usar a sua habilidade na escrita para superar, por exemplo, essa timidez? Então eu gostava da ideia de reciclar, como podia reciclar essas dificuldades que eu tinha na minha personalidade, usando o que eu tinha de bom. E aí é que surge o empreendedorismo como uma opção também de fortalecimento desses aspectos pessoais.

Luciano: Tem uma palavra que meio que define isso que você fez, que é metacognição, que é quando eu começo a olhar a forma como eu penso, por que eu penso o que eu penso, por que eu reajo do jeito que eu reajo. Aí quando você para, eu não vou prestar atenção lá fora, mas eu vou entrar dentro de mim, é um mergulho interno em mim, em que eu vou começar a questionar por que é que eu faço assim, aí você cresce exponencialmente. Eu começo a entender por que é que eu funciono de tal forma e vou ajeitar aonde é que eu sou forte, aonde é que eu sou fraco. Se eu não consigo entender por que eu reajo assim, acaba ficando complicado. Isso envolve mudança de hábitos, uma pancada de coisas que só acontece quando você mergulha dentro de você. A questão é que pouca gente tem tempo para isso. Eu estou ocupado demais trabalhando, eu estou ocupado demais interagindo com as pessoas, para ter um tempo de parar para mim e, deixa eu me questionar, chega no final do dia olhar e falar, deixa eu ver o que eu fiz hoje, fiz isso, mais isso e mais isso. Por quê? O que aconteceu? Por que eu fiquei incomodado com tal coisa? Por que a Maria falou um negócio para mim e eu reagi tão mal? Eu até queria me perguntar um pouquinho mais fundo por que é que eu reagi mal àquela palavra que eu ouvi, não é? E esse exercício é um exercício de crescimento, que isso é fantástico quando você consegue transformar num hábito do dia a dia, isso te prepara para explodir, para crescer. Você foi trabalhar com o quê?

Maria: Ah, eu pensei em várias coisas, porque eu pensei, bom, temos que ser realistas, então se eu quero chegar num ponto C, estou no ponto A, vou ter que passar no ponto B, que não é necessariamente o lugar em que eu quero estar. Então você vai ter que conseguir uma atividade para você pagar as suas contas enquanto você desenvolve, cria seus próprios negócios. Eu preferi esse caminho, eu falei, bom, eu vou pagar minhas contas fazendo X e vou começar a brincar com as coisas que eu realmente quero fazer e, acho que foi chave, sem querer controlar tudo. Eu sempre fui uma pessoa muito organizada e isso o Brasil me ensinou, a não ser tão organizada, porque quando você não tenta controlar tudo é que surgem muitas oportunidades, que num esquema mais rígido não iam aparecer jamais. Contatos, estar no lugar certo na hora certa, se você tenta controlar tudo, não funciona desse jeito.

Luciano: Eu chamo isso de caos organizado.

Maria: Caos organizado. Eu lembro, eu li, você escreveu.

Luciano: Lembra disso? Que eu falei dos 60 por 40? Que o meu projeto, dos 100% do meu projeto, tem 60% controlado, os outros 40% seja o que vier. E a hora que aparece uma novidade, eu consigo incorporar, porque eu tenho espaço para isso.

Maria: O que aconteceu comigo foi que eu primeiro comecei a trabalhar num projeto para o Estado de São Paulo, através da USP, mas sabendo que não ia ficar lá muito tempo e aí juntei coragem, falei, bom, vamos fazer uma coisa… Eu estava ainda procurando o significado da vida, que nem quando era adolescente. O que é o significado da vida? É você acordar de manhã e que esteja tudo bem, que não esteja faltando nada. Que deu domingo sabendo que você vai trabalhar na segunda-feira, seja um dia legal e não tipo “ah, tenho que começar a trabalhar segunda-feira”. Tem que ser uma coisa que você acordaria  para fazer num domingo. Eu quero que minha vida seja desse jeito, eu não quero estar sofrendo dentro do sistema e, infelizmente, as empresas, a maioria das empresas, quando não estão alinhadas com o teu propósito, que foi outra questão que surgiu nessa busca de autoconhecimento e que também está relacionada com, digamos, essa busca de empreendedorismo é tentar alinhar esse propósito, que é o que é que eu quero fazer mesmo, que me faz acordar de manhã? E como vou fazer isso na minha realidade cotidiana? E sempre tem mais de uma resposta, dificilmente você vai ter só uma forma de fazer aquilo. Então você vai aproveitando o que você já tem para pagar suas contas, dentro desse propósito e para inovar, que é o que eu gosto, trazer alguma coisa nova.

Luciano: Chegamos na escola, ou não?

Maria: Ah, pode ser.

Luciano: Então me conta, aí que assim, na verdade, quando eu te chamei para vir aqui, foi esse projeto da escola que me fez te convidar, me conta o que era, que deficiência foi essa que você encontrou e falou, “vou resolver essa encrenca”?

Maria: Olha, eu fui professora universitária muito tempo, em vários países e eu mesma estudei, eu fiz toda a carreira acadêmica até o pós-doutorado, não tem nada além do pós-doutorado, acabou aí, falei, bom e agora? Tudo isso para perceber a falta de necessidade desse processo todo de estudos. Porque, basicamente, não sou eu quem está falando isso, todo mundo sabe que o sistema educacional está muito desatualizado, que mesmo tentando atualizar, mesmo tentando fazer mudanças, na hora que você percebeu, já mudou tudo de novo e tem que atualizar de novo. Mas o sistema não cria pessoas felizes, cria empregados, cria funcionários que vão ser escravos do próprio sistema e que simplesmente vão viver para pagar contas e replicar o que já existe e dificilmente sair disso. É só olhar para as pessoas que você conhece. Bom, eu conheço bastantes que estão fazendo coisas diferentes, mas num mundo matrix normal, as pessoas vivem na matrix e é isso. E é a universidade que prepara eles para a matrix, para morar na matrix e não faz sentido a educação fazer isso. Falei, e se eu tentasse criar um modelo diferente, como seria isso? E se eu tentasse convidar as próprias pessoas a fazer parte dessa mudança, em vez de eu mesma sozinha tentar criar um modelo? Porque o que me faz realmente ideal, idônea para esse tipo de criação, por quê? Porque eu estudei mais e justamente estudar não traz essa… obviamente, traz um monte de coisas boas, mas é muito limitado, mesmo quando é muito bom. Eu fui muito privilegiada, sou consciente disso, mas não faz sentido. Você vê hoje, por exemplo, a quantidade de pessoas tomando remédios contra depressão, transtornos de ansiedade, ataques de pânico, estou falando de jovens de 20 anos. Como assim, o que a gente está fazendo de errado? E aí falei, não, vamos criar algo diferente, mas vou fazer isso numa forma diferente também, não vou tentar impor o que eu acho que é bom, eu vou convidar os jovens. Eu quis trabalhar com os jovens, porque acho que nessa faixa etária é que as coisas estragam mais, porque não sei se você lembra quando você era adolescente, nessa época ainda a gente tem sonhos, a gente acredita em coisas, quer mudar o mundo e depois você entra no matrix. Então como a gente pode evitar essa transição para o matrix, para esse mundo quadradinho de infelicidade, de sofrimento, de “ah, segunda-feira… vou tomar todas na sexta porque a semana foi ruim”, como vou evitar isso? E a gente fez um hackaton de umas dez horas, mais ou menos, reuniu vários jovens e especialistas de diferentes áreas para discutir os problemas de educação. Eram jovens de 13 a 19 anos e queríamos que eles, trabalhando juntos e com apoio que a gente brindou, chegassem sozinhos a um modelo que a gente pudesse criar. Então eles mesmos estudaram os problemas e trouxeram soluções.

Luciano: Para você que está com uma interrogação na cabeça aí, hackaton é mais um desses termos que a gente importou para definir uma coisa que se for definir em português vai ficar gigantesco, então uma palavrinha só mata o assunto. Que você reúne um monte de gente durante um período de tempo indeterminado, joga lá uma tarefa, nós temos que juntos aqui chegar num final, pode ser todo mundo junto, podem ser grupos, mas a ideia é que esse grupo todo elabore uma solução qualquer para um problema durante um período de tempo.

Maria: É o próprio nome, hack, de hackear e maratona. Então uma maratona, a gente não vai sair daqui até resolver esse problema, ou ao menos ter alguma solução. E foi o que eles fizeram.

Luciano: Qual era o problema? Bom, primeiro, você convidou o pessoal, eu me lembro que na época você me falou, você me avisou, mandou mensagem para mim.

Maria: Eu queria ter uma turma muito diversa, porque se você vai tentar resolver um problema, tem que incluir todo mundo, porque senão você simplesmente vai continuar mantendo muitos dos problemas que já tem, que no caso da educação a diferença socioeconômica com certeza traz consequências, como em tudo. Mas então a gente falou, vamos tentar misturar pessoas de todos os backgrounds possíveis mesmo.

Luciano: Idade e tudo.

Maria: Idade, todas as coisas de diversidade que você conhece, até pessoas com deficiência física, da periferia, da comunidade, sem pós, de tudo quanto é diferença que tem, a gente tentou incluir todo mundo. E, ao mesmo tempo, que fossem jovens que tivessem interesse, porque ninguém está obrigando eles a nada, ninguém estava pagando para fazer nada, então eles estavam lá porque eles queriam, eles se sentiram chamados para participar. A gente chegou até eles através de ONGs, indicações, professores de escola.

Luciano: Quantos foram?

Maria: Foram uns 40 alunos, a gente selecionou, foram mais que se increveram e a gente selecionou uns 40, tentando ver que entendessem a proposta.

Luciano: E eles então entenderam que eles iam tentar desenhar o que deveria ser uma escola?

Maria: Não necessariamente uma escola, porque o conceito de escola já traz um problema. Se eu te pergunto onde você aprendeu as coisas mais importantes que você aprendeu na vida, dificilmente deve ter sido na escola.

Luciano: É, não foi.

Maria: É, dificilmente foi na universidade, na sala de aula.

Luciano: Que nome você deu para aquilo? Se não era escola, era o quê?

Maria: A gente escolheu o nome de Casa do Presente. E foi engraçado, porque foi um menino de 10 anos que escolheu o nome. Foi muito engraçado, na verdade, estávamos reunidos, imagina uma turma de profissionais super top assim, cada um na sua área, o dono de uma agência de publicidade, a organizadora do TED, pessoas que estão constantemente em contato com inovação, com criação e estávamos há uma hora já tentando trabalhar nesse conceito do nome e uma das professoras, facilitadoras, a gente não usava muito o nome professor, tinha trazido o filho, que estava com o celular no cantinho, ouvindo a conversa do nome e tal, sei lá, o conceito X, Y. Ele num momento cansou, ele levantou a mão falou “posso falar uma coisa?” Ela falou, “sim, Lucas, fala”, ele disse assim “olha, eu acho que o que vocês querem talvez seja Casa do Presente, não escola, porque escola não é um lugar que as pessoas gostam e a casa, sim, é um lugar para todos. E do presente porque é uma escola para aprender o que você precisa saber hoje, agora e não no futuro, que você ainda não conhece e porque também o presente que vocês querem dar para essas pessoas, para esses jovens”.

Luciano: O moleque de 10 anos elaborou isso tudo?

Maria: É.

Luciano: E todo mundo ficou de boca aberta, ouvindo aquilo?

Maria: Paralisado. Paralisados, porque ele falou até muito melhor do que eu o que eu acabo de falar e com uma convicção assim. E ele até falou, porque ele fala inglês, falou “até funciona em inglês, The House of the Present”. Present que você dá e do presente que é agora. Eu falei, gente, é para isso que a gente está aqui, para aproveitar o conhecimento já está lá, a função da educação é acordar as coisas que já estão lá, que todo mundo tem. A gente não é um copo vazio, sem nada, que precisa ser preenchido. Então enxergue o ser humano que está aí, com o que ele já tem de bom e traz esse potencial para fora, complementa com outras coisas, deixa ele surgir.

Luciano: Eu lancei agora um pod sumário lá de um livro chamado The Leading Brain. É muito legal, você vai adorar isso aí, onde é de uma neuropsicóloga e de um cara de liderança, mas lançaram um livro onde eles explicam, do ponto de vista da biologia, como é que o cérebro funciona. E é fascinante a busca de serotonina e aquela coisa toda lá. E eles contam, num determinado momento, que as empresas costumam pegar os seus funcionários, determinar pontos fortes, pontos fracos e vamos trabalhar os pontos fracos para você ficar bom. Eles disseram o seguinte, que quando você foca no ponto fraco, se você entender que você funciona como picos e vales, quer dizer, eu sou um pico no meu ponto melhor e sou um vale profundo no meu ponto pior, ele fala, quando você trabalha o vale, para diminuir a profundidade do vale, você junto com isso diminui o tamanho do pico. Ele falou, porque o teu exercício vai lá, a tua energia vai para lá e você, sem perceber, diminuiu o pico. Ele falou, então esquece isso, cara, o que você tem que você fazer é o seguinte, pega o ponto fraco e só eleve até o ponto aceitável, não tente levar para a excelência, transforma num aceitável. Fala, você é muito ruim nisso aqui, então vamos ficar aceitáveis e vamos focar no ponto forte, que é onde você vai crescer.

Maria: E são coisas que até mudam com o tempo. Todo mundo deve ter algum exemplo de algo que não conseguia fazer faz muito tempo e que, de repente, um dia se tornou algo fácil e sem ter que passar por um esforço. A gente é um organismo vivo, passa por ciclos, que nem as plantas, que nem os animais e as coisas vão mudando, sem a gente ter que fazer nada, são coisas que vão acontecendo. Então se, de repente, você não é muito bom na matemática, dá um tempo, você não cobra dessa pessoa, veja o que ela precisa fazer antes, é um organismo vivo, ela precisa passar por um processo e é individual, não dá para pretender a mesma coisa de todo mundo.

Luciano: E aí a Casa do Presente nasceu?

Maria: Sim.

Luciano: E se transformou. O que é? É uma ONG, o que é?

Maria: Eu chamo isso de um projeto de inovação na educação.

Luciano: Não está conectado a nenhuma grande entidade?

Maria: Não, a gente não quis justamente fazer nenhum tipo de associação, me contataram de toda quanta cosia tem, empresa, partido político, enfim e a gente quis ficar, porque parte da graça é ter total liberdade para fazer o que a gente quiser. Então não é uma escola, a gente nunca tentou, nunca quis ser uma escola reconhecida como escola normal, porque aí você tem que seguir, até certo ponto, o Ministério da Educação e justamente tudo o que a gente não quer. E a gente quer ser complementar, então que cada um faça o que quiser, se você quer mandar seu filho sem pós, uma escola pública da periferia e isso que tem, tudo bem e a gente complementa, basicamente, fazendo uma boa lavagem de cérebro de muitas das coisas que eles estão aprendendo nessas escolas e trazendo o que os próprios alunos sentem que precisam aprender.

Luciano: Isso já está rodando? Quanto tempo tem?

Maria: Já são mais de dois anos.

Luciano: Você consegue enxergar isso aí como um negócio? Quando eu falo negócio, é o seguinte, é um negócio que tem que gerar dinheiro para ele se sustentar. Você pode até dizer o seguinte, olha, no fim do dia não tem lucro, não sobrou lucro, ele empatou, mas mesmo para isso você tem que ter um plano de negócio e tudo o mais. Vocês elaboraram isso?

Maria: De jeito nenhum. Parte do que a gente quer ensinar para os jovens é a não colocar condicionamento, alguma condição para você começar. A gente trabalha muito o conceito de empreendedorismo com eles, e a gente está tentando desmistificar esse conceito do empreendedorismo que para você começar um negócio você precisa um plano de negócios de 90 páginas.

Luciano: Aliás, este aqui é um programa de liderança e empreendedorismo. Eu já fiz cento e doze, já foram gravados, eu diria para você que 98% de quem sentou aí para contar uma história não tinha projeto. Eu falo, você tinha um plano? Que plano, cara, eu tinha um sonho e eu meti as caras e fui fazer. Então é uma coisa, eles estudam o plano na escola, mas na hora de começar o negócio, que plano, cara.

Maria: Olha, eu sou pesquisadora, a gente fez uma pesquisa começando o projeto da Casa do Presente para entender como é que está a cabeça desses jovens hoje, de todas as classes sociais e tinha uma pergunta sobre o medo ao fracasso, relacionada com esse tema. Todos têm muito medo do fracasso, de dar errado. Então, eles falavam, eu tenho muitas ideias, mas o medo ao fracasso me faz não fazer nada, me paralisa. Que nem os adultos, quantos adultos você conhece que têm muitos sonhos, mas na dúvida isso não se torna um projeto que dê lucro, eles falam da ideia, aí tem uma pessoa que fala, ah, mas isso nunca vai dar certo, porque os números não vão fechar e a pessoa não tenta nunca.

Luciano: Você acha que isso é uma característica de brasileiro? Não assim de brasileiro, mas é mais forte aqui no Brasil do que nas culturas que você conheceu lá fora?

Maria: Eu acho o brasileiro mais criativo que nas outras culturas.

Luciano: Sim, mas eu digo esse medo do fracasso. Eu tenho a minha ideia a respeito, eu estou te perguntando para ver a tua visão lá de fora. Quer dizer, se você fosse um grupo de norte americanos, esse medo do fracasso estaria tão presente quanto está aqui?

Maria: Não, acho que aqui tem mais. O americano cresce com essa cultura de se achar extraordinário na escola, tem esse good boy, good girl. Eles passam de uma turma para ano seguinte e é muito fácil.

Luciano: E o francês?

Maria: O francês, não.

Luciano: Pessimista, não é?

Maria: O francês é mais pessimista, está acostumado a ouvir que tudo o que ele faz está ruim, é horrível. O francês exagera muito, é muito negativo. Você fala é ruim, é péssimo, não tem essa coisa do good boy, good girl, tentar fazer mais. O americano não está acostumado a um feedback negativo, não cresce com isso na escola.

Luciano: É fantástico. Eu participei agora há pouco tempo, eu fui lá para um evento de palestrantes no National Speakers Association. Trezentos palestrantes na plateia, você imagina o tamanho da sala para caber tanto ego lá dentro, porque tudo palestrante. E aí eram palestrantes se apresentando para palestrantes, então a plateia de palestrantes para assistir o palestrante e o brasileirão sentado lá, eu era o único sul americano assistindo aquilo lá. Eu fiquei, não sei como descrever aquilo, mas todas as apresentações eram altamente positivas, a plateia reagia aos caras que subiam lá. Não era um concorrente meu que estava lá, é um cara que subiu para fazer uma palestra e eu quero que dê certo, portanto eu vou estar junto com ele e a plateia entrava. De repente, o cara vinha e falava assim, “não, porque teve um momento que ele entrou na sala e o elefante estava morto” e a plateia fazia “óóóóóóó”, é uma coisa que você jamais vai ouvir isso acontecer no Brasil, isso não tem aqui. E ali eram concorrentes assistindo concorrentes e todo mundo para cima, e tudo para cima o tempo todo, nós queremos que isso aqui dê certo, que vá bem. No final é uma delícia o evento porque não tem ninguém “ah, não dá”. Se você puxar o cara para um lado e conversar com ele, você até vê que ele pode ter essa visão de que não está certo, mas ele não exprime isso, ele não coloca para fora isso, ele não vai jogar areia, ele quer que dê certo. Então só voltando a minha visão ali, se você perguntar para mim, eu digo o seguinte, o americano tem essa visão de que “eu sou foda e eu vou fazer dar certo, porque eu sou americano, eu vou fazer dar certo”, o francês tem aquela visão de que é péssimo, é ruim, não vai funcionar e o Brasil é o seguinte, “Deus não quis, Deus não ajudou, se Deus quiser vai dar certo”. Deus e Deus e Deus, parece que ele transfere para uma entidade tanto a capacidade de fazer acontecer quanto a culpa do que deu errado e ele fica num vácuo ali no meio. E aí, quando você reúne o pessoal, ah, eu tenho medo de não dar certo. Afinal de contas, não sou eu que estou no controle, quem controla é Ele, é Deus que vai fazer dar certo ou não. E, para mim, isso explica uma pancada de problemas que a gente encontra aí porque a minha dificuldade, tanto de acreditar que eu sou capaz de fazer, como a minha dificuldade de assumir a responsabilidade pelo que deu errado, sabe, a culpa não é minha. E se eu levar para nível do estado e tudo o mais é a mesma coisa. A culpa é do prefeito, foi o presidente, é o governador, não sou eu.

Maria: Eu não sei se esse é o problema. Eu acho que o problema é ficar paralisado e não fazer. O americano vai e faz e se não dá certo, ele vai e começa outro negócio e continua. Estamos generalizando, óbvio que estamos generalizando, mas aqui e na América Latina em geral existe, sobretudo nas mulheres, muito medo de começar um projeto, porque o que vão pensar de mim se não der certo, se não funcionar, eu vou perder tempo, vou perder minha energia, é melhor ficar fazendo o que todo mundo faz. Mas a gente conseguiu começar, aos poucos, a geração mais nova tem uma coisa que a gente não teve, que é o acesso a toda essa quantidade de informação que tem na internet, então eles já vêm com outro chip, as coisas que a gente demora para entender, para eles é muito mais fácil e eles já gravam, já fica na cabeça deles, não é uma coisa com esforço, como a gente teve que aprender. Ah, não deu certo, ok, continua, eles já sabem, já têm uma tendência natural para isso. E então para eles aprenderem a trazer um projeto e realmente fazer o projeto acontecer é muito mais fácil, porque primeiro a gente tira o peso de ter que dar certo, a gente fala “olha, se não der certo, no processo de não dar certo, você provavelmente vai ter outra ideia, ou quando você entender por que não deu certo, vai entender o que pode dar certo então, é só passando pelo ponto B que você vai chegar no C, não tem como pular, difícil pular”. Então a gente tira muito desse peso do fracasso e fala vai, descobre e se não for isso também, ou pode ser que você nem goste de fazer isso, aí você vai mudar, mas você já vai saber, vai ter uma noção mais próxima do que você quer, uma ideia do que você realmente quer fazer. Então tirar esse drama da escolha certa, do para sempre, ninguém mais fica no mesmo trabalho para sempre, isso já não existe mais, essa é uma noção muito antiga, o pessoal gosta de mudar de área, de trabalho, de atividade. E porque o ser humano é uma coisa muito complexa, não é um computador que está repetindo a mesma tarefa dia a dia.

Luciano: Você acha que tem um componente de autoestima grande nessa história toda aí? Você consegue enxergar essa garotada sentada lá com problema de autoestima, do tipo eu acho que eu não sou capaz de fazer, porque eu não me considero capaz?

Maria: Olha, a maioria dos jovens tem uma autoestima baixa, porque os próprios pais têm uma autoestima baixa, então eles cresceram vendo pessoas que não acreditam nelas mesmas, que se conformam com qualquer coisa. Então como elas vão interiorizar um modelo diferente? Muito difícil. E mesmo as pessoas que estão falando lá de como a vida delas é maravilhosa, isso não significa que elas tenham uma autoestima alta. E criança, jovem, pessoas em geral aprendem mais pelo exemplo do que pelo que é falado. Então não importa você ver o seu pai cheio de dinheiro e bem-sucedido se você sabe que ele é infeliz, o jovem vê isso e sabe.

Luciano: É um insight interessante, tem a ver com aquela frase, eu não vou me lembrar agora o nome do sujeito que falou o seguinte “se você quer ser tubarão, ande com tubarão, se andar com sardinha, você vai ser sardinha”. Então se você não pode escolher onde você vai estar, você pode escolher com quem você vai andar e ao escolher com que eu vou andar, eu vou escolher o exemplo que eu estou me abastecendo.

Maria: Aliás, uma das dicas que eu dou para as pessoas em geral, você quer mudar qualquer coisa, começa a estar rodeado de pessoas que já estão nesse lugar. É um shortcut, é um atalho, vai muito mais rápido.

Luciano: Claro, eu quero mudar um hábito de ficar bêbado na sexta-feira, todos os meus amigos ficam bêbados na sexta-feira e eu estou junto com eles e, de repente, eu vou precisar mudar esse hábito no meio de dez caras que não mudam o hábito, é tudo muito mais difícil, não é? Eu tenho que mudar esse grupo, eu tenho que sair desse grupo para poder facilitar essa mudança de hábito e isso é uma decisão, isso dá para fazer, não precisa de dinheiro para isso, você tem que fazer uma escolha. Eu até faço a palestra geração T, geração testemunha, que sabe tudo o que está acontecendo, mas quando você pergunta por que está acontecendo, elas não sabem por que está acontecendo. Isso não tem a ver com geração de idade, qualquer pessoa pode ser geração T. Então eu dou uma provocada nos caras lá, eu falo o seguinte, cara, você só tem 500 reais no bolso, vem um show do grupo de pagode de não sei o que, maravilhoso, que custa 500 reais e ao mesmo tempo tem um curso no sindicato rural de pilotagem estratégica de drones, que custa 500 reais. Você tem que escolher o que fazer com os 500 reais, você vai num show ou vai no curso. Todos os teus amigos vão no show e o show vai ser maravilhoso e terminado o show, você se divertiu, foi muito legal, maravilhoso, os teus 500 reais foram embora. Se você decidir não ir no show, você vai fazer um curso, teus 500 reais vão embora e, terminado o curso, você ganhou. Então tem uma escolha a ser feita nesse momento e você vai ter que ser o cara que vai decidir onde é que eu vou aplicar o meu tempo e o meu dinheiro. E, nesse processo, talvez você tenha que quebrar o pau com os teus amigos.

Maria: Exatamente.

Luciano: Que vão dizer para você que você é doido, que você é chato, que você é um pentelho, porque você não viu, você não foi, foi maravilhoso e você vai ter que conviver com essa…

Maria: É, ou talvez você vai acabar cedendo e vai no concerto com eles, só que depois vai ficar isso no meio da barriga e na próxima vez, quando tiver que investir melhor o dinheiro, a ficha vai cair.

Luciano: O que eu comento com eles, eu falo o seguinte, espera 10 anos, olha para trás e pensa, o que aconteceria com os 500 reais do show se eu tivesse feito o curso de drone? Um exemplo idiota, não é? Se eu tivesse feito aquele curso, talvez minha vida tivesse mudado completamente, com o show ela não muda, a menos que eu encontre lá a mulher da minha vida no show, que eu posso encontrar na padaria da esquina, mas com o show, não muda, com o curso, ela muda. Tem uma escolha no meio do caminho, que é individual, não é?

Maria: É, eu acho que muda de qualquer jeito, porque mesmo quando você faz uma má escolha vem um aprendizado. É, a sensação de culpa, você aprende vivenciando a culpa.

Luciano: Desse ponto de vista, sim, não tem como você não aprender, mas você entendeu o que eu quis dizer, o que eu quero dizer é o seguinte, o que você compra com os 500, o que eu comprei com os 500 reais? Uma hora e meia de diversão ou aprendizado que não vai escapar mais.

Maria: Uma coisa que eu falo muito para os pais é: deixa os jovens fazerem escolhas erradas. No caso, deixar ele ir gastar os 500 reais no concerto. Você pode até dar uma dica, olha, você não acha que o curso vai ser uma opção mais interessante? Aí ele vai, ele acha que não e vai e faz a escolha menos interessante. Porque é o que eu estava falando, todo mundo tem um tempo interno para aprender certas questões e às vezes você precisa mesmo passar por situações, por escolhas ruins. Quantas escolhas ruins eu não fiz? Um monte.

Luciano: Esse é o aprendizado, não é? Aliás, tem uma explicação biológica. Diz que o lado do cérebro que aprende com o ruim é batata, você só faz uma vez, você só precisa queimar uma vez a mão na churrasqueira para aprender a nunca mais botar a mão na churrasqueira, que é o circuito da ameaça.

Maria: É, tem pessoas que precisam de várias.

Luciano: Para quebrar a cara. Mas ali, se eu fiz, eu aprendi. E pelo circuito do prazer é mais complicado. Então, o teu projeto hoje é o projeto da Casa do Presente?

Maria: É, esse projeto está acontecendo, basicamente apareceram vários projetos relacionados com a Casa do Presente. Um que estou focando agora tem a ver com educação alimentar. Então, do próprio projeto a gente manteve a liberdade para fazer o que a gente quiser e foram surgindo outras opções de subprojetos, relacionados com a Casa do Presente. Educação alimentar realmente é um dos pilares para você revolucionar a educação.

Luciano: Os facilitadores são voluntários?

Maria: São todos voluntários, não são voluntários que estão, digamos, no melhor momento profissional deles e eles querem compartilhar isso com os jovens, é uma escolha.

Luciano: Sim. A Casa onde funciona?

Maria: A gente tem parcerias, lugares que são oferecidos. O Google, por exemplo, dá um espaço, tem uma escola de yoga. Por que a gente decidiu, a gente não decidiu, os jovens decidiram que fosse assim, eles falaram uma escola, as mesmas quatro paredes brancas não traz vivência. Então falar de biologia numa tela é muito diferente de você estar no meio de um parque, observando as árvores, os animais. Do mesmo jeito, alimentação tem que começar numa horta e acontecer numa cozinha. Isso foi realmente complicado, porque trouxe esse desafio de ter espaços reais.

Luciano: É um projeto de colaboração ao cúmulo, não é? Você não tem que pagar o aluguel mensal da casa, você não tem que pagar a Dona Maria da limpeza, você não paga luz, nem água?

Maria: É tudo com parceria.

Luciano: É tudo com parceria?

Maria: É. E você se surpreenderia de saber com que facilidade as empresas e as pessoas estão dispostas a ceder o espaço para esse tipo de vivências.

Luciano: Eu acho que sim, porque tem uma coisa interessante que é essa, se você não me pedir para ceder dinheiro, o resto que eu tenho aqui pode usar à vontade. Uma empresa lá, vai bater no financeiro, “não, dinheiro nós não temos”. Agora, vem cá, posso usar o campo de futebol? Pode.

Maria: E até os próprios funcionários. Teve várias empresas que me falaram, eu vou dar um dia de trabalho de meus funcionários para eles trabalharem para a Casa do Presente. Só que também eu não deixo qualquer pessoa entrar, eu faço uma seleção, porque justamente eu procuro pessoas que sejam um exemplo. Eu estava falando que você aprende mais pelo exemplo, muito do aprendizado é uma coisa tácita que você nem entende direito como está acontecendo. Estar do lado de um artista, por exemplo, vai te ensinar muito mais de arte do que um curso entre quatro paredes de, sei lá, gramática do português para você escrever um poema. Tem uma coisa como que está impregnada, eu não sei como explicar, é a presença de alguém que transpira isso.

Luciano: É osmose. Passa pelo ar e pega você. Tem uma energia ali dentro. Eu cansei de vivenciar isso na minha vida inteira. O estar perto, não precisa nem abrir a boca, deixa eu ficar perto, você já pega alguma coisa ali.

Maria: Então eu prefiro profissionais que não necessariamente tenham um perfil de professor, mas que transpiram o que eles ensinam, que esteja em cada uma das células da pessoa, porque isso vai ensinar muito mais. Alimentação é um aspecto muito fácil, uma coisa é eu te falar sobre não come isso, não come aquilo, outra coisa é você simplesmente me acompanhar para almoçar e observar o que estou fazendo, aí você vai ver quais são minhas escolhas, quais são minhas perguntas na hora de pedir algo no restaurante. E eu não estou em nenhum momento tentando te evangelizar, falando não, isso é ruim. E com o jovem é assim, eles só observando e participando de vivências, você não tem que dar instruções para eles lembrarem, simplesmente trazer uma vivência e os exemplos certos, exemplos inspiradores. E atividades em que eles sejam protagonistas e não pessoas passivas que estão sendo copos para serem preenchidos.

Luciano: Muito legal. Esse é o teu negócio hoje?

Maria: É, eu tenho isso, agora estou com esse projeto de educação alimentar que estava te falando que é um dos projetos que surgiu através da Casa do Presente.

Luciano: Como é que você ganha dinheiro? Como é que você custeia a tua vida? Se você trabalha como voluntária, de algum lugar vem, como é que você faz?

Maria: Olha, minha rede de networking é muito grande e você acaba se tornando uma referência em diferentes aspectos, em diferentes temas. Estou procurando uma palavra melhor, porque nem é temas nem aspectos. Você se torna um inovador, eu não gosto dessas palavras assim da moda, mas geralmente é uma pessoa que trabalha com inovação, então você é uma referência para resolver problemas, outras é um conteúdo diferente que vai mudar uma empresa, por exemplo. Aí, de repente, uma pessoa que conversa com um médico, já me aconteceu, eu não vou em médicos tradicionais mas, de repente, esse tal médico conhecia um pouco a minha história e fala “ah, você não tem vontade de vir aqui para fazer uma consultoria e tentar trazer isso para cá?” E aí as oportunidades vão surgindo, então muitas das minhas contas eu pago com consultorias, com projetos que eu sou convidada para participar.

Luciano: Networking e colaboração de novo.

Maria: Sim. E, realmente, eu acho que uma coisa que é importante é ser muito verdadeiro, não estar atrás do projeto pela grana, sabe, essa coisa assim de estar desesperado, isso não atrai propostas. Você tem que deixar a proposta vir para você, obviamente, que você vai fazer um trabalho para isso, um trabalho que você acredita em fazer e da melhor forma possível, mas as pessoas mais visionárias, que têm essa cabeça mais aberta, você acaba conhecendo elas e elas acabam te chamando para entrar junto em projetos e criar junto. Criar junto porque quando você chega, por exemplo, trabalhando com educação e inovação na educação, você percebe que não é uma questão de eu, Maria, você, Luciano, o que importa é que o trabalho seja feito. Então, aí você não vai chamar o seu amigo, você vai procurar a pessoa que faz a coisa acontecer e que acredita de verdade nisso. Não é mais uma questão de um nome que aparece na entrevista, ninguém se importa mais quando você trabalha pelo propósito. E, para mim, por exemplo, o foco no aluno, no caso da Casa do Presente, se o aluno está tendo algum nível de sucesso, é esse o sucesso de que eu faço parte.

Luciano: Essa é a tua medida?

Maria: É, eu não preciso aparecer, entendeu? E, da mesma forma, as pessoas que me chamam para fazer coisas junto com eles estão nessa mesma busca. É isso, saber identificar o que eu não sei, aí eu vou chamar a pessoa que, sim, sabe fazer aquilo e com muita rapidez, porque eu já tenho uma rede. Então eu sei que surgiu um problema, no WhatsApp eu já tenho a pessoa que sabe fazer isso.

Luciano: Esse é um mundo totalmente novo, não é? Esse é um mundo totalmente novo que vai quebrar tudo o que está por aí, eu não tenho dúvida nenhuma. O que vem pela frente?

Maria: O projeto de educação alimentar.

Luciano: Você vai querer que pare de comer carne, é isso?

Maria: Não é parar. Primeiro, tudo é autoconhecimento na educação. Então, começa com você observar como o teu corpo fica quando você come determinados alimentos e perceber quais alimentos são melhores para você, em que parte do dia, em que parte do ano, em que parte do mês, para as mulheres sobretudo. Por exemplo, uma pergunta que eu faço para as pessoas, você fica com sono depois do almoço? Então é alguma coisa que você está fazendo errado. Então como posso mudar isso para eu realmente estar bem o dia inteiro e a proposta da educação alimentar começa com isso, com olhar para o corpo, que é o espaço que permite a gente fazer tudo o que a gente quer fazer. E para a maioria das pessoas essa mudança na alimentação traz mais espaço mental, mais ideias, mais vontade de fazer, mais força. Tudo o que a pessoa não consegue fazer, às vezes mudando a própria alimentação simplesmente acontece sem esforço. A gente descobriu isso também com os próprios jovens, mudando a alimentação. E também a gente tem outros projetos com alimentação em escolas, para tentar trazer alimentação saudável para as escolas públicas e particulares. Os próprios hospitais, se você olhar para os hospitais, até hospitais como o Einstein têm suco de caixinha e pão de queijo para servir para as pessoas. Então é tentar realmente levar essa proposta para outros lugares, porque é uma forma mais fácil. Eu não falei dos conteúdos da Casa do Presente, alimentação saudável é um deles, mas tem outros, mas outros um pouco mais difíceis talvez de você vender para um público geral, como a própria meditação, por exemplo, que não precisa ser uma coisa passiva também, se você não gosta disso, mas é encontrar uma forma de você criar um espaço interno para a tua força poder realmente se manifestar da melhor forma possível. Se você está completamente ligado no WhatsApp, na televisão e em diferentes atividades do dia, em que momento você se conecta com você e em que momento tuas ideias mais inovadoras vão surgir? É difícil, aí a gente traz esse componente da meditação que também é um antídoto para a depressão, essas questões que estávamos falando de transtornos da ansiedade. A pessoa tem tanta informação na cabeça, não sabe lidar mais, tem que criar um espaço, mas essas questões a gente, através da alimentação saudável, naturalmente elas começam a surgir. Aí você muda a alimentação, imagina, dos jovens de uma escola, de repente você faz uma atividade de mindfulness, para ensinar eles a comer, por exemplo, com um pouco mais de consciência durante o ato. Em vez de ficar no celular enquanto eu estou comendo, fazer um exercício de olhar para mim, de ver o que está acontecendo no meu corpo, os sabores da comida. Você não imagina quantas pessoas, se você coloca uma venda nos olhos, elas não sabem o que estão comendo se não conseguem enxergar, porque estão tão afastadas da experiência. Então é uma reeducação alimentar que traz um olhar interno, que traz um espaço interior, que traz ideias novas para a pessoa realmente começar a se perguntar o que ela quer fazer com esse corpo e com a pessoa que mora dentro dele.

Luciano: O que mais que tem de conteúdo na escola? Desculpe, na Casa.

Maria: Tem empreendedorismo. A gente tem uma rede de mentores, a gente trabalha com mentores, então o aluno chega com um projeto, aí tem um coach que ajuda a fazer uma apresentação do projeto. A última vez a gente fez isso num esquema de speed dating. Já ouviu falar de speed dating?

Luciano: Já.

Maria: Você quer conhecer pessoas num bar, aí se apresenta, troca de pessoas, aí se apresenta de novo, só que com mentores e jovens. Aí eles tinham 30 segundos, 1 minuto para apresentar um projeto.

Luciano: O famoso pit.

Maria: É, o famoso pit. Eles prepraram com antecedência e o mentor dedica umas horas da semana para acompanhar esse projeto do aluno. E têm surgido coisas maravilhosas, o menino que fez uma bike de bambu, que carrega o celular enquanto você pedala. Ele tem 14 anos, já apresentou em feiras de startups, ele é uma graça, super engraçado. O pessoal não acredita que um menino tão novo está com uma ideia dessas, mas é muito fácil para eles, é só você dar as ferramentas. Tem meninas criando empresa com 18 anos, de cursos de língua que incorporam saídas, excursões dentro de São Paulo, cursos de português para estrangeiros. Enfim, tudo isso com 17, 18 anos. Então empreendedorismo é realmente um dos pilares, mas dessa forma mais intuitiva e com espaço para mudar de opinião e fazer ajuste. Então a gente entende que muitas vezes o jovem não vai aparecer com uma coisa que vai dar dinheiro, que nem quando a gente começou com a Casa do Presente, a gente não sabia se depois ia vender isso para escolas, ou se dava para escalar. A grande pergunta era como você vai fazer escalar isso? Começa com 60 alunos, como isso vai escalar? Escala de diferentes formas, só que você tem que dar, é como uma planta, você não sabe que fruta vai sair da planta, você tem que colocar a semente, colocar água e esperar e aí, de repente, vem. E foi isso, então empreendedorismo, meditação, yoga, alimentação saudável, escrita, falar em público, inteligência emocional, comunicação, a gente muda muito a forma que eles se comunicam também, tenta trabalhar esses aspectos. Você já deve ter percebido o nível de agressão na comunicação, sempre. Então como mudando a minha comunicação eu não só melhoro o meu relacionamento com as pessoas, mas também acabo criando novas oportunidades de negócios, conseguindo criar um rapport com o cliente.

Luciano: Isso é genial. Como é que alguém que queira participar pode participar? Em duas pontas, se eu quisesse ser um voluntário para estar lá ou se eu sou um estudante, quero estudar lá, como é que eu faço?

Maria: Voluntários, a gente tem muitos, então nesse momento não estamos procurando ninguém, é o que mais tem. Quando a gente abriu os formulários para as pessoas se inscreverem tinha mais voluntários do que alunos querendo participar, é impressionante. No começo, não é? Por quê? Porque você se espelha, você fala, bom, eu não tive a sorte de ter acesso a essas informações, mas então eu quero ajudar quem ainda pode ser diferente, eu não quero que esses jovens fiquem estragados como eu fiquei, então eu vou ajudar. Isso tem muito, pessoas que querem facilitar esse processo para outros, mas então para voluntários até pode mandar e-mail para [email protected], mas sabendo que imediatamente não vou poder abrir vagas. Mas se tiver, por exemplo, sempre estamos procurando são novas parcerias, ideias e sempre ideias um pouco fora do comum, tudo o que for fora da caixinha total, a gente gosta bastante disso, mas no final sempre são os jovens que decidem. E para os jovens, a gente abre turmas. Este ano ainda não abriu uma turma nova, mas mais para a frente vai abrir uma turma nova, então é ficar de olho no site da Casa do Presente, sobretudo no Facebook e no Instagram.

Luciano: Casadopresente.com.br.

Maria: Sim, mas sobretudo para o que é comunicação a gente utiliza mais as redes sociais, que é o que os jovens usam, jovens não entram muito em sites mais.

Luciano: E no Instagram está como Casa do Presente e no Facebook também. E paga alguma coisa?

Maria: Não.

Luciano: Nada? Os jovens não pagam nada?

Maria: Jovem não paga nada. A gente pensou num momento em cobrar de quem podia pagar e não cobrar de quem não podia, mas achou que isso também ia estragar um pouco o próprio conceito. E aliás não é tão fácil assim, quem tem condições de pagar não necessariamente os pais vão dar o dinheiro para eles pagarem, então a gente exigiu que eles não pagassem.

Luciano: Eu imagino que o horário deve ser um horário alternativo, fim de semana, como é que é?

Maria: Fim de semana, à tarde, normalmente, porque muitos vêm da periferia, então você marcar às 8 da manhã, para eles fica muito difícil. E tem parceiros, por exemplo, sempre tem alimentação orgânica nos eventos, eles dão comida, porque a ideia é você não… a gente sempre está tentando melhorar, porque sempre aparece alguma coisa, dá um copo de plástico, a gente pode até pensar em outra coisa, aí sempre vamos tentando melhorar tudo, mas a ideia é realmente você, é o que eu falei, representar o que você quer ensinar, em vez de você falar. Então se dá para você não usar copo de plástico para falar em sustentatibilidade. Tem vários temas, agora estou lembrando, mas são todos esses aspectos que eles mesmos propuseram. Tem muitas questões também de saúde, as meninas querendo aprender um pouco mais sobre ginecologia, mas ginecologia natural, entender, conhecer o corpo da mulher sem todos os remédios que elas recebem, essa quantidade de exames, muitos são necessários, outros não necessariamente, então elas querem entender como funciona.

Luciano: Como é que você vai escalar esse negócio? Ou você não quer escalar?

Maria: A palavra escalar, para mim…

Luciano: Eu digo escalar assim, vai abrir uma branching no Rio, ou em Minas Gerais?

Maria: Não, a gente está deixando a casa crescer mais organicamente e deixar os projetos paralelos que vão surgindo, digamos, como um guarda-chuva. Está a Casa do Presente e os projetos que vão surgindo através dela, como filhos da Casa do Presente. Então os próprios projetos, os alunos que já se formaram. Nada é fixo, mas o trabalho que a gente faz com a turma dura mais ou menos um ano.

Luciano: Se aparecer uma Maria em Recife que quer abrir um negócio parecido lá?

Maria: Que maravilha.

Luciano: Se ela vier falar com você, você passa, você conta a história para ela como é que funciona? Você dá as dicas?

Maria: Olha, eu não acredito em ser dono de ideias, se minha ideia for boa para outra pessoa, para começar não é minha ideia, é ideia de um monte de gente que participou na criação disso, mas se isso fizer sentido para outra pessoa, que fique à vontade. Acreditar que uma ideia é de alguém acho que é a maior mentira do mundo, nada é a ideia de alguém, é o produto de um contexto, de um coletivo, de um monte de coisas. Isso é uma coisa mais do ego. Agora, como essa pessoa lá em Recife depois pode fazer o negócio ficar em pé e outras oportunidades de trabalho surgirem, isso já vai ser uma questão dela, da bagagem dela, mas eu considero que boas ideias deveriam ser compartilhadas, porque estão no benefício da sociedade, não do bolso de cada um.

Luciano: Muito bom. Casadopresente.com.br, Casa do Presente no Instagram, Casa do Presente no Facebook. Maria, obrigado por ter escolhido o Brasil para fazer isso aí, viu, você podia ter escolhido qualquer lugar e veio fazer aqui. Acho que é um projeto bem interessante e eu imagino conversar com essa garotada que passou por lá daqui a alguns anos, sabe. E falar, me conta a tua experiência, porque isso aí quebra tudo, tira fora como você falou, da matriz, do matrix, tira o garoto fora do matrix, a menina fora do matrix e ela vai ver um mundo que ela não está vendo no dia a dia dela.

Maria: Olha, eu vou te dar um exemplo que eu fiquei um pouco chocada quando aconteceu, foi produto dessa transformação toda que você vê nos jovens, uma menina de 17 anos, a mãe casou com outro cara, separou do pai dela, casou e mandou ela embora, porque o marido novo não gostava de ter a filha da esposa morando na casa e ela acabou indo morar com outros familiares. Eu falei, uau, isso tem um potencial de deixar a menina bem desequilibrada. Eu falei para ela “e aí como você se sente? Está com raiva, como você está se sentindo?” Ela falou “ah, Maria, minha mãe não teve muitas opções, sabe, para aprender a crescer e ser diferente, ela é o que é e o que ela faz é o melhor que ela consegue fazer hoje. Não é por falta de amor, ela realmente está fazendo o melhor que ela consegue, não sabe fazer outra coisa. Então não estou brava, não, eu entendo”. Então eu vi isso e falei, gente, ela entendeu tudo, 17 anos. Ela sabe que os pais estão cheios de erros, têm falhas, têm carências, têm falta de oportunidade. Ela não teve acesso à educação, ela não entende o que está fazendo.

Luciano: E a menina em vez de esperar que viesse tudo a ela, foi atrás. Vai atrás e vai fazer acontecer.

Maria: Ela já está fazendo acontecer, você não tem noção as coisas que ela já fez e tudo sozinha, mas com esse entendimento e essa aceitação do outro. Em vez de ficar reclamando, de ficar na raiva, tentar observar desde outro lugar. É inteligência emocional e a própria vivência de estar com colegas também de outras classes sociais, de outros backgrounds, de outros estilos de vida que traz essa vivência, que traz esse entendimento do que é importante e de como lidar com a realidade quando ela não é legal.

Luciano: Então você que está nos ouvindo aí acabou de ter uma lição, eu acho que dá para dar certo. A gente está acostumado o dia inteiro a ser massacrado por essas histórias horrorosas que chegam através da mídia. É só sacanagem, é só gente roubando, é só tragédia, parece que é só isso que tem para alimentar a gente. E Rubem Alves que dizia, se você comer porcaria, teu corpo vai encher de porcaria, se você botar porcaria para dentro da cabeça, tua cabeça vai ficar cheia de porcaria, não tem segredo nisso aí. O que você está escolhendo para alimentar a si próprio. E você começou o programa botando a autoestima do brasileiro lá em cima, mostrando, cara, eu estou olhando de fora, consigo ver o que vocês não veem. E depois mostra que está cheio de gente disposta a fazer acontecer, apenas dê um pouco mais de espaço que essa molecada vai criar coisas legais. Escuta, falamos aqui durante uma hora e vinte e cinco minutos e você sentou aí na frente e falou assim “eu sou muito ruim para falar, eu não sei assim no improviso”. Você está vendo?

Maria: Eu não sei, eu nem vou ouvir isso depois, porque que horror porque sei que falei alguma bobagem.

Luciano: Acho que foi muito legal. Obrigado por ter vindo, obrigado pelo tempo que você nos deu aqui e conte comigo aí. Se quiser vir gravar aqui, tem um estudiozinho, tá? Está à disposição, pode usar.

Maria: Muito obrigada. Vou mandar os meninos fazer alguma coisa, então.

Luciano: Vamos lá, podcast da Casa do Presente. Um beijo.

Maria: Obrigada.

Luciano: Muito bem, aqui termina mais um Líder Cast. A transcrição do programa você encontra no lidercast.com.br. O LíderCast chega a você com o apoio da Albaugh Brasil, que está revolucionando o mercado com uma linha completa de agroquímicos genéricos. Sim, cara, genéricos de qualidade, combinando proteção, rentabilidade ao agricultor e respeito ao meio-ambiente. Conheça as soluções Albaugh em bit.ly/escolhainteligente. Para ter acesso a esta temporada completa, assine o Café Brasil Premium no cafebrasilpremium.com.br, um ambiente educacional sem ser chato nem superficial, que já conta com mais de mil assinantes recebendo todo mês conteúdos voltados ao crescimento pessoal e profissional. Conheça, que vale a pena, cafebrasilpremium.com.br.

Você ouviu LíderCast, com Luciano Pires, mais uma isca intelectual do Café Brasil. Acompanhe os programas pelo portalcafebrasil.com.br.

Fim da gravação.

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