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Luciano Pires -
Download do Programa

 

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Bem-vindo ao LíderCast, o podcast para quem quer saber mais sobre liderança. Apresentação Luciano Pires.

Luciano: Bom-dia, boa-tarde, boa-noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o podcast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. No programa de hoje, eu converso com Alice Quaresma, artista plástica, uma história sensacional de uma garota que um dia descobre a fotografia e hoje vive exclusivamente de sua arte em Nova York. Este não é um programa de entrevistas, não tem perguntas programadas, nem roteiro definido, é um bate-papo informal com gente que faz acontecer, que vai para lugares onde nem eu e nem o meu convidado imaginamos. Por isso eu não me limito a fazer perguntas, mas eu dou os meus pitacos também. Você entendeu aí? Isto aqui não é uma entrevista, é um bate-papo. O LíderCast é lançado por temporadas. Os assinantes da Confraria Café Brasil e do Café Brasil Premium têm acesso imediato à temporada completa assim que ela é lançada, os não-assinantes receberão os programas gratuitamente, mas um por semana. Para assinar, acesse o cafebrasilpremium.com.br.

Luciano: Muito bem, mais um LíderCast e vamos lá, tentar descobrir como é que essa pessoa veio parar aqui. O irmão dela me manda um e-mail “cara, eu sou fã do LíderCast, hoje eu ouvi de manhã. Você tem que falar com a minha irmã. Minha irmã mora nos Estados Unidos, de vem em quando ela vem aqui e minha irmã faz isso, faz aquilo”. Eu falei, não, para, espera um pouquinho, eu não vou nem me aprofundar, porque só o insight que ele deu ali já me deixou curioso. Mandei um e-mail para ela, topa? Ela falou, topo. Faz o quê? Faz uma semana, acho que tem uma semana. Em uma semana ela estava aqui no Brasil, vou aí e pronto, está aqui, diante de mim. Vamos a mais um programa aqui que promete inspirar e contar umas histórias boas. Você já ouviu, já sabe que tem três perguntas fundamentais no começo do programa, que são as únicas que você não pode errar de jeito nenhum. Uma delas é muito incômoda, mas vamos ver se você consegue. Seu nome, sua idade e o que você faz?

Alice: Oi, prazer, gente do LíderCast. Primeiramente, obrigada meu irmão Diogo Rodrigues, que me apresentou ao Luciano, uma alegria estar aqui com vocês. O meu nome é Alice Quaresma, eu tenho 32 anos e eu sou artista plástica.

Luciano: Artista plástica. É, hoje vai ser boa a história aqui, gente que ganha a vida com artes plásticas. Seu sotaque indica que você nasceu em alguma região do Nordeste, ou talvez interior de São Paulo, falando ‘poirta, poirco’.

Alice: Não, eu nasci no Rio de Janeiro e há 15 anos eu moro fora do Brasil. Eu comecei por Londres, fiquei 4 anos em Londres e agora já completando 11 anos em Nova York.

Luciano: Nós vamos chegar lá. Nós vamos com você para essa tua viagem aí. Muito bem, você nasceu no Rio de Janeiro. O que o seu pai e a sua mãe faziam?

Alice: Minha mãe sempre foi diretora de empresa e o meu pai trabalhava com fábrica de roupa, então ele era representante e fazia essa conexão entre as fábricas e lojas de roupa no Rio.

Luciano: Você cresceu num ambiente então com pai e mãe trabalhando, a mãe executiva e o pai na área de vendas.

Alice: Sim, muito.

Luciano: Tem quantos irmãos?

Alice: Eu tenho dois irmãos.

Luciano: Você é a mais velha, a mais nova?

Alice: Eu sou a do meio. E só aí já tem uma história muito interessante que se você quiser ouvir um pouco.

Luciano: Fala, que nós estamos aqui para isso.

Alice: Então, eu sou a irmã do meio, eu tenho o meu irmão Diogo, o mais velho, a gente tem um ano de diferença. Meus pais sempre trabalharam muito, a vida toda. Vim de uma família que vi meus pais crescerem ficando muito com minhas avós, que foi assim muito incrível isso, sempre muito próxima do meu irmão mais velho, a gente tem um ano de diferença, a gente cresceu como se fosse gêmeos, tudo era junto. E eu tenho um irmão dez anos mais novo. Mas a história legal é que os meus pais são casados, mas o meu irmão não é filho da minha mãe, então a história é que os meus pais ficaram separados 13 anos, mais ou menos e eles voltaram e hoje estão juntos há 15 anos, desde quando eu saí do Brasil.

Luciano: E seu pai voltou para o relacionamento trazendo um filho novo?

Alice: Incrível, que a gente ama muito e que a minha mãe considera assim um filho, minha mãe fala “esse é o meu filho mais parecido comigo”. E os dois casaram de novo, os dois tiveram outra vida e depois voltaram e voltaram nesse momento em que eu saí, então isso foi muito legal. Meus pais, uma coisa que eu levo muito comigo da minha infância é um aprendizado que eu tive com os meus pais separados. Eles foram pais separados muito unidos.

Luciano: Eles se separaram quando você era pequenininha ainda?

Alice: Quando eu tinha 5 anos.

Luciano: Você nem entendeu a separação então. Não deu para entender a separação.

Alice: Sabia que eu lembro muito nitidamente o dia que eles contaram para a gente que eles iam separar, engraçado isso. O meu ponto de vista disso é, meus pais sempre foram muito honestos com o divórcio deles, com a separação, sempre conversando muito com a gente, meu pai muito presente em todo o meu crescimento, até nessa minha vontade de ser artista plástica. Foi eu acho que uma surpresa para todo mundo e eu queria ser artista plástica desde criança e eu acho que meus pais sempre conversaram muito, a minha mãe, por ter uma educação melhor, sempre levando isso para o meu pai, mostrando, olha, acho que vale a pena, vamos incentivar ela nessa área. E então eu levo como um presente, porque eu vi muitos amigos meus sofrendo com a separação dos pais, onde os meus pais me mostraram uma lealdade e amizade nessa separação.

Luciano: Aqui mesmo, passa cada história aqui, as histórias ficam claras, meu pai chutou o pau da barraca e sumiu, meu pai morreu, meu pai desapareceu, meu pai saía, voltava, saía de novo. Então tem essa coisa do desagregar. Quanto tempo depois eles retomaram?

Alice: Então, no meu cálculo, por cima, mais ou menos uns 13 anos depois.

Luciano: E nesse período eles tiveram outros?

Alice: Minha mãe foi casada, meu pai foi casado e o meu irmão Gabriel veio e sempre foi incrível. Nesse sentido, me ajudou muito até amadurecer.

Luciano: Quer dizer, eles retomam, você está com 18 anos?

Alice: Estou com 18 anos, eu já tinha ido morar em Londres e como a gente sempre fez coisas muito juntos, a nossa família, tanto por parte de pai e mãe é pequena e as avós são muito presentes na nossa vida e meio que a mãe do meu pai sempre andou muito com a minha mãe, independente se eles estavam juntos ou não, cresci muito com ela. E aí quando meu pai separou, minha mãe separou e eu estava fora do Brasil e eu vinha passar férias, meio que era mais fácil todo mundo se ver junto, porque eu estava aqui uma semana, duas semanas. E eu acho que nessa questão de me ver, eles acabaram se reencontrando na parte amorosa. Aí o relacionamento deles começou.

Luciano: Quer dizer que a Alice é agente da reaproximação, muito bom.

Alice: Mas foi muito inesperado. Eu não esperava, para mim e eu acho que para o meu irmão mais velho foi uma surpresa, mas depois foi uma coisa assim muito feliz. Adoro ver eles juntos.

Luciano: Você está falando aí e eu estou vendo um brilhinho no olho quando você toca na importância dessa questão da família na sua vida. A gente nem aprofundou a conversa, mas eu estou vendo um brilhinho no olho aí. E num mundo onde se contesta cada vez mais essa história do papel que tem a família etc. e tal, pô, eu sou alguns séculos mais velhos que você, alguns séculos, para mim essa questão de família é sagrada, é a raiz de tudo. E hoje em dia tem uma contestação muito grande, quer dizer, ah, não precisa, é bobagem, a família é a causa dos problemas, então um papo furado. Não é esse o papel aqui, vamos continuar. O que é que você queria ser quando crescesse?

Alice: Eu queria ser artista.

Luciano: Da onde vem isso, hein?

Alice: Eu não sei explicar, eu não consigo, mas o que eu acho interessante até falar é que eu não era uma criança que queria ser artista porque eu desenhava bem, porque eu pintava bem, não era o caso. O que sempre me chamou muito a atenção nas artes plásticas era a possibilidade de criar algo que não necessariamente existe no mundo real, existe no dia a dia, era essa possibilidade da imaginação.

Luciano: Mas você não consegue elaborar isso com 5 anos de idade, tinha um tio que pintava, ou um vizinho que você olhou e falou, meu, que legal isso aqui, você bateu o olho, falou, cara, não? Isso foi natural?

Alice: Não, nada. Não tenho ninguém de artista na minha família, não sei dizer. Eu me lembro que, eu adoro falar essa história hoje em dia, quando eu era menor, eu me achava meio maluquinha, porque eu falava, gente, por que eu acho isso interessante? E eu fazia uns desenhos e ia contando o desenho, para mim não era interessante fazer a casa, com a nuvem, o sol e a família, para mim era interessante pegar a nuvem, aí eu fazia assim, uma nuvem, aí a próxima página duas nuvens e aí eu ia contando, porque naquela idade eu estava aprendendo a contar, e ia contando nuvem e aquilo para mim era interessantíssimo, porque já era uma abstração, entendeu? A coisa não era dada diretamente, me deixava imaginar, então eu tinha que completar aquele desenho de alguma forma, sabe? Então eu contava às vezes umas linhas, sempre gostei muito de coisas de geometria, coisas simplificadas, mas que de alguma forma me traziam para aquilo, me paravam assim, sabe, não era óbvio, eu não gosto muito do óbvio. E aí foi meio que assim e ao longo do tempo óbvio, essa ideia vai e vem desde criança e tal, eu tentei achar vertentes do design, de repente fazer moda, eu tentava, mas ao mesmo tempo sempre voltava…

Luciano: Transformar numa atividade que as pessoas compreendessem o que é, não é?

Alice: É.

Luciano: Eu sou artista, trabalho com moda, ôpa, ela faz vestido, eu consigo compreender o que é, eu sou pintora, ôpa, ela pinta quadros, eu sei o que é. Seu pai e sua mãe sacaram que você ia por um caminho e deram força ou tentaram enquadrar você, minha filha, vai fazer uma escola para ter o diploma. Como é que foi isso?

Alice: Então, eu acho que aí a minha mãe foi muito importante em me ajudar a entender e fazer isso possível, essa minha vontade de trabalhar com artes plásticas, e ela eu acho que ajudou muito nessa conversa com o meu pai, de explicar para ele. E o mais legal foi ele acreditar na minha mãe de fato, a falar então se você vê esse potencial, então vamos em frente, é isso. Eu sempre corri muito atrás, eu sempre fui procurar, então eu queria fazer aquilo, eu ia para o Instituto Hélio Oiticica com 14 anos, sabe e eu ia lá, tem coisas que você não esquece, então eu lembro que eu acho que tinha 14 anos, eu comprei um livro chamado As Cartas, do Hélio Oiticica e Lygia Clark, que era onde eles trocavam essas cartas quando ela estava na França e ele estava nos Estados Unidos, em Nova York. E aí ele uma hora volta para o Brasil, ela volta e era essa troca disso que a gente está fazendo agora, não falava nada do trabalho deles em si, mas falava dessa vivência deles nesses outros lugares e nas faltas e na saudade e no conforto e na comida e no paladar. Então falando de tudo, mas não necessariamente o trabalho de fato, porque eu acho que no fim, assim principalmente em arte, a gente está falando da vida, a gente está falando de experiências, a gente está falando do… o artista ele concretiza a… a gente está reagindo à sociedade. A gente reage no presente e a gente tem uma voz que a gente acredita que venha, sabe, a gente tem uma visão meio para a frente, um pouco. Então ele é ousado, o artista meio que põe a cara a tapa, sabe.

Luciano: E você atua num nível de percepção que não está com o pé na realidade, não é o meu dia a dia aqui da continha que eu tenho que pagar, você sobe um degrau e começa a voar. A gente estava conversando agora há pouco ali na minha sala essa dica que eu vou dar a vocês aqui, eu nunca sento com o meu entrevistado antes para conversar e cutucar ele, eu tento evitar ao máximo a história dele, a gente sentou ali, começou a trocar uma ideia, estávamos falando sobre as experiências, tudo. E eu estava contando da minha experiência com o LíderCast e o meu esforço para pegar um Olavo de Carvalho, uma Janaína na hora da entrevista e sair do rótulo. Vou conversar com esses caras para tirar fora o rótulo, tirar fora a caricatura e tentar falar com a essência da pessoa. E a gente começou a dar uma série de exemplos de pessoas que têm um trabalho brilhante na área das artes que, de repente, politicamente é um nó cego, é um zero à esquerda. Aliás, eu posso até nominar, eu falei, você tem o Luis Nassif, que é um horror politicamente e que, de repente, o cara tem um trabalho de resgate da música que é um negócio fantástico. Franklin Martins, é horrível politicamente, mas tem um trabalho de resgate da música que é um negócio de você realmente apreciar. Se você mistura os dois canais, você acaba perdendo esse lado, que é o lado que arte traz e que enriquece tanto a vida da gente. Mas vamos lá, aí você vai seguir o caminho que todas as pessoas seguem normalmente, você vai fazer uma escola, você vai estudar, você vai para o colégio. Eu não sei como é que é na tua época, se já não era mais colégio, ginásio e chega na hora de escolher uma universidade. O que é que você foi fazer?

Alice: Então, aí é onde eu acho que os meus pais foram essenciais, principalmente a minha mãe, sempre me deu, como foi uma mulher trabalhando em empresa, diretora de empresa e tal, eu acho que ela, na época dela teve que passar por muitos preconceitos, teve que abrir muita porta, e ela sempre foi muito, minha mãe é muito focada, muito determinada e ela passou isso para mim e o que eu acho muito lindo, quanto mais velha eu fico, mais eu agradeço isso a ela. E ao meu pai também, que eles nunca não me deixaram sonhar, eles falaram, se é isso que você quer fazer, vá em frente, porém tem que entender certas coisas, você tem que ter o pé no chão. Esse pé no chão que eles me ensinaram, não só ensinar porque é incrível isso é eles demonstrarem, eles demonstraram isso muito, sabe. Então acho que essa falta, eu tive muita falta deles às vezes quando eu era criança, porque eles estavam trabalhando, trabalhavam muitas horas, ficavam muito ausentes, mas ao longo da vida aquilo fez muito sentido e todos os ensinamentos que eles puderam me passar, então minha mãe sempre falou, olha, as coisas não vêm fácil, você tem realmente que ter muita dedicação, não faça nada que não seja uma verdade sua, não faça nada para ter um resultado amanhã, você tem que ter um resultado a longo prazo. E eu era uma aluna esforçada, mas mesmo esforçada não tinha as melhores notas, eu demorava para entender, porque acho que vivia no mundo muito da criação, então eu queria sempre criar, entende? Então eu não dava a resposta que o cara queria ouvir, sabe, eu estava dando aquela resposta além daquilo. E o mais incrível é que eles falavam, tudo bem, você não precisa acertar agora, você tem uma vida inteira para acertar. E aí vem até a conexão com o meu trabalho hoje, essa minha paixão pelo processo. Aí eu comecei a entender que a riqueza, o interessante está no processo de fazer algo. Então que eu me mantenha sempre ativa e aberta para aprender, porque foi aí e por mil coisas que aconteceram na minha vida já e que venham mais coisas maravilhosas é que você entende que a gente tem que estar sempre aberta, a gente está sempre aprendendo. E a gente só tem que viabilizar essa vontade.

Luciano: Os americanos têm um termo que eu adoro, eles sempre falam momentum, você tem que manter o momentum, que significa que existe um movimento, sempre em movimento, mova-se. Sabe aquele filme Happy Feet? O filme é uma delícia, o primeiro Happy Feet, que é o pinguinzinho que dança e tal. No primeiro DVD, tem uns especiais no DVD, tem uma cara que vai mostrar aquele, quem lembra da história, o pinguinzinho sapateia, é um pinguim que sapateia e o tempo todo ele dança, então o talento dele é sapatear. E aí nos extras aparece um cara ensinando como é que é o esquema do sapateio e ali tem um trechinho que é uma delícia, cara, que ele fala assim, balance, tudo é balance e ele está falando sobre movimento e equilíbrio, o balance, movimento e balance, e ele começa a sapatear e você vai vendo o movimento dele, ele fala, cara, o segredo é isso, é balance, é movimento. A única coisa que não pode fazer é ficar parado, estagnar e não mexer, que é isso que você fala do processo, quer dizer, o desenvolvimento, o movement, mantenha o momentum, deu o empurrão, começou a andar, não deixa parar mais.

Alice: Exatamente. Cem por cento.

Luciano: E a faculdade, na hora da escola, o que você foi fazer?

Alice: Então, aí indo um pouco mais direto nesse ponto, antes de eu ir para a faculdade, que é muito cedo, eu muito jovem comecei a pedir para os meus pais para fazer aula de pintura, fazer aula de fotografia. A minha paixão era a pintura, assim uma coisa que me chamou a atenção primeiro foi esse livro As Cartas, do Hélio Oiticica e Lygia Clark, são artistas que até hoje fazem parte do meu trabalho, de produção, de chegar a um ponto criativo, que tem muita relação com o fundamento deles. A outra coisa é, o primeiro trabalho que eu lembro até hoje, que eu falo e a minha mãe lembra acho disso também, foi a primeira vez que eu fui a Londres, eu acho que posso estar errando a idade, mas acho que eu tinha entre 12 e 13 anos e eu vi a pintura Quatro Estações do Cy Twombly, que é um artista americano. Quando eu vi aquelas pinturas, são pinturas enormes, de três metros, eu me lembro que eu não conseguia me mexer. Foi uma coisa assim, que eu não conseguia, não entendia nada do que ele estava falando, é uma tela abstrata, com muita cor, com tinta intensa, uma vibração da cor e ali eu entendi, “é isso que eu quero fazer”

Luciano: Como é que chama a pintura?

Alice: É até um nome italiano, Quattro Stagioni, alguma coisa assim. Então é assim, é Primavera, Verão, Outono, Inverno, são 4 telas.

Luciano: Como é o nome dele?

Alice: É Cy, C-Y, Twombly.

Luciano: Eu vou botar a dica aqui, no roteiro, tem a transcrição do roteiro, eu vou botar a imagem do quadro. Aí ilustra quem está ouvindo aqui, se você for no roteiro do programa, você vai ver a imagem. E eu estou com cuidado aqui, porque eu estou abrindo a imagem no meu celular, porque eu quero ilustrar aquilo que ela está me falando aqui.

quatro stazzioni

Alice: Isso, são 4 dessas. Essa é uma. Acho que essa é a Primavera.

Luciano: Estou vendo elas aqui. E o que eu estou vendo diante de mim são rabiscos absolutamente incompreensíveis, que são rabiscos. Rabiscos incompreensíveis que são capazes de fazer você ficar parada, sem conseguir se mexer, porque te tocaram de uma forma que talvez não… Claro, eu estou vendo numa tela, não adianta. Você viu diante de você isso aqui.

Alice: A dimensão, isso é verdade, acho que arte, uma coisa que você ver ao vivo é um…

Luciano: Você sabe que eu tenho uma tese para isso. Eu até escrevi a respeito. Acho que até falei num programa aqui, antigamente. Falei que se você pegar La Gioconda, a Mona Lisa, catar um coreano e fizer uma reprodução idêntica da Mona Lisa e botar as duas numa parede, uma do lado da outra, a Mona Lisa real vai te capturar de um jeito que a outra não captura.

Alice: Com certeza.

Luciano: Porque a teoria que eu tenho é a seguinte, há uma coisa do artista que ele transmite no trabalho dele, que passa pelas mãos, passa pelo pincel, passa pelo olhar, impregna aquilo de uma energia tal, que aquilo captura as pessoas. Então como é que você explica um quadro como aquele, que é uma mulher olhando para as pessoas, não tem nada demais aquilo e te captura de um jeito que você fala, cara, por que eu não consigo parar de olhar?

Alice: E daquele tamanho, porque ela é pequenininha.

Luciano: E é minúscula, não é? Porque tem uma carga de energia ali que captura a gente. Por que eu vou assistir… eu até fiz um programa sobre isso aí, por que eu vou assistir um show do Cauby Peixoto e choro que nem um destrambelhado, quando ele canta Bastidores, eu começo a chorar sem conseguir me controlar e eu levo do outro lado dele um outro cantor maravilhoso que canta Bastidores e não me faz chorar?

Alice: Então aí a gente cai num negócio que eu falo, porque é a verdade desse artista. Eu acredito muito que é a verdade, a presença, ele está vivo ali, aquilo é uma verdade para ele, então ele transmite de uma certa forma que não tem nada melhor. E aí a gente cai também num ponto que é aquela questão da perfeição e do “vou ser o melhor, vou ser o mais perfeito”, tecnicamente falando. É onde que eu aprendi, até hoje, que isso não é o principal, a gente não precisa estar no melhor estúdio, a gente não precisa a melhor técnica. Eu, quando era mais jovem, achei que precisava e isso vai se… o meu trabalho é uma desconstrução. Eu cheguei num nível de técnica excepcional, para virar e falar não é isso, não tem nada a ver e comecei a desconstruir aquilo e aí é que eu comecei a ser verdadeira com o meu trabalho, eu comecei a conseguir conectar, de uma certa forma, que eu não estava chegando ali, que a gente volta, não sai tão bom. Porque eu sempre fui uma criança, outra coisa, sempre perguntei, eu era aquela criança que ficava “por que, para que, aonde, não, vai, por quê?” Do ponto que a minha mãe ficava assim uhum, ãhn, tá, às vezes, nem falava mais nada, que ela não aguentava mais aquela criança “mas por quê? aonde?” E aí hoje já ouvi muitas vezes a pessoa falar seja curioso. Porque foi a curiosidade que me levou a virar artista plástica, porque foi o meu não entender um Cy Twombly, então um dia eu quero entender isso. Isso que me fascinou, porque um negócio que é muito dado, ah, já vi isso antes, eu passo. Agora, um negócio que traz, de alguma forma. um contato emocional, você falou, uma presença do artista naquele trabalho, uma verdade dele, com algo que me leva além daquela experiência ali em frente ao quadro é que traz um outro nível de percepção e crescimento.

Luciano: É porque o quadro não termina no quadro, não é?

Alice: Ele não termina e nem começa.

Luciano: Aquele quadro é o estímulo, ele vai terminar na tua cabeça. Você vai olhar para aquilo lá e falar, cara, como é que eu consigo ordenar isso que eu estou percebendo aqui agora? E essa experiência da ordenação é que faz o quadro dele bater em você, bater em mim de um jeito diferente, e os dois falaram, meu que quadro maravilhoso, mas em mim pegou assim e em você pegou assado, porque parte dele está na tua cabeça.

Luciano: É. Um outro ponto legal também disso, a gente ainda não conseguiu chegar na minha formação, mas a gente vai chegar lá, mas um outro ponto bem legal sobre isso é uma vez, em 2012, eu estava numa palestras nos Estados Unidos numa residência, artista faz bastante residência, é um momento que você tira, fica dois, três meses com um outro grupo de artistas, curadores e críticos e você fica pensando e produzindo, sabe, é um intensivão, bem legal. E eu estava nessa residência e um cara, palestrante, bem conhecido até, fez uma pergunta para todos “você acha que a arte muda o mundo?” E aí todo mundo ia falando. Uma menina do meu lado falou um negócio que eu nunca mais esqueci e eu levo comigo até hoje e eu tenho umas coisas que me marcam e viram verdade para mim, e o que ela falou acho que me deu mais força para falar assim, o que eu faço é relevante. E ela falou o seguinte “eu não acho que arte muda o mundo, arte muda pessoas, as pessoas mudam o mundo”. Então eu acho que a gente precisa dessas instigações, dessas provocações, dessas experiências para a gente conseguir acordar amanhã e fazer às vezes o que a gente tem que fazer, que não é necessariamente o prazer da nossa vida, mas que é uma necessidade do ser humano.

Luciano: Tem aquela história, eu não vivo por dinheiro, mas não vivo sem dinheiro. Então você pode odiar dinheiro, pode falar que a sociedade capitalista blábláblá, sem ele não dá para viver, então, tem que comer, alguém tem que pagar uma conta, não é? Então não adianta você tirar isso fora e falar, esqueça isso que eu vou viver da minha arte, você não vai, tem um lado lá que tem que trabalhar para poder sustentar. Deixa eu voltar numa coisa que você falou ali atrás, porque vai me ajudar até a botar um insight bem legal aqui. Você falou um negócio muito legal, que foi aquele que eu cheguei num nível tal da capacidade técnica, que um dia eu pude olhar aquilo e falar não é aquilo, e aí eu pude desfazer, não é? Eu trabalho com cartoon, uma parte do cartoon é fazer caricatura e tudo o mais e uma coisa que eu li em algum lugar, há muito tempo, o cara falou o seguinte, para você fazer uma caricatura, você tem que saber desenhar, não dá para fazer caricatura sem saber desenhar, então primeiro aprenda a desenhar um rosto, para depois poder fazer uma caricatura do rosto. E o ponto que eu queria chegar, eu vou colocar também embaixo do roteiro aqui aquela sequência do touro, do Picasso, não é? Quem não sabe do que eu estou falando, Picasso teve uma evolução na história, aliás, você pegar a história do Picasso é fantástica para entender como é que é essa coisa da evolução  das artes plásticas e tudo o mais. E ele tem uma sequência que eu vou colocar aqui na imagem também.

Alice: É Guernica?

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Luciano: Não, não, os touros, os desenhos a lápis que ele faz uma sequência de touros, onde ele vai, começa com um touro muito bem desenhado e chega no final com dois rabiscos. E ele faz o rabisco, aí quem olha o rabisco fala, meu, qualquer criança de 3 anos de idade faz isso aqui, como é que isso aqui pode custar 23 milhões de dólares? Isso é bobagem, qualquer pessoa rabisca isso aqui. Mas o processo para chegar aqui, quer dizer, o cara sai do touro para chegar com dois rabiscos, ele fazer um touro é um negócio precioso. Ele só conseguiu aquilo depois de 90 anos de idade.

Alice: O Picasso era talentosíssimo, tinha uma precisão no lápis e no pincel incrível. Ele é um que foi um dos pioneiros dessa ideia de desconstruir o próprio trabalho para trazer e ele impacta de uma forma que outros não, porque quando ele começa a retratar a mulher também no figurativo mais arredondado, mais lúdico, quer dizer, aquilo começou a ser fascinante na época, porque na época eles queriam retratar a mulher de fato com muito detalhe, com muita sombra.

Luciano: Era uma fotografia, uma foto da realidade, quase.

Alice: Era uma fotografia. E a pintura perde um pouco… quando a fotografia vem, no final do século 19, a pintura ganhou espaço para o lúdico, ela não precisou mais retratar e descrever a realidade da sociedade, ela ganhou espaço para ser expansivo, por isso que os expressionistas vieram, os cubistas vieram, porque foi um momento em que eles puderam também deixar esse imaginário e o lúdico ganhar força, o que eu acho incrível. Eu acho que Picasso foi um cara muito à frente do tempo dele, trabalhava muito, a produção dele é em alta escala e é um excelente exemplo.

Luciano: De novo a questão do processo, como é que você vai evoluindo no processo. O que isso tem a ver com você que está me ouvindo aí no buzão, indo trabalhar e o escambau? Não importa se você é padeiro, ou se você é guarda noturno, ou se você é escriturário, não interessa, pensa bem nessa coisa do processo, sabe. Como é que eu faço as coisas que eu faço, por que eu faço as coisas que eu faço e como é que eu faço para fazer cada vez melhor aquilo que eu faço, mesmo que seja o cara que tira xerox da empresa, entendeu? Como é que eu faço para que esse processo seja um processo de evolução diária. Começa assim, eu tenho que primeiro aprender o básico, então eu vejo a molecada chegar imagina, me botaram no emprego que eu sou o cara que tem que tirar xerox, isso é um horror, eu odeio fazer isso. Cara, para e olha para esse momento como o nascimento do processo, não é? Então para poder tirar xerox, eu tenho que aprender a lidar com a máquina de xerox, ôpa, eu já ganhei uns pontinhos. Eu tenho que saber lidar com as pessoas, ôpa, segundo pontinho. Eu tenho uma responsabilidade para cumprir, eu tenho horário para entregar, se a cópia não sair boa, o problema é meu, o processo não anda se eu não fizer direito. Então é muito maior do que simplesmente tirar um xerox.

Alice: Muito. É, muito. Viva, esteja presente naquela xerox. Se o xerox hoje é a sua função, viva esse xerox, porque você não sabe se daqui a 5 anos, aquela experiência, aquele momento ali te deu a base para algo mais. Uma coisa que eu gosto de falar muito também é que bem, eu acho que a gente podia voltar um pouco, vou voltar.

Luciano: Na tua formação?

Alice: É, a minha formação foi assim, eu estudei a vida inteira num colégio particular, amo minhas amigas de coração, todas vieram de lá, isso também é maravilhoso, conheço a família dos amigos aqui e aí eu, desde os meus 14, 15 anos, como eu te falei, eu já ia mexendo nisso para fazer aula de pintura, de desenho, eu fazia Parque Lage, numa época assim em que Parque Lage estava um pouco em crise e eu era a mais nova, tipo eu tinha 15 anos e os alunos de Parque Lage tinham 20, 25, 30. E eu fiz o ateliê da imagem no Rio.

Luciano: O que é Parque Lage?

Alice: Parque Lage é no Rio de Janeiro, é um instituto de arte e cultura lindo, no Jardim Botânico, super importante, eu acho, para a arte carioca, grandes professores, grandes mentores, meu deu a base, me ensinou a desenhar desenho técnico. E eu ia me enfiando, ia aprendendo isso tudo sozinha, com a minha mãe e meu pai falando vai, tenta, olha isso, olha aquilo, porque nenhum amigo meu tinha essa vontade. Hoje eu tenho vários amigos artistas plásticos, amigos de infância, mas assim a arte plástica normalmente vem depois que você faz uma faculdade, você já trabalhou, aí você vira, vou experimentar com a arte e no meu caso foi muito cedo. E eu fiz também o ateliê da imagem, que é um espaço de fotografia hoje grande no Rio, eu comecei eles com uma casa pequena na Urca, também, de novo, eu era bem jovem. A minha paixão era pintura, a pintura sempre foi o meu maior desafio na vida, a fotografia, para mim foi uma paixão, a pintura é um amor, a fotografia foi a paixão. A fotografia me permitiu sonhar, enquanto eu ainda estava errando muito com a pintura.

Luciano: E isso aos 15 anos de idade?

Alice: 15 anos.

Luciano: Quer dizer, ainda estamos falando de filme, de revelação, de papel, de química etc. e tal?

Alice: É. Aí, quando eu me deparei com a fotografia, com o instantâneo da imagem, com o detalhe da imagem e eu não precisava esperar para a minha técnica na pintura chegar no ponto para conseguir produzir, aquilo me deu um alívio, me deu uma presença assim, eu posso. Eu comecei a achar formas de poder ser uma artista e a fotografia realmente foi uma paixão. Até hoje a base do meu trabalho é a fotografia. A fotografia falou comigo muito bem, eu consegui entender aquilo, aquilo entrou na minha cabeça, aquilo fez sentido e ela me levava para a produção, eu fotografava tudo, ao mesmo tempo em que eu continuava pintando. Eu sempre fiquei ativa, desde sempre, é engraçado isso. Mas quando eu entro num laboratório de fotografia para aprender a revelar negativo e a fazer ampliação de imagem, aí eu encontrei um negócio que eu ainda não tinha experimentado antes na minha vida, que foi uma paz, que aquele momento ali que você está sozinho num espaço escuro, ele é gelado porque você precisa ter uma ambientação, ter uma temperatura e você se vê revelando algo, porque você está meio que revelando memórias, você está revisitando. Aquilo ali, eu já deveria ter meus 15, 16 anos, foi uma descoberta, foi um êxtase, sabe, que para quem lida com criação entende, foi aquele momento de êxtase que eu falei, eu posso fazer isso aqui para sempre, é instigante, ao mesmo tempo que me dava aquela paz, aquele momento é aquele confronto, é você com você mesmo, você está se ouvindo. Aí eu comecei a me ouvir, porque antes tudo fazia muito barulho, quando a gente é jovem, você quer fugir do incômodo, você está constantemente procurando conforto, algo que te faça sorrir. E aí eu comecei a entender que a vida tem muito desconforto e aí eu comecei a aceitar que, claro que eu passei por momentos dificílimos, mas dali…

Luciano: Você falou um negócio legal aí que traz para a gente essa questão do impacto da tecnologia. A tecnologia evolui e a gente vai ficando com a vida cada vez melhor, sob o ponto de vista tecnológico. A gente consegue fazer coisas hoje que eram impensáveis há 10, 15 anos atrás. Por exemplo, nós estamos os dois aqui gravando um podcast, coisa que eu não conseguiria fazer há muito tempo atrás, porque não tinha nem como distribuir isso aqui e hoje a tecnologia é uma maravilha. Mas a tecnologia destrói certas coisas que são uma perda, que a gente não vai conseguir recuperar. Então eu vivi isso que você falou, laboratório escuro, as químicas, mexendo com químicas, baciazinhas com a química que ia lá, aquela luz vermelha no fundo lá e de repente você bota um papel branco, começa a mexer o papel, o papel começa do cinza, vem e surge uma imagem, com você vendo ela aparecer, você vai vendo ela aparecer e você não sabe direito o que tem ali. Quando a tecnologia muda para o que nós temos hoje, todo esse processo desapareceu, não tem mais moleque nenhum dentro da sala escura, a não ser que ele propositalmente vá fazer isso aí.

Alice: É, exato, você não precisa.

Luciano: Outra coisa, vou bater uma foto com você aqui agora, eu faço 25 fotos e vejo imediatamente se está bom ou não, até chegar no resultado que eu quero. E quando eu falar, o resultado chegou, é aquele resultado, eu não vou ter surpresa nenhuma na hora da revelação, eu não vou expor um pouquinho a mais, um pouquinho a menos ali, que é aquela coisa. Então há uma perda nesse processo no meio do caminho aí, eu não vou dizer para você que é bom ou que é ruim, eu vou dizer o seguinte, quem viveu aquilo, como você viveu e como eu vivi também, sabe o que significa você estar no ambiente, é o contexto, aquilo é quase que um templo, sabe, eu vou para um evento. O que eu vou fazer? Eu vou revelar uma foto, estou dentro de um templo sagrado, onde as luzes foram apagadas, onde tem uma atmosfera que é totalmente diferente do mundo lá fora e sou eu e aquela imagem que vai aparecer O que será que vem aqui? E eu recebo um presente naquela hora, cara, olha o que eu acabei de fazer?

Alice: E olha que engraçado isso, porque a minha geração adulta, quando eu fiz 18 anos, muita gente que eu já conheci na faculdade nem chegou a entrar num laboratório, porque eu fui muito nessa transiçãozinha do analógico para o digital, mas como eu comecei muito cedo, eu aprendi. E levei isso comigo por bastante tempo. Então, agora indo para a minha formação, então eu fui muito atrás, enquanto eu estava no Rio e na época as faculdades de arte estavam fechadas, belas artes na UFRJ ficou fechada muitos anos e tal. Não tinha muito uma opção, acho que tinha uma opção numa escola particular.

Luciano: Em que ano a gente estava, só para lembrar?

Alice: Eu me formei em 2003, então eu estou falando entre 2001 e 2002, que eu comecei a procurar essas opções de faculdade e não tinha muita opção. A minha opção, na verdade, era vir para São Paulo. E a minha mãe me incentivou, falou “olha, se isso é o que você quer muito, eu quero que você tenha o melhor e a gente vai fazer o que tiver que fazer para você ter isso”. Eu acho que ela via a minha vontade de querer, eu corria muito atrás, sabe. E tinha coisas que eu não conseguia dividir com os meus amigos, porque era realmente fora do normal, assim hoje eu falo, mas na época eu tenho certeza que eles deviam achar estranho, porque as minhas vontades eram muito diferentes. Aí a gente pô falou, então se é isso, vamos embora, eu vou começar a me preparar para a faculdade. Do meu grupo de amigos, das pessoas com quem eu tinha contato, eu fui a primeira a ir estudar fora, a estudar arte. Nossa, outra coisa que eu me lembro nitidamente, eu tive que ser aprovada para essa faculdade.

Luciano: Que faculdade é?

Alice: Central Saint Martins, School of Arts and Design em Londres.

Luciano: Então você decidiu sair do Brasil ali e não era vir para São Paulo.

Alice: Desde os meus 17 eu já sabia, aí a gente bateu o pé, falou é isso, então é isso.

Luciano: Deixa eu dar uma cutucada em você nesse momento aí. Ali nesse momento se desenhou na tua frente que a tua vida seria aquilo e que aquilo seria o teu trabalho? Ou passou pela tua cabeça o seguinte, eu terei que, em algum momento arrumar um emprego para trabalhar no Banco XPTO, na empresa, igual minha mãe, como executiva para nas horas vagas fazer essa coisa que eu amo? Isso passou pela tua cabeça?

Alice: Cara, eu não posso garantir. A minha memória me faz dizer o que eu vou falar agora. Eu acho que foi meio que um push and pull, que a gente fala muito nos Estados Unidos. Push and pull é tipo um ping-pong, sabe, vai e vem. Eu acho que ali, nesse momento em que eu estava aplicando, em que eu estava sonhando com essa possibilidade de estudar arte, eu estava certa que eu só ia trabalhar com isso. Eu acho que ao longo do tempo em que eu fui me formando e crescendo, eu me toquei que não era bem assim, entendeu? E aí eu viabilizei a minha produção e a minha carreira artística. E aí a gente chega lá daqui a pouco. Aí eu fiquei um ano me preparando, eu saía da escola, assim no terceiro ano, pelo menos na minha época, eu estudava de manhã, mas no terceiro ano você estudaria até tipo, em vez de sair meio-dia e meia, uma hora da tarde, deveria ficar na escola até as quatro, porque todo mundo estava se preparando para Vestibular. E aí a gente virou para a minha escola, na época, que eu estudei a vida inteira “olha, a Alice, a prioridade dela não vai ser o Vestibular, ela precisa do tempo dela à tarde”, que eu fazia mil outras coisas e a minha escola não aceitou isso muito bem. Eu já matriculada para o terceiro ano e aí, cara, isso eu agradeço meus pais, que eles foram na causa e me ajudaram, a gente achou uma outra escola em duas semanas, eu mudei de escola, fui para uma escola não tão rígida, mas que me viabilizou a minha tarde ser focada para aula de desenho, de inglês, que eu tinha que passar em Toefl, meu inglês não era maravilhoso, passar em Toefl, eu tinha que ler livro, fazer todo o application, estava preparando um portfólio. Isso foi incrível, eu não teria conseguido se os meus pais não virassem e falassem, vamos fazer isso aí, a gente acredita em você. E sempre conversando comigo, sempre. Eu não tinha uma nota boa e tal, a minha mãe não me botava para baixo, mas ela chamava a minha atenção. Ela falava, você tem que continuar tentando. E aí uma hora eu tive que ir para Londres, para fazer essa entrevista e eu fui aceita. Esse momento foi um dos momentos mais felizes da minha vida, eu me lembro a minha mãe na rua, gritando, esse momento de aceitação desse sonho louco, que eu não desenhava bem, mas realmente fui atrás disso, eu tive que ir atrás dessa técnica. E aí foi incrível.

Luciano: E malinha pronta, lá me vou para a Inglaterra, com 16 anos de idade?

Alice: Nossa. Não, aí eu fui para a Inglaterra com 18, eu fiz 18, fui, aí o meu pai me levou.

Luciano: Morar, sair de casa e não foi sair do Rio para ir para São Paulo, você saiu do Brasil e foi para a Inglaterra com 18 anos. Morou aonde lá?

Alice: Eu morei em Londres, morei em Maze Hill, um lugar bem pequeno, era em Londres.

Luciano: Sozinha?

Alice: Sozinha.

Luciano: Tinha lá um parente, um amigo, alguém, não?

Alice: Não, eu fiquei num dormitório muito ruim, eu me lembro do meu pai, quando ele me deixou lá, ele chorava, desesperado. Ele falava, meu Deus, como é que você vai ficar aqui? E eu achando o máximo, eu amando tudo, tipo amando tudo pela questão do sonho. Obviamente, eu tive medo, inseguranças, mas eu não sei, a determinação é uma coisa que caminha comigo, de alguma forma, sabe.

Luciano: Então me fala desse dia seguinte. Eu vou guardar as proporções, tá? Eu saí de Bauru, para vir para São Paulo, capital. Com 18 anos de idade e vim para São Paulo, capital, também para morar. Meu pai alugou um quarto numa casa de família do lado do Mackenzie e eu, no dia seguinte, eu não estava mais na minha casa, não estava no meu quarto, eu estava dividindo um quarto com estranhos, numa casa estranha e que não tinha nada a ver comigo aquilo lá e com 18 anos de idade. Tive que abrir uma conta no banco e jogado na cova dos leões. Teria sido muito mais confortável e fácil para mim se eu tivesse ficado lá em Bauru, porque meu pai, “toma o carro, está aí”, namorada, estava tudo tranquilo lá e eu rompi isso tudo e até hoje eu não sei por quê, eu escolhi o pior. O que é mais difícil, mais complicado, é lá que eu vou me jogar. E acordei no dia seguinte, bom, agora sou eu, eu e o mundo. Isso com 18 anos de idade é um momento de quebra de tudo. Como é que foi o teu dia seguinte, depois que papai foi embora você ainda estava no deslumbre e o momento do deslumbre acaba e aí você fala, agora…

Alice: Realidade.

Luciano: É o real. Com 18 anos.

Alice: Eu sempre tremi na base. O medo, a incerteza, o desconhecido estava ali comigo, minhas inseguranças estavam ali, mas também eu sempre me acalmei, porque eu falei, cara, eu batalhei tanto, quis tanto estar aqui e agora eu tenho que fazer isso acontecer. Aí agora vai vir o melhor de tudo, o mais inesperado e aí eu começo a estudar lá e na Inglaterra é que nem engenharia aqui, você faz um primeiro ano básico e depois de você escolher a sua especialidade aí você faz uma miniaplicação, um minivestibularzinho para ser aceito nessa sua especificação e aí você faz 3 anos.

Luciano: O que são essas especificações, o que é? Você vai para pintura, para escultura?

Alice: Isso, é. Nova mídia, pintura ou fotografia. Isso no bacharelado, na faculdade. E aí meio que contando um pouco o resumão dessa minha história, a Inglaterra foi excepcional para mim, para a minha base, também veio com uma coerência com as conversas que eu tinha com os meus pais, por quê? Eu cheguei lá, o ensino em inglês é muito autodidático, o que significa que você com 18 anos vai para uma instituição muito conhecida, que você sonha e idolatra, o seu contato com o professor, aquele cara que supostamente é ele ali e você aqui, não existe. Então eu tinha 5 matérias, 7 matérias, mas eu tinha 3 professores. E eu via eles uma vez por semana, então, amigo ou você corre atrás ou você vive um ano ali de férias e nada acontece e você vai para casa depois. E o meu inglês não era assim apuradésimo, que eu não estudei em colégio bilíngue, nem nada. Fazia aula de inglês mas não era inglês que os livros que eles deram para eu ler nos primeiros dois meses, um livro é um que é base do meu trabalho até hoje, que eu recomendo para todo mundo, que é Câmara Lúcida. Se você gosta de fotografia, se você gosta de arte leia esse livro. Esse livro é base para mim, foi um negócio… Você falou do momentum, esse livro fala do quantum e do studium. Em Latim, studium significa estudo, quantum significa aquela coisa que te pinça, que te incomoda, que te pinica, que é o que aconteceu comigo como eu vi o Cy Twombly, que é aquele incômodo. Então ele explica a importância disso quando você olha uma fotografia e você pode levar para qualquer mídia criativa. Então é isso, você faz um cartoon que chama a atenção de alguém, que está incomodando de alguma coisa, está falando alguma coisa além do que aquela imagem divertida, visualmente ela se explica, mas tem além que aquilo ali. E aí eu tive que aprender, eles me ensinaram a ser adulta, porque eu tive que querer estar ali, entendeu? Então eu tive que ir atrás da informação. A informação não chegava a mim. Então eu aprendi a ir para a biblioteca para pesquisa, para pedir, para perguntar, eu aprendi a falar do trabalho. E Inglaterra, eles são muito rígidos, eles são muito conceituais e eles têm uma riqueza grande, intelectualmente falando e esse é o principal interesse para eles. Então a gente tinha críticas de debates de pessoas saírem chorando, o cara falava, eu não vou gastar o meu tempo com você quando está dando certo, eu vou apontar tudo o que está dando errado. Então eu fiquei quatro anos, eu não sei como eu não desisti, eu só tomava, mas sabe ouvir de fracasso assim? E eu continuava querendo fazer aquilo, sabe. Mas foi incrível, porque eu aprendi, em arte você vive muito pelo reconhecimento, o reconhecimento do seu trabalho, por um agrado, por um elogio e ali foi muito frustrante, eu chorava desesperadamente, enlouquecia meus pais.

Luciano: Você está me fazendo lembrar do Karetê Kid, o menininho com o Seu Miyagi lá que destrói o garoto o tempo inteiro até uma hora que ele entende, que fala tudo isso é para meu crescimento, não é?

Alice: Crescimento. Porque aí é aquilo, o elogio é maravilhoso, que ótimo. A vida real não é assim. Aí foi maravilhoso, porque aí eu aprendi que eu não precisava mais de elogio.

Luciano: Como é que uma brasileira, com sangue quente, latino, onde a gente aprende a levar tudo para o pessoal, no Brasil tudo é pessoal. Se eu chegar para você e falar assim, o teu trabalho é ruim, você entende como, eu sou uma pessoa ruim. E vou ficar puto, vou querer bater em você. A gente leva tudo para o pessoal, a gente assiste os filmes americanos e não consegue entender como é que o cara consegue, aliás os filmes não, debates, os debates americanos, tem debates que são fabulosos, você vê um cara destruindo o outro e em momento algum os caras personalizaram aquilo. Ele está com uma ideia contra o meu trabalho e eu estou contra o trabalho dele, quebram o pau e os dois saem de lá, eu falo, como é que esse cara não deu uma porrada no outro? Como é que não cuspiu na cara do outro? Porque eu já tinha virado um vulcão aqui. Como é que uma brasileira cai naquele ambiente e sai inteira dali?

Alice: Cara, não sei. Eu aprendi muito com essa minha experiência de imigrante, muito, aprendo até hoje, quero continuar aprendendo. Hoje até isso passou a ser, eu vejo isso como uma oportunidade, então se eu for falar um pouco também dessa escolha, que foi uma escolha de morar fora do meu país, ter ido por esse sonho que graças a Deus eu vejo que cada vez eu consigo realizar mais, eu dou muito valor para cada conquista. Não sei dizer, era uma vontade, eu acho que eu sou uma pessoa que me guio muito pelo amor, o amor ao trabalho, então eu me dedico muito ao trabalho, é o amor na vida pessoal, é o amor pela minha família, eu acho que isso é que me faz ir além.

Luciano: Cara, eu estou indo para o trabalho, eu estou indo para a escola e eu sei o que vai acontecer, eu vou apanhar, vão me destruir e eu vou sair de lá me sentindo um fato de pó de merda, entendeu? Eu vou sair o último e amanhã eu sei que vai ser igual e depois de amanhã eu sei que vai ser igual. Qual é esse foguinho que fala, eu vou, eu sou mais chata que eles. Como é que é isso?

Alice: Cara, é vontade, vontade de querer, porque aí eu pensava é, Alice, você nunca quis um negócio dado, então agora não está dado, então agora vai em frente. E eu sempre ouvia e tentava e ia e fui aprimorando a minha fala, eu fui aprendendo a falar sobre o meu trabalho, eu fui aprendendo a ter coragem. Porque óbvio que no início eu morria de vergonha, eu mal tinha vocabulário suficiente, ainda mais inglês, hoje até eu acho que eu falo um pouco melhor em inglês vocabulário na minha área, às vezes, até do que em português. Cara, e eu tinha amigos ganhando notas muito melhores que eu, tenho um reconhecimento muito melhor e eu olhava assim e eu não entendia, mas eu ficava, não, mas eu vou conseguir mostrar isso, eu estou indo atrás, eu mostrava muito essa vontade e isso eu acho que os professores viam, esse engajamento, sabe, esse envolvimento. E depois de dois anos na Inglaterra, eu tive um problema de circulação, uma coisa assim que se eu te falar, você fala, não é possível. Eu tive um problema de circulação que eu comecei a ter desmaios e eu comecei a desmaiar no meio da rua, aonde eu morava, eu sozinha e fiquei muito frágil, fiquei vulnerável, literalmente, eu não estava mais vulnerável na escola então eu tive esse problema. Eu passei as minhas férias de verão esse ano no Brasil tentando entender. Isso mexeu muito comigo. Os meus pais, obviamente, ficaram preocupados e eu me lembro eles sentando comigo um dia e falando “Alice, olha, calma, se você precisar ficar um tempo aqui no Brasil, para a gente entender o que está acontecendo, fica”. E eu me lembro que falei assim “eu não vou desistir agora”, é assim tipo não é parar nada, porque isso é o que me faz feliz, não importa se estou acertando ou errando, isso é o que me completa. E aí, eu, graças a Deus, quando a gente estava aqui no Brasil um médico meu, fazendo mil exames, ainda tinha esse problema, tive por uns bons anos, eu cheguei a tomar um remédio que me fez muito mal, ele falou, não tem remédio nenhum, você tem que começar é a correr, você tem que melhorar a sua circulação e vai começar a correr e a gente vai fortalecer o seu corpo e você vai começar a se sentir melhor. Aí vem a importância do esporte na minha vida, porque eu comecei a aprender a dedicação e a determinação de um esportista, eu nunca fui profissional, mas o esporte passou a ser essencial para mim.

Luciano: Corrida?

Alice: Principalmente a corrida, e a corrida sempre vem quando eu estou mais fraquejada, quando vem alguma coisa difícil para mim, eu volto a correr, eu me levanto com uma energia, aquilo me dá uma força porque é um jogo mental. E eu amo esporte em geral, o esporte te ensina a trabalhar a mente e a arte é muito emotiva, é isso que você estava falando. Nós brasileiros já somos muito mais calorosos, humanos, envolventes e artes plásticas, uma performance, o artista mesmo de teatro, o músico é uma dedicação intensa, é muito um giving assim, você se joga muito naquilo, é muito emotivo, você está sempre se voltando ali. E aí eu comecei a entender a mente. Eu sempre fui muito intensa, sabe, e aí eu falei, eu estou desperdiçando a minha energia, aonde a minha energia tem que ir para uma corrida, para um esporte, para um trabalho, deixa eu olhar para isso direito, o que é que está faltando aqui? Então, o esporte hoje é essencial. Então eu falo, você quer ser artista plástico, quer ser um bom performance, quer ser um bom músico? Viva a sua vida, faça o que quer fazer, porque isso tudo vai te trazer conteúdo para o seu trabalho. E aí o meu trabalho começou a crescer, porque quando eu comecei a confrontar esses desafios, essas vulnerabilidades, eu não desisti, mesmo com essa fraqueza que eu tinha, que eu podia desmaiar, podia não me sentir bem, eu falei, eu tenho que entender isso. Aí você vai descobrindo como é que você pode…

Luciano: Você precisou criar uma rotina nova na tua vida?

Alice: Por um bom tempo, sim. Precisei lidar com o medo, com incertezas e graças a Deus hoje eu estou muito melhor, acho que já tem uns dez anos que eu… já está bem melhor. Às vezes, acontece mas é muito menos. Isso foi muito bom para mim. Cara, então quatro ano de Londres foi paulada atrás de paulada, se eu recebia um “nossa, que legal isso aqui” era tipo uau, fantástico. Eu ia me formar, eu tinha duas professoras no último ano lá você tem dois professores, um é o de redação, que você escreve uma tese complexíssima, por sinal, e apresenta um trabalho visual. Eu até digo, acho que a parte mais fraca do meu trabalho, ainda hoje é a minha escrita. Eu trabalho para melhorar, acho que estou melhorando, mas isso é uma coisa que acho que ainda dá para melhorar muito mais. A minha professora da parte visual virando para mim e falando olha, tem certeza que é isso que você quer fazer da vida? Porque eu acho que não é para você. E eu desesperada, é o quarto ano e eu te falando que essa é minha paixão desde que eu sou uma criança. Quarto ano. Isso aí foi uma parte também muito difícil emocionalmente, eu chorava desesperada, o que eu vou fazer da minha vida? E o que me salvou foi a minha professora de redação, aonde eu era mais fraca. Ela me pegou no braço e falou, você quer, você vai, vamos nisso. E ela me ajudou assim num nível. Porque essa outra foi dura, foi muito dura comigo, isso aqui não é para você, você não vai ser isso.

Luciano: Então ela estava errada?

Alice: Não sei te dizer. Era a opinião dela, mas foi muito difícil, para mim foi muito difícil. E aí eu inventei, que eu falei, cara, então ela está falando que eu não estou preparada, que não é isso, então espera aí, eu não posso me formar agora, eu preciso ganhar tempo. E eu sentia que não estava preparada para ir trabalhar. Falei, o que eu preciso? Preciso ganhar mais experiência, preciso ganhar uma base melhor. Essa minha professora de redação, eu falei, “estou pensando, acho que vou aplicar para o mestrado”, aí ela virou e falou assim “é isso que você quer? Então vamos fazer isso”. Eu, ela e minha mãe, sem brincadeira, a gente pegou os melhores cinco mestrados entre Inglaterra e Estados Unidos, eu, com as notas que não era mais brilhantes, com tudo dizendo para eu não fazer, eu dediquei. Aí eu comecei a dedicar, quando eu não estava fazendo redação, trabalho que já era suficiente para eu estar bem exaurida, eu resolvi dedicar quatro meses da minha vida para aplicar para mestrado, entre Inglaterra e Estados Unidos. E fui, foi uma batalha grande, fui aprendendo também. Naquela época a gente aplicava com slide, então tinha que mandar slide para cinco faculdades, era um application gigante, aí eu tinha que mandar carta da faculdade, porque eu ainda não estava de fato formada, anyway, e aí tempo vai, tempo vem, veio um segundo dia muito feliz na minha vida também, em abril de 2007. Eu ia me formar em julho de 2007, em abril de 2007, tudo assim, caraca, o que eu vou fazer? Eu recebo a carta que eu fui aceita no mestrado da [inint][00:57:37] Institute, que é uma grande faculdade de arte nos Estados Unidos, em Nova York. Ali foi um outro momento que eu gritava, aquilo ali me levou num negócio que eu falei, eu posso o que eu quero. Você começa a entender o que é a força de vontade, eu falei, cara, eu tenho 22 anos, para que eu preciso fazer Masterpiece hoje? Eu não tenho nada que fazer Masterpiece, hoje eu tenho que fazer, eu tenho é que continuar fazendo. E eu me formei numa faculdade com 120 alunos formados por ano em arte sendo a segunda pessoa que estava se formando com um mestrado na mão. Numa escola que na época era a décima-quarta melhor dos Estados Unidos, do ranking, que é uma coisa super importante nos Estados Unidos. E para completar a história, eu acabei me formando no meu mestrado com distinção, a melhor nota da turma do ano. Então é incrível. E na Inglaterra tem uma coisa pior, eu não sei, acho que aqui no Brasil é igual, a nota, quando você se forma, sai num quadro, então sai para todo mundo ver a sua nota, todo mundo sabe e a minha nota era muito baixa. Então todo mundo estava vendo que eu estava me formando assim mais ou menos, no básico. E eu estava me formando no básico não por causa da minha redação, por causa dessa mulher aí que cismou comigo e tal. Mas aí sai assim do lado, aprovada para a faculdade tal e só tinha eu e outro garoto que era ultra, estava indo super bem. Sério, eu passava no corredor, todo mundo vinha falar comigo, caraca, eu vi que você foi aprovada. parabéns. Aquilo foi a primeira vez que eu acho que recebi tanto parabéns ou vai lá, sucesso, sabe, tipo continua aí e tal. E aquilo assim, para mim, eu levei aquilo de um jeito, falei, nossa, que fantástico isso, sabe, que maravilhoso. E aí tipo logo em seguida eu fui para os Estados Unidos, fiz o meu mestrado, aí fiz o mestrado com foco em fotografia, foi aí o meu Major, porque a faculdade foi em pintura. Aí o mestrado foi em fotografia.

Luciano: Que ano era isso?

Alice: Foi de 2007 a 2009, foi de setembro de 2007.

Luciano: Então vamos lá, você foi para a Inglaterra em dois mil e?

Alice: Três.

Luciano: Três. E se formou em 2009 nos Estados Unidos, são 6 anos, papai e mamãe bancando?

Alice: Meus pais me ajudaram, sim. Durante a faculdade, me ajudaram bastante, mas depois da faculdade, tipo assim, acorda aí.

Luciano: Você não trabalhou em momento algum? Você estava totalmente focada nos estudos?

Alice: Não, eu trabalhei. Assim que eu cheguei nos Estados Unidos. Na Inglaterra eu fiz alguns estágios em galerias, eu trabalhei com um cara que estava começando na época um negócio chamado Brick Lane Gallery, ele até hoje está maior. O negócio dele foi bem legal, a gente se reencontrou num outro momento muito legal, eu já com o meu trabalho acontecendo, eles até me chamaram para expor lá, tipo, nossa, fantástico. E na Inglaterra também eu trabalhei numa grande galeria chamada Thomas Dane, aí eu tive a oportunidade de trabalhar com José Damasceno, com Glenn Ligon, que é um grande artista plástico americano negro, que traz muito a questão do racial e a questão da cultura negra, que foram realmente contatos incríveis ali. Eu sempre corri atrás, assim que eu cheguei nos Estados Unidos, aí a gente entra na minha história nos Estados Unidos. Quando eu cheguei nos Estados Unidos, eu falei, agora eu não só estou estudando, mas eu tenho que correr atrás. Assim que eu cheguei lá, eu comecei a trabalhar. Aprendi também a realidade mais nesse sentido, não era só estúdio. Cara, eu trabalhei dentro da faculdade, eu trabalhava na academia da faculdade, eu jogava tênis para a faculdade, na faculdade de artes eu joguei tênis, adorava. Eu fui aceita no time, porque você tem que fazer umas provas para ser aceita para ser estudante esportiva, aí consegui ser aceita.

Luciano: Eles têm uma visão muito diferente lá, do esporte como algo que agrega. Você não consegue ver um negócio desse, o Brasil não tem isso na universidade de tratar o esporte como se trata lá. Lá é uma credencial, se você for um bom esportista, você tem uma credencial na escola lá, não é?

Alice: A escola de arte já não tem tanta, mas a gente tinha, sim, um programa legal. Aí trabalhava na academia e jogava tênis e consegui trabalhar numa produtora de fotografia em Manhattan, que foi incrível para mim. E comecei lá com eles e a gente fazia trabalho assim, eu era contratada da professora, não do fotógrafo, mas eu tive a oportunidade de trabalhar, dar assistência para o Mario Testino, que é um grande fotógrafo mundial, peruano, para o Steven Klein, que é um grande fotógrafo também, para uns outros fotógrafos americanos super conhecidos também, agora até já esqueci. Mas isso assim, essa experiência para mim foi aquela coisa também excitante tipo, caraca, estou vivendo isso, estou com esses caras.

Luciano: Você estava no topo, não é? Estava perto dos principais caras, na principal cidade, onde tudo acontece.

Alice: É, e aí o que eu falo, os Estados Unidos, para mim, o que eu achei incrível dos Estados Unidos, desde o momento em que eu cheguei é que eu falei, eu consigo viver disso, ele me deu essa realidade, ele me deixou enxergar, sabe. Nos Estados Unidos se você trabalha, se você se empenha, você vai atrás, você tem a oportunidade. E aí era muito engraçado, que o meu nome artístico é Alice Quaresma, e meu nome completo é Alice Quaresma Rodrigues e na época tinha um grande jogador de baseball chamado Alex Rodriguez, que jogava pelo Yankees e as pessoas lá são fanáticas pelo baseball e tal e eu era tão fazia o melhor, corria atrás, tal, tal, que eles me deram o nome de A Rod, que era esse jogador de baseball, sabe, porque como o meu nome era Alex Rodriguez, aí é quase igual, aí eu era a A Rod do time. Cadê a A Rod, que era a que não parava quieta, que queria demonstrar serviço, sabe, que obviamente, eu era estagiária, pô, isso aí, para mim, falei, caraca, que máximo tipo essa vontade e oportunidade.

Luciano: Aí você tem em mãos as credenciais, você já tem credencial, portanto, credenciada. Agora precisa acontecer. Eu preciso viver de arte, esse é o ponto que eu queria chegar. Está certo, você está nos Estados Unidos, viver de arte nos Estado Unidos é uma coisa, viver de arte no Brasil é outro departamento, é outra história, mas como é que pinta isso? Você vai falar, bom, agora isso aqui tem que virar meu business, o lado artista eu já estou sacando, como a coisa chegou lá. Como é que é esse lado que você olha e fala, isso aqui tem que virar um business, sabe, o meu nome está aí, eu estou sendo conhecida, agora vamos ao business, vamos construir algo.

Alice: Eu vou chegar no business mas o que me viabilizou ficar nos Estados Unidos na verdade foi o seguinte, quando eu me formei foi bem na crise econômica americana.

Luciano: 2008, não é?

Alice: 2008 para 2009. Foi no meio de 2009. Era tipo assim, tudo isso que eu te falei que estava rolando e tal, eu fui perdendo, aquilo foi diminuindo numa escala. Que eu falei, caraca, e agora, vou voltar para o Brasil. Foi a vez que eu falei, eu acho que vou ter que voltar para o Brasil, porque eu não tenho como me manter e aí o que me salvou foi o seguinte, foi quando uma grande amiga minha do mestrado dava aula numa faculdade que eles estavam precisando de alguém para dar aula de laboratório na faculdade. Os caras não estavam com grana para contratar alguém com experiência, que era um cara de 40, 50 anos, mas eles precisavam de alguém jovem, que sabia de laboratório. E aí amigo, isso aí me salvou, porque eu era a única que sabia.

Luciano: Quer dizer, em 2009, quando já era digital o mundo, você era a única que tinha aquela experiência de laboratório.

Alice: E aí que eu fique nos Estados Unidos. Olha, eu te falei que eu ia voltar lá, hein.

Luciano: Que interessante isso.

Alice: Olha que legal. E aí ela lembrou, porque ela sabia. A gente era muito amiga. Ela falou “Alice, já pensou em dar aula?” Eu, na época estava trabalhando em escritório, mas ganhava muito pouco, que era bem a crise e o cara tipo, o meu chefe, na época, coitado, ele era gente boníssima, mas olha, você tem que me dar seis meses para eu entender se eu vou poder te dar um salário de fato, uma coisa certa. E então eu já estava naquela ali, cara, não sei quanto mais eu aguento. Quando ela fala assim, você já pensou em dar aula? Eu falei, nunca pensei, mas tenho a maior vontade. Assim, eu sempre tive vontade, mas eu nunca tinha pensado, porque eu achava que nunca ia vir uma oportunidade para mim. Ela, cara, “eu estou aqui com uma vaga de laboratório, e eu sei que você sabe fazer, você não quer vir aqui, falar com a galera?” Eu falei “beleza, vou”. Isso em Nova Jersey, isso no interior de Nova Jersey. Aí, cara, pô, foi a glória, foi tudo o que eu sou hoje. Isso me deu o tempo para me estruturar, para viver do meu trabalho. Aí eu dei aula 3 anos nessa faculdade Ramapo College e depois eu dei aula ainda na Bergen Community College, são faculdades que eu lidei com a classe média americana, com a realidade dos Estados Unidos. Entrei porque eu sabia de laboratório e depois fui dar aula de artes e tecnologia, fui dar aula de história da fotografia. Foi uma experiência incrível e a minha aula era divertidíssima, eles me deixaram trazer isso para os alunos, foi incrível e eu aprendi a falar, toda a experiência de vida que eu tive, eu sempre trazia de volta para o meu trabalho artístico. Então esse negócio que você falou, a sua pergunta de que como é que você daí fez um business do seu trabalho artístico de todas essas experiências, de todas, tipo aprendi a falar, aí já me sentia bem em público, sabe, aí comecei a ter essa paixão de incentivar o outro. Então eu gosto de falar muito para o jovem adulto, amo, porque eu acho que é para eles que eu posso acrescentar mais. É olhar para eles e falar, cara, eu vim de uma história que se eu te contar você não acredita, era só negação, era só paulada, não era que eu era genial, não era que eu tinha um talento incrível, eu corri atrás desse talento, sabe, eu corri atrás dessa vontade, então era muito legal. Aí eu consegui ir me estruturando, aprendendo a falar e sempre tive uma coisa de organização, aí eu tive um outro insight, eu aqui nos Estados Unidos eu sou mais um, no Brasil, eu sou um. Eu, nos Estados Unidos, eu sou mais um brasileiro, eu tenho que ter alguma história para contar que eu vim do Brasil, desde que eu saí do Brasil, eu nunca produzi nada do Brasil, então eu comecei a entender que eu tinha que voltar para o Brasil e começar a formar alguma história de trabalho aqui. Então eu comecei a voltar, fazer residência no Brasil, essas residências que eu te expliquei, de arte, fiz uma no Rio, uma em São Paulo.

Luciano: Quer dizer, você voltou estudando?

Alice: Fazendo essas residências, mas voltava assim por 2, 3 meses.

Luciano: Mas era estudo, você veio estudar?

Alice: É. E comecei a correr atrás de galeria. Começava a ir nas galerias, a conversar com as pessoas, ir atrás de curador, contava a minha história, ia atrás e comecei a vender no Brasil.

Luciano: Então, quando você chegava na galeria e abria o teu portfólio, você mostrava o quê?

Alice: Todo o meu trabalho, que eu tinha feito. Fotografia.

Luciano: Você tinha? Está certo. Isso, então, deixa eu ser mais… Você tirava desse portfólio, você abria e mostrava para o cara, isto é o que eu faço? O que que era isso que era o que eu faço, era uma fotografia trabalhada, mexida, o que é o teu trabalho? Que eu vou botar as imagens, evidentemente, aqui, como nós estamos falando, eu quero que a pessoa tenha uma ideia. Quando eu pegar um trabalho teu, eu vou ver o que ali? Uma imagem maluca, uma foto de um avião, o que eu vou ver ali?

Alice: Não, na época, o que eu fazia, não é o que eu faço hoje, mas na época o que eu fazia era uma fotografia super detalhista e técnica, de estúdio, aonde eu remontava espaços da casa. Esse era o meu projeto mais conhecidinho. Conhecido assim, tinha dois, um era duas pessoas sem lugares, que falava uma coisa da persona da mulher e falava da dualidade do casal, então falava desse confronto, mas através de objetos, então eram fotos que tinham fundo branco e esses objetos super bem fotografados. E a outra era casa americana, eu falava dessa minha desconexão com a cultura americana, então era um fundo vazio, com os objetos assim. Era o que eu fazia, eu ia lá e falava sobre isso, estudava a luz, então fazia umas fotos branco sobre branco. Era tipo assim, oi? Mas era bem interessante, foi minha base assim.

Luciano: E foi aceito?

Alice: Foi aceito, aí consegui a minha primeira galeria no Rio, em 2010.

Luciano: Então, me explica aqui para quem não conhece nada do assunto aqui, que esse é um ponto importante. Eu sou o padeiro, tá? E eu consigo emprego numa padaria, onde eu produzo pão e o meu pão vai ser vendido, se o povo gostar do meu pão, eu vou ter sucesso. Quando você fala, eu consigo uma galeria, como é que isso é um business? Então eu imagino assim, estou exposto numa galeria, legal, meu nome ficou lá, fez um barulho na imprensa e tal. Como é que isso se transforma em negócio?

Alice: É e aí tem outras coisas também, então, mas eu nunca cheguei numa galeria assim, porque eu fui lá, bati na porta da galeria e eles falaram comigo, nunca foi muito assim, não, tá? Acabou que é sempre muito assim através de um curador, através de alguém que conhece o seu trabalho, que te indica, mas eu ia buzinando no ouvido dessas pessoas, ia marcando a minha presença, até que essa pessoa ia chegando em outras, entendeu? Mas eu sempre fui, eu não tinha muita vergonha, sabe. Cara, eu preciso disso, eu tenho que ir atrás, eu nunca esperei muito, é isso que eu acho que a gente já falou também, eu não fiquei sentada numa cadeira, esperando alguma hora vir.

Luciano: Ser descoberta. Que alguém me descubra.

Alice: Tipo assim, porque eu não quero ouvir crítica, porque isso daqui vai ser mal visto, então espera aí, deixa eu ficar aqui no conforto da minha cadeira, vou trabalhar ali no restaurante e alguma hora a coisa acontece. Não, não tem milagre. Então eu não fiz isso, o que eu fiz foi sempre botei minha cara a tapa num meio criativo, era dando aula de arte, era dando aula de fotografia, era indo nesses lugares, era falando. Obviamente, eu falei muita besteira até hoje, mas tem uma verdade nisso, tem uma vontade de crescer e aprender. E a minha primeira galeria foi eu encontrar um curador nesse lugar, que ele é que sugeriu o lugar, então eu estava com o meu trabalho ali, porque a gente ia debater uns assuntos, o cara se atrasou loucamente, eu acabei conversando com a dona da galerista, ela falou, “então você está com o seu trabalho aí? Você veio ver o fulano e o fulano ainda não chegou, me mostra aí”. Ela ali foi separando umas fotos e falou “eu quero isso aqui, vamos começar a trabalhar”. E foi assim e eu na hora ali, que eu estava procurando aquilo, mas não esperava que ia ser ali, naquela hora, não tinha nem preparado nenhuma conversa, nem nada, quer dizer, o espontâneo, o inesperado e é saber ali na hora usufruir.

Luciano: O termo inglês é serendipity.

Alice: Serendipity, total. Mas quanto mais você procura, mais serendipity vem na sua vida.

Luciano: Só acontece porque você estava lá, exposta. Se você estivesse em casa, não ia ter nada, acontecer nada. Diga uma coisa aqui, quando ela fala assim, eu quero essas aqui, deixa eu tentar entender como funciona, eu quero essas aqui significa o seguinte, eu concordo em pegar o seu trabalho, vou expor na galeria, seu vender.

Alice: Você ganha.

Luciano: Você ganha e eu ganho também?

Alice: Isso.

Luciano: Esse é o processo?

Alice: No meu meio, sim. É o mais comum, mas aí você acha que eu sentei e fiquei esperando ela fazer acontecer? Não. É um outro erro que acontece muito com artista jovem, que acha que agora que você tem uma galeria, então está tudo certo. Não é bem assim, ela tem outros vinte artistas ou quinze e você acabou de chegar, os outros já estão ali há um tempo. O meu currículo era muito pequeno, obviamente, tinha alguns prêmios e tal, mas assim. Então eu fui viabilizando, eu fui entendendo que, cara, arquiteto, arquiteto que faz projeto põe quadro na parede. É arquiteto, tenho que conhecer arquiteto. Ia falando com todo mundo que eu achava que conhecia arquiteto, ia falando com todo mundo que conhecia arquiteto para me apresentar. Conheci um arquiteto, cara, que o cara me pegou no braço e falou “eu gosto do seu trabalho, oportunidade que eu tiver, vamos botar na casa do cliente”. Comecei a fazer dinheiro vendendo para projeto de arquiteto. Maravilhoso, aí o artista às vezes, ai, mas vou fazer isso, não acrescenta muito. Não é isso, cara, eu tenho 22 anos, se eu chegar num museu com 22 anos, acho que tem alguma coisa errada, é um em um milhão, entendeu? Eu vou chegar num museu? Eu tenho certeza, voltarei aqui para dizer que entrei na coleção tal, então em outras coleções, sabe. Assim, eu não posso ter essa prepotência, sabe, e o meu meio é muito seletivo e é muito vai cortando asinha, ai, você não pode fazer isso, ai, você não pode fazer aquilo e na insegurança de você jovem ali, você fala, então eu não posso fazer. Mas eu comecei a falar, não é que eu não possa, eu quero é viver disso, eu quero é viabilizar. Então vamos embora, como é que eu posso fazer de uma forma que acrescenta, que tem uma relevância? E aí eu aprendi o business, porque eu comecei a aprender a lidar com arquiteto, comecei a aprender com entrega, comecei aprender com produção, timing de produção, comecei a aprender a embalar a obra. Sempre e até hoje eu não tenho assistente, então até hoje eu faço tudo muito sozinha, às vezes é muito cansativo, mas vale. Eu já vi vocês falando sobre isso aqui que vale a pena porque a gente ama o que a gente faz. Porque é uma entrega, porque é uma verdade. Então foi assim, foi fazendo, aprendendo, errando. A primeira vez que eu negociei com um arquiteto, eu fiz errada a conta, fiquei morrendo de vergonha, porque eu não sabia qual era a porcentagem do cara, errei, entendeu?

Luciano: E vamos para a próxima.

Alice: Vamos para a próxima. Pô, o cara chamou, me deu uma oportunidade de novo eu já não errei, entendeu?

Luciano: Deixa eu fazer um paralelo com você que muita gente me escreve, fala comigo, cara, eu queria virar palestrante também, como é que eu faço para fazer palestra, o que eu posso fazer, como é que eu posso fazer? E a resposta minha é o seguinte, palestre. Falando, cara, você tem que falar. Mas… mas. Bicho, você frequenta igreja? Sim. Então pede para o padre deixar você ler lá na frente um negócio. Você vai num aniversário? Faça você o discurso de parabéns. Toda vez que você vir pessoas juntas, se exponha e fale de graça etc. e tal. Aí a roda começa a rodar, porque você vai começando a ganhar experiência, vai errar de montão, vai quebrar a cara de montão e ali você vai se preparando para um dia a coisa começar a andar. Que é aquela história, se eu vou treinar para esperar ser chamado para fazer uma palestra paga na indústria tal, não vai chegar. Então é construindo como você fez ali, direitinho.

Alice: E aí foi, sabe, aprendi muito fazendo, errei e até hoje, obviamente, mas vou errando menos, vou entendendo melhor e hoje eu trabalho com sete galerias no mundo inteiro, voltando um pouquinho também, como eu te falei, eu dei aula quase quatro anos, de 2010 a quase 2014, tipo assim eu parei um tempo para testar, porque eu vim fazer uma dessas residências e aí eu resolvi, vou pedir um semestre sabático, porque nos Estados Unidos isso é uma coisa legal, eles incentivam porque querem que o professor esteja ativo na área dele, vou pedir um semestre sabático e ver o que rola. Em janeiro de 2014 foi a primeira vez que eu falei vamos ver o que dá e se dá. Dali até hoje vem dando, então, de alguma forma, eu venho viabilizando essa minha vida hoje há quatro anos de artista.

Luciano: Quer dizer, você tirou o semestre sabático e não voltou mais?

Alice: Nunca mais voltei.

Luciano: Você não voltou mais. Hoje então cem por cento do seu tempo é produzindo artes plásticas?

Alice: Eu vivo do meu trabalho artístico. Sim.

Luciano: Com o trabalho na área de fotografia e tudo o mais.

Alice: Sim, correndo muito atrás.

Luciano: E o Brasil, como é que o Brasil entra nisso?

Alice: Anda bem, estou com uma exposição agora em São Paulo, por sinal.

Luciano: Aonde?

Alice: Está na Galeria Casa Nova, estou com uma instalação lá falando de fotografia expandida. A exposição fica até o final de abril. Semana que vem é a Semana da SP Arte aqui em São Paulo, estou com três galerias. Estou com a minha galeria do Rio Silvia Cintra Box 4, estou com a galeria de São Paulo, a Casa Nova e estou com um espaço de arte chamado BG27. A vida é assim, volto para Nova York daqui a duas semanas, tem uma outra viagem para um outro cliente, graças a Deus e eu vivo muito o presente. Eu vivo muito assim hoje está dando certo, não sei amanhã, mas trabalho para que continue dando certo, sabe. Eu tenho consciência que é um risco o que eu faço, mas é muito gratificante.

Luciano: Se projeta lá na frente, lá na frente. Você vai ser uma senhora aposentada fazendo o quê?

Alice: Cara, lá na frente, se eu me projetar, eu quero ser uma artista plástica ativa, inovando até quando eu tiver forças, sempre inovando, sempre trazendo material novo, sempre ousando e sempre dando a mão para o próximo, sempre trabalhando com outros, com colaboração, que eu acho que foi até um ponto que eu não citei muito, mas que eu aprendi eu acho que nessa minha vida de imigrante que aguçou em mim, que foi um ensinamento que eu levo também comigo hoje muito forte é a colaboração, é fazer junto, é aprender junto.

Luciano: Como é que a internet entra na tua vida, nesse teu negócio?

Alice: A internet eu acho que é outra oportunidade. Eu acho que a internet é oportunidade, eu acho que é saber usar de uma forma produtiva, trazer de uma forma produtiva e positiva. Para mim, a internet, eu vejo de uma forma que é o seguinte, ela hoje me permite chegar a lugares e pessoas que eu antes não chegaria sozinha, não é que eu chegue em massa, mas eu chego. Isso eu adoro, eu adoro tecnologia, a gente pode sentar aqui e só falar de tecnologia porque o equipamento é outro assunto no meu trabalho. Eu arrisco o tempo inteiro, eu estou com um equipamento em 2014 foi a primeira vez que eu fiz, que eu tinha um equipamento de fotografia super apurado, com strobe light, com câmera SLR Single Lens Reflex, muitas lentes, flash. Em 2014 eu falei, meu trabalho não é mais isso, eu vendi tudo, fiquei com um corpo de câmera mirrorless, que não é o mesmo sistema, então é um sistema que revela mais o erro da imagem e eu fiquei com uma lente. E desde 2014, que como eu te contei foi quando eu comecei a me profissionalizar e viabilizar essa minha vida como artista plástica de fato cem por cento e reaprendi a olhar pela lente, e reaprendi a fotografar, readaptei e fui atrás dessas minhas vontades, porque o meu trabalho mudou muito, hoje eu pinto em cima da imagem. Então eu comecei a questionar muito a fotografia, hoje eu falo de fotografia expandida, fotografia fora do conceito documental e eu falo mais do conceito emocional. E aí a gente volta a Lygia Clark e Hélio Oiticica, que eu te falei que foram as minhas principais influências como pré-adolescente, eles hoje são grande força no meu trabalho na ideia do sensorial, porque eles falavam do sensorial com escultura, com pintura, com performance e eu estou falando o seguinte, como é que eu trago o sensorial para a filmagem, que é uma mídia tão perfeita e distante do espectador? Como é que eu aproximo esse material da gente? Comecei a fazer mural, isso tem menos de um ano, comecei a fazer mural, já fiz mural em Nova York, em Los Angeles e agora fazendo um no Brasil. Cara, e eu vou arriscando, eu vou me incomodando, eu quero trazer essa esperança para o outro, sabe, isso é um prazer na minha vida.

Luciano: Que legal. Olha, não vou dar os parabéns porque você não precisa, você gramou bastante para chegar lá. É muito legal entender que esse teu trabalho acontece junto com você, quer dizer, é aquela história, não é um menino de 22 anos que explodiu com aquele talento que veio não sei de onde. Outro dia eu lancei um material em que eu falava dessa coisa do talento inato e do talento que é buscado, que é o mindset que eu nasci com aquele talento, eu usei até o exemplo do Romário, que cai a bola no pé, o cara faz gol, não precisa nem treinar, passa a bola para ele, ele faz gol, então ele nasceu com aquilo. E tem um outro que não nasceu com aquilo e que se ele não trabalhar desesperadamente, ele não vai conseguir fazer, que ele só vai ter habilidade suficiente se ele se dedicar para aquilo de coração. O brasileiro dá muito valor para o talento mágico, esse que nasceu com ele. O americano dá um valor desgraçado para os caras que trabalham para fazer acontecer, então é diferente ali. Tem uma diferença, tem uma coisa aqui de Deus deu e é mágico, portanto todo valor a isso e outro fala não, cara, esse aqui gramou para fazer, todo o valor a isso. E é legal ver que você foi nesse caminho aqui, quer dizer, cara, se eu não arregaço a manga e parto para buscar, apanho, apanho como apanhei e não deixo a bola cair e sei que lá na frente vai rodar, não tinha acontecido nada, você tinha voltado e com o rabo no meio das pernas, não é? Quem quiser saber do teu trabalho encontra aonde, além dos lugares que você já falou, na internet, me dá o endereço, me dá a página.

Alice: Claro. O meu Instagram é @alicequaresma, o meu site é www.alicequaresma.com e o meu e-mail, se alguém quiser mandar e-mail é [email protected] e adoro trocar ideias, adoro trabalhos de colaboração. E é isso, espero que curtam o trabalho. O meu Instagram é super ativo, atualizado. E que inspire muitos aí.

Luciano: Vou lembrar então a turma, eu vou botar uma série de imagens que você está falando, as dicas todas aqui no texto.

aalice

alice quaresma Ocean Line 4

Luciano: Eu não sei se você viu, mas a gente transcreve o nosso papo inteirinho e na transcrição eu vou colocar as imagens aqui, quem quiser ver então, os links vão estar lá também. Alice, adorei a história aqui, viu, seja bem-vinda ao LíderCast, quando vier a São Paulo, me dá um alô lá e eu vou querer ir lá, quero olhar agora a exposição, para ver in loco. Quem sabe eu tomo aquela porrada que você tomou, não é?

Alice: É, isso aí. Muito obrigada pelo espaço, Luciano. Agradeço, foi um prazer imenso e ainda mais falar aqui no Brasil, em português é ainda mais prazeroso assim, é uma oportunidade. Obrigada.

Luciano: Seja bem-vinda.

Alice: Valeu.

Luciano: Muito bem, aqui termina mais um Líder Cast. A transcrição do programa você encontra no lidercast.com.br. O LíderCast chega a você com o apoio da Albaugh Brasil, que está revolucionando o mercado com uma linha completa de agroquímicos genéricos. Sim, cara, genéricos de qualidade, combinando proteção, rentabilidade ao agricultor e respeito ao meio-ambiente. Conheça as soluções Albaugh em bit.ly/escolhainteligente. Para ter acesso a esta temporada completa, assine o Café Brasil Premium no cafebrasilpremium.com.br, um ambiente educacional sem ser chato nem superficial, que já conta com mais de mil assinantes recebendo todo mês conteúdos voltados ao crescimento pessoal e profissional. Conheça, que vale a pena, cafebrasilpremium.com.br.

Você ouviu LíderCast, com Luciano Pires, mais uma isca intelectual do Café Brasil. Acompanhe os programas pelo portalcafebrasil.com.br.

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