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Luciano Pires -
Download do Programa

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Bem-vindo ao LíderCast, o podcast para quem quer saber mais sobre liderança. Apresentação Luciano Pires.

Luciano: Bom-dia, boa-tarde, boa-noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o podcast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. No programa de hoje meu amigo Nailor Marques Jr., professor, palestrante, uma das mentes mais divertidas e brilhantes que eu conheço, capaz de navegar de Machado de Assis ao comportamento dos idiotas nas redes sociais com a mesma categoria.

Este não é um programa de entrevistas, não tem perguntas programadas, nem roteiro definido, é um bate-papo informal com gente que faz acontecer, que vai para lugares onde nem eu e nem o meu convidado imaginamos. Por isso eu não me limito a fazer perguntas, mas eu dou os meus pitacos também. Você entendeu aí? Isto aqui não é uma entrevista, é um bate-papo. O LíderCast é lançado por temporadas. Os assinantes da Confraria Café Brasil e do Café Brasil Premium têm acesso imediato à temporada completa assim que ela é lançada, os não-assinantes receberão os programas gratuitamente, mas um por semana. Para assinar, acesse o cafebrasilpremium.com.br.

Muito bem, mais um LíderCast. Até que enfim, hein, meu. Puxa vida, que dificuldade, cara.

Nailor: É, alguns anos, mas cheguei.

Luciano: É, a gente tenta e vai, uma hora vai. Ô agenda enrolada.

Nailor: Demorei mas cheguei.

Luciano: Você já conhece o LíderCast, sabe que ele começa com três perguntas absolutamente fundamentais que revelam a sua essência. Então, vamos às três, por favor, não erre. O seu nome, a sua idade e o que você faz.

Nailor: Nailor Marques Jr., 55 anos e hoje eu sou mentor profissional e palestrante.

Luciano: Mentor profissional e palestrante. É, fica contando suas histórias para os outros, bicho, é isso?

Nailor: Mais ou menos. Eu fui um contador de histórias a vida inteira. Na verdade, eu só acredito em contar histórias. Foi o Mark Twain que disse uma coisa “Quando eu era jovem eu contava as coisas que tinham acontecido e as coisas que eu tinha inventado e agora que eu fiquei velho, eu só conto as coisas que eu inventei”. Eu sou exatamente isso, eu gosto disso, eu prefiro uma mentira bem contada, eu gosto de contar histórias. Até porque a civilização foi construída em torno de contar histórias. Quem não sabe contar histórias, não sabe nada.

Luciano: E se você olhar em volta na tua vida, você vai descobrir que o teu tempo é dedicado a ouvir e apreciar histórias, sabe. De uma assinatura de um Netflix àquela aula que você fica parado nela, à notícia do jornal, tudo é ‘contação’ de história. Então no fim das contas, nossa profissão é isso, cara, contar histórias.

Nailor: Você sabe, Luciano, eu estava numa empresa ontem, uma empresa que eu assessoro, a gente está começando um trabalho e eu perguntei a eles, olha que coisa engraçada, eu perguntei a eles “que história vocês querem contar de vocês? Que história vocês querem que seja contada aqui?” Porque se a gente não encontrar uma narrativa para essa empresa, essa empresa nunca vai ser nada, porque uma empresa é, na verdade, aquilo que a gente conta dela, não é verdade? A gente conta coisas de uma empresa, sempre tem uma história para contar e aí, no fim das contas, a gente nunca mais sabe se aquilo é uma lenda ou se aquilo é verdade. A gente ouve falar do Ford, do Forbes, você nunca sabe o quanto aquilo é verdade, Vanderbilt, sei lá, o quanto aquilo é verdade, Rockefeller, ou o quanto aquilo é mentira. Até que você assiste um filme, essa semana a Netflix lançou um documentário sobre o Osho, o falso guru lá e desmontou, destruiu o cara de um jeito. Quer dizer, quantas vezes eu vi e repliquei frases do Osho, aí sabe aquela vergonha retroativa assim? Nossa, eu repliquei um picareta do caramba. Mas é isso, é uma história bem contada que as pessoas caíram, eu também caí.

Luciano: Você nasceu aonde, cara?

Nailor: Eu nasci em Presidente Prudente, aqui em São Paulo.

Luciano: Você é paulista daqui mesmo de porta porco?

Nailor: Alta Sorocabana. Ôpa, Alta Sorocabana assim na Vila Dubus, cara. Ah, de Vila Dubus para o mundo.

Luciano: Bem-vindo. Seu pai fazia o quê? Sua mãe fazia o quê?

Nailor: Cara, meu pai teve uma ascensão meteórica na vida, uma coisa esquisita. Meu pai, quando eu nasci, eu vim de uma infância pobre, pobre mesmo, não é história de palestrante, não, mas quando eu nasci, meu pai era desses caras que sobe em poste assim para, sabe, que conserta energia elétrica, essas coisas. Daí ele entrou para um banco, para trabalhar como assistente. Era um homem muito inteligente, tinha uma inteligência financeira e teve uma ascensão meteórica. Ele entrou como boy do banco, na época chamava… tinha outro nome, contínuo e ele em instantes chegou para caixa, gerente e foi gerente regional do Mercantil de São Paulo e depois se especializou em abrir agência. Ele era especialista em abrir agência. Aí o Mercantil de São Paulo fez uma grande expansão pelo interior de São Paulo e o Unibanco estava expandindo Paraná. Aí chamaram ele e ele foi fazer a mesma coisa no Paraná e abriu 70 agências no Paraná. E aí a gente mudou para o Paraná, eu tinha 13 anos, vivi em algumas cidades, até que parei em Maringá, onde eu moro hoje. Depois meus pais se separaram e aí é vida que segue.

Luciano: Seu pai não era um empreendedor, seu pai então trabalhava para uma empresa. Sua mãe fazia o quê?

Nailor: Minha mãe é dona de casa.

Luciano: Tem irmãos?

Nailor: Tenho, mais quatro.

Luciano: Você é o quê?

Nailor: Sou o do meio.

Luciano: É só para situar tuas referências e tudo o mais. O que o Nailorzinho queria ser quando crescesse?

Nailor: Diplomata. Eu estudei desde pequeno. Eu era pobre, mas eu achava diplomata a coisa mais bonita, sabe. Eu achava aquilo, eu não sabia o que fazia um diplomata e hoje eu sei que não faz nada, mas naquela época eu não sabia, eu achava que diplomata fazia uma coisa super legal e eu sonhava com isso, tanto que eu estudei para ser diplomata. Eu estudei para ser diplomata, eu fiz direito porque eu queria ser diplomata e eu sempre, sem modéstia, eu fui um estudante assim muito bom, eu era um sujeito irrequieto, eu até agradeço que no meu tempo não havia Ritalina, se houvesse, provavelmente eu teria sido vítima. Eu sei que a Ritalina tem alguma função, mas sei que ela não era para mim, acho que tem mais doente do que doença no meio da parada e o fato é que eu era irrequieto, assistia à aula em pé, mas sempre um dos primeiros da sala.

Luciano: Isso tem nome, hoje chama-se transtorno de déficit de atenção, de hiperatividade.

Nailor: Exatamente de hiperatividade e a Ritalina é para isso. Graças a Deus, não tinha no meu tempo, então eu prossegui minha infância normal, só como um moleque arteiro. Só que eu era o arteiro pior que tem, porque eu era o arteiro que tira 10, então você não tem como. Hoje um professor quer punir o arteiro porque, normalmente, o arteiro, o cara que é bagunceiro é o sujeito que é bagunceiro e tira nota vermelha. Eu era o bagunceiro que estava no topo, então não tem como me punir. Então o que as professoras faziam, elas me ajudavam, isso eu agradeço muito as minhas professoras de primeira à quarta série, muito mesmo, tanto que um dos meus livros de educação eu dediquei a elas, porque eu acho que elas fizeram um trabalho bem bacana comigo, compreendiam isso, entenderam isso, talvez intuitivamente, não sei, mas entenderam e sempre me colocavam como ajudante da sala. O cara que era o ajudante da sala, então os alunos que tinham mais dificuldade para entender, eu era o cara que ia ajudar a explicar a lição. Eu me sentia importante fazendo isso. Elas me ocupavam e de alguma forma eu aprendia mais ainda, porque quando você ensina acaba você aprendendo até mais. E eu acabava tendo a responsabilidade de continuar sendo o aluno que tirava boas notas, porque senão eu não podia explicar para os outros. Você vai viciando naquilo e assim foi a minha vida.

Luciano: Isso tudo foi aonde?

Nailor: Isso em Presidente Prudente.

Luciano: Tudo em Presidente Prudente? Isso foi antes de você mudar para o Paraná.

Nailor: É, eu mudei para o Paraná para fazer a oitava série.

Luciano: Que idade você tinha lá?

Nailor: Eu tinha, eu vivi até os 13 anos lá. Quando eu completei os 13, aí eu vim para o Paraná.

Luciano: E essa ideia tua de ser diplomata previa que você ia ter que estudar fora de lá?

Nailor: Sim, fora de lá.

Luciano: Você não ia poder ficar lá, você ia ter que ir para algum lugar.

Nailor: É, mas eu não sabia, na verdade, exatamente o que era. Sabe quando você deseja alguma coisa que você não sabe exatamente? Você fala, quero ser astronauta. O que faz um astronauta? Vai para o espaço. O que faz um diplomata? O diplomata é um cara que vive em outro país negociando com pessoas. Desde pequeno, é uma coisa inacreditável, eu sabia que eu tinha nascido para ensinar e eu sabia que eu tinha nascido para negociar. E é exatamente o que eu faço, eu sou um construtor de raciocínios, quando alguém pergunta assim para mim “qual é a sua especialidade?” Eu ouço isso direto, eu digo “eu sou um construtor de raciocínios”. Essa é a minha especialidade, eu sei construir raciocínios. Você me dá uma ideia, eu sei construir um raciocínio a partir dali. Você me dá um propósito e eu sei como transformar, eu não sei fazer a coisa, eu nasci com duas mãos esquerdas. Você pede assim corta esse papel aqui, eu corto errado. Dobra esse aviãozinho, uma asa é maior que a outra. Sempre foi assim, então a coisa que eu mais ouvi na escola a minha vida inteira, “como o seu trabalho é feio”. Ainda bem que eu também não acreditei nisso, eu também nasci com um botão…

Luciano: Você sabe que isso é uma espécie de autismo, não é, cara?

Nailor: Pode ser mesmo. Eu nasci com um botão que me impedia de ouvir esses comentários que me diminuíam e me impediam de ser quem eu queria ser. Quando eu estava no primeiro ano do ensino médio, eu sempre fui um bom leitor, dos 14 aos 20 anos eu fui o maior leitor da biblioteca pública da minha cidade, depois ganhei um prêmio por isso, ganhei todos os anos, mas era assim, uma coisa ofensiva, porque eles premiavam do primeiro ao quinto lugar. O sujeito que ganhava quinto lugar tinha lido 16 livros no ano. É muito o brasileiro que lê um livro e meio, você imagina então, 16 era muito. Aí o segundo lugar era, sei lá, o quarto lugar tinha lido 20, o terceiro lugar tinha lido 30, o segundo lugar 36 e o Nailor tinha lido 200. Às vezes tinha que somar todos e multiplicar por dois ou por três para dar o que eu tinha lido. Então isso sempre foi assim. Então a professora dizia “gente, leiam tal coisa”, eu dizia “já li”, outra coisa, já li, já li também e aquilo foi irritando ela. Ao contrário das minhas professoras de ensino fundamental, em lugar de ela estar feliz, ela foi ficando irritada e um dia ela virou para mim, falou assim “você é um mentiroso, você não vai dar nada na vida, se você continuar mentindo dessa maneira, você não vai dar nada, nada na vida” e aquele ‘xizão’ na minha testa. Só que eu, acontece que eu tenho uma chave “desliga isso”. Sabe quando você reconhece um idiota e lá dentro tem alguma coisa que desliga?

Luciano: Ela faz barulho quando desliga?

Nailor: Não, só desliga, cai a chave.

Luciano: Sorte sua, se tivesse, se você está no Facebook e fizesse barulho, você estava louco.

Nailor: Eu enlouquecia. Ela só cai a chave. Sabe quando você fica ouvindo alguém e parece que some o som da voz da pessoa e fica blábláblá? Eu fico ouvindo isso. Então é esse tipo de coisa, eu sou o sapinho surdo daquela historinha que vai subindo a montanha e todo mundo “ah, não vai conseguir”, eu sou o sapinho surdo, eu vou seguindo a minha vida. Eu não sou um super-herói, não sou uma pessoa que ou o vencedor, o cara que sabe fazer tudo, o cara self made man, não acredito em nada disso, eu sou um cara que trabalha, eu estudei a vida inteira, eu estudo, continuo estudando, trabalho para caramba, então não tem nada assim de heroico na minha vida. Eu sou um cara determinado, que sai e trabalha, mas eu acredito em trabalhar.

Luciano: Como é que era a relação com os amiguinhos que eram garotos “normais”?

Nailor: Eu sempre tive bons amigos, mas sempre fui um sujeito mais isolado porque, obviamente, se você estuda, você é mais isolado no Brasil. E eu tinha uma coisa que acho que era ruim, mas ao mesmo tempo foi muito bom, olhando a minha história, que é eu nasci odiando futebol, eu fui criança nos anos 70, imagina ser criança nos anos 70 e não gostar de futebol. Então enquanto a brincadeira era pega-pega, sei lá, qualquer brincadeira dessas, era legal, passa anel, balança caixão, numa boa, quando em determinado momento diziam, agora vamos jogar futebol, eu dizia, então eu vou para casa. E eu ia para casa fazer o quê? Ler. Era exatamente isso que eu gostava.

Luciano: E é uma coisa interessante, você sabe que na minha época no interior, foi Bauru, eu não era esse maluco de leitura assim, mas eu lia, acho que eu lia mais do que os outros moleques. Eu me lembro que eu assinava o clube do livro e chegava o carteiro com uma caixa e aquela caixa de papelão eu abria, tirava ali de dentro seis, sete livros e só vinha clássico, Moby Dick de um lado, Miguel de Cervantes de outro, uma loucura, eu ficava louco com aquilo lá. E aí eu escrevia e tudo o mais, e cabelão, um baita óculos, aquela coisa toda e eu me lembro que uma vez, eu vindo para São Paulo, sentei num ônibus junto com um cara que era do jornal lá de Bauru, o cara que escrevia e tudo o mais. E o cara veio e curioso comigo e me fazia perguntas que depois eu saquei, esse cara acha que eu sou anormal. Queria saber se eu namorava, se eu jogava bola, se eu saía com os amigos, porque ele meio que considerava que eu era uma coisa fora do normal. E depois que eu parei para pensar, mas por que está me perguntando isso tudo? Porque eu tinha esse hábito esquisitíssimo de ler, ou de escrever, ou de desenhar, quando todo mundo estava na rua jogando bola. A própria sociedade te coloca num lugar e bota o tão ‘xizão’ na tua testa, não é?

Nailor: Exatamente.

Luciano: Tem gente que acha que é legal e faz bem, outros ganham para o resto da vida uma pecha.

Nailor: Exatamente. No meu caso, eu acho que eu nasci meio já com uma doença que eu já sabia que aquilo não me afetava. Eu não sei, eu nasci desafetado, entende, eu nunca fui um sujeito de mi-mi-mi, nunca fui, nunca fui uma pessoa assim. Eu sou um sujeito que anda na rua e se você gritar assim palhaço! Eu sou o único cara que não olha. Idiota, otário! Eu não olho, mas se você gritar bonitão! Eu sou o primeiro que olha, mas se você gritar palhaço… Eu nasci com uma autoestima incrível e sempre foi assim, esse tipo de coisa não me afeta, porque eu divido o mundo em dois tipos de pessoas, eu sempre conto isso nas minhas palestras, que eu divido o mundo em dois tipos de pessoas: os que gostam de mim e os bestas. Então só tem dois tipos de gente, gosta de mim, não gosta de mim é besta, não tem outros, não há um meio-termo.

Luciano: E não vale a pena perder o tempo com besta.

Nailor: Não, não vale o tempo. E tem uma coisa, entre o gostar de mim e o ser besta não existem cinquenta tons de cinza, é gosta de mim ou é besta, ponto final. Então pronto, se você não gosta de mim e você demonstra que não gosta de mim, dentro da minha cabeça já fica “besta, besta”. Uma coisa é você argumentar comigo, é diferente. Não estou dizendo que não gostar de mim é argumentar, me contrariar, não é nada disso. Eu sou um sujeito que adora uma conversa e se você conversa comigo e discorda de mim de modo inteligente, aí eu sou o cara para esse tipo de conversa. Eu estou dizendo não gostar mesmo, aquele cara que gratuitamente não gosta ou resolveu te encher o saco, isso normalmente acontece com gente que é otário por natureza, gente que é otário mesmo. Aí ele não tem nada para fazer com você, ele resolve te encher o saco. Esse cara, não, eu desconsidero completamente, eu não nasci para educar esse tipo de gente, essa tarefa não é minha.

Luciano: E as mídias sociais trouxeram tudo isso à tona. O que tem de gente aí, meu Deus. Eu estava olhando essa semana, sabe, eu fui fazer o LíderCast lá com o Olavo de Carvalho, eu já sabia que eu tinha uma bomba na mão, porque é um cara contestado, é brilhante, mas é polêmico. Eu falei, então a hora que eu publicar isso aqui eu vou apanhar que nem um louco. Eu trouxe, fiz o podcast e também trouxe a gravação em vídeo e foram duas horas e vinte e pouco de vídeo, eu fiz questão de botar integralmente e publiquei no YouTube, com a turma me dizendo para não perder tempo porque não ia acontecer nada. Bom, já está com mais de 65 mil visualizações ali e tem comentários embaixo, 500 comentários. Aí você começa a ver os comentários, então vem o comentário legal, que agrega, aquele cara que sacou alguma coisa que foi dita, o que é muito legal e no meio entra um cara assim, um idiota… como é que é? “Ô entrevistador ruim pra c*” e xingando. Em duas horas e vinte, uma pergunta que foi feita e o cara desconsidera tudo o que aconteceu para focar naquela pergunta que você olha, cara, isso não foi nem a coisa mais importante, aliás foi um comentário que foi feito ali, que não tem nada a ver. E as outras duas horas e dezoito minutos? Então ele destrói tudo aquilo em função de um minuto, um minuto e pouco.

Nailor: Ele passou as duas horas procurando esse minuto.

Luciano: Tem que ser muito otário.

Nailor: Ele passou procurando esse minuto.

Luciano: Tem que ser otário. Ele jogou fora a vida dele e chega no final… Outro dia eu fiz um outro programa, fiz um Café Brasil “Já que sou brasileiro” contando a história da soul music no Brasil. Cara, o programa tem quase duas horas de duração, uma puta pesquisa, entrevista com um monte de gente, o programa é riquíssimo, ele conta a história da soul music de um jeito, deu um trabalho de montão fazer. Publiquei o programa inteirinho e pedi para a minha produtora no final do programa colocar uma lista com os nomes de todos os músicos, eram mais de 50 músicos, era uma lista de quem participou do programa. E a gente publicou, mas o cara entra fazendo um comentário e o comentário dele é para ofender a nós porque dois nomes da lista estavam com erro, erro assim de digitação, um erro idiota. Valeska Popozuda estava Vanessa Popozuda. E eu li aquilo e botei um comentário para o cara, “bicho, puta programa, duas horas, edição, uma pesquisa, o que você conseguiu enxergar do programa foi um erro na lista que nem consta do programa?” De novo, tem que ser muito otário, gastar a vida dele com esse tipo de coisa.

Nailor: É muito otário. Você sabe que as pessoas sempre perguntam se as pessoas ficaram mais burras, mais idiotas ou se não. Eu acredito que as pessoas sempre foram burras, o que a rede social fez foi revelar a burrice. É que na verdade a gente não teve, porque a gente tem uma coisa assim com a história da humanidade, eu vejo assim, quando eu ensinava, eu dizia, vamos estudar os gregos. Que gregos? Cinco séculos de Grécia, quantos gregos legais tem ali? Duzentos, para ser bem bacana, duzentos desse povo. Vamos lá, romanos, contando os generais, cinco séculos de Roma, quantos romanos tem? Duzentos, cem? Contando os generais, não tem, o resto é povo. É só que a gente fala gregos, dá impressão que todo mundo que nascia na Grécia já era genial e não era nada, era povo, só que não tinha Facebook, se tivesse, a gente ia saber a dimensão daquilo. É o sujeito que entra para criticar você e escreve errado, escreve mal, tem um português errado, conjuga verbo errado, não sabe concordância e está criticando você. Vai para a escola!

Luciano: E pior, incapaz de entender o que leu ali. Humberto Eco falou que a internet deu espaço, deu um palanque para os imbecis e foi crucificado no final da vida dele, falou e logo morreu, foi crucificado. E falou, está certo, cara, você deu um megafone na mão de um idiota.

Nailor: É isso mesmo.

Luciano: E quando você fala isso, você já vai tomar pedrada de todo lado, porque quem é você para definir se um cara é idiota ou não.

Nailor: Exatamente. Esse papo nosso, pode saber que a gente vai levar. Eu estou acostumado, você também está acostumado, é grande, pode bater à vontade, não é verdade? Até a gente gosta, não é? Eu gosto até que os idiotas se identifiquem, sabia, que às vezes acontece isso. Eu me lembro que quando eu fui ao Jô, eu recebi 5 mil, quase 6 mil e-mails depois e mais ou menos 800 era gente destruindo, mas batendo forte, aí eu disse à Silvana, que cuida da minha agenda, “os que são legais, que estão elogiando, você mesma responde: obrigado, bacana, bom ter visto. Os outros eu quero responder”. Respondi todos pessoalmente, acho que 863 ou 853 uma coisa assim, pessoalmente. Então o cara me escreve, um sujeito aqui de uma universidade, nem traz o nome da universidade, mas o cara me escreveu de uma universidade aqui de São Paulo, vários, de duas grandes universidades, detonando. Sujeito que não trabalha, vive encostado no estado, enfim, esse sujeito. E o cara escreveu umas 70 linhas, do começo ao fim, “você é um idiota” e não sei o que e terminou assim “você é um covarde, porque é gostoso ir lá gravar um programa, que depois não tem como ninguém rebater” e tal, não sei o que, “se você for um homem, se você for o cara que você diz que você é mesmo, publica, deixa esse…”, porque tinha a intermediação do comentário, “deixa o comentário aí, se você for homem” e tal, não sei das quantas. Aí eu disse para o cara “rapaz, antes de eu publicar, quero dizer uma coisa a você. Você escreveu quase 70 linhas e em todas elas ou quase todas você escreveu você com c cedilha, cara. Você escreveu você com c cedilha. Um cara que não sabe escrever você, não sabe escrever nada. Não sabe escrever nada. Você é analfabeto, nem notou a opinião do Word, cara. Então a minha sugestão é, se você realmente é o valentão que você está dizendo que é, deixe, autorize eu publicar o comentário, que eu vou publicar. Porque eu não estou publicando para não ofender meus leitores, mas se você for homem, deixa eu publicar porque eu vou publicar o seu comentário e o meu embaixo. Manda aqui a autorização”. Estou esperando até hoje, nunca veio. Quer dizer, é assim, é o sujeito que acha, tem um monte de gente achando tudo, não é? Você vai lá, é o cara que acha, leu duas porcarias e ele acha e é o que acontece, ele aprendeu com o professorzinho dele que o mundo só tinha um viés, que é nós contra eles e o que acontece é que ele, a partir daí, ele coloca você dentro de uma caixa e não quer ouvir o que você tem a dizer, ele não quer ouvir nada. E ali é a mesma coisa, quer dizer, muita coisa é legal, mas o cara pegou um ponto da entrevista que ele não gostou, aquele ponto foi o suficiente para ele destruir, mas eu respondi pessoalmente cada um. Eu acho que o idiota, de alguma forma, em algum momento alimenta a gente, é importante saber. E eu sempre digo às pessoas, quando eu falo para professores, quando você se tornar professor pense numa coisa, mantenha na sua cabeça o melhor professor que você teve e o pior. Quando você começar a entender por que aquele professor era ruim, é porque você está ficando igual. Então quando você entender, agora eu entendo porque era daquele jeito, é porque você está ficando exatamente igual. Então a gente tem que se manter balizado pelas duas coisas. Por isso que o idiota às vezes ajuda a gente a assoprar o vento e tal, é assim, quem planta precisa de estrume, então tem que ter um estrume ali embaixo, para a planta poder florescer.

Luciano: Você que está ouvindo a gente aí, você deve estar horrorizado, já derrubou um monte de disjuntor aí porque “que arrogância, que cara arrogante”, não sei o que. Eu entendo perfeitamente o que você está dizendo, porque eu estou na mesma posição que você, eu tomo porrada igual a você e eu sei que depois de um bom tempo a gente ganha uma casca grossa. E eu vou botar o Olavo. O Olavo manda os caras você sabe para onde, não é?

Nailor: Sim, exatamente.

Luciano: Ele falou, cara, eu não tenho saco. Encheu o saco, eu saquei que o cara não entendeu, não sabe o que está falando, eu mando para p*.

Nailor: E ele manda mesmo. E às vezes me espanta o linguajar que ele usa.

Luciano: Sim, ele usa aquilo e a turma olha aquilo e fala “que horror, que absurdo”, ele fala “não, cara, isso é casca grossa. Eu não tenho mais tempo a perder com isso, cara. O tempo que eu vou gastar discutindo com idiota, eu pego e faço um texto legal, para publicar para as pessoas que querem ouvir”. Ele falou uma coisa, Nailor, que passou um bom tempo para eu conseguir, para eu compreender direitinho o que significa a gente ter uma audiência própria, gente que vem me ouvir e que… o termo não é gosta, mas é gente que me ouve porque acha que de alguma forma eu posso agregar. Talvez nem goste de mim, mas ouve porque “pô, eu não gosto desse cara, mas ele tem uma argumentação ali que me faz pensar” etc. e tal. Então a importância de você se entregar e se dedicar, para esse tipo de gente. Então é a minha audiência proprietária, é para ela que eu existo e o que eu quero fazer é alimentá-la. Se de dentro dela sai um cara que vem brigar comigo e que vem não fazer uma contra argumentação legal, que os dois crescem, mas vem me xingar e tudo, isso eu descarto, aquilo me enche o saco, eu não posso perder tempo com esses caras. Eu vou usar o tempo que eu perderia com ele para agregar alguma coisa para as pessoas que acham que eu posso agregar alguma coisa na vida delas.

Nailor: Você sabe, Luciano, que a minha vida inteira de professor eu dizia isso aos meus alunos. Tem muita gente chata, idiota, mas também tem muita gente legal. O mundo é cheio de muita coisa legal e eu não tenho nenhuma intenção de agradar ou deixar de agradar. E também volto a dizer para quem está nos ouvindo aqui, se o cara puder ouvir até o fim, não parar já na hora dos idiotas, eu não sou super-herói, não sou um gênio, não me considero o super… nada disso. Eu sou um cara que estudou, eu estudo, eu gosto de estudar, continuo estudando, eu sou um cara habilidoso, sou um cara talentoso, eu tenho que estudar todo dia para ter aquilo que eu tenho, para saber um pouco mais e eu não acho que fiz nada assim de especial, eu só acho que eu sigo fazendo, então eu sou um somatório das coisas que eu fiz. Quem seguir um caminho e estudar bastante também vai fazer a mesma coisa, vai fazer coisa muito melhor. Só para saber que eu não me acho, como as pessoas “ah, você se acha”, não me acho nada. Eu sou o resultado daquilo que eu fiz e daquilo que eu continuo fazendo. Tem gente que concorda com isso, tem gente que não. Tem gente que chama de arrogância, eu chamo de determinação. Então eu acho que basicamente é isso. Só para vocês saberem que eu não me considero um super-humano, eu não me comparo, muita gente acha que “ah, você está se comparando”, eu não estou me comparando a nada. Eu reconheço quando vejo um Leonardo Da Vinci, eu sei o que é o Leonardo, sei a distância que há entre mim e o Leonardo. Eu sei o que é Michelangelo, eu sei o que é Mozart, eu sei o que é isso. Eu sei o que é Shakespeare, o Augusto dos Anjos, o Guimarães Rosa, eu tenho total noção de quem eles são e estou preparado para admirar aquilo que eles fazem, mesmo que eles não concordem. Porque há coisas, por exemplo, Augusto dos Anjos, quem me conhece sabe que é meu poeta preferido, mas tem coisa que eu leio “não, esse não é o poeta, não é o poema que eu gostei”, mas eu reconheço que até aquilo que ele faz que não presta é bom, como Machado de Assis, até o que não presta é bom. Então eu tenho maturidade intelectual suficiente para entender isso, ou às vezes não gosto de um autor, mas entendo que aquilo que aquele autor escreve faz muito sentido ou provoca em mim outras coisas. Então isso é intelectual e isso é interessante. Então é atrás desse mundo que eu estou e é esse mundo que me interessa.

Luciano: E buscar o que tem de positivo, qualquer coisa que seja. Aliás, voltando nessa história do comentário do programa com o Olavo, eu estava comentando ali que eu publico frases sempre no Facebook e eu faço questão de buscar as frases que sejam polêmicas. Então eu não tenho problema nenhum de publicar. Eu publiquei frases de Hitler, de Mao Tse Tung, publiquei Pol Pot, que são caras para serem execrados da história da humanidade, mas as frases são sensacionais, cara. O Hitler bota, eu estava até procurando ontem para ver o que eu tinha escrito do Hitler, e ele bota lá que o grande problema para enfrentar não é o homem de coragem é o homem de fé, porque a fé é o grande problema e outra que ele colocou é que ele falou a grande vantagem dos governantes é que as pessoas não pensam, uma coisa assim, que quando você lê aquilo e vê quem assinou o nome embaixo, aquilo ganha um outro sentido. E aí entra um cara comentando lá, ainda no negócio do Olavo “olha, eu vi aqui, eu admiro esse jornalista aí, mas eu não consegui entender essa história dele vir botar Hitler e tudo o mais, ele botou esses nomes aí porque as pessoas não são capazes de compreender as coisas e no fim ele fica fazendo propaganda para esses caras” e não sei o que “então eu quero dizer o seguinte aqui, eu espero que você só seja ignorante, porque se foi de propósito você é um f*”. Aí você lê aquilo, fala cara, como é que eu vou responder para um cara desse? O que eu vou escrever para um cara desse? É tão longe, é tão distante, o cara foi para um lugar tão… dá preguiça, eu tenho preguiça de chegar. É, desculpa, cara, fica com o teu comentário aí, eu não vou perder meu tempo mais.

Nailor: É discussão com ciumento, quem namorou ciumento sabe disso, não tem como discutir, como você argumenta com ciumento? Não tem, ele dentro da cabeça dele forma todas as razões, quanto mais fatos você apresenta, mais ele entorta para virar as razões que ele tem, então não tem sentido, tem hora que não tem, melhor abandonar. Quer dizer, eu tenho uma saída que já é antiga e é minha estratégia, quando alguém fala alguma coisa muito absurda para mim, eu sempre digo assim “você crê mesmo nisso?” Esse é o meu jeito de dizer, ou então quando eu não quero mais discutir, eu escrevo, está certo, alguém fala alguma coisa, eu escrevo, está certo. Quer dizer, está certo, está bom, essa é a verdade que você tem, está bom. Está bom para você, está bom para mim. Pronto, eu não vou entrar, porque cansa mesmo, uma hora vai dando um sono, o cara vai falando, falando, você fala nossa, que sono, não é? Porque a coisa não vai.

Luciano: Mas é interessante.

Nailor: E essa nossa conversa aqui parece conversa de dois velhos rabugentos, parece que a gente está aqui para…

Luciano: Eu tenho certeza absoluta, cara, vai ter neguinho vindo aí, “pô, esses caras estão se achando”, vai lá, vem nos comentários aí encher o saco e tudo.

Nailor: Parece conversa de velho rabugento, mas não é, cara, a questão é que o mundo ficou realmente chato, as pessoas pegam e ficam fabricando heróis o tempo todinho. Nós estamos num ano de eleição e as pessoas ficam procurando um ou outro sujeito para transformar em herói. Por exemplo, eu vou entrar num tema aqui que está muito à flor da pele das pessoas, mas assassinaram uma vereadora do Rio de Janeiro. Eu disse e vou dizer aqui, textualmente, eu nunca tinha ouvido falar do nome dela, a não ser no momento em que a assassinaram. Obviamente, eu sou contra o assassinato de qualquer pessoa, não queria que assassinassem, só que não sabia nenhuma causa que ela defendia, eu sei dela o que disseram dela depois da morte dela, mas assim que eu assumi publicamente que eu não conhecia, deu a impressão que todo mundo conhecia, menos eu. Eu falei, pô, será que mataram Gandhi e eu não estou sabendo? Não é verdade? Então a impressão que deu, a dimensão que deram, sem desmerecer a causa, não estou querendo discutir o que ela fazia ou deixava de fazer. Eu só estou dizendo que ela era uma vereadora do Rio de Janeiro, eu não sei quem são os vereadores da minha cidade, eu sei três ou quatro nomes de vereadores da minha cidade. Agora, se eu não sei quem é o vereador da minha cidade, como vou saber o que faz um vereador do Rio de Janeiro, entende? Depois revelaram que a moça atuava nisso, naquilo, perfeito, mas o que aconteceu? As pessoas têm dificuldade de assumir a própria ignorância. Você conhece a moça? Não, não conheço. Eu não conheço mesmo. Porque daí você vai dizer assim ah, você sabe o que ela fazia? Eu vou dizer não sei, se você me perguntar alguma coisa, vou dizer não sei. Agora, ficou feio eu dizer eu não sei, porque nós estamos na época da internet e todo mundo, teoricamente, sabe de tudo, aí quando você diz, publicamente, eu não sei, alguém vira e diz assim, mas você, um cara tão bem informado, não sabe? Sim, eu sou bem informado, mas espera aí, a moça era vereadora no Rio de Janeiro, eu não sei, de repente lá no Rio de Janeiro também tem outras, ou em outros lugares do país tem outros vereadores e vereadoras defendendo causas tão interessantes, ou até mais interessantes do que ela, mas como eles não morreram, eu não vou saber. Então é isso, eu não estou dizendo que a morte dela era necessária para isso, mas o fato é, ela ganhou uma visibilidade que a morte deu e eu não conhecia. Estou voltando a dizer aqui, não conhecia a moça, não é verdade? Então essa é que é a história, quer dizer eu não posso assumir que eu não sei? Então você me pergunta Nailor, você leu o livro tal? Vou dizer, não li. Porque muita gente se você disser você leu o livro, cara? Vai dizer assim, eu li. Aí você me pergunta uma coisa do livro, eu não sei, cara você leu o livro, cara? Não, não li, tanto livro que tem, no Brasil são publicados quantos mil títulos de livro todos os anos, como eu vou saber? Eu não sou computador para saber tudo. Eu sei algumas coisas, mas não sei todas. Então essa é a história, assumir um pouco a ignorância, já que a gente estava falando aqui, para não achar que a gente é velho rabugento e também para não achar que a gente é super-homem, não é? Quer dizer, eu também tenho minhas deficiências, todo mundo tem, agora, assumo. É isso, você conhece? Não, não conheço. Agora conheço, agora falaram e tal, não sei das quantas, ponto final. Agora, qual é o problema de não conhecer? Não é verdade?

Luciano: Eu estava tendo uma conversa dessas com um amigo meu, o Adalberto Piotto. Já gravei com ele aqui e tudo o mais e nós estávamos falando exatamente sobre isso, sobre esse surto de gente com opinião que apareceu por todo lado e no rádio, inclusive, com todo mundo dando opinião e você vai para o YouTube e todo mundo dando opinião sobre tudo. Não importa o assunto, o cara entra lá e começa a dar opinião. E eu falava para o Piotto, tem um monte de coisa que eu não falo porque eu tenho vergonha, cara, eu não sei nada a respeito, eu não vou abrir a boca para falar. Vamos voltar para esse caso da vereadora, aconteceu o rolo lá, a coisa toda e começaram a me cobrar no meu Facebook, e aí, cara, não vai falar nada? Que silêncio é esse? Que silêncio estranho é esse? Por que você não está falando nada a respeito? E nem respondi nada, porque na minha cabeça é o seguinte aqui, entrou-se num clima de histeria.

Nailor: Sim.

Luciano: E quando você vai tentar lidar com histérico, ou você dá uma porrada nele ou você apanha dele, porque o histérico está histérico, cara, não é? Então como é que se lida? Tem que gritar na mesma altura, tem que berrar. Então, cara, num clima de histeria, sai fora. Quando eu vi o clima de histeria, o que eu tenho que fazer aqui é calar a minha boca e ficar quieto, esperar, dar um tempo para ver o que vai acontecer na sequência. Então eu não sei quem foi, não sei como foi, não sei o que foi, não sei o que ela fazia, não sei o envolvimento, não sei nada. Não acho que seja santa, não acho que seja demônio, eu não sei nada, portanto não posso falar a respeito. E demorei mais uma semana, aí eu botei um texto e o que eu escrevi foi exatamente isso, histeria política, o que está acontecendo é um clima de histeria. A coisa mais prudente a fazer é o seguinte, cale a boca, examine o que está fazendo, lamente a morte do ser humano, se puder, mande para a família o conforto, fiquei indignado por alguém ter sido morto com tiro desse jeito, alguém ter sido morto por causa do seu trabalho, por causa da sua opinião, isso é um tremendo absurdo e para aí. Dali para a frente é especulação e é histeria política e quem ganha com isso? Ninguém, só o histérico.

Nailor: E os oportunistas.

Luciano: E os malucos que entram para pegar aquilo e transformar em palanque, fazer essa barbaridade que estão fazendo, construindo palanque com a moça, não é?

Nailor: Exatamente isso. A pergunta é que queriam que eu desse uma opinião. Eu não posso dar uma opinião, eu não conheço a moça. Como? Você não conhece? Mas da mesma forma que você não conhece, da mesma forma que o Brasil inteiro também não conhecia. Algumas pessoas, no Rio de Janeiro, conheciam a moça e eu até acredito que para essas pessoas ela deve ter feito uma diferença, efetivamente para essas pessoas. Tem tantos mil votos, quarenta e tantos mil votos e tal, não sei das quantas. Eu acredito nisso, só que eu não conhecia, eu moro no Paraná, entende e ela não tinha projeção suficiente e nem a causa era da minha área de estudo, portanto eu não conhecia. Eu acredito que algumas pessoas conhecessem, eu não posso falar. Agora, não tenho vergonha de assumir, não conheço a moça, não posso falar. É diferente falar assim, vamos conversar sobre a morte do Gandhi? O Gandhi, sim, projeção internacional. Mataram o Gandhi, é natural, eu não era nem vivo, mas eu penso nisso, não é verdade? E da mesma forma o Hitler e todos, o cara tem projeção para o bem ou para o mal, não é? Agora, a impressão que eu tinha é que do jeito que falavam assim “assassinaram o Papa Francisco, mataram o Papa Francisco”. Quer dizer, todo mundo tem a obrigação de conhecer o Papa Francisco, não é? Tem gente que não conhece o Papa Francisco, se for em algum lugar do mundo aí, tem gente que nunca ouviu falar no Papa Francisco e o cara é o Papa Francisco.

Luciano: O resumo da nossa história aqui, para você que está nos ouvindo, é o seguinte: não tenha nenhum medo ou vergonha de dizer “não sei”. Aliás, eu acho que é a coisa mais digna para ser dita hoje em dia é o seguinte: eu não sei. Qual é a tua opinião a respeito? Não tem, eu não sei. Por quê? Porque eu não sei, eu ignoro, eu sou ignorante nesse assunto e por ignorar eu não vou dar a minha opinião. Porque se eu der a minha opinião, eu vou ser mais um a dar um achismo aí que não vai levar a lugar nenhum.

Nailor: Exatamente. E lá na frente posso me arrepender. Porque às vezes, porque eu posso sair em defesa da moça e lá na frente descobrir outra coisa, ou posso sair contra a moça e lá na frente descobrir outra coisa. Óbvio que tem coisas malucas, você não pode, uma desembargadora, por exemplo, não pode se posicionar da forma “ah, espalhou mentira”. A questão nem é falar mentira. Ela é uma juíza, ela julga a vida das pessoas, ela não pode se posicionar publicamente. Ao escolher ser juíza, ela tem que se manter em silêncio. Essa é a punição por ser juiz, é o ônus de ser juiz, você não pode dar opinião, como fazem os nossos juízes do STF, o tempo todo brigando, batendo boca, dizendo o que acham, o que deixam de achar. Um ministro do STF não tem que achar nada, o que ele acha tem que guardar para ele, porque ele julga a vida das pessoas. Se ele vai na televisão e diz eu acho isso, todo mundo que tiver uma causa naquela direção pode pleitear ao STF, porque sabe que vai conseguir abrigo lá. Então o ônus de um juiz é se manter calado, qualquer que seja o juiz, calado. Da mesma forma que a gente passou pela vergonha da greve dos juízes, inclusive acho que por ocasião da morte dela os juízes estavam em greve, quer dizer, quando o juiz entra em greve, você diminui, tira o brilho, tira a seriedade daquilo que o cara tinha de fazer, porque você não espera isso dele, porque ele está lá para decidir, ele decide a minha vida e a sua.

Luciano: Nós estamos pagando a conta de cinquenta anos de república sindical, cara, é isso que o Brasil virou. O Brasil virou um imenso sindicato, onde cada tribo quer defender o seu e se você vier contra mim, você é meu inimigo e eu quero a sua destruição, está me entendendo? Eu não quero te neutralizar, eu quero destruir você, porque você não faz parte da minha tribo.

Nailor: E honradez ficou uma coisa que… honra, você fala em honra, parece que você tem duzentos anos de idade. Como se honra pudesse envelhecer, honra não envelhece, honra é um valor. Lealdade, amizade, decência são valor e valor não envelhece, não é verdade? Então acho que falta um pouco disso, quando a gente fala que precisa de valores, mas o cara nem sabe direito o que ele está falando.

Luciano: É o que sobrou aqui hoje é honra sem h, que eu escrevo quanta ‘onra’, sem h. Meu amigo, você resolve então estudar e encontrou que a tua carreira seria a carreira de advogado?

Nailor: Sim.

Luciano: Você foi fazer advocacia, não é?

Nailor: Porque era o mais próximo de mim.

Luciano: Você optou por algum ramo da advocacia no final?

Nailor: Não, eu advoguei um pouquinho na área de família.

Luciano: Mas você formou, pegou o diploma de advogado e tudo.

Nailor: Não, formei. Advoguei na área de família, precisava de grana. Daí fui para Portugal estudar ciência política, porque era minha ideia e aí eu já tinha uma graninha para poder ir, mas aí meu pai foi à falência. Meu pai saiu da miséria, ficou rico, mas aí meu pai foi à falência, eu voltei para ajudar minha família e daí fiquei. Aí meus pais se separaram.

Luciano: Por que seu pai faliu?

Nailor: Meu pai trabalhou em banco, mas meu pai agiotava também e o Plano Collor quebrou as pernas dele assim, ele, quando veio o Plano Verão, teve o primeiro baque e ele acreditou que podia…

Luciano: Seu pai agiotava?

Nailor: Sim, agiotava.

Luciano: Seu pai emprestava dinheiro para as pessoas num juro…

Nailor: Exorbitante.

Luciano: Exorbitante e ganhava isso aí.

Nailor: Exatamente.

Luciano: Você tem algum questionamento moral com relação a isso?

Nailor: Total, na verdade. Eu e meu pai, a gente tem uma vida… a minha vida foi construída para ser diferente da vida do meu pai. Eu e meu pai só criamos uma relação de estreitamento aos 28 anos de idade, quando eu fazia terapia. Até os 28 anos de idade, ele cuidava da vida dele, eu da minha, nós nunca tivemos uma relação até os 28. Muita gente acha engraçado que eu conto isso em público, mas é verdade. Eu, de novo, volto a dizer, não sou um super-homem, eu tenho problema como todas as pessoas têm. Eu tinha diferenças muito grandes com o meu pai, porque ele enxergava o mundo de um jeito, eu enxergava o mundo de outro jeito. E eu construí o meu mundo para ser diferente do mundo dele e inclusive no estudar, no ter certeza do que vai falar, no se posicionar e no fazer as coisas de um modo correto. Agora, o que acontece, tanto eu não esperei a herança dele, se ele… ele morreu sem herança, mas se ele tivesse, eu também não esperaria, eu fiz a minha vida, sempre fiz a minha vida independente da vida dele. Fui estudar fora sem o dinheiro dele, trabalhei desde sempre, dou aula particular desde os 14 anos de idade, já estava no cursinho aos 19 anos, fui vendedor de tudo, vendedor de porta em porta, vendi impresso de gráfica, ação de hospital, vendi filiação de sindicato, de tudo, quer dizer, sempre me virei, dei aulas particulares, trabalhei de office boy, fiz de tudo para não depender dele. E ele ia aos lugares, dizia assim, vai em tal lugar e dizia, ele era muito bem relacionado, vai lá e fala que você é meu filho. Eu sou Nailor Marques Jr., é difícil você falar Nailor Marques Jr numa cidade pequena, o cara já não sabia que você era o filho? Mas eu não dizia, eu ficava na fila três horas, mas não cortava volta, dizendo, usando a prerrogativa de que era filho dele, porque ele conhecia todo mundo e tal. E isso deixava ele muito irritado, mas a mim muito satisfeito. Quer dizer, eu quero fazer por meu próprio mérito, mas você vai ficar três horas na fila, é só chegar e falar, mas aqui é uma coisa do Brasil, o brasileiro quer encontrar um jeito de cortar o caminho, de cortar volta, de cortar a fila. E eu fui construindo a minha vida para fazer o contrário, então de alguma forma meu pai foi um mau bom exemplo para mim.

Luciano: Um exemplo com o sinal trocado para você?

Nailor: Exatamente, é um mau bom exemplo para mim, entendeu? Eu acho que foi assim. Ele era um homem divertido, era um cara engraçado assim, você ria com ele, não sei o que, mas essa rigidez moral não era o forte dele.

Luciano: Você hoje com 55 anos de idade, um cara viajado, escolado, que já aprendeu a vida. Você consegue examinar teu pai hoje com distanciamento e compreender o porquê disso?

Nailor: Não, por que ele não…

Luciano: O porquê dessa flexibilidade moral dele. Você falou, o cara começa lá por baixo e tem se virar e você consegue compreender isso ou não?

Nailor: Não sei, no caso do meu pai, em especial, eu acho que era uma coisa patológica assim, eu acho que não era assim, ele não traçou esse caminho, não, eu acho, não sou médico para dizer e acho que também vou ser crucificado por meus parentes que ouvirem isso aqui e até por meus amigos, amigos do meu pai, mas eu acho que há uma patologia, acho que a coisa era meio patológica ali. Mas de qualquer maneira eu me divirto, não é, eu me divertia depois, porque aos 28 anos, quando eu fiz 28 anos, eu fiz terapia e aí a terapeuta me ensinou duas coisas interessantes, que perdão era dado para a gente, não para os outros, quando você perdoa uma pessoa é para você se livrar da pessoa e que havia uma coisa chamada lei do pertencimento, ela falou “Nailor, se o seu pai, goste você dele ou não, não tivesse encontrado a sua mãe, goste você dela ou não, você não teria nascido e não estaria falando comigo aqui agora. Aceite isso, você pertence a essa unidade familiar, quer você goste, quer não. Se eles não tivessem se encontrado, você não estaria aqui. Então o fato é, se você aceitar isso, imediatamente você pode mudar essa relação, você pode ter uma relação melhor com isso”. E foram as grandes lições que eu tirei da terapia, porque realmente eu acredito na lei do pertencimento. Porque eu não escolho uma família, ninguém escolhe uma família. Você não está lá em algum lugar e fala assim: qual família você quer? Eu quero aquela ali. Se fosse assim, ninguém escolheria nascer numa família pobre, em família de ignorante, uma família na guerra, assim, assado, mas a gente vive a vida que a gente tem que viver, efetivamente e de alguma forma eu sou muito grato pela vida que eu tive, com todos os percalços que ela teve, porque de qualquer maneira eu sou o resultado disso. É o que eu disse, eu sou uma construção, como todo mundo é. Machado de Assis, no começo de Memórias Póstumas, ele diz que o homem é uma obra em construção e quando ele está pronto, ele entrega de mão beijada aos vermes. Exatamente isso, que se for uma obra acabada, eu então não quero ser uma obra acabada. Eu fiz um poema esses dias e publiquei na rede, dizendo que minha vida é um eterno meio de ponte, eu não fui feito para chegar, minha vida não é chegar, minha vida é viagem, eu nasci para fazer uma viagem, não nasci para chegar em lugar nenhum. Então todo mundo me pergunta ah, por que você não faz e tal? Eu me separei faz seis anos, e as pessoas dizem por que você não casou de novo e tal? Eu não sei, eu não tinha um plano de casar, assim como não tinha plano de descasar, entende? Casar não era um plano para mim, eu casei e fui feliz enquanto fui casado e tal e depois eu me descasei, eu também não tinha plano de descasar, mas eu descasei, entende? Eu não tinha plano, isso não era um plano assim. Tem gente que fala, meu plano é arrumar um emprego, trabalhar no banco tal, casar, ter dois filhos. Eu nunca tive planos assim, as coisas foram meio que acontecendo na minha vida e eu vou lidando com as coisas à medida que elas vão acontecendo. Eu não sei se isso é certo ou se é errado, mas eu sou mais feliz vivendo dessa maneira e alguém diz assim, ah, então nunca mais você vai casar? Não, também não tenho plano de nunca mais não casar, mas também não tenho plano de casar, eu não estou procurando uma pessoa para casar. Se um dia eu encontrar uma pessoa que falar não, essa pessoa, realmente, eu vou casar, eu caso, não tem nenhum problema, isso pode ser com 70, com 80, com 90 anos.

Luciano: É bom, porque quanto mais você esperar mais chance você tem, porque agora pode ser com homem, pode ser com mulher, hoje em dia é tudo normal.

Nailor: É, exatamente, se passar mais uns 10, 12 anos os animais vão entrar na lista também, porque realmente a coisa está, o leque está abrindo tanto.

Luciano: Eu te fiz essa pergunta com relação ao teu pai e tudo o mais, porque também tem tudo a ver com o que a gente conversou anteriormente aqui, que é essa questão toda das escolas morais. Quer dizer, o Brasil, eu fiz um texto, é o cafezinho que vai ao ar hoje à noite, chama-se, é uma dica, que eu comento um pouco sobre quando eu comecei na escola, que eu peguei uma época interessante e quanto eu entrei no ginásio, naquela época era ginásio, final dos anos 60, eu dei de cara com um projeto que era pluricurricular, era o nome dele. Os caras quebraram todo o esquema que havia na educação brasileira e botaram um negócio chamado pluricurricular, que era um balão de ensaio em várias escolas aqui no Estado de São Paulo, onde você entrava na sala de aula e não era mais para ter aula só de matemática, português, não. Era pluricurricular, então eu tinha aula de economia doméstica numa cozinha, eu tinha aula de educação sexual numa sala mista, final dos anos 60, que loucura, eu tinha aulas de marcenaria, cara, imagina, num torno fazendo marcenaria ali. Era um negócio riquíssimo aquilo lá que, cara, foi tão maluco aquilo que deu uma ciumeira, aquele negócio implodiu todinho e depois virou essa bagunça que nós estamos vendo aí. Em algum momento lá eu vou dizer o seguinte, que os problemas que o Brasil vive hoje dizem respeito aquele momento em que houve uma quebra no nosso sistema, onde se falou o seguinte, nós vamos focar em matemática, nós vamos focar em geografia, engenharia, nós vamos olhar para as exatas, pega esse monte de bobagem humanista, essa história de filosofia, aprender francês, essa babaquice toda, moral e ética deixa num segundo plano e foca na matemática. E eu falo o seguinte, a consequência é que nós chegamos no Brasil hoje onde os problemas não são de matemática. O problema no Brasil não é matemática, não é engenharia, os problemas são exatamente daqueles atributos que a gente parou de estudar. O problema é moral, é de sociedade, é de comportamento, que tem a ver com as humanas, não tem a ver mais com as exatas.

Nailor: E as humanas acabaram sendo entregues para a gente tortas, não é verdade?

Luciano: Exatamente. E a grande encrenca dessa história toda são escolhas morais, então o que está acontecendo? O Brasil vive uma crise terrível de liderança, de representatividade, baseada em escolhas morais, as pessoas tomam escolhas morais erradas e vira essa bagunça que nós estamos vendo aqui. E eu não resolvo escolha moral com matemática.

Nailor: Com certeza, não resolve. Na verdade, as pessoas pensam, no Brasil, e o Brasil é um país assim legalista, as pessoas pensam que para você resolver os problemas, você tem que criar lei, criar regras, acham que a regra é que resolve a vida das pessoas. Eu sempre digo, se a regra resolvesse, os dez mandamentos resolviam tudo, está lá, você não precisa fazer mais nada, você ia lá e resolvia questão que não resolve. Aí você faz um código penal para resolver e que não resolveu, aí você faz um código que corrige o código penal, aí você faz um código de processo penal que aplica o código, não adianta. Aí você tem uma constituição de 25 mil artigos, não adianta.

Luciano: E nós estamos tendo umas aulas maravilhosas com as transmissões ao vivo dos julgamentos no STF, STJ o escambau, onde você vê que a interpretação pode ser feita de qualquer jeito. O cara pega um negócio que fala um mais um são dois e ele consegue interpretar para dar um e meio, para dar um vírgula dois e defende aquilo. E cara, é isso aí, eu estava ouvindo ontem no rádio, acho que foi o Reinaldo Azevedo falando, abre-se aí uma janela, você fala, como que abre janela? Não tem janela para abrir, porque moralmente isso é inaceitável, mas na letra da lei, pela interpretação você consegue então abrir uma janela. Aí você vê aquela coisa maluca, que é, eu vou chegar num limite aqui, que é o advogado defendendo um criminoso confesso, sendo pago com dinheiro desse criminoso, que a gente sabe que veio de roubo, cara.

Nailor: Exatamente isso.

Luciano: Cadê o nó moral dessa história toda aí? Não, deixa para lá, vamos lá e vai levando a vida lá.

Nailor: Exatamente, cadê a Receita que é tão feroz em perseguir tudo, que não vai atrás desse advogado para saber a origem desse dinheiro? Ela tem que saber a origem desse dinheiro, a origem é criminosa. Eu não posso ser pago com dinheiro de origem criminosa. Eu sou advogado e eu fico pensando, quer dizer, é um silêncio mortal da OAB, é um silêncio mortal de todos os baluartes da moral, estão todos em silêncio.

Luciano: Sindicalismo. Corporativismo.

Nailor: É uma coisa assim. Exatamente e aí a gente critica o corporativismo do outro, não é? Da câmara dos deputados, mas você não olha que é feito dessa maneira, é uma coisa insana, é podre, é torpe, é absurdo e você sabe onde isso vai estourar, vai estourar no meu bolso, vai estourar no seu, porque é sempre lá que estoura, não tem outro lugar para estourar, não é? E aí fica tudo certo. O cara, não, mas ele é um advogado. É óbvio que ele está na prerrogativa de advogado, é óbvio que todo ser humano merece defesa, claro que sim, agora, eu não posso tampar um crime com outro crime. Eu não posso aceitar um dinheiro de crime para pagar defesa de um criminoso confesso, não existe isso. Não é verdade? Com esse dinheiro você não pode pagar, está todo sequestrado aqui, está tudo preso em juízo, você vai ter que buscar outro dinheiro para a sua defesa, esse não. Então daí o que a gente tem é a penalização mais severa e um processo mais acelerado resolveria isso, não é? Mas o processo é moroso justamente para criar injustiça, esse é um ditado antiquíssimo, justiça tardia é injustiça, você demora tanto e aí, como aqui no Brasil os bandidos ainda são beneficiados pelo instituto da prescrição, basta eu ter um advogado que sabe os meandros da lei e todos os recursos, ele vai enrolando e eu consigo uma prescrição intercorrente e ótimo, o cara entrou, prescreveu, não pode fazer mais nada comigo. Eu não posso acusar o Presidente da República por um crime que ele cometeu fora do mandato. Por que não? Que diferença há entre um Presidente da República e você e eu? Qual a diferença que tem? Por que dá foro privilegiado a um ministro, para quê? A um governador de estado, para que, por quê? Quer dizer, quando a gente teve a Revolução Francesa e criou-se a noção de cidadania, a ideia de ser cidadão é que todo mundo tem as mesmas prerrogativas e aqui no Brasil a gente criou a expressão ‘cidadão comum’. Cara, não existe cidadão comum, ou você é cidadão ou você não é, ou você está no pleno gozo do seu direito de cidadão ou você não está, não tem cidadão especial. Cidadão é isso. A Revolução Francesa foi feita para isso, para fincar a noção de cidadania e essa noção é isso, eu estou no gozo dos meus direitos políticos, todo mundo é igual, eu sou o Presidente da República, ou eu sou um cidadão, ou eu sou um pagador de impostos, acabou. E acabar com essa noção ridícula que o Brasil tem de contribuinte, eu não contribuo com nada, contribuir eu contribuo na igreja, não é? Eu sou pagador de impostos. O sujeito que trabalha lá e usa o meu dinheiro tem obrigação, as universidades públicas têm obrigação de ser transparentes, elas têm que mostrar onde elas gastam, eu quero saber. Não é um direito, é um dever deles, mais que um direito meu é um dever, eles estão gastando o meu dinheiro de contribuinte. Ah, mas fere a autonomia. Não tem autonomia nenhuma, é o meu dinheiro, eu quero saber. Autonomia é para definir currículo, não para dizer onde vai gastar o meu dinheiro, eu quero saber, eu sou pagador de impostos. Mas eles criaram essa metonímia, essa metáfora.

Luciano: Eufemismo, não é?

Nailor: Sim, eufemismo. Para parecer que eu, na verdade, estou, da minha própria vontade, dando ao governo um dinheiro e dizendo pode fazer o que você quiser. Não pode fazer, você não tem a minha autorização. E quando você diz isso, aí o que acontece, fecha de novo a casca do caranguejo ali, todo mundo se fecha, fecha a ostra, aí não pode, aí o nome da autonomia não sei o que lá, intervenção, interferência, no fim os caras estão gastando o meu dinheiro e não querem dizer para mim onde estão gastando o meu dinheiro. Então essa noção de cidadania a gente perdeu, isso a gente podia ter trazido da escola. Ao não estudar a filosofia, a sociologia, ao não estudar valores dessa natureza, a gente perdeu essa noção. Tanto é verdade, que o brasileiro pensa que deve alguma coisa para o político. Ele fala com o vereador como se ele fosse uma autoridade, ele fala com o prefeito como se o prefeito fosse o pai dele. Ele espera que o governador resolva o problema dele, que o Presidente da República… quando não é assim. Esses caras trabalham para a gente, eu recebi uma determinada época uma… eu postei uma coisa na rede e um senador se sentiu ofendido e um assistente desse senador me ligou para me dar uma dura. Disse “cara, você está louco? Você bebeu? Você tem noção?” O cara falou, não, mas ele é um senador. “Eu vou te ligar”. Eu, “você não vai ligar nada. Vai ligar nesse telefone aqui e no horário que eu puder atender”, “mas ele é um senador”, “e eu sou um professor, eu não pedi para ele ser senador, tampouco ele pediu que eu fosse professor, não é verdade?” “Mas ele não tem tempo.” “E nem eu, ele fala no tempo que eu tiver, eu não quero falar com ele, ele é que quer falar comigo. E lembra para ele o seguinte, ele tem que falar comigo no tom correto, que eu sou patrão dele, eu pago o salário dele, ele está achando que está falando com quem? Eu tenho noção de quem eu sou, eu tenho absoluta noção de quem eu sou”. E o cara não ligou mais porque ele não está preparado para isso, ele está preparado para ligar e dizer “eu sou assistente do senador” e achando que ser assistente de senador significa alguma coisa. Quer dizer, eu comia quando era pequeno, meu cérebro formou direitinho, eu sei qual é o seu papel e sei qual é o meu, não é verdade? Você tem um cargo eletivo, eu não. Então o brasileiro não é assim, o brasileiro é maluco, é só que ele não esperava me encontrar do lado de lá. E eu tenho um grande amigo que também teve problema com outro senador, o senador também ligou e ele fez a mesma coisa. E a gente contando, ele falou, pô, eu fiz com o senador fulano de tal e é muito divertido. Agora, o problema é que o brasileiro não tem essa noção de quem é você, ele é tão cidadão quanto eu.

Luciano: Sim, a autoridade aqui é a autoridade, que é uma coisa interessante. Aqui no Brasil autoridade não é adjetivo, é substantivo. Botou que é autoridade, meu Deus, eu tenho que… bom, vai longe aqui, deixa eu voltar. Quando é que você descobriu que não dava para ser diplomata?

Nailor: Quando eu voltei de Portugal, eu vi que eu ia ter que trabalhar duro para poder, porque eu ganhei de presente uma mãe e duas irmãs para terminar de criar. Uma mãe para sustentar e duas irmãs. Mamãe não trabalhava e continuou não trabalhando.

Luciano: E seu pai morreu, separou, o que foi?

Nailor: Não, meu pai separou, mas não deu o dinheiro. Ele separou, mas ele não deu mais, ele foi gastar o dinheiro dele com a outra família dele e ele não contribuía. Contribuía aqui, ali, de vez em quando, assim, contribuía, mas a contribuição que ele dava para a minha mãe era tão pequena que, na verdade, não era suficiente, mas ele dava uma contribuição, mas não era suficiente para manter a família no status que a minha família tinha, efetivamente. E como tinha um cara jovem que já trabalhava e eu voltei e já trabalhava antes e, imediatamente, voltei a advogar e a dar aula e eu consegui uma carreira muito rápida, eu consegui manter o mesmo padrão ali. A ideia, obviamente, claro, esse complexo de Édipo de você substituir o seu pai na mesma condição que ele tinha, era uma forma de vingança assim sublimada. E eu trabalhei muito para manter o mesmo padrão que a minha família tinha, eduquei minhas irmãs e tal e assim foi. O fato é que cuidei da minha mãe, que cuido dela até hoje. E é claro que eu tive que abandonar isso, só que quando eu retomei essa possibilidade, eu precisava ter estudado inglês. Eu estudava francês, falava francês, mas não tinha estudado inglês e eu tinha ido lá para isso, para fazer ciência política, para preparar para os conteúdos. Só que naquela época, os exames da Academia Rio Branco eram de dois em dois anos e você só podia fazer até os 30 anos. E depois passou a ser, quando eu já não podia mais é que voltou a ser de ano em ano e aí você não precisava mais.

Luciano: E tiraram o inglês.

Nailor: É, e tiraram o inglês, coisas do Lula, não é verdade? Coisa do Lula, não precisa falar mais nada. Então é uma coisa assim, só que aí já não era mais, a minha vida já estava feita, já tinha seguido outro caminho, eu já era um professor de sucesso, já ganhava bastante dinheiro, já tinha uma carreira bacana. Já tinha começado a minha carreira de palestrante profissional, já vinha escrevendo, então isso já era um sonho bom que tinha ficado lá para trás. Mas eu agradeço, que eu não servia para essa carreira.

Luciano: Não passou pela tua cabeça, no momento quando você estava pensando, o que eu vou fazer da minha vida de procurar um emprego numa empresa tradicional e virar um executivo etc. e tal? Você foi para a carreira acadêmica por escolha e esse é meu talento, é isso?

Nailor: Eu abandonei um escritório de advocacia que dava dinheiro, bastante dinheiro, eu ganhei bastante dinheiro muito rápido, para dar aula, para ganhar assim dez por cento do que eu ganhava. Eu gosto de ensinar, eu gosto de falar. Eu acredito em ganhar dinheiro, mas fazendo aquilo que tem a ver com você. Eu gosto de falar, gosto de ensinar, gosto disso. Então eu aceitei ter uma queda de quase noventa por cento da minha grana para poder fazer aquilo que eu queria, imediatamente recompus a minha renda, mas eu passei num concurso da Caixa Econômica e não aceitei, quando essa era assim, nossa, uma coisa muito louca, mas eu não aceitei porque eu sabia que aquilo não era para mim, era o sonho do meu pai. Talvez até eu não tenha aceitado também, de novo…

Luciano: Por isso.

Nailor: Para de alguma forma fazer…

Luciano: Se vingar dele.

Nailor: Mas eu também não queria, porque eu sabia o que significava isso. Significava você entrar na Caixa Econômica e ganhar um excelente salário e você recebia, na época, cinco salários adiantados e qual era o próximo passo? Era encontrar uma garota, casar e encher o mundo de filhos e seguir uma vida normal. Nada contra quem fez isso, nada, absolutamente, contra quem fez isso, é uma escolha, mas não era a minha. Eu queria outra coisa, eu queria mais, que não era isso, eu sabia que a vida tinha reservado uma outra coisa para mim e eu não sabia exatamente o que, mas tinha reservado outra coisa e eu não me arrependo de ter feito essa escolha, não.

Luciano: E me fala uma coisa aqui, você entra então numa carreira para ser professor, deve ter alguns milhões de professores no Brasil e você ia ser mais um.

Nailor: Sim.

Luciano: Você já falou aqui, a gente já sabe que você tinha um fogo no rabo, que é eu não serei mais um, eu serei aquele lá, não é?

Nailor: Sim.

Luciano: Você fez alguma avaliação racional, do tipo assim, bom, a partir de agora eu serei professor, mas eu quero ser aquele professor, daquele modelo e para seguir naquele caminho, eu tenho que fazer isso, mais isso, mais isso? Ou você entrou e seja o que for?

Nailor: Não, não, eu não entrei e seja o que for, não. Eu entrei ciente de que eu não ia ser mais um na pilha, não, eu sabia que eu tinha que ficar fora da pilha. Imediatamente, eu saí da pilha, eu saí muito rápido, uma coisa impressionante. Pode parecer arrogância, mas eu saí muito rápido da pilha. A gente classificava os professores, no meu tempo, em professores C… Eu sempre trabalhei no ensino privado, cursinho pré-vestibular que você pagava muito dinheiro. Eu nunca quis ir para a universidade, porque eu gosto de ensinar, mas também gosto de dinheiro, tem que deixar claro isso aqui, nunca fui comunista, nem quando era jovem. Quando é jovem, até a pessoa tem o direito de ser comunista, quando é mais velho é mais complicado, mas jovem, não é? Mas nem isso eu fui, eu sabia disso, eu sou selvagem, mas eu gosto de dinheiro, acho que dinheiro é legal, proporciona um monte de coisa bacana.

Luciano: Eu costumo dizer o seguinte, eu não vivo por dinheiro, mas eu não consigo viver sem dinheiro. Então onde é que está o equilíbrio, não é?

Nailor: Isso, exatamente isso. E aí o que acontece é que eu comecei a ganhar dinheiro, foi muito rápido porque havia os professores C e eu entrei como professor C, como todo mundo e imediatamente passei para ser B, para ser A, para ser A+. E aí A+ significava que você recebia quatro, cinco, seis, sete vezes o que recebia um professor C, então muito rápido.

Luciano: O que você fez para sair fora da pilha? Uma coisa que você vai dizer é assim, cara, eu estudei para cacete, eu tive conhecimentos, qual foi?

Nailor: Não, não. Eu tenho três gurus na minha cabeça, três são os meus gurus, que me orientam até hoje. Padre Antônio Vieira, que eu desmontei sermões do Vieira para entender como ele construiu o raciocínio. Eu o admirei desde a época da faculdade e eu desmontei cem sermões do Padre Antônio Vieira e alguns eu sei o texto de cor, para ver como é que ele construía o raciocínio. E aí é nele que eu me miro até hoje na forma de construir a linha de raciocínio. E eu me mirei no Machado de Assis, com ele eu aprendi o raciocínio digressivo, que você vai com uma história até um ponto, quando você percebe que ela não cola, você dá uma volta com as pessoas e depois você volta para o assunto normal. E Manuel Bandeira que me ensinou a dar exemplos muito simples, a falar das coisas mais complexas buscando a maneira mais simples de dizer aquilo. Isso esteve na minha cabeça, quando eu estava no começo e está na minha cabeça até hoje. Esses mestres tinham razão e eu juntei os três no que eles tinham de melhor, ou que eu pelo menos acreditava que eles tinham de melhor e apliquei isso na minha vida.

Luciano: Você quer ver que coisa interessante, desculpa eu te interromper aqui, porque você está dando um insight muito legal aí. Quer dizer, você coloca como três gurus, e a hora que você falou em guru, eu já estava esperando que viesse um espiritual, um empresarial e não sei o que. Você botou três caras que estão na literatura.

Nailor: Sim, na literatura.

Luciano: Um filósofo e dois escritores. Mas foi na literatura que você foi buscar esses guias?

Nailor: Sim, são os que me guiam até hoje.

Luciano: Não pintou um Osho no meio do caminho, pintaram três caras e três brasileiros. E não foi nem Steve Jobs, são três brasileiros. É, sim, o Vieira não é nascido aqui, mas viveu aqui, construiu a carreira dele aqui.

Luciano: Sim, a obra dele toda aqui.

Nailor: É, então toda a escrita aqui. E sim. Primeiro, porque eu acredito que a língua portuguesa é riquíssima. Segundo, porque eu acredito, as pessoas falam assim para mim, ah, o grande orador da história da humanidade, todo mundo fala assim Demóstenes, Cícero. Para mim, eu não tenho dúvida, é Padre Antônio Vieira Eu não tenho nenhuma dúvida que Padre Antônio Vieira é o maior orador da história da humanidade, eu não tenho nenhuma dúvida disso. Ocorre que ele escreveu em português e essa língua é uma porcaria, você escreve em português, essa língua não tem projeção, mas se ele tivesse escrito em grego, em inglês, eu não tenho dúvida, em francês esse cara seria um monstro, eu não tenho dúvida. A gente pega, por exemplo, grandes escritores russos, você pega Dostoievski, Tolstoi e tal, mas mesmo os russos, a aceitação é relativa. É diferente de você pegar um Flaubert, por exemplo, e pegar um Dostoievski, a penetração do Flaubert é muito maior, em função da língua. Então tem isso, o russo vem traduzido, eu tenho que traduzir esse cara, o francês, não, era uma língua que as pessoas falavam, então Flaubert espalhou de um jeito maior, ou assim o Shakespeare, ou quem quer que seja escrito em inglês e tal. Você imagina o Machado de Assis escrevendo inglês, se o Machado fosse inglês, eu não tenho dúvida, ele seria o maior romancista do século 19, eu não tenho nenhuma dúvida. Porque eu li Tolstoi, eu li Flaubert, eu li Balzac, eu li todo mundo, eu li os grandes nomes do século 19, os grandes prosadores do século 19, Eça de Queiroz, enfim. Eu não tenho a menor dúvida, até uma história interessante que quando Eça de Queiroz publicou Primo Basílio, ele e o Machado trocavam correspondência e ele mandou o Primo Basílio para o Machado. O Machado leu a obra e escreveu uma carta para ele, falou assim, o seu romance é interessante, mas o único drama que tem é a Luísa não ter encontrado uma empregada mais honesta. Ou seja, então não tem drama nenhum, se a empregada fosse honesta, ela não ia pegar o dinheiro da patroa e pronto, acabou, não tem um drama, quer dizer, em nenhum momento ela sente culpa de ter traído nada com o primo, o marido, nada, ela não sente nada. Quer dizer, o drama é que ela empregou uma empregada mal caráter, se ela tivesse pego uma empregada bom caráter, pronto. O Queiroz, o Eça de Queiroz ficou tão traumatizado que passou anos sem escrever. É um murro tão bem dado no estômago que ele passou anos sem escrever e o Machado ao contrário. O Machado é um sujeito que induz você a pensar da obra dele uma coisa e quando você estuda a obra dele, você descobre que ele está fazendo piada com você, está empurrando você para pensar uma coisa, quando na verdade ele está trabalhando com outro tema, tem sempre um tema subjacente ao tema que ele está escrevendo. Tanto que todo mundo diz que a grande obra dele é Dom Casmurro, eu não creio, na minha opinião é Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas de qualquer maneira, quando as pessoas falam em Dom Casmurro, mesmo quem leu e quem não leu, e a maior parte não leu, as pessoas ficam sempre perguntando, o cara para quem você fala que leu, ele me encontra, porque no Jô, o Jô disse assim, “ele é uma das maiores autoridades em Machado de Assis”. É mentira isso, eu não sou autoridade de nada, mas ele falou, eu não consigo desmentir. Quando eu desminto, a pessoa fala, ah, como está sendo modesto e tal. Na verdade, eu não sou autoridade de nada, eu só gosto, eu sei bastante, talvez mais que a maioria, mas não a ponto de ser uma autoridade. E as pessoas perguntam assim para mim sempre, ah, mas você acha que a Capitu traiu ou não traiu? Quer dizer, quem pergunta traiu ou não traiu, na verdade não está entendendo nada da obra. Machado de Assis, Dom Casmurro não é uma obra de traição, é uma obra de ciúme. É o que o ciúme é capaz de fazer com uma pessoa ciumenta, como o ciúme é capaz de devastar uma pessoa. É isso que está sendo discutido ali e não traição, que se traiu ou não traiu não interessa, porque essa não é a questão, ele era um homem ciumento, um homem fraco. Um homem fraco numa sociedade masculina, casado com uma mulher forte, numa sociedade masculina, ele não aceita aquilo, a presença dela destrói ele. E eu sempre digo, quando falava do Machado, que as leituras que precedem Dom Casmurro são a Carmen, do Mérimée, que inspirou o balé, enfim, inspira a ópera, que é uma cigana superforte e é bom lembrar que a Capitu tinha olhos oblíquos de cigana, inspirado na Carmen e Otelo, de Shakespeare, de novo um homem fraco, a diferença é que Otelo mata mesmo, sufoca e o Bentinho mata moralmente, que é como, na verdade, os homens fazem hoje. Hoje é difícil um cara que mata. Está todo mundo preocupado com a Maria da Penha, com o cara que dá o tiro na mulher, o cara que dá facada, mas e os que promovem morte moral? Porque tem uma morte que é moral, aquele cara vai sufocando aquela mulher, oprimindo aquela mulher e esse não aparece, porque não dá para ela denunciar. Existe em alguma delegacia de polícia: o que ele está fazendo? Meu marido está me matando moralmente. E eu posso garantir que para cada tiro deve ter dez mortes morais, por aí, porque faz o jogo, então é isso que está sendo discutido ali. Então para isso demanda mais leitura, demanda mais raciocínio e demanda entender o que o Machado está fazendo. Eu imagino que o Machado ria muito, tanto que eles chamavam o Machado de bruxo do Cosme Velho e eu acho que ele era mesmo, eu acho que as pessoas riam muito, ele devia rir demais de ver as pessoas discutindo aquilo que, na verdade, não era para ser discutido. Eu imagino que se eu pudesse ver ele depois de morto, pudesse vê-lo em algum momento, ele ia estar gargalhando de ver alguém discutindo uma coisa, quando na verdade ele entortou a discussão propositalmente. Aí está a genialidade dele e é brasileiro, esse país lindo, por isso que esses caras inspiram.

Luciano: Pois é, ele tem coisas do arco da velha. Deixa eu trocar uma ideia com você com respeito, acho que é um dos grandes momentos da sua carreira, que foi quando você foi no Programa do Jô. Você é um dos raríssimos caras que ficou no Programa do Jô três blocos.

Nailor: Eu fiquei dois, o equivalente a três blocos, 38 minutos.

Luciano: É, foram três blocos lá. E me parece que não era para ser isso.

Nailor: Não, era para ser 15 minutos.

Luciano: Eu também fui no Jô. Fui chamado no Jô, foi um desastre. A minha entrevista com ele foi péssima, cara, foi uma das piores experiências da minha vida, a ponto de eu levantar e não dizer tchau para ele. Levantei e saí de lá puto da vida, porque foi uma puxada de tapete atrás da outra lá. Depois eu encontrei gente que trabalhou com ele no programa dele, os caras me explicaram qual era a jogada lá, é porque, a turma não sabe, mas na época lá ele, aquela apresentação que ele fazia, você não estava lá na hora da apresentação, então eu não vi ele me apresentar e eu fui lá como escritor, ele me apresentou como palestrante. E eu sei que toda vez que ele pegava um palestrante, ele destroçava o cara, porque ele já começava com piadinha. E eu chego lá com o coração aberto de escritor, o assistente dele lá troca os livros, eu vou para falar do Brasileiro Pocotó, ele põe em pé o Meu Everest e eu chego lá, “Jô, está errado aquilo lá” e o Jô “como está errado?” “Não, não é aquele livro, é esse livro aqui, é outro livro aqui”. “Como outro livro aqui? E por que você trouxe esse outro aí?” E eu falo, “não, eu trouxe porque você vai me perguntar como tudo começou e eu vou mostrar isso aqui”. “Quem disse que eu vou perguntar como tudo começou?” Aí, bicho, começa e dali para a frente, cara, o cara me puxa o tapete o tempo inteirinho tentando me derrubar. Ou seja, foi muito ruim, foi péssimo. Eu não consigo assistir aquilo lá e vergonha que eu passo lá, tanta coisa tinha para dar e acabou que não deu nada. E você foi o contrário, você sentou lá e virou. Eu me lembro de ter visto alguma vez, acho que você escreveu a respeito, ou comentou, ou fez um vídeo, eu não me lembro o que foi, que você comentou a tua estratégia para ir no Jô, que foi eu vou antes estudar, me conta isso, como é que foi que aconteceu?

Nailor: Na verdade, as pessoas perguntaram assim para mim, primeiro perguntaram como eu cheguei lá. Eu fui convidado. Muita gente disse, na rede social… olha que coisa engraçada. Antes disso, na minha cidade, quando eu recebi o convite, eu recebi o convite, eu não paguei para ir ao programa e eu postei, na época, na rede social, eu disse, fui convidado para fazer um programa, recebi um convite e tal, não sei o que. Primeiro comentário embaixo: mais um maringaense que vai envergonhar nossa cidade em nível nacional. Primeiro comentário. Olha que coisa inspiradora, não é? Primeira coisa que o cara fez foi isso. Bom, mas aí me disseram, o cara te chamou para falar de Machado de Assis, você vai moer Machado de Assis daqui até lá? Falei, não, eu vou moer o Jô. O que eu fiz, entrei no YouTube e comecei a estudar o programa dele, qual era o comportamento dele nos programas. Porque, na verdade, o meu embate não era com o Machado, o Machado eu ensinei minha vida inteira, eu já sabia, o que ele podia perguntar de tão assim diferente que já não tenha?… Não ia inventar um outro Machado, não vamos falar de mecânica quântica, estava falando de Machado de Assis. E aí o que acontece, o que eu fiz foi estudar como é que ele reagia às coisas e eu fui meio que antecipando qualquer tipo de comentário que ele pudesse fazer. Eu estou acostumado com televisão, estou acostumado com câmera, estou acostumado com tudo isso, então o que eu fiz foi, na verdade, estudar o que o Jô poderia perguntar e não o que eu, efetivamente, ia ter de responder. Eu acho que essa foi a grande estratégia e, na verdade, ela deu certo. Essas coisas foram pensadas, até a ideia de brincar com a água e tal, não sei o que, eu já tinha visto, isso tudo foi pensado antes. E como ele tem um prompter bem grande ali na frente, eu conseguia ver antecipadamente o que viria para mim, eu cuidava de olhar o prompter e ver o que vinha por ali, mas eu senti que logo no começo, por alguma razão, ele estava assim de coração aberto, ao contrário do que aconteceu, ele estava de coração aberto. Porque ele fez uma brincadeira comigo que eu ouço desde sempre, eu acho que aquilo, na verdade, ajudou. Porque desde sempre as pessoas perguntam como é que fala o meu nome, as pessoas sempre falam, porque meu nome é Nailor, me parece um nome óbvio, assim uma coisa fácil, N-A-I-L-O-R, Nailor, mas as pessoas me chamam Naor, Nalor, Nabor, Nabucodonossor, Nicanor, liga o ventilador, ai que calor, então o que acontece é que eu, de um tempo para cá, eu brincava com isso. Então o cara falava, como que é o seu nome? É Nailor, é Neilor, Náilor, Náilhor? Eu falava gente, qualquer coisa terminado em or eu atendo. Pode falar liga o ventilador, eu atendo. Ai que calor, eu atendo. Oi, meu amor, eu atendo. Entende? E o que aconteceu, assim logo que eu chego ele pergunta isso, como pronuncia seu nome? Perfeito, quer dizer, aquilo veio quicando, aí a gente começou, ele gostou disso e aí foi embora. E o que acontece é que eu tinha feito uma viagem, está lá na minha biografia que eu fiz mesmo, quando eu tinha 19 anos eu saí de carona da minha cidade para ir até a Paraíba, para conhecer a casa do Augusto dos Anjos, que é o poeta que eu já falei aqui, meu poeta do coração, sempre foi meu poeta preferido. E aí o que acontece, eu fui de carona, cara, imagina, viajei 7 dias de carona de caminhão para ir à casa do Augusto dos Anjos, é uma coisa que um moleque não faz, de 19 anos. É um moleque, não sabe nem quem é Augusto dos Anjos, quanto mais viajar de carona 7 dias para chegar à casa de um cara, ver o túmulo e voltar. Foi o que eu fiz e nem o túmulo, que ele não estava enterrado lá, ele está enterrado em Minas Gerais, mas eu fui até lá e depois fui a Minas Gerais e por isso que no programa eu defendi a causa dele. Quando eu falei de Augusto dos Anjos, ele puxou o assunto. Se eu conheço X de Machado de Assis, eu conheço 3X de Augusto dos Anjos e aí a conversa entortou para Augusto dos Anjos, mas eu não sabia que também que o tio-avô dele, o Santos Neto, desculpe, o Orris Soares… eu sabia que o Orris Soares é o grande amigo de Augusto dos Anjos, mas não sabia que era tio-avô dele, aí ele me conta, você percebe que as coisas foram casando. Quando ele falou, quem foi meu tio-avô, na hora eu falei, não acredito que Orris Soares é seu tio-avô? Aí eu falei, vou te contar uma história então que talvez você não saiba e aí contei a história do Olavo Bilac com o tio-avô dele e aquilo foi, sabe quando parece que a conversa tudo vai caindo no seu colo direitinho? Foi assim e aí o que acontece, ele começou a fazer uma piada, bom, mas você veio aqui para falar de Machado de Assis e Augusto dos Anjos. Falei, ah, depois a gente fala do Machado e foi assim porque eu sabia, a secretária me disse “se a sua entrevista for boa, o bloco do meio é neutro, ela disse, ele dá ou não, dependendo de como fluir o primeiro bloco”. Aí quando ela disse isso para mim, eu falei, bom, eu quero o segundo bloco. E aí foi, o primeiro bloco já tinha dado 19 minutos, mais que um bloco normal, que era de 15 minutos. E aí o que acontece, com 19 minutos ele foi indo e falava e o Machado? Mas aí voltava porque começou a render. Mas e o Machado? Eu falava, não, o Machado a gente fala depois, vamos terminar do Augusto dos Anjos, deixa eu terminar de contar essa história aqui. E aí ele pá. E outra coisa que eu percebi que ele gosta muito, e eu fiz isso, é pedir licença para falar de cada assunto. Eu percebi que em todos os programas cada vez que uma pessoa dizia, Jô, posso falar? Ele deixava. Se você entrasse falando, ele não deixava. Ah, eu vou falar… Não. Jô, eu posso falar? Claro, pode falar. Jô, posso fazer não sei o que lá? Pode. Então essa estratégia foi que eu usei e funcionou. E ele me deu o segundo bloco. Bom, depois que eu fiz 19 minutos no primeiro bloco, falei agora já que é Machado mesmo, para fazer mais 19 num outro assunto novo seria mais fácil e dito e feito. E foi aí que quando terminou o segundo bloco ele pegou na minha mão, agradeceu e disse que se pudesse faria o programa todo, mas tem outro convidado, não posso deixar de fazer, mas foi um programa que teve 38 minutos comigo e 12 minutos com outro convidado. Aquilo para mim foi uma honra, uma coisa muito fantástica. Porque, de novo, eu vou dizer, lá no começo você perguntou qual é a sua especialidade? Se alguém perguntasse qual é, eu dizia, eu sou um consultor de raciocínio, foi o que eu fiz, eu fui lá exercitar a minha capacidade de improvisar à medida que as coisas foram acontecendo. Foi exatamente isso que aconteceu.

Luciano: Qual foi a consequência desse programa?

Nailor: Ah, sim, um milhão de visualizações, dois dias no top five do Twitter e daí, claro, um convite de outra ordem, eu conheci muitas empresas e muita gente veio, não assim, muita gente achou que eu tivesse começado a minha carreira de palestrante ali, não, já estava bem avançada. E o fato é que eu estava encerrando a minha carreira de professor, mas óbvio que sempre dá um up e continua sendo uma referência, sempre posso dizer, alguém fala, ah, te vi no Jô. Eu vou a um lugar, o cara vai procurar meu nome, nunca viu, Nailor é um nome incomum, então o cara procura Nailor e aparece lá Nailor no Jô e o cara vai ver. E daí o que acontece, como a entrevista realmente foi uma entrevista legal, as pessoas já vão meio predispostas a gostar de mim, então nesse sentido eu acho que facilitou bastante. Não me deu assim mais coisas do que eu já tinha. Eu falei assim para umas dez grandes empresas que talvez eu não falasse, mas eu não acredito que isso tenha mudado efetivamente a minha vida, porque eu fui, falei, passou aquela febre e acabou, entende?

Luciano: Mas te deu um holofote ali.

Nailor: Sim, me deu, claro

Luciano: De cem por cento do sucesso, eu quero estressar um pouquinho essa história do Jô, porque eu vou olhar para isso como um projeto, como um processo, um case que nós vamos estudar. De cem por cento do sucesso dessa tua entrevista, quanto é sorte?

Nailor: Cara, uns trinta por cento. Uns trinta por cento é sorte. Eu acredito que sim. Eu acho que trinta por cento é a estratégia que eu criei e quarenta por cento o conhecimento que eu tenho. Só o meu conhecimento não me seguraria lá, então um pouco só a estratégia e a sorte deu assim o tempero, foi a cereja do bolo, que é a história dele puxar o assunto do Augusto dos Anjos, que eu não esperava, que é a história dele falar do tio-avô, isso nada eu esperava, isso tudo foi a sorte, caiu no meu colo. A sorte dele me perguntar se eu era conhecido como alguém que ensinava coisas difíceis de um jeito fácil e, na verdade, eu fui professor a minha vida inteira. Quando a menina me entrevistou, me pré-entrevistou, ela falou uma coisa assim e eu fiquei com isso na cabeça e aí eu preparei vários exemplos mentais na minha cabeça, porque eu falei, vou dar um exemplo de língua, foi o que eu dei, um exemplo de latim, mas eu pensei, puxa, e se eu terminar e falar assim, tá, mas funciona porque você é de língua e se for de outra matéria? E aconteceu exatamente o que eu imaginei, eu terminei ele falou, mas você é de língua e se fosse outra matéria, matemática, por exemplo? E aí eu falei do Pitágoras, mas isso já estava ensaiado na minha cabeça, eu trabalhei um química, um biologia, um física, entende, para dar um exemplo. Então essas coisas, quer dizer, eu fui preparado para o que podia acontecer. Então, de novo aqui, se a gente está falando sobre estratégia, esteja preparado, eu acho que isso é uma coisa que vale a pena, se a oportunidade aparecer é bom estar preparado para ela, eu estava preparado.

Luciano: Você estudou o entrevistador para saber qual era a dinâmica dele.

Nailor: Sim.

Luciano: Você de certa forma antecipou algumas coisas que podiam ser perguntadas, podia acontecer ali e chegou na hora. Porque é o seguinte, você tem controle total sobre o conhecimento que você tem, você tem controle total sobre a estratégia que você monta, mas você não tem nenhum controle sobre a sorte.

Nailor: Claro que não. Não tenho.

Luciano: Sobre a reação dele e a sorte, você não tem nenhum, não é?

Nailor: Exatamente. Tanto que o que aconteceu, à medida que eu fui percebendo, eu fui caminhando naquela direção, fortalecendo a estratégia que eu tinha, como foi funcionando, fortalecendo, mas claro que eu contribuí com ele, porque o resto é o que ele ia fazer. E como o programa é dele e isso eu fui advertido, antes de entrar para a entrevista, a menina pegou no meu braço e disse “não se esqueça, o programa é dele”, isso foi dito textualmente para mim. Ou seja, não tente enfrentar, não tente encostar ele na parede, que ele vai quebrar você, isso foi dito para mim e eu entendi, claramente, quando ela pegou no meu braço e disse, não se esqueça que o programa é dele, falei já está entendido. Uma que eu não sou de confrontar mesmo. Eu vou para o confronto se o confronto me chama, não é verdade? Mas eu não sou um sujeito que sai de casa para brigar com ninguém, eu nunca briguei com ninguém, então não saio de casa para brigar assim, trocar murro, não, nada disso, nunca fui essa pessoa belicosa assim. Se o confronto me chama e vale a pena, eu entro no confronto, caso contrário, eu passo ao largo e tal. Não sou aquele cara que vê gente brigando na rua e pára para ver a briga, pára para ver o acidente, eu não sou essa pessoa, não. Agora, foi assim, contei com a sorte, sim, conto com a sorte até hoje.

Luciano: Meu amigo, parabéns. O que você fez lá foi realmente de tirar o chapéu. Você hoje está trabalhando então como consultor, dá para chamar de consultor?

Nailor: Eu acho que eu sou conselheiro profissional, é o que eu trabalho. Tanto que no meu contrato sempre vem escrito conselheiro, por isso que eu digo que eu sou mentor, na verdade, eu ajudo a estruturar vários segmentos de uma empresa.

Luciano: Você é pago para dar palpite, é isso?

Nailor: Pago para dar palpite, que coisa mais gostosa. Eu adoro dar palpite e as pessoas me pagam para dar palpite, essa é a verdade, eu sou um palpiteiro profissional. Eu sempre digo que se o meu conselho serve para alguma coisa ou não serve, eu não sei, mas as pessoas pagam, eu fico muito feliz por isso, não é verdade? Eu fico muito feliz, eu sou pago para dar conselho para as pessoas. E você sabe que é uma coisa tão interessante que a vida é assim, à medida que você vai fazendo uma coisa bem-feita, as pessoas vão falando e não tem propaganda melhor que quando alguém fala para você: esse cara trabalha para mim e o que ele faz aqui dentro realmente funciona, ele tem estratégias interessantes. E quando eu comecei a trabalhar na minha empresa mais recente agora, a que eu estou ajudando a construir agora, eles disseram, o que você vai fazer? Eu disse, não sei. Mas você não tem?… Não, não tenho plano nenhum. O plano vai nascer à medida que vocês forem conversando comigo. E é verdade, sou franco nesse ponto, à medida que a gente foi conversando, a gente foi construindo. Aí chegou um momento que eu disse “que história vocês querem contar? Qual que é a história dessa empresa?” “Ah, não tem” “então nós temos que contar uma história, porque essa empresa vai ser a história que a gente contar”. Eu sou um contador de histórias, voltando lá no começo da nossa entrevista.

Luciano: Voltamos para o começo da entrevista.

Nailor: E aí o que acontece é que eu ajudo as pessoas a contar a história delas. Porque às vezes você é uma pessoa boa, às vezes você tem coisas fantásticas, mas ninguém contou a sua história e tem gente que é cretino, mas tem uma história contada por aí e as pessoas gostam de histórias que são bem contadas, não é verdade? Não importa que elas sejam verdadeiras ou mentirosas. Tanto que veja como biografia faz sucesso, não é? Biografia faz muito sucesso, aí o cara fala assim, essa biografia aqui é autorizada ou não autorizada. Não interessa, não é verdade? Qualquer biografia, autorizada ou não autorizada, parcialmente é mentirosa, mesmo que seja autobiografia, é aquilo que o autor pensa que seja ele e não necessariamente aquilo que foi efetivamente. A gente sempre vai contar aquilo que interessa para a gente.

Luciano: E nós queremos a jornada do herói, sempre. A jornada do herói, sempre a vida inteira atrás desse heroísmo.

Nailor: E você vê que as pessoas quando usam espíritas, já reparou que o cara na encarnação passada foi assim imperador, rei, nunca vi um cara que foi assim, o que você foi? Nada.

Luciano: Mané.

Nailor: Fui Mané, pedinte, não tem, cara. Todo mundo foi alguma coisa legal. Não sei onde todo mundo acha tanta coisa legal para ser, não estou querendo criticar aqui o espiritismo, mas estou dizendo que é estranho que todo mundo só tenha sido alguma coisa legal, o que você foi? Fui Mané. Não tem um cara que foi Mané.

Luciano: Você não dá mais aula hoje regularmente? Você faz aulas inaugurais etc. e tal?

Nailor: Sim, aulas magnas de faculdades e tal, bastante.

Luciano: Você continua fazendo palestras pelo Brasil afora?

Nailor: Bastante, sim, bastante.

Luciano: Qual é o tema? Fala de quê?

Nailor: Comunicação com o cliente e liderança são as coisas que eu mais falo. Porque na verdade o que eu disse para você, de novo, o meu negócio é construir raciocínio, então as pessoas me dizem o que elas fazem e eu ajudo a construir raciocínios para aquilo. Então o sujeito, olha, eu estou vendendo determinado produto. Eu examino o produto com as pessoas e tal e depois eu construo o raciocínio de venda para aquele produto. Como é que o sujeito aborda aquilo, como ele contorna um problema, então é esse tipo de coisa, como eu construo um raciocínio a partir de uma situação, que foi o que eu fiz a vida inteira, volto a dizer, não sei se serve para alguma coisa. Tanto que quando eu fui para a Argentina, num encontro, uma vez, sei lá, dez anos atrás, era um encontro de professores e disseram assim, como a gente começou o programa aqui “diga o seu nome, o país de onde você veio e se defina com uma palavra”, em lugar de perguntar a idade, se defina. Disse “meu nome é Nailor, eu vim do Brasil, eu sou um inútil”. Ficou aquele mau humor, imagina, entre professores aquilo travou. O cara falou “como assim um inútil?” Eu falei “um inútil, eu não sei fazer nada, eu sei ler, escrever e falar só, mas não serve para nada isso”. Aí um professor que comandava falou assim “então eu também sou um inútil”, “então somos dois”, aí outro professor “ah, então passando assim eu também sou”, falei “já é um pequeno sindicato de inúteis, aqui” e é mais ou menos isso, quer dizer, eu não sei quanto serve aquilo que a gente faz, eu digo eu e isso é extensivo a você. Eu não sei, porque você não consegue medir matematicamente, como você mede a influência do Luciano Pires sobre as pessoas? Não tem, não é? Você, no fundo, acredita que você está fazendo uma coisa legal e eu sei que está, porque eu sou um seguidor seu, não é verdade? Eu já era seguidor seu antes da gente se conhecer pessoalmente e o que acontece é, eu já vim aqui e comecei a nossa conversa elogiando os seus podcasts tal, porque são sempre bárbaros e que têm um frescor que é admirável para quem escreve sempre, não é? A tendência é a pessoa meio que se repetir. Agora, a grande questão é para que serve isso? Eu não sei. Como eu mensuro a sua influência sobre mim? Eu não sei, entende? Eu sei que é boa, eu gosto de ler o texto, por coisa bacana e tal e às vezes eu não concordo. Eu me lembro de um dia de ter publicado um texto, de repente, um dia você falou assim para mim, cara, eu fiz um podcast sobre um texto seu e fez mesmo um texto sobre o amor e tal, não sei das quantas, mas eu nem escrevi o texto com essa intenção, tampouco que você fosse fazer, mas eu gostei de ver do jeito que a coisa foi colocada ali. Então isso é uma coisa legal, assim como eu publiquei a crítica de um livro, eu li o livro de um amigo, publiquei a crítica no Facebook e aí o cara leu e falou “cara, fantástica, posso publicar em revista especializada? Tira do Facebook”. Eu tirei do Facebook, mas falei mas escrevi para o Facebook, não tem assim muita pretensão. “É fantástico” e aí, de repente, veio uma editora de uma revista de literatura, nossa, “eu queria uma autorização sua para publicar, o próprio autor sugeriu, que é a melhor crítica do livro”. Eu, ãhn? É?! E foi uma coisa superbacana. E o texto é o Guayrá, do Marco Aurélio Cremasco, grande amigo, professor da Unicamp, escreveu um livro bárbaro, mas um livro dificílimo e eu escrevi um artigo, mas não tinha nenhuma pretensão de que esse artigo fosse publicado numa revista, nem nada disso, era só a minha opinião sobre determinada coisa. Eu acho que isso é que é muito legal, essa despretensão.

Luciano: Quanto disso é sorte?

Nailor: Eu não sei, cara. Eu não sei dizer, entende? Tem um tanto de sorte porque por que ele leu? Não é verdade?

Luciano: É. Eu estou provocando você porque essa questão de quanto mais eu me aprofundo nas questões todas de gestão, coisas que eu tenho lido de montão as coisas de empreendedorismo etc. e tal, mais aparece o fator sorte e agora eu dei de cara, estou preparando um programa que eu vou botar no ar logo mais, onde eu pego o estudo que foi feito, se não me engano foi na Europa, acho que foi na Europa o estudo, onde os caras fizeram o impacto da sorte no sucesso das pessoas bem-sucedidas. Os caras fazem uma tremenda de uma pesquisa mundial, assim com milhares de caras bem-sucedidos e chegam no final das contas falam qual é o fator do sucesso número um: sorte. O cara bem-sucedido não tem nada a ver com preparo, foi sorte. E aí os caras começam a tentar estimular como é que eu faço para ajudar a sorte, para que ela aconteça assim. Então cara, é meio doido, não é?

Nailor: Então vou te contar uma coisa, meu irmão que você conheceu uma vez, o que está no Jô comigo, você conheceu um dia numa reunião que a gente fez na faculdade, meu irmão foi alto executivo da indústria farmacêutica anos a fio, de várias, Aché, Farmasa, Cristália, sempre diretor de marketing, vice-presidente, enfim. E quando ele ia contratar alguém ele mandava reunir os melhores currículos, ele passava, eles reuniam tudo nos departamentos e dizia “pega os 20 melhores e traz para mim”. Ele pegava os 20, mas eu vou te contar isso é fato, ele pegava os 20 currículos e jogava para cima. Eu só entrevisto o que cair na minha mesa, os que caíam no chão, ele não entrevistava. E se alguém falava assim, mas não tem ciência nisso, ele falava, pode não ter ciência, mas eu não quero azarado trabalhando comigo, o cara que não teve sorte de cair em cima da mesa, todos aqui são competentes, mas para trabalhar comigo eu quero um cara que tenha sorte de ter caído em cima da mesa, quem caiu no chão é porque é azarado, azarado eu não quero trabalhando comigo. Aí um dado para o seu quadro.

Luciano: Genial, cara.

Nailor: Não há nada de ciência nisso, mas ele falou, funcionava, não é verdade? O cara que não caiu no chão, o cara que caiu no chão é porque é azarado, esse não quero do meu lado, não é? Porque todos são competentes, mas eu preciso de alguém que seja competente e mais alguma coisa e o cara teve sorte que caiu na mesa e é mais ou menos assim, não é? Tinha uma coisa meio louca.

Luciano: Meu caro, quem quiser tomar contato com o teu trabalho, quem quiser contratar, ler, encontrar, como é que faz? Como é que te acha?

Nailor: Cara, muito fácil. Meu nome é Nailor com i, a pessoa pode procurar no Google, mas é Nailor@Nailor.com.br, fácil demais.

Luciano: Você tem quantos livros editados e publicados?

Nailor: Trinta.

Luciano: Trinta livros publicados?

Nailor: É, trinta.

Luciano: Trinta, 3-0.

Nailor: É, trinta, oito DVDs e dois audiolivros.

Luciano: Bom, tem material à vontade para quem quiser.

Nailor: Tenho, sim. Muita gente fala assim, ah, mas aonde eu encontro o seu livro e tal, não sei o quê? Às vezes, na Livraria Curitiba, o sujeito entra e encontra, mas na estante virtual tem bastante. Eu às vezes entro na estante virtual, porque eu gosto muito de comprar no sebo, eu entro na estante virtual para ver como eu ando cotado por ali e eu acho interessante ver as minhas coisas e ver como são valorizadas ali.

Luciano: Eu já entrei lá, cara, e ali eu vivi uma coisa interessantíssima, que é os caras botando os meus livros à venda lá por tudo quanto é preço e colocando como atributo do livro autografado pelo autor.

Nailor: Isso, o meu também tem.

Luciano: E aí você olha aquilo e fala, cara, espera um pouquinho, bicho, um cara recebeu um livro que o autor pega e põe o nome dele, caro Nailor, é um prazer estar com você, assinado Luciano Pires e você entrega aquilo para um sebo. Não passa pela minha cabeça. Eu, quando morrer, vou carregar no meu caixão os livros que eu recebi autografados em meu nome, eu jamais vou vender. Eu posso é emprestar para alguém o livro, vou querer de volta. Agora, transformar aquilo numa mercadoria. E quando eu li aquilo, falei, cara, os caras não dão o menor valor, bicho.

Nailor: E sabe o que é interessante, o cara não deu, mas o sebo deu. Aquilo agregou um valor, não é? E é muito interessante, quer dizer, o cara viu o valor onde o sujeito que recebeu não viu. E isso tem de monte escrito lá autografado. E você vai dando palestras, quantos livros você não vendeu em palestras, que você não autografou, você não sabe quem é aquela pessoa e também pouco importa quem seja.

Luciano: E a pessoa também não está nem aí, não é? Recebe lá na hora.

Nailor: E também pouco importa, o cara pegou e entregou e mandou e o cara nem viu quem era, às vezes nunca abriu o livro. Porque uma coisa aqui no Brasil tem, comprar livro é comprar livro e ler livro é outra coisa completamente diferente, não é? E se o livro está autografado ou não, tanto faz, mas vem aquela pessoa e fala assim, autografa para um amigo e durante muito tempo muitas prefeituras me faziam assim, Dia dos Professores, o cara comprava uma palestra e mais um livro para cada professor, com a condição de que eu enviasse os livros autografados. Às vezes o cara recebeu esse livro de presente da Secretária de Educação e isso não aconteceu comigo uma ou duas vezes, aconteceu dezenas de vezes. Então quantos livros, sei lá, vinte mil livros foram ou não uma condição dessa natureza, como vou saber quem é que recebeu e o que a pessoa fez com aquilo? Eu sempre brincava que os meus livros eram feitos num tamanho calculado matematicamente, de modo que cinco livros, colocados um em cima do outro dá certinho um pé de sofá, então no lugar de você colocar um tijolo, coloque cinco livros, que é pelo menos mais culto, o cara em lugar de colocar um tijolo, colocar cinco livros do Nailor, legal.

Luciano: Esse é o Nailor. Olha, você que está me ouvindo aí, cara, eu recomendo de montão, você tem que conhecer o trabalho do Nailor. Se você for lá tem para todo gosto, tem provocação, tem literatura, tem poesia, tem críticas generalizadas é uma grande figura e fala do filho e fala da vida e fala de porradas de coisas lá, é muito rico o trabalho que o Nailor tem, tanto nas mídias sociais quanto no trabalho que ele faz como palestrante, como escritor etc. e tal. Sem contar que tem uma bagagem gigantesca aí, é um prazer imenso, cara, sentar para conversar contigo aí,

Nailor: O prazer foi meu. Demorou, mas foi muito legal.

Luciano: É, mas faz parte, não é? Eu quero me aproximar mais, nós precisamos agitar e fazer mais coisas juntos, bicho.

Nailor: Não, com certeza. Agora eu vou vir para São Paulo com mais frequência, com certeza a gente vai ter chance de falar mais.

Luciano: Pode dar um sambão aí.

Nailor: Exatamente.

Luciano: Cara, bem-vindo ao LíderCast, muito obrigado por ter aceitado o convite.

Nailor: Eu é que agradeço.

Luciano: Eu espero ter chance de encontrar contigo nas próximas vezes, está bom? Abração.

Nailor: Show de bola. Obrigado. Vamos sim. Obrigado. Abraço.

Luciano: Muito bem, aqui termina mais um Líder Cast. A transcrição do programa você encontra no lidercast.com.br. O LíderCast chega a você com o apoio da Albaugh Brasil, que está revolucionando o mercado com uma linha completa de agroquímicos genéricos. Sim, cara, genéricos de qualidade, combinando proteção, rentabilidade ao agricultor e respeito ao meio-ambiente. Conheça as soluções Albaugh em bit.ly/escolhainteligente. Para ter acesso a esta temporada completa, assine o Café Brasil Premium no cafebrasilpremium.com.br, um ambiente educacional sem ser chato nem superficial, que já conta com mais de mil assinantes recebendo todo mês conteúdos voltados ao crescimento pessoal e profissional. Conheça, que vale a pena, cafebrasilpremium.com.br.

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