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577 – Dois pra lá, dois pra cá

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Luciano Pires -

Existe uma divisão política, social e cultural no Brasil que separou amigos, irmãos, casais, companheiros de trabalho. O que começou como conflito já descambou para confronto. Qual é o tamanho do desafio que temos de enfrentar se quisermos uma democracia moderna, autêntica e estável, hein?

Posso entrar?

Amigo, amiga, não importa quem seja, bom dia, boa tarde, boa noite, este é o Café Brasil e eu sou o Luciano Pires.

Olha, você sabe que o Café Brasil costuma trazer ideias que precisam de reflexão, não é? Pra ajudar, publicamos resumos dos pontos principais dos roteiros dos programas. É gratuito, serve para você germinar as ideias aí nesse célebro que está virando cérebro cara, ou então pra compartilhar as ideias depois de ouvir o programa ou então pra mandar pra algum amigo, vai. Baixe gratuitamente acessando portalcafebrasil.com.br/577.

E quem vai levar o e-book Me engana que eu gosto é o Alivaci Costa.

“Olá Luciano, olá todos que fazem o Café Brasil. Meu nome é Alivaci Costa, sou da cidade de Japodi, uma cidade pequena aqui no interior do estado do Rio Grande do Norte. Estou gravando esse áudio pra falar um pouco da minha história com o Café Brasil e para agradecer claro, a vocês que produzem esse podcast de uma qualidade tão excepcional. 

Bem. Eu sou estudante de comunicação social, com habilitação em jornalismo, muitas vezes eu fico refletindo sobre os programas, sobre o que é falado aí no programa, no podcast e uma das coisas que me chamam a atenção é de como é interessante a gente ouvir um programa de qualidade, feito por quem entende, feito por quem tem algo a somar. Não aquele programa apenas feito por fazer. É isso que eu sinto quando eu escuto o Café Brasil. 

E uma prova disso, pelo menos pra mim, uma das maiores provas, é que em muitos casos eu até não concordo, com o que você fala no programa, mas mesmo assim, eu não me sinto agredido por ouvir a opinião que está sendo dita, o conceito, a informação que você está repassando, eu não me sinto agredido por não concordar. Muito pelo contrário, eu me sinto convidado a refletir sobre essa opinião que é dita aí no programa e que não é, necessariamente a mesma opinião que a minha.

Isso pra mim mostra a qualidade inquestionável do que vocês estão fazendo aí. Porque mesmo discordando, você não quer desligar. Mesmo não concordando, você não quer parar de ouvir. Você quer ouvir até o final, que entender o raciocínio, entender porque que está sendo falado, está sendo posto dessa maneira. 

Muitas vezes eu acabo concordando no final do raciocínio, muitas vezes não concordo, mas vou pesquisar sobre o tema, vou pesquisar sobre o assunto, encontro outras fontes e eu acredito que esse é o caminho da construção de uma opinião mais sólida através das opiniões que são ditas aí no programa, através do que é mostrado, a gente vem pesquisar, às vezes acaba mudando de ideia, concorda com o que você falou aí Luciano, às vezes também não concorda, o que é normal. E como é difícil também, acaba trazendo outra reflexão, como é difícil, nos dias atuais, você encontrar pessoas com quem você consegue conversar, discordar e mesmo assim não querer parar a conversa. E quando essa opinião contrária à sua vem com qualidade, vem com argumentos que não são formados apenas no senso comum, na base do achismo, a conversa flui naturalmente. E claro, com o Café Brasil tem acontecido muito isso, eu tenho mudado algumas opiniões, eu tenho aprendido muito. Não dá pra mencionar, não dá pra gente calcular o quanto eu melhorei, o quanto eu aprendi ou o quanto eu mudei de opinião. 

O fato é que a qualidade do que vocês fazem aí no Café Brasil, independente de concordar ou não com a opinião, a qualidade é inegável, só tem a somar e só tem a acrescentar na vida de qualquer pessoa que escuta. Até o meu gosto musical tem mudado cara! Isso é incrível. Os podcasts são cheios de músicas e eu escuto um podcast depois vou procurar as músicas que você coloca aí pra ilustrar. E essas músicas acabam fazendo parte também da minha playlist pessoal que eu gosto de ouvir. E eu tenho mudado imensamente assim o gosto musical. Tenho aprendido mais sobre a música enfim, são inúmeras as coisas que acontecem, a gente tem vontade de gravar quando escuta o relato das outras pessoas que já participaram, a gente sente esse desejo também de participar e dizer muito obrigado Luciano, muito obrigado a todos os que fazem o Café Brasil.

Quem dera o Café Brasil possa chegar inclusive a outras plataformas de comunicação atingindo muito mais pessoas, porque eu acredito que todas as pessoas deveriam ouvir um programa de qualidade como esse. É algo que é feito com cabeça, com pesquisa, com seriedade e que nos informa e nos ensina tanto. Obrigado Luciano. Obrigado a todos.”

Olha Alivaci. Muito legal seu comentário ai. A gente já está aí numas trinta rádios pelo Brasil. Não está em mais rádios porque elas não querem, porque elas não pedem, porque quem pede a gente manda o programa pra botar no ar na boa.

Mas gostei muito dessa historia aí de discordar, mas ouvir para aprender. Você levantou vários pontos interessantes, relacionados a forma e conteúdo. E aí tem algo que para mim aqui é sagrado. Você jamais me verá aqui xingando alguém de idiota, estúpido ou burro por causa de suas ideias. Não. A não ser que o cara passe da conta né? Posso até xingar, mas será subliminar. Eu acho que manter um cuidado com a forma, evitando o confronto, é o único jeito de ser ouvido e assimilado por quem não concorda com nossas ideias. Tem gente que acha diferente, bate mesmo, mas assim acaba pregando apenas para os convertidos, não é?

Vamos lá então, meu caro, obrigado pelo comentário!

Muito bem. O Alivaci receberá um KIT DKT, recheado de produtos PRUDENCE, como géis lubrificantes e preservativos masculino e feminino. PRUDENCE é a marca dos produtos que a DKT distribui como parte de sua missão para conter as doenças sexualmente transmissíveis e contribuir para o controle da natalidade.  O que a DKT faz é marketing social e você contribui quando usa produtos Prudence. facebook.com/dktbrasil

Vamos lá então! Lalá, quero ver se você concorda, hein

Luciano: Na hora do amor, use Prudence.

Lalá: Claro que concordo! Use Prudence!

E aí, vamos conhecer o Café Brasil Premium? A nossa “Netflix do Conhecimento”? Olha cara, se você gosta deste podcast, imagina o que vai encontrar la, hein? Sumários de livros, palestras, podcasts, áudios… cara! É uma festa para quem quer crescer. Acesse cafebrasilpremium.com.br, conheça nossa proposta e junte-se aos assinantes que já estão viajando por lá.

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Conteúdo extra-forte.

Em meu livro ME ENGANA QUE EU GOSTO, eu publiquei um texto chamado La Grieta, que já usei num programa anterior, mas que merece ser revisto. Eu dizia assim:

Quando estive no Campo Base do Monte Everest em 2001, me lembro de ficar extasiado diante da Cascata de Gelo do Khumbu, a imensa massa de gelo que desce pela encosta da montanha para depois se transformar numa geleira e, quilômetros à frente, no Rio do Leite. A cascata tem cerca de 900 metros de altura e é composta por gigantescos blocos de gelo que deslizam vagarosamente, abrindo imensas gretas, as “crevasses”. As gretas interrompem a subida, separam os grupos de montanhistas, tiram vidas e dificultam, quando não impedem, a missão de escalar a montanha.

Lembrei das gretas ao receber um pequeno vídeo do discurso do jornalista argentino Jorge Lanata na premiação como melhor programa jornalístico da TV Argentina em 2013. No vídeo, ele fala da greta, em espanhol, la grieta.

Veja aqui:

Eu não resisti. Traduzi o discurso de Lanata, substituindo “Argentina”, por “Brasil”. Veja o que você acha:

“Creio que existe uma divisão irreconciliável no Brasil, e a essa divisão eu chamo de ‘A Greta’. Eu realmente creio que a greta é o pior que se passa conosco. E acredito que vá transcender o atual governo que, se em algum momento se for, será sucedido por outros que também passarão. Mas a greta permanecerá, porque a greta não é política, ela é cultural, e no sentido mais amplo, tem a ver com a forma como vemos o mundo. A greta separou amigos, irmãos, casais, companheiros de trabalho. Antes havia mais gente que eu saudava por aqui, agora há menos. Provocaram uma greta, uma divisão, com essa história de que quem está contra é um traidor da pátria. É possível sim, estar contra e não ser um traidor da pátria. Creio realmente que todos somos a pátria, creio que todos somos o país, creio que ninguém tem o ‘copyright’ da pátria. ‘Brasil’ não é uma marca registrada de ninguém, de nenhum partido, de nenhum movimento, de nenhum governo, seja qual for. A verdade tampouco, ninguém tem o ‘copyright’ da verdade. Oxalá algum dia possamos superar essa greta, pois dois meio Brasis não somam um Brasil inteiro.”

Lá em 2007 escrevi num artigo chamado “Os Porta-Vozes”, que depois eu também publiquei em meu livro NÓIS… QUI INVERTEMO AS COISA, ouça este trecho:

“Uma pregação que se quer revolucionária – mas que na verdade só é burra – está dividindo o país em duas classes: a ‘elite’ e os oprimidos. E dizendo a elas que não ‘se misturem’. Na verdade, que se odeiem. Essa pregação doentia rotula-me de elite, dando conotação de ofensas ao termo. E diz que sou responsável pela miséria. Para aqueles ‘porta-vozes’, os miseráveis e oprimidos têm o direito de colocar um revólver na minha cabeça e levar meu relógio. E a culpa será minha. Os ‘porta-vozes’ são uma minoria instalada nos partidos políticos, nos órgãos governamentais, nos sindicatos, nas escolas, nas empresas, nas igrejas, em seu condomínio, cara. Uma minoria ideologicamente confusa e míope, a serviço de uma estratégia de poder. Uma minoria capaz de mobilizações, e que acaba influenciando a maioria silenciosa. Quem foi que deu a essa turma a licença para ser ‘porta-voz’ do ódio, hein? A que objetivos serve essa doutrinação?”

Olha!A semelhança entre a situação argentina e brasileira não é coincidência não cara. É método. E esse texto aqui eu escrevi há dez anos atrás.

Dez anos depois daquele meu texto eu conclui que aqueles “porta-vozes”, gente no poder ou próxima dele, é que são a tal “elite”, dedicada nos últimos anos a disseminar o ódio que construiu a imensa greta que hoje divide o Brasil e que se tornou clara durante as eleições presidenciais de 2014.

É possível, com cuidado, técnica e coragem, vencer as gretas do Everest. Os alpinistas conseguem em conjunto, amarrados uns aos outros, na mesma direção. Sem ninguém trabalhando contra.

Talvez haja uma lição aí.

Dois meio Brasis jamais somarão um Brasil inteiro.

In The City
John Walsh

Somewhere out on that horizon
Out beyond the neon lights
I know there must be somethin’ better
But there’s nowhere else in sight
It’s survival in the city
When you live from day to day
City streets don’t have much pity
When you’re down, that’s where you’ll stay
In the city, oh, oh.
In the city

I was born here in the city
With my back against the wall
Nothing grows and life ain’t very pretty
No one’s there to catch you when you fall
Somewhere out on that horizon
Far away from the neon sky
I know there must be somethin’ better
And I can’t stay another night
In the city, oh, oh.
In the cityIn The City

Somewhere out on that horizon
Out beyond the neon lights
I know there must be somethin’ better
But there’s nowhere else in sight
It’s survival in the city
When you live from day to day
City streets don’t have much pity
When you’re down, that’s where you’ll stay
In the city, oh, oh.
In the city

I was born here in the city
With my back against the wall
Nothing grows and life ain’t very pretty
No one’s there to catch you when you fall
Somewhere out on that horizon
Far away from the neon sky
I know there must be somethin’ better
And I can’t stay another night
In the city, oh, oh.

Você está ouvindo IN THE CITY, com Joe Walsh. A letra diz assim:

Em algum lugar no horizonte
Para além das luzes de néon
Eu sei que deve haver algo melhor
Mas não há nenhum outro lugar à vista
É a sobrevivência na cidade
Quando você vive de dia para dia
As ruas da cidade não tem pena
Quando você está para baixo, é lá que você vai ficar
Ninguém está lá para apoiar quando você cair
Em algum lugar no horizonte
Longe do céu de néon
Eu sei que deve haver algo melhor

Essa música é trilha de um filme de 1979, chamado The Warriors, dirigido por Walter Hill, que fez um baita sucesso. No Brasil se chamou “The Warriors – Os guerreiros da noite”. O filme conta a epopeia de uma gangue de Nova Iorque chamada The Warriors, cujos nove membros precisam voltar para casa após serem acusados injustamente de terem assassinado o grande líder das gangues numa reunião que aconteceu no Bronx. A gangue tem de voltar para Coney Island, que fica a mais de 30 km de distância. No trajeto os Warriors vão encontrando outras gangues que os perseguem e entrando em conflito. É porrada para todo lado, mas o mais curioso era o encontro das gangues inimigas. Cada uma tinha um estilo, uma indumentária, um nome, um dialeto, um comportamento, acessórios e detalhes que faziam com que fosse possível determinar claramente quem pertencia a qual gangue. Não tinha erro. Todos sabiam quem era o inimigo, em quem bater ou de quem correr.

Meu! Tava na cara.

Me lembrei desse filme ao refletir sobre o que estamos vivendo hoje, em todo o planeta. É parecido com o filme, diversos grupos em conflito defendendo seus territórios, enfrentando outros grupos com interesses distintos. Mas agora temos um baita complicador. Esses grupos não estão mais tão claramente definidos como no filme. Há exceções, é claro. Um terrorista do Exército Islâmico, por exemplo, se veste, fala e se comporta de uma forma padrão, fácil de identificar, mas a maioria dos grupos não se diferencia mais. Não é tão fácil. Não é mais possível olhar para seu vizinho e classificá-lo como integrante da gangue x ou y. Ele é igualzinho a você, mas pensa completamente diferente. Não dá para identificar as tribos como lá no filme The Warriors.

E vai piorar viu? Se os sinais externos já não existem, os internos estão ficando cada dia mais complicados. O discurso dos extremos está se misturando, narrativas que eram de esquerda agora também são de direita. E vice-versa. O linguajar de uma ala está contaminando outras alas. Atitudes extremas escondem-se por trás de discursos pela tolerância, inversões morais estão por todos os lados. Tá difícil viu? O resultado é que nessa mistura, para quem não tem um repertório extenso, parece que é tudo igual. Especialmente quando os temas em discussão ficam cada vez mais complicados.

Agora fica pesado. Vai pesar sim, cara, porque eu vou usar na continuidade uma adaptação de um artigo escrito por Francisco Ferraz, que é Professor de Ciência Política, ex-reitor da UFRGS, pós-graduado pela Universidade de Princeton e  criador e diretor do site Política para políticos. O título é A corrosão do consenso básico. Prestenção.

Vivemos uma crise de muitas fases. Ela é econômica, política, social jurídica, cultural, ideológica e histórica. Mais grave que as questões econômicas, sociológicas ou jurídicas da crise, é o seu agravamento político. Estamos num rumo perigoso, viu? No Brasil tudo agora é questionado. O que nos levou a isso foi a confusão cultural, normativa e comportamental que resultou no rompimento do tecido social.

Qualquer sociedade democrática é fundada em valores básicos, aceitos por sua população. Esses valores asseguram a estabilidade e um processo político de mudança ordenado e legal. Quando não há um consenso, uma concordância em torno desses valores básicos ou quando se instala um conflito radical entre eles, a nação tende a se dividir em dois blocos radicais, permanentemente em confronto. E cria-se entre eles, a greta, o abismo intransponível.

O professor, então, elenca alguns valores essenciais à vida social organizada e que se encontram em conflito e contestação no Brasil. São dezenas de questões intensas e que criam as tais gretas. Qualquer uma delas lançada numa mesa de bar meu, termina numa discussão, numa  loucura e naquela divisão do “nós contra eles”. Ouça só. Olha só.

Primeiro, a democracia direta, aquela na qual o cidadão vota e expressa sua opinião sem intermediários, vai sendo usada para corroer a democracia representativa, em que as decisões políticas não são tomadas diretamente pelos cidadãos, mas por representantes eleitos por eles.

Olha só o que é que anda acontecendo:

  • Políticos acusados por crimes desfilam por aí livres, leves e soltos. As várias instâncias da justiça não os punem e a única penalidade será na próxima eleição, se o povo não os reeleger. A única condenação legítima é pelo voto, portanto, a legislação penal cara, não vale pra nada.
  • Outro ponto: a pressão por convocação de Constituintes, Plebiscitos, Referendos e Reformas Políticas para substituir aquilo que deveria estar sendo feito pelo poder legislativo e pelo STF.
  • Mais um ponto: as manifestações com militantes ‘pagos’ para pressionar e forçar, decisões legislativas ou jurídicas que estão em tramitação normal no Congresso e no STF.

Esses pontos aí são a democracia direta. A voz das ruas sendo usada para destruir a democracia representativa.

  • Outro ponto é a quebra do consenso, cara! Tudo passa a ser questionado, olha só. Tenta-se, contra a lei, mudar as definições do que é família; do regime jurídico do funcionalismo; da eleição direta de dirigentes de órgãos públicos.
  • Na questão da família – questiona-se sua conformação em termos de gêneros. Há um malicioso enquadramento da discussão: família tradicional x família moderna.
  • No sexo: se escolhe ou é pré-determinado ao nascimento, hein? O uso de sanitários é de livre escolha?
  • Democracia: qual é a verdadeira democracia – a representativa ou a democracia direta?
  • Sob qual valor se estrutura a democracia? Igualdade e liberdade política ou igualdade econômica e social?
  • Liberdade econômica: quem deve se ocupar da atividade econômica, hein? A a livre iniciativa ou os órgãos do estado?
  • Propriedade privada é legítima e legalmente protegida ou tem uma legitimidade discutível e precária? A ‘invasão’ é um delito ou é um direito?
  • O lucro é uma conquista legítima ou é um roubo sujeito à expropriação? O mercado é necessário ou prejudicial?
  • A escola deve transmitir conhecimentos ou ideologia? Educação ou doutrinação? É legítimo e legal a censura? Na prática política, ideologia e doutrinação são definidos como ‘espírito crítico’.
  • O criminoso é responsável por seus atos? Ou a responsabilidade é da vítima, hein?
  • Liberdade de imprensa é uma garantia de liberdade ou é o abuso dos proprietários dos veículos de imprensa?
  • Qual é o critério legítimo para a promoção salarial ou na carreira: é o desempenho, o mérito ou é a confiança política?
  • Símbolos religiosos não podem ser expostos em público ou é direito de qualquer cidadão expor seus símbolos?
  • A vida humana é sagrada ou pode ser usada como um instrumento?
  • O que é a legalidade? O estado democrático de direito, suas instituições e normas? Ou esses são apenas atributos formais, que podem ser manipulados conforme as circunstâncias?
  • O que é golpe de estado? É um conceito jurídico-político ou um termo usado na disputa política conforme os interesses de cada grupo?
  • Como entender esta frase aqui ó: “Seguir a virtude prejudica o país?” Ela se refere aos supostos prejuízos e custos da operação Lava Jato, por exemplo.

Mas, segura aí que tem mais… Em terceiro vem a destruição da dignidade dos poderes e das funções. Assim ó.

  • Plenário do Congresso como palco para danças folclóricas, reunião indígena, concentração de minorias organizadas.
  • Ocupação da mesa do Senado por senadores de um partido. Inclusive almoçando quentinhas…
  • Legisladores usando cartazes, igualando-se a manifestantes.
  • Cenas de pugilato, ‘cuspidas’.
  • Obstrução dos trabalhos no grito e apoiado por legisladores.

Entendeu, hein? Tudo é contestado. E quando tudo é contestado o consenso básico vai para o espaço.

Preste atenção: o professor fala de um consenso em valores básicos, centrais, que permitem que a política e a administração sejam previsíveis. Esse consenso básico contém regras que os cidadãos entendem, conhecem e praticam. E que as instituições protegem. É por meio desse consenso básico que a sociedade se consolida numa organização política democrática, unida em torno desses valores e dividida em torno de políticas públicas. Esse consenso é a cola que mantém a sociedade unida. É o lugar pra onde a gente quer ir. Podemos discutir como a gente vai, eu acho que deve ir de um jeito, você acha que deve ir do outro, mas nós dois queremos a mesma coisa. Esse é o consenso.

Quando esse consenso não acontece cara, quando tudo é contestado, quando tudo está sempre aberto a mudanças, o resultado é uma democracia instável, imprevisível, de legitimidade e duração precárias. Sabe onde esse tipo de democracia vai dar, hein? Em totalitarismo, na ditadura populista ou na instabilidade. Cara! Isso não é opinião meu, isso é história. E parece que é o caso do Brasil.

Dois pra lá, dois pra cá
João Bosco
Aldir Blanc

Sentindo o frio
Em minha alma
Te convidei prá dançar
A tua voz me acalmava
São dois prá lá
Dois prá cá…

Meu coração traiçoeiro
Batia mais que o bongô
Tremia mais que as maracas
Descompassado de amor…

Minha cabeça rodando
Rodava mais que os casais
O teu perfume gardênia
E não me perguntes mais…

A tua mão no pescoço
As tuas costas macias
Por quanto tempo rondaram
As minhas noites vazias…

No dedo um falso brilhante
Brincos iguais ao colar
E a ponta de um torturante
Band-aid no calcanhar…

Eu hoje, me embriagando
De wisky com guaraná
Ouvi tua voz murmurando
São dois prá lá
Dois prá cá…

No dedo um falso brilhante
Brincos iguais ao colar
E a ponta de um torturante
Band-aid no calcanhar…

Eu hoje, me embriagando
De wisky com guaraná
Ouvi tua voz murmurando
São dois prá lá
Dois prá cá…

Ai que delícia,cara! Você está ouvindo Zizi Possi com João Bosco, os dois se divertindo cara, com a imortal DOIS PRA LÁ DOIS PRA CÁ, do próprio João com Aldir Blanc. Dois pra lá… dois pra cá… A música prega a harmonia entre as duas metades… e é sensacional, não é?

Os “dois meios Brasil que jamais somarão um Brasil inteiro” remetem à conhecida situação da “curva em U”, que também é conhecida por teoria da ferradura, em que o poder foge do centro e se aloja nos extremos. Este é o caso da guerra civil, o pior dos conflitos, cujo exemplo emblemático é a Guerra Civil Espanhola que, em julho de 1936 deu origem a ‘Duas Espanhas’.

Nessa situação parentes e amigos evitam encontrar-se por causa da hostilidade que os valores políticos antagônicos provocam entre eles.

A guerra civil é a prova definitiva de que o ódio na política é muito mais forte que o ódio no amor.

No Brasil, felizmente, não nos encontramos nesta situação. Mas o mínimo que se pode dizer é que já estivemos muito mais longe dela… Entre a Espanha da Guerra Civil e o Brasil da crise, a Venezuela Bolivariana de Maduro já se encontra muito próxima de uma guerra civil. Estamos ainda longe da situação espanhola, mas não tão longe da Venezuelana.

Bem, nenhuma das questões levantadas pelo professor é de importância periférica ou secundária. São todas elas indispensáveis para a configuração política, econômica, social, jurídica e cultural do país e para a qualidade da sua democracia. Podemos hierarquizar essas questões, mas não simplesmente ignorá-las.

E a questão que fica então, representa nosso desafio como nação democrática:

“Como uma nação com tal grau de conflito em seus valores básicos poderá construir e manter uma democracia moderna, autêntica e estável?”

Jura que você achou que eu ia deixar de tocar Dois pra lá, dois pra cá na versão definitiva da Elis Regina? Olha! No dia que isso acontecer, não é mais o Café Brasil.

E é assim então, ao som de Elis Regina, que vamos saindo pensativos.

Meu, você se deu conta da importância dessa questão, hein? Como é que com tantos conflitos em nossos valores básicos a gente quer ou vai poder construir e manter uma democracia moderna, autêntica e estável? Ainda mais divididos em gangues, cada uma defendendo o seu?

Vai ser complicado, viu? Acho que vou ter de voltar a esse tema em breve…

Com o congregador Lalá Moreira na técnica, a guerreira Ciça Camargo na produção e eu que, mesmo que você não acredite, faço parte da sua gangue, do se time, aquele que quer um Brasil inteiro e melhor, Luciano Pires, na direção e apresentação.

Estiveram conosco o ouvinte Alivaci, Joe Walsh, João Bosco com Zizi Possi, Jorge Lanata e Elis Regina.

Este é o Café Brasil. De onde veio este programa tem muito mais. Visite para ler artigos, para acessar o conteúdo deste podcast, para visitar nossa lojinha no … portalcafebrasil.com.br.

Mande um comentário de voz pelo WhatSapp no 11 96429 4746. Quem estiver fora do país, é o: 55 11 96429 4746. E também estamos no Telegram, com o grupo Café Brasil.

Mergulhe fundo no mundo do Café Brasil acessando:

Para o resumo deste programa, portalcafebrasil.com.br/577.

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Conteúdo provocativo, grupos de discussão e uma turma da pesada, reunida para trocar ideias de forma educada, compartilhando conhecimento e crescendo juntos!

E para terminar, uma frase do escritor e jornalista austríaco Karl Kraus

As opiniões reproduzem-se por divisão, os pensamentos, por germinação.