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551 – Todo mundo é deficiente

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Luciano Pires -
Download do Programa

ILUSTRAÇÃO DA VITRINE: VITO QUINTANS 

Os links com as músicas do programa serão  publicados após o lançamento do CD.

Vivemos numa sociedade onde todos tentam desesperadamente classificar a todos em categorias, rotulando um ao outro e assim criando limitações. E a gente passa a confundir estar limitado com ser limitado.

Posso entrar?

Amigo, amiga, não importa quem seja, bom dia, boa tarde, boa noite, este é o Café Brasil e eu sou o Luciano Pires.

Antes de começar o show, um recado: preparamos um resumo do roteiro deste programa com as principais ideias apresentadas. Um guia para você complementar aquelas reflexões que só o Café Brasil provoca. Para baixar gratuitamente acesse o roteiro deste programa no portalcafebrasil.com.br/551.

E quem vai levar o e-book Me engana que eu gosto é a Luise, de Cornélio Procópio.

“Bom dia, Luciano. Meu nome é Luise, acabei de escutar o seu último podcast e nossa, tô até emocionada. Esta semana é uma semana bem significativa pra mim. 

Eu trabalho numa empresa de economia mista, faz dois anos e meio que eu peguei uma equipe com seis pessoas e quando eu cheguei, percebi que tinha um funcionário que fazia as coisas de forma questionável. Achei, num primeiro momento, que talvez fosse implicância minha, fui observando, esperando mais um pouco, até ver de fato as irregularidades que aconteciam. O que me incomodava, além das irregularidades, do tipo de irregularidade era o fato dele ainda ser o tal do malandro, fazer chacota dos colegas, cumprir a meta dessa forma e ainda tirava sarro dos outros. Isso me incomodou muito na minha equipe. Porque eu não achava justo, nem o que ele estava fazendo e nem o que ele fazia com as outras pessoas. E não pude ficar indiferente. 

Busquei identificar qual era o tamanho do problema e convenci meu chefe que a gente denunciasse pra que a irregularidade parasse de acontecer. Todo mundo sabia que tinha alguma coisa de errado, ninguém sabia exatamente o que era, mas ninguém nunca se mexeu pra isso porque isso dá trabalho. E deu. Deu muito trabalho, deu muita dor de cabeça, passei uma gravidez um pouco tensa, por causa disso, e depois veio a auditoria e o funcionário foi demitido, por justa causa. Achei que trabalhava numa empresa séria e que a coisa certa havia sido feita, apesar do alto preço que eu paguei. 

E agora, nesta semana provavelmente, ele vai voltar a trabalhar conosco porque ele ganhou na justiça o direito à reintegração. Isso me deixou um pouco chateada, porque parece que tudo foi em vão. E foi assim que eu fiquei me sentindo. Falei: meu Deus, mas tudo foi em vão? Será? E ouvindo aqui hoje, procurando um significado pra continuar a fazer as coisas do jeito certo, você me coloca essa música da borboletinha?

Nós temos muitas pessoas que nós amamos aqui e nós não podemos desistir de fazer o mundo um pouquinho melhor, nem que seja à nossa volta, nem que seja pouco. Porque nós temos pessoas muito queridas que estão aqui com a gente e a gente precisa deixar esse lugar um pouco melhor.

E se a gente desistir diante de uma batalha como eu vislumbro hoje, essa situação que eu estou passando, que eu vou passar, a gente não pode desistir. Porque a guerra está aí, e a gente vai ter todo dia batalhas diárias. E a gente tem um motivo pra lutar, que é fazer da nossa vida, do nosso espaço, do nosso convívio, um lugar melhor para aqueles que a gente ama.

Obrigada. Obrigada pela força, por me ajudar a achar uma força nesse momento um pouco conturbado. Grande abraço e bom cafezinho pra nós todos”

É Luise, não é fácil não viu? E sabe de uma coisa? Provavelmente você será criticada por não querer ter dentro de sua equipe um malandro, um elemento que desestabilizava o time. É a maldita mania que temos, no Brasil, de contemporizar com a incompetência e com a malandragem… e taí ó. Nem a justiça ajuda. Mas você matou a pau, viu? Não vamos pautar nossas vidas pelos ruins, pelos erros, pelas limitações. Por nossas incapacidades. Nós é que definimos os limites, não é? Obrigado pelo comentário, bola pra frente!

Muito bem. A Luise receberá um KIT DKT, recheado de produtos PRUDENCE, como géis lubrificantes e preservativos masculino e feminino. PRUDENCE é a marca dos produtos que a DKT distribui como parte de sua missão para conter as doenças sexualmente transmissíveis e contribuir para o controle da natalidade.  O que a DKT faz é marketing social e você contribui quando usa produtos Prudence. facebook.com/dktbrasil.

Vamos lá então! Lalá, hoje eu quero guerreiro!

Na hora do amor:

Lalá – Use PRUDENCE

Ai que delícia cara… é ao som instrumental de RIBBON IN THE SKY, de Stevie Wonder que começo o programa de hoje.

Em 2015 vivi em Porto Alegre uma daquelas experiências que marcam a vida da gente. Fui convidado para fazer o encerramento do primeiro dia de um evento da Organização Nacional de Cegos do Brasil, que reúne 72 entidades que atuam para garantir às pessoas cegas oportunidades de acesso a conhecimento, tecnologia, trabalho e dignidade.

Seria um desafio cara. Sou um palestrante visual, com performance de palco, com projeções repletas de imagens, cores, vídeos… Seria a primeira vez que eu faria uma palestra para um público que, estando presente, não podia me ver. Mas eu já faço isso no podcast… Sim, mas não é a mesma coisa. Eu estaria num auditório diante de cem pessoas que só podiam me ouvir. Tive que repensar a palestra e desenvolver algo apoiado no som, tratando de empreendedorismo e escolhas, baseado em minha vida e em alguns cegos que causaram impacto sobre mim. E tendo como pano de fundo a discussão de um atributo fundamental para o empreendedor: a visão.

Mas como falar de visão para cegos? Sim. A visão à qual eu me referia não era a ação ou efeito de ver, mas a que diz respeito à capacidade de imaginar cenários, de projetar acontecimentos. E essa, os cegos tem de sobra…

Cheguei cedo para arrumar meu computador e encontro uma sala com cães-guia deitados aqui e ali, pessoas andando para lá e para cá com suas bengalas brancas, alguns voluntários ajudando… E é nessa hora que a cabeça da gente explode.

A maioria absoluta de quem estava lá era voluntária, gente que tem empregos, que estuda e que tirou três dias de licença para discutir como se organizar para ajudar outras pessoas cegas em suas regiões. E todos ali eram cegos ou com altíssima deficiência visual. No entanto o que eu mais vi foi bom humor. Muito bom humor. Gente politizada, interessada, lutadora, cada um com uma história mais impressionante que o outro. Tratamos de afetos, de correr riscos, de sonhos, de cultura, de ética…

Confesso que fiquei intimidado. A começar pelo politicamente correto. Eu devia me referir a eles como o quê? Como cegos ou como portadores de deficiência visual? Não tive dúvidas, ao abrir a palestra perguntei, e a resposta foi imediata:

– Cegos! Olha o nome da nossa organização!

Enquanto eu palestrava, meus olhos percorriam a plateia. Ali a Olga, professora universitária. Aliás, doutora em Pedagogia. No outro lado o Ferrari, professor e palestrante que viaja por todo o país, falando para gente que pode e que não pode ver. Mais atrás a Gabi, garota tímida, estudante de direito numa cidade pequena onde ela é a única cega. Ali no meio o Leopoldino, que em 2004 fez a revisão da edição de meu livro Brasileiros Pocotó em braille. E aqui na frente o Moisés, presidente da entidade.

A palestra foi uma delícia. Eu a trouxe para minha experiência pessoal, falando de alguns cegos que causaram muito impacto em minha vida. E abusei da música. Comecei assim…

Listen
Paul Bryan

Listen, listen
I don’t know when it begun
And i don’t know how you appeared
And changed my plans, all my plans

Listen, listen
For awhile i lost my chance
To walk on against the wind
And never stop, no stops

But i don’t know i’d reather change my life
Or walk alone and never love
But i don’t know i’d reather change my life
Or walk alone and never love

Listen, listen
For awhile i lost my chance
To walk on against the wind
And never stop, no stops

But i don’t know i’d reather change my life
Or walk alone and never love
But i don’t know i’d reather change my life
Or walk alone and never love

Escute

Escute, escute
Não sei quando começou
E eu não sei como você apareceu
E mudou meus planos, todos os meus planos

Escute, escute
Por algum tempo eu perdi minha chance
De andar contra o vento
E nunca parar, sem paradas

Mas eu não sei se prefiro mudar a minha vida
Ou andar sozinho e nunca amar
Mas eu não sei se prefiro mudar a minha vida
Ou andar sozinho e nunca amar

Escute, escute
Por algum tempo eu perdi minha chance
De andar contra o vento
E nunca parar, sem paradas

Mas eu não sei se prefiro mudar a minha vida
Ou andar sozinho e nunca amar
Mas eu não sei se prefiro mudar a minha vida
Ou andar sozinho e nunca amar

A música chama-se LISTEN e o cantor é o Paul Bryan. Marcou enormemente minha vida em 1973, tempo das primeiras paqueras… uma delícia…

E aí avanço no tempo, para 1976. E Outro artista explode como uma bomba em minha cabeça… Stevie Wonder e seu monumental disco SONGS IN THE KEY OF LIFE…

Ngiculela – Es Una Historia – I Am Singing
Stevie Wonder

Ngiculela ikusasg
Ngliyacula nao thando
Ngicula ngelinyi langa
Uthando luyobusa
Jikelele kulomblada wethu

Es una historia de manana
Es una historia de amor
Es una historia que amor reinera
Por nuestro mundo
Es una historia de mi corazon

[I Am Singing]

There’s songs to make you smile
There’s songs to make you sad
But with an happy song to sing
It never seems so bad
To me came this melody
So I’ve tried to put in words how I feel
Tomorrow will be for you and me

I am singing of tomorrow
I am singing of love
I am singing someday love will reign
Througout this world of ours
I am singing of love from my heart

Let’s all sing someday sweet love will reign
Througout this world of ours
Let’s start singing
Of love from our hearts
Let’s start singing
Of love from our hearts

Ngiculela

Ngiculela ikusasg
Ngliyacula nao thando
Ngicula ngelinyi langa
Uthando luyobusa
Jikelele kulomblada wethu

É uma história

É uma hitória de manhã
É uma história de amor
É uma história de que o amor reinará
No nosso mundo
É uma história do meu coração

Eu estou cantando

Há canções para fazer você sorrir
Há canções para deixar você triste
Mas com uma canção feliz para cantar
Nunca parece tão ruim
A mim, veio essa melodia
Então eu tentei colocar em palavras como me sinto
Amanhã vai ser para você e para mim

Eu estou cantando de amanhã
Estou cantando do amor
Eu estou cantando que um dia o amor reinará
Ao longo de todo este nosso mundo
Estou cantando do amor do meu coração

Vamos todos cantar que um dia o doce amor reinará
Ao longo de todo este nosso mundo
Vamos começar a cantar
Do amor de nossos corações
Vamos começar a cantar
Do amor de nossos corações

Que tal hein? Essa é Es una história – I’m singing … cara, esse aí é o meu disco, é tão especial que ainda não consegui fazer um Café Brasil com ele… e o detalhe né, que todo mundo sabe… o Stevie Wonder é cego.  Alguém que não enxergava e que me impactava de maneira tão forte que me acompanharia pelo resto da vida. Esse disco eu quero levar comigo quando eu morrer...

Eu pude ver na expressão da plateia um misto de surpresa e prazer, por estarem ouvindo um depoimento da força que a arte de um cego teve sobre mim. Então, eu dei outro salto, para 1980…

Amigo Desconhecido
Sérgio Sá

Somos seres vibrando
Força e beleza cósmica
Mundos estranhos em movimento
Que de repente podem se tocar
Na dança da precisão do acaso
Dança da precisão do acaso…

Somos seres vibrando
Força e beleza cósmica
Mundos estranhos em movimento
Que derrepente podem se tocar
Na dança da precisão do acaso
Dança da precisão do acaso…

Preso nas rédeas do tempo
Nas redes do espaço
Procuro atingir no meu canto
Alguma nova dimensão
Pretendo que ele chegue ao teu ouvido
Meu grande amigo desconhecido
Pra que a gente possa cantar em uma mesma oração
Pra que a gente possa cantar em uma mesma oração…

Preciso te encontrar
Quero tanto te abraçar
Conhecer pela nossa luz
Como se faz um universo
Eu preciso te encontrar
Quero tanto te abraçar
Conhecer pela nossa luz
Como se faz um universo…

Vou voltar sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar é lá
É ainda lá…

Preciso te encontrar
Quero tanto te abraçar
Conhecer pela nossa luz
Como se faz um universo
Eu preciso te encontrar
Quero tanto te abraçar
Conhecer pela nossa luz
Como se faz um universo
Eu preciso te encontrar
Quero tanto te abraçar
Conhecer pela nossa luz
Como se faz um universo
Eu preciso te encontrar
Quero tanto te abraçar
Conhecer pela nossa luz
Como se faz um universo
Eu preciso te encontrar
Quero tanto te abraçar
Conhecer pela nossa luz
Como se faz um universo
De luz…

Você ouve AMIGO DESCONHECIDO. Outra música que foi uma porrada, interpretada por Sérgio Sá,

um artista brasileiro, compositor, arranjador, responsável por dezenas de sucessos nos anos 80 e 90… e que, para minha surpresa, eu descobri que era aquele mesmo Paul Bryan que fez minha cabeça sete anos antes. Sim, Paul Bryan era o pseudônimo que o Sérgio Sá usava para gravar músicas em inglês. Detalhe: Sérgio Sá nasceu cego. Nunca viu uma cor, uma imagem, uma forma, uma luz… ele só sentiu. E me emocionava. E eu ficava…como dizíamos em Bauru, encafifado. Como podia um cego compor daquele jeito, hein?

Mal sabia eu que em 2005 conheceria pessoalmente o Sérgio Sá e, no estúdio dele, durante quase dois anos, o Podcast Café Brasil ganharia corpo. No estúdio de um cego…

Eric   Erik Weihenmayer‎

Durante a palestra brinquei, fiz piadas inclusive sobre a cegueira, tratei a plateia como gente normal e os fiz explodir em aplausos quando contei algo que aconteceu quando fiz minha viagem ao Everest em 2001. Enquanto eu estava no Campo Base, o alpinista Erik Weihenmayer chegava ao topo da montanha mais alta do mundo. Erik é cego, e ao ser perguntado sobre o que fez para conseguir escalar o monte Everest, disse:

– Não aceitei o papel que a sociedade reservou aos cegos.

A reação da plateia foi excepcional, um ruído, algo como um uau!… inesquecível. Emocionante.

Ao terminar a palestra fui cercado por dezenas deles, agradecidos e felizes, querendo tirar selfies – sim! Eles tiram selfies! – e me parabenizando pelas palavras, pela emoção.

À noite fomos jantar num restaurante. Uma mesa com umas vinte pessoas, quinze delas cegas. O evento era dos cegos. Eles organizaram, chamaram o taxi, escolheram os pratos, pagaram a conta. Eu era apenas um convidado. Vivi um dia diferente, em que fui conduzido por quem não pode ver. E saí de lá feliz por conhecer aqueles brasileiros que não aceitam o papel que a sociedade reservou aos cegos. Que escolheram não cruzar os braços.

Pois é meu. Se tá difícil pra você, imagina pra eles.

Celebridade
Sérgio Sá
Cristina Reis

Grandes estréias, lindos momentos,
Noites em claro, dias cinzentos,
Privilégios de trono, sofrimentos de cruz,
Toda estrêla deve ter sua própria luz…

Sol solitário, lanço meu brilho,
Sou solidário, mas não partilho
Meus temores, dores, dúvidas, quem pode saber?
Como vou deixar então
Que você conheça as chaves do meu coração?

Quando me exponho, vivo seu sonho,
Tudo que você quer ser,
Na minha imagem, seu personagem,
Eu me ofereço a você.

Sou sua glória, mas minha história,
De qualquer um poderia ser,
Pois a estrêla que reluz em mim também brilha em você.
Pois a estrela que reluz em mim também brilha em você.

Então…  hoje mantenho contato periódico com o Sérgio Sá, que está lançando mais um disco meu, e que disco! Sérgio Sá S.A. Mandou pra mim as músicas em primeiríssima mão, essa que você ouve é CELEBRIDADE, cantada em parceria com Jorge Vercilo.

Muito bem…  junto com as músicas o Sérgio mandou um texto que escreveu após ouvir o Café Brasil 527 – Os X Men, em que tratei dos autistas, lembrem.  O texto chama-se Todo mundo é deficiente. Lá vai:

Quando ouvi pela primeira vez a Sagração da Primavera eu tinha pouco mais de 13 anos; fim de semana de maio de 66, num dos raros programas de música clássica apresentados pelo rádio paulista.

O alto-falante do meu pequeno receptor portátil transbordava com toda aquela dissonante pantomima orquestral…

Stravinsky batia de frente com as ingênuas melodias de Roberto e Erasmo, as previsíveis harmonias das canções dos Beatles.

Meus ouvidos de músico foram logo atraídos pela pintura sonora, pelo portal escancarado, através do qual se podia penetrar na mais sofisticada selvageria que um gênio da música fora capaz de compor.

Uma pausa aqui, ó.

Pra quem não conhece: Sagração Da Primavera foi criada no início do século passado e até hoje soa, digamos, por demais fora dos padrões, mesmo aos maestros mais preparados, que ver?

Cara! Mais de cem anos depois, continua uma loucura, né?

A Sagração da Primavera é considerada um símbolo da musicalidade erudita, mas na época de seu lançamento causou polêmica ao embalar o balé em dois atos criado pelo não menos rebelde Nijinsky, coreógrafo e, como Stravinsky, também russo.

Nijinski

No roteiro deste programa no portalcafebrasil.com.br vou publicar um link para a cena de abertura do filme Coco Chanel, que mostra o que foi aquela noite de lançamento dessa melodia. Vale a pena assistir.

Voltando ao texto do Sérgio Sá.

Treinado pela saudosa dona Vanda, minha primeira professora de piano, eu ia procurando estabelecer alguma ordem no caótico emaranhado de acordes, nas constantes diferenças rítmicas, fusões inéditas de timbres.

Vale dizer: Ela me ensinava piano inteiramente de ouvido, pois não tinha conhecimento da música em Braile. Quando me aceitou como aluno em Fortaleza, ao avaliar o meu potencial, disse à minha mãe com todas as palavras: “Seu filho tem um ouvido raríssimo! Talvez um em um milhão! Quem sabe Deus não quis compensá-lo, dando-lhe um sentido incomum em troca da falta de visão?”.

Às vezes
Sérgio Sá
Cristina Reis

Ás vezes perfura meu peito tristeza afiada!,
Vertigem que chega do nada
Me queimando o tronco, arranca meu ar.
Cacique rezando em ritual de japoneses,
Ainda bem! Isto só me acontece às vezes.

Ás vezes disparo canhões pra quebrar uma nós!,
O medo me berra, perco a voz
E o grito se cala na boca do gol.
Lá vai em segundos o que batalhei por meses,
Ainda bem! Isto só me acontece às vezes.

Me pego fazendo o que tanto condeno,
Eu falo em saúde tomando veneno,
Querendo ensinar o que não sei.

Procuro lá fora o que estaria dentro,
Preciso colher mas ainda não plantei.

Mas quando me solto da linha, me atiro do chão,
Ouvindo o sol do coração,
a vida me mostra o que quero saber.
A terra floresse nas mãos dos camponeses,
Que pena! Eu só faço assim às vezes.
Que pena! Eu só faço assim às vezes.
Que pena! Eu só faço assim às vezes.

Essa é ÀS VEZES, que Sérgio Sá interpreta com Zeca Baleiro…

Voltando ao texto do Sérgio:

O fato é que, do alto dos meus 13 anos, eu podia perceber claramente a engenhosidade de Stravinsky, desvendava com relativa facilidade os caminhos harmônicos e melódicos, compreendia o gênio por sua obra.

Não! absolutamente eu não sou gênio. Apenas tenho uma audição capaz de desmembrar, encontrar cada nota, cada instrumento que a produz, em meio a toda uma orquestra. É dom inato, porém, não fosse a dedicação e carinho da minha família, de dona Vanda, provavelmente seria quase impossível desenvolvê-lo, pois nasci cego em Fortaleza, em plenos anos 50, numa sociedade tacanha e preconceituosa.

Mas a criança cega podia ouvir mais do que os outros… Cantarolava sinfonias de Beethoven, ao invés de musiquinhas de roda. Resmungava até que a família voltasse da praia em plena tarde de domingo para grudar-se ao rádio e mergulhar no programa De casaca e cartola, único a transmitir música clássica no Ceará.

Pois é, Luciano! Seu programa sobre nós, mutantes, fez-me repensar, aprofundar-me um tanto no tal conceito de deficiência. Veja: Quase todo mundo consegue dizer que um objeto é azul quando ele é azul; porém raros são os que distinguem um dó de um sol… Poderíamos dizer então que aqueles são de algum modo deficientes auditivos?

No meu entender, todos somos deficientes e todos temos indistintamente potencialidades incomuns. Então não me parece nem de longe absurdo que um autista ensine tantas coisas ao seu irmão, como nos contou o Maurício.

Haverá sempre o que ensinar e aprender com alguém, desde que sejamos pacientes e tolerantes, corajosos em permitir que a generosidade vença o egoísmo.

Como já declarei em meu livro Feche os olhos para ver melhor: limites são medidas subjetivas, frutos de nosso próprio entendimento. Limitações são barreiras produzidas por nossa história, ambiente, condições de saúde, família, educação, para dizer o mínimo.

Assim vai se entregar à deficiência quem for incapaz de reconhecer seus limites, que é o  primeiro passo para superá-los. Vai se entregar quem se rende às limitações, por não encará-las como alavancas, e sim como obstáculos.

Fomos criados únicos em tudo para podermos trocar energia, interagir, nos apoiar uns nos outros.

Haveria melhor maneira de nos mostrar que não estamos nem poderíamos estar sós?

O equilibrista
Sérgio Sá
Salgado Maranhão

Porque sou um gato,
Acrobata nato
E caio firme sobre as quatro patas,
Há sempre um muro alto em minha frente,
Janela ou batente,
Um teto inatingível.

Porque sou um gato,
Ouço pelo tato,
Um coração de nobre viralata,
Cravo as unhas, mas não deixo marcas,
Vivo a possibilidade do impossível.

Se posso andar no deserto e bebo pedras,
Na lã do meu olhar, brilho de refletor.
Vou virando vulto,
Desenho na noite,
Deus me dá o friopelo cobertor.

Me alcance,
Me ame aos poucos,
Me aumente o desejo de te ronronar…
Me alcance,
Me ame aos poucos,..
Me aumente o desejo de te ronronar…

Ah, que delícia… agora você ouve Sérgio Sá mergulha no Jazz… cantando O EQUILIBRISTA, com Carlos Navas. Não é ótima, hein?

Que texto interessante o do Sérgio Sá, não é? Não temos controle sobre nossas limitações, mas temos controle sobre os limites que fixamos, que tal, hein?

Isso é especialmente verdadeiro neste mundo em que todo mundo rotula todo mundo. Se você acreditar nos rótulos, automaticamente estará exposto aos limites que o rótulo define. E muita gente não pensa nisso…

Eu vou insistir aqui ó: muita gente confia em rótulos para definir a si mesmo, o que é um tremendo limitante. Quando eu digo “eu sou um podcaster” ou então “eu sou pouco criativo”, já aplicamos um redutor. Sim, muitas vezes isso é importante para facilitar a comunicação ou o entendimento, mas se você piscar cara, você ficará ali, limitado ao rótulo.

Eu luto diariamente com um baita problema quando vou vender meu trabalho para as empresas… eu tenho um discurso fantástico, falo da provocação, do trabalho de fitness intelectual, de fazer com que as pessoas enriqueçam seu repertório para tomar decisões melhores e blá blá blá… e o meu interlocutor fica com a cara de ué. Até eu dizer a palavra mágica: “eu sou um palestrante”.

– Ah, bom, agora sei do que se trata…

E isso me incomoda, sabe? Porque “sou um palestrante” é um limitador. Eu me considero mais que isso, a palestra é só uma forma de distribuir o conteúdo que eu produzo. Mas é esse rótulo que quem vai comprar meu trabalho entende.

E isso fica ainda mais complicado numa sociedade que teima em definir as pessoas por suas desordens. Dessa forma, “sou cego”, “sou bipolar”, “sou viciado”, “sou gordo” se transformam em mantras de nossa existência e não uma mera condição de nossa existência, sacou? Eu vou explicar melhor.

Quando você se rotula insistentemente como “sou pouco criativo”, o que deveria ser uma condição que pode ser superada, se transforma num imperativo. Você deixa de estar pouco criativo, para ser pouco criativo, você é assim, entendeu? E não tem como sair dessa…

Arte da ciência
Sérgio Sá

Paciência, pá da ciência,
Consciência com que a ciência
Há de ser contemplando cada mistério,
Conhecer a canção rastreando o etéreo.

Paciência, pá da ciência,
Consciência com que a ciência
Há de ver na grandeza expressa no mito
Da espiral que se estende ao fim do infinito.

Aquele que abençoa as crias antes de perdê-las,
Ao dom de quem ensinou a gente a amar,
O artista fractal, inseminador de estrelas,
A voz de quem convidou o vento a cantar…

Uia… Ninguém menos que o mestre Gilberto Gil com Sérgio Sá interpretando ARTE DA CIÊNCIA.

Muito bem… Por falar em consciência, você não é suas desordens, suas disfunções, seus distúrbios. Você não está limitado a um rótulo.

“Eu sou um alcóolatra”… não, você é um ser humano que tem ao mesmo tempo um grande potencial e uma vulnerabilidade a uma compulsão, manifestada pelo abuso do uso do álcool.

“Eu sou um depressivo”. Não, você está depressivo. Mas se essa depressão não é orgânica, mas provocada por alguma situação circunstancial, pelo luto, pela crise financeira, por um amor perdido, por alguma pressão externa como medo, ou a sensação de estar fora do controle? Você continua sendo um ser humano cheio de potencial, mas que está sendo consumido por aquilo que você escolheu enxergar como um obstáculo, e não uma oportunidade.

“Eu sou um cego”. Sim, você não enxerga. Agora ouça o Sérgio Sá. Ouça o Stevie Wonder. Ouça o alpinista Erik Weihenmayer dizendo que escolheu não seguir o papel que a sociedade reservou aos cegos… Percebe? Essas pessoas não se deixaram limitar por suas limitações.

Quando você escolhe ir além dos rótulos como auto-definição e reconhece que esses rótulos nada mais são que uma condição de sua existência dento de uma perspectiva muito maior, você abre diante de si uma quantidade infinita de opções. Deixa de ser um prisioneiro de um rótulo e, por associação, vítima dele.

Mude a forma como você pensa o mundo e pensa você dentro do mundo. Reflita sobre como o jeito que você pensa faz com que suas disfunções se manifestem e os limites se estabeleçam.

Parece simples, não é? Não, não é, especialmente numa sociedade na qual todos tentam desesperadamente classificar a todos dentro de categorias, rotulando e, assim, limitando.

Mas só se você deixar…

Muito bem… lá vem a serendipidade… Ao mesmo tempo em que recebi o material do Sérgio Sá, recebi um contato da Fundação Dorina Nowill, que há 70 anos, se dedica à inclusão social de pessoas com deficiência visual. Eles produzem e distribuem gratuitamente livros em braille, falados e digitais, diretamente para o público e também para cerca de 2.500 escolas, bibliotecas e organizações de todo o Brasil. A fundação também oferece, gratuitamente, serviços especializados para pessoas com deficiência visual e suas famílias, nas áreas de educação especial, reabilitação, clínica de visão subnormal e empregabilidade. É um trabalho fascinante, que merece ser conhecido, e que nós, do Café Brasil, estamos apoiando. Convido você a conhecer fundacaodorina.org.br.

Sessenta e três sinais
Sérgio Sá

Amigo, quem diria!
Que um cego conseguiria
Encher de luz as mãos de quem não vê?
Suas armas na ponta dos dedos
Derrubaram preconceitos e medos,
Um cara muito além do seu tempo, veja você!

A riqueza, em seu pensamento,
Estaria no conhecimento,
Tesouros do saber, fortunas reais.
Assim, mesmo de olhos fechados,
Tais tesouros podem ser encontrados,
Com seu mapa de sessenta e três sinais.

Por tudo isto,
Vou cantar de coração!
Toda minha gratidão
E peço a todos vocês:
Vamos saudar a vida
Do gênio batalhador,
Pelo infinito valor
Do que Luís Braille fez.

Com tantos sinais pra se ler a gente só precisa de sessenta e três.
Com tantos sinais pra se ler, a gente só precisa de sessenta e três.

E é assim então, ao som de SESSENTA E TRÊS SINAIS, com Fauzi Beydoun, a Tribo de Jah e Sérgio Sá homenageando Louis Braille, o criador do famoso sistema de leitura para cegos, que vamos saindo esperançosos.

Pois é meu amigo… quem diria que um cego conseguiria encher de luz as mãos de quem não vê…

Com o visionário Lalá Moreira na técnica, a sensível Ciça Camargo na produção e eu, que ando fechando os olhos para ver melhor, Luciano Pires, na direção e apresentação.

Estiveram conosco a ouvinte Luise, Sérgio Sá, Jorge Vercilo, Gilberto Gil, Zeca Baleiro, Carlos Navas e Fauzi Beydoun, Tribo de Jah e, é claro, Stevie Wonder.

O Café Brasil só chega até você porque a Nakata, também resolveu investir nele.

A Nakata, você sabe, é uma das mais importantes marcas de componentes de suspensão do Brasil, fabricando os tradicionais amortecedores HG. E tem uma página no Youtube repleta de informações interessantes para quem gosta de automóveis. Tem também os videocasts que eu gravei pra ele. Dê uma olhada lá, vale a pena: youtube.com/componentesnakata.

Tudo azul? Tudo Nakata!

Este é o Café Brasil. De onde veio este programa tem muito mais. Visite para ler artigos, para acessar o conteúdo deste podcast, para visitar nossa lojinha no … portalcafebrasil.com.br.

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Venha se juntar a uma turma da pesada na Confraria Café Brasil, tá pegando fogo lá, cara. Acesse cafebrasil.top. Tem muito mais lá do que você escuta aqui.

E também lembrando: acesse portalcafebrasil.com.br/551, para baixar o resumo deste programa.

E para terminar, uma frase dele mesmo, Sérgio Sá, que você encontra em facebook.com/musicosergiosa:

Agora sei que não é preciso apenas ver para crer; podemos também ouvir para acreditar, cheirar para compreender, sentir o paladar para aprender, tocar para interagir!