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Luciano Pires -

O podcast da semana trata de amizade. De amigos. O que seria de nós se não fossem nossos amigos? Que coisa interessante é esse sentimento que une as pessoas: a amizade… A partir de um texto de Marli Gonçalves chamado “Eu quero ter um milhão de amigos”, vamos refletir sobre o assunto, passando pela poesia, pelo matuto e até com um pitaco do mestre Rubem Alves. Na trilha sonora, Yamandú Costa, Lenine e Zé Renato, Ivette Matos, Enubio Queiroz, Henrique Cazes, Alvarenga e Ranchinho e os amigos Beto Hora e Alaor Coutinho. Apresentação de Luciano Pires.

[showhide title=”Ler o roteiro completo do programa” template=”rounded-box” changetitle=”Fechar o roteiro” closeonclick=true]

Bom dia, boa tarde, boa noite. O que seria de nós se não fossem nossos amigos? Você já parou pra pensar nos seus amigos? Que coisa interessante é esse sentimento que une as pessoas: a amizade. Pois hoje vamos refletir a respeito, meu amigo.

Pra começar, uma frase de Benjamin Franklin:

O falso amigo e a sombra só nos acompanham enquanto o sol brilha.

Um dia, conversando com meu pai, ele me disse que uma das piores coisas de se envelhecer é ver os amigos morrendo. E depois dos cinqüenta, sessenta anos, essa é uma realidade inexorável. Faz parte da vida. E imagino como é o choque de ver as pessoas que compartilharam conosco momentos importantes de nossas vidas, indo embora uma a uma… Mas fazer o quê, né? Só morre quem ta vivo.

Vamos abrir o programa com um texto chamado “Eu quero ter um milhão de amigos”, escrito pela Marli Gonçalves, que já virou sócia do nosso Café Brasil. Faço minhas as palavras dela.

Ao fundo você ouvirá CHORANDO POR AMIZADE, com Yamandú Costa

Quero mais seguidores no Twitter conexões no Plaxo. Seguir e ser seguida.

Quero ser um contato do seu Outlook, dividir meu Skype e o MSN. Quero ver sua cara no Facebook, me inscrever no seu mural, compartilhar, ficar membro do mesmo grupo. Me aceita como amigo. Registra no seu i-phone, Blackberry, N qualquer coisa. Tecla e me prende na sua rede social. Atualize seu perfil, me mostra o Avatar. Manda um cartão virtual. Dia 20 é Dia do Amigo.

Mas o que é ser amigo ultimamente? 

As palavras perderam a forma e agora uma coisa também quer dizer outra. Amigos, chego e peço um conselho de amigo: agora, no Dia do Amigo, o que faço?

Cumprimento a minha dúzia particular ou cumprimento a todos, todos os meus amigos virtuais? Incluindo os ouvintes que não conheço, mas sei de suas histórias mais do que deles próprios devem saber alguns dos amigos. E os que eu nem sei quem são, nem eles têm a mínima ideia de quem sou, porque me encontram, só esporádicos? São meus amigos, acompanham meus pensamentos. E os que nem sabem que os tenho como amigos, apesar de tudo?

É tudo diferente, e ao mesmo tempo passamos batido na definição. Os amigos são fundamentais. A amizade é um sentimento deveras interessante, extremamente nobre, uma arte difícil – inclusive – de dominar.

Há amigos que matam ou morrem por você, como estamos vendo, incrivelmente apavorados. Por dinheiro, admiração, fraqueza. Companheirismo e solidariedade. Todas as histórias desses tipos valem livros, romances, filmes, óperas e epopéias. Ou filmes de terror.

É o Macarrão, o Coxinha, o Bola do Bruno. É o Sancho do Dom Quixote. O Robin, do Batman, o Lothar do Mandrake. O Sebastian e o Linguado, da sereia Ariel. Até o último dos moicanos tinha um amigo.

Há o amigo vampiro que faz tanta sombra à sua volta que dá calafrios e você o segue, zumbi, as forças chupadas. Nem você entende. E às vezes você não o vê no reflexo do espelho.

Há os amigos que não vemos mesmo, mas sentimos. Pelo cheiro, pelo gosto, pela alegria de uma recordação. Estão ali presentes em nossos atos, mesmo que estejam até mortos. Ou sempre longe. Por eles a gente faz mais, se dedica de coração, homenageia em silêncio com as vitórias.

Amigo é casa

Amigo é feito casa que se faz aos poucos 

e com paciência pra durar pra sempre 

Mas é preciso ter muito tijolo e terra 

preparar reboco, construir tramelas 

Usar a sapiência de um João-de-barro 

que constrói com arte a sua residência 

há que o alicerce seja muito resistente 

que às chuvas e aos ventos possa então a proteger 

E há que fincar muito jequitibá 

e vigas de jatobá 

e adubar o jardim e plantar muita flor toiceiras de resedás 

não falte um caramanchão pros tempos idos lembrar 

que os cabelos brancos vão surgindo 

Que nem mato na roceira 

que mal dá pra capinar 

e há que ver os pés de manacá 

cheínhos de sabiás 

sabendo que os rouxinóis vão trazer arrebóis 

choro de imaginar! 

pra festa da cumieira não faltem os violões! 

muito milho ardendo na fogueira 

e quentão farto em gengibre 

aquecendo os corações 

A casa é amizade construída aos poucos 

e que a gente quer com beira e tribeira 

Com gelosia feita de matéria rara 

e altas platibandas, com portão bem largo 

que é pra se entrar sorrindo 

nas horas incertas 

sem fazer alarde, sem causar transtorno 

Amigo que é amigo quando quer estar presente 

faz-se quase transparente sem deixar-se perceber 

Amigo é pra ficar, se chegar, se achegar, 

se abraçar, se beijar, se louvar, bendizer 

Amigo a gente acolhe, recolhe e agasalha 

e oferece lugar pra dormir e comer 

Amigo que é amigo não puxa tapete 

oferece pra gente o melhor que tem e o que nem tem 

quando não tem, finge que tem, 

faz o que pode e o seu coração reparte que nem pão.

Olha só… No podcast, Lenine com Zé Renato interpretando AMIGO É CASA, composição de Hermínio Belo de Carvalho e Capiba. Amigo é feito casa que se faz aos poucos e com paciência. Pra durar pra sempre!

Continuando com o texto de Marli Gonçalves.

Há os amigos eternos. E também há os ex-amigos, que merecem ter algum tipo de consideração da sua parte. Afinal, ora, vocês devem ter trocado duas ou três confidências. Mantenha-os à vista, se possível.

Há os amigos de infância. Sempre que deles lembramos, as imagens são boas. Puras e coloridas pela ingenuidade da época.

Há os amigos de adolescência. Costumam ser ou ter sido relações passionais, terríveis, difíceis, possessivas, mas fundamentais na formação do caráter, sexualidade, comportamento e direção. Nas safadezas da vida, por exemplo. Quando relações sobrevivem a esse período costumam também ser eternas. Pode levar para lá ou para cá, definir o futuro, nesse momento complicado e complexo. Antigamente arquivávamos esses amigos nos nossos diários, que pedíamos que preenchessem, com tolices românticas e frases feitas. Como será hoje?

O que será que eles trocam?

Há os amigos da velhice. Aqueles que encontramos ou só encontraremos mais tarde, e que podem estar em qualquer lugar, ser de qualquer cor, posição social, idade ou sexo. São aqueles com os quais os solitários conversam nas ruas, o barbeiro, o jornaleiro, o dono da padaria, o chapeiro do seu hambúrguer.

Os clubes da terceira idade de certa forma devem servir para que continuemos mesmo desejando querer ter amigos. Coleção que a certa altura da vida – essa é a verdade – a gente resolve encerrar, não quer mais achar peças, muito menos que sejam muito originais. Não tem curiosidade. Não tem mais saco de cultivar. Ficar amigo dá trabalho, quase igual às plantinhas e animais que tantos preferem. Pior: planta e bicho não traem.

Amigos podem ser casados, inclusive entre si. São as relações que mais costumam dar certo. Que, se o amor acaba mas mantém-se a amizade, o caminho da felicidade, aconteça o que acontecer, será sempre mais leve. Esposas e maridos precisam entender a importância de amigos ou amigas nas relações, inclusive para ajudar a desvendá-las.

Amigos costumam conhecer muito melhor os defeitos, por exemplo, assim como histórias pregressas. Amigos podem ajudar no equilíbrio, e até – você terá de acreditar – ser bons conselheiros. Não implique tanto. Não desafie: “ele ou eu”.

Amigos são amigos. Com o amigo, você faz xixi de porta aberta. Toma banho com ele sentado na privada, conversando. Toma água no mesmo gargalo. O que acontece com ele acontece com você também, como se fosse uma coisa só. Você sabe tudo dele, mesmo que de longe. E a mão é dupla. Um torce e pensa no outro a distância que houver. Tem amor na receita. Precisa ter muita compreensão, carinho, confiança e admiração. A amizade não tem cara, bonita ou feia, magra ou gorda ela sobrepuja isso.

Eu quero ter um milhão de amigos. Porque amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração. Assim falava a canção, que na América ouvi. Amizade, amigo, emociona assim.

Certo, my friend?

You´ve got a friend

When you´re down and troubled
and you need a helping hand
and nothing, ooh, nothing is going right.
Close your eyes and think of me
and soon I will be there
to brighten up even your darkest nights.

You just call out my name,
and you know wherever I am
I´ll come running, oh yeah baby
to see you again.
Winter, spring, summer or fall,
all you have to do is call
and I´ll be there, yeah, yeah, yeah
You´ve got a friend.

If the sky above you
should turn dark and full of clouds
and that old north wind should begin to blow
Keep your head together and call my name out loud
and soon I will be knocking upon your door.
You just call out my name,
and you know where ever I am
I´ll come running to see you again.
Winter, spring, summer or fall,
all you go to do is call
and I´ll be there, yeah, yeah, yeah

Hey, ain´t it good to know that you´ve got a friend?
People can be so cold.
They´ll hurt you and desert you.
Well they´ll take your soul if you let them.
Oh yeah, but don´t you let them.

You just call out my name,
and you know wherever I am
I´ll come running to see you again.
Oh babe, don´t you know that,
Winter, spring, summer or fall,
Hey now, all you´ve go to do is call.
Lord, I´ll be there, yes Iwill.
You´ve got a friend.
You´ve got a friend.
Ain´t it good to know you´ve got a friend.
Ain´t it good to know you´ve got a friend.
You´ve got a friend.

Você tem um amigo

Quando você estiver abatida(o) e preocupada(o)
E precisar de uma ajuda,
E nada, nada estiver dando certo,
Feche seus olhos e pense em mim
E logo eu estarei aí
Para iluminar até mesmo suas noites mais sombrias.

Apenas chame alto meu nome
E você sabe, onde quer que eu esteja
Eu virei correndo
Para te encontrar novamente.
Inverno, primavera, verão ou outono,
Tudo que você tem de fazer é chamar.
E eu estarei lá, sim, sim, sim,
Você tem um amigo.

Se o céu acima de você
Tornar-se escuro e cheio de nuvens
E aquele antigo vento norte começar a soprar,
Mantenha sua cabeça sã e chame meu nome em voz alta
E logo eu estarei batendo na sua porta.
Apenas chame meu nome
E você sabe, onde quer que eu esteja
Eu virei correndo para te encontrar novamente.
Inverno, primavera, verão ou outono,
Tudo que você tem de fazer é chamar
E eu estarei lá, sim, sim, sim.

Ei, não é bom saber que você tem um amigo?
As pessoas podem ser tão frias,
Elas te magoarão e te abandonarão
E então elas tomarão sua alma se você permitir-lhes.
Oh, sim, mas não permita-lhes.

Apenas chame alto meu nome
E você sabe, onde quer que eu esteja
Eu virei correndo para te encontrar novamente.
Você não entende que
Inverno, primavera, verão ou outono,
Ei, agora tudo que você tem a fazer é chamar?
Senhor, eu estarei lá, sim eu estarei,
Você tem um amigo,
Você tem um amigo.
Não é bom saber? Você tem um amigo…
Não é bom saber? Você tem um amigo…
Você tem um amigo…

Hummm… Você vai ouvir, no podcast, You´ve Got a Friend com a cantora e atriz paulistana Yvette Matos. Fala a verdade, você namorou com essa música? Pois é… Poucas músicas falaram de amizade como esse clássico de Carole King, de 1971…

E então encontro o poema AMIZADE É TRANSITORIEDADE, de Arlisson Peres Marinho lá de Esteio, no RS, que diz assim…

Elas vêm, elas vão.
Algumas nos afogam de prazeres,
Outras nos inundam de solidão.
Mas a certeza desse vai e vem
É que elas trazem em si
Alguma virtude… Que você
Ainda não tem.

E quando você diz “amigo”, o que vem à sua cabeça? À minha vem “abraço”…

Sobre isso, vou apresentar um delicioso texto que recebi por email, infelizmente sem apontar o autor. Chama-se A tequinologia do abraço.

Ao fundo, no podcast, você ouvirá uma música que trata de amizade. O MENINO DA PORTEIRA, de Teddy Vieira e Luizinho. Aqui com a viola capira de Enúbio Queiroz.

O matuto falava tão calmamente, que parecia medir, analisar e meditar sobre cada palavra que dizia…

– É… das invenção dos hômi, a que mais tem sintidu é o abraço. O abraço num tem jeito dum só pruveitá! Tudo quanto é gente, no abraço, participa duma beradinha…

Quandocê tá danado de sordade, o abraço de arguém ti alivia…

Quandocê ta danado de réiva, vem um, te abraça e ocê fica até sem graça de continuá cum réiva…

Si ocê tá filiz e abraça arguém, esse arguém pega um poquimdasualegria…

Si arguém tá duente, quandocê abraçele, ele começa a miorá, i ocê miora junto tomém… 

Muita gente importante e letrada já tentô dá um jeito de sabê prumódiquê qui o abraço tem tanta tequilonogia, mais ninguém inda discubriuusegredo…

Mas, iêu sei! Foi um isprto bão de Deus qui mi contô… Iêu vô contá procêis uqui foi qui ele mi falô:

O abraço é bão prucausa do Coração… Quandocê abraça arguém, faismassage no coração!… I o coração do ôtro é massagiado tomém!

Mais num é só isso, não… Aqui tá a chave du maió segredo de tudo: É qui, quanduabraçamo arguém, nóis fiquemo tudo é com dois coração no peito!… Um agazáia o ôtro e nóis tudo fiquemo quentinho cádentrodinóis.

Brigadu pelos seus abraço, pelasuamizádi e purnossos camin ter si cruzado nesta vida. Inté!

Cumpadre como é que tá tu?

Cumpadre como é que ta tu

Cumpadre como é que tu ta

Não tão bem quanto vancê

Mas vo indo devagar

To com tudo, to com tudo

Eu sou mesmo felizardo

To com tudo meu cumpadre

To com tudo empenhado

Cumpadre como é que ta tu

Cumpadre como é que tu ta

Não tão bem quanto vancê

Mas vo indo devagar

Casamento e loteria

Vou dizer, sou muito franco

Me casei, fui conferir

O bilhete tava branco

Cumpadre como é que ta tu

Cumpadre como é que tu ta

Não tão bem quanto vancê

Mas vo indo devagar

Roubaram minha muié

Só pra me fazer sofrer

Eu procuro o ladrão

Quero lhe agradecer

Cumpadre como é que ta tu

Cumpadre como é que tu ta

Não tão bem quanto vancê

Mas vo indo devagar

Minha casa pegou fogo

Ardeu tudo de repente

Minha sogra tava dentro

Veja como to contente

Então. No podcast, você vai ouvir dois amigos, Alvarenga e Ranchinho, cantando essa delícia de CUMPADRE COMO É QUE TÁ TÚ

E como é que o mestre Rubem Alves trata o tema AMIZADE? Encontrei num trecho de um texto dele chamado A AMIZADE um momento delicioso…

Ao fundo, no podcast,  você vai ouvir WITH A LITTLE HELP FROM MY FRIENDS, dos Beatles, que se transforma num brasileiríssimo chorinho com Henrique Cazes.

Uma estória oriental conta de uma árvore solitária que se via no alto da montanha. Não tinha sido sempre assim.

Em tempos passados a montanha estivera coberta de árvores maravilhosas, altas e esguias, que os lenhadores cortaram e venderam. Mas aquela árvore era torta, não podia ser transformada em tábuas.

Inútil para os seus propósitos, os lenhadores a deixaram lá. Depois vieram os caçadores de essências em busca de madeiras perfumadas.

Mas a árvore torta, por não ter cheiro algum, foi desprezada e lá ficou. Por ser inútil, sobreviveu. Hoje ela está sozinha na montanha. Os viajantes se assentam sob a sua sombra e descansam.

Um amigo é como aquela árvore. Vive de sua inutilidade. Pode até ser útil eventualmente, mas não é isso que o torna um amigo. Sua inútil e fiel presença silenciosa torna a nossa solidão uma experiência de comunhão. Diante do amigo sabemos que não estamos sós. E alegria maior não pode existir.

Pois é, meu amigo de fé, meu irmão, camarada…

Muito provavelmente não conheço você pessoalmente, mas fique sabendo que sua amizade é sentida por nós que fazemos este programinha com carinho. Ele é feito pros nossos amigos…

Com meu amigo Lalá Moreira na técnica, minha amiga Ciça Camargo na produção e eu, seu amigo Luciano Pires na direção e apresentação.

Estiveram conosco Yamandu Costa, Lenine e Zé Renato, Ivette Matos, Enubio Queiroz, Henrique Cazes e Alvarenga e Ranchinho…

Quer mais? Estreite a amizade cadastrando-se na comunidade do portal Café Brasil em www.portalcafebrasil.com.br .

E para terminar o programa de um jeito diferente, mas muito pra cima, vou homenagear dois amigos meus: Beto Hora e Alaor Coutinho, com um trecho do seu show NÃO RECUSE IMITAÇÕES.

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