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Luciano Pires -

“Nunca deixe a verdade ficar no caminho de uma boa história.” Abrindo com esse provérbio do jornalismo dos EUA, o programa de hoje quer saber quem faz a sua cabeça. O que você acha que o Brasil é, hein? Como é que você forma sua opinião a respeito do país, dos políticos, dos acontecimentos? Certamente a imprensa tem um papel importantíssimo, não é? Vamos discutir inclusive como a internet está impactando nesse processo. Na trilha sonora, pra variar, uma festa! Tom Zé, Gisela Nogueira e Gustavo Costa, Milton Nascimento, Café Com Blues, Vicente Barreto e Antônio Adolfo. Apresentação de Luciano Pires.

[showhide title=”Ler o roteiro completo do programa” template=”rounded-box” changetitle=”Fechar o roteiro” closeonclick=true]

Bom dia, boa tarde, boa noite! O que você acha que o Brasil é, hein? Como é que você forma sua opinião a respeito do país, dos políticos, dos acontecimentos? Certamente a imprensa tem um papel importantíssimo, não é? Vamos ver?

Pra começar, um provérbio do jornalismo estadunidense:

Nunca deixe a verdade ficar no caminho de uma boa história.

E o exemplar de meu livro NÓIS…QUI INVERTEMO AS COISA vai para…. Adilson Ricardo, que comentou o programa SOBRE RELEVÂNCIA E PERSPECTIVAS.

“Luciano, Me chamo Adilson e trabalho na área de Suporte em Tecnologia da Informação prestando serviço a uma multinacional aqui da minha cidade. Sempre fui ouvinte do podcast (desde o primeiro episódio) porém nesse podcast eu fiquei excepcionalmente feliz em ouvir as suas histórias e pude fazer várias reflexões sobre como a perspectiva e o significado que eu dou às coisas faz a diferença na minha rotina.

Passei a dar um significado completamente positivo aos problemas complexos que me deparo todos os dias (sou novo na equipe!) e comprei até um livro para saber lidar com isso (pois sabe como é… essas coisas são “que nem banho, elas não duram!”).

Coloquei o podcast pra tocar enquanto trabalhava no meu plantão da madrugada e a moçada ouviu e gostou a beça. Até me acusaram de “Não desligar o cérebro nem de madrugada!”.
Obrigado pela companhia, nosso grande amigo do plantão!”

Pois então… o Adilson ganhou o livro porque comentou o programa! Mexa-se. Ah, sim, os ganhadores dos livros não são avisados por email, viu? Não quero estragar a surpresa quando eles ouvem seus comentários no programa. Mas se quem ganhou não entrar em contato conosco, não mandamos o livro, né?

Entre 1993 e 1995 uma novela de rádio foi ao ar na Tanzânia, na África, tendo como tema principal a contaminação pela AIDS, uma tragédia no país. A produção foi montada por estudiosos e cientistas, com o objetivo de influenciar os ouvintes a proteger-se contra a doença. O resultado (cientificamente obtido): um quarto da população na área coberta pela novela mudou seu comportamento, reduzindo drasticamente a contaminação pelo HIV. Em apenas dois anos, uma novela de rádio mudou os pensamentos, as percepções e emoções das pessoas…

Essa história me veio à mente quando participei de evento sobre uma pesquisa chamada Valores Brasil. Em julho de 2010, 2544 brasileiros escolheram em um conjunto de 54 valores positivos e negativos “os 10 mais representativos de como o Brasil opera hoje”. E o resultado (em ordem de importância): corrupção, pobreza, crime/violência, desemprego, analfabetismo, poluição ambiental, burocracia, agressividade, incerteza sobre o futuro e desperdício de recursos.

Pô, não apareceu nenhum valor! Só desvalor! Surpreso? Eu não.

Em minhas palestras uso uma definição que aprendi comum dos maiores especialistas em marcas do Brasil, o Jaime Troiano: “marca é o conjunto organizado de percepções e de sentimentos que identificam a empresa, seus produtos e serviços e os diferenciam de seus eventuais concorrentes.“

Pois bem, aquela pesquisa de valores apresentou o “conjunto organizado de percepções e sentimentos que identificam o Brasil…”.

O debate que se seguiu à apresentação dos resultados da pesquisa foi praticamente todo focado na questão da educação. Lancei uma pergunta: qual o papel da mídia, do rádio, tele e cine dramaturgia e entretenimento, imprensa, propaganda qual é o papel hein, na construção dessa percepção de país fracassado?

Um dos debatedores, Eduardo Giannetti da Fonseca, disse que a mídia não tem esse poder… Será que não?

Há pelo menos 40 anos nossos tele e rádio jornais, jornais impressos, revistas e especialmente o cinema, esfregam em nossas caras as lixeiras do Brasil. Num país onde a maioria da população, com educação deficiente, tem a televisão como única janela para o mundo, não é difícil entender como se constrói a percepção de (des)valores que a pesquisa apresentou. Especialmente quando a realidade mostra que as tragédias diárias existem mesmo e quem deveria lutar contra elas, pouco faz.

Muito bem. Se aquela novelinha de rádio africana mudou a realidade do país em dois anos, uma lavagem cerebral de 40 anos é capaz de fazer o quê?

O Brasil é uma grande cozinha. E nela existe uma lixeira. Mas o Brasil não é só a lixeira. A relação de valores que a pesquisa apresentou como representativos do Brasil, não é obra do acaso. Tem sido pacientemente construída ao longo de pelo menos duas gerações.

Isso é o que eu chamo de burrice.

Rararaa… Esse som diferente que você está ouvindo no podcast,  só pode ser o Tom Zé. É impressionante, não importa quanto tempo passe, o tom Zé está sempre à frente. O nome é BATE BOCA, dele e do Gilberto de Assis com o coro dos Filhos de Beckett. Cara, o Tom Zé é instigante…

Bem, pra continuar falando da INFORMAÇÃO NO SÉCULO 21, vou reproduzir aqui uns trechos de um texto de Carlos Fuentes publicado no Jornal argentino La Nacion.

Ao fundo você ouvirá INGÊNUO, de Pixinguinha e Benedito Lacerda com Gisela Nogueira e Gustavo Costa no maravilhoso CD Tocata Brasileira Para Pinho e Arame. O instrumento principal é a viola de arame, que veio da corte de Portugal para se transformar na viola caipira, tão brasileira…Ouça só que delícia.

Entramos no século 21 com uma constatação: o crescimento econômico depende da qualidade da informação e esta da qualidade da educação. O lugar privilegiado da modernidade econômica é ocupado pelos criadores e produtores de informação, mais do que produtos materiais.

O cinema, a televisão, as indústrias da comunicação e as produtoras de ferramentas e equipamentos processadores de informação, estão atualmente no centro da vida econômica mundial. Os ricos de antigamente produziam aço. Os ricos de hoje produzem equipamentos eletrônicos.

Bill Clinton nos lembra que ao assumir a presidência dos EUA em 1993, havia somente cinquenta websites. Ao deixar a Casa Branca, oito anos depois, havia 350 milhões.

Juan Ramón de la Fuente, ex-Reitor da Universidade Nacional Autônoma do México, nos lembra, por sua vez, que atualmente circulam na internet cinquenta bilhões de mensagens por dia. Ouviu? 50 bilhões. Pioneiro, em 40 anos, o rádio conseguiu juntar 50 milhões de ouvintes. A televisão, desde 1950, juntou um número igual de telespectadores. Mas em apenas cinco anos, a Internet atingiu a soma que o rádio levou quarenta anos e a televisão, mais meio século. Em 2000, havia 300 milhões de usuários de Internet. Hoje, existem 800 milhões.

Por um lado, as escolas perdem o monopólio da educação e, por outro, a imprensa perde o monopólio da informação, mas também, se manter informado no longo período pós-escolar e pós-universitário é um dever e um direito, inseparáveis do exercício da cidadania e esse direito, esta obrigação, são também da nossa imprensa. A informação também está em crise, mas talvez seja uma crise de crescimento, que expande novos meios de comunicação, mas não sacrifica os anteriores.

Notícias do Brasil (Os pássaros trazem)

Uma notícia está chegando lá do Maranhão.
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão.
Veio no vento que soprava lá no litoral
de Fortaleza, de Recife e de Natal.
A boa nova foi ouvida em Belém, Manaus,
João Pessoa, Teresina e Aracaju
e lá do norte foi descendo pro Brasil Central
Chegou em Minas, já bateu bem lá no sul!

Aqui vive um povo que merece mais respeito!
Sabe, belo é o povo como é belo todo amor.
Aqui vive um povo que é mar e que é rio,
E seu destino é um dia se juntar.
O canto mais belo será sempre mais sincero.
Sabe, tudo quanto é belo será sempre de espantar.
Aqui vive um povo que cultiva a qualidade,
ser mais sábio que quem o quer governar!

A novidade é que o Brasil não é só litoral!
É muito mais, é muito mais que qualquer zona sul.
Tem gente boa espalhada por esse Brasil,
que vai fazer desse lugar um bom país!
Uma notícia está chegando lá do interior.
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão.
Ficar de frente para o mar, de costas pro Brasil,
não vai fazer desse lugar um bom país!

Que tal esse clássico? NOTÍCIAS DO BRASIL (OS PÁSSAROS TRAZEM) de Milton Nascimento e Fernando Brandt. É, meu caro… o Brasil não é só litoral…

Muito bem. Estamos assistindo a uma mudança de eixo importantíssima, com a internet assumindo papel central na distribuição da informação, o que aumenta enormemente nossa responsabilidade de escolha da informação que vamos buscar e na qual vamos acreditar.

Por isso temos que tomar muito cuidado com aquilo que chamamos de IMPRENSA MILITANTE. Ouça trechos do artigo de Silvio Waisbord, professor de Jornalismo e Comunicação Política na George Washington University, que também foi publicado no jornal La Nacion.

Ao fundo temos NÃO CAIO NOUTRA, de Ernesto Nazareth com Antonio Adolfo.

O que é jornalismo militante? É o que defende um governo ou partido independente dos erros? É ideologicamente puro ou é uma criatura da realpolitik disposta a tolerar qualquer negociação política? É o jornalismo que informa sobre questões que estritamente combinam com a agenda política de um governo?

A ideia de um jornalismo militante como apêndice de um governo é problemática para a democracia, que não precisa de uma imprensa que sirva de porta-voz de nenhum oficialismo. Idealmente, o jornalismo deve ser cético frente ao poder e não ser crítico apenas segundo a cor política ou ideológica de quem detém o poder. Deve mostrar os dados da realidade porque os governos tendem a produzir e crer nas suas próprias realidades.

Deve investigar o governo porque o poder quase sempre mantém lugares obscuros. Deve estimular os cidadãos a conhecer o que ignoram, em vez de confirmar suas preconcepções militantes. Deve incrementar oportunidades para a expressão da cidadania e organizações da sociedade civil e não ser ventríloquo dos que estão rodeados de microfones.

Como destacou Walter Lippmann, um dos colunistas mais influentes nos EUA durante o século passado: “Sem jornalismo crítico, confiável e inteligente, o governo não pode governar”. O melhor jornalismo não é aquele que marcha perfilado junto com um governo. A última década da imprensa mundial confirma que o bom jornalismo não joga rosas na passagem das autoridades ou varre a sujeira para debaixo do tapete da lealdade com o governo.

A diferença é em vez da adesão aos governos da vez e plataformas partidárias, informar com base no compromisso com os princípios democráticos – igualdade de direitos, a tolerância à diversidade, respeito às diferenças de opinião, acesso a oportunidades de expressão, responsabilidade, transparência na utilização de recursos públicos, ampla participação – ou a adesão a governos da vez e plataformas partidárias. As experiências de outras democracias mostram que o “jornalismo militante” privilegia a opinião em detrimento dos dados.

Entendeu? Eu vou repetir aqui: as experiências de outras democracias mostram que o “jornalismo militante” privilegia a opinião em detrimento dos dados.

Em todo o mundo, o jornalismo não é uma ilha, mas parte de complexas redes de informações, políticas e econômicas. A autonomia do jornalismo, tão celebrado da esquerda a direita, na realidade, é difícil.

Jornal da manhã

Todo o dia a mesma certeza
Todo dia sempre café na mesa
Todo dia leio os jornais
Todo dia as mesmas notícias
Guerra, fome, morte e eu tomando café da manhã

O frango adoece na China
E a vaca enlouquece na Inglaterra
Uma grande onda a Indonésia invadiu
E a onda do lixo invadiu o Brasil
Meu vizinho no seu rádio ligado
No café da manhã

O clima está perfeito pra praia
Mas eu tenho que ir pro trabalho, baby!
Enquanto a bolsa cai no país
Nos outros
Os homens enchem as carteiras
E eu aqui sem grana tomando meu café da manhã

O papa beija o solo da terra
E ainda não a paz entre as nações
A sonda se perdeu no espaço
Meu time é um verdadeiro fracasso
E agora chamo de break fast meu café da manhã
Meu break fast da manhã
Meu break fast da manhã
Meu break fast

Opa! Você conhece o Café Com Blues? Não? Pois é…  O Café com Blues é uma banda de Vitória da Conquista, na Bahia! O som da moçada é ótimo, mas desconhecido. Esse aqui chama-se Jornal da manhã, e pra tocar, tem que ser aqui, né? Café com blues no Café Brasil.

Outra questão sensível é o financiamento do “jornalismo militante”. Quem paga pela produção diária de notícias, informação e opinião? Vejamos as opções. A escolha pelo velho jornalismo partidário, em vias de extinção no mundo, vem sendo financiada pelas grandes estruturas políticas.

A última década, com acesso gratuito a sites de notícias na Internet, confirma que o público leitor é pouco disposto a pagar mesmo quando lê religiosamente, e depende de certos meios para a sua dieta cotidiana de notícias. Somos um mundo ávido por notícias, mas sem interesse de pagar pelo custo de produção, nem mesmo uma contribuição monetária mínima.

Outra possibilidade, atualmente em discussão nos Estados Unidos e algumas democracias europeias, é a filantropia como suporte do jornalismo. Por enquanto, isso não parece viável.

As possibilidades restantes são aquelas clássicas que têm sustentado financeiramente a imprensa na América Latina: publicidade, fortunas pessoais e fundos públicos gerenciados pelo governo. Se for a publicidade, como conciliar interesses comerciais com militância política? A publicidade militante? O capitalismo partidário? Se forem as fortunas pessoais, é possível imaginar que os interesses individuais dos magnatas nem sempre coincidam com a mística e a ideologia militante. E as fortunas pessoais investidas nos meios de comunicação são propensas a crises econômicas e acordos políticos pontuais.

Incontestavelmente foi a imprensa, com a sua maneira superficial e leviana de tudo julgar e decidir, que mais concorreu para dar ao nosso tempo o funesto e já irradicável hábito dos juízos ligeiros. Em todos os séculos se improvisaram: em nenhum, porém, como no nosso, essa improvisação impudente se tornou a operação corrente e natural do entendimento. Com exceção de alguns filósofos mais metódicos, ou de alguns devotos mais escrupulosos, todos nós hoje nos desabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente do penoso trabalho de refletir. É com impressões que formamos as nossas conclusões. Para louvar ou condenar em política o fato mais complexo, e onde entrem fatores múltiplos que mais necessitem de análise, nós largamente nos contentamos com um boato escutado a uma esquina. Para apreciar em literatura o livro mais profundo, apenas nos basta folhear aqui e além uma página, através do fumo ondeante do charuto.

Fumo ondeante do charuto? Sabe quem escreveu esse textinho que começa com incontestavelmente? Foi o escritor português Eça de Queirós, 150 anos atrás.

Bem, sacou o jogo? A imprensa faz nossa cabeça. Através dela recebemos as informações que vão compor nosso repertório, nossa visão do mundo. E não existe imprensa isenta. O que ela nos traz é a visão do mundo que alguém escolheu, portanto pela imprensa vemos o mundo com os olhos dos outros. E está acontecendo um movimento importante com a internet, que está deslocando as fontes de informações dos grandes grupos para os blogs independentes. Essa mudança implica no aumento de nossa responsabilidade na escolha de onde é que vamos buscar as informações. Por isso fica cada vez mais evidente: é preciso estudar, enriquecer seu repertório, refinar sua capacidade de filtrar as fontes para poder fazer suas escolhas. Fica esperto,meu!

A notícia

O “New York Times” não deu uma linha
A “BBC”de Londres nenhuma palavra
Mas ontem no Xingu um índio se afogou
E um guarda-marinha
Se atirou nas águas
Pra salvar a sua vida

Na mesma hora um favelado da Rocinha
Que tinha sete filhos arrumou mais um:
Era menino loiro de olho azul
Que tinha sido abandonado nu
Numa avenida

Gente má,
Gente linda
Dia vem, noite finda
Em todo lugar

E é assim, ao som delicioso de A NOTÍCIA, com Vicente Barreto que o Café Brasil que quer saber quem faz a sua cabeça, vai embora.

Com Lalá Moreira atento na técnica, Ciça Camargo animada na produção e eu, aqui, Luciano Pires, inventando moda na direção e apresentação.

Estiveram conosco Tom Zé, Gisela Nogueira e Gustavo Costa, Milton Nascimento, Café Com Blues, Vicente Barreto, Antônio Adolfo e o ouvinte Adilson Ricardo.

Quer mais? Visite www.portalcafebrasil.com.br. Tem umas fontes de informação interessantes por lá.

E pra terminar, uma frase do escritor, poeta, narrador, ensaísta, jornalista, historiador, biógrafo, teólogo, filósofo, desenhista e conferencista britânico Gilbert Keith Chesterton:

O jornalismo é popular, mas é popular principalmente como ficção. A vida é um mundo, e a vida vista nos jornais é outro.

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