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Luciano Pires -

Bom dia, boa tarde, boa noite. Se você acompanha o Café Brasil, sabe da importância que a música tem para mim. Quero mexer com sua cabeça, seu coração, sua alma e seu corpo. Quero que você pense intensamente nos assuntos que escolhi, e por isso a música é imprescindível. O Café Brasil é um programa musical… E nada melhor pra começar o programa do que usar algo que Tom Jobim escreveu, que me foi remetido pelo ouvinte Rodrigo Basso:

Quando soprar o vento atômico que vai destruir a terra e última folha cair, o barulho desta folha caindo, friccionando o ar, vai construir uma melodia possível de ser assoviada. O mundo é melodia, não barulho. Os homens fazem barulho, mas eu faço música e faço música para levar aos homens, ao espírito, ao céu a Deus.

E então, no Café Brasil tento construir um painel que combine textos meus e de outras pessoas com músicas brasileiras cujas letras ou melodias reforcem o assunto do programa. Desse modo, ao final do programa quero ter proporcionado ao ouvinte uma experiência criativa, excepcional, única e sensorial. Já teve gente me escrevendo, um deles com palavras ásperas, dizendo que nunca mais iria ouvir meu programa pois interrompo as músicas pra falar no meio… Olha, às vezes isso dói muito mesmo. Mas não tem jeito. O Café Brasil é um programa musical. Mas não é um programa para se ouvir música… Se você quer ouvir música, ta cheio de opções excelentes por aí. Aqui nós só distribuímos iscas. Apresentamos idéias, artistas, escritores… Se você se interessou, tem que ir atrás. Iscas Intelectuais é o que você encontrará aqui. Só Iscas.

Coisas assim que tal? Virginia Rosa, num CD excepcional chamado BAITA NEGÃO, em que ela homenageia Monsueto! Maravilhoso. Mas não toca em rádio. Onde eu achei? No SESC, meu….

Bem, mas como o tema de hoje é música, vou buscar parte de um texto escrito pela Silvia de Lucca, que escreve nas Iscas Intelecutais de meu site. A Silvia nos ensina a ser um OUVINTE ATIVO.

Ao fundo você ouvirá a Camerata Brasileira que nos trará uma versão com um pé no chorinho da Ária das Bachianas Brasileiras Nr. 5, de Heitor Villa Lobos. Ouça isso e veja se não vale a pena gostar de música….

– Quando uma música que você não aprecia estiver sendo tocada no rádio, mude de estação e busque outra. Deste modo, ao menos naquele determinado momento, você não estará dando ibope para aquela emissora, ou em outras palavras, não estará dando lucro a ela. Para isto, deixe memorizado em seu rádio as estações de sua preferência, para que troque fácil e rapidamente uma pela outra na hora do aperto, mas dê alguma chance às totalmente desconhecidas, elas podem causar surpresas muito agradáveis;

– Quando tiver um tempinho para lazer ou quiser investir em cultura (três horas por vez já é o suficiente), vá até a melhor loja de discos da redondeza – de preferência àquelas em que se pode sentar para ouvir a “mercadoria” -, e escolha uns 12 discos DESCONHECIDOS. Depois disto, ouça umas quatro faixas alternadas de cada um, mas sempre a primeira, pois nela normalmente se encontra o que o autor considera como uma das melhores. Deste modo, esteja preparado para se deparar com horrores (e depois critique-os para quem puder, bem … talvez seja melhor não falar nada, só para não despertar a curiosidade e acabar fazendo um tipo de propaganda, mesmo sem querer), mas também, em compensação, descobrirá verdadeiros tesouros.

Como isso… CHUVA DO SERTÃO, com Carlos Zens. Carlos Zens vem de Natal, Rio Grande do Norte. Toca flauta. É formado em música, toca na Orquestra Sinfônica de Natal. A voz que você ouviu recitando é do repentista Severino Ferreira. Aposto que você batucou com os dedos, né? Irresistível!

E isso, hein? É Naldo Luiz interpretando o Professor Pereirinha, com ACORDEON NO CHORO. É mole?

– Uma vez gostando muito de um desses desconhecidos, compre-o(s) assim que puder. E mais: sugira ou dê-lhe(s) de presente ao maior número de pessoas possíveis, assim estará formando “consumidores” para “produtos” diferentes e de qualidade segundo o seu próprio critério.

– Toda música que gostar prá valer, procure saber quem a compôs, afinal, as músicas não caem prontas do céu. Vale saber que alguém até então desconhecido para você, criou um “produto” que pode fazê-lo feliz inúmeras vezes, sendo a data de validade o próprio “usuário” que estipula. Sendo assim, não acha que esta pessoa merece sair do anonimato? E de quebra você pode investir em você mesmo ao se tornar um “consumidor” deste criador, desta sua gravadora, deste seu selo, desta sua distribuidora, de seus discos, e da loja que os comercializa. Você passa a ser um motivo concreto para se continuar investindo neste “mercado” específico.

 

– Informe-se e procure frequentar os shows e concertos de artistas desconhecidos que estão passando em sua cidade. Do mesmo modo como explicado sobre os discos, precisamos caçar o que de fato nos interessa como música em toda a sua manifestação. E cuidado, não se deixe enganar pelo preço: o mais caro não é necessariamente o melhor. Muitas vezes querem que pensemos que o “produto” é bom por causa do valor alto que cobram. Há muitos espetáculos maravilhosos que são gratuitos ou têm preços muito acessíveis.

E esse, hein? É João Pinheiro que interpreta SMOOTH OPERATOR, grande da cantora SADE. João Pinheiro é carioca e recria SADE com o tempero brasileiro. Você conhecia? Não é? Pois é…

 – Nas inúmeras músicas que ouve durante cada dia – e não se esqueça também da televisão e do cinema -, experimente também a escuta concentrada, e nisto é importante salientar: esforce-se para que, além do texto (ou letra) e imagem, você preste atenção também na música. Deste modo poderá, cada vez mais, analisar para si próprio o porquê prefere mais este “produto” do que aquele outro. Poderá inclusive explicar aos “vendedores” as características musicais que prefere, para que eles lhe sugiram outras similares, mas cuidado com as propagandas enganosas! Não deixe que lhe convençam a trocar gato por lebre, e por isto mesmo deve conhecer muito bem o seu “objeto” de estimação.

 

Hummmm… CHOREI MAS ACHEI, do Edu Negrão, que tal? Chorinho feito pela nova geração, bom demais…

– Use a internet. Faça uma assinatura padrão para seus e-mails, divulgando a música, o compositor, o intérprete, o disco, etc. Assim, no caso de você enviar 50 mensagens por semana, irá transformá-las numa mídia especial, a fim de promover o que você acha que vale a pena. Imagine 1000 pessoas fazendo isso… e mais 1000… teremos uma máquina de divulgação, gratuita, que não será presa dos senhores da indústria.

Ao ser transmitida uma música ou uma seleção que aprecie especialmente, comunique-se de algum modo com o veículo (rádio, TV, etc) e expresse sua opinião detalhadamente. Isto servirá de estímulo para que repitam a programação, e saibam concretamente que determinado ouvinte aprecia aquele repertório. O mesmo vale para quando o modelo for negativo. Faça contato e diga que não gosta e porque não gosta.

 

– Estando em uma apresentação de música ao vivo que considere muito boa, procure conversar com os músicos na hora do intervalo, coloque suas impressões. Também fale a respeito com o produtor, gerente ou dono do espaço; incentive-os a valorizar e manter aquele nível apresentado. Contudo, atenção, a negativa deste caso também é válida: faça a queixa aos responsáveis. Não se esqueça que o maior objetivo deles é agradar você, tê-lo como cliente fiel, e que acabe fazendo a tal da propaganda “boca a boca”.

– No caso ainda de uma apresentação ao vivo, se gostar da interpretação (modo de tocar, voz, aparelhagem e instrumentos utilizados, carisma, roupas, etc), mas não do repertório, ou ao contrário, se apreciar as músicas mas não as outras coisas, deixe os músicos saberem disto. É possível emitir opiniões “numa boa”, sem ofender ou constranger diretamente o outro. Na pior das hipóteses eles procurarão agradar-lhe para não perder o emprego, e na melhor, ficarão satisfeitos em saber que alguém do público os percebe com detalhes e procurarão agradá-lo.

E a Luhli? Você conhece? Aqui é ela com AS HORAS, dela e de Alexandre Lemos. Ta vendo como existem coisas ótimas? É só procurar… e contar pros outros…

– Assistindo a espetáculos, shows e concertos, emita sua opinião aos organizadores ou produtores do evento no caso dela ser especialmente positiva (ou negativa), sugerindo que aqueles músicos retornem (ou não) àquele teatro, apresentem-se mais vezes (ou nunca mais).

– Estando em um supermercado ou em outro estabelecimento de vendas ou serviços onde haja música ambiente, observe se o repertório é de seu agrado, se o volume está em bom nível, se a qualidade sonora é limpa (sem ruídos, chiados, permitindo que se ouça bem os instrumentos). Pergunte-se com qual tipo de música gostaria de fazer as suas compras. Fale ou escreva a sua opinião sobre isto aos responsáveis. Diga francamente: eu entrei aqui por causa da música, esta música é bem agradável, ou pergunte que rádio ou gravação é aquela que está sendo tocada? Os grandes estabelecimentos costumam fazer pesquisas para saber a opinião dos clientes. Como afirmei antes: eles farão de tudo para mantê-lo como consumidor local. Inúmeras vezes procedi desta maneira, e minha opinião foi levada em consideração muitas vezes, inclusive no Carrefour. NOTA: Toda esta situação é válida para salas de espera e consultórios em geral.

– Caso vá a uma loja de discos, explique ao vendedor o que procura, e ele não tiver a menor idéia do que se trata ou não mostrar interesse em conhecer o novo que você lhe apresenta: ele não é um bom funcionário e tente fazer com que o responsável pelo local saiba disto! E no caso de ocorrer o mesmo com o seu superior, vá embora, não volte mais e faça propaganda negativa do local. Você merece ser atendido por alguém que saiba ou queira saber mais do que as básicas “paradas de sucesso”. Digno de nota: era uma vez eu mesma em uma loja dessas no Shopping Center Butantã, sendo atendida por um desses balconistas. Ele confessou NUNCA ter ouvido falar em Egberto Gismonti, um dos compositores brasileiros vivos que mais vendem no exterior. Mostrei-lhe o meu espanto; o gerente não estava, saí e não retornei jamais.

Olha só… Não é uma loucura a riqueza da música brasileira? Aqi você ouve Renato Borghetti com KILÔMETRO 11, de Constante J. Aguer, Trancito Cocomarola. Só falta uma carninha no espeto…

– Na situação de querer contratar músicos para um evento (casamento, batizado, formatura, etc), não aceite a primeira sugestão musical que lhe derem, saia da “mesmice” e arrisque-se ao desconhecido: procure conhecer boa parte do repertório que os profissionais têm pronto para tocar. Normalmente os fracos, inexperientes ou preguiçosos têm um repertório pequeno (entenda até 20 músicas). Ah! Lembrando uma vez mais: o profissional mais caro não necessariamente é o melhor.

– Sendo você um convidado destes eventos, e tendo apreciado o trabalho musical realizado, procure fazer contato com o líder do grupo, elogie o trabalho, explique o seu parecer favorável, anote e guarde o nome e telefone, e sugira o serviço dele quando souber de alguma procura.

Pô, já ta acabando o programa… Que saco… Mas não faz mal, semana que vem tem mais. Espero que você tenha curtido nossas iscas intelectuais de hoje, principalmente as dicas da Silvia De Lucca, pra se transformar num OUVINTE ATIVO.

É assim, ao som de MÚSICA SERVE PRA ISSO, com Mauricio Pereira, que nosso Cafezinho vai embora…

Olha só quem veio: Virginia Rosa, Camerata Brasileira, Carlos Zens, Naldo Luiz, Edu Negrão, Luhli, Renato Borghetti e Mauricio Pereira!

Na técnica o Lalá Moreira. Na produção a Ciça Camargo. E na direção e apresentação eu: Luciano Pires

Gostou das músicas, é? Ouça então a rádio web Café Brasil. Em portalcafebrasil.com.br

Pra terminar, uma frase do escritor Victor Hugo:

Música expressa o que não pode ser colocado em palavras e que não pode ficar em silêncio.