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Luciano Pires -

Bom dia, boa tarde, boa noite, bem vindo a mais um Café Brasil, o seu programinha neste cantinho do ratinho pra quem quer um tempinho pra desatinar. Meu nome é Luciano Pires e hoje abro o programa com uma frase do poeta Flavinho Medeiros:

-“Quando iniciam as convicções, terminam as incertezas e por conseqüência, o próprio  raciocínio.”

Você se lembra daquele depoimento da esposa do Marcos Valério? Foi chocante, não foi? Principalmente quando os questionamentos colocavam nos holofotes a família dela e dele. Quando os filhos de ambos foram mencionados, pelo menos em minha cabeça, um drama se desenrolou.

Deixei de lado as razões sórdidas que colocaram tanto ele como ela na situação em que estão e examinei os acontecimentos com um pensamento humanitário, desprovido de julgamentos sobre o comportamento de corruptos e corruptores.

E foi impossível não comparar a família deles com a minha. Os laços de amor e amizade entre marido e mulher, pais e filhos. As conseqüências da exposição pública dos pais, nos filhos. A forma como a sociedade tratará essas crianças. Imaginei-as na escola… Primeiro sofrendo por causa do pai. E depois vendo a mãe chorando em rede nacional…

Senti pena daquelas crianças. E de todas as outras que serão atingidas nesse processo, que é duro mas necessário.

Lembrei-me de uma discussão sobre a questão dos valores pessoais e das convicções. O tema era a senadora Heloísa Helena, que estava prestes a ser expulsa do PT. Na época eu dizia que admirava os valores da senadora, mas tinha restrições às suas convicções.

Valores são ideais que guiam ou qualificam sua conduta pessoal, sua interação com os outros. Eles ajudam você a distinguir o que é certo do que é errado e a conduzir sua vida com propósito. A senadora manteve-se irredutível no questionamento daquilo que, conforme seus valores, julgava ser um comportamento errado. Foi expulsa e o tempo mostrou que ela estava coberta de razão. Compartilho seus valores e admiro sua fibra.

Convicções são crenças em alguma coisa sem necessidade de provas ou evidências. É aquilo que é aceito por uma pessoa como verdade. E a senadora, petista de primeira hora, era mais uma das raivosas vozes que combatia qualquer iniciativa do governo FHC, independente do mérito, em nome de convicções discutíveis. Foram essas convicções que atrasaram o Brasil em vários anos, que impediram a aprovação de leis e propostas importantes, que desdenharam de idéias que não combinavam com suas verdades.

Pois o que assistimos neste momento é uma revelação chocante envolvendo valores e convicções.

O PT eleito pelo voto direto de 53 milhões de brasileiros, trazia em seu programa valores fundamentais que lhe garantiram a imagem de partido ético, honesto, interessado no desenvolvimento do país, na defesa dos indefesos, na justiça social. Mas infelizmente, partidos são formados por pessoas. E o que se vê neste momento são pessoas para as quais valores éticos como honestidade, generosidade e respeito ao próximo, não são prioridades. Essa turma tem, no máximo, convicções. A principal delas, de que estariam acima da lei, acima do bem, acima do mal.

Coitados.

Convicções que não fundamentam-se em valores éticos são apenas bravatas.

E pobres dos que educam seus filhos com bravatas.

Que tal? No programa de hoje eu vou com mais um  pouco de blues brasileiro, começando com nosso grande guitarrista Renato Piau e a fantástica composição de Sérgio Sampaio dos anos 70, “Meu Pobre Blues”.

Essa música está no novo CD de Renato, “Balaio Atemporal”.

Sérgio Sampaio conta nessa música a intenção de fazer um blues para Roberto Carlos gravar, sem sucesso. “Só queria ouvi-lo cantar meu pobre blues” era o sonho do autor… O Rei nem deu bola…

E por falar em convicções, confesso que quando vi as primeiras cenas do furacão Katrina deixando Nova Orleans coberta de água, imaginei que veríamos mais um show dos Estados Unidos. Fiquei à espera de milhares de helicópteros e carros anfíbios da guarda nacional e do exército, esvaziando a cidade em algumas horas e salvando não só as pessoas, mas prédios e empresas.

Preparei-me mais uma vez para morrer de inveja da competência daquela gente em resolver os grandes problemas enquanto nós, aqui no Brazilzinho, não conseguimos nem tirar crianças das ruas. Mas… Os helicópteros não apareceram. As pessoas entraram em desespero, muitos morreram. E chegaram notícias sobre saques e uma confusão tremenda, um show de falta de informação e erros.

Era o Incompetence Day.

Ué… Cadê aquela espetacular estrutura logística e tecnológica que invadiu o Iraque? Cadê os planos e as estratégias minuciosas que garantem à maior potência do mundo a liderança política e militar? Não tinha.

Pela segunda vez, a primeira em 11 de setembro de 2001, os poderosos EUA mostraram-se vulneráveis e incompetentes como qualquer pais de terceiro mundo diante das grandes catástrofes. E catástrofes anunciadas, pois tanto os atentados às torres gêmeas quanto a possibilidade de um furacão na região de Nova Orleans, tinham indícios claros de que poderiam acontecer.

Mas ninguém deu bola, o que nos dá uma pista das prioridades dos EUA.

Nos EUA de hoje, pelo menos por parte das pessoas que dirigem o país e as grandes corporações, a prioridade é a manutenção do processo de globalização. Mas não aquela globalização que nos é vendida diariamente, da distribuição de oportunidades para todos. A globalização que lhes interessa é aquele processo de mão única que protege seus interesses. E não há viés ideológico nesta análise. Lido com os estadunidenses desde 1982, tempo suficiente para entender que sua visão do mundo tem só um ângulo: o deles. E com os olhos e bolsos voltados à proteção de seus interesses econômicos pelo mundo, esqueceram-se de olhar para dentro de casa.

A passagem do Katrina, como o 11/9, é uma lição. Após 11 de setembro, os estadunidenses aprenderam onde fica o oriente médio. E depois do Katrina, descobriram o Golfo do México. Estava certíssimo quem disse que as guerras e tragédias foram o instrumento que Deus encontrou para ensinar geografia para os estadunidenses.

E a nós, brazilians, resta o consolo de saber que não estamos sozinhos. Incompetência também se escreve em inglês…

Continuo na linha do blues brasileiro, com Renato Piau, de seu cd Guitarra Brasileira 1. Você ouve “All Cool Blues”. Eu já trouxe Renato ao nosso Café Brasil e contei que ele é um dos maiores guitarristas brasileiros, acompanhando Luiz Melodia desde os anos 80. Aprecie a leveza de Renato com o blues brasileiro no Café Brasil…

Quando fiz minha viagem ao Everest em 2001, encontrei gente de todo mundo. Numa das passagens de meu livro O MEU EVEREST, conto da experiência de ir conversar com duas mulheres que estavam próximas, observando os alpinistas que desciam da montanha.

Perguntei de onde elas eram. Eram duas barangas, cheias de pose que, como se eu as estivesse importunando, disseram: “América”.

É claro que eu sabia que elas queriam dizer Estados Unidos, mas tive vontade de dizer: “Eu também sou da América, vacas!”. Afinal, quem deu a elas o direito de usar o nome do continente? E de me esnobar no Everest?

Elas são da América do Norte, eu sou do Sul. Mas somos todos da América.

…Metidas…

Acho que isso acontece com essa gente por causa de Cristóvão Colombo, que descobriu a América quando chegou nos Estados Unidos. Mas… Espera um pouco. Durante sua primeira viagem Colombo desembarcou apenas em São Salvador, Cuba e Haiti. Só desembarcou no continente em sua terceira expedição de 1498. E nem sei se foi nos Estados Unidos…

Portanto, quem devia reivindicar o nome América deveria ser Fidel Castro!

Pois esta semana recebi um e-mail de uma leitora que reclamava por eu ter chamado a Secretária de Estado Condoleezza Rice de “norte-americana”.

“Como é que ficam os Canadenses? E os Mexicanos?”, disse a leitora.

É verdade! América do Norte são Canadá, Estados Unidos, México e Bahamas. Quem deu aos nativos dos Estados Unidos o direito de usar o nome do hemisfério junto ao do continente?

“Condoleezza é estadunidense”, disse minha leitora.

Claro!

Nasceu no Canadá, canadense. Nasceu no México, mexicano. Nas Bahamas, não tenho idéia. Mas nos Estados Unidos, estado – u-ni-den-se.

Tomei então uma decisão. Nunca mais me referirei aos estadunidenses como norte americanos. Ou americanos. Eles não têm esse direito.

Se insistirem, então me julgarei no direito de não usar mais “brasileiro” para designar minha origem. Vou usar sul americano. Ou melhor, vou usar “americano” também. E quero ver reclamarem!

Já pensou que chique? Eu lá na Holanda e a turma me perguntando de onde sou? Vou falar “América” de boca cheia. E só falo Brasil se pedirem pra detalhar, sabe como é…

Vou preparar imediatamente um projeto de lei e mandar pra Câmara.

Quem sabe pego a próxima edição daquela Cartilha do Politicamente Correto.

Bom, né? Você ouviu “ A formiga e a saúva”, de e com Flavio Guimarães, de seu CD “Navegaita”. Com dezenove anos de carreira, Flávio Guimarães produziu três discos próprios e nove com a banda Blues Etílicos. Gravou dezenas de participações em discos de artistas dos mais diferentes estilos, de Titãs a Alceu Valença.  Foi escolhido duas vezes por B. B. King para abrir seus shows no Brasil, em 1999 e 2004. Tocou com Buddy Guy em 1989 e 1991 e com Magic Slim em 1993 e abriu a turnê brasileira de Robert Cray em 1997.

Sua gaita pode ser ouvida em diversas trilhas e comerciais, destacando-se a recente Bang Bang, da Globo.Pois eu aposto que você nunca tinha ouvido esse nome: Flavio Guimarães. É blues do Brasil para o mundo. Onde? Onde? Aqui no Café Brasil!

E vamos com mais um daqueles textos inspiradíssimos de Rubem Alves? O nome é O SONHO DOS RATOS (ou será “a grande coincidência?)

Era uma vez um bando de ratos que vivia no buraco do assoalho de uma casa velha.

Havia ratos de todos os tipos: grandes e pequenos, pretos e brancos, velhos e jovens, fortes e fracos, da roça e da cidade.

Mas ninguém ligava para as diferenças, porque todos estavam irmanados em torno de um sonho comum: um queijo enorme, amarelo, cheiroso, bem pertinho dos seus narizes.

Comer o queijo seria a suprema felicidade…

Bem pertinho é modo de dizer. Na verdade, o queijo estava imensamente longe, porque entre ele e os ratos estava um gato … O gato era malvado, tinha dentes afiados e não dormia nunca. Por vezes fingia dormir. Mas bastava que um ratinho mais corajoso se aventurasse para fora do buraco para que o gato desse um pulo e, era uma vez um ratinho…

Os ratos odiavam o gato.

Quanto mais o odiavam mais irmãos se sentiam.

O ódio a um inimigo comum os tornava cúmplices de um mesmo desejo: queriam que o gato morresse ou sonhavam com um cachorro…

Como nada pudessem fazer, reuniram-se para conversar. Faziam discursos, denunciavam o comportamento do gato (não se sabe bem para quem), e chegaram mesmo a escrever livros com a crítica filosófica dos gatos. Diziam que um dia chegaria em que os gatos seriam abolidos e todos seriam iguais. “Quando se estabelecer a ditadura dos ratos”, diziam os camundongos, “então todos serão felizes”…

– O queijo é grande o bastante para todos, dizia um.

– Socializaremos o queijo, dizia outro.

Todos batiam palmas e cantavam as mesmas canções.

Era comovente ver tanta fraternidade.

Como seria bonito quando o gato morresse!

Sonhavam. Nos seus sonhos comiam o queijo. E quanto mais o comiam, mais ele crescia.Porque esta é uma das propriedades dos queijos sonhados: não diminuem:  crescem sempre.

E marchavam juntos, rabos entrelaçados, gritando:

” o queijo, já!”…

Sem que ninguém pudesse explicar como, o fato é que, ao acordarem, numa bela manhã, o gato tinha sumido.

O queijo continuava lá, mais belo do que nunca. Bastaria dar uns poucos passos para fora do buraco.

Olharam cuidadosamente ao redor. Aquilo poderia ser um truque do gato. Mas não era. O gato havia desaparecido mesmo. Chegara o dia glorioso, e dos ratos surgiu um brado retumbante de alegria. Todos se lançaram ao queijo, irmanados numa fome comum.

E foi então que a transformação aconteceu.

Bastou a primeira mordida.

Compreenderam , repentinamente, que os queijos de verdade são diferentes dos queijos sonhados. Quando comidos, em vez de crescer, diminuem.

Assim, quanto maior o número dos ratos a comer o queijo, menor o naco para cada um. Os ratos começaram a olhar uns para os outros como se fossem inimigos. Olharam, cada um para a boca dos outros, para ver quanto do queijo haviam comido. E os olhares se enfureceram. Arreganharam os dentes.

Esqueceram- se do gato.

Eram seus próprios inimigos.

A briga começou.

Os mais fortes expulsaram os mais fracos a dentadas.

E, ato contínuo, começaram a brigar entre si.

Alguns ameaçaram a chamar o gato, alegando que só assim se restabeleceria a ordem.

O projeto de socialização do queijo foi aprovado nos seguintes termos:

“Qualquer pedaço de queijo poderá ser tomado dos seus proprietários para ser dado aos ratos magros, desde que este pedaço tenha sido abandonado pelo dono”.

Mas como rato algum jamais abandonou um queijo, os ratos magros foram condenados a ficar esperando…

Os ratinhos magros, de dentro do buraco escuro, não podiam compreender o que havia acontecido . O mais inexplicável era a transformação que se operara no focinho dos ratos fortes, agora donos do queijo. Tinham todo o jeito do gato, o olhar malvado, os dentes à mostra.

Os ratos magros nem mais conseguiam perceber a diferença entre o gato de antes e os ratos de agora. E compreenderam, então, que não havia diferença alguma. Pois todo rato que fica dono do queijo vira gato. Não é por acidente que os nomes são tão parecidos.

OBS: mas chega um dia que os ratos fortes começam a brigar entre si, e, as denuncias de que um RATO está comendo mais que outro começam a aparecer, e daí, chega um GATO bem mais forte do que o primeiro e os ratos são confinados nos seus buracos de origem.

Coincidência ou não, estamos assistindo os ratos devorarem o QUEIJO.

 

 

Você ouve “Não Para”, com Flavio Guimarães, também de seu CD “Navigaita”. Composição do próprio Flavio e Andrea Paola, é puro blues brasileiro, uim presente pra você aqui, do seu Café Brasil…

E é assim ,ao som do blues de Flavio Guimarães que vou me despedindo do Café Brasil de hoje. Vamos ver quem veio? O poeta Flavinho Medeiros, Rubem Alvez, Renato Piau com Sérgio Sampaio, Flavio Guimarães e mais blues brasileiro. Que belo time. E onde é que você encontra gente assim? Onde? Onde? É só aqui, no seu Café Brasil!

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Um abração! Sigo meu caminho, tentando despocotizar  só um pouquinho….