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Luciano Pires -

No podcast da semana vamos falar de um mundo cada vez mais globalizado. Mas buscaremos a ajuda de Pierre Teilhard de Chardin  para tentar entender que fenômeno é esse que as pessoas confundem com um movimento econômico ou ideológico. E depois aproveitamos o bom humor de Hernán Casciari para transformar os países em pessoas e assim tentar entender o que se passa. A trilha sonora está dez: Karnak, Antonio Abujamra, Devas, Artur Moreira Lima e ninguém menos que os Jet Blacks. Apresentação de Luciano Pires.

[showhide title=”Ler o roteiro completo do programa” template=”rounded-box” changetitle=”Fechar o roteiro” closeonclick=true]

Pra começar, um trechinho da letra de Funeral de um Lavrador, de Chico Buarque de Holanda:

É de bom tamanho nem largo nem fundo

É a parte que te cabe deste latifúndio

O mundo muda

O mundo muda
A gente muda
O mundo muda
A gente muda
O mundo muda

Eu era pobre, andava de chinelo
Hoje sou rico, ando de pajero

Eu era rico, nadava na piscina
Hoje sou pobre, pão com margarina

Eu perdi tudo
Achei você
Eu tenho tudo
Tenho você

Eu era pobre e hoje eu sou rico
Eu era feio e hoje sou bonito

Eu eura rico e hoje sou pobre
Eu era escravo e hoje eu sou nobre

Eu perdi tudo
Achei você
Eu tenho tudo
Tenho você 

Pois é…como diz a música do Karnak, o mundo muda, e como muda…

Para tentar entender o que anda acontecendo neste mundo globalizado, vou recorrer ao padre jesuíta, teólogo e paleontólogo francês Pierre Teillard de Chardin. Pierre de Chardin defendia o conceito de que ciência e religião não são inimigas.

Ele escreveu em seu livro O Fenômeno Humano, lançado em 1955, no ano em que ele faleceu,  que “Aparentemente, a terra moderna nasceu de um movimento anti-religioso. O homem bastando-se a si mesmo. A razão substituindo à crença. Nossa geração e as duas precedentes quase só ouviram falar de conflito entre fé e ciência. A tal ponto que pôde parecer, a certa altura, que a ciência era decididamente chamada a tomar o lugar da fé. Ora, à medida que a tensão se prolonga, é visivelmente sob uma forma muito diferente de equilíbrio – não eliminação, nem dualidade, mas síntese – que parece haver de se resolver o conflito.”

Bem, o resultado dessa tentativa de síntese entre ciência e religião foi que Teillard de Chardin foi malvisto tanto pelos cientistas quanto pelos religiosos, que o proibiram de lecionar e publicar suas obras. E ele foi praticamente exilado na China. Mas o que importa para nós neste programinha Café Brasil, são as idéias que Teillard de Chardin utilizou para tratar da evolução do homem em seu livro já citado, “O Fenômeno humano”. Rever essas idéias com os olhos da globalização é fascinante…

Para compreender o pensamento de Teillard de Chardin é necessário entender que ele via o mundo como uma esfera, tanto literal como metafóricamente. E explicava a evolução do homem em dois estágios.

No primeiro, a humanidade estaria expandindo-se pelo globo terrestre, aos poucos cobrindo a superfície da esfera com sua presença. Esse primeiro estágio terminaria quando o homem estivesse presente sobre todo o globo, o que acontece no século vinte, quando em praticamente todas as áreas habitáveis do planeta, haveria a presença do homem.

O segundo estágio começa então com uma onda de idéias que começa a tomar conta da esfera, formando uma memória coletiva. A atividade mental dos homens interconecta-se, converge e começa a se unificar. Uma complexa membrana de pensamentos, alimentada pela consciência humana, parece envolver o globo terrestre.

Teillard considera essa membrana uma gigantesca operação psicobiológica, como que gerando uma coisa viva. E esse estágio do desenvolvimento humano, Teillard chamou de noosfera, que vem do grego NOUS, que quer dizer mente.

O livro de Teillard foi publicado em 1955, e muita gente vê nessa descrição da “membrana” uma previsão do que está ocorrendo hoje com a internet.

O mundo

O mundo é pequeno pra caramba
Tem alemão, italiano, italiana

O mundo filé milanesa
Tem coreano, japonês, japonesa

O mundo é uma salada russa
Tem nego da Pérsia, tem nego da Prússia

O mundo é uma esfiha de carne
Tem nego da Zâmbia, tem nego do Zaire

O mundo é azul lá de cima
O mundo é vemelho na China

O mundo tá muito gripado
O açucar é doce
O sal é salgado

O mundo caquinho de vidro
Tá cego do olho, tá surdo do ouvido

O mundo tá muito doente
O homem que mata
O homem que mente

Por quê você me trata mal
Se eu te trato bem

Por quê você me faz o mal
Se eu só te faço bem

Todos somos filhos de Deus
Só não falamos a mesma língua
Everybod is filhos God

Só não falamos a mesma língua  

Olha só, isso que você vai ouvir no podcast, é O MUNDO, de André Abujamra, numa gravação caseira de um conjunto chamado DEVAS que andou pela cena paulistana uns anos atrás. Até onde sei o Devas acabou quando uma das meninas viajou para o exterior. Mas fica aqui a lembrança. Devas, no Café Brasil… 

Teillard de Chardin previu que o novo tipo de consciência a que a a noosfera nos levaria, atingiria o Ponto Ômega quando o individual convergiria para o universal. Mas ele também previu que “algo vai explodir se tentarmos enfiar em nossas cabeças as forças materiais e espirituais mundiais”. Não cabe, né?

Pois então… Sabe que neste mundo global é assim que eu me sinto? A cada dia parece que tenho menos tempo, menos espaço, menos capacidade para assimilar tudo que está por aí. Como disse alguém, ao definir a busca de informações na internet: sinto-me como se eu estivesse bebendo água de um hidrante…

Eu to voando

Nesse exato momento eu tô voando
Eu tô voando

Eu tô vendo muita gente triste
Eu tô vendo muita gente feliz
Eu tô vendo um passarinho bonito
Tomando água no chafariz

Eu tô vendo muita gente com ódio
Eu tô vendo muita gente com amor
Eu tô vendo um mendigo doente
Tomando pinga pra passar a dor

Daqui do céu da prá ver tudo
Os continentes desse mundo

Eu tô vendo a morte passando
Eu tô vendo a vida passar
Eu tô vendo uma girafa grande
Eu tô vendo o palhaço chorar

Eu tô vendo um piolho, uma pulga
Eu tô vendo um cachorro coçando
Eu tô vendo um vendaval gigante
Eu tô vendo o cabrito mamando

Daqui do céu dá prá ver tudo
Os continentes desse mundo

Eu tô vendo muita confusão
Homem briga por religião
Eu tô vendo o santo respirar
Na igreja católica
Eu tô vendo o pai de santo ali
Eu tô vendo o laminha sorrir
Eu tô vendo o rabino pensando
Como as coisas podem existir

Daqui do céu da prá ver tudo
Os continentes desse mundo

Nesse exato momento eu tô voando 

Eu tô voando  

Pois é…neste exato momento eu to voando com o Karnak. Você ouve, no podcast,  Eu to voando, também de André Abujamra… 

A visão de Taillard de Chardin é complexa, mas pode nos ajudar a entender que a globalização é muito mais que uma questão de comércio e política. Globalização não é um conceito ou uma ideologia. Globalização é um fenômeno, que tem muito mais a ver com a evolução do espírito humano do que com qualquer outra coisa. Por isso ela é inevitável…

Cara, Padre Teillard de Chardin era aquele sujeito que hoje em dia a gente diz que “tem conteúdo”, sabe como é? Meteu-se em grandes polêmicas, sofreu por defender idéias inovadoras e só foi reconhecido depois de morto. Mais ou menos como acontece com quem tem idéias que fogem do convencional.

E então encontrei um texto de Hernán Casciari, escritor e jornalista argentino. É conhecido por seu trabalho ficcional na Internet, onde tem trabalhado na união entre literatura e blog, destacado na blognovela. É dele o texto O mundo conforme Casciari.

E já que o programa fala de globalização, que você ouvirá o texto o som de SUKIAKI, música japonesa com ninguém menos que o grupo instrumental paulistano Jet Blacks. Tem neguinho aí que vai lembrar desta levada, que já tem uns 40 anos… 

Vamos ao texto de Hernán Casciari

Li uma vez que a Argentina não é nem melhor nem pior que a Espanha, só que mais jovem. Gostei dessa teoria e aí inventei um truque para descobrir a idade dos países baseando-me no ´sistema cão´.

Desde meninos nos explicam que para saber se um cão é jovem ou velho, deveríamos multiplicar a sua idade biológica por 7. No caso de países temos que dividir a sua idade histórica por 14 para conhecer a sua correspondência humana. Confuso? Agora vou expor  alguns exemplares reveladores.

A Argentina nasceu em 1816, assim sendo, já tem 190 anos. Se dividimos estes anos por 14, a Argentina tem ´humanamente´ cerca de 13 anos e meio, ou seja, está na pré-adolescência. É rebelde, se masturba, não tem memória, responde sem pensar e está cheia de acne.

Quase todos os países da América Latina têm a mesma idade, e como acontece nesses casos, eles formam gangues. A gangue do Mercosul é formada por quatro adolescentes que tem um conjunto de rock. Ensaiam em uma garagem, fazem muito barulho, e jamais gravaram um disco.

A Venezuela, que já tem peitinhos, está querendo unir-se a eles para fazer o coro. Em realidade, como a maioria das mocinhas da sua idade, quer é sexo, neste caso com o Brasil, que tem 14 anos e um membro grande. O México também é adolescente, mas com ascendente indígena. Por isso, ri pouco e não fuma nem um inofensivo baseado, como o resto dos seus amiguinhos. Mastiga coca, e se junta com os Estados Unidos, um retardado mental de 17 anos, que se dedica a atacar os meninos famintos de 6 anos em outros continentes.

No outro extremo, está a China milenária. Se dividirmos os seus 1.200 anos por 14 obtemos uma senhora de 85, conservadora, com cheiro a xixi de gato, que passa o dia comendo arroz porque não tem – ainda – dinheiro para comprar uma dentadura postiça. A China tem um neto de 8 anos, Taiwan, que lhe faz a vida impossível. Está divorciada faz tempo de Japão, um velho chato, que se juntou às Filipinas, uma jovem pirada, que sempre está disposta a qualquer aberração em troca de grana.

Depois, estão os países que são maiores de idade e saem com o BMW do pai. 

Por exemplo, Austrália e Canadá. Típicos países que cresceram ao amparo de papai Inglaterra e mamãe França, tiveram uma educação restrita e antiquada e agora se fingem de loucos. A Austrália é uma babaca de pouco mais de 18 anos, que faz topless e sexo com a África do Sul. O Canadá é um mocinho gay emancipado, que a qualquer momento pode adotar o bebê Groenlândia para formar uma dessas famílias alternativas que estão de moda.

Que tal hein?  La Brésilienne, de Henrique A. de Mesquita, com o piano maravilhoso de Artur Moreira Lima… É uma polka 

A França é uma separada de 36 anos, mais puta que uma galinha, mas muito respeitada no âmbito profissional. Tem um filho de apenas 6 anos: Mônaco, que vai acabar virando puto ou  bailarino… ou ambas coisas. É a amante esporádica da Alemanha, um caminhoneiro rico que está casado com Áustria, que sabe que é chifruda, mas que não se importa.

A Itália é viúva faz muito tempo. Vive cuidando de São Marino e do Vaticano, dois filhos católicos gêmeos idênticos. Esteve casada em segundas núpcias com Alemanha (por pouco tempo e tiveram a Suíça), mas agora não quer saber mais de homens. A Itália gostaria de ser uma mulher como a Bélgica: advogada, executiva independente, que usa calças e fala de política de igual para igual com os homens (A Bélgica também fantasia de vez em quando que sabe preparar espaguete).

A Espanha é a mulher mais linda de Europa (possivelmente a França se iguale a ela, mas perde espontaneidade por usar tanto perfume). É muito tetuda e quase sempre está bêbada. Geralmente se deixa seduzir pela Inglaterra e depois a denuncia. A Espanha tem filhos por todas as partes (quase todos de 13 anos), que moram longe. Gosta muito deles, mas a perturbam quando têm fome, passam uma temporada na sua casa e assaltam sua geladeira.

Outro que tem filhos espalhados pelo mundo é a Inglaterra. Sai de barco de noite, transa com alguns babacas e nove meses depois, aparece uma nova ilha em alguma parte do mundo. Mas não fica de mal com ela. Em geral, as ilhas vivem com a mãe, mas a Inglaterra as alimenta. A Escócia e a Irlanda, os irmãos da Inglaterra que moram no andar de cima, passam a vida inteira bêbados e nem sequer sabem jogar futebol. São a vergonha da família.

A Suécia e a Noruega são duas lésbicas de quase 40 anos, que estão bem de corpo, apesar da idade, mas não ligam para ninguém. Transam e trabalham, pois são formadas em alguma coisa. Às vezes, fazem trio com a Holanda (quando necessitam de maconha, haxixe e heroína) outras vezes cutucam a Finlândia, que é um cara meio andrógino de 30 anos, que vive só em um apartamento sem mobília e passa o tempo falando pelo celular com a Coréia.

A Coréia (a do sul) vive de olho na sua irmã esquizóide. São gêmeas, mas a do Norte tomou líquido amniótico quando saiu do útero e ficou estúpida. Passou a infância usando pistolas e agora, que vive só, é capaz de qualquer coisa. Estados Unidos, o retardadinho de 17 anos, a vigia muito, não por medo, mas porque quer pegar as suas pistolas.

Irã e Iraque eram dois primos de 16 que roubavam motos e vendiam as peças, até que um dia roubaram uma peça da motoca dos Estados Unidos e acabou o negocio para eles. Agora estão comendo lixo.

O mundo estava bem assim até que, um dia, a Rússia se juntou (sem casar) com  a Perestroika e tiveram uma dúzia e meia de filhos. Todos esquisitos, alguns mongolóides, outros esquizofrênicos. Faz uns dias, e por causa de um conflito com tiros e mortos, nós, os habitantes sérios do mundo, descobrimos que tem um país que se chama Kabardino-Balkaria. É um país com bandeira, presidente, hino, flora, fauna… e até gente! Eu fico com medo quando aparecem países de pouca idade, assim de repente. Que saibamos deles por ter ouvido falar e ainda temos que fingir que sabíamos, para não passar por ignorantes.

Mas aí, eu pergunto: por que continuam nascendo países, se os que já existem ainda não funcionam?

Mafaro

Mafaro diko fará
Mafaro diko fará

No te água pa bebê
No comida pa cumê
E eu sinto felicidade em você

Não tem água pra beber
Nem comida pra comer
E eu sinto, felicidade em você

Mafaro diko fará
Mafaro diko fará

Você vai ouvir, no podcast, MAFARO, do André Abujamra, que fez a trilha sonora deste programa. Escolhi o André pois acho que ele é um dos artistas brasileiros que faz o som mais globalizado que conheço. Mafaro quer dizer ALEGRIA no idioma do Zimbabwe.

Olhando os países como se fossem gente, fica mais fácil de entender o mundo globalizado? Olha, eu achei engraçado, mas continua impossível de ser entendido…

E é assim, ao som de MAFARO com André Abujamra que o Café Brasil que falou do mundo globalizado, via embora.

Com o internacional Lalá Moreira na técnica, a globalizada Ciça Camargo na produção e eu, o bauruense Luciano Pires, na direção e apresentação.

Estiveram conosco o Karnak, André Abujamra, o grupo Devas, os Jet Blacks, Artur Moreira Lima o escritor argentino Hernán Casciari e o padre Teillard de Chardin.

Se você quer mais, acesse www.portalcafebrasil.com.br e cadastre-se em nossa comunidade. Tem mais conteúdo por lá, inclusive com uns downloads legais…

E para terminar, uma frase de quem hein? Claro de Pierre Teilhard de Chardin

“Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais vivendo uma experiência humana.”

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