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246 – No mundo do caraiveiês

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Luciano Pires -

O programa de hoje vai incomodar os lingüistas “progressistas”, pois mais uma vez tratará da militância ideológica que está tentando destruir o idioma que falamos. No Programa Internacional de Avaliação dos Alunos 2009 (Pisa), da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, o Brasil ocupa o 53º lugar no ranking geral, num total de 65 países que fizeram o exame.E quem devia educar, faz apologia do erro. Definitivamente, nóis invertemo as coisa. Na trilha sonora, Zé Fidélis,Moreira da Silva, Jonathan Nascimento, Edson 7 Cordas, Eduardo Reis, Zero, Paulinho Dias e Thiago Lima, Moraes Moreira e Raul de Barros. Apresentação de Luciano Pires.

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Bom dia, boa tarde, boa noite. Cara, eu tenho impressão, às vezes, que o idioma que falamos é uma frágil criança sendo perseguida por assassinos. Tem que ser protegida todo dia. O programa de hoje vai incomodar os lingüistas xiitas, pois vou mais uma vez tratar da palavra degradada.

Começo com uma frase do educador Paulo Freire:

Quem não lê, não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo.

E sabe quem ganhou um exemplar de meu livro BRASILEIROS POCOTÓ?  Foi a Polyana, que escreveu assim:

“Oi Luciano.
Te acompanho desde que comecei ouvir o nova manhã na 89.7. Acho que já tem bastante tempo, já li um livro seu “Nóis que invertemos as coisa” e sempre indico para as pessoas.  Hoje estou no Canadá, fazendo um intercâmbio, fico ansiosa para ouvir seu podcast semanal, assim fico mais perto do meu país e vejo que realmente existem pessoas que fazem a diferença. Confesso que nunca comentei pq sempre achei que vc não lesse ou que não tivesse RELEVÂNCIA os comentários, mas… estou me redimindo. Acho muito interessante a maneira que você pensa e que expõe suas ideias e nos provoca. Confesso que um dos inspiradores para eu fazer meu intercâmbio foi você, que sempre fala que devemos correr atrás do que queremos e sermos felizes. Confesso também que cada escolha é uma renúncia e quando peso que tenho que enfrentar o frio de 10 graus negativos para ir pra escola, em um lugar que não conheço ninguém e não falo direito a língua, penso que vc e outras pessoas já enfrentaram coisas piores e sobreviveram, e isso me motiva e continua me inspirando, afinal, alguém já disse, o preço de uma conquista é proporcional ao seu tamanho.
Muito obrigada pelas “broncas” e principalmente por nos ajudar a realizar nossos sonhos.”

Ô Polyana, que legal saber que o Café Brasil ajuda você a se aquecer nesse friozinho brabo! Olha só, a Polyana ganhou o livro pois comentou o programa. E você aí? Vai encarar?

E então ficamos sabendo que o Programa Nacional do Livro Didático, do Ministério da Educação (MEC), distribuiu a cerca de 485 mil estudantes jovens e adultos do ensino fundamental e médio uma publicação chamada “Por uma vida melhor”que faz uma defesa do uso da língua popular, ainda que com incorreções. Para os autores do livro, deve ser alterado o conceito de se falar certo ou errado para o que é adequado ou inadequado. Exemplo: “Posso falar ´os livro´?´ Claro que pode, mas dependendo da situação, a pessoa pode ser vítima de preconceito linguístico” –  diz um dos trechos da obra da coleção “Viver, aprender”.

Outras frases citadas e consideradas válidas são “nós pega o peixe” e “os menino pega o peixe”. Uma das autoras do livro, Heloisa Ramos afirmou, em entrevista ao “Jornal Nacional”, da Rede Globo, que não se aprende a língua portuguesa decorando regras ou procurando palavras corretas em dicionários. Dona Heloisa disse que “O ensino que a gente defende é um ensino bastante plural, com diferentes gêneros textuais, com diferentes práticas de comunicação para que a desenvoltura linguística aconteça”.

Burro amarelo

Eu tenho um burro amarelo
Que se chama Serafim
Quando penso em montar nele
Ele olha feio pra mim
Tem um metro só de altura
O burro é pequenininho
De tanto comer pertinho
Fez um calo no focinho
Quando põe-se a meter coices
Ele é muito engraçadinho
É um burro analfabeto
Cafageste e ordinário
A mãe era a mula manca
E o pai era o canário
Não gosta que montem nele
Acha isso um desacato
Aos domingos não trabalha
É sócio de um sindicato
Esse burro não é burro
O burro sou eu de fato.

Ai, que preguiça… Só mesmo Zé Fidélis com o BURRO AMARELO, paródia que ele compôs e gravou sobre a música MULA PRETA, aquele clássico de Tonico e Tinoco, para tirar um pouco da preguiça da gente.

Só pra lembrar, aí vai a letra da:

Mula preta

Eu tenho uma mula preta
Tem sete palmo de altura
A mula é descanelada
tem uma linda figura
Tira fogo na calçada
no rampão da ferradura
Com a morena dilicada
na garupa faz figura
A mula fica enjoada,
pisa só de andadura
O ensino na criação
veja quanto que regula
O defeito do mulão,
eu sei que ninguém calcula
Moça feia e marmanjão,
na garupa a mula pula
Chega a fazer cerração
todos pulos dessa mula
Cara muda de feição,
sendo preto fica fula
Eu fui passear na cidade,
só numa volta que eu dei
A mula deixou saudade
no lugar onde eu passei
Pro mulão de qualidade
quatro conto eu injeitei
Prá dizer mermo a verdade,
nem satisfação eu dei
Fui dizendo boa tarde,
prá minha casa voltei
Soltei a mula no pasto,
veja o que me aconteceu
Uma cobra venenosa
a minha mula mordeu
Com o veneno desta cobra
a mula nem se mexeu
Só durou mais quatro horas
depois a mula morreu
Acabou-se a mula preta
que tanto gosto me deu

Eu fico pasmo com a facilidade com que a militância enfia questões ideológicas em nosso dia a dia. Agora querem fazer apologia do erro?

Sobre esse assunto, vou usar fragmentos dos comentários que o jornalista Reinaldo Azevedo publicou em seu blog.

Ao fundo, no podcast, você ouvirá DEGENERADO, de W.Rocha Ferro (não achei em nenhum lugar o que quer dizer o W…), com Jonathan Nascimento, Edson 7 Cordas, Eduardo Reiz, Zero, Paulinho Dias e Thiago Lima, do maravilhoso CD Brasileirinho – Grandes Encontros do Choro Contemporâneo.

Como ficou evidenciado, trata-se de um manifesto contra a norma culta. Seus autores sustentam que “é importante que o falante de português domine as duas variantes e escolha a que julgar adequada à sua situação de fala”. Uma das variantes é o “erro”. Assim, tem-se que, para esses valentes, há situações em que ele é preferível ao acerto. Só se esqueceram de considerar que, afinal de contas, cada usuário da língua pode errar à sua maneira.  

Ninguém se expressa perseguido por um manual de gramática, mas uma coisa é entender por que a fala “inculta” do é eficiente, funciona, comunica outra, diferente, é sugerir que as variantes são só uma questão de escolha e que a norma culta é uma imposição do preconceito lingüístico, determinado, não se fala o nome, mas está subjacente, pela luta de classes. Trata-se de uma tolice, de uma falsa questão.

Uma coisa é explicar por que uma mensagem fora do padrão formal da língua funciona outra coisa, diferente, é atestar a sua validade como uma variante da língua. Não dá! Português não é inglês, por exemplo. Na nossa língua, os adjetivos têm flexão de gênero e número, e os verbos, de número. Quem dominar com mais eficiência esse instrumental terá vantagens competitivas vida afora. O que esses mestres estão fazendo, sob o pretexto de respeitar o universo do “educando”, como eles dizem, é contribuir para mantê-lo na ignorância.

Em qualquer lugar do mundo — Brasil, Cuba ou Suécia, o pleno domínio da língua oficial acaba selecionando pessoas para determinadas atividades. Vale até para a China, que tem o mandarim como o idioma da administração do estado. Assegurar aos estudantes – que já falam e escrevem segundo os ditames de seus próprios erros e pautados por ignorâncias específicas – que os níveis de linguagem são equivalentes e que se está diante de uma questão de escolha corresponde a uma mentira, que será desmentida pela vida. Ocupar uma única aula que seja com esta bobagem, em vez de ensinar análise sintática, constitui um crime contra a educação.

A quem interessa esse debate sobre preconceito linguístico, níveis de linguagem, eficiência da comunicação e afins? Aos estudantes? Não! Isso é, e deve ser, preocupação de especialistas, inclusive os do ensino. Se um professor consegue identificar os erros mais frequentes de seus alunos – tendo a norma culta como referência, se consegue caracterizá-los, entender a sua natureza, então se torna certamente mais fácil ensinar a, vá lá, língua oficial.

O país vive um fenômeno terrível. A escola era um privilégio, expressão óbvia da injustiça social, o que condenava o país ao atraso. Era para poucos, mas, sabe-se, eficiente naquele pequeno universo.

A necessária massificação trouxe consigo a perda da qualidade. Uma escola universalizada é necessariamente ruim? Não! Mas, para ser boa, precisa operar com critérios muito rígidos de seleção de mão-de-obra e de avaliação de desempenho dos professores, além, obviamente, de contar com infra-estrutura adequada. Não temos nada disso.

O Analfabeto

O analfabeto não vence na vida
E tem a sua lida presa aos demais
O analfabeto não sabe de nada
Não lê as notícias que vem nos jornais
O analfabeto é um papagaio
Só fala porque ouve outro falar
E em caso de assinar um documento
Ele deixa a ficha do seu polegar
Quando usar o seu vocabulário
Disse um doutorando a um analfabeto
Num jantar
Ele respondeu: “o meu prato está cheinho”
Aceito um bocadinho só, pra eu provar.
Juro que naquele ambiente
Viu toda gente desse homem que padece
Lhe perguntaram se ele era humorista
Ele disse:
– Eu, hein doutor! Antes sêsse mas não ésse.

Grande Moreira da Silva…aqui ele nos presenteia com O ANALFABETO lá de  1964…

Pois então. Eu recebi da minha amiga Jussara Silveira um trecho do livro Professora, sim, tia, não, de Paulo Freire. Ele vai da alfabetização à pós-graduação sem as enrolações dos acadêmicos atuais.

Ao fundo você ouvirá LAMENTOS, de Pixinguinha, com Altamiro Carrilho.

A forma crítica de compreender e de realizar a leitura da palavra e a leitura do mundo está, de um lado, na não negação da linguagem simples, “desarmada”, ingênua, na sua não desvalorização por constituir-se de conceitos criados no cotidiano, no mundo da experiência sensorial. De outro lado, está na recusa ao que se chama de “linguagem difícil”, impossível, porque desenvolve-se em torno de conceitos abstratos.

Pelo contrário, a forma crítica de compreender e de realizar a leitura do texto e a do contexto não exclui nenhuma das duas formas de linguagem ou de sintaxe. Reconhece no entanto, que o escritor que usa a linguagem científica, acadêmica, ao dever procurar tornar-se acessível, menos fechado, mais claro, menos difícil, mais simples, não pode ser simplista.

Ninguém que lê, que estuda, tem o direito de abandonar a leitura de um texto como difícil porque não entendeu o que significa, por exemplo, a palavra epistemologia.

Assim como um pedreiro não pode prescindir de um conjunto de instrumentos de trabalho, sem os quais não levanta as paredes da casa que está sendo construída, assim também o leitor estudioso precisa de instrumentos fundamentais sem os quais não pode ler ou escrever com eficácia. Dicionários, entre eles o etimológico, o de regimes de verbos, o de regimes de substantivos e adjetivos, o filosófico, o de sinônimos e de antônimos, enciclopédias. A leitura comparativa de texto, de outro autor que trate o mesmo tema cuja linguagem seja menos complexa.

Usar esses instrumentos de trabalho não é como às vezes se pensa, uma perda de tempo. O tempo que eu uso, quando leio ou escrevo ou escrevo e leio, na consulta de dicionários e enciclopédias, na leitura de capítulos, ou trechos de livros que podem me ajudar na análise mais crítica de um tema é tempo fundamental de meu trabalho, de meu ofício gostoso de ler ou de escrever.

Enquanto leitores, não temos o direito de esperar, muito menos de exigir, que os escritores façam sua tarefa, a de escrever, e quase a nossa, a de compreender o escrito, explicando a cada passo, no texto ou numa nota ao pé da página, o que quiseram dizer com isto ou aquilo. Seu dever, como escritores, é escrever simples, escrever leve, é facilitar e não dificultar a compreensão do leitor, mas não dar a ele as coisas feitas e prontas.

A compreensão do que se está lendo, estudando, não estala assim, de repente, como se fosse um milagre. A compreensão é trabalhada, é forjada, por quem lê, por quem estuda que, sendo sujeito dela, se deve instrumentar para melhor fazê-la. Por isso mesmo, ler, estudar, é um trabalho paciente, desafiador, persistente. Não é tarefa para gente demasiado apressada ou pouco humilde que, em lugar de assumir suas deficiências, as transfere para o autor ou autora do livro, considerado como impossível de ser estudado.

Eu concordo com o Paulo Freire. Essa história de que quando a gente está lendo está trabalhando. Pra mim é assim também. Mas, se eu estiver num lugar sentado, digamos, num restaurante e lendo alguma coisa, eu tenho a impressão que as pessoas que passam por mim e olham aquela cena, querem dizer sabe o que?

– Vai trabalhar, vagabundo!!!!!

Sobre a recomendação do escritor que deve evitar escrever difícil, veja só como se refere um mestrando a uma determinada situação:

A sacarose extraída da cana de açúcar, que ainda não tenha passado pelo processo de purificação e refino, apresentando- se sob a forma de pequenos sólidos tronco-piramidais de base retangular, impressiona agradavelmente o paladar, lembrando a sensação provocada pela mesma sacarose produzida pelas abelhas em um peculiar líquido espesso e nutritivo. Entretanto, não altera suas dimensões lineares ou suas proporções quando submetida a uma tensão axial em conseqüência da aplicação de compressões equivalentes e opostas.

A sabedoria popular descreve a mesma situação assim: a rapadura é doce, mas não é mole não.

Então recebo por email um texto chamado O GRANDE SEGREDO DO CARAIVEIÊS, que me pareceu uma previsão de como será o mundo em breve.

Ao fundo você ouvirá PAU NO BURRO, de Guedes e Barros, com Raul de Barros e Orquestra.

Já posso me considerar um poliglota. Nada de palavras perdidas, frases de efeito ou Curso de Idiomas Globo. Estou falando de conhecer profundamente outro idioma, sua gramática, seus mistérios. E isso tendo estudado em uma instituição reconhecidamente competente e com um histórico exemplar no meio acadêmico.

O curso – intensivo, confesso – se deu durante a manhã de segunda-feira passada na Universidade de Brasília. De início, tudo soou estranho ao meu ouvido, mas logo fui me acostumando. Todos os alunos da UnB que me auxiliaram no aprendizado desse novo idioma são profundos conhecedores, verdadeiros mestres, doutores filólogos em Caraiveiês.

O primeiro contato com o idioma pode causar alguma estranheza. Mas isso se deve unicamente à ignorância que se tem em relação ao maravilhoso mundo do Caraiveiês. Eu só escutava ” Carai, véi! Carai, véi! Carai, véi! Carai, véi!”. Parecia tudo igual, que aqueles adolescentes só sabiam falar isso. Pobre néscio. Meia hora depois de “Carai, véi! Carai, véi! Carai, véi!” no pé da orelha, comecei a perceber a sutileza do vernáculo, abri as portas da percepção e fez-se luz em minha estupidez.

Perceba a beleza do Caraiveiês castiço utilizado pelos jovens acadêmicos. Delicie-se com o seguinte diálogo:

– Carai, véi!

– Carai, véi! Carai!!

– Caraaaaaai, véi! Carai!

– Não! Carai, véi! Véi?! Carai!!!

– Caraaaaaaai, caraaaaaaaai, véi! Carai!

– Carai, véi! Carai, véi!

Apreciou? Conseguiu captar a sutileza da pronúncia? Aí reside o grande segredo do Caraiveiês ! A chave para o conhecimento dessa ferramenta indispensável no mundo moderno. Inglês é o carai, véi! Francês? Carai, véi! Espanhol? Véi, carai!

O Caraiveiês tem apenas três vocábulos: “carai “, ” véi” e “não “. Este último é igualzinho ao nosso advérbio de negação em Português, mas tem sentido contrário. Em Caraveiês, ” não” é uma forma de afirmar com veemência alguma coisa e, ao mesmo tempo, é o superlativo da expressão “carai, véi”.

A propósito, temos que tomar cuidado com os falsos cognatos entre Caraiveiês e Português. Muita gente ao escutar, por exemplo, uma expressão como “carai, véi” ou “caraaaaai, véi” pode querer traduzi-la por ” caralho velho”. Ledo engano. “Caralho velho” é problema geriátrico e Caraiveiês é língua viva, viril e vibrante.

Fico imaginando onde irá parar nosso pobre Português diante da força de tão moderno idioma.

Perguntei a uns dos poliglotas da UnB e ele foi enfático: “Carai, véi!” Indaguei a outro e, percebendo em mim um neófito nessa arte, respondeu nos dois idiomas: “Carai, véi! Sei não.” Eu também não sei.

Indagações de um analfabeto

Cantoria eu faço muita
E o meu tema predileto
Logo Vê quem me assunta
È busca o rumo certo
Vivo da minha labuta
Sofro mas não fico quieto
Arrespondo essa pergunta
Que é de um analfabeto

O que é mió no mundo?
Nesse mundo o que é mais?
O que é mió no mundo?
Me diga se for capaz.

Será que é o dinheiro
Que tudo pode comprar?
Saúde,felicidade
Inté no céu um lugar

Quem sabe sejas muié
Que deus no mundo boto
Formosa que nem a Lua
Cheirosa que nem fulo
De voz doce e macia
Jeitim de fogo pagô

O que é mió no mundo?
Nesse mundo o que é mais?
O que é mió no mundo?
Me diga se for capaz.

Será que é o artomóve
Correndo pelas estradas
Levando e trazendo gente
Numa pressa disgramada

Me arresponda esse menino
Não será os avião?
Esse bicho que avoa
Parecendo um gavião
Levando gente lá dentro
Inté mermo pro Japão
O que é mio no mundo?
Nesse mundo o que é mais?
O que é mio no mundo?
Me diga se for capaz.

Será que não é o rádio?
Esse bicho falador
Leva e traz a notícia
Na boca do locutô

Ô será que não vai ser
A tá da televisão
Entre pro dentro de casa
Num dá nem satisfação

E Os caminho da perdição
O que é mió no mundo?
Nesse mundo o que é mais?
O que é mió no mundo?
Me diga se for capaz.

Ou será que não vai ser
o ta do computador?
Inventado no estrangeiro
Que nem praga se ispaiô

Num será as medicina?
Que cura tanta doença
Dispois da pinicilina
E o progresso da ciência
Ou a fé de todos nois
na divina providência

antoncê escuita seu moço
que agora eu vou dizer
nada di mió terá
que saber ler e escrever
nada de pior conheço
do que ser anarfabeto
sem saber diferençâ
o errado do que é certo

tudo que no mundo existe
como acabo de expricá
tem a sua serventia
não há mesmo o que negar
resumindo a cantoria
que fiz com dedicação
digo com sabedoria
repito como lição

a mió coisa que existe
no mundo é a inducação

E é assim ao som de INDAGAÇÕES DE UM ANALFABETO, DE Mores Moreira e Zé Walter que o Café Brasil que tratou do assassinato da nossa língua diariamente, vai embora.

Esse tema é mais um daqueles polêmicos, que renderá outros programas. De minha parte, pretendo continuar chamando de erro aquilo que eu considero errado.

Com o ilustrado Lalá Moreira na técnica, a erudita Ciça Camargo na produção e eu, o humilde aprendiz Luciano Pires na direção e apresentação.

Estiveram conosco Zé Fidélis, Paulo Freire, Moreira da Silva, Jonathan Nascimento, Edson 7 Cordas, Eduardo Reiz, Zero, Paulinho Dias e Thiago Lima, Moraes Moreira, Raul de Barros e a ouvinte Polyana.

Olha. Eu não sei quem escreveu o texto do “Caraiveiês”. Se vocês souberem, mandem pra mim.

Este é o Café Brasil, um programa ouvido por gente interessada em exercitar o cérebro, formadora de opinião e que influencia outras pessoas. Já pensou a sua marca aqui, mostrando que você se importa? Seja um patrocinador do Café Brasil. Custa pouco, não dói nada e você ainda ajuda a estimular as pessoas a pensar. Pensar? Pô, meu, no Brasil de hoje isso é fazer muito! Entre em contato através do www.portalcafebrasil.com.br  e junte-se a nós!

E para terminar, uma frase de Paulo Freire:

A ignorância é a maior multinacional do mundo.

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