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044 – Música e Ditadura

044 – Música e Ditadura

Luciano Pires -
Gratuito!
17 MB

– Bom Dia, boa tarde, boa noite… Olha só, está chegando mais um cafezinho. O seu Café Brasil! Aquele programinha feito com carinho direitinho pro seu radinho, sabe? Pois hoje, prepare-se. Vamos às trevas. O tema do programa é a ditadura e a censura. E abrimos com uma frase de autor desconhecido:

Censura é a reação da ignorância, à liberdade.

LUCIANO – Quando nasci em 1956, o Brasil tinha na presidência um sujeito interessantíssimo, Juscelino Kubitscheck, que prometia fazer em cinco anos o que qualquer outro levaria cinqüenta pra fazer. Éramos era o país do futuro, todos os sonhos eram possíveis. O mundo aplaudia a Bossa Nova; a televisão dava seus primeiros passos; Brasília era inaugurada. Os brasileiros eram campeões mundiais de futebol e de basquete. Uma tenista – Maria Esther Bueno – vencia em Wimbledon. Eder Jofre consagrava-se campeão mundial de boxe. E uma porção de gente fazia acontecer, transformando sonhos impossíveis em realidade. Era fascinante ver a coragem, o senso de oportunidade, a visão dos empreendedores brasileiros. A bossa nova, criada no fim dos anos 50 por artistas como Vinicius de Moraes e Tom Jobim, ficou marcada como a trilha sonora do governo democrático de Juscelino Kubitschek. O Brasil ia bem, o sentimento de confiança era generalizado. Os principais temas das letras daquelas canções musicalmente revolucionárias eram o amor, a beleza e o sorriso da garota mais linda, mais cheia de graça. Mas as coisas iriam mudar um bocado…

Você está ouvindo TROPICÁLIA, a música que deu o nome ao movimento que abalou as bases da Música popular Brasileira, em plenos anos de chumbo. Caetano, Gil, Duprat…gente que teve coragem de subverter a ordem cultural num momento em que se podia pagar a irreverência com a vida…

 

Mas de repente, em 1964, toda aquela exuberância acabou, quando um Golpe depôs o presidente João Goulart, dando espaço a um regime militar que só foi encerrado – de forma pacífica – com a eleição indireta de Tancredo Neves e a posse de José Sarney como Presidente da República, em 1985, vinte e um anos depois.

Nos primeiros anos do governo militar, a economia prosperou e obras faraônicas começaram a ser feitas – como a Ponte Rio- Niterói e a Rodovia Transamazônica. O crescimento econômico e o sentimento de anticomunismo, em plena Guerra Fria, foram dois alicerces importantes para os generais. Mas a face mais negra dessa história foi a restrição às liberdades individuais, principalmente a partir da promulgação do Ato Institucional Número Cinco. Muitos intelectuais e artistas foram exilados e boa parte da classe artística se engajou contra o Regime e deu a cara a tapa. Aquele foi um dos períodos mais férteis e turbulentos da nossa música popular.

É claro que é impossível falar de ditadura e de música sem tocar o hino que Millôr classificou como “a nossa Marselhesa”: Pra não dizer que não falei das flores. Um poderoso manifesto de Geraldo Vandré, tão forte que até hoje é utilizado nos momentos em que o povo procura demonstrar sua insatisfação com o governo.

Com os novos tempos, eram necessários conteúdos mais agressivos, politizados. Era o início da época dos grandes Festivais da Música, grande atração da TV, que crescia como nunca, ocupando o lugar do rádio como principal meio de comunicação popular.

Os festivais eram uma febre e revelaram artistas como Edu Lobo, Caetano Veloso, Elis Regina e Jorge Benjor (na época Jorge Ben), além de Chico Buarque de Holanda, que conseguiu como poucos fazer oposição ao Regime de forma inteligente, com letras que permitiam várias interpretações e enganavam os censores da época. Mesmo assim, teve que assinar algumas músicas sob o pseudônimo Julinho de Adelaide.

Você está ouvindo “Jorge Maravilha”, composição de Julinho da Adelaide – na verdade Chico Buarque – que falava da filha do então presidente Ernesto Geisel. Você não gosta de mim, mas sua filha gosta…

 

Um fator determinante, sem dúvida foi  o fato da televisão inaugurada por Assis Chateaubriand  em  1950,  tornar-se bastante popular na década de 60, impulsionando a nossa música, através dos festivais da canção. O primeiro grande momento da era dos festivais, foi sem dúvida o II Festival da Record de 1966, a disputa acirrada, entre “Disparada” de Geraldo Vandré e Théo de Barros, e “A Banda” de Chico Buarque de Holanda, dividiu o público.  O resultado final foi o empate das duas canções, sendo que a canção de Vandré anunciava uma tendência mais crítica da desigualdade social. Postura essa, que  marcaria uma parte da MPB.

Em 1968, a juventude do mundo se rebela em vários cantos e continentes. Em Praga, na Checoslováquia, os jovens se rebelam contra um governo autoritário de esquerda, nos EUA contra a Guerra do Vietnã, na França contra o presidente De Gaulle, nem o governo moderado alemão escapa a ira dos estudantes. No Brasil, o movimento estudantil tem como alvo a ditadura militar. Mas enquanto o pau quebrava, na televisão rolava o seguinte:

 

A TV Record serviu de cenário para movimentos artísticos fundamentais da nossa Música. Compositores que não abordavam temas “contra o sistema” acabavam sofrendo represálias de companheiros de profissão.

Até o momento em que surgiu um pessoal que botou mais lenha na fogueira e virou tudo de cabeça pra baixo: os Tropicalistas. Caetano Veloso, Mutantes, Gilberto Gil, Nara Leão (que havia sido uma das musas da bossa) e Tom Zé faziam parte do histórico CD “Tropicália Ou Panis Et Circencis”. O movimento misturou num mesmo caldeirão muitas influências e estilos, e defendia uma única bandeira, acima de tudo: a liberdade de expressão. Para bom entendedor, um recado claro: a favor da liberdade e contra o policiamento, tanto o político da Ditadura como o estético da “linha dura” da MPB. Foi um dos momentos mais criativos da nossa história musical.

O grande instrumento da censura foi o Ato Institucional Número Cinco, quinto de uma série de decretos emitidos pela ditadura militar nos anos seguintes ao Golpe militar de 1964 no Brasil. Promulgado pelo Presidente Artur da Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968, foi a dura resposta a um discurso do deputado Márcio Moreira Alves pedindo às jovens brasileiras que não namorassem oficiais do Exército.

O Ato Institucional Número Cinco, ou AI-5, foi um instrumento de poder que deu ao regime poderes absolutos e cuja primeira e maior conseqüência foi o fechamento do Congresso Nacional por quase um ano. Pois encontrei o discurso que foi a gota d´água para o AI5. Ouça só. É um ator que interpreta o papel de Marcio Moreira Alves,pois a gravação original já não existe, mas no final é o próprio Marcio que comenta seu discurso.

Ouviu só? Palavras duras do Deputado. Tão duras que geraram um pedido do Ministro da Justiça para que ele fosse processado. O pedido foi negado numa cessão histórica da Câmara em 11 de dezembro de 1968, que terminou com os deputados cantando o hino nacional. E dessa negativa nasceu o dragão. Era o Ato Institucional Nr. 5. Mas essa era a censura institucional. Havia outro tipo de censura, aquela exercida pelas massas, que é tão tinhosa quanto a oficial…

Você está ouvindo “É Proibido Proibir”, que  foi apresentada por Caetano Veloso no III Festival Internacional da Canção organizado TV Globo em 1968, criado como o intuito de concorrer com a Record de São Paulo. Quando Caetano acompanhado pelos Mutantes é recebido com vaias, ofensas, ovos e tomates, surge um dos momentos mais marcantes da história da música popular brasileira. Caetano responde com um discurso radical que ficou para a história dos festivais. Ouça só…

Com o endurecimento do regime, os festivais vão perdendo  a sua força, mesmo assim continuariam revelando nomes talentosos para a música popular brasileira como Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Walter Franco, como ocorre no VII FIC. Nosso maluco beleza Raul Seixas também consegue driblar com beleza e ironia a ditadura, como ocorre em “Ouro de tolo”, um deboche  inteligente com as conquistas materiais da classe média com o milagre brasileiro. Mas um outro maluco beleza explode com uma provocação que pouca gente percebeu…

Pra quem pensou que o Bloco a que Sérgio Sampaio se referia era o de carnaval, muda tudo quando colocamos sua música sob a perspectiva da contestação ao regime. Você ouve aqui a gravação de Sérgio Sampaio em 1973, durante o festival Phono 73… Tinha um monte de censores controlando os microfones…

 

A censura se fazia presente de muitas formas. Uma das mais bizarras era quando a gravadora lançava a música, usando artifícios de estúdio para encobrir as palavras que não podiam ser ditas, como por exemplo os aplausos de uma platéia falsa. Era um estupro musical, que até hoje não entendo como é que foi justificado. Ouça só…

Você está ouvindo “Bárbara”, composição de Chico Buarque e Caetano Veloso. Esta versão foi publicada com a censura no verso onde Caetano canta “ e mergulhar no poço escuro de nós duas”. Era uma evidente alusão a uma relação homossexual que não podia ser admitida no início dos anos setenta. Fala verdade, é ridículo, não é?

O Presidente Ernesto Geisel no final do ano de 1978, revoga o AI-5, permitindo a sociedade brasileira respirar mais aliviada, a partir de 1979. Afinal, a realidade mudara muito. Os operários do ABC, já faziam greves e os estudantes retomavam as ruas com manifestações.  Depois de forte mobilização pela anistia, o novo Presidente General João Batista de Figueiredo assina o Decreto de Anistia encerrando uma década difícil com esperanças. Anistia ampla geral e irrestrita foi a conquista daqueles anos de luta. E mais uma vez a luta ficou imortalizada pela música, Com o “O bêbado e o equilibrista” de Aldir blanc e João Bosco, na voz de Elis Regina.

Pois vou encerrar o programa com uma surpresa. Você ouvirá “O Bêbado e a Equilibrista” com o MPB4 e ninguém menos que Betinho, o irmão de Henfil, que é citado na letra que foi um dos símbolos do fim dos anos de chumbo.

Pois é… lá vai mais um Café Brasil. O que aconteceu em 1964 foi uma revolução? Foi um golpe? Tem gente que aposta que a ditadura foi necessária. Tem gente que odeia falar dos militares. As mortes causadas pela direita são mais ruins que as causadas pela esquerda? Como seria o Brasil se não tivesse acontecido a ditadura? Perguntas, perguntas, perguntas…

Com Rodrigo Carraro na técnica, direção artística de Sérgio Sá, produção de Ciça Camargo e apresentação de eu: Luciano Pires.

No programa de hoje tivemos Caetano Veloso, MP4 com Betinho, Chico Buarque e Julinho da Adelaide, Sérgio Sampaio, Trio Melero-Iovine-Miguez,

E aí? Gostou? Quer baixar para ouvir em seu computador? Então acesse meu site www.lucianopires,com.br ou chame o número 11 4195 6343.

E para encerrar, uma frase-bomba do escritor francês Victor Hugo:

Quando a ditadura é um fato, a revolução se transforma num direito.