Podcast Café Brasil com Luciano Pires
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026 – Matrizes da Violência

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Luciano Pires -

Bom dia, boa tarde, boa noite, bem vindo ao nosso Café Brasil.! Como é que você vai, hein? Eu vou bem, mas tenho medo! E no programa de hoje vamos falar de nossos medos. Da violência urbana. E pra começar, trago os Racionais MC em o SOU MAIS VOCÊ.

MELÔ DO POCOTÓ

Violência, em sentido amplo, é qualquer comportamento ou conjunto de comportamentos que visem causar dano a outra pessoa, ser vivo ou objeto. Nega-se autonomia, integridade física ou psicológica e mesmo a vida de outro. É o uso excessivo de força, além do necessário ou esperado. O termo deriva do latim violentia (que por sua vez deriva de vis, força, vigor); aplicacação de força, vigor, contra qualquer coisa ou ente.

MÚSICA – CALMA VIOLÊNCIA

Você ouve “CALMA VIOLÊNCIA”, de Raimundo Fagner e Fausto Nilo, gravação do elepê Raimundo Fagner de 1976. Quem só conhece o Fagner de hoje, não sabe o que está perdendo. Aquele cearense de trinta anos atrás trazia uma poesia de impacto, uma voz crua e a melodia do nordeste. Mas isso era trinta anos atrás…

Osama Bin Laden talvez seja quem melhor usou a arma mais eficiente deste milênio: a mídia. Numa avaliação rasteira, eu diria que os aviões atingindo as torres gêmeas foram apenas 40% do evento. Os outros 60% ficaram por conta da mídia. Você contou quantas vezes viu a cena dos aviões chocando-se com as torres? Foram meses e meses de repetição, elevando o impacto do atentado a níveis impensáveis. As torres não caíram em Nova Iorque. Caíram na sala da minha casa…

SOBE

Pois acabamos de ter uma amostra de até onde os meios de comunicação de massa podem ser usados pelo terror. No caso, foi o PCC com aquela série de ataques na cidade de São Paulo. Os ataques foram 40% do evento. Os outros 60% ficaram com a mídia, que ampliou o alcance do problema para nível planetário. As emissoras de televisão e de rádio mais importantes passaram o dia e a noite cobrindo os atentados, atualizando a cada segundo o número de mortos e de ônibus queimados e jogando na sala de minha casa a viúva, o órfão e os corpos dos policiais mortos. São Paulo viveu um apagão.

Mas desta vez não foi um apagão de energia. Foi um apagão de racionalidade, uma demonstração de que não temos planos de contingência para coisa alguma neste país de administradores amadores.

Você já pensou no dia em que um furacão passar por aqui? No dia em que um terremoto acontecer? No dia em que uma praga nos atingir? Vai ser um Deus nos acuda… Afinal, estamos ocupados demais trabalhando, fazendo política ou brincando de administrar, para gastar tempo elaborando planos para lidar com catástrofes ou situações de pânico. Só conseguimos lidar, mal e mal, com nosso dia-a-dia rotineiro e nossos planinhos de curto prazo. Vivemos em sociedade como amadores. E na semana passada tivemos a prova disso. Para os profissionais, nada do que ocorreu foi imprevisível. Nada do que ocorreu foi inevitável. Nada do que ocorreu foi surpresa. Só os amadores ficaram perplexos.

SOBE

E o PCC mostrou que é profissional. Aprendeu a usar a estratégia Bin Laden. E a mídia não se importa em ser usada, contanto que tenha as melhores imagens e os melhores dramas. Contanto que consiga a audiência. E nesse processo, que é antes de tudo comercial, danem-se os valores morais.

Nada de novo, afinal cabe à mídia informar, não é?

Pois é.

Mas sabe o que me incomoda? É a repetição insana daquele zoom no olho da viúva, esperando uma lágrima. É a música de fundo durante as imagens do enterro. É a montagem de imagens sobrepondo o ônibus queimado com o corpo no chão, a vidraça estilhaçada com o transeunte desesperado, a poça de sangue com os presos no telhado… tudo editado num ritmo de filme de ação. O vídeoclipe do terror. A notícia transformada em espetáculo.

Assistindo às técnicas de cinema da mídia, em especial a televisiva, reagimos com mais emoção do que razão.

Do jeitinho que Bin Laden quer.

A imprensa tem que noticiar. Nós precisamos saber.

Mas uma perguntinha que incomoda…

Ter os meios de comunicação a serviço dos bandidos é inteligente?

Ou será burrice?

VINHETA

E nós, pobres mortais, que andamos à mercê da violência, vamos recorrer a quem? Você não sabe? Então ouça este poema chamado “Aonde andam os super-heróis?” de Michel H. Baruki :

Ninguém anda por aí sem nenhum medo,

pelas ruas o clima é de guerra,

é um pavor que escalda tarde ou cedo,

a nossa liberdade que se ferra.

Enfiam-nos na cara sempre os dedos,

na TV a violência não encerra,

ninguém pede que seja um segredo,

porém essa agressão é que mais berra.

Cadê o super homem pra socorro,

nossos super heróis para esse abrolho?

Se muito demorar quem sabe morro.

Enquanto eles não vêm eu me recolho,

pra casa do trabalho sempre corro,

pareço aposentado já de molho.

MÚSICA – DISPARADA RAP

Você ouve “DISPARADA RAP”, de Rappin Hood, a partir da “Disparada” de Geraldo Vandré e Theo de Barros, com participação de Jair Soares. Uma crônica nua e crua de nossos dias… ouça como o rap pode ser transformador…

SOBE

Falei sobre a estratégia Bin Laden , quando o terror usa a mídia para que suas ações alcancem proporções gigantescas. Num levantamento rápido, vejam o que aconteceu naquela segunda feira quando o PCC tomou São Paulo de assalto: milhares de ônibus foram recolhidos às garagens. As corridas no Jockey Clube de São Paulo foram suspensas. Vários espetáculos ou eventos culturais foram suspensos. Comércio fechado. O coquetel de abertura da exposição Por Ti América, no Centro Cultural Banco do Brasil foi cancelado. O lançamento do livro 11 Histórias de Futebol também foi cancelado. A ESPN-Brasil cancelou o programa “Linha de Passe”. O Shopping Center Norte fechou no final da tarde. Centenas de empresas liberaram seus funcionários para ir para casa mais cedo. Uma ameaça de bomba fechou o saguão de desembarque do aeroporto de Congonhas. O almoço de negócios que eu tinha foi cancelado e não consegui comprar um big mac pois o serviço de drive-tru estava fechado… E no final da tarde recebi telefonemas de amigos e parentes, dando conta que seria declarado toque de recolher às oito da noite. E de que havia ameaças de ataques no bairro onde moro, à escola onde meu filho estuda e na avenida onde eu teria que passar… São Paulo viveu um apagão.

SOBE

Mas desta vez não foi um apagão de energia. Foi um apagão de racionalidade, uma demonstração que não temos planos de contingência para coisa alguma. O dia que um furação passar por aqui, Deus tenha pena de nós. O dia que um terremoto acontecer, Deus tenha pena de nós.

O dia que uma praga nos atingir, Deus tenha pena de nós.

Estamos ocupados demais trabalhando, fazendo política ou brincando de administrar, para nos dedicarmos a elaborar planos para lidar com catástrofes ou situações de pânico. Só conseguimos lidar, mal e mal, com nosso dia a dia rotineiro. Vivemos em sociedade como amadores. E na semana passada tivemos a prova disso. Para os profissionais, nada do que ocorreu foi imprevisível. Nada do que ocorreu foi inevitável. Nada do que ocorreu foi surpresa. Só os amadores ficaram perplexos…

MÚSICA – VIVÃO E VIVENDO – RACIONAIS MC

Você ouviu VIVÃO E VIVENDO com os Racionais MC… Os Racionais trazem a realidade da periferia com crônicas cruas sobre a violência e suas raízes. São eles os novos cronistas dos novos tempos…  E agora trago o texto “Matrizes da violência” de José Paulo Cavalcanti Filho – publicado no blog de Ricardo Noblat  No programa de hoje tivemos Raimunod Fagner com Fausto Nilo, Jair Soares, os Racionais MC, Rappin Hood e Michel Baruki… uma turma da pesada….

Os presídios brasileiros sempre foram violentos. Pessoas morrem nesses depósitos de corpos sem surpresas, em crônicas de mortes anunciadas. Pior ainda ficou quando começaram as rixas entre quadrilhas. Mas então deu-se que pelos idos de 1985/1986, no presídio da Ilha Grande (Rio), como por encanto elas deixaram de ocorrer. Secretário Geral do Ministério da Justiça, pedi ao Departamento Penitenciário explicação para esse fato inusitado.

Segundo me contaram, foi tudo conseqüência de uma decisão do seu Diretor. Reuniu-se com os chefes das três maiores organizações ali então instaladas – “Comando Vermelho”, “Falange do Jacaré”, outra mais (já nem lembro o nome); e, em conjunto, listaram presos que passaram a ser divididos por facções. Cada grupo ficando em um dos quatro raios do presídio, os presos que não pertencessem a essas três grupos ocupando o quarto e último daqueles raios.

MÚSICA – SOBREVIVENDO NO INFERNO

A partir daí, passou cada grupo a utilizar as instalações do presídio em horários diferenciados. Sem se misturar. Refeições, futebol, banho de sol, tudo em rodízio. Como contrapartida, cada chefe passou a ser responsável pela ordem em seu grupo. As exigências que fizeram, era parte da negociação, foram todas atendidas. Em troca, cessaria toda violência entre esses presos.

Dentro de cada raio, passaram a ter suas celas abertas – para que pudessem os presos, sobretudo à noite, conversar, jogar baralho e ver televisão (até bem mais tarde). Curioso é que, logo, decidiram esses chefes que alguns dos presos deveriam ficar mesmo em celas fechadas. Por se mostrarem “não cooperativos”. E assim se passou a fazer. Ficando, os próprios chefes, com as chaves dessas celas.

Não sei o que aconteceu depois. O presídio hoje, inclusive, já nem existe. Mas o certo é que, durante aquele tempo, funcionou. E inacreditável, nisso, nem é que tenha funcionado. Inacreditável é o próprio fato de ter havido uma negociação como aquela. Mostrando também que qualquer reflexão sobre violência, em presídios, deve começar por lembrar que suas raízes vêm de longe. Seja como for, soluções duradouras para produzir um sistema penitenciário pelo menos decente, exigirão ao menos quatro matrizes principais:

SOBE

  1. Desenvolvimento Social. Só em cenário de oferta crescente de emprego, de economia em expansão, poderemos oferecer esperança aos jovens que formarão depois a população carcerária, quase toda composta por autores na faixa dos 15/30 anos. Mesma idade de suas vítimas. Gente a quem falta sobretudo oportunidades de trabalho. A idade média dessa criminalidade vem inclusive diminuindo – como reconheceu o último Congresso sobre Violência da ONU, em Beijin. Mas soluções nesse campo, à toda evidência, não virão logo.

SOBE

  1. Reforma dos Presídios. É preciso também garantir um mínimo de dignidade aos presos. Esse mínimo, defino como o direito de deitar na cela. Sem ter que levantar, na madrugada, para que colegas em pé também possam dormir. Não é muito. Só para lembrar, quem nunca tenha entrado num presídio vai sentir ânsia de vômito – pelo cheiro que vem de celas entulhadas de gente. Pernambuco, por exemplo, precisa de 15 novos presídios, com 500 vagas cada, apenas para acomodar esse excedente populacional. Mas, também nesse caso, não há esperanças de solução no curto prazo.

SOBE

  1. Reforma na gestão. Aqui será preciso fazer uma reflexão sobre a gestão da segurança, entre nós. Que esse modelo vem se deteriorando, com o tempo. Parte da tropa, em vez de ir às ruas, fica em Gabinetes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. São muitos. Muitíssimos. Policiais chegam a trabalhar um dia, folgando quatro. Usando esses dias não trabalhados para completar renda em duplo emprego, nas agências de segurança privada. Sendo necessário pagar melhor e comprometer os profissionais com a corporação, em emprego único. Seria inclusive interessante que os candidatos a Governador assumissem compromissos, nesse sentido.

SOBE

  1. Mediação Social. Por fim, fazer com que toda a sociedade se considere parte no grande mutirão pela redução dessa violência. Valendo notar que experiências assim já vêm sendo feitas, algumas delas com sucesso, inclusive em Pernambuco. Há razões para (alguma) esperança, pois.

SOBE

Um amigo antigo, à época diretor do Aníbal Bruno, me fez confissão preocupante. Segundo ele, não espanta que houvesse rebeliões por ali. Espantoso mesmo é não haver uma rebelião por dia. Dando os trâmites por findos, fica a sensação de que seria preciso começar tudo de novo. Sem os vícios do passado. Ao menos isso de bom, trouxe a violência de agora. A compreensão de que somos todos responsáveis pelas mudanças que terão que vir. E que virão. Não porque seja realístico, ou não, esperar que venham. Mas por ser necessário que venham.

MÚSICA – PERIGO NÃO PARE

Hummm…quanta reflexão sobra pra gente, não é? Pois é assim, ao som de Rafael Iasi e seu PERIGO, NÃO PARE, que termino o Café Brasil de hoje…

Com Rodrigo Carraro na técnica, Sérgio Sá na direção artística e apresentação de eu: Luciano Pires.

No programa de hoje tivemos Raimunod Fagner com Fausto Nilo, Jair Soares, os Racionais MC, Rappin Hood e Michel Baruki… uma turma da pesada….

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E pra terminar de vez, fique com os versos instigantes de Bertold Brecht

Do rio que tudo arrasta se

diz que é violento

Mas ninguém diz violentas as

margens que o comprimem