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Luciano Pires -

Bem vindo a mais um Café Brasil daqueles, no qual vamos discutir educação. Sempre ela, né? Pois é. E depois da discussão, o que acontece? Mais um pois é… Até quando vamos continuar discursando sobre o óbvio? Você está indignado ou indignada com a educação brasileira? E quando compara com a educação de outros países a indignação cresce? E vai fazer o que a respeito? Dar uma tuitada? É pouco, né? Na trilha sonora teremos Altamiro Carrilho, os Anjos do Inferno numa interpretação sensacional, Silvio Teles, Gedeão da Viola, Téo Azevedo, Maurício Pereira e o Turbilhão de Ritmos e o novo “hit” da internet: a professora potiguar Amanda Gurgel. Apresentação de Luciano Pires.

[showhide title=”Ler o roteiro completo do programa” template=”rounded-box” changetitle=”Fechar o roteiro” closeonclick=true]

Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem vindo a mais um Café Brasil daqueles, no qual vamos discutir educação. Sempre ela, né? Pois é. E depois da discussão, o que acontece? Mais um pois é…

Pra começar, uma frase do dramaturgo e poeta austríaco Karl Kraus:

Educação é aquilo que a maior parte das pessoas recebe, muitos transmitem e poucos possuem.

O exemplar de meu livro NÓIS…QUI INVERTEMO AS COISA vai para o Édio Oliveira, que comentou o programa NO MUNDO DO CARAIVEIÊS.

“Luciano, bom dia, boa tarde, boa noite! Faço parte daquele que parece ser um enorme grupo de ouvintes de seu podcast que se apresenta aqui pela primeira vez para um comentário. Conheci seu trabalho nos idos de 2004, quando estive em um evento realizado em Itatiba, interior de SP, onde assisti sua palestra “Brasileiros Pocotó”. Desde então sempre o acompanhei, primeiro recebendo seus textos pelo e-mail, depois lendo o dlog semanal, lendo seus livros, assistindo algumas de suas apresentações e, nestes últimos meses, ouvindo o podcast. Carai véi! Você gosta mesmo de provocar hein?

Não bastasse a indignação que senti ao tomar conhecimento da distribuição desta publicação pelo MEC há alguns dias, hoje você resolve vir jogar na minha cara que uma das autoras do livro defendeu em rede nacional, no programa de maior audiência da TV Tupiniquim, “…que não se aprende a língua portuguesa decorando regras ou procurando palavras corretas em dicionários…”. A partir desta afirmação a única conclusão que eu posso chegar é que eu sou uma besta, um ignorante que não conhece nada de sua língua, porque foi exatamente assim que aprendi a maior parte das coisas que sei sobre o idioma durante anos e anos na escola. Mas, espera aí: talvez seja exatamente esta a mensagem que este pessoal esteja interessado em passar, sabe? Talvez o interesse seja mesmo fazer com que eu me sinta uma besta por me preocupar com minha educação, com a minha maneira de me expressar, a forma de apresentar meus pensamentos, expor minhas idéias e deixe de me preocupar com isso. E, quem sabe?, talvez com o tempo eu acabe mesmo ficando incapaz de fazer isso. E, incapaz de me expressar, de desenvolver meu pensamento, incapaz de apresentar minhas idéias, eu passe a aceitar as idéias que me forem apresentadas sem fazer nenhum tipo de crítica. Eu passe simplesmente a aceitar. Aceitar qualquer coisa. Um verdadeiro pocotó! Neste caso, prefiro continuar investindo na teimosia de acreditar na importância do conhecimento da língua culta, da necessidade de me expressar bem em meu idioma, no poder da cultura, na importância da educação de qualidade, enfim, neste monte de coisas que às vezes parecem estar ficando meio fora de moda. Mesmo correndo o risco de ser visto como uma besta.”

Ô Édio, acho que a única preocupação que você deve ter é sobre quem é que estará vendo você como uma besta… Se for outra besta, fique na sua.

O Édio ganhou o livro pois comentou o Café Brasil. E você? Vai encarar?

Canção da criança

Criança feliz, que vive a cantar
Alegre a embalar, seu sonho infantil
Ô meu bom Jesus, que a todos conduz
Olhai as crianças do nosso Brasil
Crianças com alegria, qual um bando de andorinhas
Viram Jesus que dizia: Vinde a mim as criancinhas
Hoje no céu num aceno, os anjos dizem Amém
Porque Jesus Nazareno, foi criancinha também

Algum tempo atrás recebi um e-mail de uma amiga virtual, a Karen, que vivia na Austrália, não sei se vive ainda. No mail ela descreve uma experiência interessante relacionada à educação. Leiam para crer e imaginem se um dia poderemos ter algo assim no Brasil.

Ao fundo estamos ouvindo, no podcast, DIPLOMATA, de Pixinguinha, com Altamiro Carrilho.

Luciano, imagine que hoje fui a uma excursão do colégio nas classes R-7, crianças de 5 a 11 anos. Os lugares visitados: State library de Adelaide, Election education Centre e Parlament House.

Fiquei impressionada e pensativa. Nunca meu colégio brasileiro fez um passeio à Biblioteca Nacional. O que dizer de educação eleitoral? Chorei por dentro ao ver o quanto o nosso Brasil está atrasado. Estamos mais de 100 anos defasados…

Primeira parada – Election Education Centre. O Centro de Educação Eleitoral. Chegamos a um centro educacional voltado a eleições. Parecia mais um mini-museu interativo para crianças. Telas interativas onde as crianças podiam tocar e onde apareciam vários assuntos sobre eleições, tais como: como votar, informações sobre o parlamento, número de parlamentares por estado, etc..

As crianças ficaram à vontade mexendo em tudo durante uns 30-40 minutos. Depois disto, tivemos uma palestra sobre como se vota e como se procedem as eleições. Dentro da palestra o que mais me impressionou foi a palavra transparência que usaram várias vezes nas explicações dadas.
Mostraram a caixa onde se colocam os “papéis” dos eleitores (antes das crianças fazerem uma votação) e explicaram que esta tinha que estar vazia. Uma moça passou a caixa aberta mostrando a todos e explicando que tudo que eles faziam nas eleições deveria ser mostrado ao público, dando ênfase à honestidade. Para enfatizar o assunto, fizeram uma pequena votação com campanha e tudo. Os votos eram para:

1 – Pizza
2 – Hamburger
3 – Salad sandwich
4 – Fish and chips, o peixe com batata frita.

Quatro crianças foram escolhidas para fazerem a campanha eleitoral. A primeira deveria falar porque era importante votar na pizza, a segunda, no hamburger e assim por diante. Depois, três crianças foram escolhidas para “trabalhar” nas eleições. Uma era o guarda, a segunda estava incumbida de checar se cada um havia votado uma só vez e a terceira, tinha que contar as pessoas que tinham votado. As crianças então receberam um papel para votar e colocaram na urna. No final fizeram a contagem e as eliminações com as devidas explicações sobre ter que ter mais de 50% para ganhar as eleições. Por fim ganhou a pizza e os resultados foram impressos. Fiquei pensativa imaginando no Brasil.

Brasil pandeiro

Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor
Eu fui na Penha, fui pedir ao Padroeiro para me ajudar

Salve o Morro do Vintém, Pendura a saia eu quero ver
Eu quero ver o tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar

O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato

Vai entrar no cuzcuz, acarajé e abará.
Na Casa Branca já dançou a batucada de ioiô, iaiá

Brasil, esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros que nós queremos sambar

Há quem sambe diferente noutras terras, noutra gente
Num batuque de matar

Batucada, Batucada, reunir nossos valores
Pastorinhas e cantores
Expressão que não tem par, ó meu Brasil

Brasil, esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros que nós queremos sambar
Ô, ô, sambar, iêiê, sambar…

Queremos sambar, ioiô, queremos sambar, iaiá

Que delícia! Esses são os Anjos do Inferno cantando aquele clássico de Assis Valente BRASIL PANDEIRO uma idéia deliciosa pra ajudar a Karen a pensar no Brasil.

E a Karen continua, com a segunda parada.

A Biblioteca Nacional, a State Library. Fiquei com o grupo de Year 2,3,4  (crianças de 8 a 10 anos). Lá chegando, um senhor se encarregou de explicar às crianças sobre a biblioteca. Contou como funciona e mostrou um jornal bem antigo com as páginas bem amareladas. Nos levaram a uma sala onde as crianças poderiam “dirigir”, através de um volante as prateleiras.

Terceira parada : State parlament (Parlamento). Lá nos atendeu a princípio um senhor e depois chegou uma Parlamentar da oposição que explicou como tudo procedia. O que acontecia no parlamento, onde sentavam os parlamentares, algumas regras e cerimônias (rituais) que procedem até hoje, (herança da Inglaterra) e como eram votadas novas leis.  As crianças fizeram perguntas e depois voltamos para o colégio. Achei sensacional.

Moral da história: No passeio de hoje as crianças aprenderam como se vota, onde se tomam as grandes decisões e porque e que livros são importantes e a biblioteca oferece livros gratuitos. Preciso dizer mais alguma coisa?

Num de nossos podcasts antigos usei um texto muito legal de Rubem Alves que falava de escolas que são gaiolas e escolas que são asas. Vale a pena reproduzir, quer ver?

Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.

Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.

Já as escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.

Pois então. Em Maio de 2010 um vídeo apareceu na internet com o depoimento de uma professora lá do Rio Grande do Norte. Transformou-se num daqueles virais, com mais de 2 milhões de visualizações e levou a professora a ser entrevistada até no Faustão.

Ouça o que a professora Amanda Gurgel disse:

(Incorporar)

http://youtu.be/yFkt0O7lceA

O vídeo alcançou grande repercussão pois a fala da professora se deu na Assembléia Legislativa de Natal, diante de deputados e da secretária da educação. Amanda transformou-se numa daquelas heroínas do povo.

E então Silvio Teles, um leitor do jornal O GLOBO, publicou um comentário chamado “Amanda Gurgel: uma verdade virtual” que merece nossa reflexão.

Impressiona-me como uma verdade conhecida por todos pode repercutir assombrosamente por puro interesse publicitário-comercial. É o que ocorre com o fenômeno Amanda Gurgel, uma distinta professora do Rio Grande do Norte, nordestina forte e corajosa, que, revoltada com as agruras de lidar com a educação no Brasil, resolveu dizer na cara das autoridades aquilo que elas já estão cansadas de saber.

Digo que estão cansadas de saber porque, há muito, defendo a tese de que o estado de miséria que vivemos em termos de saúde, educação e segurança pública é situação deliberada pela classe política. Trata-se de um fenômeno cíclico sustentador da profissionalização da política: uma população não educada e desinformada, carente de saúde nas suas mais básicas necessidades e absolutamente entregue ao fenômeno do crime, que elege políticos mal intencionados, que, por sua vez, se encarregam de perpetuar a desestrutura social.

Não se trata de pessimismo desmotivado ou de relegar a revolta da professora ao descrédito. Assino embaixo de todo o discurso da educadora potiguar. Mas a pergunta é: o que há de novidade no discurso de Amanda Gurgel? O que, daquilo que foi brilhantemente esfregado na cara das autoridades, elas ou nós mesmos não sabíamos?

Com um eleitorado desses, qualquer falastrão, seja ele desses palhaços que apresentam programas policialescos, seja um cantador de forró de péssimo gosto, seja um comediante analfabeto, seja um jogador de futebol de carreira falida, para ficar apenas nos folclóricos, assume a missão de conduzir os destinos públicos. Com votos dessa qualidade, fica fácil para os políticos profissionais, capazes de multiplicar seu patrimônio assustadoramente em poucos meses, usarem seu poder, seu dinheiro, suas promessas e suas ameaças para se perpetuarem e manterem tudo “como antes na terra de Abrantes”.

O que o discurso de Amanda Gurgel tem de corajoso e de verdadeiro, tem de conhecido. Explodiu nas redes sociais e as emissoras de televisão não perderam a oportunidade de captarem a audiência. A professora emblemática figurou nos principais programas de televisão não pela importância de seu discurso… Ela agiu como um chamariz para novos contratos publicitários, para mais pontos no Ibope. E só!

Não se trata de pessimismo desmotivado ou de relegar a revolta da professora ao descrédito. Assino embaixo de todo o discurso da educadora potiguar. Mas a pergunta é: o que há de novidade no discurso de Amanda Gurgel? O que, daquilo que foi brilhantemente esfregado na cara das autoridades, elas ou nós mesmos não sabíamos? Eu, que estudei boa parte da minha vida em escola pública e perdi ano letivo por greve, conheço tal realidade faz tempo!

Posso estar errado, mas não acredito: Amanda Gurgel é um fenômeno que, em tempos de informação altamente perecível, se desfará sem que seu verdadeiro objetivo se cumpra. Porque antes de Gurgel muitos outros já denunciaram tal descaso, muitos já morreram em protestos, muitos já sofreram com a deliberada ausência de vontade política.

O pior é que, no fundo, todos nós sabemos o quão errado é o sistema que mantém tudo isso. Mas, na hora de agir para mudar, cada um pensa individualmente, não lembrando das mazelas denunciadas por Amanda Gurgel. Presos à ambição pessoal ou, pior, ao ciclo da dependência, cada um pensa em seu emprego, em receber sua promessa, em manter seu privilégio… Ou em agradecer o remédio, a consulta, o óculos, a cesta básica.

Na hora de gritar, comportamo-nos como uma turba, sem objetivo e sem comando, pensando com a boca, fazendo de Gurgel nossa voz, elevada ao Trending Topics do Twitter, a ponto de ela ocupar espaço nobre em rede nacional. Mas, na hora de agir efetivamente, comportamo-nos como umas raposas, pensando com o umbigo, afastando de nós a responsabilidade, ou apenas achando bonito o que disse Amanda Gurgel, mas sem um pingo de coragem para sacrificar absolutamente nada para fazer de seu discurso uma arma de verdade contra essa herança política maldita que, como parasita, faz da sociedade seu agente hospedeiro.

A solução – ou a salvação do Brasil, no dizer da professora – vem, sim, da educação. É a consciência de “Amandas Gurgel”, estampada a giz no quadro da sala de aula precária que todos os muitos professores têm de enfrentar, a única arma capaz de alterar essa situação, interrompendo o ciclo. O problema, a meu sentir, é fazer com que a denúncia que hoje todos encampam, virtualmente, seja assumida por cada um, na vida real. É fazer de Amanda Gurgel mais que uma verdade virtual.

Sou uma criança não entendo nada

Antigamente quando eu me excedia
Ou fazia alguma coisa errada
Naturalmente minha mãe dizia:
“Ele é uma criança, não entende nada”…

Por dentro eu ria
Satisfeito e mudo
Eu era um homem
E entendia tudo…

Hoje só com meus problemas
Rezo muito, mas eu não me iludo
Sempre me dizem quando fico sério:
“Ele é um homem e entende tudo”…

Por dentro com
A alma tarantada
Sou uma criança
Não entendo nada…

E é assim, ao som de SOU UMA CRIANÇA E NÃO ENTENDO NADA, de Erasmo Carlos, com o Mauricio Pereira e o Turbilhão de Ritmos que nosso Café Brasil que mais uma vez tratou de educação, vai saindo de mansinho.

Pois é… E daí hein? Até quando vamos continuar discursando sobre o óbvio? Você está indignado ou indignada com a educação brasileira? E quando compara com a educação de outros países a indignação cresce? E vai fazer o que a respeito? Dar uma tuitada? É pouco, né?

Com o educadíssimo Lalá Moreira na técnica, a educadaça Ciça Camargo na produção e eu, o aprendiz Luciano Pires na direção e apresentação.

Estiveram conosco hoje: Karl Kraus,o ouvinte Édio Oliveira, Altamiro Carrilho, minha amiga virtual, a Karen, os Anjos do Inferno, Rubem Alves, a professora Amanda Gurgel, Silvio Teles, Gedeão da Viola, Téo Azevedo, Maurício Pereira e o Turbilhão de Ritmos.

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E pra terminar, uma frase de ninguém menos que Pitágoras:

Educai as crianças, para que não seja necessário punir os adultos

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