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245 – Dinheiro e Felicidade

245 – Dinheiro e Felicidade

Luciano Pires -

O programa começa com uma frase deliciosa de Willian Shakespeare: “Quando o dinheiro vai na frente, todos os caminhos se abrem”. Mas afinal de contas, o dinheiro traz felicidade? Tem gente que diz que sim, tem gente que diz que não. E tem gente que diz que dá pra comprar. O fato é que hoje em dia é difícil imaginar a felicidade sem uma graninha no bolso. Vamos refletir a respeito? Na trilha sonora, que como sempre é rica e feliz: Renato Borghetti, Carmelia Alves, Raízes  Caboclas, Luiz Tatit, Antonio Adolfo e Tom Zé. Apresentação de Luciano Pires.

[showhide title=”Ler o roteiro completo do programa” template=”rounded-box” changetitle=”Fechar o roteiro” closeonclick=true]

Bom dia, boa tarde, boa noite. E daí? Dinheiro traz felicidade? Tem gente que diz que sim, tem gente que diz que não. E tem gente que diz que dá pra comprar. O fato é que hoje em dia é difícil imaginar a felicidade sem uma graninha no bolso. Vamos refletir a respeito? O programa começa com uma frase deliciosa de Willian Shaekespeare:

Quando o dinheiro vai na frente, todos os caminhos se abrem.

O ganhador de um exemplar de meu livro NÓIS QUI INVERTEMO AS COISA foi… Fred Klier, que comentou o programa GRANA assim:

“Oi Luciano, Sou professor universitário e sempre vivi uma dúvida, uma vez quando eu entrei na faculdade, um amigo meu me disse que faria um tal curso porque ele queria ganhar dinheiro mesmo quando todos sabiam que ele queria fazer o mesmo curso que eu. Hoje ele está ganhando muito bem mas não fala do trabalho com o mesmo entusiasmo que eu. Me achava uma pessoa medíocre mesmo tendo um desempenho acima da média nos estudos não ganhava tanto dinheiro quanto alguns amigos meus. Sempre estive feliz com meus resultados na vida o que sempre me deixou mal foi aquela pergunta: mas o que vc ganha com isso? Hoje em dia vejo a mesma angustia nos meus alunos tendo que decidir pelo que gostam ou pelo que dá dinheiro. A única coisa que eu queria ensinar é que a felicidade vem de dentro e não de uma idéia externa. Ah, e quanto a mediocridade que eu falei no início eu descobri uma coisa, não há nada menos medíocre que ser feliz! Dinheiro é conseqüência. Obrigado pelas cutucadas semanais.”

Pois é Fred. É impressionante como os conceitos de felicidade e de dinheiro sempre andam juntos, não é? Bem, o Fred está feliz. Ganhou o livro pois comentou um de nossos podcasts. E você aí? www.portalcafebrasil.com.br

Vou começar o programa com um conto. Um conto de Lia Drumond, publicado no fórum de debates do portal Café Brasil. Chama-se Dinheiro na mão.

Ao fundo, no podcast, você vai ouvir Renato Borghetti, com o clássico FELICIDADE, de Lupicínio Rodrigues.

Queria se transformar em qualquer coisa bonita, queria ser admirada pelos adjetivos que nunca usaram com ela. Queria ser desejada, invejada, imitada. Queria ser a rainha da Primavera, da bateria, do bairro, de qualquer coisa que significasse : Ela é bonita!

Sentia-se feia e assim era. Seu rosto era todo esburacado, cheio de perebas roxas de acne cutucada e cicatrizada, seu nariz era largo e caído, sua boca quase não tinha lábios, usava óculos fundo de garrafa, seu cabelo liso sempre parecia ensebado, seu corpo era redondo e não se podia distinguir onde terminavam os seios e começavam as pernas. E pra piorar tudo, ela tinha mau hálito e um problema fonológico que a fazia pronunciar as palavras como o Frajola. Cuspia enquanto falava.

Trabalhava na expedição de uma grande loja de enfeites, não tinha que lidar com o público e tinha poucos colegas por perto. Seu trabalho podia ser resumido em identificar os produtos, escrever o endereço dos compradores nas etiquetas de endereço e despachar as mercadorias no fim do dia. Não costumava sorrir e era muito tímida. Não tinha amigos e se isolava da família.

Tinha uma irmã mais velha que era linda e adorava humilhá-la. Seus pais eram evangélicos fervorosos e a obrigavam a acompanhá-los ao culto toda semana. Ela ouvia às palavras do pastor e sua fértil imaginação transformava o texto em sacanagens, como se ele estivesse lendo um poema erótico. Ela adorava uma putaria, mas escondia isso como se fosse um segredo mortal. Morria de medo de morrer virgem.

Trepa no coqueiro

Oi, trepa no coqueiro, tira coco,
Gipi-gipi, nheco-nheco, no coqueiro oi-li-rá!

Papai, cadê Maria?
Maria foi passear!
Os passeios de Maria
Faz papai e mamãe chorar!

Maria é moça nova,
Solteira, não tem juízo!
Os passeios de Maria
Só podem dar prejuízo!

Opa! Que tal Carmélia Alves interpretando TREPA NO COQUEIRO, de Ary Kerner? Essa música foi um grande sucesso no carnaval de 1929 na voz de Patrício Teixeira, e estourou para valer em 1950 com essa gravação de Carmélia Alves. Reparou na letra maliciosa? Pois é, de 1929…

Voltando ao conto da Lia Drummond sobre a coitada da moça feia… Ô Lalá, manda aí o Borghetti de novo…

Já experimentara apelidos como rolha de poço, tranca-rua de festa junina, chupeta de mamute. Já tinha ouvido que ela tão feia que parecia que lhe tinham colocado fogo na cara e apagado com um tamanco. Já tinha sido rejeitada até pelo mais feio de todos os garotos que conhecia. Pensava em juntar dinheiro e contratar um puto para tirar-lhe a virgindade, mas era muito caro bancar o puto e o motel onde teriam de ir. E, além do mais, seria o cúmulo da rejeição ter de pagar para um homem lhe querer apenas para sexo. Mas, se fosse a última opção…

Naquela manhã, caiu da cama antes do relógio despertar no horário de sempre. Exatamente sete minutos antes. Bateu o lado do rosto e foi para o trabalho com o olho começando a ficar roxo. Pegou o ônibus mais lotado que o habitual e chegou atrasada. Seu chefe reclamou, apesar de terem sido apenas dez minutos. Quando chegou ao seu departamento, encontrou uma caixinha de veludo vermelho com uma etiqueta. Na etiqueta estava escrito seu nome, era um presente. Imaginou que era mais alguma gozação de algum colega. Pensou em não abrir, mas abriu. Dentro tinha um globo de neve, desses que vendiam aos montes na loja. Só que este tinha uma linda fada lilás sentada num poço. E havia uma placa sobre o poço que dizia: Poço dos Desejos. Ela sorriu, não era uma brincadeira com seus complexos, era apenas um belo agrado. Colocou em sua bolsa e levou pra casa.

Antes de dormir, procurou uma escova de cabelo que estava em sua bolsa e notou o globo de neve. Pegou e ficou admirando a graciosidade do objeto. Imaginou que se pudesse, atiraria uma moeda ao poço e faria um desejo. Quem sabe o que poderia acontecer? E, logo depois desse pensamento, viu cair uma flor do cabelo da fada dentro do poço. Pensou: “Esse negócio não presta! Nem mexi e já está quebrando…”

No dia seguinte, achou um bilhete de loteria na rua e, por curiosidade, conferiu o resultado. Não acreditou quando viu que estava com o bilhete premiado. Sentiu-se tonta e pediu ajuda para uma atendente da casa lotérica. Sim, ela tinha acabado de ganhar quase vinte milhões de reais. Sim, ela estava milionária. Sim, agora ela era poderosa. Mal podia esperar para ter o dinheiro em mãos, contar para a família, se demitir do emprego e mandar o patrão pro inferno. Poderia fazer qualquer coisa. Poderia ficar bonita como sempre desejou, fazer plástica no nariz, lipo na pança e escova no cabelo. Poderia ser feliz, finalmente.

Alguns meses depois de ter faturado uma fortuna e continuava a mesma pessoa de sempre, só que com roupas mais caras. Não fez plástica ou escova no cabelo. Foi ao salão de beleza apenas uma vez, para ver como era…

Mas, algo realmente assustador aconteceu depois de ter ficado podre de rica: agora todos a queriam e desejavam. Ninguém mais fazia piadas sobre sua obesidade ou seu nariz de coxinha. Seu dinheiro tinha transformado sua vida. Morava sozinha, tinha homens que a queriam, sua irmã exibida e metida a idolatrava e sua família concordava com tudo o que dissesse.

O dinheiro não lhe trouxe a beleza, pois sabia que continuava a mesma toda vez que se olhava no espelho. O dinheiro lhe trouxe a hipocrisia que as pessoas têm para oferecer. Era assustador.

Mas, por pior que fosse, nunca mais seria: Jesus me ama – *mas ninguém me come…*

Olha que ótimo isso que você está ouvindo no podcast: é FELICIDADE, com o grupo RAÍZES CABOCLAS, que vem lá do Maranhão, já tem três décadas de estrada e eu acho que é mais conhecido fora que dentro do Brasil. Mas você ouve Raízes Caboclas aqui, né? No Café Brasil.

E então uma conhecida me diz:

“A felicidade e o dinheiro sempre estiveram conectados na minha vida. Se tenho grana é porque estou bem no trabalho, logo, bem comigo mesma. Porém há uma controvérsia: os momentos mais felizes que tive não dependeram de grana diretamente, mas do meu estado de espírito, de acreditar na vida, nas pessoas e na capacidade inigualável que tenho de me iludir.”

Acho que a maioria das pessoas faz assim também, é parecido. Grande parte das coisas boas que vivi não dependeu necessariamente de grana. Porém, a maior parte das coisas boas que vivi, só vivi porque tinha grana.

Na minha profissão de palestrante e consultor sou exposto diariamente a altos executivos e donos de empresas, gente que tem muito dinheiro. Ma, muito mesmo. E sabe de uma coisa? Nenhum deles chega nem perto das pessoas mais interessantes – e algumas das mais felizes – que conheço e que são, irremediavelmente, duras. Gente que está sempre batalhando por grana para pagar as contas no final do mês.

Isso me leva a concluir que existem dois tipos de felicidade: uma que se consegue com grana e outra que vem sem ela. É no equilíbrio dessas felicidades que está o segredo.

Aquela minha conhecida lida com a área artística. Perguntei se ela já se imaginou como uma funcionária pública, por exemplo, pra garantir o sustento e poder fazer as coisas que ama. Ela estranhou a pergunta, e eu completei: o Carlos Drummond de Andrade, entre outras dezenas de artistas, poetas e escritores, viveu como um burocrático funcionário público enquanto escrevia poesia. Imagine Drummond cercado diariamente de não-poetas e não-artistas. Que tipo de conversas consumia seu tempo de vida? Os mesmos assuntos mundanos de nosso dia a dia? Será que ele era um sujeito feliz? Ou seria feliz apenas quando produzia suas poesias, que nada tinham a ver com sua fonte de renda?

Talvez aí esteja a pista sobre o tal do equilíbrio: sangue de barata para suportar os pocotós e garantir o seus sustento. E inteligência para não se deixar contaminar pela burrice reinante, valorizando os preciosos momentos de nossas vidas que a mediocridade tenta desperdiçar. É justamente aí que surgem os mestres e os amigos especiais, mesmo aqueles que a gente não conhece pessoalmente, mas que nos inspiram a fazer as coisas que nos deixam felizes e que nada tem a ver com dinheiro. Quer saber?  Felicidade é estar aqui fazendo o Café Brasil para você.

Felicidade

Não sei porque eu tô tão feliz
Não há motivo algum pra ter tanta felicidade
Não sei o que que foi que eu fiz
Se eu fui perdendo o senso de realidade
Um sentimento indefinido
Foi me tomando ao cair da tarde
Infelizmente era felicidade
Claro que é muito gostoso
Claro que eu não acredito
Felicidade assim sem mais nem menos é muito esquisito

Não sei porque eu tô tão feliz
Preciso refletir um pouco e sair do barato
Não posso continuar assim feliz
Como se fosse um sentimento inato
Sem ter o menor motivo
Sem uma razão de fato
Ser feliz assim é meio chato
E as coisas nem vão muito bem
Perdi o dinheiro que eu tinha guardado
E pra completar depois disso
Eu fui despedido e estou desempregado
Amor que sempre foi meu forte
Não tenho tido muita sorte
Estou sozinho, sem saída, sem dinheiro e sem comida
E feliz da vida!!!

Não sei porque eu tô tão feliz
Vai ver que é pra esconder no fundo uma infelicidade
Pensei que fosse por aí, fiz todas terapias que tem na cidade
A conclusão veio depressa e sem nenhuma novidade
O meu problema era felicidade
Não fiquei desesperado, não, fui até bem razoável
Felicidade quando é no começo ainda é controlável

Não sei o que foi que eu fiz
Pra merecer estar radiante de felicidade
Mais fácil ver o que não fiz
Fiz muito pouca aqui pra minha idade
Não me dediquei a nada
Tudo eu fiz pela metade, porque então tanta felicidade
E dizem que eu só penso em mim, que sou muito centrado
Que eu sou egoísta
Tem gente que põe meus defeitos em ordem alfabética
E faz uma lista
Por isso não se justifica tanto privilégio de felicidade
Independente dos deslizes dentre todos os felizes
Sou o mais feliz

Não sei porque eu tô tão feliz
E já nem sei se é necessário ter um bom motivo
A busca de uma razão me deu dor de cabeça, acabou comigo
Enfim, eu já tentei de tudo, enfim eu quis ser conseqüente
Mas desisti, vou ser feliz pra sempre
Peço a todos com licença, vamos liberar o pedaço
Felicidade assim desse tamanho
Só com muito espaço!

Rararar…essa eu já toquei aqui faz muito tempo. É Luiz Tatit, com FELICIDADE.

Bem, tenho um monte de amigos que são infelizes profissionais. Por vários motivos, ostentam uma capacidade de serem infelizes como poucos. Um deles, o Minás Kuyumjian Neto um dia me surpreendeu. Tem que conhecer o Minás, pra saber do que eu estou falando. O Minás é aquele tipo do cara… ele anda numa fase, que quando ele entra na sala ele leva uma nuvenzinha preta em cima, sabe como é? Assim, quem conhece vai entender a preciosidade desse texto que ele me mandou chamado FELICIDADE, PRA VARIAR, que eu preciso mostrar pra vocês.

Ao fundo, no podcast, vamos de FACEIRO, de Chiquinha Gonzaga, com Antonio Adolfo.

Inesperadamente, hoje acordei feliz.

Sem fundamentos, sem motivos, sem explicações. Apenas feliz: a sensação radiosa de um novo dia pela frente, o antes rotineiro “bom-dia” para a esposa transformado em desejo sincero, a leitura tolerante das notícias do dia, um afago mais caloroso nos cães, o melhor sabor do café da manhã, a súbita sensação de comunhão com tudo – sem conflitos, questionamentos, idiossincrasias, prejulgamentos…

E olha que o céu está nublado, nada propício a arroubos sentimentais. E os problemas não mudaram para melhor: o saldo bancário permanece baixo, e as contas a pagar continuam chegando regularmente pelo correio e pela internet.  De repente, o pensamento mudo: “Tudo bem, eu pago numa boa”. A moça de um telemarketing qualquer liga e eu a trato muito bem, mas me livro da “jogada” me chega uma mala-direta do Renato Aragão pedindo dinheiro pra alguma coisa e eu, sem xingar baixinho, apenas rasgo e jogo no lixo meu mail tem, como sempre, uns trinta SPAN, mas hoje deletei todos alegremente, como quem apenas espreme furúnculos incômodos o cliente em potencial me escreve dizendo que encontrou um cara que faz meu serviço pela metade do preço – e não me lamento, só respondo que “tudo certo, faça com ele”.

Entro no fórum do Luciano, acesso as postagens e não leio nada que justifique virulências de minha parte. Hoje estou cordato. E feliz. Relembro uma frase do Millôr: “A hiena só come merda, trepa uma vez por ano, e ri de quê?”. E me analogo.

Por que estou de repente feliz? Talvez porque tenha dormido muito bem nesta noite, sem pesadelos ou insônias. Talvez porque de qualquer modo o sol continua nascendo pela manhã, e florezinhas silvestres seguem se abrindo na Primavera, e pássaros da estação me acordam cedinho, com seus cantos empoleirados nas árvores. Ou porque os galos da região, que nada sabem do horário de verão, começam mais cedo o entretecer os chamados que deflagram os sons mais típicos das madrugadas.

Daí me vem o perigoso corolário da felicidade. Começo, viciadamente, a me questionar: “Por que diabos estou feliz?”  Não deveria, mas é compulsivo. Basta assumir, simplesmente, que hoje estou feliz. Afinal, não é nenhum crime “estar feliz”. Também tenho esse direito. Ou não tenho, só porque sou um infeliz profissional? Então descarto a auto-interferência negativa, olho de novo as plantas e flores vicejantes, entro em conluio comigo mesmo e encano nesta vida de hoje.

Senão, ficarei infeliz de novo. E não quero.

Olha só…um presente pra finalizar este Café Brasil: Tom Zé, com TRISTEZA, de Tom e Vinícius, num arranjo delicioso.

Que tal, hein? Pra você o dinheiro traz felicidade? Eu também acho que não necessariamente. Sou daqueles que acha que sem dinheiro é possível ser feliz, sim, mas com dinheiro na mão, é muito mais fácil, né?

E vamos lá, com o milionário Lalá Moreira na técnica, essa Eike Batista de saias, Ciça Camargo na produção e eu o rico em tudo – menos dinheiro – Luciano Pires, na direção e apresentação.

Estiveram conosco o ouvinte Fred Klier, Renato Borghetti, Carmélia Alves, Minás Kuyumjian Neto , Lia Drumond, Raízes  Caboclas, Luiz Tatit, Antono Adolfo e Tom Zé. Gostou? Quer mais? Então ande com os milionários do portal Café Brasil: www.portalcafebrasil.com.br .

Pra terminar, uma frase de Pierre Lafitte, que pode ter sido tanto um professor francês quanto um famoso pirata:

Um cretino pobre é um cretino. Um cretino rico é um rico.

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