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Luciano Pires -

Bom dia, boa tarde, boa noite, ta de volta o nosso Café Brasil. Como é que você vai, hein? Eu vou bem! O cafezinho de hoje é especial. É gaúcho… E sendo gaúcho, só pode começar com um poeta. Aliás, com “o” poeta. Mário Quintana em DA OBSERVAÇÃO….

Não te irrites, por mais que te fizerem…

Estuda, a frio, o coração alheio.

Farás, assim, do mal que eles te querem,

Teu mais amável e sutil recreio…

 MELÔ DO POCOTÓ

Vamos começar o programa de hoje com um texto delicioso de Nilo Bairros de Brum, gaúcho de Rosário do Sul, Promotor de justiça, professor, escritor, poeta. Nilo pergunta: Ser gaúcho; o que é isso?

Quase sempre que discutimos sobre a essência de alguma coisa, estamos na verdade discutindo sobre as circunstâncias de aplicação de uma palavra. Quando cada um dos contendores esclarece quais as circunstâncias em que usa determinado termo, a discussão acaba. Esta verdade foi a coisa mais importante que apreendi com os filósofos da linguagem. Por isto, ao invés de sair dizendo que o gaúcho é isto ou o gaúcho é aquilo, vou esclarecer algumas circunstâncias históricas, geográficas e culturais em que a palavra é aplicada.

A História do cone sul ensina que o primeiro grupo de pessoas a que foi aplicado esse termo era composto de mestiços descendentes de europeus (náufragos, degredados e desertores) e de índias das nações Minuano e Charrua. Esses mestiços eram nômades que percorriam terras que hoje pertencem ao Uruguai, à Argentina e ao Rio grande do Sul. Não eram súditos de Portugal nem da Espanha; eram homens livres no mais amplo sentido que se possa imaginar. Viviam do abate do gado selvagem, tão livre quanto eles, mas eram tidos como ladrões, pois tanto os portugueses quanto os espanhóis consideravam-se donos das terras e dos gados que nelas viviam. Esses homens foram os primeiros gaúchos. E é errado dizer que eram uruguaios, argentinos ou brasileiros porque eles antecederam essas nações.

MÚSICA – GAÚCHO EU SOU – PERY SOUZA

Você ouve GAÚCHO EU SOU, de Eduardo Martins e Faria Corrêa, com Pery Souza… começa aqui nossa viagem musical pelo Rio Grande do Sul…

Em um sentido meramente geográfico, aplica-se o termo gaúcho às pessoas que nascem no território do Rio Grande do Sul, independentemente da identidade cultural delas. Isto nem sempre foi assim. Houve um tempo em que os habitantes dos grandes centros urbanos do Estado, Porto Alegre principalmente, rejeitavam tanto o termo “gaúcho” quanto a cultura da bombacha.

Em um sentido geográfico-cultural, pode-se aplicar esse termo às pessoas que habitam no corredor das tropas. Este corredor cultural é composto por povoações ao longo de uma rede de caminhos por onde subiam as tropas de gado e de mulas xucras em um ciclo que durou dois séculos e que abrange uma larga faixa que passa pelos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e sul de São Paulo. É a zona dos birivas, uma cultura que tem traços gaúchos e caipiras.

 

Finalmente, em um sentido puramente cultural, o termo pode ser aplicado a pessoas que não nasceram no Rio Grande nem no corredor cultural das tropas, mas que adotaram a cultura gaúcha por algum motivo. São, principalmente, os filhos dos migrantes dos estados do Sul que nasceram nos estados do Centro e do Norte e que se identificam com a cultura do Sul. Também existem aqueles que não nasceram no Sul nem são filhos de migrantes, mas que se apaixonam pela cultura gaúcha, assumindo essa identidade.

Aí está. Ser gaúcho é uma questão de identidade, mas não basta apenas sentir-se gaúcho. Ser gaúcho não é apenas um estado de espírito. É preciso agir como gaúcho em todas as situações. Para isto, é necessário estudar a história dos povos do Sul e enfronhar-se na cultura gaúcha, assumindo e vivendo os valores gaúchos.

MÚSICA – FELICIDADE – QUARTETO QUITANDINHA

Mais um clássico… FELICIDADE, Do gaúcho Lupiscínio Rodrigues, aqui interpretada pelo Quarteto Quitandinha, que era formado por Luiz Telles, Francisco Pacheco, Paulo Rushel e Alberto Rushel. Esta gravação é de 1947…

Gaúchos, gaúchos… de onde vem, hein? Achei um texto de Walmir Félix Solano Ayala, poeta gaúcho que  conta A LENDA DO PRIMEIRO GAÚCHO.

Gaúcho é o nome que  dão aos naturais do Estado do Rio Grande do Sul. Mas houve um tempo que por aquelas bandas só havia índios. E como a terra era linda, o clima agradável, o céu azul demais, os crepúsculos espetaculares, os brancos resolveram se instalar por ali. Havia uma tribo especialmente guerreira e ciosa das suas possessões. Eram os Minuanos, ágeis como o vento, garbosos e atentos na guerra e no amor. Pois os Minuanos enfrentaram os brancos com uma fúria notável.

Num  dos combates os índios Minuanos fizeram um prisioneiro. Reuniram-se os chefes e decidiram condená-lo à morte, como advertência aos outros invasores.  Prepararam então uma linda festa. O vinho de cauim, as cores de enfeite, as novas armas, as danças guerreiras, tudo foi antecipadamente ensaiado para o grande dia da vingança. O prisioneiro ficou numa cela de taquara, dia e noite vigiado por uma jovem índia da tribo. Não se falavam, mas os sorrisos e os  olhares logo construíram uma linguagem mais forte e profunda, a do amor. E a carcereira, cada dia que passava, ficava mais triste ouvindo as reuniões dos chefes, determinando a maneira como deveria morrer o intruso. Como não havia nada que fazer, o  jovem pediu à índia, por gestos de mímica, taquaras, corda feita de tripa de capivara, restos de madeira e cola silvestre. Em silêncio, a barba crescida, os olhos incendiados de simpatia pela jovem índia, que o espreitava com a doçura de uma criança, assim o prisioneiro foi construindo uma viola. mas nunca tocou. Estava triste de pensar que ira morrer.

 

Chegou enfim o grande dia. Os assados e a beberagem correram desde cedo, os homens estavam mais alegres e se exercitavam com as lanças, disparavam em fogosos cavalos cobertos de pele de onça e plumagem de papagaio. As mulheres desenhavam nos corpos curiosas formas em verde e vermelho e gritavam muito enquanto atapetavam de flores o chão batido da taba. Desde cedo o prisioneiro ficou amarrado a um tronco no centro da praça. Só a índia estava triste; de longe, oculta atrás de uma bananeira, olhava com profunda mágoa todo aquele movimento.

Alta noite, o cacique acompanhado do feiticeiro se aproximou do prisioneiro. Houve um silêncio sepulcral, os olhos todos brilhavam. Era a morte que descia com seu sorriso dourado. Então o cacique falou:

–         Homem branco, tua hora é chegada!

E o feiticeiro acrescentou:

–         Nossos deuses querem o teu sangue, porque és nosso inimigo.

O jovem não dizia nada. Houve um momento de silêncio. Dez jovens guerreiros ergueram suas lanças em direção ao peito do prisioneiro.

 

MÚSICA – MODA DE SANGUE – ELIS REGINA

Como falar do Rio Grande do Sul sem lembrar que veio de lá nossa maior diva: Elis Regina? Aqui você aprecia Elias cantando MODA DE SANGUE, de Jerônimo Jardim e Ivaldo Roque…

Voltando à nossa lenda sobre o primeiro Gaúcho…

O cacique disse ainda:

–         Antes de matar-te queremos que satisfaças teu último desejo. O que gostarias de fazer agora.

O jovem não disse nada, olhou comovidamente a jovem índia que lhe servira de vigia durante aquelas semanas de espera. Olhou e ela, como se entendesse se aproximou dele. Trazia nas mãos a viola que ele havia construído na prisão. O Jovem branco sorriu. A índia veio de mãos estendidas com o instrumento intacto. Desamarrou o prisioneiro – havia em torno um sussurro patético. Com a viola, o moço branco dedilhou a mais suave canção, sua voz se elevou com uma tristeza que fez tremer os mais empedernidos guerreiros. Cantou, cantou como um pássaro no último dia do mundo. Havia amor, vibração e nostalgia em seu canto. A índia, perto dele, chorava ajoelhada. Começou então um murmúrio vindo de todos os lados, logo crescendo, a voz ficou nítida, diziam:

– Gaúcho… gaúcho.. – que queria dizer: gente que canta triste. E todos se sentaram e ficaram ouvindo, esquecendo do ódio, da vingança e do sacrifício. A alta lua encontrou o jovem branco dedilhando a viola, calaram os pássaros ouvindo sua voz. E ele foi perdoado. Ficou com os Minuanos e casou-se com a índia. Tiveram muitos filhos e assim começou a raça gaúcha. Por isso, nas largas noites ao pé do fogo com o chimarrão e a viola, ao ouvir-se a voz do homem do sul cantando de amor e de saudade, ouve-se também um murmúrio longínquo, os garbosos fantasmas da tribo Minuano, passando entre nuvens e chamando dolosamente: “gaúcho… gaúcho….”.

MUSICA – DESGARRADOS – RENATO BORGHETTI

Hummm…você ouve DESGARRADOS, de Mario Barbará e meu amigo Sergio Napp…com Renato Borghetti, o Borghetinho… curta esse som….

E pra definir o gaúcho, hein? Tentamos a definição da palavra… Depois uma lenda. E que tal uma poesia?  GAÚCHO, de Antônio Augusto Fagundes. No fundo, vou tocar PRA TI GURIA, de Gilberto Monteiro…

Os moços de Porto Alegre /- escritores, jornalistas,

aqueles que sabem tudo, / ou pensam que sabem tudo…

disseram que já morreste. / Ou então que estás de a pé,

sem cavalo, sem bombacha, / sem bota, espora ou chapéu,

sem comida e sem estudo.

 

Moços da voz de veludo / e máquinas de escrever

produzidos no estrangeiro / dizem que tu, companheiro,

morreste ou estás mui mal / porque o êxodo rural

te atirou pelas sarjetas / sujo de pó e de barro

catando a toa cigarro /nos becos da capital…

 

E no entanto, estás vivo! / Estás vivo e trabalhando

e produzindo o que comem / esses moços do jornal.

 

Quem é gaúcho, afinal?

 

Tenho pra mim que são três: / um é o peão, o assalariado,

o operário campeiro. / O segundo é o estancieiro,

o empresário rural. /O terceiro é o camponês

que se agüenta bem ou mal / sem ter nem peão nem patrão.

No  mais, é um homem solito, / um carreteiro, talvez.

 

São os homens de a cavalo / que agarram o céu com a mão,

rasgando fronteira e chão, /marcando terneiro a pealo,

bebendo o canto do galo / no alvorecer do rincão.

 

São três homens diferentes? / No fundo, os três são um só:

mesma fala, mesma roupa, / mesma alma, mesma lida…

Em resumo, mesma vida, / mesmo barro e mesmo pó.

 

Um mais rico, outro mais pobre. / Prata, ouro, lata ou cobre

que importam, se homem é nobre / e amarra no mesmo nó?

 

A bombacha que eles usam / tem um século. Cem anos!

Os arreios do cavalo / são muitos mais veteranos:

duzentos anos talvez. / E o chimarrão, o palheiro,

o churrasco, o carreteiro,/ o truco, a tava, as campeiras,

a gaita, o chote inglês…? / São dos séculos passados,

já tinham, em 93.

 

E a mesma mulher gaúcha / inspira cada vez mais.

 

E a paisagem é sempre a mesma. / Eterna, mas sempre nova.

Do litoral à fronteira, / da serra aos campos neutrais.

Das missões até o planalto / para frente e para o alto

como regiões naturais, / do verde das sesmarias

até o ouro dos trigais / – as duas cores da pátria

que o Rio Grande esparramou / nas plagas meridionais.

 

Porque o Rio Grande é eterno / como é eterno seu luxo:

tu não morreste, gaúcho, / deixa que falem, no mais.

Deixa que o fraco de sempre / (o fracassado, o vencido)

tente te encerrar no olvido / que o futuro lhe promete.

E que te chamem de Odete / os desfibrados morais:

no lombo do teu cavalo / estás tão alto, tão ato,

que a lama preta do asfalto / não te alcançará jamais!

 

Meu pai veio da campanha / com a mulher e dez filhos

e veio para abrir trilhos, / foi sempre um homem de bem.

Jamais andou mendigando, / catando lixo nos valos

ou toco pelas sarjetas. / Não se esqueceu das carretas

nem do tranco dos cavalos.

 

Nasceu e morreu gaúcho. / Trabalhou e foi alguém.

 

E eu herdei seu evangelho. / Me orgulho daquele velho

– eu sou gaúcho também!

 

MÚSICA – VENTO NEGRO – ALMÔNDEGAS

E é assim, com  VENTO NEGRO,de Fogaça, com os Almôndegas… um hino ao Rio Grande do Sul, que nosso Café Brasil vai chegando ao final… Que tal, che? Gostaste?

Com Rodrigo Carraro na técnica, direção artística de Sérgio Sá e produção e apresentação de eu: Luciano Pires…

O programa de hoje, lá das plagas do Rio Grande, trouxe uns Tauras… Mario Quintana, Almôndegas com Fogaça, Renato Borgetti com Sergio Napp e Mario Barbará, Nilo Bairros de Brum, Antônio Augusto Fagundes, Gilberto Monteiro, Elis Regina, Walmir Ayala, Quarteto Quitandinha com Lupiscínio Rodrigues, Pery Souza com Eduardo Martins e Faria Correa… que gauchada…

Gostou? Não gostou? Quer baixar pra ouvir de novo? Acesse www.lucianopires.com.br . Ou ligue e deixe sua mensagem no operadora 11 419563 43…

E pra terminar, mais uma do gaúcho  Mário Quintana, em sua EVOLUÇÃO

O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.