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255 – Corruptinhos

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Luciano Pires -

O programa da semana começa com uma frase de Simone de Beauvoir: “O mais escandaloso nos escândalos é que nos habituamos a eles.” Voltaremos a um assunto que nunca sai de moda: a corrupção! Que alguns chamam de corrupição! Pois é, vamos tratar desse tema e chamar a responsabilidade para quem a merece: nós. É dentro de nossas casas que começa a luta contra a corrupção. Na trilha sonora aquela festa, né? Uma interpretação sensacional de um dos clássicos do chorinho com Armandinho e Yamandú Costa, a poesia musicada de Jessier Quirino, o violino de Ricardo Herz e a musicalidade e humor refinados de Carlos Careqa. Apresentação de Luciano Pires.

[enclose cafe_brasil_255_corruptinhos.mp3]

[showhide title=”Ler o roteiro completo do programa” template=”rounded-box” changetitle=”Fechar o roteiro” closeonclick=true]

Bom dia, boa tarde, boa noite. Este é o Café Brasil, um programinha que resiste à burrice no país dos pocotós! E hoje voltaremos a um assunto que nunca sai de moda: a corrupção! Que alguns chamam de corrupição! Aliás, acho que nunca esteve tão na moda, não é?

Pra começar, uma frase de Simone de Beauvoir:

O mais escandaloso nos escândalos é que nos habituamos a eles.

E na hora de escolher o ganhador do livro de hoje, NÓIS…QUI INVERTEMO AS COISA foi impossível não escolher o Bira, olha só: o Bira escreveu assim:

“Bom dia! Conheci seu programa por acaso, gosto de ouvir muito rádio e aos domingos ouço AM, e um domingo desses ouvi seu CAFE BRASIL e isso já tem 3 meses. E agora ouço sempre, gostei muito. Sou agente penitenciário, seu programa é minha companhia aos domingos às 16 hs, só tem um problema, é curto demais. Bom as coisas boas são poucas. Um abraço e continue com esse programa legal.”

O Bira escreveu para comentar o Café Brasil que ele ouviu pelo rádio, não como podcast. Mas eu fiquei fascinado com a perspectiva de ter um exemplar do meu NÓIS circulando dentro de uma penitenciária…  Me escreva, Bira, pra eu enviar o livro no seu endereço! Quem sabe você empresta depois de ler para um dos objetos do programa de hoje?

E o Marcio de Melo Castanho, que durante um período escreveu para meu site, um dia enviou um texto chamado “Xô, corrupção ! Queremos o País De Volta para o Futuro”, um texto que ainda é muito atual.

Ao fundo, no podcast, você ouve o clássico APANHEI-TE CAVAQUINHO, de Ernesto Nazareth, que foi composta em 1915 dedicada a Mário Cavaquinho, amigo de Nazareth, que é tido por algumas pessoas como o inventor do cavaquinho de cinco cordas. Aqui o bicho pega…você tem Armandinho com Yamandu Costa na interpretação. Escuta só….

Cara! Desculpa, meu! Mas tem música que não dá pra interromper. Eu pus aqui, fui colocar ela em BG, olhei pra cara do Lalá, a cara da Ciça, os três com cara de bunda, não tem como parar. Não tem…não tem como. A gente volta depois com ela em BG.

O texto do Márcio dizia assim:

Bem, amigos do Luciano Pires. Se você está aí enxugando o plasma da tela da TV, acompanhando mais um “Cidade Alerta”, e preocupado com os destinos da Brazuca aí do alto do helicóptero do “Comandante Pipoco”, acredite: o Brasil já foi o país da moda, antes de virar o país do medo.

Não falo da moda do Versolatto ou da Bundchen, embora isso também faça parte do tema.

Quero dizer que o Brasil já foi a bola da vez em matéria de charme, sedução, imagem positiva.

Para quem tem menos de trinta, não dá para acreditar, não é mesmo ?

Com tanta desorganização, com tanta corrupção ?

Pois já fomos bem melhores, meus patrícios.

Posso provar…quer voar no tempo comigo… ?

Vamos voltar a fita, então….atenção…..vrrrrrrrrr….pronto, eis-nos aqui, em preto e branco…na tela, a imagem congelada do simpático médico e então presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, chapéu Panamá, calça de linho branco e mangas arregaçadas, orgulhoso, tendo ao fundo as obras inacabadas do Palácio do Planalto. Bela foto.

Antes de apertar o “play”, vamos à tese informal desta Coluna: existem quatro maneiras de uma Nação exportar a sua Cultura, construindo uma boa imagem internacional e projetando-se positivamente na mídia mundial, o que abre caminho natural para as oportunidades comerciais e de investimentos (particularmente Turismo, atividade que praticamente sustenta um País como a Espanha).

Essa “Imagem Corporativa”, digamos assim, é projetada pelos ícones do Esporte, do Cinema, da Música e do binômio Artes/Arquitetura (aqui representada pelas obras marcantes, como a Torre Eiffel, de Paris ou as Pirâmides do Egito, por exemplo).

O país de Barak Obama sabe muito bem disso, há mais de século. Para o jovem que discordar da tese, experimente puxar pela memória, digamos, dos anos 80 ou 90 e ver quais foram seus ídolos na infância/adolescência….Michael Jordan…Arnold Schwarzenegger… Michael Jackson … Sylvester Stallone…

Muito bem. Vamos parar por aqui, pois o Cidade Alerta está até mais interessante.  Voltemos para o nosso aparelho de vídeo e apertemos o “Play” e vamos para as chamadas do “Repórter Esso” de hoje (lembre-se, estamos no túnel do tempo e levamos o vídeo junto).

ESPORTES:
– “Depois de tornar-se bicampeão mundial de futebol, o Brasil conquista também o bicampeonato mundial de basquete !! “

– “Maria Esther Bueno conquista Wimbledon pela terceira vez, após ganhar o US OPEN por duas vezes”.

– “Éder Jofre é eleito o melhor pugilista do mundo Silvio Fiolo é recordista mundial de natação Ademar Ferreira da Silva, bicampeão olímpico no salto triplo”.

CINEMA

– “Brasil conquista a Palma de Ouro em Cannes, com o “Pagador de Promessas” “O Cangaceiro” é indicado ao Oscar”.

MÚSICA

– “A Bossa Nova toma conta do mundo “Garota de Ipanema” é a música mais executada no planeta e ganha gravação de Frank Sinatra   João Gilberto e Tom Jobim lideram grupo que vai apresentar o novo gênero mundial no Carnegie Hall”.

– ARTES

-“Bienal de São Paulo é eleita, juntamente com a de Veneza, o maior evento das Artes Plásticas mundial”.

“ARQUITETURA

– “Paris Match”, “Life” e principais publicações mundiais trazem na capa o fenômeno Brasília, a capital futurista que foi erguida em apenas três anos, do nada. Lucio Costa e Oscar Niemeyer tornam-se referência mundial na arquitetura.

Pause, please.  Deixa o redator enxugar as lágrimas de nostalgia…

Incrível, mas tudo isso aconteceu num espaço de apenas cinco anos, entre 1958 e 1963. Mas, como dizia o poeta da moda, Drummond (nossa literatura ia de vento em popa) …”No meio do caminho havia uma pedra….”

Ou um tanque de guerra, com um penico sobressalente à soleira. Tudo isso foi interrompido pelo Golpe Militar de 1964. Repentinamente, num estalar de dedos, fomos catapultados (para baixo) de país charmoso à condição de república de bananas (com minúscula, mesmo) e motivo de chacota internacional. Porrada na rua. A Moda deu lugar ao Medo.  Nas casas e nas universidades onde se respirava política, música, artes, esportes… repentinamente, o temor.  Proibido falar, pois “os homens” podem não gostar.

E vieram trinta anos de obscurantismo, silêncio corrosivo, censura, falta de criatividade, até desembocarmos neste vácuo de lideranças e nesta confusão de identidade em que o País se encontra.

E a corrupção desenfreada veio nesse vácuo, pois o brasileiro ficou com medo de protestar até mesmo do motorista de ônibus que despenca ladeira abaixo, com as pessoas caindo pelo corredor.

Afinal, o motorista não é a “autoridade” do coletivo…? Até aí chega o medo e a confusão.

E eis que chegarmos a um momento em que a midia está atolada de “Horários Políticos Gratuitos” (uma nova ditadura, enfim) pois ir contra isso é “ser anti-democrático”. Em que passeatas de minorias param o trânsito da avenida Paulista, para desespero de milhares que querem apenas trabalhar ou chegar em casa, e ninguém proíbe isso pois teme passar por “politicamente incorreto”.

Esses são os reflexos, de uma “elite” política que se formou, e de uma “casta” nos escalões inferiores, insaciável no seu metiér de sugar os 40% de carga tributária de uma das maiores economias do mundo.

Mas o Brasil vai reencontrar seu caminho. E o desafio, por incrível que pareça, resume-se a dar fim a uma única palavra: IMPUNIDADE (se você entendeu “imunidade”…? Não está errado não).

Vamos, pretensiosamente aqui, puxar uma campanha nacional desde já: “XÔ, CORRUPÇÃO !! ATITUDE, BRASIL !!”. Seja bem-vindo a este novo País.

Politicagem

A tal da politicagem?
É o acento circunflexo da palavrinha cocô
É feito brigar com um gambá
Pois mesmo o cabra ganhando
Sai arranhado e fedendo
É dirigir dando ré
O cabra tem três espelhos
E ainda olha pra trás
E pode prestar atenção:
Na boca do candidato é o mesmo Mané Luis
Trabalho, honestidade
Trabalho, honestidade
Por quê?
Porque o povo gosta de mentira!
Seu Manezinho Boleiro
Suplente de merda viva
Foi dar uma de sincero
Dizendo o que pretendia
Trabalhar de terça à quinta
E roubar só o normal
Teve uma queda de votação tão pra baixo
Que até hoje ainda é suplente
Taí, fila da puta!
Tire seu político do caminho
Que eu quero passar com o eleitor
Hoje, pra esses peste eu sou Chiquinho
Fí de Seu Chico aboiador
Mas amanhã sou Chico véi que não dá trégua
Assim, táqui pra tu, fí duma égua
De domingo agora a oito
É dia de eleição
É dia do pleiteante
Do fundo do coração
Perguntar: o que desejas?
A quem tem de louça um caco
De terra só tem nas unhas
E mora de inquilino
Numa casa de botão
De domingo agora a oito
É dia “arreganha-cofre”
É de ajudar os que sofrem
É dia do estende a mão
E se agarrar com farrapos
De mastigar vinte sapos
E não ter indigestão
É dia de expor na fala
Que bem conhece o riscado
Ninguém come mais insosso
Ninguém bebe mais salgado
De domingo agora a oito
Não relampeja e nem chove
É o dia que nos comove
É o grande dia “D”
Agora, o dia “fuD”
Vai ser de domingo à nove

Uia… você ouviu, no podcast, Jessier Quirino com um trecho do texto POLITICAGEM… prestou atenção na letra? Pois é…

E então encontro um texto interessante do empresário Ricardo Semler, chamado CORRUPTINHOS, que cabe aqui como uma luva…

Ao fundo temos BOI DA CARA PRETA, popular música de ninar que não sei quem compôs, mas que aqui você ouve com o violino de Ricardo Herz…

É preciso separar tempo de aula para que a meninada pense no que eles fazem que perpetua a corrupção

MONTAMOS UM EVENTO que reunia os 50 mais representativos brasileiros para discutir os nós górdios do Brasil. O evento chamava-se DNA Brasil.

Num dos anos, o tema foi “Somos ou Estamos Corruptos?”

Um dos participantes, paladino da ética, confessou que tinha sido parado por um guarda rodoviário e, dada a pressa, decidiu colocar R$ 50 junto com a carteira de motorista.

Nós, brasileiros, participamos de uma longa série de pequenos subornos e atos que não achamos bonitos, mas consideramos um mal necessário, ou uma convenção cultural. Depois, apontamos os dedos para os eleitos pelo voto.

Sim, cada um dos partidos está compromissado com um sistema que envolve desonestidade estrutural. Mas cada brasileiro dá apoio contínuo à corrupção, mesmo na vida particular.

Desde o Cabral que veio com Pero Vaz de Caminha, passando pela alta elite que escolhia presidentes, a ditadura e a totalidade dos partidos existentes, o país sempre se caracterizou por grandes malandragens.

Nenhum político eleito tem o luxo de ser completamente honesto. E nós estamos sempre elegendo gente que exige propina, cargos ou favores -sob ameaça de paralisar o governo, como Dilma está percebendo.

O nosso Cabral atual, que anda de jatinho de empresário que depende de favores oficiais, não se digna sequer em ficar vexado. Sabe que vai ficar por isto mesmo.

Talvez porque qualquer brasileiro aceitasse uma carona de jatinho em troca de ceder um favor?

Afinal, não se troca voto por camiseta?

Claro que isto tudo não é uma característica apenas brasileira.

Num congresso anticorrupção em Praga, lembrei à delegação alemã de que a lei deles -na época- permitia deduzir do imposto qualquer suborno dado a pessoas fora da Alemanha! Vê-se a hipocrisia da realpolitik.

E a formação desta mentalidade, começa na escola? Se a maçã da professora já é símbolo sutil, de que forma a educação pereniza a desonestidade? Existe algo mais institucional do que a “cola”?

E mais: alguns dos empresários e políticos mais jovens e destacados são príncipes da corrupção, desbancando o sonho de que as novas gerações seriam menos sórdidas do que as antigas.

A cidadania ensinada na escola não chega a este tema, porque é incômodo para os pais. Preferível falar de meio ambiente, ou ensinar a não atirar o pau no gato.

Precisamos separar tempo de aula – que está sequestrado por trigonometria e tabelas periódicas- para que a meninada pense no que eles já fazem – e veem os pais fazerem – que perpetua a corrupção.

Afinal, hoje estamos presos num ciclo eterno onde filho de corrupto corruptinho é.

Não sou filho de ninguém

Hoje eu tirei o dia para pesquisar
O meu passado histórico
A minha árvore familiar
Saber de quem eu sou filho
Se eu tenho um sobrenome a zelar
Berço de ouro ou manjedoura de palha
O nome do pai ajuda ou atrapalha?
Posso ser filho de Chitãozinho e Xororó
Ou de Gilberto Gil
Será que o Lula conheceu
Nesse Brasil
Alguém que me pariu
Alguém que me pariu
Dizem que um olho parecido sempre sai
Posso chamar Chico Buarque de papai
Será mamãe a Zizi Possi
Será o Reginaldo Rossi
Quem me leva pra escola
Quem me leva pra praia
Se chamarem meu pai
Será que vai lacraia?
Também sou filho de Deus
Mas não sei com qual das Sheilas
Ou do Abílio Diniz com a Leila
Cansei de procurar não tem DNA
Que localize a minha origem
Acho que sou filho da puta com pai virgem
E pensando bem
Eu tô bem assim
Eu não sou filho de ninguém
Ninguém é filho de mim

E é assim, ao som de CARLOS CAREQA com NÃO SOU FILHO DE NINGUÉM que o Café Brasil de hoje que mais uma vez tratou de corrupção, vai embora. 

Pois é… Pra mim tá claro que a luta contra a corrupção começa dentro de nossas casas, não é?

Eu acho que foi Napoleão Bonaparte que um dia disse assim: “se queres educar uma criança, comece vinte anos antes dela nascer”…

Somos o resultado da educação que recebemos de nossos pais. E nossos filhos serão resultado da educação que estamos oferecendo a eles. É isso que me traz alguma esperanças.

Mas eu me garanto, sabe. Eu tenho medo é do meu vizinho…

Além disso, temos, depois de adultos, a opção de escolha. Escolha de ser testemunha dos acontecimentos e ficar choramingando pelos cantos ou ter a participação ativa na luta para construir um país melhor. Pena que tanta gente tenha escolhido ser apenas testemunha.

Com o ético Lalá Moreira na técnica, a ilibada Ciça Camargo na produção e eu, este atarantado Luciano Pires na direção e apresentação.

Estiveram aqui hoje conosco o ouvinte Bira, Armandinho com Yamandú Costa, Jessier Quirino, Ricardo Herz e Carlos Careqa.

Este é o Café Brasil que tem a humilde intenção de falar dos pequenos detalhes que fazem a diferença. Quem nos ouve é teimoso, sabe? Quer praticar um pouco de fitness intelectual, estimulando o cérebro. Já pensou sua marca aqui falando para esses milhares de formadores de opinião? Experimente! Além de ligar sua marca a uma iniciativa honesta você ainda ajuda a espalhar umas iscas intelectuais. Acesse o www.portalcafebrasil.com.br e venha conosco!

E pra terminar, uma frase de Mariano José Pereira da Fonseca, o Marquês de Maricá, escritor, filósofo e político brasileiro:

Um povo corrompido não pode tolerar um governo que não seja corrupto…

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