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Luciano Pires -

Mário Benedetti foi um dos maiores escritores e poetas uruguaios, autor de mais de 80 livros. Uma de suas novelas, A Trégua, é um tratado contra a mediocridade lançado em 1960, e tem um trecho que me chamou a atenção:

“Ele me perguntou se eu achava que tudo estava melhor ou pior do que cinco anos atrás, quando ele foi embora. `Pior`, responderam minhas células por unanimidade. Mas depois tive que explicar. Ufa, que tarefa. Porque, na verdade, a corrupção sempre existiu, o acordo também, as negociatas, idem. O que está pior, então? Depois de muito espremer o cérebro, cheguei à conclusão de que o que está pior é a resignação. Os rebeldes passaram a semi-rebeldes, os semi-rebeldes a resignados.(…)`Não se pode fazer nada`, as pessoas dizem. Antes só quem queria conseguir algo ilícito é que subornava. Agora quem quer conseguir algo lícito também suborna. E isso significa relaxo total. Mas a resignação não é toda a verdade. No princípio foi a resignação; depois, o abandono do escrúpulo; mais tarde a co-participação. Foi um ex-resignado quem pronunciou a famosa frase: `Se os de cima levam o deles, eu também levo o meu`. Naturalmente, o ex-resignado tem uma desculpa para sua desonestidade: é a única forma de os outros não tirarem vantagem dele. Ele diz que se viu obrigado a entrar no jogo, porque caso contrário seu dinheiro valeria cada vez menos e seriam cada vez mais numerosos os caminhos corretos que se fechariam para ele. Continua mantendo um ódio vingativo e latente contra aqueles pioneiros que o obrigaram a seguir esse caminho. Talvez seja, no final das contas, o mais hipócrita, já que não faz nada para se safar. Talvez seja também o mais ladrão, porque sabe perfeitamente que ninguém morre de honestidade…”

Quando Benedetti escreveu esse texto em 1960, havia a guerra fria, Fidel havia tomado Cuba e o mundo – a juventude – estava focado no ideal romântico da revolução. Benedetti achava que havia resignação em plenos anos de revolução. Se ele achava que as pessoas estavam resignadas naquela época, o que acharia hoje? Quando tudo é balcão de troca? Quando vale tudo para obter ou manter o poder?

Quando, como disse o romancista britânico William Somerset Maugham: “A coisa mais útil sobre um princípio é que ele pode ser sacrificado pela conveniência”?