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230 – A presidenta foi estudanta?

230 – A presidenta foi estudanta?

Luciano Pires -

 

O Podcast da semana aborda a grande dúvida deste começo de década:temos uma presidente ou uma presidenta? A discussão que deveria ser sobre a lingua portuguesa já virou ideológica e aí… você sabe, né? Não acaba nunca. Vamos aproveitar o embalo pra falar também daquela praga chamada gerundismo. Na trilha sonora, Doces Bárbaros, Renato Piau, Rhaissa Bittar com Mauricio Pereira, Grupo Quebrando o Galho, Lingua de Trapo, Ion Muniz e Riachão. Na apresentação o estudanto Luciano Pires.

[showhide title=”Ler o roteiro completo do programa” template=”rounded-box” changetitle=”Fechar o roteiro” closeonclick=true]

Bom dia, boa tarde, boa noite! Nunca antes na história deste país tivemos um presidente mulher. Uma presidenta. Presidenta? Não será uma presidente? O dicionário diz que pode… Xi…como é que fica, hein? Vamos torturar o idioma?

Pra começar, que tal uma frase do mestre Confúcio?

Na linguagem, a clareza é tudo.

E o prêmio da semana, um exemplar de meu livro BRASILEIROS POCOTÓ, devidamente autografado, vai para…. Roberto Martins Gonçalves no programa CASSANDO LOBATO, que comentou assim:

“Oi Luciano, tudo bem? Sempre escuto os seus podcasts, mas é a primeira vez que lhe escrevo. Por sinal, é a primeira vez que escrevo para qualquer site, blog ou coisas afins. Resolvi escrever depois que ouvi o Cassando Lobato. 

Quando este assunto estourou na mídia pensei que daria um ótimo podcast do Café Brasil. Pensei na ocasião de ter a ousadia de lhe propor que abordasse este tema. Gostaria de saber a sua opinião. Apesar de não ter sugerido o assunto fiquei muito feliz quando baixei o podcast e vi do que se tratava. Concordo com tudo que você disse. Às vezes me sinto culpado quando uso algumas expressões do tipo “tem muito nêgo legal no mundo”. Fico pensando se haveria algum negro no grupo a que me referi. Podem pensar que estou sendo preconceituoso, sendo que estava apenas usando uma forma de linguagem popular (tem muita gente legal no mundo). Não sei onde iremos parar com esta exagerada fase do politicamente correto.

Um grande abraço e parabéns pelo seu trabalho”.

Então, o Roberto ganhou o brinde porque deixou um comentário no www.portalcafebrasil.com.br. E você aí, sentado num apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes esperando a morte chegar? Se mexe, meu!

Peixe
Peixe
Deixa eu te ver, peixe
Peixe
Deixa eu te ver, peixe
Peixe
Deixa eu te ver, peixe
Verde
Deixa eu ver o peixe
Vi o brilho verde
Peixe prata.

Ah, os Doces Bárbaros… Caetano, Gil, Gal, Bethânia. Você ouve PEIXE, de Caetano Veloso, que faz parte da trilha sonora do Sítio do Pica Pau Amarelo que a gente tanto curtiu…

Bem, finalmente temos uma mulher dirigindo o país! Eu sou meio cético a esse lance de diferença de sexos. Acho que a parte do corpo ela vai ter que usar é o cérebro, que é muito parecido com o dos homens, não é? Mas a moçada está assanhada com uma dúvida.

Como dirigir-se a Dilma Rousseff: presidente ou presidenta?

As duas formas são admitidas na língua portuguesa. No Dicionário Aurélio, presidente é a pessoa que preside. Pessoa que dirige os trabalhos duma assembleia ou corporação deliberativa. E presidenta é a mulher que preside. Mas é também a mulher de um presidente. E será que existe a palavra: presidenta?  Um texto chamado “Que tal colocarmos um “BASTA” no assunto?”, circula na internet como sendo de uma professora, mas ela já desmentiu, não foi ela que escreveu, não. De qualquer forma, a argumentação é muito válida.

Ao fundo você ouvirá ALMA FEMININA, do meu amigo Renato Piau. Com ele mesmo ao violão…

Presidenta??? Mas, afinal, que palavra é essa totalmente inexistente em nossa língua?

Vejamos: no português existem os particípios ativos como derivativos verbais. Por exemplo: o particípio ativo do verbo atacar é atacante, de pedir é pedinte, o de cantar é cantante, o de existir é existente, o de mendigar é mendicante… Qual é o particípio ativo do verbo ser? O particípio ativo do verbo ser é ente. Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade.

Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a ação que expressa um verbo, há que se adicionar à raiz verbal os sufixos ante, ente ou inte.

Portanto, à pessoa que preside é presidente, e não “presidenta”, independentemente do sexo que tenha. Se diz capela ardente, e não capela “ardenta” se diz estudante, e não “estudanta” se diz adolescente, e não “adolescenta” se diz paciente, e não “pacienta”.

Um bom exemplo do erro grosseiro seria:

“A candidata a presidenta se comporta como uma adolescenta pouco pacienta que imagina ter virado eleganta para tentar ser nomeada representanta. Esperamos vê-la algum dia sorridenta numa capela ardenta, pois esta dirigenta política, dentre tantas outras suas atitudes barbarizentas, não tem o direito de violentar o pobre português, só para ficar contenta”.

Por favor, pelo amor à língua portuguesa, repasse essa informação…

Rararraa….  A presidenta foi estudanta não é o máximo?

E então aparece Hélio Consolaro, que é professor do Ensino Médio e jornalista, para dar o toque ideológico que faltava na discussão.

Ao fundo você ouve HARMONIA SELVAGEM, de Dante Santoro com o grupo QUEBRANDO O GALHO, que vem lá de Tatuí, pertinho de São Paulo…

A predominância do masculino na língua reflete o machismo. Se houver numa sala 39 mulheres e um homem, o orador deverá usar o masculino na sua invocação: prezados senhores… No máximo, falará: prezadas senhoras e prezado senhor. Ofenderia o macho presente se o orador generalizar pelo feminino e dissesse apenas: prezadas senhoras.

Assim, em passado recente, não havia feminino de presidente e nem de hóspede. Agora, depois da luta das mulheres na sociedade, os dicionários já registram e a gramática aceita os femininos: presidenta, hóspeda.

Por que isso não acontece na hierarquia da Polícia Militar? Nenhum dicionário registra o feminino “soldada” e tampouco “sargenta”, apenas Luiz Antonio Sacconi em sua “Nossa Gramática – Teoria e Prática”, Editora Atual, admite tais flexões.

Na verdade, a Polícia Militar, com a presença da mulher em suas fileiras, mantém a estrutura machista, segura a feminização das patentes na divulgação de seus documentos oficiais. E gramáticos e jornalistas concordam com isso.

Não se sabe como as soldadas se sentem sendo tratadas como homens, mas há mulheres que escrevem versos e não gostam de ser chamadas de poetisas, preferem ser tratadas de poetas, acham que o feminino as desvaloriza. Isso também é machismo, e pior, machismo do feminino.

Talvez seja apenas preocupação de um professor de Português e os soldados femininos estejam gostando desse tratamento.

Boneca de palha

O Ary falava daquela boneca
Da cor do azeviche da jaboticaba
E acabava com nego de branco
Mas vejam que essa vida não acaba
Tava eu na feira de Embu das Artes
Uma barraquinha bem atrás de um buda
E chacoalhando uma boneca de palha
Toda espalhafatosa e toda cabeluda
Chacoalhe que me chacoalhe
Me espalhe, me desembrulhe
Mas não me espete com qualquer paspalho
Quero um moço que me amasse sem fazer barulho
To com vontade de dar um malho
Cê tá perdido, até parece agulha
Queria ter nascido um espantalho
Espelho quebrado não faz fagulha
Qual é seu nome, boneca?
É Célia.
Que falsete! Até parece que tomou gás hélio
Eu não consigo mais tirar o olho
Ponha as barbas de molho, cê tá muito velho
Chacoalhe que me chacoalhe
Me espalhe, me desembrulhe
Mas não me espete com qualquer paspalho
Quero um moço que me amasse sem fazer barulho
Tem dó desse maltrapilho
Ó minha boneca de palha
Que brilha no meu estribilho
Que brilha, que brilha, quando chacoalha
Chacoalhe que me chacoalhe
Me espalhe, me desembrulhe
Mas não me espete com qualquer paspalho
Quero um moço que me amasse sem fazer barulho
Ói eu aqui
É eu!

Olha só, o dia em que homens e mulheres começarem a ser tratados da mesma forma o mundo vai ficar sem graça… Uma delícia como essa que você escuta, não vai mais existir.

Boneca de palha, de Daniel Galli com a Rhaissa Bittar e o Mauricio Pereira… Uma delícia, marota e gostosa, que só pode existir se mulher for tratada diferente de homem…

Chamar uma mulher de soldado ou de presidente, é tratá-la como homem? Só se for por ideologia.

Bem, começou mais uma discussão que não vai ter fim… Nélida Piñon, sempre foi chamada de a primeira Presidente da Academia Brasileira de letras. Patrícia Amorim é chamada de presidente do Flamengo. Ellen Gracie, foi chamada de presidente do Supremo Tribunal Federal. Viviane Senna é presidente da Fundação Ayrton Senna.

Minha amiga Jussara Simões diz: Minha opinião é a mesma daquele texto que rola na rede. Presidente não é profissão, é situação. Nada é situação definitiva nas palavras terminadas em ente. Doente, paciente, contente. Presidente, gerente, Tudo isso é situação temporária, não é profissão. Ninguém faz faculdade de presidente, faz?

De minha parte, acho que é uma questão de lógica. Se a palavra “presidente” não é masculina, é “ agenérica”, não pode ser “afeminada”. Se puder existir “a presidenta” então deveria existir “o presidento”.

O que verdadeiramente me incomoda é a tinta ideológica da discussão. Tem cheio de sutiã queimado… Eu vou usar é presidente e acabou.

E quer saber mais? Que puta discussão sacal. Deixa eu zoar um pouco…

O que é isso, companheiro?

Nois dois vivia intocado e clandestino
Nosso destino era fundo de quintar
Desconfiavam que nois era comunista
Ou terrorista, de manchete de jornar
Nois aluguemo casa na periferia
No mesmo dia, se mudemo para lá.
Levando uma big de uma metralhadora
Que a genitora se benzia ao oiá.

Nois pranejemo de primeiro um assarto
Com mãos ao arto, todo mundo pro banheiro
Nois ria de pensar na cara do gerente.
Oiando a gente, conferindo o dinheiro.
Mas o tal banco acabô saindo ileso
E fumo preso, jurando ser inocente.
Nois não sabia que furtar de madrugada.
Era mancada pois não tem expediente.

Despois de um ano apertado numa cela.
O sentinela veio e anunciou:
“O delegado pergunto se ocês topa
Ir prás oropa, a troco de um embaixador”.
Na mesma hora arrumemo passaporte
Pois com a sorte não se brinca duas vez.
E os passaporte que demos no aeroporto,
Era de um morto e de um lord finlandês.

E quando veio aquela tar de anistia
Nem mais um dia fiquemo no exterior
E hoje já fazendo parte da história
Vendendo memória, hoje nois é escritor.

Vocês ouviram O QUE É ISSO COMPANHEIRO? Com o Língua de trapo, uma banda paulistana irreverente que faz uma falta na mídia… Botei aqui como uma homenagem à nossa presidente.

Opa.Esse que vocês estão ouvindo agora, no podcast, é o Ion Muniz com ARROCHO, de sua autoria. Ion Muniz foi um dos maiores saxofonistas de jazz, flautista, pianista, que o Brasil já viu. Mas gravou pouco e era desconhecido fora do meio musical. Mas era fera. Morreu em 2009 e precisa ser relembrado. Ion Muniz, uma FERA aqui no Café Brasil.

Se é pra discutir os assassinatos ao nosso idioma tão querido, tem coisa mais grave por aí. Como o famoso…gerúndio….

Tem uma discussão correndo na internet e vou trazer pra cá, reproduzindo o primeiro parágrafo do MANIFESTO ANTOGERUNDISTA que você vai encontrar no DLOG deste programa, no www.portalcafebrasil. A autoria do tal manifesto está atribuída a Ricardo Freire, mas nunca se sabe, não é? Começa assim:

Este artigo foi feito especialmente para que você possa estar recortando, estar imprimindo e estar fazendo diversas cópias, para estar deixando discretamente sobre a mesa de alguém que não consiga estar falando sem estar espalhando essa praga terrível que parece estar se disseminando na comunicação moderna, o gerundismo.

Que horror….

Mas às vezes o gerundismo pode servir. Como numa poesia, postada por piligra no karteiblogstpot : a liberdade poética contra o gerúndio. Quer ver só?

ficou comeno com a cara sem vergonha
dizeno o nome da gramática fedida,
depois beijou – de forma cínica e atrevida –
a foto velha da mulher, não mais amada!

ficou falano uma gramática abortada
deixano muda a sua paixão indefinida,
depois tirou do seu gerúndio a doce vida
como quem vive sem saber que apenas sonha!

ficou dormino na gramática formal
usano o verso claramente marginal,
só pra manter – como um segredo – esta poesia
que agride a língua, mas não mata a fantasia!

– ficou cantano sem saber este refrão:
a língua culta não permite imprecisão!

Um ponto de vista que mais me atrai sobre o gerundismo é aquele que o define como uma forma de evitar o compromisso com a palavra dada. Tem tudo a ver com aquelas centrais de atendimento, não tem?

Você jamais diz “vamos estar tomando uma cervejinha no buteco”. Situações informais não admitem o gerundismo, que é próprio das situações formais.

Quem não tem – digamos – poder de decisão, nunca se sente confortável em dizer de forma direta que fará isto ou aquilo. Simplesmente porque nunca sabe se a promessa será cumprida. Ponha-se no lugar daquela atendente do 0800 daquelas companhias de telefonia.

Ela tem que prometer que o técnico atenderá em 24 horas. Tem que prometer que o valor cobrado a mais será estornado. Tem que prometer que seu problema será resolvido…Mas ela sabe que não é bem assim. Ela é apenas uma atendente dentro de um sistema gigantesco e sabe que a promessa feita não está sob sua responsabilidade. E então surge o gerúndio para aliviar.

Em vez de “vamos resolver seu problema” ela solta um “vamos estar resolvendo seu problema”… Viu só? Esse vamos estar é indefinido, sabe-se lá quando…

O gerundismo ficou popular quando se percebeu que ele livra a cara das pessoas, que conseguem passar de forma vaga uma informação que deveria ser precisa.

O presente, imperativo, “eu faço” dá certeza. O futuro, “eu farei” indica um compromisso. Mas o “vamos estar fazendo” é vago, envolve mais gente, não define responsabilidades….  Portanto, se você acha que o gerundismo é um problema de ignorância do uso do idioma, saiba que não é isso não. Gerundismo é ma-lan-dra-gem.

Eu sei que sou malandro

Eu sei que sou malandro, sei
Com isso meu proceder
Eu sei que sou malandro eu sei
Por isso não posso negar
Deixa o dia raiar
Deixa o dia raiar
A minha curva é boa
Ela é boa
Somente para batucar
Batuca malandro
Quando eu era pequenino
Vejam só o que eu passei
Entrava no samba à noite
Saia ao romper do dia
O pavão bonito
Eu gostei de ver falar
Se você é bom malandro
Venha comigo cantar
E aí, meu bom!

E é assim, ao som de EU SEI QUE SOU MALANDRO, com o mestre sambista baiano RIACHÃO que o Café Brasil de hoje, que não sabe se tem presidente ou presidenta, vai indo embora….

Com o presidento Lalá Moreira na técnica, a presidenta Ciça Camargo na produção, e eu, o estudanto Luciano Pires na direção e apresentação.

Estiveram conosco os Doces Bárbaros, Renato Piau, Rhaissa Bittar com Mauricio Pereira, o Grup Quebrando o Galho, Lingua de Trapo, Ion Muniz e o Riachão!

Quer mais? Vá até o www.portalcafebrasil.com.br e cadastre-se em nossa Comunidade!

Pra terminar, vamos com o escritor, filósofo e poeta estadunidense Ralph Waldo Emerson, que um dia disse assim:

Seja qual for a linguagem que empregares, só expressarás o que és.

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