Podcast Café Brasil com Luciano Pires
O dia seguinte
O dia seguinte
Com o aumento considerável do mercado de palestrantes ...

Ver mais

Fact Check? Procure o viés.
Fact Check? Procure o viés.
Investigar o que é verdade e o que é mentira - com base ...

Ver mais

O impacto das mídias sociais nas eleições
O impacto das mídias sociais nas eleições
Baixe a pesquisa da IdeiaBigdata que mostra o impacto ...

Ver mais

Síntese de indicadores sociais 2016 do IBGE
Síntese de indicadores sociais 2016 do IBGE
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - ...

Ver mais

618 – No Toca Fitas Do Meu Carro – Scary Pockets
618 – No Toca Fitas Do Meu Carro – Scary Pockets
Mais um programa musical. E daqueles, cara. Você sabe ...

Ver mais

617 – O Clube da Música Autoral
617 – O Clube da Música Autoral
Uma das coisas mais fascinantes de quem se dispõe, como ...

Ver mais

616 – Na média
616 – Na média
Num ambiente construído para que as pessoas fiquem “na ...

Ver mais

615 – Fake News? Procure o viés
615 – Fake News? Procure o viés
Nova Iorque, madrugada de março de 1964. No bairro do ...

Ver mais

LíderCast 112 – Paulo Rabello de Castro
LíderCast 112 – Paulo Rabello de Castro
Professor, consultor, com vasta experiência no setor ...

Ver mais

LíderCast 111 – Tiemi Yamashita
LíderCast 111 – Tiemi Yamashita
LíderCast 111 - Hoje conversamos com Tiemi Yamashita, ...

Ver mais

LíderCast 110 – Rafael Baltresca
LíderCast 110 – Rafael Baltresca
LíderCast 110 - Hoje conversamos com Rafael Baltresca, ...

Ver mais

LíderCast 109 – Romeo Busarello
LíderCast 109 – Romeo Busarello
LíderCast 109 - Hoje conversamos com Romeo Busarello, É ...

Ver mais

Confraria Café Brasil
Confraria Café Brasil
A Confraria Café Brasil nasceu para conectar pessoas ...

Ver mais

Videocast Nakata T02 10
Videocast Nakata T02 10
Videocast Nakata Temporada 02 Episódio 10 - Hábitos ...

Ver mais

Videocast Nakata – T02 09
Videocast Nakata – T02 09
Videocast Nakata - Temporada 02 Episódio 09 Quando ...

Ver mais

Videocast Nakata T02 08
Videocast Nakata T02 08
Videocast Nakata Temporada 02 Episódio 08 Já falei ...

Ver mais

Lições de viagem 11 – Santa Catarina
Luiz Alberto Machado
Iscas Econômicas
Lições de viagem 11 Santa Catarina e seus diferenciais  Percebi que me encontrava num estado diferenciado na primeira vez que estive em Santa Catarina, em 1980, quando fui ministrar aulas em dois ...

Ver mais

Solidão em rede: estamos cada vez mais solitários
Mauro Segura
Transformação
Vivemos a "cultura do estresse", de não perder tempo e usar cada minuto para sermos mais produtivos. Mas isso tem um preço.

Ver mais

1936, 1984, 1918
Fernando Lopes
Iscas Politicrônicas
A guerra civil espanhola (1936-1939) foi assustadora, cruel, mas teve seus lances tragicômicos. Um deles era a eterna bagunça entre as muitas facções que formavam as Forças Republicanas, ...

Ver mais

Região de conflito duplamente em foco
Luiz Alberto Machado
Iscas Econômicas
Região de conflito duplamente em foco “Fronteiras? Nunca vi uma. Mas ouvi dizer que existem na mente de algumas pessoas.” Thor Heyerdahl Não é sempre que alguns dos focos mais controvertidos das ...

Ver mais

Cafezinho 82 – Paciência
Cafezinho 82 – Paciência
O que uma árvore frondosa precisa para se manter firme ...

Ver mais

Cafezinho 81 – A Confederação
Cafezinho 81 – A Confederação
A Confederação mais eficiente do Brasil é a dos bandidos.

Ver mais

Cafezinho 80 – A Copa que era nossa
Cafezinho 80 – A Copa que era nossa
Ao contrário do que acreditam coxinhas e petralhas, o ...

Ver mais

Cafezinho 79 – Desengajados Ativos
Cafezinho 79 – Desengajados Ativos
Engajamento vem do francês engager, que quer dizer “se ...

Ver mais

606- Histeria Política

606- Histeria Política

Luciano Pires -
Download do Programa

O assassinato da vereadora Marielle Franco no Rio em março de 2018,  revelou que a histeria política no Brasil é regra, não exceção. E num contexto de histeria meu, é impossível ser racional.

Posso entrar?

Amigo, amiga, não importa quem seja, bom dia, boa tarde, boa noite, este é o Café Brasil e eu sou o Luciano Pires.

Antes de começar o show, um recado. Preparamos um resumo do roteiro deste programa com as principais ideias apresentadas para complementar aquelas reflexões que o Café Brasil provoca. Baixe gratuitamente em portalcafebrasil.com.br/606.

E quem vai levar o e-book Me engana que eu gosto é a Gabriela, de vinte anosRecife

“Oi Luciano. Tudo bem? Aqui quem está falando é a Gabriela, eu sou de Recife e eu conheci o teu trabalho através do meu namorado. O primeiro podcast que eu ouvi foi O tênis e o frescobol e foi incrível ouvir aquilo porque foi justamente numa fase em que eu estava super decepcionada com várias pessoas que se diziam amigas, mas que não me queriam muito bem. 

Me emocionei bastante com o podcast Pinxado no muro 2 e eu fiquei com uma frase que você disse na cabeça: quer educar um filho? Comece vinte anos antes. 

Luciano. Eu sempre tive o sonho de ter filhos, mas hoje eu e pergunto, em que mundo vou colocá-los. Eu não sei se estou ficando muito sensível ou apenas mais humana. Tudo que eu vejo na televisão, nas notícias, me abalam profundamente. 

Essa semana mesmo eu chorei de soluçar quando ouvi a notícia de uma senhora que tinha espancado um cachorro com um pedaço de madeira. E enchi os olhos d’água assistindo a abertura das olimpíadas e imaginando um atentado ali. Quantas pessoas inocentes não iriam morrer? E quantas ainda vão? Ando me tornando descrente de tudo. 

Eu acho que muitas pessoas se fazem de cegas pra evitar o sofrimento, porque se importar com o próximo não é uma tarefa tão simples. Eu gostaria de poder abraçar o mundo, de pegar cada cachorrinho que eu vejo na rua e levar pra casa e adotar todas essas crianças que ficam nos sinais pedindo dinheiro. Mas aí, eu me lembro que eu estou super atrasada pro trabalho, que eu tenho que estudar um monte de matéria acumulada, que eu tenho só 24 anos, que eu ainda moro com meus pais e o que eu ganho só dá pra pagar as minhas contas. Então logo, esse sentimento ruim é esquecido, né? 

Luciano, assim: não tem sido fácil ver tanta injustiça e crueldade. E é daí que me vem o seguinte questionamento: será que eu preciso me fazer de louca pra ser feliz lucidamente? 

Obrigada, Luciano. Por encher os meus dias de esperança com os seus podcasts. Um abraço.”

Ah, Gabriela, sua agonia é a mesma de muita gente, viu? Vale a pena colocar um filho neste mundo louco, hein? Olha, eu acho que vale sim. Olhe o mundo em volta de você, esse aí, que está no teu alcance. Não aquele que aparece diariamente nas mídias e que foca apenas nos instintos de morte. E você vai descobrir que, em meio aos problemas, às imperfeições e à loucura, você está rodeada de instintos de vida. Na sua família, com seus amigos e com muita gente que você não conhece e que quer, sinceramente, contribuir para um mundo melhor. Mas pra isso tem de assumir as rédeas possíveis em suas mãos e fazer acontecer, né?

Muito bem. A Gabriela receberá um KIT DKT, recheado de produtos PRUDENCE, como géis lubrificantes e preservativos masculinos. Olha, ajuda muito a só ter filhos quando você quiser, viu?

Quem distribui os produtos Prudence é a DKT, que pratica o marketing social. Boa parte de seus lucros são destinados para ações em regiões pobres em todo o mundo, para conter as doenças sexualmente transmissíveis e contribuir para o controle da natalidade.  Cada vez que você compra um produto Prudence, está contribuindo para salvar vidas. facebook.com/dktbrasil

Vamos lá então! Hoje está cheio de visitas aqui e o tema é histeria, hein? Se prepara, moçada!

Luciano: Na hora do amor use…

Todos: Prudence! Prudence! Prudence! Prudence! Prudence!

Luciano: Que histeria!!! Que histeria!!!

E chegou a hora de ouvir um depoimento de quem assina o Café Brasil Premium, nossa “Netflix do Conhecimento”, olha só:

“ Já usei os Sumários e LíderCasts em aula de orientação vocacional. Lembro de um aluno que escreveu uma redação sobre escolha de carreira e fez um desabafo pessoal dizendo que é difícil escolher o que fazer quando sua família briga toda noite porque falta dinheiro em casa. O guri ficou encantado com o conteúdo e com os cases que fui contando. Tem muito LíderCast com potencial de ativar o ‘célebro’ dessa molecada jovem… É emocionante compartilhar. Sei que você ouve isso sempre, mas é real ‘você não tem noção do quanto me ajuda’. Hemanuela Paixão

É!! Isso é paixão, cara!

cafebrasilpremium.com.br.

Conteúdo extra-forte.

Canto para a minha morte
Raul Seixas

Eu sei que determinada rua que eu já passei
Não tornará a ouvir o som dos meus passos.
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir.
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar

Com que rosto ela virá?
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque?
Na música que eu deixei para compor amanhã?
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,
E que está em algum lugar me esperando
Embora eu ainda não a conheça?

Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida

Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida.
Existem tantas… Um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto,
A anestesia mal aplicada,
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe,
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio…

Oh morte, tu que és tão forte,
Que matas o gato, o rato e o homem.
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem,
Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém que não gostava
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite…

Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida

Raul Seixas com Canto para minha morte… Cara, essa música veio à minha mente na hora que eu comecei a escrever este programa, pois ele está sendo escrito sob a sombra de um dos dois lados da morte: aquele incompreensível, feio, revoltante, absurdo, que precisa ser rejeitado.

Começo então voltando no tempo. Para 2011. Você se lembra da Juíza Patricia Aciolli? Em dez anos como juíza, ela condenou 60 policiais acusados de corrupção e de pertencer a milícias ou a grupos de extermínio. A juíza foi assassinada em 2011, caso que repercutiu em todo o Brasil e no exterior. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Cezar Peluso, descreveu o ato como “um ataque ao governo brasileiro e à democracia” e ordenou uma investigação. A Polícia Federal descobriu que o assassinato de Patrícia foi cometido por policiais militares insatisfeitos com sua atuação em relação a um grupo de agentes que atuava na cidade de São Gonçalo, praticando homicídios e extorsões. Em abril de 2014, todos os onze policiais julgados no caso foram condenados pela Justiça.

O assassinato da juíza causou repercussão sim, mas não uma comoção nacional como aconteceu com a morte de da vereadora Marielle Franco.

E por que não, hein?

Porque a juíza não tinha os laços políticos da vereadora, umbilicalmente ligada aos movimentos de esquerda que tradicionalmente têm capacidade de mobilização popular e profunda penetração nas mídias de massa.

Opa! Já derrubou o disjuntor aí, é? Começou a gritar e chorar? Então recomponha-se e entenda que aqui não vai qualquer julgamento de valor com relação à Marielle. O que estou tentando dizer é o seguinte: duas mulheres, mães, aguerridas, a serviço do Estado, foram mortas em razão de seu trabalho. E uma morte teve infinitamente mais repercussão que a outra.

Por quê, hein?

E esse é o ponto que quero abordar neste programa, e que tem tudo a ver com a histeria política.

Nem Sarney, Color, Itamar ou FHC, nem Lula, muito menos Dilma cuidaram de reduzir os índices de violência no Brasil. O problema está, portanto, muito além dos interesses políticos das várias correntes que dirigiram o país nos últimos 30 anos.

Outra coisa em comum nesses anos todos: a morte das pessoas só recebe atenção e comoção popular se puder ser instrumentalizada pelos vários grupos de poder.

E o que é instrumentalizar a morte de uma pessoa, hein? É transformar seu cadáver numa bandeira política a serviço de uma corrente de pensamento. É abraçar o populismo.

O populismo sempre existiu como ferramenta política, de direita, de esquerda, de centro, dentro, fora. Populismo é uma tática, não é a essência da política. Política envolve estabelecer um senso de unidade, de sociedade, de união para se impor sobre os adversários e inimigos. Mas há algo mais, que leva as pessoas a dar suporte a demagogos que lutam por dividir e ameaçar, explorando os instintos mais primitivos das pessoas. Um algo mais que acaba libertando os indivíduos de qualquer freio moral. E aí é o que vemos diariamente nas mídias sociais, aqueles comentários vergonhosos dos seguidores de cada tribo.

O assassinato da vereadora Marielle revelou que a histeria política no Brasil é regra, não é exceção. Sua morte foi instrumentalizada por todos os lados. Se você falasse bem da Marielle, apanhava. Se falasse mal, apanhava. Se ficasse quieto, também apanhava. O discurso dominante, em vez de tolerante, pragmático e libertador, tornou-se repressivo, doutrinário e autoritário. E num clima de histeria, a primeira vítima é a liberdade. Você não pode mais expressar opinião própria, ou será trucidado, especialmente nas mídias sociais. Essa histeria política nasce de interesses de determinadas elites, no caso, as elites políticas e ideológicas, combinados com a reação inconsciente do povo. O povo movido pelo instinto da morte contra os inimigos de sua tribo.

A histeria política é sintoma da perda total do controle político, provocada pela exploração do medo. É filha das teorias da conspiração.

Está claro para você que a histeria é conscientemente provocada por grupos de poder? Que têm todo interesse num cenário de confronto?

Em todos os segmentos da sociedade?

Lá em 2007 escrevi num artigo chamado “Os porta-vozes”, que depois eu publiquei em meu livro NÓIS… QUI NVERTEMO AS COISA, este trecho que vai aqui, que já usei em episódios anteriores. Ele cabe aqui como uma luva:

“Uma pregação que se quer marxista, socialista, esquerdista ou revolucionária – mas que na verdade só é burra – está dividindo o país em duas classes: a ‘elite’ e os oprimidos. E dizendo a elas que não ‘se misturem’. Na verdade, que se odeiem. Essa pregação doentia rotula-me de elite, dando conotação de ofensa ao termo. E diz que eu sou responsável pela miséria. Para os ‘porta-vozes’, os miseráveis e oprimidos têm o direito de colocar um revólver na minha cabeça e levar meu relógio. E a culpa será minha. Os ‘porta-vozes’ são uma minoria instalada nos partidos políticos, nos órgãos governamentais, nos sindicatos, nas escolas, nas empresas, nas igrejas, em seu condomínio. Uma minoria ideologicamente confusa e míope, a serviço de uma estratégia de poder. Uma minoria capaz de mobilizações e que acaba influenciando a maioria silenciosa. Quem foi que deu a essa turma a licença para ser ‘porta-voz’ do ódio, hein? A que objetivos serve essa doutrinação?”

E de novo: um texto de 2007.

Muito bem… Essa cuidadosa ação de divisão do país foi muito mais longe, transformado tudo em luta de classes.

Olhe para o segmento das artes, por exemplo. O crítico Robert Hughes, em seu livro A cultura da reclamação descreveu muito bem o que aconteceu com as artes nos Estados Unidos e que se repetiu no Brasil. Ele diz assim, ó:

“…como as artes mostram ao cidadão sensível a diferença ente os bons artistas, os medíocres e as fraudes absolutas, e como sempre existe um número maior dos últimos – os medíocres – que dos primeiros, também as artes têm de ser politizadas. Assim, remendamos sistemas críticos para mostrar que a ideia de “qualidade” na experiência estética pouco mais é que uma ficção paternalista destinada a dificultar a vida dos artistas negros, mulheres e homossexuais, que devem de agora em diante ser julgados por sua etnicidade, gênero e estado de saúde, e não pelos méritos de sua obra.”

Pois é… Recentemente eu fui aos Estados Unidos e participei de um evento sobre palestras e me chamou a atenção quando um dos maiores contratadores de palestrantes afirmou o seguinte: “está cada vez mais difícil colocar no palco um velho branco, anglo-saxão”. A pressão é pela diversidade, o que certamente cria mais tensão social. Mais uma vez, o julgamento pela etnicidade, pelo gênero, estado de saúde, tendência política/ideológica e não pelos méritos de sua obra.

Você consegue perceber as consequências desse comportamento de divisão para confronto, hein? A divisão da sociedade em tribos, com o incentivo para que se enfrentem?

O ser humano, naturalmente, só confia em membros de sua tribo. E quem abraça causas de outra tribo, se transforma nos tais “eles”, aqueles agentes “do mal” que precisam ser exterminados, pois ameaçam nossa tribo, a tribo de gente “do bem”.

Sigmund Freud ajuda a gente a refletir sobre isso. Freud escreveu que para explicar o comportamento humano, deveríamos classificar os instintos em duas classes: os instintos de vida e os instintos da morte. Influenciado pela carnificina da I Guerra Mundial, que matou aproximadamente 9 milhões de pessoas entre 1914 e 1918, Freud concluiu que deveria existir, além dos instintos da vida – o sexual e o da autopreservação – uma força demoníaca, um tal instinto da morte. O que, afinal, fazia com que as pessoas deixassem de lado o instinto da vida para apelar para o instinto da morte, nele inclusas a ofensa e a agressão?

No mundo de hoje, complicadíssimo e incompreensível, é natural que as pessoas que se sintam incapazes, impotentes, abandonadas ou ofendidas – e portanto, inseguras – se tornem iradas e submetidas aos argumentos simplistas dos demagogos. Com as mídias sociais, então, meu… O comportamento agressivo de um influenciador digital, por exemplo, é o gatilho que destrava os cadeados morais. Basta dar uma olhada nas áreas de comentários dos Youtubers mais populares. Ou mesmo nas páginas do Facebook ou Twitter em geral. Haja xingamento, ofensa e agressividade, meu. Instinto da morte tomando conta.

É então que nos deparamos com um paradoxo: para superar seus medos, as pessoas se submetem às mais perigosas lideranças, àquelas que prometem a elas o poder que lhes foi subtraído. Deixe-me usar o termo da moda: àquelas que prometem o empoderamento.

Sentir-se parte da tribo que luta pelo bem, dá a ilusão de superioridade sobre os outros grupos, tratados como inferiores. Você sabe como é, hein? Você pensa diferente de mim, portanto deve ser inferior a mim. E tome tiro, porrada e bomba. E os demagogos partem para criar e cultivar inimigos, a prometer o céu, a paz, a harmonia, enquanto apedrejam os “eles”. Nesse ponto, o instinto de autopreservação da sociedade já dançou, meu. Acabamos como sociedade. Nos tornamos inimigos de nossos vizinhos e tudo que buscamos é sua destruição.

E no limite, a violência, o xingar, o ofender, o ameaçar, passa a dar… prazer.

O masoquismo de se submeter a uma liderança populista é encoberto pelo sadismo usado contra os inimigos. É assim nas mídias sociais, nas torcidas organizadas, nas empresas concorrentes e também nas guerras.

Meu, como é que aquele soldado que é tão gente boa foi capaz de tamanha truculência, hein? Instinto de morte, sem freios morais.

As promessas desse instinto da morte não são reais, mas as consequências de liberá-lo, ah, essas são muito reais.

Pois então. Foi nisso que nos tornamos. Um país dividido onde uma tribo caça a outra. Comenta-se, “ai, que pena da Marielle”, para em seguida mergulhar em manifestações de pura histeria política, não interessa se contra ou a favor.

Li no Facebook ou Twitter manifestações que me deixaram com vergonha de ser humano cara, todas utilizando a morte da vereadora como instrumento para defesa dos interesses de sua tribo. Como arma de ataque aos adversários políticos.

Essa necessidade excessiva de sentir simpatia ou ódio extremos, chama-se Transtorno de Personalidade Histriônica, que é um dos nomes da histeria.

Cê quer ver o tamanho da encrenca? Vivemos no Brasil, pô! Um país formado por desiguais, por índios que já se matavam antes da chegada dos europeus e africanos. Um país que combina religiões, culturas, valores e convicções totalmente diferentes em sua formação. E que se orgulha disso! Sempre tratou a diferença como algo comum.

No LíderCast 102, que eu gravei com o Paulo Cruz, falamos a respeito disso. Ouça:

Paulo – Enquanto está todo mundo indo pro mesmo lado, a gente vai equacionando as coisas, porque isso só o tempo resolve, não adianta. Não adianta. Eu sei que o movimento negro não gosta que fala isso, quer dizer, eles n~~ao gostam de nada do que eu falo, sobre tudo isso, porque acho que o tempo não vai resolver nada. Pra eles a questão é luta de classe porque virou muito… as coisas foram se… criou-se uma simbiose entre classe e raça nesse movimento negro no pós 600, assim, então tá tudo muito entrelaçado hoje. É difícil desvencilhar a ideia de raça da ideia de classe social. Então pra eles, interessa que seja assim. Que seja dicotômico assim, né? Brancos aqui, negros pra cá. O livro do Florestan Fernandes: O negro no mundo dos brancos. Falando o que? Do Brasil. Não faz o mínimo sentido isso. 

Então, as pessoas… se continuar afirmando essa coisa de raça, essa coisa de raça, é claro que esse negócio não… então, eles estão importando essas teorias racialistas dos americanos, na década de trinta esse problema foi resolvido e eu julgo que esse problema tenha sido resolvido pelo Gilberto Freyre, então, Gilberto Freyre resolveu o problema. Então, começou-se uma desconfiança do… primeiro era o negro, depois virou mestiço, né? Houve uma época no final do século XIX, que o mestiço era o grande atraso do Brasil. Então surgiram as teorias racialistas, do Gobineau, Nina Rodrigues e tal, aqueles caras que surgiram no final do império… Aliás, é curioso porque o conde de Gobineau foi muito amigo do D. Pedro II e D. Pedro II ignorava completamente essas loucuras do Gobineau, de que o Brasil seria um país atrasado sempre por causa do mesticismo, que tinha que acabar com isso e tal, tal, tal… D. Pedro II, as poucas vezes que se refere a isso fala que o Gobineau era um sujeito muito pessimista. Ah! Você é muito pessimista. E não ligava muito. 

Já o Tocqueville que foi, se não me engano… ah! O Gobineau acho que foi assistente do Tocqueville, ele xinga o Gobineau por causa disso, briga com ele fala: você tá maluco com esse negócio, você tá louco com isso. Você não pode falar esse negócio, escrever essas coisas Brigou com ele, ficou com muita raiva, porque era uma loucura.Não, isso não existe. 

Então, essas teses racialistas que vão surgindo no século XIX, o mestiço vira o grande coiso, todo mundo começa a desconfiar que o mestiço seria um atraso, grandes intelectuais brasileiros embarcam nessa. Então, você pega o próprio Silvio Romero, que é um filósofo brasileiro muito conhecido, muito famoso, ele embarca nisso… Muito curiosamente, embarcam com ele também o Tobias Barreto, que era negro. Era negro. Ele é o primeiro filósofo que traz a filosofia alemã pro Brasil. Mas, ele embarca nessas teses também racialistas, então, estava uma mistureba de coisas nessa época e aí, na década de trinta vem o Gilberto Freyre e fala assim: Peraí, peraí, peraí. É exatamente isso que é o orgulho do Brasil. Que é a grande vantagem do Brasil. É ser um país completamente diferente de qualquer outro. Que é um país mestiço. Um país que bebeu bebeu basicamente de três raças ou etnias. O negro africano, o europeu, o português e o índio. Essa é a grande vantagem do brasileiro. Estão falando que é a desvantagem? É a vantagem. Se todo mundo desse ouvido pro Gilberto Freyre, acabou o assunto. Vamos buscar construir um país bacana pra todo mundo.

Luciano – que é a tese do Morgan Freeman

Paulo – que é a tese agora do Morgan Freeman. Vamos acabar com esse negócio e vamos tocar o barco, que é assim que funciona. 

Luciano – se você não viu aí, tem um vídeo delicioso do Morgan, ele sendo entrevistado e é basicmente… ele diz o seguinte: ele está conversando comigo, ele é o Morgan e eu o Luciano: ele fala: se em vez de chamar você de preto eu chamar você de branco, me chama de Morgan, eu te chamo de Luciano e tá resolvido o assunto.

Paulo – Você pergunta pra ele: como é que acaba com o racismo? Vamos parar de falar nisso. Vamos seguir nossa vida. Só que, é claro que isso não interessa ao movimento, à militância, que quer permanecer num ambiente de tensão. Ah! Essa coisa da democracia racial do Gilberto Freyre é uma mentira e coisa e tal. Por que? Porque eles associam a ideia de democracia racial, que Gilberto Freyre nem inaugura essa ideia… depois ele acaba assumindo, mas eles associam isso à questão econômica. 

Luciano – Vamos ao começo da nossa conversa aqui. O Brasil é um país racista? Não. O Brasil é um país pobre.

Paulo Cruz cita Gilberto Freyre para bater na tecla: o que nos faz fortes são nossas diferenças. Somos o país da diferença. E, no entanto, estamos sendo conduzidos para o confronto entre os diferentes. Ame os da sua tribo, os da sua cor, os da sua classe, os da sua tendência sexual, os do seu tamanho, os do seu gênero. E libere seu instinto da morte para os diferentes. De novo: essa necessidade excessiva de sentir simpatia ou ódio extremos, chama-se Transtorno de Personalidade Histriônica, um dos nomes da histeria.

Somos um país construído na diferença. E a relação entre os diferentes em que ocorre benefício para todos, só pode acontecer se houver o reconhecimento dessa diferença. Quando essas diferenças são transformadas em bandeiras, a relação ente os diferentes passa a ser de confronto. A minha cultura, a minha verdade, é mais importante que a sua, sacou? E surge então o mimimi por apropriação cultural, pela dívida histórica e outras bobagens.

Quando isso acontece, o corpo morto da vereadora deixa de ser um elemento de vergonha por nossa condição de ser humano brutal, para se transformar na fria ferramenta de luta pelo poder. Os radicais que discursam a favor desse separatismo social, instigando o instinto da morte e cegos pela histeria política, não fazem ideia dos demônios que estão invocando…

Marielle, infelizmente, cruzou com alguns deles.

Não tenho medo da morte
Gilberto Gil

Não tenho medo da morte
Mas sim medo de morrer
Qual seria a diferença
Você há de perguntar
É que a morte já é depois
Que eu deixar de respirar
Morrer ainda é aqui
Na vida, no sol, no ar
Ainda pode haver dor
Ou vontade de mijar

A morte já é depois
Já não haverá ninguém
Como eu aqui agora
Pensando sobre o além
Já não haverá o além
O além já será então
Não terei pé nem cabeça
Nem figado, nem pulmão
Como poderei ter medo
Se não terei coração?

Não tenho medo da morte
Mas medo de morrer, sim
A morte e depois de mim
Mas quem vai morrer sou eu
O derradeiro ato meu
E eu terei de estar presente
Assim como um presidente
Dando posse ao sucessor
Terei que morrer vivendo
Sabendo que já me vou

Então nesse instante sim
Sofrerei quem sabe um choque
Um piripaque, ou um baque
Um calafrio ou um toque
Coisas naturais da vida
Como comer, caminhar
Morrer de morte matada
Morrer de morte morrida
Quem sabe eu sinta saudade
Como em qualquer despedida.

E é assim, ao som de NÃO TENHO MEDO DA MORTE, de e com Gilberto Gil que vamos saindo pensativos…

Olha! Fique então com este recado aqui ó: única coisa a fazer nos momentos de explosões histéricas é… Controle-se! Num caso como o do assassinato da Marielle, o que é prudente fazer? Enquanto as investigações não determinam a motivação e autoria do crime, não tire conclusões. Você pode e deve se manifestar sobre valores comuns, se revoltar e lamentar a morte estúpida de mais dois seres humanos. E se solidarizar com suas famílias. Mas não tire conclusões antes de saber dos fatos.

Entendeu, hein?

Gritaria ideológica em rede social, sustentada em achismo sobre as motivações do crime, não passa de liberação de instinto de morte e de histeria política. Que não leva a nada além de mais histeria.

E ainda dá palanque para os malucos de sempre.

Com o reflexivo Lalá Moreira na técnica, a nervosa Ciça Camargo na produção e eu, que em tempos de histeria fico mais é na minha meu, Luciano Pires na direção e apresentação.

Estiveram conosco a ouvinte Gabriela, os visitantes Diogo Santiago, Nicolas Najar, Gabriela Marrone, e Raul Seixas e Gilberto Gil.

Este é o Café Brasil. De onde veio este programa tem muito mais.

Para o resumo deste programa, acesse portalcafebrasil.com.br/606.

Para o Premium: cafebrasilpremium.com.br.

Mande um comentário de voz pelo WhatSapp no 11 96429 4746. E também estamos no Telegram, com o grupo Café Brasil.

Pra terminar, uma frase do político e advogado norte americano Robert Green Ingersoll

Tolerância é você dar aos outros seres humanos todo o direito que reivindica para si mesmo.