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Luciano Pires -

Ô ano danado este 2016, viu? Na economia, na política, na polícia, é um susto atrás do outro. Sem falar das tragédias. E das perdas. Pois acabamos de perder o poeta Ferreira Gullar, um sujeito que fez minha cabeça em várias oportunidades. Este programa é pra ele.

Posso entrar?

Amigo, amiga, não importa quem seja, bom dia, boa tarde, boa noite, este é o Café Brasil e eu sou o Luciano Pires.

Este programa chega até você com o apoio do Itaú Cultural e do Auditório Ibirapuera que, como sempre, estão aí, a um clique de distância. facebook.com/itaucultural e facebook.com/auditorioibirapuera.

E quem vai levar o exemplar de meu livro Me engana que eu gosto  é o Fernando Rosar, lá de Floripa.

“Bom dia Luciano Pires, bom dia Lalá, bom dia a todos aí. Luciano, tive o prazer de te conhecer em outubro do ano passado lá naquele evento da SOCIESC em Blumenau, sempre que possível eu acho um tempo pra ouvir teus podcasts e ontem eu ouvi aquele especial que você fez sobre o Chape. 

E… olha… a gente sempre tem essa situação né quando acontece algo, ainda mais nessa proporção… tem vontade que é achar um jeito de falar, de escrever, achar uma maneira de manifestar… aquela dor, aquela angústia do que a gente sente, do que a gente percebe, né?

Mas, é aquilo que está ali. Sempre vai ter a turminha do mimimi, que vai achar que é oportunismo, que o que a gente está falando é apenas se aproveitando do fato mas, pensem o que quiserem pensar, as pessoas que realmente vão perceber o valor no que é dito, no que é falado, no que é escrito, independente da forma como o sentimento é demonstrado, só a pessoa e quem está mais por perto tem uma real noção do valor e da verdade sobre isso, né?

E parabéns sobre o podcast especial aí sobre o Chape, Chapecoense né? Em Santa Catarina o clima aqui está bem triste né? O pessoal está tentando  levar a vida da melhor maneira. Eu moro aqui em Floripa e trabalho na região aqui. 

Mas é isso. É isso. Parabéns, vida longa ao cafezinho e grande abraço. Até outros momentos.”

Pois é, meu caro Fernando, existem diversas maneiras de expressar a dor e o sofrimento, mas é sempre delicado fazê-lo em público. Eu escolhi escrever sobre aquilo que me dói e assim curo um pouco da dor. E dá muito certo, sabia? O programa de hoje é um exemplo. Mande seu endereço pra gente enviar o livro!

Muito bem. O Fernando receberá um KIT DKT, recheado de produtos PRUDENCE, como géis lubrificantes e preservativos masculino e feminino. PRUDENCE é a marca dos produtos que a DKT distribui como parte de sua missão para conter as doenças sexualmente transmissíveis e contribuir para o controle da natalidade.  O que a DKT faz é marketing social e você contribui quando usa produtos Prudence. facebook.com/dktbrasil.

Vamos lá então! Lalá. Hoje eu quero com poesia…

Batatinha quando nasce
Se esparrama pelo chão
O marmanjo quando ama
Põe Prudence no pint…

– Ô Lalá!!! Que é isso, Lalá!!!

Morreu Ferreira Gullar. Ah, você não sabe quem era é? Então preste atenção…

O poeta, ensaísta, crítico de arte, dramaturgo, biógrafo, tradutor e memorialista Ferreira Gullar morreu dia 4 de dezembro de 2016, por volta das 11 horas, aos 86 anos de idade.  José de Ribamar Ferreira nasceu em São Luís -Maranhão, em 10 de setembro de 1930. Ferreira Gullar cresceu em sua cidade natal e decidiu se tornar poeta na adolescência. Com 18 anos, passou a frequentar os bares da Praça João Lisboa e o Grêmio Lítero Recreativo da cidade. Aos 19 anos, descobriu a poesia moderna depois de ler Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira.

Foi Gullar quem escreveu o manifesto que marcou a aparição, em 1959, do movimento neo concreto, e dentre suas obras daquele período, destacaram-se o “livro-poema”, o “poema espacial” e “poema enterrado”.

Depois do “poema enterrado”, Gullar se afastou do movimento e se envolveu com política e questões sociais, temas de seus trabalhos seguintes, como o poema “Não há vagas” de 1963, onde ele diz:

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão.

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado: “não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

Ferreira Gullar ingressou no partido comunista e passou a lutar contra a ditadura militar. Chegou a ser preso e a viver na clandestinidade. Fugiu do país, passando por Moscou, Santiago, Lima e Buenos Aires. Durante o exílio na capital argentina, escreveu sua obra-prima: “Poema sujo” (1976). Trata-se de um poema com quase 100 páginas que teve ótima recepção. Foi traduzido para diversas línguas.

Gullar só voltou ao Brasil em 1977, onde foi novamente preso. Conseguiu ser solto depois de pressão internacional e trabalhou na imprensa do Rio e como roteirista de TV.

Gullar também foi indicado ao Prêmio Nobel de Literatura em 2002, e tem sua poesia cantada por muitos… É dele a letra de Trenzinho do Caipira, gravado pela primeira vez em 1978 por Edu Lobo.

Trenzinho caipira
Villa Lobos
Ferreira Gullar

Lá vai o trem com o menino
lá vai a vida a rodar
lá vai ciranda e destino
cidade noite a girar
lá vai o trem sem destino
pro dia novo encontrar
correndo vai pela terra, vai pela serra, vai pelo mar
correndo entre as estrelas a voar
cantando pela serra ao luar
no ar, no ar, no ar.

A gravação instrumental que você ouviu antes dessa aqui, foi com Hique Gomez e Nico Nicolaiewiski, do Tangos e Tragédias… Essa aqui é com Edu Lobo.

Ferreira Gullar sempre deu declarações polêmicas, especialmente quando falava de política, ouça aqui algumas.

Sobre a esquerda

“Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é.”

Sobre o capitalismo:

“O capitalismo não é uma teoria. Ele nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. Por isso ele é invencível. A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro. É óbvio que um governo central com seis burocratas dirigindo um país não vai ter a capacidade de ditar rumos a esses milhões de pessoas. Não tem cabimento.”

Sobre a “exploração” capitalista:

“A luta dos trabalhadores, o movimento sindical, a tomada de consciência dos direitos, tudo isso fez melhorar a relação capital-trabalho. O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produz a riqueza é o trabalhador, e o capitalista só o explora. É bobagem. Sem a empresa, não existe riqueza. Um depende do outro. O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas. A visão de que só um lado produz riqueza e o outro só explora é radical, sectária, primária. A partir dessa miopia, tudo o mais deu errado para o campo socialista.”

Sobre a desigualdade social:

“A própria natureza é injusta e desigual. A justiça é uma invenção humana. Um nasce inteligente e o outro burro. Um nasce inteligente, o outro aleijado. Quem quer corrigir essa injustiça somos nós. A capacidade criativa do capitalismo é fundamental para a sociedade se desenvolver, para a solução da desigualdade, porque é só a produção da riqueza que resolve isso.”

Sobre a militância no Partido Comunista durante a ditadura militar:

“Eu fui do Partido Comunista, mas era moderado. Nunca defendi a luta armada. A luta armada só ajudou mesmo a justificar a ação da linha dura militar, que queria aniquilar seus oponentes. (As pessoas do partido Comunista) não lutavam por democracia, mas pela ideologia Comunista, e estavam sinceramente equivocadas. Você tem de ter uma visão crítica das coisas, não pode ficar eternamente se deixando levar por revolta, por ressentimentos. A melhor coisa para o inimigo é o outro perder a cabeça. Lutar contra quem está lúcido é mais difícil do que lutar contra um desvairado.”

Sobre o socialismo:

“O socialismo fracassou. Quando o Muro de Berlim caiu, minha visão já era bastante crítica. A derrocada do socialismo não se deu ao cabo de alguma grande guerra. O fracasso do sistema foi interno. Voltei a Moscou há alguns anos. O túmulo do Lênin está ali na Praça Vermelha, mas, pelo resto da cidade, só se veem anúncios da coca cola. Não tenho dúvida nenhuma de que o socialismo acabou, só alguns malucos insistem no contrário. Se o socialismo entrou em colapso quando ainda tinha a União Soviética como segunda força econômica e militar do mundo, não vai ser agora que esse sistema vai vencer. O socialismo acabou, estabeleceu ditaduras, não criou democracia em lugar algum e matou gente em quantidade.”

Gullar é um dos exemplos de alguém que sai da militância da esquerda para se transformar num crítico da própria esquerda. Ouça um trecho de entrevista que ele deu no programa Roda Viva em 2011. Ele é entrevistado, entre outros, por Marília Gabriela, Augusto Nunes e um esquerdista desesperado chamado Paulo Moreira Leite. Ouça:

Vou publicar o link para esse programa no roteiro deste Podcast no Portal Café Brasil:

Sobre a ideologia marxista Gular disse assim:

“Frequentemente me pergunto por que certas pessoas indiscutivelmente inteligentes insistem em manter atitudes políticas indefensáveis, já que, na realidade, não existem mais. Estou evidentemente me referindo aos que adotam a ideologia marxista, que, de uma maneira ou de outra, militaram em partidos de esquerda, fosse no Partido Comunista, fosse em organizações surgidas por inspiração da Revolução Cubana.”

Sobre a direita, aos ser perguntado se era um direitista:

“Eu, de direita? Era só o que faltava. A questão é muito clara. Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é. Pensar isso a meu respeito não é honesto. Porque o que eu estou dizendo é que o socialismo acabou, estabeleceu ditaduras, não criou democracia em lugar algum e matou gente em quantidade. Isso tudo é verdade. Não estou inventando.”

Sobre Cuba:

“Não posso defender um regime sob o qual eu não gostaria de viver. Não posso admitir um país do qual eu não possa sair na hora que quiser. Não dá para defender um regime em que não se possa publicar um livro sem pedir permissão ao governo. Apesar disso, há uma porção de intelectuais brasileiros que defendem Cuba, mas obviamente, não querem viver lá de jeito nenhum. É difícil para as pessoas reconhecer que estavam erradas, que passaram a vida toda pregando uma coisa que nunca deu certo.”

Sobre o mundo atual e a poesia:

“O mundo aparentemente está explicado, mas não está. Viver em um mundo sem explicação alguma ia deixar todo mundo louco. Mas nenhuma explicação explica tudo e nem poderia. Então de vez em quando o não explicado se revela, e é isso que faz nascer a poesia. Só aquilo que não se sabe pode ser poesia.”

O sonho é popular
Humberto Gessinger

A pampa é pop
o país é pobre
é pobre a pampa
o PIB é pouco
o povo pena mas não pára
poesia é um porre
o poder
o pudor
VÁRIAS VARIÁVEIS
o pão
o peão
GRANA, ENGRENAGENS
a pátria
à flor da pele
pede passagem…PQP
o sonho é popular
eu li isso em algum lugar
se não me engano é Ferreira Gullar
falando da arquitetura de um Oscar
o concreto paira no ar
mais aqui do que em Chandigarh
o sonho é popular
um golpe em 61
um golpe qualquer
num lugar comum
Parte que o Maltz fala de fundo
UMA PÁGINA ARRANCADA
UM SEGREDO MANTIDO
EM PASSAGENS SUBTERRÂNEAS
SOB A PRAÇA DA MATRIZ
UMA STÓRIA MAL CONTADA
UMA MENTIRA REPETIDA
ATÉ VIRAR VERDADE
(UMA PÁGINA VIRADA)
UMA PÁGINA SUBTERRÂNEA
UM SEGREDO ARRANCADO
UM PASSADO MAL CONTADAS
ATÉ VIRAR VERDADE
A VERDADE A VER NAVIOS
UMA MENTIRA REPETIDA
…REPETIDA, REPETIDA

Essa é O SONHO É POPULAR, com o Engenheiros do Hawai fazendo referência a Ferreira Gullar que, em outra entrevista, disse assim:

“… estamos vivendo uma época em que os valores culturais vêm sendo substituídos pelo entretenimento. A mídia transforma tudo em entretenimento. O único valor que existe é a notícia, a novidade sob forma de notícia. E isso é uma ameaça ao ser humano porque esse pessoal jovem que está sendo manipulado pela mídia não se preocupa, em sua formação literária, com a experiência do que seja a obra de arte, que não é uma realização gratuita, mas uma necessidade profunda do ser humano. E o que acontece? Acontece que, quando se esgota o mito da juventude e o sujeito já não tem mais como pular o rock na praia de Ipanema, quando acaba tudo isso e ele começa a bater pino, não tem para onde se voltar porque lhe falta a verdadeira experiência da arte.”

Traduzir-se
Ferreira Gullar
Fagner

Uma parte de mim é todo mundo
Outra parte é ninguém
Fundo sem fundo
Uma parte de mim é multidão
Outra parte estranheza e solidão
Uma parte de mim, pesa
Pondera
Outra parte, delira
Uma parte de mim almoça e janta
Outra parte se espanta
Uma parte de mim é permanente
Outra parte se sabe de repente
Uma parte de mim é só vertigem
Outra parte, linguagem
Traduzir uma parte noutra parte
Que é uma questão de vida ou morte
Será arte?
Será arte?

“A arte ela… ela inventa a vida, quer dizer. Essa ideia de que a arte é a revelação da realidade eu… eu tenho minhas dúvidas quanto a isso. Eu acho que a arte não é a revelação, a arte é uma reinvenção da realidade.”

É… a arte é a reinvenção da realidade.

Você está ouvindo Raimundo Fagner e Nara Leão cantando TRADUZIR-SE , música de Fagner e letra de Ferreira Gullar, que tem muito mais a dizer…

“Quando você vai escrever um poema, você não sabe o que vai escrever. Você apreendeu alguma coisa de estranho que a sua surpresa naquele momento te passou. Agora, o que você vai escrever você não sabe, porque não está escrito, compreende… aí é na página em branco.

Veja bem. Uma vez eu estava lá, meu filho abriu uma tangerina lá na sala. Eu, já tinha comido tangerina a vida toda; mas, naquele momento, aí é que entra a coisa toda, o cheiro da tangerina que eu já tinha experimentado mil vezes na vida, de repente naquele momento, naquela tarde, naquela sala, o cheiro da tangerina se revelou uma coisa especial, diferente. Abriu pra mim um mundo que eu não sabia qual era. Tudo bem.

Eu saí de lá pra escrever o poema. Mas eu não sabia o que que eu vou escrever. A tangerina cheirosa, que belo cheiro…eu não conseguia escrever. Aí sabe o que eu fiz? Eu falei assim: eu vou ler sobre tangerina. Peguei a enciclopédia e fui ler sobre tangerina. Descobri que a tangerina é laranja da China…. é a tangerina que é a laranja da China. Depois, descobri que a laranja da China foi levada pra Califórnia, foi a primeira vez que se plantou tangerina fora da China… E aí, fui descobrindo coisas a respeito da tangerina e tal. Mas o poema não nascia. Mas eu estava lendo a toa sobre tudo que pudesse, sei lá, tudo bem.

Aí eu descobri nessa leitura o seguinte: que mineral, desculpem, mineral não tem cheiro. Ferro não tem cheiro, alumínio não tem cheiro, mas tem um mineral que tem cheiro: enxofre. Tudo bem. Aí eu levei um choque: enxofre é mineral. Eu não sabia.

Uma semana depois eu estou no meu carro com a minha mulher, vamos pra praia de Ipanema. Aí eu vou no carro e no meio do caminho surge na minha mente o seguinte verso: com raras exceções os minerais não tem cheiro. Aí começou o poema.

Não fala em tangerina…. e aí vai e entra a tangerina, compreende. Jamais imaginei que o meu poema O cheiro da tangerina fosse começar com esse verso: com raras exceções os minerais não tem cheiro. Então é assim. É uma loucura.

Mas é isso que faz o encantamento da poesia. Porque o resto é tudo previsto, é tudo igual, tudo chato. Por isso que eu digo: a poesia não revela a realidade. A poesia inventa a realidade. A arte não revela a realidade. Isso aí é uma coisa que a crítica insiste em dizer. Eu não concordo. A literatura revela a realidade. Revela nada. Inventa a realidade.

Você conhece algum Hamlet na sua vida? Fora da peça do Shakspeare? Não né. Só está na peça dele. Dormindo lá. Quando você abre pra começar a ler, começa a viver.

Quando Drummond escreve: Como aqueles primitivos que carregam consigo o maxilar inferior de seus mortos eu te carrego comigo, tarde de maio. É bonito? Acrescenta à nossa vida depois que se ouve esse verso. Fica a nossa vida toda mais esse verso que ele criou, que ele inventou. É isso.”

Borbulhas de amor
Juan Luiz Guerra
Ferreira Gullar

Tenho um coração
Dividido entre a esperança e a razão
Tenho um coração
Bem melhor que não tivera

Esse coração
Não consegue se conter ao ouvir tua voz
Pobre coração
Sempre escravo da ternura

Quem dera ser um peixe
Para em teu límpido aquário mergulhar
Fazer borbulhas de amor pra te encantar
Passar a noite em claro
Dentro de ti

Um peixe
Para enfeitar de corais tua cintura
Fazer silhuetas de amor à luz da lua
Saciar esta loucura
Dentro de ti

Canta, coração
Que esta alma necessita de ilusão
Sonha, coração
Não te enchas de amargura

Esse coração
Não consegue se conter ao ouvir tua voz
Pobre coração
Sempre escravo da ternura

Quem dera ser um peixe
Para em teu límpido aquário mergulhar
Fazer borbulhas de amor pra te encantar
Passar a noite em claro
Dentro de ti

Um peixe
Para enfeitar de corais tua cintura
Fazer silhuetas de amor à luz da lua
Saciar esta loucura
Dentro de ti

Uma noite
Para unirmos até o fim
Cara a cara, beijo a beijo
E viver para sempre
Dentro de ti

Ferreira Gullar foi poeta, ensaísta, crítico de arte, dramaturgo, biógrafo, tradutor e memorialista. Mas acima de tudo, um educador irreverente, que fez minha cabeça e a de muita gente. Eu espero ter conseguido passar para você um pouquinho do que ele foi…

E é assim então ao som de BORBULHAS DE AMOR, de Juan Luiz Guerra, com versão de Ferreira Gullar e interpretação de Raimundo Fagner, que este Café Brasil vai saindo… inspirado.

Com o poeta Lalá Moreira na técnica, o poema Ciça Camargo na produção e eu, este fingidor que finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente, Luciano Pires, na direção e apresentação.

Estiveram conosco o ouvinte Fernando,  Raimundo Fagner, Nara Leão, Engenheiros do Hawai, Edu Lobo, Hique Gomez e Nico Nicolaiwiski  e é, claro, Ferreira Gullar.

O Café Brasil só chega até você porque a Nakata, também resolveu investir nele.

A Nakata, você sabe, é uma das mais importantes marcas de componentes de suspensão do Brasil, fabricando os tradicionais amortecedores HG. E tem uma página no Youtube repleta de informações interessantes para quem gosta de automóveis, inclusive as séries de videocasts que eu fiz para eles. Dê uma olhada lá, vale a pena: youtube.com/componentesnakata.

Tudo azul? Tudo Nakata!

Este é o Café Brasil. Que chega a você graças ao apoio do Itaú Cultural e do Auditório Ibirapuera. De onde veio este programa tem muito mais. Visite para ler artigos, para acessar o conteúdo deste podcast, para visitar a nossa lojinha no … portalcafebrasil.com.br.

Mande um comentário de voz pelo WhatSapp no 11 96429 4746. E se você está fora do país é o: 55 11 96429 4746. E também estamos no Telegram, com o grupo Podcast Café Brasil.

E se você acha que vale a pena ouvir o Café Brasil  tem agora uma Confraria do Café Brasil, tá cheio de… e pega fogo cara… É o dia inteiro o pessoal conversando, trocando ideias, num clima de amizade, onde todo mundo pode dizer o que quiser, sem ser ofendido. Você acredita que existe isso? Pois é. Confraria Café Brasil.

Preste atenção: você quer acessar?  Vá para o cafebrasil.top. De novo: cafebrasil.top. Vem com a gente!

E para terminar, Ferreira Gullar explicando o que é esse peixe aí do Borbulhas de Amor…

E o Fagner que é pirado, me mandou fazer a tradução sem perguntar pro cara, sem falar nada com o cara. Você sabe que peixe é esse? É a piroca.