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Luciano Pires -

Olha, este Podcast é diferente de todos que já fizemos. Na verdade relutei em fazê-lo, com medo de que parecesse oportunismo… mas conforme as notícias chegaram foi impossível não pensar num programa e sabe por que, hein? Porque escrever, gravar e editar um programa como este é uma forma de cura, de alivio da angústia. Como esta que ainda sinto com a queda do avião da Chapecoense em novembro de 2016. Considere como uma homenagem aos mais de setenta que morreram e a seus parentes.

Posso entrar?

Senhoras e senhores

Nas primeiras horas da manhã desta terça feira, notícias começaram a alertar sobre uma queda de avião nos arredores da cidade de Medellin na Colômbia. A aeronave transportava jogadores e dirigentes do time brasileiro Associação Chapecoense de Futebol. O time ia disputar a final da Copa Sul Americana contra o time colombiano Atlético Nacional na quarta feira. Tragicamente 75 pessoas perderam suas vidas e nesta noite pedimos aos fãs que se unam e lembrem deles. Um momento de silêncio vai começar e terminar com o apito do árbitro.

Agora não tem explicação, cara! Você chegar aqui no estádio, olhar pro gramado, ver que não tem mais o Danilo embaixo da trave, o Diego dando bicicleta pra tirar a bola da área, o Judimar que não perde uma dividida, o Tiaguinho correndo pra lateral…… não tem explicação, cara! Não tinha que acontecer isso, podia acontecer qualquer coisa menos isso, cara! Por que que aquela bola não entrou, cara? Você olha… parece que o estádio vai cair. Parece que ninguém mais quer ver isso aqui…

Heraldo Pereira – Tem sido um longo dia esta terça-feira (29). Desde a madrugada, os brasileiros acompanharam, aflitos, as notícias da queda do avião.

Giuliana Morrone – É um dia que ficará marcado nas nossas vidas.

Galvão Bueno – Todos nós sabemos como o esporte provoca emoção e paixão. Os atletas são os grandes protagonistas de tantas histórias inesquecíveis. São eles, os técnicos e os dirigentes que fazem o espetáculo.

Mas quem leva a você a emoção que o futebol provoca são os jornalistas: das TVs, das rádios, dos jornais impressos e da internet. É absolutamente simbólico, e muito triste, que seja esse acidente a nos lembrar, de forma tão explícita, essa ligação.

Só nos resta então uma última homenagem para os jogadores, a comissão técnica e os dirigentes da Chapecoense. E para os jornalistas de todos os veículos que nos deixaram nesta terça tão tragicamente.

Todos nós, na redação do Jornal Nacional, de pé, juntos, damos uma salva de palmas.

Ostra faz pérolas. Mas não é toda ostra que faz pérola. Só a ostra que sofre.  Por que? Porque a ostra para produzir a pérola tem que ter um grão de areia, tem que ter alguma coisa que a irrite. E ela vai produzir a pérola pra deixar de sofrer. Pra que aquele ponto agudo, cortante, seja envolvido por uma coisa lisinha que é a pérola. Em muitas das minhas histórias eu fui a ostra que produziu a pérola porque tinha um grão de areia que me cortava. 

Eu me lembro de um dia, seis horas da manhã, minha filha de três anos de idade, eu dormindo, ela chegou no meu quarto, me acordou, eu dormindo ainda disse pra ela: – o que é Rachel? Ela disse: – papai, quando você morrer, você vai sentir saudade? Aí doeu demais. Que grão de areia pontudo! Pai, quando você morrer, você vai sentir saudade? Eu não sabia o que dizer pra ela e nunca imaginei que uma criança de três anos fosse dizer uma coisa assim. 

Eu fiquei mudo. Ela disse: – não chora não que eu vou te abraçar. Aí eu tive que escrever uma história.

Usei neste programa especial  uma sequência de áudios encontrada no youtube. Primeiro a homenagem prestada às vítimas das queda do avião antes do jogo Liverpool e Leeds na Inglaterra, depois a narração emocionada de Deva Pascovicci da defesa do goleiro Danilo que levou a Chapecoense à final da Copa Sul Americana. Tanto o narrador como o goleiro morreram na queda do avião. Em seguida o depoimento emocionado do jogador Hyoran, que só não estava no avião por causa de uma lesão que o cortou do jogo e ele pergunta: porque aquela bola não entrou? Depois, os minutos finais do Jornal Nacional com a homenagem às vítimas do acidente. E por fim, o mestre Rubem Alves explicando que a ideia da morte pode ser um cisco que produz a pérola…

Pois é… cada familiar, cada chapecoense, cada brasileiro tem agora um baita cisco, um grão de areia dentro de si. Cabe a cada um de nós trabalhar para transformá-los em pérolas.

Não sei se alguma palavra aqui servirá de consolo para quem foi diretamente atingido pela tragédia da queda do avião com o time da Chapecoense. Eu acho que não serve não, viu? Palavras não tem o poder de superar um momento como este. Só quem tem esse poder é ele, o tempo.

De minha parte, fica a reflexão sobre o SNAP!, aquele momento que acontece assim: SNAP! E tudo acaba. Acaba a vida, começa a vida, mudam as direções, mudam os planos…

O SNAP taí, ó. Na esquina. À espera de cada um de nós. A qualquer momento.

Faça com que o tempo que você usa hoje, como se tivesse todo o tempo do mundo, valha a pena.

Pra terminar, ao som de Gilberto Gil com NÃO TENHO MEDO DA MORTE, o grito que tomou conta do Brasil:

Não tenho medo da morte
Gilberto Gil

não tenho medo da morte
mas sim medo de morrer
qual seria a diferença
você há de perguntar
é que a morte já é depois
que eu deixar de respirar
morrer ainda é aqui
na vida, no sol, no ar
ainda pode haver dor
ou vontade de mijar

a morte já é depois
já não haverá ninguém
como eu aqui agora
pensando sobre o além
já não haverá o além
o além já será então
não terei pé nem cabeça
nem figado, nem pulmão
como poderei ter medo
se não terei coração?

não tenho medo da morte
mas medo de morrer, sim
a morte e depois de mim
mas quem vai morrer sou eu
o derradeiro ato meu
e eu terei de estar presente
assim como um presidente
dando posse ao sucessor
terei que morrer vivendo
sabendo que já me vou

então nesse instante sim
sofrerei quem sabe um choque
um piripaque, ou um baque
um calafrio ou um toque
coisas naturais da vida
como comer, caminhar
morrer de morte matada
morrer de morte morrida
quem sabe eu sinta saudade
como em qualquer despedida.