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Luciano Pires -

O autismo é um distúrbio neurológico caracterizado por comprometimento da interação social, da comunicação verbal e não verbal e do comportamento restrito e repetitivo. Mas o maior problema ainda é o preconceito…

Posso entrar?

Amigo, amiga, não importa quem seja, bom dia, boa tarde, boa noite, este é o Café Brasil e eu sou o Luciano Pires.

Este programa chega até você com o apoio do Itaú Cultural e do Auditório Ibirapuera que, como sempre, estão aí, a um clique de distância. facebook.com/itaucultural e facebook.com/auditorioibirapuera.

E quem vai levar o exemplar de meu livro Me engana que eu gosto é o Vítor do Rio de Janeiro

“Luciano, meu nome é Vitor, eu sou do Rio de Janeiro e eu acabei de ouvir o episódio do Fator Merlin, tinha mais ou menos um ano que eu não ouvia o Café Brasil, tive uma mudança repentina aí na minha rotina que fez, infelizmente, eu perder o hábito e, assim que eu acabei de ouvir esse episódio, eu tive que fazer uma ligação, que eu já vou explicar porque essa ligação mas, eu tenho que te mandar essa mensagem agora cara, de supetão mesmo, espontânea, porque eu me emocionei pra caramba no episódio. Já consegui dar uma extravasada na ligação que eu fiz mas, deixa eu contar primeiro quem eu sou. Eu tenho 28 anos, acabei de fazer, eu sou engenheiro químico recém formado pela Federal Rural do Rio de Janeiro. Eu levei um pouquinho a mais de tempo pra me formar, na engenharia, um curso complicado e eu sabia porque. Nunca foi o curso ou a profissão que eu amava, eu só meio que gostava. Acabei entrando acho, que pela nossa cultura industrialista que a gente tem aqui no Brasil, que o que tem valor são os cursos que tem valor pra indústria né, exatas, matemática, química… e fui sendo levado. Fui sendo levado e quando eu me formei tive um grande baque, porque eu não sabia o que fazer com o meu diploma. Fiz estágios enquanto me formava, mas nada que me provocasse paixão e depois que formei não sabia o que fazer e estou aí há mais ou menos um ano nessa situação. Eu estou fazendo mestrado, o mestrado eu já gosto um pouco mais, é em físico-química, química teórica e tenho sido professor enquanto isso né. Consegui achar alguma coisa agradável pra fazer com o meu diploma: ensinar. Ensinar e estudar mais, né, sendo que as paixões que a gente tem na vida, elas aparecem espontaneamente, a gente… a gente meio que gravita em direção a essas coisas, sem… às vezes até a gente não querendo. Durante a faculdade, eu tinha problema de grana pra me sustentar, apesar de receber ajuda da minha família e eu sou muito bom com desenho, com arte, com criação e acabei arranjando uma forma de ganhar um dinheiro durante a graduação fazendo cartaz de festa, fazendo convite, fazendo página pras pessoas no Facebook isso, chegou no final da faculdade eu já conseguia receber praticamente um salário fazendo só isso. Acontece que eu me formei e essa atividade extra morreu, porque teoricamente eu passei a ter uma renda mas, eu ainda sinto falta. De vez em quando eu abro lá no meu computador o Photoshop, abro o Corel e brinco, faço coisas pra mim mesmo, faço imagens, faço desenhos… E o episódio do Fator Merlin, ele fala exatamente disso né. Aonde você quer estar? O que é que você quer fazer? Quando você falou dos setenta anos, eu tive uma certeza, eu não quero… eu não quero ficar a vida inteira me convencendo que eu sou um engenheiro. É a primeira vez que eu coloco esse sentimento, esse pensamento em palavras, né? E é libertador, cara! Teu episódio me ajudou a admitir isso agora, nesse momento. Quando terminei de ouvir o episódio tive que parar o carro e liguei pra minha namorada, ou pra minha noiva, que é um outro ponto da minha vida que precisava de um objetivo, a gente tem muita vontade de se casar mas, pega sempre aquele plano que ficava pra depois, pra lá e a gente tinha algumas datas em mente, liguei pra ela e marquei, Luciano. Dia 26 de maio de 2018. Uma data confortável né, mas que dá espaço pra gente organizar a vida, ver a nossa casa e começar a pagar as coisas. Mas voltando aí à engenharia, o episódio foi muito emocionante pra mim, porque me fez admitir, como eu já falei, em palavras, o sentimento que eu tinha: e aí? O que eu vou fazer com esse diploma? Honestamente? Nada. Esse diploma vai ser a ponte pra eu fazer o que eu amo de verdade, que é arte digital. Existia uma dúvida muito grande na minha cabeça porque os caminhos, quando você se forma e não sabe o que fazer, é concurso público mas, enquanto eu ouvia o programa, eu entendi que eu não to afim de chegar aos setenta, sessenta, cinquenta anos, ser um cara com um contracheque legal mas, que nunca na vida fez alguma coisa que amou. Então obrigado mesmo cara, por esse episódio. A tua missão é muito emocionante, eu ouço direto as pessoas falando que se emocionam ouvindo o Café Brasil e hoje eu ui mais uma delas, cara! Chega! Chega de mentir e se eu quero trabalhar com arte, sei lá como, eu preciso direcionar o presente pra chegar nesse futuro aí. Muito obrigado mesmo, cara! De uma tacada só você me fez sair da inércia em dois pontos cruciais da minha vida. Fez eu admitir que eu estou desperdiçando o meu tempo, que eu preciso me dedicar á carreira que eu realmente amo e você me fez decidir o meu relacionamento. Acho que minha noiva te agradece. Grande abraço, Luciano. Parabéns mesmo, cara! E obrigado por todos esses anos aí fazendo esse conteúdo sem igual, ímpar no mundo. Grande abraço.”

Rarara… taí meu… o Café Brasil destravando relacionamentos… Valeu Vitor! Seu depoimento é uma festa para nossos ouvidos e tem tudo a ver com a proposta deste programa que é estimular as pessoas a procurar novas formas de ver o mundo e assim, tomas as decisões que impactarão em seu futuro. O Café Brasil veio para tirar as pessoas da inércia. E o programa de hoje faz parte dessa missão.

Muito bem. O Vitor receberá um KIT DKT, recheado de produtos PRUDENCE, como géis lubrificantes e preservativos masculino e feminino. Esse vai usar rapidinho, viu? PRUDENCE é a marca dos produtos que a DKT distribui como parte de sua missão para conter as doenças sexualmente transmissíveis e contribuir para o controle da natalidade.  O que a DKT faz é marketing social e você contribui quando usa produtos Prudence. facebook.com/dktbrasil.

Vamos lá então! Ô Lalá, hoje eu quero em homenagem aos noivos…

Na hora do amor, use

Lalá – Prudence. Mas eu quero aquele que brilha no escuro hein?

Giovani, de 9 anos, é filho de um de nossos ouvintes, o Paiva Junior e é autista. Um bom tempo atrás o Paiva me mandou algum material a respeito, sugerindo que eu pensasse num programa. O que o Paiva me escreveu foi o seguinte, olha…

Autismo é uma síndrome que compromete o desenvolvimento, em três importantes áreas: a comunicação, a socialização e a imaginação, além de vir acompanhado de movimentos repetitivos. E quanto mais cedo for tratado, maiores as perspectivas na qualidade de vida.

O que pouca gente sabe é que há vários níveis de autismo. Desde os mais leves, como a Síndrome de Asperger, em que já se classificaram grandes gênios como Einstein, Mozart e Santos Dumont, até autismo severo com debilidade mental e comprometimentos motores. Essa variação chama-se espectro do autismo.

O Brasil não tem estatísticas a respeito, mas números de pesquisas estadunidenses  de 2009 alertam para um caso de autismo em cada 110 crianças – chega-se a falar numa epidemia mundial de autismo.

Os principais sintomas em crianças são;

– não olhar nos olhos;

– não responder pelo nome (como se não ouvisse);

– não se interessar por outras crianças;

A maior causa de preconceito é a falta de informação, pois o fato de não haver uma característica física facilmente notável, faz com que uma criança autista seja considerada por leigos uma criança birrenta e mimada, de pais “bananas” que não a educam.

A primeira coisa que meu filho, o Giovani, que está no espectro do autismo, me ensinou foi “não julgar”.

O autismo é irreversível e até pouco tempo, se acreditava que a pessoa autista era incapaz de se comunicar. Com os anos e as investigações que crescem cada dia, se observou que as crianças com autismo podem se comunicar, ainda que tenham muitas dificuldades para isso. E muitos conseguem levar uma vida normal.

Ouça esta explicação do psiquiatra infantil Caio Abujadi sobre como funciona a mente de um autista:

“Meu nome á Caio Abujadi, eu sou médico psiquiatra infantil, especialista em autismo, convidado pela produção da peça “O estranho caso do cachorro morto” para um debate após a peça. O cérebro do paciente com autismo, ele é um cérebro um pouco diferente do nosso. Ele é um cérebro mais hiper excitado. Funciona mais ou menos assim: é como se nós, o nosso cérebro ele faz uma atividade de cada vez. Então, toda vez que a gente faz uma atividade, a gente desliga a nossa atividade anterior. Mesmo quando a gente está fazendo duas atividades ao mesmo tempo, a gente na realidade, está fazendo uma de cada vez e bem rápido. O paciente com autismo não. Por ele ter um cérebro hiper excitado, ele liga uma atividade sem desligar a atividade anterior. Então, ao longo do dia às vezes ele está fazendo cem, duzentas, mil atividades ao mesmo tempo naquele cérebro. E isso ele faz desde quando ele nasceu. O cérebro dele é assim. Então, a gente tenta fazer com que eles funcionem com o cérebro parecido com o nosso. Só que, se eles tentarem funcionar da mesma forma que a gente, eles se desorganizam. E aí, eles entram em crise. Então, desde pequenos eles vão criando método pra se organizar. Você tem um padrão de comportamento repetitivo. Na realidade, isso é um cérebro tentando se organizar. Eles sempre voltarem pro mesmo start, faz com que eles continuem funcionando de forma adequada naquele mar de estímulos que eles tem. Então, eles tem que seguir uma linha reta dentro desse mar de estímulos. Quando eu coloco um bloqueio nesse comportamento repetitivo, peço pra ele parar de fazer aquilo, ou bloqueio um ritual, uma rotina ou até uma estereotipia, ele cai de novo nesse mar de estímulos e ele se desorganiza completamente. O cérebro mais imaturo ele é mais sensorial e mais motor. Por isso a gente vai ter predomínio de comportamento repetitivos motores, que são as estereotipias e sensoriais, são as hiper sensibilidades tátil, gustativa, olfativa, visual e auditiva. E aí, conforme ele vai amadurecendo, esse padrões de comportamentos repetitivos eles vão mudando pra comportamentos repetitivos que a gente chama de “ordem superior”, que são comportamentos mais maduros. Então, são baseados em rituais, rotinas, compulsões e quando o comportamento repetitivo se torna num padrão exemplar, que aí a gente vai ter as habilidades, quando a gente tem uma coisa que a gente chama “insistência na mesmice”, que é quando o paciente começa a estudar temas diferenciados. Então, ele sabe tudo sobre astronomia, sabe tudo sobre os animais, sabe tudo sobre os dinossauros. Então veja: você tem o mesmo comportamento que é uma estereotipia, e o alto interesse por astronomia, é a mesma forma de trabalhar aquele cérebro hiper excitado, entendeu? Só que com padrões cognitivos diferentes. Desde o primeiro dia que a gente nasceu, o que a gente faz durante o dia é criar redes neuronais. Isso vale pra todos nós, tá? E durante a noite, memorizar essas rede neuronais. No dia seguinte, a gente reativa essas redes neuronais, acrescenta as informações daquele dia e armazena durante a noite. A gente faz isso a vida inteira, tá? Os pacientes com autismo, eles tem redes de preferência, que fazem com que ele se organize. Eu tenho que atrelar as novas informações do dia a essas redes neuronais de interesse. Então, se um paciente está lá, super interessado em bichos, em fazer desenho e eu quero que ele se interesse por outras coisas, eu posso através dos bichos e dando um conhecimento sobre outras áreas. Então, eu quero que ele aprenda sobre o céu. Então eu vou falar que aquela bicho está brincando num lugar ensolarado que tem nuvens, que tem sol e aí, de repente, eu estou falando do céu e deixei os bichos de lado, mas estou usando as mesmas redes neuronais. Então nós temos que usar o comportamento repetitivo a nosso favor e fazer com que ele amplie o espectro de conhecimento em cima desses conhecimentos e dessas situações específicas. A importância de que as pessoas vejam o autista como ele é. E não tentem transformar ele numa pessoa típica. Que se a gente conseguir dar pra ele o mundo que eles precisam, eles vão se desenvolver super bem.”

Dar a eles o mundo que eles precisam… Uma das definições obre autismo que mais me chamaram a atenção é esta aqui ó: é como caminhar por aí com as unhas cortadas curtas demais e os sapatos nos pés trocados. Todo santo dia… Você consegue imaginar isso, hein? E eles estão por todos os lados. Gente como a atriz Daryl Hannah, o ator Dan Aykroid, a cantora Courtney Love, o cineasta Tim Burton, o bilionário Bill Gates, o artista Andy Warhol, o bilionário Warren Buffet e, com toda certeza, Wolfgang Amadeus Mozart…

Mas sabe o que mais me fascina, hein? É saber que autistas têm uma forma de organização do cérebro que parece mais sofisticada que a nossa… Sobre isso escrevi um texto chamado Os X Men.

Você ouve ao fundo Lenny, com Steve Ray Vaughn.

Steve é um dos maiores guitarristas da história, aliás foi um dos maiores guitarristas da história e num DVD em sua homenagem há um depoimento de outro gênio, Eric Clapton, que chama a atenção. Clapton diz mais ou menos assim:

– Quando toco guitarra, penso no próximo acorde de acordo com o resultado que quero obter. Levo uma fração de segundo, que é aquele momento em que, racionalmente, eu penso para construir o acorde. Stevie Ray não fazia isso. Quando tocava, um acorde seguia o outro naturalmente. Ele não precisava pensar para tocar. Era como se a guitarra fosse extensão de seu corpo.

Conversei a respeito com meu amigo Nuno Mindelis, outro guitarrista genial, aliás:

Lalá manda aí um pouquinho o Dizzy Slow Blues com o Nuno Mundelis, por favor: 

O Nuno então me disse algo que também chamou a atenção.

– Quando subo no palco e começo a tocar, entro num mundo diferente, só meu. Passo a pensar diferente, a agir diferente. É uma espécie de autismo.

Steve Ray com a guitarra nas mãos era um autista. Nuno Mindelis também é.

Recentemente um outro amigo meu Luis Tejon publicou um artigo em que afirmava que Lionel Messi, o maior jogador de futebol da atualidade, é autista. Tejon escreveu assim: “Messi tem Síndrome de Asperger, um autismo leve que o dota de um impressionante talento de foco e de concentração na repetição do que deve ser feito para obter êxito nas jogadas do futebol. Ele tem o olhar que não olha mas que foca no objetivo de maneira completa. Em função do autismo também busca escapar das pressões das entrevistas, das badalações sociais e mesmo na propaganda consegue pronunciar a palavra ‘listo’ (pronto) meio sem jeito… mas com todo jeito no foco de sua arte esportiva.”

Lionel Messi, com a bola nos pés, é um autista.

Se você reparar bem nos indivíduos que têm alguma habilidade especial muito acima da média, no âmbito da genialidade, notará que a maioria deles é “gente esquisita”. Olham diferente, falam diferente, movimentam-se diferente, tomam decisões diferentes. São gente diferente da gente.

Pois começa a ganhar força uma tese dando conta de que esses indivíduos, vivendo vários tipos diferentes de síndromes ligadas ao complexo “autismo”, ou até mesmo a dislexia, já seriam os primeiros exemplares do ser humano no futuro. Esses atributos “diferentes”, que muitos julgam defeitos, seriam mutações, evoluções, na direção de um novo ser humano capaz de feitos inimagináveis para nós, os “normais”. São como os X Men dos gibis e do cinema, com habilidades sobre-humanas que hoje achamos esquisitas, pois implicam num comportamento social que não compreendemos. Eles realizam feitos inacreditáveis, têm memória incrível, saem tocando piano aos quatro anos de idade, leem quando outros bebês nem mesmo balbuciam palavras, anteveem jogadas brilhantes, são capazes de visualizar padrões onde só vemos caos. Seres humanos do futuro, hiper sensíveis, com habilidades que ainda não compreendemos.

E a novidade é que a quantidade de crianças com vários graus de autismo está crescendo ano a ano. Os X Men estão chegando e a sociedade vai ter de se adaptar a eles.

Olha! Não sei se isso é assustador ou maravilhoso, mas algo me diz que é o futuro.

Na Confraria Café Brasil, temos o Mauricio Tonetto, que publicou um artigo chamado “Como o meu irmão autista me ensina a ser tolerante”, em homenagem ao Dia do Irmão, celebrado em 5 de setembro. Vale a pena ouvir para entender um pouco mais sobre a convivência com os autistas.

Tinha 10 anos de idade quando o meu irmão Arthur nasceu. Ele veio ao mundo um mês antes da final da Copa do Mundo dos Estados Unidos, em 1994. Para mim, era tudo muito estranho. Sem entender direito, me tornava o filho do meio  –  com uma irmã mais velha para me cuidar e um mais novo para eu proteger.

Nos primeiros meses, tudo correu dentro do esperado. Era uma alegria diferente para todos nós. A vida estava renovada e eu tinha uma responsabilidade real pela primeira vez: servir de modelo para meu irmão mais novo. Porém, as coisas começaram a ficar estranhas. O Arthur não tinha o mesmo desenvolvimento dos bebês “normais”. Para ele, era mais difícil engatinhar e arriscar os primeiros passos e palavras.

Começaram a aparecer as crises de choro e ansiedade. Aos poucos, tomamos consciência de que ele tinha alguma coisa. Mas o que? Ele era uma criança linda, perfeita, sem qualquer indício físico de anomalias. Meus pais foram à luta sem pestanejar e sem negar as evidências. Procuraram todos os médicos e todos os tratamentos possíveis. Só que estávamos na década de 1990 e, por incrível que pareça, o autismo ainda era um mistério para a medicina. Pelo menos no Brasil. Perdemos um tempo precioso.

Chegava a hora de o Arthur ir para a escola, socializar, fazer amigos, começar a descobrir o encanto de ser uma criança em fase de aprendizado. Foi duro, principalmente para meus pais. Para mim também foi duro. Eu já tinha meus 14 anos, entrava com os dois pés na adolescência e enfrentava uma barra em casa que só quem tem uma pessoa com deficiência por perto compreende.

Ao mesmo tempo que sofríamos com as limitações do Arthur, sofríamos com o preconceito do qual ele começava a ser vítima e que não teria como escapar. Sim, vítima. Qualquer pessoa especial se torna vítima quando é ridicularizada por quem quer que seja. E não pensem que o preconceito vinha apenas dos coleguinhas  –  o que, até certo ponto, dá para aceitar. O preconceito vinha de adultos, de pessoas “normais”, em todas as situações imagináveis: no shopping, no restaurante, na padaria, no supermercado, na cafeteria, na praia, no clube, no parque.

— Olha lá aquele louquinho.

— Que criança estranha.

— Olha como fala e se comporta.

— Que falta de educação, culpa dos pais!

Ele não conseguia manifestar tudo que sentia, mas sentia. De uma forma extremamente sincera, como é característica dos autistas. Sentia por não conseguir acompanhar o ritmo natural da vida. Sentia por ouvir piadas e grosserias gratuitas, sem saber o motivo. Sentia por tentar, tentar, tentar e não conseguir. Isso tem um motivo. As sinapses, nos autistas, são diferentes. (…) Nós sentíamos essa confusão também. É um ciclo perigoso, que pode levar a separações definitivas entre as pessoas se não houver TOLERÂNCIA, empatia e conhecimento de como lidar com as situações. Calma, harmonia e carinho são importantes.

O diagnóstico veio aos nove anos de idade e o mundo não caiu. Pelo contrário. Abriu-se uma porta libertadora. Era fundamental saber o que ele tinha para iniciar um tratamento efetivo. Nos anos 2000, a nossa vida tinha mudado definitivamente com a chegada do Arthur. Nunca mais os encontros familiares, os passeios e as atividades prosaicas do cotidiano foram iguais.

Confesso que, durante um tempo, eu tive vergonha de determinadas situações. Vergonha de que meu irmão pudesse ter um chilique na frente das outras pessoas ou de que ele pudesse falar algo de maneira totalmente deslocada. E aqui veio a primeira lição: eu deveria é sentir vergonha de ter vergonha.

Observando o comportamento dele, o meu e as reações de quem estava em volta, compreendi como o preconceito se manifesta. A conclusão que eu cheguei é que preconceito e intolerância estão intimamente ligados. A segunda lição: quantas vezes eu fui e sou preconceituoso com quem é diferente?

Não sinto raiva, desprezo ou qualquer outro sentimento negativo das pessoas que ofenderam o Arthur. Não me coloco acima delas, pois, como disse antes, eu posso ter feito isso em outras ocasiões, contra outras pessoas, sem nem mesmo perceber. Essa foi a terceira lição ensinada por ele. Hoje, passados 22 anos desta vivência, não posso mais me dar o direito de agir de maneira preconceituosa. É minha obrigação respeitar e compreender as limitações que as pessoas enfrentam, não importa quais sejam.

A quarta lição, portanto, é que é o Arthur quem me protege e é meu modelo e não o contrário. Graças a ele, eu me defendo da minha própria ignorância e vou me tornando um pouco melhor todos os dias.

A intolerância é um dos venenos da humanidade. Ela leva a aberrações como o nazismo, a guerra santa e o assassinato de homossexuais. A intolerância leva amigos e até familiares a romperem vínculos por causa de política, futebol e religião. A intolerância empurra a sociedade para a insensatez. A intolerância é o combustível da ignorância.

O Arthur cresceu. Em Santa Maria, deixou muitos amigos e muita saudade. Em Porto Alegre, faz novos amigos e encontra outro sentido para a existência. Graças ao Clube Social Pertence, uma grande ideia de pessoas determinadas, ele convive com outros jovens especiais, com diferentes dificuldades. Encontrou uma namorada e um ambiente de compreensão, que estimula sua cidadania. A tempestade já passou, mas navegar é sempre difícil.

Arthur Tonetto, que é a inspiração do Maurício

Arthur Tonetto, que é a inspiração do Maurício

Ainda deparamos com inúmeras situações de preconceito e constrangimento. O que mudou, pelo menos para mim, é a forma de lidar com elas. Não acho certo devolver com uma agressão ou com uma grosseria. A própria pessoa se sentirá mal ao perceber que está sendo intolerante. Se não sentir nada, bom, eu lamento.

Renovo minha fé nas pessoas quando percebo que muitas delas não só compreendem limitações como a do Arthur como fazem questão de tratar bem e integrar seres humanos especiais como ele. Até o nascimento do meu irmão, eu nunca tinha dado bola para isso, e provavelmente não teria dado até hoje.

Aqui vai, então, a quinta lição: a tolerância não tem nada a ver com inteligência ou cultura, e sim com querer se transformar –  seja pela experiência, seja pela observação. Independente do quão educados somos.

Obrigado, irmão.

Eu não sei você. Mas eu, estou com um nó na garganta, viu?

No texto deste programa que você encontra no Portal Café Brasil, publiquei a foto do Arthur e o vídeo do Doutor Caio Abujadi. E se você quiser mais, conheça a ABRA – Associação Brasileira de Autismo, no autismo.org.br. E no sessaoazul.com.br você conhece outra iniciativa: sessões de cinema adaptadas para crianças com distúrbios sensoriais e suas famílias.

E é assim então, refelxivos, ao som de DANA´S SONG, que o Nuno Mindelis compôs especialmente para a empresa na qual eu trabalhava, a Dana, quando patrocinamos a edição de um de seus DVDs, que este Café Brasil vai saindo de mansinho.

Espero que este programa ajude a acontecer aquilo que uma mãe de um autista disse uma vez:

“Não queremos mudar a forma com que nossos filhos veem o mundo. Queremos mudar a forma como o mundo vê nossos filhos.”

Com o compenetrado Lalá Moreira na técnica, a desconectada Ciça Camargo na produção e eu, fascinado com esses mutantes que nos cercam, Luciano Pires, na direção e apresentação.

Estiveram conosco o ouvinte Vitor, Paiva Junior, Caio Abujadi, Mauricio Tonetto e os artistas Steve Ray Vaughn, Nuno Mindelis e Mozart… claro… e o Arthur

O Café Brasil só chega até você porque a Nakata, também resolveu investir nele.

A Nakata, você sabe, é uma das mais importantes marcas de componentes de suspensão do Brasil, fabricando os tradicionais amortecedores HG. E a Nakata tem um canal no Youtube que é tudo de bom meu, inclusive com os Videocasts que eu produzi pra eles. youtube.com/componentesnakata.

Tudo azul? Tudo Nakata!

Este é o Café Brasil. Que chega a você graças ao apoio do Itaú Cultural e do Auditório Ibirapuera. De onde veio este programa tem muito, mas tem muito mais. Visite para ler artigos, para acessar o conteúdo deste podcast, para visitar nossa lojinha no … portalcafebrasil.com.br.

Mande um comentário de voz pelo WhatSapp no 11 96429 4746. E se você está fora do país: 55 11 96429 4746. E também estamos no Telegram, com o grupo Podcast Café Brasil.

Olha aqui ó: se você está gostando de ouvir o Café Brasil e quer participar, vem pra Confraria. Confraria Café Brasil tá pegando fogo. O grupo do Telegram já está com mais de 590 pessoas e tem um monte de gente participando, conversando, trocando ideias, num nível que a internet não está acostumada a proporcionar. Tá bom? Acesse o portalcafebrasil.com.br, clique no banner do cérebro tanquinho e mude a sua história.

E para terminar, uma frase tirada do Café Press:

“Pessoas com autismo não mentem, não julgam, não fazem jogos mentais. Talvez possamos aprender alguma coisa com elas.”