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315 – Loki

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Luciano Pires -
Gratuito!
23,7 MB

Bom dia, boa tarde, boa noite. Você já foi chamado de maluco? Conhece alguém que é maluco? O que é que define uma pessoa maluca? É claro, não estou me referindo ao maluco clínico, o sujeito que tem problemas mentais e que tem que ser tratado, mas àquelas pessoas que nãos e comportam do jeito que a gente espera, e que por isso achamos que são esquisitas.

Este é mais um programa da série que fala sobre aquela loucura necessária.

Pra começar, uma frase do escritor inglês Aldous Huxley:

A normalidade é tão somente uma questão de estatística.

Este programa chega até você com o suporte de uma turma que está acostumada a lidar com gente que sabe como trafegar naquilo que chamamos de anormalidade: os artistas! Itaú Cultural. www.itaucultural.org.br. Acesse o site e descubra mundos alternativos que ajudarão a você a compreender a nossa insana realidade.

[showhide title=”Continue lendo o roteiro” template=”rounded-box” changetitle=”Fechar o roteiro” closeonclick=true]

E o exemplar de hoje de meu livro NÓIS…QUI INVERTEMO AS COISA vai para  Rafael Gonçalves Pereira, que escreve um daqueles emails que nos dão combustível para continuar com o Café Brasil. Olha só…

“Ola Luciano

Meu nome é Rafael, tenho 25 anos, moro em Belo Horizonte e gostaria de lhe agradecer, pois graças ao seu programa, para ser mais especifico o programa 282 – “Bom humor, mau humor”, eu comecei a procurar ajuda de um psiquiatra e me descobri um distímico. Hoje eu não tenho como descrever a melhoria da minha qualidade de vida.

Sei que para muitos é difícil procurar ajuda, por medo ou a certeza de que não dará certo, mas saiba que ficarei eternamente grato pois o Café Brasil foi a mão amiga que me puxou da fossa, não tenho palavras pra agradecer senão muito obrigado.”

Pô, Rafael, o que é que a gente pode dizer? Só um muito obrigado por nos contar sobre seu sucesso.

O Rafael ganhou um livro por comentar o programa, mas pelo jeito ganhou muito mais, não é mesmo?

Ó, o volume de comentários está caindo outra vez pô. E eu tenho que dar uma chacoalhada aqui nos preguiçosos… ô meu! Vamos se mexer aí?

E a promoção NAKATA, hein? Nakata, a marca de segurança para quem quer componentes de direção e suspensão para seus veículos? Você pode concorrer a um iPod Touch pra ouvir suas músicas prediletas e baixar o Café Brasil direto do iTunes!

E agora a coisa melhorou, cara. Além de você, o seu mecânico pode ganhar, olha só.

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De novo: www.facebook.com/componentesnakata. Tem um iPod Touch esperando por você e outro para o seu mecânico do coração.

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Você é normal? Segundo estudo da equipe do Laboratório de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, somente 26,4% das pessoas são normais.

O estudo do Hospital das Clínicas testa os efeitos do antidepressivo cloripramina em voluntários sem nenhum problema psiquiátrico. Só que, de cada 100 pessoas que se apresentam para participar, 80 foram dispensadas por não preencherem alguns requisitos básicos. E o principal deles é justamente ser normal. A depressão é até agora a doença mais comum entre os eliminados, com 46%. Ansiedade veio depois, com 21%, seguida de obsessões com 8%.

Pô, me imaginei passando pelo teste. Sou ansioso, rôo unhas, tenho umas compulsões, sou meio caladão… Acho que não passo no teste também, viu.

Sou anormal. Afinal de contas, o que é ser normal? O psicanalista Ailton Amélio, da USP, diz que se um determinado transtorno, como timidez e ansiedade, não prejudica aos outros e o próprio portador dele, não é preciso se preocupar. O normal, portanto, é não ser normal.

Claro que estou falando da anormalidade que respeita a integridade do próximo. Mas pra falar a verdade, ando de saco cheio de gente normal.

Pessoas normais são previsíveis. Comportam-se da forma como esperamos, sem novidades. São… maçantes. O que falta pra nós hoje é mesmo um pouco mais de anormalidade, um pouco daquela loucura nutritiva, como aquela definição de “louco” que encontrei num dicionário: “Dominado por paixão intensa apaixonado extravagante travesso brincalhão fora do comum incomum, enorme, extraordinário. Loucura: Tudo que foge às normas, que é fora do comum pessoa que devota grande amor ou entusiasmo”.

Viu só? Essa tal de anormalidade, de loucura, envolve paixão, entusiasmo. Com certeza você já sentiu o que acontece quando se entusiasma, quando tem paixão pelo que está fazendo, não é? Não faz toda a diferença?

Pois é. Na vida da gente, ser chato, ser maçante, ser normal, é sempre a estratégia mais arriscada. Nos coloca como previsíveis. Como iguais a todos os outros. Nos faz…invisíveis!

Não quero. Quero amigos esquisitos. Quero lugares esquisitos. Quero ler coisas esquisitas. Quero comer comidas esquisitas. Cultivar um hobby esquisito.

Coisas esquisitas me darão uma visão diferente da realidade, fora da normalidade, fora das regras. Gente anormal me fará pensar, refletir. Coisas esquisitas me provocarão a imaginação, farão meu cérebro trabalhar… Coisas esquisitas têm…vida!

É isso.

Balada do louco
Os Mutantes

Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão

Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu

Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu

Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz
Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu

Sim sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz

Mas louco é quem me diz
E não é feliz, eu sou feliz

Você está a versão de BALADA DO LOUCO, aquele hino d ‘ Os Mutantes com a banda paulista Homem do Brasil…

Deixe-me retomar algo que já trouxemos num programa muito antigo, o podcast Café Brasil número 51, lá de 2007, que se chamou Loucos Essenciais. Se você gostar do tema, acesse o www.podcastcafebrasil.com.br e procure aquele programa antigo, tem muito mais conteúdo por lá.

Começo minha palestra “O meu Everest” contando que assim que tomei a decisão de ir para o Everest, me deparei com uma primeira frustração.

Sempre que eu contava para alguém para onde eu estava pensando em ir, a pessoa me chamava de louco… É claro que ninguém disse assim na minha cara, mas não precisava. Bastava eu dizer a palavra EVEREST e na testa da pessoa aparecia escrito louco, maluco, irresponsável, demente… todos os xingamentos relacionados à loucura eu passei a ouvir. E eu pensava: – Pô, meu! Levei 43 anos para chegar numa posição em que posso me dar ao luxo de sair em busca de um sonho e quando conto para as pessoas, tudo que elas tem pra me dizer é que eu sou louco? Por quê?

Porque eu estava quebrando as regras.

Muito bem! Eu vou comentar esse assunto lendo aqui uma poesia que eu recebi do J.Carlos Favoretto chamada “Insanos”, olha só:

Ultrapassar o limite da sanidade,
Boa maneira de encontrar a felicidade.
Os malucos vivem a sua realidade,
Desligando-se da realidade.
Acabam taxados como loucos,
Mas para viver precisam de tão pouco,
Gritam felizes até ficarem roucos,
E quando chamados fazem ouvidos moucos.
Vivem eternamente apaixonados,
Pelo invisível que lhes é dado,
Não se sentem rejeitados,
Na sua loucura não são incomodados.
Seus olhos vêem o belo,
Seus olhos vêem a fantasia,
Seus olhos vêem a paixão,
Seus olhos vêem a vida.

Doidão
Jorge Mautner

Eu sou doidão, eu sou doidão
Eu sou doidão, doidão, doidão
Mas tenho bom coração
Bão ba la lão, bão ba la lão
Ah, me esqueci do resto da canção
Que papelão

Rararaa… só pode ser Jorge Mautner, não é?

Raulzito Seixas
Sérgio Sampaio

Meu nome é Raulzito Seixas
Eu vim da Bahia
Vim modificar isso aqui
Toco samba
E rock, morena
Balada e baioque

http://va.mu/XqlG – Raul Seixas em sua última entrevista no Jô Soares contando sobre como comeu lixo em Nova York

Então encontrei um artigo de Rubem Alves, que estava meio sumido aqui do programa, que trata com a maestria de sempre da loucura dos que fazem acontecer. Olha só:

Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei.

Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia.

Eu me explico. Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se. Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakovski suicidou-se.

Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos, muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.

Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as ideias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado. Nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.

Pensar é uma coisa muito perigosa… Não. Saúde mental elas não tinham…

Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.

Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente “equipamento duro”, e a outra denomina-se software, “equipamento macio”. Hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades “espirituais” – símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes. Nós também temos um hardware e um software.

O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. E o software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo “espirituais”, sendo que o programa mais importante é a linguagem.

Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam.

Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos e, somente símbolos, podem entrar dentro dele. Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção!

Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio: a música que saia de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou… Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, “saúde mental” até o fim dos seus dias.

Você é doida demais
Lindomar Castilho

Eu pensei em me entregar
Meu amor meu coração
Meu carinho e muito mais

Mas parei por um instante
Pensei mas dois minutinhos
E voltei um pouco atrás
Recordei que no passado
Você esteve ao meu lado
E roubou a minha paz
Hoje me serve de exemplo
Vou fugir enquanto é tempo
Você é doida demais

Você é doida demais
Você é doida demais
E você é doida demais

Doida, muito doida
Você é doida demais

 Rararara…. que clásssico…. essa é VOCÊ É DOIDA DEMAIS de Lindomar Castilho e Ronaldo Adriano, que você certamente conhece. Lindomar é um daqueles casos de loucura. Continue ouvindo aí que daqui a pouco eu conto mais um pedacinho da história.

Eu não quero e nem preciso
De amor doido e sem juízo
Para comigo viver

Pois eu sou aquele homem
Que pensou lhe dar o nome
E você nem quis saber
Todo dia me enganava
sempre voce me trocava
Pelo amor de outro rapaz

Você é tão leviana
Nisso você não me engana
Você é doida demais

E a loucura do Lindomar? Pois é. Músico de sucesso, que ajudou a formatar a música brega e se tornou um dos maiores vendedores de discos dos anos setenta, em 1981 matou a ex mulher de quem havia se separado, com cinco tiros pelas costas.

E é com Coral da Cantata BWV 140 de Johann Sebastian Bach, na interpretação de Mário Sève e Marcelo Fagerlande que volto ao texto de Rubem Alves com sua receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, “saúde mental” até o fim dos seus dias, olha só:

Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes.

A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música… Brahms, Mahler, Wagner, Bach são especialmente contraindicados. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Tranquilize-se há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler José Saramago?

Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.

Seguindo essa receita você terá uma vida tranquila, embora banal.

Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram…

Cê tá pensando que eu sou loki?
Arnaldo Baptista

Cê tá pensando que eu sou loki, bicho?
Sou malandro velho
Não tenho nada com isso

A gente andou
A gente queimou
Muita coisa por aí
Ficamos até mesmo todos juntos
Reunidos numa pessoa só
Cê tá pensando que eu sou loki, bicho?
Eu sou velho mas gosto de viajar por aí
Cilibrina pra cá
Cilibrina pra lá
Eu sou velho, mas gosto de viajar…

Cê tá pensando que eu sou loki, bicho?
So malandro velho
Não se mete no enguiço

Então é assim, ao som de CÊ TÁ PENSANDO QUE EU SOU LOKI? com um daqueles malucos essenciais – Arnaldo Baptista –  que este Café Brasil que tratou de uns certos, aliás outros certos loucos essenciais, vai saindo de mansinho.

Depois da receita do Rubem Alves não sobrou muito o que dizer, não é?

Com o aloprado Lalá Moreira na técnica, a desencontrada Ciça Camargo na produção e eu, que sinto que sou louco, mas sou feliz, Luciano Pires, na direção e apresentação.

Estiveram conosco o ouvinte Rafael Gonçalves Pereira, Rubem Alves, o grupo Homem do Brasil, Jorge Mautner, Sérgio Sampaio, Raul Seixas e Jô Soares, Mário Sève e Marcelo Fagerlande e Lindomar Castilho, que tal?

Este programa chega até você com o suporte de quem sabe que a loucura produz mudanças e que para mudar o mundo você tem que ser um pouco louco e se conseguir expressar por meio da arte, será universal: é o Auditório Ibirapuera. www.auditorioibirapuera.com.br. Acesse o site, escolha um show e mergulhe naquele mundo…

Este é o Café Brasil, um programa que quer que os loucos essenciais apareçam mais, falem mais, interfiram mais. Só assim sairemos da mediocridade.

Pra terminar, uma frase do psiquiatra escocês Ronald David Laing

A insanidade é uma resposta perfeitamente racional para um mundo insano.

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