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Luciano Pires -
Gratuito!
22,9 MB

Bom dia, boa tarde, boa noite. Você lida bem com o tempo? É, o tempo, essa coisa que a gente sabe que existe mas não vê, não entende, não guarda nem economiza. Quem ouve o Café Brasil sabe que sempre digo: tempo é vida. Pra mim, é impossível falar de tempo sem falar da vida. Quem passa o tempo, passa a vida. E no meio desse passa passa, às vezes deixamos passar a hora exata. É sobre isso que o programa de hoje viaja.

Pra começar, uma frase do advogado e político norteamericano Charles Buxton:

Você nunca achará tempo para nada. Se você quer tempo, terá que criá-lo.

Este programa chega até você com a ajuda de quem não perde tempo quando se trata de cultura: Itaú Cultural. Acesse o www.itaucultural.com.br e dê uma olhada nas coisas que eles fazem por lá. Você vai se surpreender. www.itaucultural.com.br.

[showhide title=”Continue lendo o roteiro” template=”rounded-box” changetitle=”Fechar o roteiro” closeonclick=true]

E o exemplar de hoje de meu livro NÓIS QUI INVERTEMO AS COISA vai para… para….Daniela Ramos, que comentou assim o programa PINXADO NO MURO:

“Luciano. Ao ler o email da Ana Gabrieli identifiquei-me com ela. Já não sou adolescente, mas tenho em comum com ela a curiosidade, a vontade de saber das coisas, e uma mentora preciosa: a minha mãe. Tomo a liberdade de contar um pouco da nossa história.

A minha mãe sempre foi empregada doméstica e sempre lutou para me prover não só com o necessário para sobreviver, mas também com o necessário para me desenvolver intelectualmente. Isso mesmo. Ela diria que só trazia revistas em quadrinhos para mim (usadas, que as patroas pediam para ela jogar fora e ela pedia permissão para em vez disso levar pra casa), mas eu digo que ela mentoreava meu desenvolvimento intelectual.

Ela também me ouvia contar o que eu tinha aprendido na escola, e trocava a frustração por alegria quando, já adolescente, eu dizia: “Ih, mãe, esqueci de lavar as louças, mas li um livro muito legal!” E eu começava a contar as estórias do livro, diante do brilho nos olhos da minha mãe.

Esse negócio que o governo fica incentivando nas propagandas, de que os pais devem acompanhar os filhos na escola, devem incentivá-los a ler, a minha mãe fez comigo sem ninguém mandar e faz com a minha irmã até hoje.

Minha mãe tem visão. E só estudou até a quarta série, mas tem um vocabulário de dar inveja em professor universitário. Arranha até inglês (trabalha há mais de 10 anos na casa de um casal de brasileira e americano, e de vez em quando os surpreende ao deixar escapar que entendeu alguma coisa que eles falaram em inglês com os filhos).

Sim, concordo com você, sou mais uma prova viva de que “quando a gente tem um mentor não há barreiras para a aquisição de cultura”. Se a mentoria funcionou? Bem, cursei universidade, falo e escrevo em inglês com desenvoltura, estou num trabalho bom, sei apreciar a literatura brasileira e a estrangeira, não perdi o gosto pelos estudos. Sem modéstia: sim!”

Pois é, Daniela, como você existem muitas provas vivas de que tudo é uma questão de escolha de como valorizar seu tempo. Você felizmente tem uma mãe que se preocupou com isso. Alguns não tem essa oportunidade, outros não a enxergam e outros ainda, a perdem.

Bem, a Daniela ganhou um livro por comentar um dos programas. É fácil, pô! www.podcastcafebrasi.com.br

Na Asa do Vento
João do Vale

Deu meia noite, a lua abre um claro
Eu assubo nos aro, vou brincar no vento leste
A aranha tece puxando o fio da teia
A ciência da abeia, da aranha e a minha
Muita gente desconhece
Muita gente desconhece, olará, viu?
Muita gente desconhece
Muita gente desconhece, olará, tá?
Muita gente desconhece
A lua é clara, o sol tem rastro vermelho
É o lago um grande espelho onde os dois vão se mirar
Rosa amarela quando murcha perde o cheiro
O amor é bandoleiro, pode inté custar dinheiro
É fulô que não tem cheiro e todo mundo quer cheirar
Todo mundo quer cheirar, olará, viu?
Todo mundo quer cheirar
Todo mundo quer cheirar, olará, tá?
Todo mundo quer cheirar

Isso que você ouve é NA ASA DO VENTO, o clássico de João do Vale, na voz de Caetano Veloso…

Muito bem, e é nas asas do vento que o programa de hoje tratará do tempo.

E vou começar com um texto atribuído ao economista João Sayad, chamado MUITO RÁPIDO E POUCO TEMPO.

Nossa trilha será ANESIA, UM VÔO NO TEMPO, de Luiz Macedo e Renato Lemos…

Acordou bem cedo, o taxi já estava esperando.Embarcou no avião da TAM as 7 horas, as 8:00 estava no Rio. O embarque e o desembarque são muito rápidos na Tam. Entre o Santos Dumont e a primeira reunião no Rio, deu para fazer alguns telefonemas pelo celular: falou com a esposa, com o diretor em São Paulo e acertou mais um encontro no Rio. As 12:00 tomou o avião de volta é às 13:00 estava em S. Paulo onde ainda deu para comparecer a uma reunião- almoço no escritório.

Se você estiver indo ao Rio e olhar pela janela, vai ver lá embaixo o Vale do Paraíba. Nos anos 30, ministros do Getúlio Vargas saíam do Rio pela manhã, pegavam a velha Rio São Paulo e  chegavam em S. Paulo, depois de pernoitar no Club dos 200, que ainda existe. Levava um tempão.

Em compensação, lendo o seu diário, ficamos com inveja do ritmo agradável da vida do ditador. Muitas noites, após os despachos presidenciais e o jantar com a família, saia para dar uma volta.

Passeava do Catete até o Passeio Público, à noite, acompanhado apenas do ajudante de ordens. Outras vezes, passeava pela praia do Flamengo com a esposa.

O Barão de Mauá que tinha muita energia para investir, montava estradas de ferro, indústrias, portos, comunicando-se com sua empresa por telégrafo e viajando de vapor entre o Rio e a Europa. Lendo os dois livros – Barão de Mauá e o Diário de Getúlio Vargas – surgiu uma pergunta: onde foi parar todo este tempo economizado pelas viagens aéreas, telefones celulares, informação em real time e produção just in time ? Por que não sobrou tempo depois de tantas invenções?

A explicação poderia ser dada por um psicólogo, por um músico, por um zen budista e por um economista. Aí vai a explicação do economista.

A concorrência nos rouba o tempo ganho e a transforma apenas em mais produção. É como se tomássemos parte de uma equipe de corredores de maratona que usassem o mesmo tênis moderno e tivessem o mesmo treinador. No final, todos estariam correndo mais rápido, mas nenhum poderia dizer que sua vida estivesse mais fácil – todos ganharam em desempenho, ao mesmo tempo e o resultado seriam recordes de velocidade maiores, corredores mais rápidos, mas nenhuma vantagem especial para nenhum deles. É a regra da concorrência – todos procuram lucro e quem acaba ganhando é o consumidor. Muito bonito até agora.

As tecnologias de reduzir o tempo e o espaço – como as telecomunicações, as viagens aéreas, a informática, se desenvolveram e se transformaram em ganhos de produtividade da mão de obra para compensar o aumento de salários, a força dos sindicatos e o custo das matérias primas que se elevavam rapidamente nos anos 70.

A inflação americana, por exemplo, chegou a 17% ao ano mais ou menos, em 1975. A reação não tardou a chegar – política monetária dura, taxas de juros bem altas (que para nós, virou a crise da dívida externa), desemprego e economia de mão de obra através de novas formas de organização empresarial – terceirização, just in time, automatização e robotização, desregulamentação de todos os setores e muita concorrência.

A nova ordem dos novos tempos é economizar tempo, para o capital girar mais depressa, mais vezes por mês e produzir mais lucros.

Resultado: a economia de tempo se transformou em taxas de lucros maiores e menor emprego. Passamos a precisar de menos mão de obra – diminuiu sensivelmente o número de operários e supervisores na produção industrial.

Reduziu-se o emprego industrial, aumentou o emprego no setor de serviços pessoais, comunicações e lazer. O desemprego aumentou significativamente.

O maior aumento de emprego foi no setor informal, na Europa e nos Estados Unidos – emprego de tempo parcial, temporário e não garantido. No Brasil, chamamos de “bico”. O capital passou a usar muito pouca mão de obra .

O resultado é que se o Getúlio fosse vivo e morasse no Catete, sua vida seria bem diferente. Não teria tempo para jantar com a família nem para passear pela praia do Flamengo. Se tivesse tempo, teria que sair com um bando de seguranças muito bem armados , dentro de um carro blindado – pois estaria ameaçado pelos desempregados e empregados em tempo parcial.

No caso do Rio e S. Paulo, poderíamos imaginar que estes empregados em tempo parcial poderiam ser traficantes de droga, sequestradores, ladrões de carro ou assaltantes não especializados.

Todo o tempo que as novas tecnologias conseguiram está sendo desperdiçado. A minoria que tem emprego em tempo integral, tem que trabalhar mais, viajar de avião, falar no celular e andar mais depressa. O tempo extra que conseguimos se transformou em desemprego da maioria.  

A solução seria trabalhar menos, o que já acontece na Alemanha e se propõe no Brasil. Mudança radical, vai levar muito tempo para esta ideia pegar.

Agora, sem inflação, o Brasil entra nesta nova era de ritmo rápido, consultores, banqueiros, intermediários e um mundo de “autônomos” circulando preocupados com a carteira, o relógio e a própria vida. São coisas da vida e do mundo.

Vem um pedaço do texto agora que muita gente não vai entender, então, ô Lalá, vamos antecipar aquela vinheta que a gente criou para o próximo programa.

O ideal mesmo seria que apenas alguns amigos tivessem acesso a viagens de avião, telefones celulares e computadores.

Aí sim, ia sobrar muito tempo, para viajar, não de avião aqui por cima, mas lá embaixo, parando em Bananal, São José do Barreiro e Areias, dormindo no Clube dos 200, pegando um barco em Angra e entranado gloriosamente de veleiro na baía de Guanabara.

Deixa o tempo ir
Marcio de Camillo
Rodrigo Teixeira

Bem vinda a casa
Tem um porto na sala
Espelho da alma
Respeite a sua calma
Relaxe um pouco
Qualquer pensamento
Tem água na fonte
Só pra você ficar

Deixa o Tempo
Deixa o tempo ir lá fora
Aqui dentro a vida vai começar agora
Deixa o tempo ir

Bem vinda a casa
Tem um porto na sala
Tem água na fonte
Só pra você ficar

Bem vinda a casa
Tem um porto na sala
Espelho da alma
Respeite a sua calma

Deixa o Tempo
Deixa o tempo ir lá fora
Aqui dentro a vida vai começar agora
Deixa o tempo ir embora agora
Aqui dentro a vida vai começar agora
Deixe o tempo ir

Tá gostando desse som? É DEIXA O TEMPO IR, de de Camillo e Rodrigo Teixeira que, junto com Jerry Espíndola (será aque é Jerry?) formam o trio Hermanos Irmãos, lá do Mato Grosso do Sul. Os três são amigos desde os anos 80, tarimbados músicos que mostram um pouco da riqueza musical do Brasil aqui no Café Brasil…

E eu vou me perguntando: é mesmo, pra onde foi o tempo que a gente ganhou com a tecnologia? Tempo é como dinheiro: basta sobrar algum que a gente encontra um jeito de consumir, não é? Mas o que verdadeiramente me preocupa com relação ao tempo é a dificuldade que temos de priorizar aquilo que é relevante e importante. Num programa anterior tratei dessa diferença entre relevante e importante, mas a coisa vai mais longe.

Relevância e importância tem a ver com o ponto de vista de cada um. No condomínio onde moro há uma pista de caminhada que uso para meus exercícios diários. Por mais de uma vez cruzei com um vizinho que caminhava na pista com seu cachorro. Não demorou para eu reparar quem levava quem para passear. Era o cachorro que levava o dono. O sujeito estava completamente entregue ao cachorro, fazia tudo que o cachorro queria, como se fosse um filho. A cada vez que eu passava por ele, lá estava o sujeito atendendo o cachorro. E eu fiquei curioso: como é que alguém pode entregar seu tempo desse jeito ao cachorro. Bem, na cabeça dele, o cachorro era a coisa mais importante. Ele não tinha ido para a pista para fazer exercícios, mas para dar momentos de diversão ao cachorro. Eu posso argumentar que eu jamais faria isso, que quem manda sou eu e não o cachorro, mas como eu disse, cada um fixa suas relevâncias e importâncias, não é. E como consumir seu tempo talvez seja a forma mais crua de definição de relevância e importância.

Mas essa questão de como usar o tempo me leva também a refletir sobre o que é que é importante. Importante em relação a quê? Importante pra eu ganhar dinheiro? Importante pra eu ser feliz? Importante para a educação de meus filhos? Importante para ter uma mente saudável? Importante pra quê? Bem, não espere não ter mais tempo pra descobrir…

Não Tenho Tempo
Zeca Baleiro

Eu não tenho tempo
Eu não sei voar
Dias passam como nuvens
Em brancas nuvens
Eu não vou passar

Eu não tenho medo
Eu não tenho tempo
Eu não sei voar

Eu tenho um sapato
Eu tenho um sapato branco
Eu tenho um cavalo
Eu tenho um cavalo branco
E um riso, um riso amarelo

Eu não tenho medo
Eu não tenho tempo
De me ouvir cantar
Eu não tenho medo
Eu não tenho tempo
De me ver chorar (2x)

Eu não tenho medo
Eu não tenho tempo
Eu não sei voar

Então, esse é o Zeca Baleiro com sua eu NÃO TENHO TEMPO, em dupla com Raimundo Fagner e uma citaçãozinha de Mind games de John Lennon.

Olha só, se você está curioso com essa pergunta do tempo pra quê?, vou mandar aqui um bomba que recebi de um ouvinte, o Marcelo Abud, que só por isso já vai ganhar um livro.

É um texto chamado AGORA É TARDE, de autoria do publicitário Carlito Maia, que está num singelo livro intitulado VALE O ESCRITO.

Ao fundo vamos de The Beatles, primeiro com o ukulele do havaiano Jake Shimabukuro e depois daquele jeito que você ouve aqui no Café Brasil, né?

O texto do Carlito Maia é assim:

“Agora é tarde

Local: São Paulo. Data: 10 de outubro de 1974.

O Gustavo trabalhava comigo (ele no Rio) e apareceu no escritório pela hora do almoço. “Preciso da sua ajuda.”

Era comigo mesmo. E fomos para um bar, onde passamos horas. Lá pelas tantas: “Você tem o dobro da minha idade, é mais velho que meu pai. No entanto, falamos de tudo, sem bloqueios. Com o velho é uma tragédia: não consigo me abrir, há um muro entre nós. Eu sei – sinto-o! – que também ele quer se comunicar comigo, mas cadê coragem?”

Emborquei outra e saí pela tangente: ora, você não é meu filho, nem eu seu pai. É assim com todo mundo, mesmo com os mais sábios e avançados, o mal da humanidade toda. Até lhe contei do concurso aberto aos leitores de um jornal europeu: “Qual é a manchete dos seus sonhos?” falei da ganhadora: DESCOBERTA A COMUNICAÇÃO ENTRE PAIS E FILHOS! Aí resolvemos fazer um pacto, coisa de irmãos.

Acertamos: naquele mesmo dia – sem falta – cada qual de nós iria ter uma conversa “de homem para homem” com o seu velho. Para facilitar o acesso, o reforço da cumplicidade externa: diríamos que foi o outro que mandou que fizéssemos aquilo. Combinado? Aperto de mãos.

Levei-o ao aeroporto e fui para casa, preocupado: meu pai andava doente e morava pertinho de Congonhas. Fazia dois ou três dias que eu não o via, porém, que feio: eu  estava bem embriagado. Melhor seria uma soneca antes e uma ducha depois.

Dormi como um porco e só acordei com o telefone tocando, noite já: era do Rio. “O que foi que você fez com o Gustavo, que parece ter enlouquecido?” Diante do meu espanto, explicaram: quando o meu amigo chegou em casa – o pai havia morrido, minutos antes. Coração. Aí ele pôs-se a quebrar tudo o que via. Gritando: “Foi o Carlito que mandou! Foi o Carlito que mandou!”

Despertei de vez: meu pai! Comecei a me vestir e o telefone tocou de novo. Atendo e ouço meu irmão dizer: “Venha logo, papai acaba de morrer”. Tinhamos perdido nossos pais no dia mesmo em que resolvêramos conquistá-los.”

É cara. O tempo é assim. O momento passou…passou.

Refletir sobre o tempo sempre nos coloca numa sinuca: o que é que estamos fazendo com ele? O que estamos fazendo com ele hoje refletirá direto no nosso tempo amanhã. O que estamos definido como importante? Será que, transformamos nosso tempo apenas em produção? Presta atenção nisso, meu caro. Depois que o tempo passar, não vai dar mais tempo…

E é assim, ao som de HERE, THERE AND EVERYWHERE de John Lennon e Paul McCartney com Rildo Hora no CD Beatles´n´choro, Here, there and everywhere, que este Café Brasil que tratou de tempo vai saindo de mansinho.

Com Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e eu, Luciano Pires na direção e apresentação.

Estiveram conosco a ouvinte Daniela Ramos, João Sayad, Carlito Maia, Caetano Veloso, Luiz Macedo e Renato lemos, Hermanos Irmãos, Fred Menendez, Zeca Baleiro com Raimundo Fagner, Jake Shimabukuro e Rildo Hora. Só aqui, né?

Este programa tem o apoio do Auditório Ibirapuera, que é gerido pelo Instituto Auditório Ibirapuera. O espaço é utilizado para atividades culturais, com programação semanal dedicada à diversidade musical. Acesse o www.auditorioibirapuera.com.br para conhecer a programação e vá lá. Você vai se surpreender!

Este á o Café Brasil, um programa que quer valorizar cada segundo do seu tempo, sabe porque? Porque a gente respeita a vida. www.portalcafebrasil.com.br.

E pra terminar, que tal uma frase da escritora Lya Luft?

A passagem do tempo deve ser uma conquista, não uma perda.

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