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Luciano Pires -

Delícia, delícia, assim você me mata! Já ouviu isso? Pois então, no programa da semana vamos falar de AI SE EU TE PEGO, o fenômeno musical que toma conta do mundo. Mas não só dele. De música em geral, com análises de quem está (ou esteve) no mercado e sabe do que se passa nos bastidores. Na trilha sonora, a costumeira salada: Michel Teló, Cida Moreyra com o DJ Zé Pedro, João Gilberto e Milton Nascimento. João Gilberto com Michel Teló? Pois é, é o Café Brasil. Você é quem vai decidir se deu liga… Apresentação de Luciano Pires.

[showhide title=”Ler o roteiro completo do programa” template=”rounded-box” changetitle=”Fechar o roteiro” closeonclick=true]

Bom dia, boa tarde, boa noite. O programa da semana começa falando de ………entrou uma música……………Lalá, Lalá!!! Diminue o rádio da Ciça ai, pô! Que absurdo!

Para começar, uma frase do grande escritor português Eça de Queirós:

Amei essa mulher como Jesus amou Maria, como Romeu amou Julieta e … como um bode ama a sua cabra!

E o exemplar do meu livro NÓIS…QUI INVERTEMO AS COISA desta semana vai para o Daniel, lá de Primavera do Leste no Mato Grosso, que comentou assim o programa Vulgarizaram a Vulgaridade:

“E ai Luciano! Muito obrigado por visitar a minha vila com seu caminhão pipa do conhecimento. Eu, mais uns amigos meus e parte do pessoal, já formamos a fila, cada um com sua bacia plástica, outros com baldes de alumínio e até galões, para receber desta água que você traz. Pena que nem todos estão aqui nessa fila.

O negócio é por fogo nessa chapa e ver “neguim” pular! Pois “nenhuma situação é tão ruim que não possa piorar” e nenhuma pessoa é tão desinteressada que não possa melhorar, o negócio é mudar os conceitos.”

Muito bem, Daniel, gostei do lance do caminhão pipa! O Daniel comentou um programa e ganhou um livro. Comente você também!

Então… 2012 começou com essa musiquinha, que nasceu lá em Porto Seguro quando a cantora Sharon Acioly, filha de americano e que viveu em Nova York e Los Angeles, era coordenadora de palco do Axé Moi, um grande complexo de lazer na cidade de Porto Seguro, na Bahia. Foi lá que ela criou um outro hit, aquele do “cada um no seu quadrado”, lembra?

Dança do Quadrado

Sharon Acioly

-Aí galera!
Tô chegando
Com a dança do quadrado!
Pegue seu quadrado
E quem pisar na linha
Vai pagar prenda, hein?
Vamos juntos!”

Cada um no seu quadrado! (8x)

Eu disse ado-a-ado!
Cada um no seu quadrado!
Ado-a-ado!
Cada um no seu quadrado!

Saci no seu quadrado! (4x)
Saci com giratória! (4x)
Claudinho e Buchecha no seu quadrado! (4x)
Claudinho e Buchecha com giratória! (4x)

Cowboy no seu quadrado! (4x)
Matrix no seu quadrado! (4x)
Robinho no seu quadrado! (4x)

Dança bonito, Dança bonito
Dança bonito
Vai, vai!

“-Agora nós vamos malhar!”

Polichinelo no seu quadrado! (4x)
Flexão no seu quadrado! (4x)
Bíceps no seu quadrado! (4x)

Eu disse ado-a-ado!
Cada um no seu quadrado!
Ado-a-ado!
Cada um no seu quadrado!

“-Agora nós vamos relembrar
O Pan do Rio de Janeiro!
Vamos lá!”

100 metros rasos no seu quadrado! (4x)
100 metros rasos com obstáculo! (4x)
Natação no seu quadrado! (4x)

Eu disse ado-a-ado!
Cada um no seu quadrado!
Ado-a-ado!
Cada um no seu quadrado!

Vai paquito, vai paquito!
Vai paquito, vai paquito!
É, ele mostrou como é que é!

Eu disse ado-a-ado!
Cada um no seu quadrado!
Ado-a-ado!
Cada um no seu quadrado!

“-Vamos agora brincar
De imitar os bichinhos!”

Macaquinho no seu quadrado! (4x)
Gaivota no seu quadrado! (4x)
Siri no seu quadrado! (4x)

Eu disse ado-a-ado!
Cada um no seu quadrado!
Ado-a-ado!
Cada um no seu quadrado!
Ado-a-ado!
Cada um no seu quadrado!
Ado-a-ado!
Cada um no seu quadrado!

Cicarelli no seu quadrado! (4x)
Sol no seu quadrado! (4x)
Patinete no seu quadrado! (4x)

Eu disse ado-a-ado!
Cada um no seu quadrado!
Ado-a-ado!
Cada um no seu quadrado!

“-Agora prestem atenção
O quadrado do lado
É o quadrado do inimigo!
Atenção, atenção!”

Zidane no inimigo! (4x)
Empurra o inimigo! (4x)
Pedala no inimigo! (4x)
Beijinho no inimigo! (4x)

“-Mas quem quiser dar selinho
Pode dar selinho também!”

Ado-a-ado!
Cada um no seu quadrado!
Ado-a-ado!
Cada um no seu quadrado!

Vai paquito, vai paquito!
Vai paquito, vai paquito!
Vai paquito, vai paquito!
É, ele mostrou como é que é!

Eu disse ado-a-ado!
Cada um no seu quadrado!
Ado-a-ado!
Cada um no seu quadrado!

“-Valeu galera!
Não pisa na linha hein!
Fuuui!”

Sharon usava o refrão “ai se eu te pego” para motivar os turistas na platéia a brincar com os bailarinos. Em 2008, Antonio Dyggs, um promoter, professor e advogado baiano, em visita a Porto Seguro ouviu o refrão, gostou, criou mais uma estrofe e … pronto. Estava composto o sucesso, que foi gravado por Meninos de Seu Zé, Cangaia de Jegue e Garota Safada.

No início de 2011, o cantor paranaense Michel Teló ouviu o Garota Safada cantar a música na abertura de um show seu em Cruz das Almas,na Bahia. Gostou e pronto. Taí o hit, já gravado por mais de 350 grupos.

Os jogadores Neymar e Cristiano Ronaldo deram sua mãozinha ao fazer a coreografia da dancinha após fazerem gols, o que levou a música a explodir em todo o mundo. Sharon e Dyggs não perderam tempo e compuseram a versão em inglês…

If I catch you

Wow, wow
You’re going to kill me
Oh, if i catch you, oh oh if i catch you
Delicious delicious
You’re going to kill me
Oh, if i catch you oh oh if i catch you
Saturday on the club
Everyone was dancing
And I saw the most beautiful girl
And I had the courage to say
Wow, wow
You’re going to kill me
Oh, if i catch you oh oh if i catch you
Delicious, delicious
You’re going to kill me
Oh, if i catch you oh oh if i catch you

O fato é que a música é um mega hit e logo será gravada por algum grande nome da música popular brasileira, quando deixará de ser brega. A gente já viu esse filme antes…

Aliás, lá vai a versão com a grande Cida Moreyra e o DJ Zé Pedro.

Ai, Se Eu Te Pego

Antonio Dyggs e Sharon Acioly

Nossa, nossa
Assim você me mata
Ai, se eu te pego,
Ai, ai, se eu te pego

Delícia, delícia
Assim você me mata
Ai, se eu te pego
Ai, ai, se eu te pego

Sábado na balada
A galera começou a dançar
E passou a menina mais linda
Tomei coragem e comecei a falar

Nossa, nossa
Assim você me mata
Ai, se eu te pego
Ai, ai se eu te pego

Delícia, delicia
Assim você me mata
Ai, se eu te pego
Ai, ai, se eu te pego

Bem, mas é muito fácil entrar na onda e meter o pau na música, no cantor e em tudo mais.

Mas que tal ouvir uma outra opinião, de quem está dentro do mercado musical e conhece o produto? Fernando Mello, que há anos trabalha no meio musical e é mais conhecido como Maestro Billy. O Billy é um dos criadores do programa Pânico no rádio, aliás, colegão do Lalá Moreira e hoje tem um estúdio chamado Mellancia e é DJ do programa Caldeirão do Huck. O Billy tem também um podcast muito legal.

Ele escreveu em seu blog um texto sobre o Michel Teló, chamado A Medida do Sucesso, que vou mostrar aqui pra gente refletir um pouco…

E o Billy diz assim:

Não tenho aqui procuração de ninguém para defender nada, mas vamos pensar e avaliar um pouco o sucesso do Michel Teló e toda essa confusão de amor e ódio que criou o “Ai se eu te pego”.

Sim, sou amigo dele e de todo mundo que trabalha com ele, mas poderia simplesmente ficar na minha. Só acho que temos que entender o porquê das coisas serem como são.

Há aproximadamente um ano e meio atrás eu já cantei a bola de que ele seria sucesso nacional, que transcenderia o já sucesso na região do Sertanejo Universitário para o grande público com a “Fugidinha”.

Razões do sucesso:

Primeiro de tudo qualidade. Sim, qualidade.

O produto musical do Michel Teló é muito bem feito. É muito bem arranjado, bem cantado, com bons instrumentistas e com uma excelente produção.

É acima da média para o Sertanejo Universitário. Tem toques de forró, toques de guarânia, tem um monte de referências que os outros “concorrentes” não tem. Isso já é um diferencial que já coloca o Michel Teló à frente da concorrência.

Não tô aqui comparando uma “Nossa, nossa, assim você me mata” com um “é pau, é pedra, é o fim do caminho”.

Aquele papo de que o Teló representa a música nacional é verdade. Mas assim como ele, temos mais um monte de gente que também representa. Ivan Lins, Tom Jobim, Villa Lobos, Neguinho da Beija-Flor, Mr. Catra, Chico Buarque, Caetano Veloso, Tati Quebra-Barraco, Chitãozinho e Xororó, Gilberto Gil, Ivete Sangalo, Toquinho, Latino, Maria Gadú, Adriana Calcanhotto, Nando Reis, Titãs, Banda Calypso, The Fevers, Roupa Nova, Guilherme Arantes, É o Tchan!, Roberto Carlos, Nelson Ned, Belo, etc, etc, etc, etc, etc, etc.

A lista é gigante. Todos tem uma participação nisso.

Segundo quesito, trabalho.

Tudo que é feito pelo Michel Teló conta com uma equipe gigante por trás. Desde o empresário, passando pelo road manager, pelos músicos que o acompanham, pelo pessoal do escritório, do RP, da SomLivre (gravadora dele), etc, etc, etc. Todos tem um único foco. Fazer a carreira dele deslanchar. E isso vem desde os tempos do Grupo Tradição.

Que é o terceiro quesito, a história.

O cara faz isso desde 1995. Não está aí por acaso. Conhece o caminho das pedras e já roeu muito osso, mas o que se vê são só os filés…

O quarto quesito é o entendimento do mercado atual.

Muita coisa mudou desde que a Madonna ou o Michael Jackson faziam sucesso, eram mega-pop-stars. Sem comparar Madonna ou Michael Jackson com o Teló, por favor. Hoje em dia, com a internet, existe pouco espaço para esse tipo de artista, aquele que ultrapassa toda e qualquer barreira social e cultural. Isso acontecia por pura falta de opção da época.

Só tinhamos aquilo para idolatrar. Não tô aqui desmerecendo o trabalho da Madonna nem do Michael Jackson, não sou burro a este nível… Só tô dizendo que antigamente era tudo mais fácil para que isso acontecesse. As gravadoras tinham dinheiro e retorno do dinheiro com venda de CDs e afins, as rádios só tocavam os artistas que as gravadoras mandavam, só quem tinha muita grana fazia shows e turnês gigantes.

Ou seja, dinheiro chamava dinheiro. Hoje em dia mudou. Um cara é sucesso na internet para milhões de pessoas enquanto outros milhões nunca ouviram falar dele…
Veja o site do Teló. Ele entendeu como funciona hoje em dia. Ganhar dinheiro com venda de CD? Isso é passado. Tá tudo lá disponível para baixar. Pode acessar.  www.micheltelo.com.br

Aproveita que você vai lá e vê a agenda de shows do cara. Aí sim tá o dinheiro, e a divulgação.

Resumindo. Michel Teló é sucesso porque a música é bem feita, gruda no ouvido, porque ele é um bom cantor, bom performer, o mercado precisa de artistas e músicas como essa, e um trabalho bem feito culmina com um resultado excelente. E, prá quebrar ainda mais, no mundo todo.

Ah, e se você discorda disso, acho ótimo. É só assim que a gente consegue ver um outro lado ou valorizar outras coisas.

Hummmm… Bom ponto esse do Billy, não é? Mas eu já entrei de sola achando que todo mundo conhece a música. Talvez não. Então vamos falar da letra da música, hein?

O Gabriel Perissé, que escreve nas Iscas Intelectuais do Portal Café Brasil fez uma análise comparativa muito interessante a respeito, que foi publicada nas Iscas Intelectuais do Portal Café Brasil.

Ao fundo vamos de GAROTA DE IPANEMA, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, na interpretação da Orquestra de Flautas, um orquestra formada por crianças da Vila Mapa, na periferia de Porto Alegre, uma iniciativa da Professora Cecilia Rheingantz Silveira que é de emocionar…

E o Gabriel Perissé diz assim:

Analiso a seguir a letra da canção “Ai se eu te pego”, interpretada por Michel Teló, sucesso nacional e internacional. Na primeira estrofe, temos…

Sábado na balada

A galera começou a dançar

E passou a menina mais linda

Tomei coragem e comecei a falar

Cada verso e cada palavra de Teló nos conduzem a universos paralelos da cultura. O primeiro verso faz menção ao “Porque hoje é sábado”, em que Vinícius de Moraes revê a criação do mundo.

A balada a que se refere Teló alude aquele antigo poema com que se narrava alguma tradição histórica, acompanhado ou não por instrumentos musicais. Ou àquela peça puramente instrumental como cultivavam Chopin, Brahms ou Lizst.

A supracitada galera (“turma”, “amigos”, “gente”) de Teló se equipara ao decassílabo “Vogo em minha galera ao som das harpas”, de um poema de Castro Alves.

Reportando-se de novo ao poetinha Vinícius de Moraes em “Garota de Ipanema”, Teló também contempla a menina linda que passa.

Mas Teló vai além. Em êxtase, tomado pela excitação poética, num ato de coragem extrema, o baladeiro se declara:

Nossa, nossa

Assim você me mata

Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego

Delícia, delícia

Assim você me mata

Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego

A dupla exclamação — “nossa, nossa” — nos remete à admiração de que falava Aristóteles como ponto de partida da reflexão filosófica, ou pode se tratar também de uma forma reduzida da interjeição “Nossa Senhora!”, inserindo o poema no amplo cenário (e não menor mercado) das composições religiosas.

Outra referência inconfundível é o locus poético em que amor e morte se encontram — o clássico “morrer de amor”. O verso “Assim você me mata”, que o cantor faz acompanhar com o abanar da mão em direção ao rosto (simulando morte por asfixia ou enfarte), equipara-se a momentos sublimes da poesia romântica de Gonçalves Dias ou Casimiro de Abreu. Há, entre outros exemplos, um soneto em que Camões, dirigindo-se ao Amor, com ele se queixa: “Que vida me darás se tu me matas?”

Aqui termina o poema de Teló, com uma concisão que lembra Paulo Leminski e Mário Quintana.

Mas parece que os imortais que acabo de citar não gostaram das comparações feitas aqui. Das suas tumbas erguem-se vozes, cantando em uníssono:

Perissé, Perissé

Assim você nos mata!

Garota De Ipanema
Tom Jobim

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
No doce balanço, a caminho do mar

Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, porque estou tão sozinho
Ah, porque tudo é tão triste
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor [Bis]

The girl from Ipanema
Tom Jobim

Tall and tan and young and lovely
The girl from Ipanema goes walking
And when she passes, each one she passes goes “a-a-ah!”
When she walks she’s like a samba that
Swings so cool and sways so gentle,
That when she passes, each one she passes goes “a-a-ah!”
Oh, but I watch her so sadly
How can I tell her I love her?
Yes, I would give my heart gladly
But each day when she walks to the sea
She looks straight ahead not at me
Tall and tan and young and lovely
The girl from Ipanema goes walking
And when she passes I smile, but she doesn’t see
She just doesn’t see
No she doesn’t see

Bem, por falar em competência técnica, você está ouvindo a gravação clássica do clássico Garota de Ipanema, com João Gilberto, Stan Getz e Astrud Gilberto em 1962.

Eu também admiro o esforço e a capacidade de Michel Teló e dos profissionais que o rodeiam. Seu sucesso está aí para mostrar que os caras são de primeira linha e ainda vão estourar outras bombas.

Mas eu quero ir um pouco além, e para isso trago um depoimento de outra pessoa que também esteve por muito tempo dentro do mercado musical.O José Rodrigues Trindade, mais conhecido como Zé Rodrix, que me deu a honra de ser colunista nas Iscas Intelectuais do meu site.

Em 2007 o Zé publicou um texto chamado “Indo aonde a grana estᔠque acho que tem tudo a ver com nossa discussão.

Tenho sido um apreciador de música desde que me entendo por gente, e talvez tenha sido esse gosto pela coisa que tenha me levado a ser o que tenho sido na maior parte de minha vida: músico, entre outras coisas. O fato de ter previsto para minha carreira uma série de problemas, caso a estrutura musical do país viesse a ser isso em que se transformou me fez tirar o time durante vinte anos.

Esses anos duraram do dia em que Elis Regina morreu (quase que o meu THE DAY THE MUSIC DIED, como se ela fosse a verdadeira Miss American Pie) até o dia em que pisei de novo no palco com Sá e Guarabyra, enfrentando logo de cara um Rock’in’Rio com 180.000 pessoas na platéia, que me fizeram, pela primeira vez na minha vida, sentir medo do palco e ter vontade de sair correndo. Não o fiz, por sorte, e tenho re-enfrentado as platéias e o ofício de “artista” com razoável sucesso, apesar de, sinceramente, não ter nenhuma vocação para isso. Reconheço que tenho o talento, e nesse sentido me sinto bem melhor que muitos que não o têm, mas têm uma imensa vocação!

Nesses vinte anos eu fiquei de longe, observando a evolução da música que se faz no Brasil, quase que como um mágico aposentado que vai ver os shows dos outros mágicos: emoção e descoberta são raríssimas, e o único prazer foi ver se os outros mágicos estavam fazendo direito os truques que eu já conhecia.

Muito poucos estavam, e analisando sinceramente, eu percebo que ocorreu um fato interessante: em vez da musica evoluir, trazendo o público consigo para um patamar mais acima do anterior, o público é que involuiu passou a aceitar e exigir cada vez menos qualidade. Os artistas? Com raríssimas e honoríssimas exceções, aceitaram essa jogada e desceram seu próprio nível de qualidade, involuindo junto com seu público. A idéia de “arte de massa”, da qual já fui defensor, mas da qual hoje discordo frontalmente, tornou-se apenas uma maneira de “fazer sucesso” mais rapidamente e com menos esforço, como se a letra daquela canção do Milton na verdade estivesse dizendo “todo artista deve ir onde a grana está”.

Para meu espanto, que na verdade não foi tão espantoso assim, os que mais vertiginosamente se entregaram a esse sumidouro foram exatamente aqueles de quem eu esperava a constante luta em prol da arte, e não da Indústria e nem do comércio.

Ao voltar para o oficio de maneira ativa, e participando pela internet de uma série de listas que englobam a discussão da música que se faz no Brasil entre gente envolvida com música em todas as suas facetas, percebi a crueldade do que ocorreu nesse processo.

Enquanto que até o dia em que me retirei para a aposentadoria voluntária havia claramente uma divisão entre a música “comercial” e ” artística” (imitando a classificação que se dá aos cigarros que o pessoal fuma nas mais diversas ocasiões) eu percebi que vinte anos depois essa fronteira deixou de existir. E (o que é pior) a idéia industrial & comercial da música passou a ser mais importante que a idéia da arte da qual a música sempre foi uma das formas de realização. Ou seja: em vez de nos preocuparmos com a arte, estamos todos preocupados com o marketing, e só com o marketing, e nada mais que o marketing, o que acaba configurando apenas um bolero bonitinho pero ordinário.

Tendo alguns de nos até mesmo introjetado a figura do gerente de marketing de tal maneira que as almas já pensam nesse sentido antes de pensar na criação artística. O parâmetro de excelência deixou de ser a qualidade do que se faz para ser a cifra mágica: 1.000.000 de Cds vendidos! E todo mundo, sem exceção, anseia por essa cifra como prova definitiva de seu talento e valor.

Números em lugar da arte: não me parece uma escolha assim tão interessante. Come-se melhor, é verdade, mas dorme-se com muito mais dificuldade, garanto: deve ser difícil conciliar o sono quando se tem dentro de si a noção exata de que se traiu tudo aquilo que era importante em termos de arte.

Fernando Pessoa já havia dito que “a popularidade é um plebeísmo”, e depois de (durante anos) rejeitar o que ele disse com toda a veemência, hoje começo a pensar se ele não tinha lá a sua razão. Os parâmetros pelos quais a música feita no Brasil se pauta hoje em dia são apenas os padrões linha-de-montagem inventados por Henry Ford: e a cada dia que passa a frase dele sobre a cor dos carros (“você pode ter um Ford de qualquer cor, desde que seja preto”) se torna mais e mais verdadeira. Hoje em dia você pode ter qualquer música que quiser, desde que seja aquela que a indústria e o comércio determinaram que você faça. A popularidade, portanto, passou a ser um parâmetro de excelência. E quantos de nós, em determinado momento da carreira, não fizemos a troca tão perigosa, ficando com a fama e abrindo mão da alma?

Em momentos como esse, sempre se faz necessária a posição radical. Mas radical mesmo, não radical de fancaria, radical-de-sabado-à-tarde, radical-de-festival. Acho que deveríamos, já que estamos todos no mesmo barco, ir bater um papo sério com o comandante sobre os rumos desse cruzeiro. Se ele tergiversar, a gente toma o leme de nossas próprias vidas e faz a arte que sempre sonhou fazer. Como dizia Marx (dia desses me informaram que ele roubou a frase) “só tendes a perder os vossos grilhões”, o que não é pouca porcaria.

Pois então, e você, o que acha? Há muito bato na tecla de que a arte virou comércio, assim como já falei neste programa da necessidade do público puxar o artista para cima e não para baixo. Mas desconfio que a cada dia mais, a arte à qual o Zé Rodrix se referiu estará restrita a uma pequena camada de pessoas que vão se encolher, se calar, se esconder, como se estivessem consumindo algum tipo de droga ilícita. Isso é uma pena. Em vez do estímulo intelectual que pode nos levar às lágrimas, a um êxtase, a uma revelação, vamos nos contentar em balançar a bundinha e cantar refrões maliciosos.

E todos ficarão felizes. Cara, mas isso é tão pouco…

Nos Bailes da Vida
Milton Nascimento

Foi nos bailes da vida ou num bar
Em troca de pão
Que muita gente boa pôs o pé na profissão
De tocar um instrumento e de cantar
Não importando se quem pagou quis ouvir
Foi assim

Cantar era buscar o caminho
Que vai dar no sol
Tenho comigo as lembranças do que eu era
Para cantar nada era longe tudo tão bom
Até a estrada de terra na boléia de caminhão
Era assim

Com a roupa encharcada e a alma
Repleta de chão
Todo artista tem de ir aonde o povo está
Se for assim, assim será
Cantando me disfarço e não me canso
de viver nem de cantar

Delícia, delícia… É assim, ao som de NOS BAILES DA VIDA de Milton Nascimento e Fernando Brant que o Café Brasil da delícia vai saindo de mansinho…

Com o dançante Lalá Moreira na técnica, a lacrimejante Ciça Camargo na produção e eu, o elitista Luciano Pires na direção e apresentação.

Estiveram conosco o ouvinte Daniel, Maestro Billy, Zé Rodrix, Michel Teló, Caixinha Brasileira, Cida Moreyra com o DJ Zé Pedro, Orquestra de Flautas, Sharon Acioly, Miton Nascimento, Astrud Gilberto, Stan Getz e João Gilberto. Ah, assim você me mata…

Este é o Café Brasil, um programa ouvido por gente que quer mais, gente que quer estimular o cérebro, gente que nunca vai se contentar com pouco. Gostou? Não gostou? Dê sua opinião na página de comentários deste programa.  www.portalcafebrasil.com.br.

Pra terminar, uma frase de ninguém menos que Tim Maia:

Gosto de cantar com sentimentos. Se você não transmitir sentimento, não atinge ninguém.

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