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Luciano Pires -

O podcast da semana começa com a inspiração do político alemão Konrad Adenauer que um dia disse: “Nós todos vivemos sob o mesmo céu. Mas não temos o mesmo horizonte.” O programa tratará mais uma vez de brasileiros que escolheram viver fora do Brasil. E desta vez com um depoimento de uma brasileira que escolheu viver na Índia. Índia? Pois é. E ela fala bastante das diferenças entre as duas sociedades. É pra fazer a gente pensar. A trilha sonora ficou um barato. Tem Dinho Nascimento, Nilton Cesar, Sergio Augusto, Ribeiro Netto, Capenga e Gereba com o Bendegó, Denise Pontes e Mauricio Pereira. Apresentação de Luciano Pires

[showhide title=”Ler o roteiro completo do programa” template=”rounded-box” changetitle=”Fechar o roteiro” closeonclick=true]

Bonjour, buenas tardes, buonna notte! Mais uma vez eu preparei um programa que vai tratar de brasileiros que estão em outras partes do mundo. Gente que escolheu tentar a vida num país distante do seu. Na verdade, este programa está baseado num email, um email só, que recebi de uma ouvinte, a Patrícia Pelegrini, lá da Índia.

Pra começar, uma frase do político alemão Konrad Adenauer:

Nós todos vivemos sob o mesmo céu. Mas não temos o mesmo horizonte.

Bem, a partir deste programa vou lançar uma promoção pra ver se consigo incentivar os preguiçosíssimos ouvintes do Café Brasil a deixar um mísero comentário na página do programa. Conversei com o pessoal que faz podcast e a reclamação de todos é a mesma. A gente se mata pra fazer o programa e os desgraçados não mandam um email. É impressionante como você é incapaz de agradecer ao esforço que a gente faz por aqui com um comentário. Só um…

Tem gente que garante que a turma só escreve se eu der um prêmio. É isso? Então ta. A partir de hoje, toda semana vamos dar um prêmio, que pode ser um livro, um cd ou um DVD que será sorteado entre as pessoas que deixarem um comentário na página do podcast em www.portalcafebrasil.com.br

O prêmio de hoje, um exemplar autografado de meu livro NÓIS….QUI INVERTEMO AS COISA, vai para a Patrícia Pelegrini, é claro. Na semana que vem pode ir pra você. Sai, preguiça!

No final de 2009 fiz um programa, um podcast chamado “Refugiados éticos” no qual tratei de brasileiros que saíram do Brasil para viver em outros países.

No meio do raciocínio lancei esse conceito do “refugiado ético”, gente que se cansou dos desmandos, dos valores destruídos, da mentira, da impunidade, e foi procurar uma sociedade mais, mais… digamos ética.

O programa rendeu muitos emails de brasileiros de várias partes do mundo, com depoimentos interessantes, cada um com uma história.

Até que chegou um longo email da Patrícia Pelegrini, que vivia na Índia. Não sei se ela está por lá ainda ou se voltou para o Brasil. Mas o depoimento dela é muito interessante, e é o que trago para você a partir de agora.

Índia ginga

Lá vem a dançarina
Beleza rara
Lá vem a dançarina
Do Sahara
Vem gingando
Ao som do berimbau
E do citar
Vem gingando
Ao som do berimbau
E do citar
Som do pavão
Raios de sol
Luz de cristal
Cris de Oxalá
Dança das mãos
Descem do céu
Sedas, anéis
Inshalá
Inshalá
Inshalá
A lua crescente
Parece marfim
A índia
Virou curumim
A África passou por aqui
Cabaças
Cabeças
Gandhi di
Gandhi di
Gandhi di

Ao fundo, temos o Dinho Nascimento com ÍNDIA GINGA…

Oi Luciano! Meu nome é Patrícia e recebo seus textos semanalmente por email. Gosto muito do seu trabalho, recomendo seus livros e às vezes chego a fazer rodas de discussões virtuais com alguns amigos sobre o que você escreve.

Essa semana recebi o DLOG sobre “Refugiados éticos” e resolvi escrever minha opinião sobre o assunto. Sei que você não tem muito tempo, mas senti uma necessidade em compartilhar meus pensamentos com você. Mas se prepare, pois escrevo muito e, quando me empolgo, um simples texto vira uma monografia no final.

Moro em Nova Deli há dois anos e meio e também não tenho vontade de voltar ao Brasil, apesar de que visito o pais todo o final de ano para celebrar o Natal e o Ano Novo com minha família. Vim para a Índia por vontade própria e, infelizmente, meu contrato de trabalho já esta acabando. Resultado: agora terei que voltar ao Brasil de qualquer maneira. Parte de mim esta feliz por voltar, pois estarei perto de meus pais novamente, mas lá no fundo o meu coração chora, pois perderei muito do que tenho aqui. Explicarei.

Sim, porque é fácil entender quando brasileiros vão morar nos Estados Unidos, Europa ou qualquer outro país desenvolvido. A gente ouve dizer que a qualidade de vida é melhor, que a valorização do individuo é maior e que, por isso, preferem continuar onde estão e não voltar ao Brasil. Mas vir para a Índia e dizer que prefere esse país ao Brasil, é difícil de acreditar, não? E é por isso que resolvi lhe escrever.  

Creio que o que faz com que brasileiros prefiram viver em outro país não é só uma questão de ética, de política, mas de muitas outras pequenas coisas que contam muito para o bem estar, não só do ser humano ou da família, mas da alma. E também porque preciso desabafar sobre outras questões que não concordo sobre a sociedade brasileira, principalmente a feminina.  

Aqui na Índia as condições sociais são mais precárias que as do Brasil. Em Nova Deli, que é a capital do país, chega a fazer 48º C no verão, o que leva a um aumento considerável de ventiladores e ar condicionados ligados. Como o país não é auto-suficiente em produção de energia elétrica, o que se vê no verão é uma sequência de quedas de energia, que variam de 1 a 12 horas… diariamente. Isso na capital! Imagine em cidades distantes do interior!

O transito é caótico, pois não ha o incentivo a educação para os motoristas como vemos no Brasil. Apesar de que, a proporção de acidentes automobilísticos e mortes por atropelamento são bem menores que em nosso país. O índice de pobreza e miséria é indiscutivelmente maior do que no Brasil. É comum ver cinco a dez crianças em cada sinal de transito esperando os carros parar no sinal vermelho para pedirem esmola ou venderem alguma coisa. São inúmeras as diferenças e desvantagens de se viver aqui, isso se compararmos com o Brasil. Não vou nem propor uma comparação com países europeus, pois sei que, em termos sócio-políticos, a Índia continua bem atrás.

Mas existem vantagens importantes: apesar do caos que as cidades parecem ser (pois o país tem quase um bilhão de habitantes), aqui eu vivo em paz comigo mesma.

Férias na Índia

A Índia fui em férias passear
Tornar realidade um sonho meu
Jamais eu poderia imaginar
E explicar o que me aconteceu

Cupido me flexou sem eu sentir
Perdidamente eu me apaixonei
Agora não consigo mais dormir
Pensando naquele amor que lá deixei

Se nada mudar, no ano que vem
A Índia vou voltar prá ver meu bem

Cupido me flexou sem eu sentir
Perdidamente eu me apaixonei
Agora não consigo mais dormir
Pensando naquele amor que lá deixei

Se nada mudar, no ano que vem
A Índia vou voltar prá ver meu bem
A Índia vou voltar prá ver meu bem
A Índia vou voltar prá ver meu bem

Opa! Com os cumprimentos do Café Brasil, você ouve, no podcast, o megasucesso FÉRIAS NA ÍNDIA, que explodiu nos anos sessenta na voz de Nilton Cesar. Cara, como eu cantei isso…

E voltando à história da Patrícia:

Com o tempo, meu corpo foi descansando e livrando-se de manias e “obrigações” que fazem parte da nossa rotina brasileira e que, aqui, não vale nada, ou melhor, não é necessário. Aqui não preciso sair às ruas com medo de ser assaltada, de que alguém possa me parar na rua e apontar uma arma em minha cabeça, muito menos de sequestros (sendo relâmpagos ou não).  

O máximo que me acontece quando saio às ruas é de alguns indivíduos me encararem não porque são maliciosos ou perigosos, mas porque tenho pele branca e cabelos claros, o que é considerado muito diferente por aqui. Não tenho a ‘obrigação’ de me vestir com roupas coladas e curtinhas, se quiser ‘conquistar aquele cara gatinho’.  

Quando estou no Brasil, não posso usar uma camiseta polo com calca jeans, porque posso ser chamada de “machão”. Se não me visto de acordo com as ‘normas da sociedade’, se não estou usando as roupas iguais as que as atrizes estão usando na novela das 8, se não uso as cores ditadas pela moda da hora, não sou considerada atraente ou mesmo ‘pegável’. Sem contar na luta infinita que a mulher brasileira tem de mostrar que é a mais gostosa do planeta. E para isso vão horas em academias e dietas zero calorias que, sinceramente, como mulher, não consigo entender. Nem o valor, nem a importância. E olha que não sou nem gordinha, nem feia!

Samba das Índias

Meu coração de além mar
Se emociona canta e voa
Caminhando nos caminhos
De Fernando Pessoa
Meu coração lá das Índias
Lá da terra da garoa
Contempla o Tejo e entende
As naus, as velas, a proa
E o coração degredado
Feito de indígena canoa
Quase compõe esse fado
Quase que não te perdoa
Mas ele reconhece teus caminhos
E cá, meu coração bate a toa
Sorrindo embriagado no teu vinho
Seguindo pelas ruas de Lisboa
Meu coração de além mar
Se emociona canta e voa
Caminhando nos caminhos
De Fernando Pessoa
Meu coração lá das Índias
Lá da terra da garoa
Contempla o Tejo e entende
As naus, as velas, a proa
Meu coração corda bamba
Te encontra e sente saudade
Quem sabe fez esse samba
No meio dessa cidade
Pois ele reconhece teus caminhos
E cá meu coração bate a toa
Sorrindo embriagado no teu vinho
Seguindo pelas ruas de Lisboa

E que tal um fado cantado por um brasileiro? Você ouve SAMBA DAS ÍNDIAS, de Sergio Ricardo e Ribeiro Netto. Mas é fado ou samba? É um Famba! ou Sado! Ah, sei lá, é coisa de brasileiro….

E voltando ao texto da Patrícia:

Aqui na Índia, roupas curtas e apertadas são sinônimo de falta de educação com a sociedade, e se você ainda resolver rebolar muito, pode ser confundida com uma garota de programa. Apesar das atrizes dos filmes de bollywood usarem roupas ditas ocidentais, cheias de decotes e cortes, o vestuário não cai na moda do povo todo mundo continua usando o que bem entender. Sim, sarees e o conjunto salwar-kameez é o rotineiro por aqui, mas o que vale mesmo não é mostrar o corpo de gostosa, é mostrar o colorido das roupas. Mulher indiana não se preocupa em ter um abdome sarado ou um corpo anoréxico, o importante é estar saudável! E fértil!  

As magrinhas aqui sofrem ate para arranjar marido, pois mulher magra é sinônimo de mulher que não come direito e, portanto, não saudável. E se não é saudável, é doente, e ninguém vai querer uma mulher doente como esposa.  

Cheguei a ler na revista Marie Claire daqui que os maridos perdem o tesão pelas esposas quando essas fazem dietas e perder quilos e quilos de gordura. Conclusão: mulher indiana come o que quer, se veste com roupas super confortáveis e coloridas (que eu adoro!) e continuam sexys e bonitas diante da sociedade. Tem coisa melhor do que isso para uma mulher?

Não vejo no Brasil crianças se comportando como crianças. Vejo meninas de 10 anos de idade indo para matines e ‘baladas’, usando maquiagens pesadas e conversando sobre possíveis namorados. Imagino o que a sociedade brasileira propõe para que crianças se comportem como adultos precocemente, mas continuem pensando como crianças tardiamente… Aqui na Índia, criança de 10 anos de idade se comporta como uma criança de 10 anos de idade. Ela brinca, se diverte, faz arte e só vai pensar em ir para baladas e usar maquiagem quando estiver perto de seus 20 anos.

A inocência não é trocada pela malicia precocemente, pelo contrario, admiro a inocência de adultos quanto a varias questões sociais que, no Brasil, se uma criança não souber, será motivo de chacota pelos amigos. Mas isso não significa que os adultos indianos se comportem como crianças. A educação daqui é invejável, os alunos ficam na escola até as 4 da tarde e todos aprendem inglês desde o jardim de infância.

É o país que forma mais doutores no mundo, mais ate do que os Estados Unidos e com uma qualidade que fazem os indianos somem 30% da equipe de trabalho da NASA. Quando penso no futuro de um filho meu, você acha que eu vou preferir educá-lo pelo sistema educacional do Brasil ou da Índia?

O mundo gira 

Quero sair desse círculo
Quero entrar no jogo
Intuindo de vez
Dirigindo de vez
A minha vida
Sob um céu de arco iris
Dançando pelas cores
Do meu viver
Sobrevive quem pode
Quem canta
Os males espanta
Com o pé no chão
Com o pé no chão
Voar
Vou descendo pelo delta
Avançando na direção do mar
Chegando no oceano
Na Índia tem um cheiro de Yemanjá
Estrela sob um céu de Calcutá
Brasil, seiva da África
Irmãos gentis
Carnaval, festa de sonho
Em meu país
O mundo gira
O mundo vem
Terra mãe do bem

Você ouve, no podcast, O MUNDO GIRA, com a cantora capixaba Dennise Pontes. Eu até procurei informações sobre ela, mas não encontrei. Vou procurar mais.

Vamos continuar o texto da Patrícia:

E o mais importante: na Índia, as pessoas fazem questão de serem felizes. Ninguém espera ter o carro do ano para ser feliz, nem a casa própria, nem a TV de tela plana. As pessoas são conscientes dos problemas sociais, da corrupção política, das dificuldades do país em se desenvolver, mas não fazem disso um motivo de destruição da felicidade pessoal.

Eles festejam cada detalhe da vida e isso é o que me seduz na sociedade indiana. Festejam quando chove, festejam quando não ha chuva, festejam quando um amigo passou na prova, festejam quando o irmão chega de uma viagem. E festejam mesmo, no sentido de darem uma festa, distribuírem doces e mostrarem que estão felizes com o acontecimento.

São pessoas simples, alegres e inocentes. Pessoas que priorizam a paz interior aos bens materiais. Pessoas que não se importam em ficar 12 horas sem energia elétrica, mas que se importam de ver você contente e sorrindo. O resto é o resto.

E é essa paz, Luciano, que me faz gostar tanto de viver aqui na Índia, de trocar o Brasil para vir morar aqui. É o que eu chamo de liberdade da alma. Aqui minha alma é livre para ser feliz sem condições. Não importa se o governo é corrupto, não importa se o trabalho é muito e o dinheiro é pouco, o que importa mesmo é que vivo ao redor de pessoas que me incentivam a sorrir sempre, independente dos obstáculos e não, a viver de preocupações. Um grande abraço.

Putz… e agora? É claro que a Patrícia tem um desprendimento que é fundamental para não só compreender, mas aceitar uma cultura como a indiana.

A maioria das pessoas no Brasil não teria essa disposição de trocar nossa sociedade consumista e baseada nas aparências por essa liberdade – digamos assim – relaxada, que vê mais valor no que você é do que no que você parece ser. Não é fácil, né?

Nem Freud pode

Você frequenta Freud todo dia
E cada dia o seu Ford lhe dá menos prazer
Vai trocar de carro, vai trocar de cara,
Vai trocar de casa, vai trocar de caso,
O que você não pode é trocar de você
Está pregado né?
É esta tal coisa colada entre você e o mundo
Que você não sabe o que é
E nem a acupuntura vai curar a sua dor
Nenhuma gostosura vai lhe dar algum sabor
Se pula pra Jung vai querer logo rezar
Mas não há grande mãe
Que queira lhe embalar
Nesta festa, meu bem só lhe resta
Bater com a cabeça na testa

Rarrraa…que tal? Capenga e Gereba do Bendegó, com NEM FREUD PODE. Reparou na letra? Vai trocar de carro, vai trocar de casa, vai trocar de cara, vai trocar de caso, o que você não pode é trocar de você…

Pois então, a Patrícia descreveu uma sociedade totalmente diferente da nossa, mas que para ela tem seus atrativos. É uma questão de gosto, não é? Ou será uma questão cultural? Eu acho que tem muito pra gente refletir sobre as coisas que os brasileiros nos contam lá do estrangeiro…

Férias na Índia

A Índia fui em férias passear
Tornar realidade um sonho meu
Jamais eu poderia imaginar
E explicar o que me aconteceu

Cupido me flexou sem eu sentir
Perdidamente eu me apaixonei
Agora não consigo mais dormir
Pensando naquele amor que lá deixei

Se nada mudar, no ano que vem
A Índia vou voltar prá ver meu bem

Cupido me flexou sem eu sentir
Perdidamente eu me apaixonei
Agora não consigo mais dormir
Pensando naquele amor que lá deixei

Se nada mudar, no ano que vem
A Índia vou voltar prá ver meu bem
A Índia vou voltar prá ver meu bem
A Índia vou voltar prá ver meu bem

E é assim, ao som de FÉRIAS NA ÍNDIA, desta vez com o Mauricio Pereira que Café Brasil que trouxe um depoimento provocativo de uma brasileira lá na Índia, vai embora. Que legal que este programa é global, né?

Com o Lalá Moreira na técnica, a Ciça Camargo na produção e eu, Luciano Pires, na direção e apresentação.

Estiveram conosco Nilton Cesar, Dinho Nascimento, Sergio Augusto, Ribeiro Netto, Capenga e Gereba com o Bendegó, Dennise Pontes e Mauricio Pereira.

Gostou? Quer mais? Então acesse www.portalcafebrasil.com.br  e venha compartilhar conosco suas idéias. Lembre-se. A partir de hoje, quem deixar um comentário lá no programa, concorre a prêmios.

Pra terminar, uma frase de nossa grande escritora Cecília Meireles:

O vento é o mesmo. Mas sua resposta é diferente em cada folha.

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