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Ciça Camargo -

Luciano             Mais um LíderCast, aí que delícia. Tem coisas que não dá para explicar como as coisas acontecem. Deixa eu contar como é que essa que aconteceu, está se tornando um hábito agora, toda vez que eu começo o programa, eu contar como é que eu cheguei no convidado. Um amigo comum, amigo meu me convida para ir numa noite dessas aqui recentes para ir até ali o Bourbon Street, vamos tomar um trago lá. Estava tendo um espetáculo lá com artistas de rua e tudo mais, estamos lá sentados, lá pelas tantas vai entrar uma banda fabulosa e antes entra o apresentador, essa figura que está aqui, vai lá apresentar, a plateia fica enlouquecida quando vê, ele faz a apresentação, aquela bagunça, a banda vai tocar e eu vi ele de longe e falei puta eu vou lá conversar com ele, quem sabe eu convido ele para o LíderCast e chego lá, eu sou o Luciano Pires, eu faço podcast e ele vira para mim, como é teu nome? Falei Luciano Pires, podcast, Café Brasil. Pô eu escuto. Aí já virou bagunça e eu falei me liga, vamos trocar… mandei um e-mail para ele, resultado: estou aqui diante de ninguém menos que o Dr…..

Pascoal            Pompeu Pompilho Pomposo… Não me chamem de Abobrinha.

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Luciano             Dr. Abobrinha, qualquer um de vocês que tiverem me ouvindo aqui e que foi garoto nos anos 90 e tudo mais, assistiu Castelo Rá Tim Bum, a gente vai falar a respeito aqui. Tem trêsperguntas na abertura que são as fundamentais: eu quero saber seu nome, sua idade e o que é que você faz?

Pascoal            Bom, meu nome… eu me chamo Pascoal Ferreira da Conceição, o meu nome artístico,  que eu tive um dia que dar um nome artístico, nem sabia porque, mas depois eu aprendi porque que era, é Pascoal da Conceição, eu tenho 63 anos, estou prestes a fazer 64 e eu sou ator.

Luciano             Ator.

Pascoal            Eu já fui bancário durante muitos anos, poxa vida, passei pelo menos dez anos no Banco do Brasil, passei uns cinco anos no Banco das  Nações, fui bancário durante muitos anos.

Luciano             Então Pascoal, esse aqui é um programa sobre liderança e empreendedorismo e quando eu falo isso lá fora os caras acham que eu vou falar de business, de negócios, vou ter diante de mim aqui um gestor, um diretor, eu falo não é essa a ideia, a minha ideia com o LíderCast é falar  sobre empreendedorismo e liderança com gente que faz acontecer e sempre me atraiu essa ideia de trazer um ator aqui, um cara que vive da arte como ator, puta e vai ser uma festa a gente fazer aqui. Como eu te falei, não tem pergunta programada,  não tem nada, nós vamos bater um papo, vamos ver o que vai acontecer. Então vamos começar do comecinho, você nasceu onde?

Pascoal            Eu nasci em São Paulo, sou paulistano de São Paulo, nasci em São Paulo…

Luciano             É paulistano de 63 anos.

Pascoal            … paulistano de 63 anos, eu vi muita coisa em São Paulo, poxa vida, eu andei de bonde, meu avô me levou para andar de bonde lá… lá depois vou falando bastante…

Luciano             Pode falar à vontade, eu vou cortar você de vez em quando aqui.

Pascoal            … mas eu não sei exatamente o que vou falar, mas seu me lembro de pequenininho,  de  andar de bonde com meu avô lá na Avenida Celso Garcia, tinha o bonde, tomava o bonde para o centro da cidade. Meu avô foi o que me levou a primeira vez para ver os prédios, eu nunca tinha visto prédio de apartamento, ele que me levou para ver, então, sou aqui da Vila Prudente, eu nasci na Vila Prudente, mas eu nasci na Maternidade do Braz, lá na Leonor Mendes de Barros, maternidade famosa…

Luciano             1954.

Pascoal            … isso e eu fui criado lá na Vila Libanesa que chama lá, que era perto de uma rua chamada, me lembro de tudo, é engraçado, na Ministro Salgado Filho, perto ali da… era uma rua na Vila Libanesa, um bairro mais entre a Moóca, não é bem Moóca, Vila Diva…

Luciano             E foi criança e adolescente em São Paulo ao longo dos anos 60, que loucura.

Pascoal            Vi tudo.

Luciano             Que loucura. Seus pais eram o quê?

Pascoal            Meus pais, meus pais eram daqui, eu sou primeiro filho, meu pai e minha mãe, meu pai ainda é vivo…

Luciano             O que ele fazia na época?

Pascoal            … meu pai é policial militar, desde aquela época, naquela época ele era, eu me lembro, meu pai era guarda noturno, havia um policiamento noturno com bicicleta e ele fazia, era policial dessa época e depois, quer dizer, quando me lembro, desde criança quando me lembro do meu pai, ele sempre foi policial militar. Minha mãe era costureira, costureira, mãe de família, fazia coisas em casa, fazia serviços para fora, empregada doméstica, enfim, uma pessoa nossa, hipers.. lavava roupa  para a igreja.

Luciano             O Pascoalzinho, quando tinha um monte de cabelo queria ser o quê quando crescesse?

Pascoal            Eu não me lembrava, eu não me lembro exatamente disso, mas eu me lembro de ter brincado de teatro, essa coisa de teatro desde pequeno, eu me lembro disso, eu me lembro que, por exemplo, uma experiência, quando eu tinha 10 anos, se eu não me engano, terceiro ano primário, 10 anos, a minha professora, aliás outro dia num programa sobre os mestres, a dona Maria Thereza Putcher, dona Maria Thereza, ela falou o Pascoal, nessa hora tinha aula de leitura e ela falou, você fala alto e você lê bem, então eu quero que você  faça o seguinte, no dia 7 de setembro, não sei se era, talvez Tiradentes, alguma coisa, você vai ler um poema, falei posso decorar o poema, sabia decorar, eu sei decorar um poema e comecei a decorar o poema.  Aí a dona Maria me chamava para tudo quanto era festa, dona Maria era a minha diretora de certa maneira…

Luciano             Que idade você tinha?

Pascoal            …  10 anos.

Luciano             10 anos.

Pascoal            … 10 anos e aí eu me lembro desde os 10 anos, é engraçado isso, agora você me chamou a atenção, eu me lembro desde os 10 anos, desde muito, desde a mais tenra idade como se diz, eu ensaiava, decorava textos já falava e pô, todo esse primário, primeiro era primeiro, segundo, terceiro ano primário, todo o primário eu era aquele garoto que todas as festas canta e tal, mas aminha família, como a maioria das famílias que a gente tem, brasileiros e tudo mais, não era uma família… meu pai é um homem… nós éramos seis irmãos, um homem que trabalhava para sustentar todo mundo, então a perspectiva do meu pai, claro e evidente, era que um filho dele pudesse trabalhar, ganhar uma grana e ajudar em casa, ajudar a família, essas coisas que os pais fazem.

Luciano             Sim, pode até ser ator, mas tem que trabalhar em alguma coisa.

Pascoal            Nessa época, a gente ainda está em 53, o que acontece? Em 60 vai, é 62, 63, eu me lembro que na minha formatura, o meu pai, essa história é famosa, diz que alguém se aproximou do meu pai e falou olha, vai nesse endereço aqui, na TV Excelsior, tem lá um… leva o menino lá para ele fazer um teste tudo mais e meu pai não, não…  Porque se desconfiava demais dessa… houve uma mudança muito grande dos artistas e tudo mais, até bem pouco tempo, até a década de 40, 50 as mulheres que trabalhavam no teatro tinham carteirinha de prostitutas, então o ambiente do teatro, o ambiente musical, o ambiente boêmio, a família, ninguém, família que se considerasse família não colocava o filho, hoje em dia é ao contrário, porque todo mundo quer ser artista, então é uma coisa que mudou, que eu não sei exatamente o que é, porque eu vou junto, eu nem critico muito, mas eu sei que mudou radicalmente, eu mesmo, eu fui ator durante muitos anos, então eu trabalhei no Banco do Brasil até mais ou menos 32 anos.

Luciano             Então, aí que eu queria pegar você, em algum momento se desenhou diante de você uma carreira, tipo assim vou ser bancário, vou estudar contabilidade, vou fazer alguma coisa que te desse um diploma e que você pudesse devolver ao teu pai essa satisfação, meu filho tirou o diploma de XPTO? Você chegou a fazer uma coisa assim?

Pascoal            Não, eu pensei, eu pensava isso bastante, como… na verdade a responsabilidade, você também deve ser de uma geração parecida com a minha que os pais trabalhavam, coisa que os pais queriam que a gente fizesse o mais rápido possível, a gente trabalhava com 10, 11, 12 anos, eu me lembro, comecei a trabalhar com 12 anos, 12 anos já trabalhava, já estava fazendo coisas na rua, antes disso mesmo já tinha trabalhado com um montão de coisas…

Luciano             Se arrepende disso?

Pascoal            … não, nem um pouco, pelo contrário, nossa, era uma diversão poder trabalhar, trabalhar era pô, era uma coisa que eu queria fazer o mais rápido possível, era uma espécie de maioridade, ganhava, evidente que.. mas o meu pai, ele tinha uma ideia muito… ele sempre achou que a gente devia estudar, ele insistia, enchia muito o saco nesse lugar de estudar e ele, engraçado, meu pai ele é um lavrador, uma pessoa que veio de fora, ele não teve assim uma infância onde estudar fosse a coisa importante, mas já nessa época, eu me lembro do meu pai falando que tinha que estudar porque se não estudasse a gente não ia sair da vida que a gente levava, tinha essa ideia de que o estudo traria uma outra perspectiva, uma outra vida para toda a família e estudar então foi uma coisa que eu coloquei na minha cabeça como um objetivo  que tinha que me acompanhar a vida toda para poder mudar de vida e aí comecei a trabalhar, trabalhei essa coisa toda e tal, o trabalho não conseguiu perverter isso, porque quando eu comecei a trabalhar, imediatamente eu comecei a estudar a noite e era muito cansativo…

Luciano             O que era que você fazia?

Pascoal            … eu estava no ginásio, estava no, antigamente era ginásio, estava no segundo ano ginasial, que eu estava com 13 anos, segundo ano ginasial, estava no ginásio, aquela coisa que você trabalha durante o dia e estuda a noite e com muitos amigos e tudo mais, que já faziam a mesma coisa, trabalhavam em muitos lugares, mas eu gostava demais do ambiente da escola, eu acho que aquela coisa que começou com a dona Maria Thereza lá, de ler, aquilo lá me abriu a leitura, me abriu a cabeça para isso e eu gostava demais da leitura, sempre gostei demais, adoro, adorava ler essas coisas todas e essa perspectiva eu acredito que veio a partir da escola, a partir do meu pai, a partir da família, da escola, não é uma coisa que havia que ao nosso redor havia isso bastante, acho que se eu tivesse tido talvez o azarão de ter pego um emprego assim qualquer que pudesse ser… eu tive quase, quase tive isso no Banco do Brasil, porque quando eu entrei no Banco do Brasil, os meus amigos, meus colegas de bancada, eles eram dentistas, eles eram advogados, porque…

Luciano             Pô meu, carreira no Banco do Brasil naquela época era o ó do borogodó.

Pascoal            …no Banco do Brasil eu ganhava mais que o meu pai, eu me lembro que eu ganhava mais que o meu pai, eu tinha 18 anos…

Luciano             Tudo o que os pais queriam era isso, meu filho no Banco do Brasil.

Pascoal            … foi demais…

Luciano             Quanto tempo você ficou no Banco do Brasil?

Pascoal            … eu fiquei 10 anos no Banco do Brasil.

Luciano             Trabalhou 10 anos lá? Até que idade você ficou lá?

Pascoal            Eu fiquei lá… eu entrei lá em 72 e saí de lá em 82.

Luciano             Você chegou a fazer faculdade, alguma coisa? Se formou universitário?

Pascoal            Então, nessa época, trabalhava no Banco do Brasil, quando eu entrei no Banco do Brasil eu tinha entrado na USP também…

Luciano             Em?

Pascoal            … entrei em letras e português e árabe, fazia português e árabe. Português e espanhol, e entrei para fazer letras na USP, entrei porque eu gosto demais de Machado de Assis e lá com os meus amigos da escola, que eu me liguei com os que liam e tudo mais, eu falei vou para esse lugar, vou estudar, vou fazer alguma coisa aí e fui embora, eu ia estudar muito mais, tanto que quando eu falei para o meu pai que ia fazer letras, ele falou o que é isso? Como você vai fazer letras assim. Não, mas eu quero fazer faculdade. Mas eu já trabalhava no Banco do Brasil, já ganhava uma grana, já ganhava bem, ganhava bastante dinheiro, ganhava bem, o Banco do Brasil na época que eu entrei, ganhava dezesseis salários por ano, ganhava até o décimo terceiro, mais três salários de gratificação, imagina. Era uma beleza, era uma boiada. Quer dizer, era um emprego muito diferenciado porque o Banco do Brasil era o gestor da política econômica do Brasil e para gestar essa política o Banco do Brasil era o único banco que tinha agências no Brasil inteiro, banco é fundamental.

Luciano             Isso você está falando final dos anos 70?

Pascoal            Estou falando de final dos anos 70, exatamente.

Luciano             Final dos anos 70.

Pascoal            70/80. O Banco do Brasil foi o primeiro a ter 1000 agências, porque o Banco do Brasil foi ele… porque os bancos todos vieram para o Brasil evidentemente, hoje os bancos estão aí na linha de frente, mas quem abriu o caminho para os bancos foi o Banco do Brasil, o Banco do Brasil financiava a indústria, financiava a agricultura, financiava o comércio.

Luciano             Olha, para você que está nos ouvindo ai eu vou tentar fazer um paralelo, dizer que trabalhava no Banco do Brasil no final dos anos 70 era igual a dizer que trabalha no Google hoje, então a mesma reação quando ouve um sujeito que fala eu trabalho no Google, eu trabalho no Facebook, naquela época quando alguém dissesse eu trabalho no Banco do Brasil todo mundo óóó, era o cara.

Pascoal            É verdade. Engraçado, porque era aquela coisa de partido, de família, um cara desse é bom para casar.

Luciano             É estabilidade, aquilo que tem, muita gente pensa isso ainda hoje, eu vou me formar, quero fazer um concurso público, quero ser funcionário público e lá eu tenho estabilidade, estou garantido para o resto da vida.

Pascoal            Exatamente. Mas eu, inclusive, aí do Banco do Brasil, vou abrir um parêntesis aqui, é o seguinte, porque esse período todo no Banco do Brasil foi junto com a universidade, junto com a USP e tal, eu estava fazendo a USP e era muito difícil, porque pô, entrava no Banco do Brasil às 7 da manhã, saía da USP às 11, eu estudava, gente eu estudava em Pinheiros, a gente está em São Paulo, Pinheiros e Vila Prudente, de ônibus dava mais ou menos duas horas, duas horas para ir, duas horas para voltar, a volta era mais rápida porque era mais a noite, mas a ida eram duas horas, quer dizer, eu dormia todo dia uma hora da manhã.

Luciano             Quanto tempo você ficou nessa loucura?

Pascoal            Eu fiquei pelo menos uns 4, 5 anos nessa doidera. Assim pronto para…. mas isso me atrapalhou bastante a escola porque o banco,  você vê como é que são as coisas, o banco, pô um grande salário esse jeito era um atrativo para sair da faculdade, era um atrativo muito grande, então meus amigos que eram formados e tudo mais tinham saído, mas eu não sei, eu gostava também de trabalhar no banco, era muito bom, era divertido.

Luciano             Como é que chega nesse momento em que você começa a pensar em sair do banco? Por que pinta essa ideia? Culpa do teatro já ou ainda não?

Pascoal            Pô Luciano, você vai até me ajudar a pensar nisso, mas acontece que foi culpa do teatro, porque eu fui fazer… eu estava no  banco, trabalhava no banco normalmente e  o que que aconteceu? Eu fui, o Banco do Brasil é uma carreira, você entra como auxiliar de escrita, estagiário, você vai subindo, você vai crescendo na carreira, vai entendendo, vai conhecendo tudo o que tem lá dentro e eu gostava de trabalhar naquilo, conhecendo o processamento, nessa época começou a chegar a informática, começou a chegar  bem lentamente, mas lentamente eu já estava sacando o que era aquilo tudo, nós estamos em 70, está chegando coisas pequenas, as loterias, essas coisas estão chegando, o banco começa se modernizar e tudo mais e aí eu falei caramba, começou a ficar grande a carreira, aí um dia o meu chefe falou olha, a gente vai para… você vai virar chefe aqui, aí eu virei chefe do setor de operações, chefe do setor de operações é o lugar onde empresa grana, onde  empresta dinheiro. Chefe do setor de operações é um…. já tinha feito algumas experiências na chefia, mas ser chefe é uma responsabilidade enorme, porque você dá consultoria, as empresas…. que nem você, quer montar um estúdio, precisa de quanto de dinheiro, você dá consultoria, era uma responsabilidade, depois os funcionários, e foi crescendo e…

Luciano             E era aquele paradigma do que era ser chefe, porque chefia de uma área dentro de um Banco do Brasil nos anos 70, se você tiver que descrever o que era ser chefe, era lá, era ali que acontecia, não é?

Pascoal            … e não, e vai crescendo a responsabilidade de um jeito que você fica assim do tipo meu, agora não tem como fugir, esse negócio vai crescendo e aí acabou pintando a possibilidade de ir lá para Brasília, trabalhar em Brasília na direção geral que na época estava começando a montar a direção geral em Brasília, meu chefe falou, estou indo para Brasília, queria que você fosse junto comigo, aí eu falei não vai dar, não vai dará porque esse negócio do Banco do Brasil não é a coisa que eu quero fazer  da minha vida, eu não sabia o que eu queria, eu sabia o que eu não queria. O Banco do Brasil me dava a grana e tudo mais e essas coisas todas, mas aconteceu uma coisa engraçada, interessante,  porque teve uma…. eu estava casado e me separei e esse racha que deu emocional de casamento, de separação, me obrigou a tudo aquilo que estava montado, a casa, porque você vai morando na casa, aquelas coisas todas vão te amarrando, quase que uma convenção social que vai te  segurando, vai te inventando os caminhos e tudo mais, aí  foi me amarrando aquilo tudo e aí de repente aquilo tudo perdeu a função, porque eu não vou fazer uma família, estou separado, não vou fazer família e tudo mais, aí aquilo perdeu a função, no  que aquilo perdeu a função entrou uma espécie de uma crise, um momento assim de que o banco já não era tão fundamental assim, quer dizer, ganhar dinheiro no banco e tudo mais, aí eu peguei e falei não, eu não quero ser chefe, vou continuar trabalhando aqui, mas eu não vou…. aí abdiquei da chefia, abdiquei de ser o chefe, saí da chefia.

Luciano             O que incomodava de ser o chefe?

Pascoal            Incomodava porque eu gosto, eu gosto de fazer, por exemplo, eu não tenho esse negócio que é o seguinte, esse tipo de coisa, essa sacanagem de sacanear o patrão sabe esse tipo de coisa? Eu acho o seguinte, é para fazer, vamos fazer, tem esse negócio, eu sei, eu me lembro que quando eu estava nesse período, olha que loucura, quando eu estava nesse período, que eu estava nessa crise toda, eu fico ou não fico no Banco do Brasil, aí um camarada, um amigo meu, não sei quem é, me fez a seguinte proposta, falou olha, você faz o seguinte, você tira uma licença saúde. Como assim? É, você vai, finge que você está meio doidão, finge que… você já é meio assim, meio ator, finge que você está meio maluco e vai no setor psicológico do banco e consegue uma licença saúde, fica um ano. Eu falei… pô, esse negócio é legal, você dá uma de maluco, chega lá, morde umas orelhas de vez em quando, aí chega lá, de repente, o cara te dá uma licença de um1 ano e depois, fica um ano sem ganhar nada e faz o que você quiser. Eu quase fiz isso, mas depois, uma hora, aí eu fui ler, e fiquei sabendo que é o seguinte, quando você é declarado incapaz, pirado, maluco, você perde até… você não precisa votar, você perde até o poder sobre você mesmo, o poder que você tem de decidir quem você é. E eu não estava fazendo aquilo porque eu era maluco, eu estava fazendo pelo contrário, porque eu era inteligente e nesse período… então foram se avolumando coisas do gênero e nesse período eu estava no banco ainda, no Banco do Brasil eu era caixa e tudo mais, eu fui fazer… apareceu, sabe essas coisas de jornal? Apareceu para fazer um teste de teatro lá na USP, lá na Escola de Arte Dramática…

Luciano             Estudar?

Pascoal            Estudar.

Luciano             Para estudar teatro.

Pascoal            Teatro. Porque eu fiquei fazendo várias coisas e tudo mais, mas eu não estava próximo da minha turma, aí quando eu cheguei no teatro que eu encontrei aquele pessoal, eu falei essa aqui é minha turma pô, vocês eu já conheço há muitos anos, eu sei quem são vocês,  encontrei a minha turma e eu acho que aí encontrei o cinturão… o habitat… encontrei meu habitat, porque tem isso também, porque eu acredito que muito da dificuldade que eu tive de desenvolver para ser ator foi por conta do habitat, claro você mora numa casa, que não tem mais uma estante de livros suficiente para você poder ler mais de um, ou livros de qualidade, porque livro custa muito caro, você tem uma biblioteca, principalmente os grandes autores, os Machados, os Dostoiévski, esses grandes autores, são os livros mais caros que a gente tem, uma edição do Moby Dick custa “50 paus”, imagina 50 reais numa família onde 50 reais, o teu pai ganha 10 vezes 50 reais, ele ganha 500 reais ele vai dar para você comprar um livro do Moby Dick com seis irmãos, impossível e aí não tem essa coisa da internet e então não tem habitat…

Luciano             Cada um de nós tem uma história diferente, a minha lá em Bauru, garotinho, eu tinha uma professora particular de matemática e que tinha um biblioteca na casa dela que era um negócio fabuloso e naquela biblioteca eu descobri Monteiro Lobato, então eu ia ter as aulas de matemática e terminada a aula ela me deixava ficar sentadinho lendo os livros do Monteiro Lobato e ali eu começo com “Caçadas de Pedrinho”, “Reinações de narizinho”, “O Minotauro”  e eu começo a ler Monteiro Lobato com tesão de garoto, sentado lá, em vez de estar na rua jogando bola eu fico sentado lendo livro e foi ali que  me despertou, uma outra amiga da minha mãe, que também era uma outra professora, o marido dela tinha uma coleção de gibi do Pato Donald desde o número um publicado no Brasil tudo encadernado, era um negócio absurdo aquilo e eu ia na casa dele e eu pegava um tomo, abria, eram os gibis do Pato Donald quando começaram a fazer que não era uma coisa massificada, era um negócio com um puta deum roteiro, tudo super e ali eu mergulhei ali, então eu, embora eu não tivesse, digamos assim, não é que eu não tinha grana, não tinha o hábito de sair comprando livro e tudo mais, eu sempre tive livro, mas eu comecei assim, com as bibliotecas dos vizinhos e tudo mais, foi onde eu naveguei. Depois que eu tive um pouco mais de… virei gente, aí eu assinei o clube do livro, chegava uma caixinha na minha casa com os livrinhos dentro, aí eu fiz uma festa, por iniciativa própria e ali eu mergulhei e foi uma coisa bem diferente. O teatro pinta na tua vida quando você decide pegar esse anúncio de jornal e ir lá fazer um curso de teatro?

Pascoal            Não, eu já tinha feito muito teatro, porque, por exemplo, já tinha feito teatro na escola com dona Maria Thereza…

Luciano             Então, deixa eu achar esse momento, que é aquele que você pega e fala pô, isso aqui é legal. Quero continuar fazendo, não vou abrir mão disso para ser executivo do Banco do Brasil. Como é que você faz? Era uma brincadeira? Você fazia por curtição?

Pascoal            Não, eu ainda não tinha ideia porque a ideia de trabalho, de que aquilo é um trabalho, é uma coisa muito difícil de você sacar, porque eu não sabia que aquilo era um trabalho, que o fato de eu gostar de fazer uma coisa tão gostosa, que aquilo podia ser meu trabalho, eu não tinha essa ideia, pô eu gosto demais de fazer esse troço aqui, não é possível que eu vá ganhar para fazer isso, impossível que alguém vá me pagar para fazer isso, até hoje eu tenho dificuldade… quanto você quer de cachê? Eu falo pô, eu fico pensando assim nossa, não posso falar que eu não quero nada, que eu só vim aqui para fazer. Eu não posso falar que eu quero fazer o doutor Abobrinha de graça, eu tenho que tomar cuidado, eu tenho que chegar a falar não… porque também se eu fizer de graça, depois vou ganhar, mas a vontade que tenho é de falar não, pelo amor de Deus, que dinheiro? Dinheiro pra quê?

Luciano             Você sabe que eu sou palestrante e para mim, estar no palco fazendo uma palestra é um tesão, sabe como é que eu resolvi esse problema? Eu não cobro a palestra, a palestra eu dou de graça, eu cobro o deslocamento. Vai me contratar? Vai. Onde é que eu tenho que ir? Tem que ir para a Bahia, então vou cobrar o deslocamento até lá, mas a palestra eu faço de graça, mas para ir até o local e voltar eu vou cobrar uma grana. Vem cá, se você fizer a palestra com 30 minutos é mais barato? Eu falo não, se eu estiver no palco durante 30 minutos, uma hora, uma hora e meia ou duas, não faz a menor diferença, depois que eu estiver lá em cima eu estou curtindo, eu vou cobrar para me deslocar até lá e voltar. Mas é um ponto interessante esse, você ter essa coisa, eu curto tanto fazer o que eu faço, que não pode ser que alguém me pague para fazer isso.

Pascoal            Não é possível, não. Não tinha ideia de que fosse possível alguém pagar um cara para fazer teatro e também é o seguinte, quando…. nos anos 70 toda a juventude era, vamos dizer, toda a juventude era ativa, politizada, ou deixava o cabelo crescer, ou tinha que usar mini saia, ou tinha que transar mais vezes, tinha que beijar, tinha que fazer muitas experiências, a gente estava… a gente veio…. a gente chegou de repente e de repente o Brasil começou a ser atingido pela cultura mundial, a gente começou a conhecer que existiam os Rolling Stones, que existia um mundo, essa coisa toda. Nos anos 70 a gente foi colocado na vida pública assim e principalmente o seguinte: toda a minha geração, a sua também, possivelmente, ela foi uma geração que teve que se politizar…

Luciano             É nossa, viu, eu tenho 61 anos, então é a mesma geração.

Pascoal            … a gente teve que se politizar, estava acontecendo os seguinte: as músicas eram politizadas, todas as músicas, de Rolling Stones a Chico Buarque, a Caetano Veloso, a Gilberto Gil…

Luciano             Você sabe que tinha uma outra coisa também, Pascoal, que você vai lembrar, era uma época em que uma peça de teatro tinha poder de mobilizar a sociedade. Quando é que você bate o olho e fala o seguinte: muito bem, vou parar com o Banco do Brasil, preciso ir embora daqui, vou sair daqui e agora vou ganhar a vida como o quê?

Pascoal            Não aí aconteceu uma coisa muito prática, porque eu fui para a escola de arte dramática e fazer EAD, encontrei minha turma, falei pô, esse pessoal aqui é legal, me apaixonei, falei não, eu vou ficar aqui, daqui não saio, daqui ninguém me tira, mas estava trabalhando no Banco do Brasil, porque trabalhar no Banco do Brasil significava, meu, tudo, essas coisas: aposentadoria, o dinheiro, tudo isso, também não dá para você viver sem dinheiro e aí nesse meio tempo eu recebi uma…. a gente fez, nas coisas da EAD, um seminário com o Zé Celso, diretor do Teatro Oficina e o Zé é um gênio, o Zé é assim, quer dizer, o Zé, eu não me lembro de ter conhecido muitos gênios, o único que eu… eu li sobre os gênios, mas o único que eu conheci ao vivo, do teatro, é o Zé Celso e o Zé Celso chegou lá na EAD, deu uma oficina e contou o seguinte: contou que o Teatro Oficina estava, ele vizinho do Minhocão e essa vizinhança do Minhocão colocou todo o terreno, porque o Minhocão,  para quem não conhece,  é uma pista de oito pistas de carro, de concreto, colocadas no meio da cidade e imediatamente todo o entorno do Minhocão, apartamentos, casas, que eram esse entorno, o que valia dez, passou a valer um…

Luciano             Sim, é uma pista elevada que está na altura do terceiro ou quarto andar, ou seja…

Pascoal            Todo mundo que morava e fosse vizinho daquilo, apartamento que valesse dez, valia um. O teatro também passou por essa coisa e a especulação imobiliária imediatamente avançou sobre tudo isso e o Teatro Oficina estava nesse momento, isso é 82, 80, correndo o risco de desaparecer por conta do seguinte, ele ia ser comprado, ia virar uma coisa, um shopping ou o que fosse e o Zé falou pô, eu não quero vender teatro, quero ir para lá. Aí fui para o Teatro Oficina e comecei a trabalhar com o Zé Celso, de repente aquela oportunidade de trabalhar com o Zé Celso que era gênio e tudo mais, gênio porque ele falava coisas muito legais sobre a interpretação, sobre o teatro, sobre a força do teatro e tal e aí comecei a trabalhar com o Zé, aí começando a trabalhar com o Zé naquele negócio do teatro, fazia umas ações e tudo mais, aí eu trabalhava no Banco do Brasil assim das sete da manhã a uma da tarde, saía e ia lá para o teatro, trabalhava no teatro das duas da tarde até as quatro da manhã, depois o horário do teatro não estava batendo porque eu estava da administração do teatro, tinha pouca gente, começou os dois horários,  eu falei bom, já sei, eu vou fazer uma proposta para o Banco do Brasil, fiz a seguinte proposta para o Banco do Brasil: que eles… que agora eu ia trabalhar no teatro brasileiro, eles iam me oferecer como pessoa, eles iam me dar salário e tudo mais, essas  coisas todas  para eu trabalhar no teatro brasileiro, então eu trabalharia no Teatro Oficina e depois, quando o teatro estreasse eles colocariam: o ator não recebia salário nenhum, o ator é funcionário do Banco do Brasil, mas eu fiz essa proposta numa carta em que eu dizia que é importante que o Banco do Brasil, que se dedica à agricultura, que se  dedica ao  comércio, que se dedica à indústria, se dedicasse também à cultura e eu queria ser um funcionário ponta de lança do Banco do Brasil nesse lugar da cultura, o Banco do  Brasil nessa época não tinha nem o centro cultural nem nada, é uma carta que está lá no Banco do Brasil, mas paralelamente a isso, mas por exemplo, quando eu estava com essas ideias todas, quando eu mandei essa carta com essas ideias todas, eu me lembro que no meu entorno, falei do meu amigo que achou que eu estava maluco, que o meu entorno não tinha habitat para essa ideia, para esse pensamento, para o meu gerente, não, acho que é o seguinte: você tem que chegar as 8 aqui, você não chegou, chegou às 8:15, vai lá uma anotação que você está atrasado. Eu disse não, mas eu estou trabalhando pelo teatro brasileiro…

Luciano             É até compreensível se não você vai explodir uma estrutura toda montada em cima do castelinho ali, que a hora que você para: por que você é diferente, por que pode chegar mais tarde, o que o gostosão tem que ninguém mais tem?

Pascoal            … exatemente…

Luciano             Realmente não encaixava lá.

Pascoal            … exatamente, o que está acontecendo? Não, é claro, e o gerente, por exemplo, o que ele estava fazendo? O que que eles fizeram imediatamente? Eles fizeram assim: quando eu comecei a faltar, que eu comecei a faltar e tudo mais, imediatamente ele prendeu meu ponto, imediatamente ele pegou meu cheque especial, que eu tinha cheque especial, debitou direto na conta e começou o processo de me mandar embora do banco e quando esse terrorismo caiu na minha cabeça, essa bomba caiu na minha cabeça, é aquela hora que você se desestabiliza, que você fica pensando putz, vou perder o emprego do Banco do Brasil, o que vai me acontecer? Estou ferrado, nunca mais eu vou ter chance… algumas vezes, às vezes eu já tive isso na minha vida, de  achar que não vai sair mais,  que não vai mais dar certo, que é o fim, que acabou e isso não acontece, isso não existe, não existe o fim. Não existe o fim, o tempo é um monte de fios, um novelo cheio de fio, toda hora tem um fio, não existe isso, mas a gente talvez por alguma coisa…

Luciano             E na tua cabeça aquela história, acabei, perdi meu emprego, o que vai acontecer? Amanhã de manhã estarei na rua da amargura, serei um mendigo sentado ali batendo uma canequinha no chão sem família, perdido e jogado lá, quer dizer, você já vai para o extremo oposto.

Pascoal            … você imediatamente começa a construir aqueles cenários que são os cenários assim… outro dia eu ouvi você falando sobre o propósito, é exatamente, esses cenários, eles aparecem quando, por exemplo, quando você não sabe porque você está fazendo tudo aquilo, às vezes você está provocando a ruptura do mundo que está aí à tua volta, você está provocando, inventando coisas, provocando e você, por quê? Óbvio, eu estou no meio de gente fazendo teatro, estou dentro de um teatro que está lutando para ser teatro, pô…

Luciano             Eu vou ter que tomar uma… vou ter que fazer uma escolha, significa que você tem que abrir mão daquela estabilidade do Banco do Brasil para poder entrar nessa…

Pascoal            … óbvio, entendeu? Mas às vezes você, é que você faz um programa exatamente sobre esse tipo de coisa, se você criou toda a situação, criou isso, o que você quer agora? Estou aqui, você faltou no Banco do Brasil, ao mesmo tempo eu estava pensando não quero sair de lá como um relapso, alguma coisa assim, não, às vezes você tem que tomar a decisão, você criou esse ambiente porque eu acho que é uma coisa assim, você começa, dentro de você, porque não é sua cabeça que faz as coisas, o corpo também faz, você fica mais cansado, tudo vai fazendo, tua roupa, você põe uma roupa diferente, hoje você foi trabalhar com roupa diferente, tudo em você começa a se manifestar.

Luciano             Da hora do almoço, eu estava almoçando com o amigo aqui hoje, ele combinou com uma carona, parou a carona dele aqui, ela é dona de uma rede de farmácias aqui, a gente sentou ali, estava terminando o almoço, ela sentou para esperar ele terminar e ir embora e naquele bate papo de dois ou três minutos, a gente falando papo de velho, pô porque eu tive uma hérnia de disco, ela falou o seguinte, eu tive um problema de coluna terrível, me travava, eu não conseguia me mexer, sabe como é que eu resolvi? Eu falei como? Eu me separei do meu marido e minha coluna… Você está falando aqui agora, meu corpo somatiza a situação que você não…

Pascoal            Você não é boca, você não é cabelo você é um todo e você até inclusive é o resto que está à tua volta, você tem o ambiente que está à tua volta e muitas vezes é que nem pesadelo de vida, você está… eu me lembro disso, eu saía do banco, vivia em dois ambientes totalmente diferentes, do banco ia para o teatro, no teatro era completamente diferente…

Luciano             Sim, eu imagino a tua chavinha mental, da tensão…

Pascoal            Exatamente.

Luciano             … cérebro, lado direito, lado esquerdo.

Pascoal            … é claro, estamos todo mundo na mesma conjuntura, evidentemente, mas às vezes você tem que sacar melhor o cenário que você está vivendo e até o que você está provocando, caramba e é uma coisa que eu não estava lidando direito.

Luciano             Mas você chegou lá então, chegou o momento que você falou bom, não deu vou ter que parar.

Pascoal            Ai eu cheguei nesse momento, mas é que eu cheguei no momento em que eu estava…. eu acho, Luciano, acho que você durante a vida, talvez você também tem que ir se instrumentalizando para vivenciar esses momentos de ruptura, porque vão acontecer e você tem que estar instrumentalizado porque  ele vai acontecer, vai vir na sua frente, vai vir uma ruptura, mas se você não tem instrumentos, não sabe ler um livro, você cai nessas coisas, nessas  loucuras todas…

Luciano             No desespero.

Pascoal            … no desespero todo, você fica meio pinéu, você não sei o quê, ou então você fica imaginando que é impossível, tudo é possível, quer dizer, você às vezes tem que se desdobrar para ter outra ideia daquilo que você está tendo, vai ser diferente, eu acho que esse pavor que a gente tem da mudança, a gente tem… ele é bom, mas tem que tomar cuidado.

Luciano             É o lance de pular na piscina gelada. Entendeu? Pulo ou não pulo? Pula caceta, depois fica na água e equilibra a temperatura, lá vou eu me virar agora. O que você tem que fazer? Você tem que falar muito bem, se eu não souber nadar eu tenho que ter uma boinha, eu me preparei, estou preparado para não morrer afogado, o que falta agora é pular.

Pascoal            É pular.

Luciano             Como é que foi? Teve um dia que você acordou e falou hoje eu vou pedir demissão.

Pascoal            Não, aí foi… Aí estava esse impasse, aí um dia eu falei bom, eu escrevi uma carta do Banco do Brasil dizendo o seguinte, que eu agora… eu não estou saindo  do Banco do Brasil porque eu não gosto não é nada,  é que eu estou indo trabalhar no teatro brasileiro. Eu vou trabalhar para o teatro brasileiro e fui trabalhar no Teatro Oficina e foi uma coisa que eu…

Luciano             Você pediu demissão do banco?

Pascoal            …  pedi demissão do banco.

Luciano             Muito bem, então vamos lá. Você morava aonde?

Pascoal            Eu morava lá na Vila Prudente.

Luciano             Casado?

Pascoal            Já estava solteiro. Já estava separado.

Luciano             Você morava sozinho.

Pascoal            Morava sozinho.

Luciano             Como é que você contou para o teu pai e para a tua mãe que você largou a carreira no Banco do Brasil para ser artista de teatro?

Pascoal            Tadinha… Meu pai, me lembro, meu pai ficou muito mal, porque eles que foram os incentivadores de eu fazer o teste do Banco do Brasil e entrar no Banco do Brasil e dez anos depois do Banco do Brasil, meu pai ficou mal, tanto que…. ficou mal, ficou péssimo, não entendeu nada na época, mas eu já estava grande, estava com trinta e poucos anos, meu pai teve  que engolir, mas ele ficou bem mal. Minha mãe também ficou meio abalada, mas a minha mãe era mais intuitiva, ela falou assim vai na sua, que você está achando que é, mas ele ficou mal e deu vontade de voltar atrás, pô, sacanear  meu pai, que sacanagem, chegou até aqui, o maior esforço e tudo mais…

Luciano             Como é que você…. Você tem filhos?

Pascoal            Tenho.

Luciano             Você tem filho. Como é que você hoje, aos 62…

Pascoal            63.

Luciano             … 63 você se coloca no lugar do teu pai, como é que você vê essa história, porque uma coisa é você passar por isso aos 33, ver a agonia do teu pai, pô pai não é nada disso. Como é que você enxerga esse fato hoje aos 63?

Pascoal            Mas eu também tinha dúvidas muito profundas sobre a questão dessa profissão, eu também achava que, cara, estou errado, eu também,  dentro de mim alguma coisa, havia lá um pedacinho… era alguma coisa como se disse assim cara, você é muito egoísta, você vai fazer o que você gosta? Qual que é a sua? Você vai fazer um negócio que você gosta, é isso?

Luciano             Como assim, não é?

Pascoal            É, como assim? Que sacanagem.

Luciano             Deve ter gente nos ouvindo aqui hoje, os caras estão como assim? Como não? Como assim não fazer o que eu gosto? Como assim?

Pascoal            É porque essa mentalidade de fazer o que você gosta, esse pensamento, ele foi combatido, porque o pensamento, não fazer o que você gosta significa você trabalhar para uma outra coisa e esse lado de você trabalhar para você mesmo, isso foi muito combatido durante muito tempo, foi necessário uma argumentação, pensamentos sobre isso, não, hoje a gente está vendo, hoje a gente sabe assim, a gente sabe quando o cara faz aquilo que ele gosta, ele rende bem pra caramba, é diferente. Se você for fazer aquilo que você gosta, ir atrás do que você gosta, porque a questão de ir atrás também do que você gosta significa o seguinte, ás vezes a tua trajetória é ir atrás do que você gosta, é ir atrás, isso dá livro, isso dá história, isso dá acontecimentos, isso dá uma porção de coisa.

Luciano             Ontem eu encontrei uma pessoa, eu vou trazer ele aqui, vou fazer uma entrevista com ele aqui e ele estava me contando que ele era executivo de uma empresa, estava desse jeito e ele falou desisti de tudo, o dia que eu cheguei na minha casa, minha filhinha tinha feito um joguinho, desses jogos de internet que cria personagens e tinha lá ela criado a família dela, eu cheguei lá, ela tinha apagado eu, ela não tinha mais pai e eu perguntei por que você me apagou? Ela falou não pai, porque na vida real eu não tenho pai, eu não vejo você e ele falou que aquilo foi uma porrada tão grande que ele largou tudo e mergulhou na carreira dele, virou empresário, hoje ele tem o próprio negócio que ele faz lá e ele foi convidado para fazer uma palestra outro dia para um evento num local onde estavam lá só CEO’s, presidentes bilionários que chegaram a presidência antes dos 40 anos, aquele povo… ele falou eu vou ser trucidado por esses caras porque a hora que eu chegar lá e contar a minha história, todos vão me olhar como sendo um fracassado. E ele falou eu terminei minha palestra, tinha meia dúzia chorando na plateia e os caras vieram falar comigo e dizer para mim que eu fiz aquilo que eles gostariam de ter feito, mas que eles não podem mais fazer porque arrumaram uma rede de responsabilidade tão grande, o bilhão é tão grande e prende os caras de tal forma que eles não puderam jamais fazer o que ele fez que foi se jogar naquilo que quer fazer.

Pascoal            Eu sei exatamente.

Luciano             Bom, vamos lá.

Pascoal            Por isso que… acho que eu já ouvi você falando sobre isso, a crise,  na verdade, ela vem para você como se fosse um presente, uma oportunidade, ela…

Luciano             Que é que você vai fazer com ela, não é?

Pascoal            … ela vem para você…

Luciano             O que você vai fazer com ela? Esse é o grande lance.

Pascoal            É porque, por exemplo, quando vem assim o sucesso, aquelas coisas todas, tem cara de nada, o sucesso, não tem cara de nada, mas a crise, ela tem uma cara, ela fala com você, ela é igual a você, ela conversa com você, ela tem a cara…. você imediatamente já se liga, puta eu não sei nada, eu sou uma besta, eu não tenho dinheiro, ela imediatamente faz.. você entra com contato com ela, porque conversar com o sucesso, conversar com aquela coisa, você não tem nem o que conversar, você tem que deixar aquilo acontecer porque eu vou fazer o quê? Está entrando dinheiro na minha conta, eu estou fazendo sucesso, e tudo mais, você deixa acontecer, aquilo vem sozinho, ele se faz sozinho.

Luciano             Tomara que dure.

Pascoal            Tomara que dure e não sei o quê, e às vezes pode durar demais da conta e durando demais da conta te desestabiliza, tira você do eixo. Eu já joguei na loteria, não jogo mais, porque fiquei pensando se eu ganhar 50 milhões de reais, meu, como é que eu vou tomar café na “padaroca”?

Luciano             Eu estava falando disso com a minha filha, do Neymar, a gente estava comentando agora do Neymar, essa coisa toda, falei olha a vida que o Neymar deve ter, ele não pode enfiar o dedo no nariz, ele não pode coçar o nariz que se ele coçar o nariz em público as fotos estão em tudo quanto é revista no dia seguinte. Esse cara não pode ir ao shopping fazer uma compra, é a síndrome do Michael Jackson, o cara não pode sair na rua que o mundo para, quer dizer, que porra de vida que é essa? Tá legal, tem um momento que você fala pô, deve ser uma curtição no começo, mas depois que você fala espera um pouquinho, para eu ir ali na esquina eu vou ter que levar esses

brutamontes comigo, tomar cuidado, meu filho não pode aparecer em público que alguém sequestra, eu tenho que tomar cuidado com esses amigos que estão em volta de mim, a maioria quer me puxar o tapete, o que é isso? Eu fiz acho que um programa há um tempo atrás que eu disse isso, quanto mais você  cresce no teu sucesso profissional, mais liberdade você perde, quanto mais você ganha, menos liberdade você tem, então é uma questão de onde é que está o balanço, não é?

Pascoal            É e porque também às vezes, é aquele negócio, quando você se dá de frente com aquele problema, aquela coisa difícil e tudo mais, a não ser que não seja, você está me contando até de problemas de saúde, mas o problema te coloca, te eixa, como quando você… eu acho que o problema é como… eu faço teatro, o teatro é o seguinte, quando você chega no carnegão do personagem que você faz, é quando você chega no problema dele, naquilo que é difícil para ele. O Stanislavski que é o cara do teatro ele fala o seguinte, porque a gente faz a peça de teatro, determinados lugares você passa correndo naqueles lugares porque são coisas que você não está entendendo, aquela fala, aquela cena, você passa correndo, vai para outra cena, de uma cena você vai para outra, ele fala assim, aquela cena difícil, é lá que está a solução do personagem, você fugiu dela porque o personagem está naquela cena complicada, é aquela cena que você não sabe fazer direito, aquela fala que quando você fala você se acha, nossa sou um canastrão, aquela cena é onde está o teu negócio, porque para nós, nós do teatro, a gente… onde está o problema, deve ser para todo mundo, mas onde está o problema é que está o ouro do negócio, ali onde tem dificuldade, ali tem alguma coisa que está exigindo a tua humanidade, está exigindo uma coisa que as pessoas… que o ser humano tem desde que ele é gente, dificuldade, ele tinha frio, ele  tinha fome, ele não comia, ia faltar…. essa dificuldade colocou ele numa situação de como é que eu faço para sair dessa?

Luciano             A condição natural do ser humano é nu, com fome, com frio.

Pascoal            Exatamente.

Luciano             Ele tem que lutar pela roupa, pela comida e pela habitação, se ele não lutar por isso ele não tem nada e nós vamos entrar numa seara maluca ai.

Pascoal            Mas isso vai ficando grande, mas quando eu falo isso, eu uso isso para resolver o problema de fazer uma peça de teatro.

Luciano             Mas deixa eu pegar aqui você, vamos voltar ali atrás então, você decide que vai para o teatro, larga o Banco do Brasil, então na segunda feira você não tem mais Banco do Brasil não tem salário, não tem dezesseis salários por ano, não tem mais porra nenhuma, você agora está no teatro. Eu não tenho a menor ideia do que vai acontecer comigo o mês que vem, eu nem sei se eu vou estar fazendo uma peça, se vai dar bilheteria, como é que eu vou planejar a minha vida, como é que eu saio de uma carreira onde eu tinha tudo certinho para estar diante do escuro, como é que você fez para lidar  com isso?

Pascoal            Fui tateando, eu fui numa intuição, numa intuição tateando mesmo, eu passei muito medo nesse período, era um período muito terrível, período assim, vamos dizer, de você, imagina essas coisas que eles vem cortar a luz em casa, esse negócio, ou essas coisas assim… eu fiquei muito tempo sem falar que eu era ator, porque você ia comprar uma geladeira, vou comprar uma geladeira, mesmo que eu tivesse grana, fosse comprar uma geladeira, não dava para escrever assim profissão: ator, escrevia profissão ator o cara te olhava, como vai pagar essa geladeira? Então colocava bancário, fiquei bancário durante muitos anos.

Luciano             Você sabe que ontem aconteceu uma coisa engraçada, eu chego nos lugares onde vou, no hotel, o cara profissão? Eu falo jornalista. Aí me perguntam por que jornalista? Porque eu não tenho que explicar, se eu botar que eu sou podcaster, palestrante, ou radialista eu vou ter que explicar, então eu boto jornalista, ninguém pergunta mais nada, está resolvido do assunto e vai. Isso é uma delícia, não posso botar ator.

Pascoal            Não, fiquei muitos anos sem botar de ator.

Luciano             Como é aquela história muito bem, consegui o que eu queria, virei ator, como é que eu ganho dinheiro com isso?

Pascoal            Não aí foi assim, aí claro, aí o dia a dia cobra você todo dia, a grana e tudo mais, mas lá no Oficina eu … por isso que eu devo muito ao Zé Celso, porque o Zé diz o seguinte, o Zé dizia assim a gente está dentro de uma economia, essa é a nossa economia, nós estamos produzindo riqueza aqui dentro, essa riqueza agora, a gente vai ter que entrar em contato, não era exatamente isso, mas era mais ou menos, a gente estava produzindo, fazendo um ensaio, defendendo o teatro, fazendo uma história, criando uma peça, mas isso é uma produção de riqueza, só que essa riqueza que a gente está produzindo aqui, a gente quando você chega lá fora, ela não está comprando casa, arroz, feijão, mas o que a gente tem que fazer? A gente tem que ir negociar com essa riqueza, porque é assim que funciona, isso que nós temos para oferecer de riqueza, nós não temos que fazer o contrário, pegar e deixar de fazer aqui para ir ganhar dinheiro em outro lugar, você tem que pegar isso daqui, que é uma  produção de riqueza e ir negociar isso, por exemplo, por exemplo a gente chegou lá no, um dia o Zé falou assim, vamos comprar… o proprietário da casa, proprietário do local, o teatro era alugado, o proprietário chegou e disse, mandou uma… a gente estava pagando aluguel, durante bastante tempo, mas o proprietário chamou e disse  tem trinta dias, pela lei do inquilinato, ofereceu o teatro para a gente comprar, custava um monte de dinheiro, não sei quanto é que era,  me lembro que era bastante, aí o Zé chegou falou assim quanto tem de dinheiro no caixa, pô Zé, não tem nada, você sabe que não tem nada. Vocês querem comprar o teatro? Queremos, comprar a gente quer, então a gente vai comprar, falei como? Ele falou assim, bom, nós vamos… onde é que está o dinheiro  do Brasil? Zé, está no Banco Central, está no Banco do Brasil, Banco Central tem o caixa do Banco do Brasil. Então nós vamos lá buscar o dinheiro amanhã. Já tinham falado que o Zé era louco, deve ser louco mesmo. Aí chega lá no Banco Central, é uma conversa, estou te falando de trás para frente, porque na hora não entendi nada, ele falou para o cara assim, era o Edmar Bacha, falou para ele assim, nós viemos buscar o dinheiro para comprar o Teatro Oficina, ele era diretor do teatro, aí o cara falou olha Zé, daí que não dá, você tem que ir no banco, levar uma hipoteca, alguma coisa. Ele falou, mas nós temos a hipoteca. Ele falou o que é? É a história do Teatro Oficina. Ele falou mas como assim, a história do Teatro Oficina não serve. Aí o Zé falou para ele, mas que economia você quer para a vida do Brasil, que economia o Banco Central defende, o Banco do Brasil? Nós produzimos uma riqueza, um teatro que lutou contra a ditadura, um teatro que fez peças, um teatro que criou tanta coisa na cultura, isso não é riqueza? O que é riqueza? Porque na época, no mesmo momento, o Silvo Santos estava querendo comprar o prédio, então tinha dois compradores, o Teatro Oficina e o Silvio Santos, aí lembro do Zé Celso, pô, mas o Silvio  Santos vende baú da felicidade e tem dinheiro para comprar o teatro? Nós fazemos teatro e queremos fazer teatro, não temos dinheiro para comprar o teatro? Tem alguma coisa na tua economia que está errado, o Zé colocou isso para ele. Aí começa uma coisa de jornal, aí entra a opinião pública, a opinião pública veio favorável ao teatro, não tem que tombar, tem que desapropriar, o governo tem que proteger, então aí o Zé conseguiu mobilizar a opinião pública nesse sentido, porque a opinião pública, ela vai… eu confio demais na  opinião pública, a opinião pública ela tem uma hora que ela vai defender, é um senso de justiça geral que está aí, ela vai se levantar, vai falar não, espera aí, isso não pode.

Luciano             Você então vira um ator profissional?

Pascoal            Não, ainda não virei ator profissional porque ainda a profissão ainda não é… porque aconteceu uma reviravolta muito grande…

Luciano             Então, mas o teu negócio era trabalhar no teatro, você é um ator, você não tinha outro emprego?

Pascoal            Não tinha.

Luciano             Você estava no teatro lá, não é? Você pensou que tinha feito uma cagada em algum momento?

Pascoal            Várias vezes, porque quando você faz 10 anos no Banco do Brasil você ganha dinheiro para comprar uma casa, ele compra uma casa, naquela época a gente ganhava, pô, naquela época dava uns 500 mil reais, o que significaria um milhão de reais talvez, para você comprar uma casa e para pagar durante a vida toda, daqueles financiamentos estatais gigantescos, dentro do seu salário e tal, e com 10 anos você ganhava uma gratificação enorme, eu perdi essa gratificação, os 10 anos.

Luciano             Então como é que é aquele momento que você está sozinho na tua casa, você para, você chegou a parar para pensar eu sou um merda, eu fiz uma cagada sem tamanho.

Pascoal            Eu pensei várias vezes, nossa senhora…

Luciano             Por que você não voltou para o banco?

Pascoal            Ai o seguinte, aí já tinha enfiado o pé na lama, é o seguinte, aí já não dá mais tempo, já fez, agora o seguinte, agora onde você está você vai ter que defender aí e aí eu comecei fazendo as coisas o seguinte,  eu comecei a buscar negócio para ganhar dinheiro, comecei a arranjar uns trampos, aliás foi aí que me levou para fazer o doutor Abobrinha, porque eu fazia aquele programas da… fazia locução…

Luciano             Fazia freela.

Pascoal            Freelancer de locução e uns frees meus, que eu tenho voz de locutor, vocês estão ouvindo agora essa voz de locutor, um dos freelancer era fazer um programa da BBC, a tradução daqueles programas, a versão brasileira daqueles programas de passarinho, aí está o passarinho, o passarinho, ele sempre pia pela manhã… fazia esse tipo de locução e um dia eu estou saindo lá da TV Cultura, isso aí já é.. quando é… 92, já estou há uns 10 anos no teatro, passando perrengue pra caramba, fazendo freelancer, ganhando 1000 reais às vezes por mês, como é que vai ser esse mês… Aí um cara pediu carona para mim, falou pascoal, dá uma carona? Falei dou. E como todo caronista, ele é folgado, todo carona é folgado, ele falou eu vou fazer um programa, fazer um teste para um programa, Castelo Rá Tim Bum, daqui a pouco a gente vai junto, falei ah, se você vai fazer o teste vou fazer também, aí fiz para fazer o doutor Victor, queria fazer o doutor Victor do programa…

Luciano             Que era o personagem que…

Pascoal            … que é o tio… tinha uma fila de gente fazendo teste. Aí o Cao falou ô Pascoal, a gente tem um personagem que talvez você possa fazer…

Luciano             Você sabia o que era aquilo?

Pascoa             … não, não tinha a menor ideia…

Luciano             Você não tinha ideia do que era.

Pascoal            … não…

Luciano             Ninguém falou é um programa infantil que vai ter aí?

Pascoal            … não, uma coisa que vai ter aqui, uns trocos para ganhar, 20 reais, 10 reais, vou ganhar um troco nesse negócio aí, vamos lá nesse troço aí, injeção na testa, o que tivesse, aí cheguei lá para fazer o teste, ele falou tem um outro personagem que é o seguinte, que é um especulador imobiliário, ele quer derrubar  o castelo e construir um prédio para ele, falei pô, já tinha passado por essa coisa no teatro, falei isso daí eu sei fazer, improvisei e mandei ver, aí o Cao falou não, você vai fazer esse doutor Abobrinha, você está ótimo, você vai fazer. Aí me chamou, aí passamos um ano gravando.

Luciano             Aqueles cacos todos, surgiram na hora ali?

Pascoal            Foram surgindo devagarzinho, porque o programa foi gravado com muita liberdade, então o que que aconteceu? Era um programa na TV Cultura, a TV Cultura, fazer um programa na TV Cultura, é como fazer um podcast, ninguém ia ver e tal, uma coisa assim lá no fundo, então tudo bem, deixa pra lá e agente fez com muita liberdade, porque isso também flui bastante, eu sei disso porque hoje quando eu vou gravar, dependendo do lugar que eu vou trabalhar, que eu vou gravar, se eu não  estou tenso, se  eu estou… pô se  eu estou tranquilo aí estou em casa e nessa época do Castelo Rá Tim Bum, a gente estava em casa, a gente tinha o texto, tinha o roteiro escrito, tudo certinho e tinha por exemplo, digamos: “esse castelo será meu”, “um dia esse castelo será meu”,  digamos,  tinha a frase, mas eu podia inventar, Cao posso fazer aqui… (ele entona a voz). Não, faz, pode fazer, e ia fazendo e dando boiada para a gente fazer, algumas coisas não deixavam, por exemplo, se você falasse errado, o português, se você assistiu o programa você viu, não tem um erro de português, de concordância verbal, ás vezes você faz essas coisas de concordância, você  erra.

Luciano             Você levantou um ponto aí que para mim é fundamental, até para a gente entender como é que funcionam as coisas, quer dizer, a gravação de um programa, eu não estou falando de Castelo Rá Tim Bum, eu estou falando daquela grade que tinha a TV Cultura, você não tinha aquele compromisso de hoje, industrial, tem que ficar pronto agora, tem que fazer hoje, tem 20 minutos para gravar, aquela loucura, tem que botar no ar hoje, aquele compromisso, etc. e tal, naquela época não existia não existia porque não tinha aquela coisa de audiência, etc. e tal,  que é uma coisa que você só consegue obter se você tiver, como vocês estavam numa entidade estatal, era dinheiro do governo que bancava a TV Cultura, então não tinha compromisso de botar anunciante, se não desse audiência tudo bem, se desse também tudo bem e o estado é que estava bancando aquilo, quer dizer, era um mecenato que possibilitava os artistas chegarem lá e falar vamos fazer do jeito que a gente quer e quando você tem uma consciência  ou quando os astros se juntam e reúne uma equipe como aquela equipe do Rá Tim Bum, nasce uma coisa que marca a infância de todo mundo, marca a vida de todo mundo…

Pascoal            Não, foi muito legal aquilo.

Luciano             … e se fosse uma emissora comercial talvez não teria condição de ter feito o que vocês fizeram lá…

Pascoal            Eu acho que não.

Luciano             … daquele jeito que foi feito não, não teria as experiências que vocês fizeram, não teria sabe, não dá aquela.. começa e vamos ver onde vai dar, que hora que tem que acabar a gravação? Não, vai embora, grava e vai embora.

Pascoa             Nós gravávamos 12, 13 horas por dia, não tinha essas coisas.

Luciano             É um momento em que você olha e fala pô, faz sentido o estado estar presente? Talvez nesse momento se ele falasse não teria, sem esse mecenato talvez isso não tivesse acontecido.  Mas deixa eu explorar você um pouquinho mais que agora nós chegamos num ponto que muita gente que está ouvindo aqui está esperando  isso aí. Quando é que você foi apresentado para o projeto Castelo Rá Tim Bum, que aí quando você foi fazer o teste, ah vamos fazer um treco aí, e aí no momento falou legal, você está escalado, houve um momento em que o grupo todo se juntou e alguém apresentou a visão do que viria a ser aquilo, ou essa consciência não existia, ninguém sabia o que ia ser aquilo?

Pascoal            Talvez existisse entre eles, mas eu não me lembro de reunião de apresentar o projeto nem nada, nós fomos gravando, talvez, quer dizer, acredito que o Cao, a pessoa que trabalhou na elaboração do projeto, mas não chegou para mim essa ideia do que era tudo aquilo, eu não participei disso, eu fui chamado como ator para fazer um personagem, fui fazendo, tanto que nós gravamos, tanto que o programa foi feito assim, não sei se vocês sabem, mas o programa foi gravado e um ano depois de tudo gravado é que ele foi para o ar…

Luciano             Não, não sabia disso.

Pascoal            … ele não foi para o ar  imediatamente, nós gravamos, um ano depois ele foi para o ar, quando o programa foi para o ar,  a gente já tinha feito ele todo, já estava tudo pronto, encaixotado, empacotado, ok, tchau, até outro dia, o cenário já tinha destruído.

Luciano             Eu não sabia que tinha sido isso.

Pascoal            Foi. Gravamos de 94 até…

Luciano             Quer dizer, o negócio foi a fundo perdido, nem se sabia quando ia para o ar…

Pascoal            Não, não sabia.

Luciano             … que loucura, hoje não tem dinheiro mais para fazer isso, hoje em dia não se faria mais isso.

Pascoal            Tanto que quando começou o retorno do programa, porque a Cultura não media IBOPE, mas começou a acontecer coisas do gênero assim, você ia… me lembro um dia fui na Bienal aqui no Ibirapuera, aí vem vindo aquela fila, aquela cobra grande de crianças, vem vindo com a professora na frente, duas ou três professoras, aquele monte de criancinha correndo, de  repente os meninos: doutor Abobrinha, aquele monte de crianças correndo… O que está acontecendo? Um dia a gente foi no Museu da Casa Brasileira, ia lançar um livro chamado “Castelo Rá Tim Bum”, aí vamos lá no Museu da Casa Brasileira, aí a gente falou pô, vai vir bastante gente, já foi anunciado na televisão. Não vai não. Umas 300 pessoas, ah não, mas quem é… 300… ficou aquela discussão se viria 300, se viria 500, tudo bem, aí estamos chegando, pô marcou as 9 da manhã, num sábado, no Museu da Casa Brasileira, aqui na Rua Augusta, chega lá no museu, um trânsito, um inferno, falei pô, que coisa chata, pegar o ônibus.. aí quando a gente chegou tinha 20 mil pessoas para ver a gente, pessoal do Castelo Ra Tim Bim, falei o que que é isso? A gente saiu correndo de lá porque não tínhamos ideia do que estava acontecendo, então, para te dar uma dimensão de como as coisas estavam, vieram para a gente, vieram tudo na retaguarda, então a gente foi perseguido por esse sucesso, todos nós que fizemos.

Luciano             Quer dizer, vocês não conseguiram nem adaptar o programa ao sucesso, quando chegou já tinha ido para o ar…

Pascoal            Quando chegou já tinha ido para o ar, já tinha gravado, já tinha acabado, não gravava mais.

Luciano             … meu, isso é antítese de tudo que se fala  hoje em dia, porque hoje em dia você tem pesquisa direto, deixa eu vero que os caras estão achando para eu mudar o personagem, deixa eu trocar isso aqui, hoje em dia é assim e o Castelo Rá Tim Bum não foi uma novelinha de   três meses, quanto tempo durou?

Pascoal            Nossa, nós tivemos 125 episódios. Dava um ano de episódio depois que estava pronto.

Luciano             Quer dizer, era um projeto gigante.

Pascoal            Gigante, era grande, porque o que aconteceu? Esses episódios todos foram gravados, aí foi tudo para o ar, estava tudo pronto em um ano, nós gravamos em um ano, era projeto de um ano, está tudo pronto, empacotado, feito, entregue, ok, porque nesse período, eu mesmo não saquei que estava acontecendo isso, não tinha ideia do que estava acontecendo, aquele sucesso todo, porque como é que você ia saber, a Cultura não media IBOPE, o sucesso do programa era tudo boca a boca, era entre as crianças, os pais que ligavam um ligava para o outro, quero que vocês me digam o que aconteceu, o que era aquele programa que estava entrando na corrente sanguínea da cidade, porque no mesmo momento tinha a Xuxa, a Xuxa, aquelas outras mulheres…

Luciano             Não tinha Facebook, não tinha internet, não tinha Youtube, não tinha nada disso.

Pascoal            … e eu acho, vou falar para você, o programa, as pessoas por que que o programa acabou? Acho que o programa de certa maneira foi vítima dele mesmo, porque ele não tinha merchandising, era um antiprograma de televisão, não era um programa para vender nada, sendo que a televisão está aí montada de um jeito que possa vender uma porção de coisas, então você faz um programa que não vende nada, quem vai querer produzir esse programa? Que não quer vender nada, a fundo perdido.

Luciano             Aliás, um detalhe para vocês aqui, na época a Cultura proibia, se tivesse não podia, porque não era, por estatuto era proibido ter qualquer tipo de dinheiro privado.

Pascoal            Mas esse sucesso todo que deu no programa, que pegou todo mundo na retaguarda, você começou perguntando se não teve uma reunião, se havia um propósito, não tinha.

Luciano             Deixa eu elaborar mais essa pergunta aí, durante a gravação vocês sacaram que estavam fazendo alguma coisa especial? Deixa eu dizer porque é especial, Pascoal, porque é o seguinte, tinha um monte de programas na época, tinha programa infantil de montão, tinha o TV leão, aquelas coisa, cão não sei o quê, Xuxa, etc.  e tal e quando você bota isso tudo, o Castelo Rá Tim Bum aparece num nível tão mais alto, porque o impacto que ele fez numa geração inteirinha é um negócio impressionante, a mim como pai e eu vendo meus filhos entregues àquilo. Vocês enquanto estava gravando sacaram que tem uma qualidade nesse treco aqui que é diferente do que eu estou vendo aí, esse texto que está chegando para mim é um texto muito legal, ou então esses caras com quem eu estou contracenando aqui é tudo avião, eu estou fazendo um negócio foda, ou era mais um trabalho como outro?

Pascoal            Para mim era mais um trabalho como outro, talvez alguém soubesse, mas eu não sabia, eu não tinha ideia, tanto que eu me senti com muita liberdade para fazer o programa.

Luciano             Olha o que você está me botando aqui, eu tenho que trazer Cao Hamburger aqui, preciso pegar o Cao aqui, porque o maestro dessa história toda tem que ser genial, entendeu? Ele botou você ali, você fez uma função que para você era uma função, estou fazendo dignamente, não saquei ainda o tamanho disso aqui e tem um maestro ali sacando isso tudo e falando, legal.

Pascoal            Eu soube por exemplo coisas assim, chegou um programa que a gente tinha que regravar um programa, o que aconteceu? O Cao quer que regrave esse programa. Por que? Ele levou para a casa, os filhos dele assistiram, ele pediu para regravar. Está bom. Então tinha havia uma possibilidade de trabalho enorme, imagina você gravar um programa, leva para a casa e traz depois e manda todo mundo gravar de novo o programa? Então, porque tinha gravado, eu me lembro que eu tinha gravado uma coisa que eu tinha dito assim, eu me lembro disso perfeitamente: “ah essas crianças, odeio criança” e o Cao falou não Pascoal, não, não joga ai, não vai para odeio criança, você não odeia criança, você só quer comprar o castelo, você quer o castelo para você, é isso que você quer, as crianças estão na frente, então vai para o castelo, então ele me focou no personagem, depois que ele focou o personagem que era o castelo, aí eu falei bom, é óbvio, é claro que ele quer o castelo, então não era uma coisa de criar caso em volta, criar outros… era focado no castelo, então nessa direção para mim foi fundamental ele dizer isso, porque eu não precisei também agir daquele jeito assim, uma coisa que vai falar que as crianças são os meus inimigos, o doutor Abobrinha não é inimigo das crianças.

Luciano             Não, não tinha nada agressivo lá.

Pascoal            Eu agora falando do personagem do doutor Abobrinha, quando eu fui fazer o personagem, quando ele chegou para mim, eu entendi uma coisa imediatamente, porque o que que acontece? O personagem, como ser humano, ele tem que se está claro o que vocês chamam de propósito, se está claro o super objetivo dele, ele pode cair, pode quebrar, pode passar vergonha, isso para ele é a coisa que mais anima ele, é a ânima dele, ele está possuído por uma coisa divina, ele tem o super objetivo, ele tem aquilo que ele quer.

Luciano             Eu acabei de fazer o sumário desse mês aqui do Café Brasil Premium, chama-se Mind Set Extern, Mind Set Exterior é o nome dele e lá o cara conta exatamente isso, ele fala o seguinte, quando você consegue mudar o mind set das pessoas, quando você mudar na cabeça dela o objetivo, o que ela tem que fazer, você não tem mais que explicar, você não tem que dar uma listinha para dizer primeiro isso, primeiro aquilo, o momento em que você sacou a jogada, aí você começa e fica legal, entendeu? Porque você entendeu onde é que você está indo e tudo o que eu incorporar aqui vai ser para o bem dessa coisa, o diretor só vai olhar aquilo e falar Pascoal, manda bala, porque o Pascoal sacou o personagem. E acho que se eu traduzir isso para o ambiente corporativo do dia a dia é a mesma coisa, eu botei até uma historinha muito legal ali que era o seguinte, preciso achar até essa história para dar nomes aos bois, é um case que aconteceu na segunda guerra mundial, diz que tinha um grupo de físicos lá nos EUA trabalhando para um projeto ultra secreto do governo que ninguém sabia o que era, nem os próprios físicos, então eles recebiam lá os cálculos que ia fazer e aquilo era tudo setorizado de forma que nenhum deles sabia o que era, mas todos estavam trabalhando naquilo e esse grupo estava performando muito mal, eles estavam atrasando prazo, não estavam legal e aí o exército chamou um consultor para botar ordem na casa e o consultor foi lá, examinou o negócio todo, a primeira coisa que o consultor fez foi botar todo mundo numa sala e revelar o segredo, falou para eles, moçada, sabe  o que vocês estão fazendo? Vocês estão ajudando a desenvolver a bomba atômica antes dos alemães, se os alemães saírem na frente a gente perde a guerra. Então eu estou contando para vocês que o segredo que vocês estão envolvidos é fazer a bomba atômica, no dia seguinte aquele grupo começou a performar que nem maluco porque eles entenderam qual era a sacada, onde é que eu estou indo? Por que eu estou aqui? Quando o cara sacou a importância do trabalho dele, ninguém mais teve que mandar para o cara faça direito, saiu todo mundo que nem louco porque ficou claro qual era o objetivo, então é a mesma coisa que você entrar, entrei no personagem, saquei a alma dele…

Pascoal            No caso do personagem você sacou o que é, porque às vezes, porque estudar o personagem é uma coisa muito bacana porque a gente é muito complexo, a gente às vezes a gente não revela o que a gente quer, está tudo dizendo o que você quer, como você está me perguntando: como é que você sabe que você é ator? O menino começa, tem 10 anos, tem 7 anos, está cantando, vai no teatro, sente. Está óbvio. Agora, se eu estou num habitat de artistas, porque meu pai era policial militar, minha mãe era costureira, uma família grande, morava lá na Vila Prudente, esse negócio não existia, então não existia no habitat para aquilo que aquele menino tem, se eu estou numa família de artista, imediatamente, amanhã…pode parar, amanhã você está no picadeiro, para com isso, é para já, então o que que acontece, o personagem ele é assim, às vezes está tudo escrito o que é para ele fazer porque tem alguma coisa dentro dele mandando ele fazer aquilo lá e às vezes você tem que pegar, por exemplo, quando eu vou analisar um personagem às vezes você tem que pegar o personagem não pelo que, digamos, você imagina e idealiza que ele está fazendo, você tem que fazer ele de uma maneira que ele, às vezes o personagem não pode saber o que ele está fazendo, por exemplo, o doutor Abobrinha, de certa maneira,  o que ele quer, não quer derrubar o castelo, ele quer o castelo, quem que não quer um castelo? Eu quero. Então dentro dele na profundidade dele, ele quer exatamente o que você quer, por isso que ele é um personagem que você, de certa maneira, até admira, porque é uma obsessão desse quilate é uma coisa que você quer na tua vida.

Luciano             O vilão que a molecada ama, a molecada adora o vilão.

Pascoal            A gente adora o vilão porque o vilão, ele tem claro o propósito, é isso que você quer, ele tem claro o propósito, ele quer aquilo, veja todos os vilões que a gente assiste em qualquer filme, o vilão tem aquilo claro, ele tem aquela clareza, aquela coisa que você não tem, entendeu? O Máscara, entendeu? O Pinguim tem um objetivo muito mais claro do que você, entendeu? O Pinguim: eu quero destruir, é isso, ele está com o objetivo claro e pronto e em cima disso, você veja, você pode ver o Coringa, aconteça o que acontecer, entendeu? Eu acho que… a gente estava falando com crianças e as crianças entendem essa metáfora, porque na criança isso está presente, porque o antagonista, quer dizer, o vilão de certa forma ele se revela uma pessoa que tem super objetivo, que sabe o que quer e  por isso que ela te irrita, ela sabe exatamente o que quer, ela não está nem aí para as dificuldades.

Luciano             Você quando chegou aqui foi recebido pela minha filha, de 26 anos, a hora que ela viu o prof. Pimpão Pimpolho entrando aqui ela subiu aqui e não largava, 26 anos, ela acabou de vir da exposição do Castelo Rá Tim Bum que está acontecendo em São Paulo, onde tem filas e filas e filas de não mais crianças, mas gente de 26, 27, 30 anos, que é a moçada toda que curtiu aquilo e que cresceu com o Castelo Rá Tim Bum, quanto tempo faz que foi ao ar? 20 anos?

Pascoal            Foi 96, 21, está fazendo 21 já.

Luciano             21 anos atrás foi ao ar e essa molecada toda impactada até hoje, quer dizer…

 

Pascoal            Isso não é uma coisa que acontece no Brasil normalmente, acho até que merecia um estudo para saber o que é isso.

Luciano             Sim, mas aquilo que a gente comentou antes, o que foi para mim e para você a Vila Sésamo, para essa molecada foi o Castelo Rá Tim Bum, quer dizer, tem uma coisa que gravou de tal forma que ficou ali. E a gente tem uma dificuldade gigantesca de valorizar isso. Quanto vale essa fissura que a minha filha tem nesses personagens, de ela olhar e falar muito obrigado, vim aqui de abraçar, adoro você, quanto vale isso, não é? Por que isso não se traduz em valor, por que não tem os bonequinhos do Rá Tim Bum vendendo barbaridade até hoje, por que não tem o parque do Castelo Rá Tim Bum…

Pascoal            Por que o programa não continuou e a gente continuou fazendo? Todo mundo fazendo.

Luciano             … por que o programa não continuou e etc. e tal, se estava tudo lá, porque não veio alguém falar põe grana nesse negócio que esse negócio vai longe. O que me leva àquela pergunta então: você começou a trabalhar então como artista. Que ano foi? Você lembra?

Pascoal            82. Foi uma marca.

Luciano             São 35 anos.

Pascoal            35, é verdade.

Luciano             35 anos, muito bem. 35 anos vivendo como ator no Brasil. É difícil?

Pascoal            É difícil, é muito difícil, mas há alguma coisa nesse negócio todo, é difícil, mas eu não posso falar pô, eu não posso dizer que é difícil porque eu amo fazer esse negócio e aliás quando eu sei a dificuldade, ai eu falo ah, é esse lugar mesmo.

Luciano             Mas então deixa elaborar melhor, eu sei que aqueles minutos que você está em cima daquele palco desempenhando teu papel de artista, aquilo te dá um tipo de retorno que não se traduz em dinheiro, em nada, estar ali fazendo aquele papel, aquele momento que você está reagindo, a plateia reagindo a você, etc. e tal…

Pascoal            É aquilo que você mesmo falou, quando você serve, quando você…

Luciano             … como eu faço em palestra, enquanto eu estou lá em cima,  que eu estou e o pessoal está reagindo, não há dinheiro no mundo que pague aquilo.

Pascoal            … você vê que você está dando alguma coisa, você fala eu estou dando alguma coisa.

Luciano             E que te dá aquela sensação de que eu tenho um poder de alguma forma tocar essas pessoas, algumas vão sair daqui com a cabeça cheia de coisa, talvez alguma me escreva para dizer você  falou um treco que eu precisava ouvir naquele momento e me ajudou, quer dizer, tem um poder aí que o dinheiro sozinho não compra.

Pascoal            Não e tem uma coisa humana, você fala assim, eu não sei o que eu sou, mas eu acredito que a gente é doador, a gente tem que dar as coisas, porque a gente não consegue se agarrar em nada, pode ter dinheiro, a gente não consegue, então eu acredito que uma coisa que faz o ser humano é ele ser um doador, ele dar coisas, ele dar alegria, ele dar conhecimento, dar, dar, dar tudo, dá o que você tiver, dá a tua vida.

Luciano             Sim, mas a SABESP vai te dar a conta para pagar no final do mês, certo?

Pascoal            Exatamente, pode até ser…

Luciano             Você vai ter que comer comida, você vai ter pagar o aluguel, vai ter que pagar, você precisa de grana para viver. Eu quero saber da dificuldade de ser artista no Brasil e de ganhar grana para dizer o seguinte: olha, o Brasil, eu não sei quantos atores tem, vamos fazer que nem jogador de futebol, tem no Brasil 2 milhões de jogadores de futebol registrados e tem um Neymar, só tem um, mas tem 2 milhões lá, a maioria absoluta está fudida por aí, artista é parecido, tem um monte de artista, a maioria absoluta acho que fazendo outra coisa para viver enquanto trabalha como artista e alguns lá na Globo ganhando milhões, etc. e tal, é um grupo muito pequeno que está ali. Eu não quero falar desse main stream e nem do underground, eu quero falar do médio stream que é aquele cara igual você que precisa ir ali na esquina, vai ter que ir na venda pagar alguma coisa e que não está, como é que eu planejo a minha vida sendo artista?

Pascoal            Acredito assim, talvez um dia eu vá escrever um livro sobre isso porque você tem que administrar, você tem que ser um administrador de um negócio muito difícil, realmente, eu não penso muito nisso, sabia? Eu tento não pensar muito…

Luciano             Eu acho que é bom não pensar.

Pascoal            … não penso muito não, eu passo um período assim que eu não tenho dinheiro nenhum fico ah o que vai fazer  e tudo mais, mas imediatamente… quando aparece uma dificuldade,  agora mesmo apareceu, eu fui fazer umas performances do doutor Abobrinha lá no Castelo Rá Tim Bum, falei ah, apareceu a oportunidade, fui lá fazer a performance, deu para ganhar um dinheiro e depois aí vai para outra coisa, essa parte do dinheiro é que é assim, a gente precisava… a sociedade, os atores, o Mário de Andrade, que é um personagem que eu fiz também, o Mário de Andrade fala o seguinte, enquanto você faz arte, você precisa também fazer com que o público entenda o quanto é importante ele ter arte na tua vida, quer dizer, você tem que fazer  as duas coisas ao mesmo tempo, mesma coisa quando você faz o podcast, você tem que fazer uma coisa e fala, e também defender esse lado, muitas, muitas e muitas vezes a gente não defendeu isso como artista porque você vai direto para outra coisa, por exemplo, sua filha gosta do Castelo Rá Tim Bum, infância é assim, você pode ter uma infância com o Castelo Rá Tim Bum ou infância sem Castelo Rá Tim Bum. Com o Castelo Rá Tim Bum a infância com cultura, sem Castelo Rá Tim Bum, infância sem cultura, a diferença que tem uma das duas é que quando você não tem, você não sabe a falta que faria se não tivesse, você não tem essa ideia e essa é a diferença, o trabalho que a gente faz, o trabalho, por exemplo, que você faz, trabalho de podcast, é um trabalho assim que se não tivesse, se  ele não existisse e as pessoas não tivessem passando a necessidade dele existir, agora sim, agora você conseguiu ultrapassar um lugar que era: as pessoas sabem que ele existe e se você não fizer, você vai fazer falta, agora você já começa a fazer falta, entendeu?

Luciano             E acho que você está tocando num ponto importante que é o seguinte, que é eu que sou um consumidor da sua arte, deveria estar preocupado em manter você fazendo a tua arte, eu fiz um outro material que eu publiquei há um tempo atrás, acho que até foi para o Café Brasil, eu botei no Café Brasil, que eu falava de um sujeito lá que faz uma apresentação que  ele  diz o seguinte: as pessoas devem receber o suficiente para quando for trabalhar não ter que se preocupar com as contas que tem para pagar, entendeu? Eu tenho que trabalhar entregue ao meu trabalho e não me preocupar se vai vencer a conta de luz amanhã, porque quando essas coisas acontecerem, eu não estou entregue aqui, eu vim trabalhar mas eu não vou conseguir abstrair os problemas que eu tenho, que todo mundo tem porque eu não sei se eu vou ter grana amanhã para pagar isso aqui, então eu que estou sentado na plateia curtindo aquilo de montão, eu tenho como obrigação comigo, esse negócio é tão bom que eu quero que ele continue e ele só pode continuar se eu fizer alguma coisa a respeito, o que eu posso fazer? Comprei o ingresso isso basta? o Brasil não, por mais que custe caro o ingresso, você sabe que não dá, bilheteria no Brasil é um negócio absurdo. Que mais que eu posso fazer? Entendeu? Como é que eu um cidadão aqui, um indivíduo, posso fazer com que esses caras que estão fazendo essa arte tão legal continuem fazendo isso, não é? Aí vem uma discussão gigantesca, o que é? Dar dinheiro para os caras? Não, não é só dar dinheiro para os caras, é contar que existe, é defender, é usar tuas redes sociais, é chamar a turma para ir, é levar o pessoal para lá, é ir lá na peça, é ir atrás, é comprar camiseta, é fazer tudo aquilo que você puder na direção de que eu preciso manter essa coisa, eu preciso que ela continue, eu devia fazer com que toda essa molecada mandasse uma carta para a TV Cultura, para exigir a volta do Castelo Rá Tim Bum, eu queria 200 mil cartas lá, falando traz essa coisa de volta, entendeu?

Pascoal            Mas é um pouco, falei do Mário de Andrade, é um pouco isso, você tem que fazer as duas coisas, eu não sei como é que é a coisa da criação de um produto, mas eu imagino que se as pessoas não tiverem a noção, uma caixa de fósforo, quando o cara criou a caixa de fósforo já tinha fogo, a caixa de fósforo na verdade foi porque ela facilitava aquele fogo, então acho que na produção cultural, quando você faz a produção cultural, não basta você produzir, fazer a produção cultural, entendeu? Não basta você fazer, esse é um dos trabalhos da produção cultural, essa é uma das coisas que você tem que fazer, a outra coisa que você tem que fazer é criar uma plateia que exija a produção cultural, você tem que criar uma plateia que queira a produção cultural, que exija essa produção e exigir a produção cultural significa, às vezes, tirar o dinheiro, eu sei, já viajei, fui para fora, fui para a Europa e tudo mais, tem um prazer de a plateia pagar o ingresso, de  ela ir no lugar, mas é porque aquela plateia, ela foi trabalhada e ela sabe que aquilo é importante, aliás ela sabe o seguinte: que se você deixar o ator entregue aos produtos comerciais, aos sabonetes, ás coisas todas, não deixar de fora, você não vai ter um bom resultado estético que você está precisando, você não vai ter, que nem agora, agora a gente está num momento brasileiro, principalmente o brasileiro, mundial também, onde a gente está meio perdido, o que está acontecendo e tudo mais? As antenas disso daí são os escritores, são os artistas, todos os artistas de todas as linhas, eles são as antenas, por quê? Porque eles estão num contexto onde eles produzem assim, onde você sabe,   para a gente começar a produzir você sai do zero, então a gente vai para o zero logo, a gente quer ir logo para o zero, os artistas, inclusive, estão indo para um lugar que é o zero, agora, você precisa de uma sociedade que prestigie isso, a gente estava nos anos 60, nos anos 70, a gente tinha um público, os estudantes todos financiaram o teatro dos anos 70, os estudantes, eles lotavam os teatros, é isso que vai ter que acontecer.

Luciano             E hoje eles querem carteirinha para pagar meia para entrar de graça e etc. e tal.

Pascoal            Quem tem que sustentar o teatro, quem tem que ir para o teatro é o público, porque o público, se ele vai ao teatro, porque é o seguinte, as pessoas imaginam assim, você vai na peça, você vai ao teatro, tem que assistir,  você tem que assistir trinta peças para assistir uma que nunca mais vai permitir que você nunca saia do teatro, aquela peça maravilhosa é uma só, então você tem que assistir trinta para pegar essa uma.

Luciano             Aí a gente volta para aquilo que eu comentei com você no começo aqui, vamos lá para os anos 70, você pega um show como “Falso Brilhante”, da Elis Regina, que quando acontece, aquilo é um acontecimento que causa impacto na sociedade, mas o que era aquilo? Era um show, era um show de uma cantora, mas aquilo tinha um peso tão grande que quando acontecia, pega uma peça como “Roda Viva”, que é para usar um chavão, não precisa nem ir para ela, pega outras peças que aconteceram…

Pascoal            “Gota D’água” com a Bibi Ferreira…

Luciano             … sim e aquilo…

Pascoal            … “Macunaíma”…

Luciano             … aquilo tinha um poder, mas pegava um fragmento da sociedade que parece que diminuiu de tamanho, então hoje para conseguir um impacto de volume de gente eu boto Wesley Safadão, consigo botar 20 mil pessoas pagando uma nota preta para ver o cara e aquilo não vai mudar a vida de ninguém, nada, não vai ter nada lá que vai entrar uma minhoca aqui e falar eu acabei de ver a Elis Regina chorando no palco e para o resto da minha  vida, quando eu ver essa imagem eu vou chorar junto com ela, porque o impacto daquela  emoção foi tão grande que eu acabei somatizando isso, com esse outro lado cultural aí que parece que a gente criou uma sociedade que é para isso, esse consumo rápido e tudo mais, amanhã acaba e vem um outro novo no lugar e sorte deles, eles conseguiram fazer o que tem que ser feito no momento certo e estão ganhando milhões e que ganhem milhões, a questão toda é esse desbalanço todo que torna cada vez mais difícil, eu diria que hoje em dia o cara que tem um emprego no Banco do Brasil, não abre mais mão para virar artista. Não vai jogar aquilo para virar artista, vai pensar quinhentas vezes antes, não vai fazer a loucura que você fez.

Pascoal            É engraçado porque na época eu não sabia que era uma loucura, agora talvez eu não fizesse mais porque também acho que quando a gente vai ficando mais velho…

Luciano             Então façamos um exercício, como é o nome do seu pai?

Pascoal            José Vicente.

Luciano             José Vicente. Você hoje está incorporado em José Vicente, seu filho de 33 anos tem uma carreira há 10 anos no Banco do Brasil, chega para você e fala pai, vou largar isso aqui e vou virar ator. O que é que você diz para ele sabendo de tudo que você sabe?

Pascoal            Demorou. Demorou cara. Falo vá agora, velho.

Luciano             Passando todo o perrengue que você passou.

Pascoal            Essa vida é a melhor vida que eu podia viver para a minha vida, eu ganhei uma vida, eu sou um ser humano, eu ganhei uma vida, eu peguei essa vida, eu dei para ela coisas boas, eu soube agradecer a ela, aliás eu soube o seguinte, demorei demais par agradecer essa vida, agradece essas possibilidades que eu tenho, demorei demais  para dar de volta para ela, muito, demorei muito, devia ter dado… nossa, demorei demais. Se tem alguma coisa que eu sinto em relação à vida foi muito demorado, mas foi na hora certa também, faria tudo mas faria mais, o dobro, dez vezes mais, tem uma coisa contra a qual eu me bato todo dia mesmo, realmente, é duro porque assim, eu li bastante o Castanheda  e o Castanheda fala o seguinte, a primeira coisa que você tem na vida é o desejo, você já nasce com o desejo, a  vontade de fazer as coisas e imediatamente o desejo, o primeiro inimigo que ele tem pela frente é o medo, porque vem o desejo e o medo se coloca como se dissesse, mas como assim? Você tem condições? Você sabe o que fazer? Mas você vai ganhando, você de repente você vence o medo e depois que você vence o medo você fala puxa, eu posso vencer o medo, mas imediatamente você ganha o poder, aí quando você ganha o poder você fala, eu posso vencer o medo, eu tenho poder, mas o poder passa a ser o seu novo inimigo, porque no caso do poder, você deixa de saber que o poder é uma coisa transitória, que não existe uma pessoa que ficou com o poder o tempo todo, ele passou pelas mãos e o poder, quando ele chega na sua mão, na verdade ele chega porque a humanidade necessita, os humanos necessitam que o poder seja dado para um, para outro para a gente poder avançar nas coisas, então o poder passa para você, não para você ficar com ele guardado, levar para a casa e guardar, é uma coisa que a humanidade precisa, se você guardar e levar ele pra casa ele desaparece que nem gelo, você guarda, o poder desaparece, aquilo que você pode fazer, tem que fazer naquela hora ai você, de repente você descobre, tudo bem, o poder não fica, dali a pouco você chega no seu, você sabe que o poder é isso mesmo, transitório, tranquilo e tudo mais, então você não tem o teu ego para defender, você já tem uma sabedoria, você sabe que vai mais ou menos, depois você chega na velhice, chega o teu último inimigo que é a velhice, mas a velhice é o seguinte, não é um inimigo que você destrói, é um inimigo que você tem que conviver com ele, você vai viver com ela, é o último inimigo que você enfrenta.

Luciano             E viver com um fantasma terrível que é aquele de você olhar para trás e falar meu, que merda eu fiz…

Pascoal            Exatamente.

Luciano             … ou então você olhar para trás e falar meu, eu faria tudo duas vezes de novo…

Pascoal            E você vai conviver com aquilo, você vai conviver amorosamente com aquilo.

Luciano             … sim e não tem como voltar atrás.

Pascoal            Por exemplo, digamos, não sei quem está ouvindo o programa, mas o cara fala assim pô, eu tenho 80 anos, não dá para fazer, 80 anos já é hora de começar tudo, tem gente que não… imagina, você vai assim, teve um que nunca começou, você que começou com os 80 pô, por favor, inclusive vai ser bonito, vai ser maravilhoso, não tem hora para começar, eu faço personagem de teatro, os personagens de teatro são o seguinte, meu, qualquer um, qualquer pessoa, todos os personagens são interessantes, todos, o teatro, ele tem uma coisa bonita, tem grandes autores, o ator fala isso, porque o teatro é o seguinte, no teatro a vida tem que ser defendida, o direito de viver tem que ser defendido, então quando você faz um personagem, seja ele qual for, você tem que dar o direto de ele vir para fora e como ator eu sou obrigado a exercer uma espécie de uma liberdade com a criação do meu personagem muito grande, eu tenho que permitir que ele viva através de mim, permitir e às vezes eu não quero, às vezes tem alguma coisa que eu não quero ou tenho preguiça, ou que diabo for, mas não importa, eu tenho que encontrar portas para que esse personagem possa viver através de mim, é como uma vida, ela merece viver, eu acho que como falei muito dessas coisas do ser humano, eu acho que um dos nossos trabalhos profundos e difíceis de fazer, é a defesa da vida, é defender que a vida viva, mesmo depois de a gente, mesmo para daqui a 500 anos, não importa, é um trabalho difícil de fazer, imagina defender uma vida que vai viver daqui a 500 anos?

Luciano             Você está plantando essa árvore, quando ela der sombra você já não está mais por aqui.

Pascoal            Exatamente.

Luciano             Se eu pensasse assim eu não teria sombra nenhuma para sentar.

Pascoal            Não teria nada. Se a natureza não fosse tão generosa com a gente, desse tanta coisa, ia ser terrível, então quer dizer, a gente tem que… eu acho que tem gente que fala não, não vou defender nada, que se dane, mas não é isso, não dá para ser isso.

Luciano             Você está em cartaz onde?

Pascoal            Eu vou… aliás eu… daqui a pouco a gente vai fazer, estrear “Antígona”, uma peça grega, do Sófocles e escrita em 430 AC, mais ou menos e é a sabedoria, o pensamento grego, eu costumo dizer o seguinte, imagina, tem uma coisa no teatro grego e todo teatro também tem, que é o seguinte: o teatro grego era feito… não tinha escola de teatro na época do teatro grego, é o teatro que ficou para a gente, o que a gente ouve falar do teatro grego, esse teatro maravilhoso que ficou, ele foi feito por pessoas, normalmente era na época que faltava emprego, não tinha emprego, então pegava muita gente desempregada para fazer, os atores, por exemplo, o Aristóteles escreveu a “Arte Poética” ele escreveu porque ele viu uma peça, ele viu “Édipo” representada por um ator e o “Édipo” todo mundo conhece, o que é essa peça? Lembra aquela coisa da esfinge? A esfinge devorava as pessoas, o que é que de manhã tem quatro patas, ao meio dia tem duas, a tarde tem três e a noite não tem nenhuma pata? O Édipo diz é o homem, porque de manhã ele é um bebê, ele anda de quatro pernas, ao meio dia ele está nas duas pernas, aí depois ele fica velho, ele tem as três e aí depois quando ele morre não tem nenhuma, ele diz isso na peça do Sófocles, mas eu fiquei pensando, falei caramba, essa peça o Aristóteles viu e ficou impressionado com a peça, ele escreveu “A Poética”, Aristóteles foi o preceptor do Alexandre, é o homem que dominou o mundo, o Alexandre o grande, ele foi o cara que foi o professor do Alexandre, ele ficou impressionado com um ator fazendo uma peça na frente dele, como que esse ator fez esse Édipo? Como que ele foi? E era um ator… como que o Sófocles fez a seleção de elenco? E ai o Sófocles, eu acho que o Sófocles fez a seguinte seleção de elenco, chamou vários atores para fazer o Édipo, esse aqui fez, fala bem e tudo mais, mas a pergunta chave era a seguinte, era a pergunta da Esfinge, o que tem quatro patas, o que tem duas, três e nenhuma? O ator que respondeu é o ator? Sófocles falou: você vai fazer o papel. Por quê? Porque ele pensava teatralmente, ele resolvia os problemas da peça, não como um filósofo, não como um psicólogo, ele resolvia como um ator, tudo o que era problema da peça ele passava para linguagem, como se fosse um marceneiro que resolve os problemas a partir do ponto de vista da madeira, não do ponto de vista do, sei lá, do que quer que seja, entendeu? Então ele tinha uma inteligência teatral, a serviço daquilo que ele estava fazendo, eu acredito o seguinte, que quando você tiver fazendo alguma coisa, você tem que colocar naquela coisa a inteligência daquilo que você está fazendo, pensar do ponto de vista daquilo que você está fazendo, se eu faço teatro, eu tenho que pensar do ponto de vista do teatro. Outro dia a gente estava lá no teatro aí a menina falou o seguinte, olha a gente está fazendo teatro e ele é grande, atualmente eles alugam às vezes algumas salas para outros trabalhos, a gente podia alugar uma dessas… porque a gente ganhava algum dinheiro, falei se a gente fosse pensar para ganhar dinheiro alugando as salas do teatro, a gente não faz teatro, a gente tem que pensar do ponto de vista do teatro, o que a gente pode fazer, porque essa solução que você está dando é uma solução até cômoda, porque realmente pode até nos dar uma grana e a gente pode fazer as coisas…

Luciano             E não é teatro.

Pascoal            … só que não resulta em mais teatro, ela resulta, você aluga, claro vou abrir uma pizzaria, vamos ganhar mais dinheiro fazendo pizza, mas a gente quer fazer teatro, então o teu pensamento, falei para ela, isso que eu estava dizendo para ela, o teu pensamento tem que ser como se fosse o teatro, o que você quer fazer, você como arte, dentro daquilo, teu pensamento tem que ser aquele negócio, eu diria a mesma coisa você, por exemplo, não  dá para você pensar como… você tem que pensar do ponto de vista da tua produção, do teu podcast, se você pensar do ponto de vista dele, o que ele quer? Não é o que você quer, porque você é o veículo do que ele está querendo, ele está querendo mais espaço? Ele está querendo, pode ser que ele queira mais espaço, pode ser que ele queira mais coisas, pode ser que ele queira ser falado em inglês, o que ele tá querendo? Aí você tem que dar isso para ele, vai te exigir mais evidentemente, óbvio, vai te exigir mais, vai ser mais complicado, mas se você pensar do ponto de vista dele, você acaba vendo que os problemas que aparecem são problemas de natureza daquela coisa que você está fazendo, por exemplo, você trabalha com madeira aparece cupim, claro, óbvio. É importante você pensar do ponto de vista da arte que você faz. O Stanislavsky que é um papa do teatro, ele fala, não é a arte em você, quer dizer, o que a arte produz em você, é o que você pode produzir para a arte, ele fala assim, quando o ator vai para a cena, quem está indo para a cena não é você, é o teatro que está indo para a cena, mas se você for só você, você tem que ser o teatro, o público tem que olhar e falar assim, quem está em cena não é o ator, tanto que os atores que fizeram a tragédia grega, não ficou nenhum nome, só tem um nome, o Téspis, mas não ficou nenhum nome, o nome desse ator que fez essa peça do Aristóteles não ficou, Sófocles é um nome, esse nome não ficou, mas é porque não importa, claro a gente pode até dizer… mas não importa, porque se a arte estiver lá na presença, se você estiver na presença da arte, você fala pronto, por exemplo, muito mais do que, às vezes, você é um cara de música e tudo mais, muito mais do que tudo, é a música que o cara produziu, tem o cara, o nome dele,  não sei o quê, mas muitas vezes a gente nem sabe quem produziu, por exemplo, eu ouço, eu gosto muito dessa música: “eu não quero ser o mocotó…” eu falei ela chegou para mim, eu não sei quem fez, quem canta e nem nada, mas ela chegou muito antes do que quem fez, ela chegou muito antes, ela me tomou antes, muito antes, porque é a música, claro, depois eu vou para quem fez, pode até fazer um livro sobre quem fez, eu mesmo, nosso contato mesmo, você não era você, agora estou vendo quem é você, mas o nosso contato não chegou através de você, da sua criatura, de você…

Luciano             Chegou pela obra, é a obra.

Pascoal            … um cara que mora ali não sei aonde…

Luciano             É a obra.

Pascoal            … é a tua obra, é com ela que eu converso, então quando eu mostro uma peça de teatro para uma pessoa, a pessoa não conversa comigo como Pascoal, conversa com a obra, coma produção e você também por sua vez, para resolver os problemas que aquilo te apresenta, você tem que pensar como se fosse aquilo, é importante que você faça isso, não dá para pensar, quer dizer, se você quiser pensar como empresário, talvez se você for um empresário.

Luciano             E voltando para aquilo que a gente comentou aqui no começo, quer dizer, no momento em que você tem que dar uma ênfase ou resolver uma questão qualquer lá no Castelo Rá Tim Bum, com o professor Pompeu…

Pascoal            Pompilho Pomposo.

Luciano             … você tem que pensar como se fosse Pompilho Pompeu, não é o Pascoal, como é que  o Pascoal vai resolver isso aqui, não, é como é que o Pompeu Pompilho resolveria, no momento em que eu entendi qual é a dele é ele que passa a ser o decisor, não é mais você.

Pascoal            E eu acho que isso está ligado a uma coisa da doação como eu falei no começo, quer dizer, se você tem essa coisa da doação, você tem que se entregar, você tem que doar uma coisa sua para aquilo.

Luciano             Olha meu amigo, isso aqui é um programa sobre liderança e empreendedorismo, eu espero sinceramente que as pessoas que estão nos ouvindo aqui consigam abstrair o que nós estamos falando aqui para trazer para o dia a dia deles aqui, então você que está no busão indo trabalhar aí, com o saco cheio, duas horas no busão, vai chegar lá para fazer aquele trabalho que não é o melhor do mundo, que você está pensando em sair um belo dia, pega isso que nós estamos conversando aqui e abstrai para esse teu dia a dia, como é que essas coisas podem refletir, acho que tem uma porrada de insights aí, uma porrada de lições aí. Como é que a gente te acha?

Pascoal            Olha, eu tenho…

Luciano             Você está no Facebook, como é que você está lá?

Pascoal            … eu não fui como você assim que desenvolveu todo esse lugar da rede social, mas eu estou no Facebook, me acha, não tenho páginas, essas coisas, tenho até vontade de ter essas coisas todas, agora que eu estou começando a sacar melhor, porque você faz  uma coisa interessante, só para terminar, porque quando vem uma coisa nova, como é a internet, ela é muito nova, a minha primeira reação foi ser contra ela, então não peguei celular, não quis saber de computador, não sei o que lá, essa massificação, não quis, não quis, reagi ao contrário, mas eu vejo, eu falo pô, para eu conversar com todo mundo, para eu poder estar, praticamente eu tenho que fazer, isso é importante estar fazendo isso porque a gente tem que falar com o público, conversar com o público e tudo mais…

Luciano             Usar a teu favor.

Pascoal            … usar a teu favor e claro, deve ter coisas ruins, deve ter aquelas coisas que criam dificuldade, claro que tem, mas tudo tem, me lembro quando era pequeno, você falou de gibi, lá em casa meu pai falava gibi aqui não entra de jeito nenhum, para ler gibi eu lia escondido na casa da minha vó, era proibido, mas hoje em dia…

Luciano             Eu passei por isso, eu cheguei a comprar gibi escondido porque era coisa do mal, gibi era coisa do mal na época lá. Mas quem quiser te encontrar então como é que faz? Vamos lá.

Pascoal            Me encontra no Facebook…

Luciano             Mas bota o que lá, Pascoal o quê?

Pascoal            Pascoal da Conceição.

Luciano             Pascoal da Conceição vai achar lá. Você não tem um blog, você não fez nada ainda desse tipo?

Pascoal            Não tenho blog.

Luciano             Pascoal, bote o seu blog, você tinha um diário quando era moleque? Você fazia um diário?

Pascoal            Tinha

Luciano             Volte com teu diário como forma de blog, que é o seguinte, não pode ser encheção de saco, tem que ser curtição, você vai abrir uma página, você vai abrir um blog, tem milhares, você não precisa pagar nada, você vai simplesmente criar uma página tua lá, onde você vai botar tuas reflexões, vai chegar em casa hoje a noite, vai sentar ali, tomou o seu banho e vai falar, hoje a tarde eu gravei um programa muito legal com um cara chamado Luciano Pires, chamado LíderCast, ele me levantou umas coisas, eu falei um negócio foi muito legal, teve um momento que nós falamos isso aqui, a gente comentou e eu fiquei com aquilo na cabeça. Fim. Esse é o teu post, não tem mais nada que isso. Amanhã você vem, pô eu lembrei de outra coisa, ontem aconteceu mais isso aqui, depois de amanhã, fui na feira e a dona Maria foi me vender a banana… É só isso e aquilo é o teu diário onde você vai começar a pegar o gosto por contar como é que você vê o mundo e aí você vai descobrir rapidamente que se você falar o seguinte se eu começar aqui a contar minhas histórias do Castelo Rá Tim Bum, eu tenho imediatamente um público gigantesco que está sedento para entender o que acontecia lá e você vai falar vou fazer o diário da gravação aqui, a gente chegou um dia, aconteceu tal coisa, aconteceu isso, aquilo lá. E aí você está fazendo, você está cometendo um ato de generosidade, entendeu? Que é pegar um universo ao qual minha filha não tem acesso e que ela adoraria saber e você colocar ali para as pessoas é poder compartilhar disso aí e o dia que você se for, a memória está lá, sabe aquele livro que você quer um dia escrever? Ele vai sair sem você perceber, esse teu blogzinho com postzinhos diários, daqui a dois anos é um livro, só não está em formato de livro, mas ele está lá, quem mergulhar ali vai falar cara, estou vendo o mundo pelos olhos do Pascoal, estou vendo o mundo pelos olhos do doutor Pimpolho, estou vendo coisas que eu não sabia que eram assim, ele está me contando como é que era aquilo lá, você está com esse conhecimento na tua cabeça e tem na mão a ferramenta gratuita para fazer, por favor faça para nós, a gente quer muito isso ai.

Pascoal            Vou fazer. Então vocês acessem aqui com o Luciano, que ele abriu essa possibilidade, dentro de mais alguns dias acessem lá meu blog.

Luciano             Quem quiser entrar em contato, te achar, você tem um e-mail para te mandar um e-mail, alguma coisa assim?

Pascoal            [email protected]

Luciano             [email protected] se quiser contratar,  etc e tal é nesse e-mail que vai te achar.

Pascoal            Exatamente. Se quiser contratar, falar… Engraçado porque você levantou uma outra coisa, agora que eu estou ficando mais velho, eu não sabia que eu estava construindo a minha história, eu fui fazendo a minha história, essas coisas todas, essas coisas viraram a minha história, mas eu, de certa maneira, eu sabia um pouquinho porque eu fiz várias opções nessa história, porque eu melhorava essa história, tinha acontecimentos que eu melhorei, por exemplo, eu não saí do Banco do Brasil de qualquer jeito, vou sair, vou fazer de um jeito legal, para que a história não ficasse.. eu não sabia que eu estava escrevendo essa história. Inclusive agora me chamam ás vezes para fazer palestra sobre o que me aconteceu, pô, quer que eu faça palestra sobre mim? Eu tenho feito ás vezes, eventualmente me chamam para fazer uma palestra sobre mim, sobre o que eu estou fazendo falei, mas como assim? É, faz uma palestra sobre você, falei pô, mas eu posso fazer isso? Pode, é possível, mas é porque você escreve a sua biografia, lentamente. Você mesmo, você tem a sua vida, ela foi escrevendo, eu falo isso para os atores meus amigos, falo assim, eu falei no começo do programa, meu nome artístico é Pascoal da Conceição, esse nome artístico, Pascoal da Conceição, é o nome que eu estou construindo, na sua integridade, na sua humanidade, na sua decência, nos papeis que eu escolho, o que eu vou fazer, fiz o Castelo Rá Tim Bum, fiz Mário de Andrade, fiz coisas assim, coisas erradas, coisas certas, mas é esse papel que eu estou construindo e é o meu nome, engraçado isso.

Luciano             Pensa que ele está todo fragmentado, ele está esparramado por aí e se minha filha quiser saber ela não sabe onde procurar, ela não vai achar num lugar só. Eu vou terminar aqui com uma fala do Cássio Barbosa, eu fiz aqui um LíderCast com ele, ele editor, ele termina o programa dizendo o seguinte: o maior tesouro do mundo é o livro que não foi escrito, é a história que não  foi contada, é a música que não foi composta e quando você morreu aquilo foi embora com você, isso ficou escondido. Meu amigo, muito obrigado, valeu, grande papo.

Pascoal            Eu vim aqui mais para aprender, Luciano, aprendi muito.

Luciano             Você está é ensinando a gente, e por favor, despeça-se como o professor aqui.

Pascoal            Meus amigos já dizia: “No mundo a fortuna é para quem sabe adquiri-la. Pintam-na cega… Que simplicidade! Cego é aquele que não tem inteligência para vê-la e a alcançar. Mas um dia pode tudo mudar. Oh, que temo eu? Se em algum tempo tiver que responder pelos meus atos, o ouro justificar-me-á e serei limpo de culpa. As leis criminais fizeram-se para os pobres” Este é um texto de Luis Carlos de Martins Pena, escrito no Brasil em 1841. E não tem nada a ver com o que eu vim fazer aqui, porque aqui eu vim dizer que um dia o castelo será meu.

Transcrição: Mari Camargo