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Ciça Camargo -

00Luciano         Muito bem, mais um LíderCast. Esse aqui foi assim ó: o sujeito manda para mim um e-mail, pô Luciano, foi e-mail, foi mensagem, eu não me lembro mais como é que foi, meu nome é Saulo, executivo, sai da empresa, estou fazendo palestra e sou ultra maratonista. Aí já acende uma luzinha porque o cara para ser ultramaratonista tem que ser muito louco, tem que ser muito doido. Eu falei eu preciso conversar com esse cara, vem aqui, vamos trocar uma ideia e a ideia é agora. descobrir que é que faz um maluco acordar de manhã, pensando em fazer uma ultramaratona naquele dia, vocês vão saber até o que é ultramaratona. Três perguntas fundamentais na largada no programa, preciso saber seu nome sua idade e o que é que você faz?

Saulo             Bom, meu nome é Saulo, eu tenho 44 anos, eu trabalhei por muitos anos numa indústria automobilística e paralelo a isso eu corria, corria na rua, então só por uma questão de conceito, maratona são 42 quilômetros, ultramaratona é quem corre acima de 42 quilômetros, eu já cheguei aos 89 quilômetros, então hoje a minha apresentação é: eu sou ultramaratonista, eu sou palestrante, eu fui um executivo e sou colunista de um jornal importante de Minas Gerais.

Luciano         Todo palestrante tem no mínimo dois nomes, você só falou Saulo, é Saulo o quê?

Saulo             Saulo Arruda.

Luciano         Muito bem.

Saulo             Eu sempre usei Saulo Arruda.

Luciano         Muito bem. Esse aqui é o grande Saulo Arruda. Você nasceu onde Saulo?

Saulo             Nasci em Belo Horizonte.

Luciano         Belzonte?

Saulo             Belo Horizonte.

Luciano         Mineiro de Belzonte. Mora lá até hoje?

Saulo             Moro, moro em Belo Horizonte até hoje.

Luciano         Você trabalhou na Fiat?

Saulo             Na Fiat.

Luciano         Vamos pegar tua origem lá, o que seu pai e sua mãe faziam? O que eles eram?

Saulo             Bom, os meus pais vieram do interior do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, se mudaram para Belo Horizonte…

Luciano         De onde? Interior de onde?

Saulo             Interior … Tocantins que é interior de Minas Gerais e Volta Redonda, que é interior do Rio de Janeiro. Eles se mudaram pra Belo Horizonte e quando criança era o meu sonho em trabalhar numa indústria automobilística que nascia em Belo Horizonte, Betim.

Luciano         Nada menos do que Fiat.

Saulo             Então eu entrei naquela indústria como auxiliar técnico, ainda na parte de peças, bem inicialmente e ali sempre muito determinado, fui seguindo a minha carreira até me tornar um executivo na empresa.

Luciano         Você se formou em quê?

Saulo             Eu formei em administração, fiz boa parte da engenharia mecânica,  mas me formei em administração.

Luciano         Quanto tempo você ficou na Fiat?

Saulo             Eu fiquei na Fiat 23 anos.

Luciano         É uma vida.

Saulo             Uma vida.

Luciano         Eu fiquei 26 na Dana, é uma vida, baita escola. E aquilo foi teu primeiro emprego?

Saulo             Eu tive um emprego pequeno em concessionária Fiat e depois pra indústria, então foi praticamente o meu único grande emprego de formação, digamos assim.

Luciano         23 anos de comédia corporativa, não é isso?

Saulo             É isso aí.

Luciano         Quando é que você saiu de lá?

Saulo             Ano passado, 2016.

Luciano         Então tá tudo fresquinho aqui.

Saulo             Isso, meados de 2016.

Luciano         Então vamos lá a gente, antes de entrar na questão da maratona eu quero só especular um pouquinho mais com você aqui. O que te levou a sair da empresa? O que é que foi?

Saulo             Bom, na empresa eu sempre consegui conquistar os meus objetivos, até que chegou um ponto em que eu estava ficando mais em São Paulo do que em Belo Horizonte, até por causa do crescimento da empresa, a empresa, ela naturalmente passou por mudanças e nesse momento acabou ficando um pouco diferente a forma que eu pensava da forma que a empresa pensa, então com isso aumentou o meu desejo de seguir algo que eu sempre gostei, que é inspirar pessoas, então digamos que eu já fazia algumas palestras enquanto estava na Fiat, esse certo desalinhamento profissional acabou aumentando esse desejo de seguir uma carreira solo, você também atinge uma maturidade, os filhos crescem, então acaba que você começa o desejo de se desafiar.

Luciano         Que idade você tinha lá? Foi no ano passado?

Saulo             Foi ano passado

Luciano         Você estava com, quarenta e?

Saulo             44

Luciano         44.

Saulo             Ainda estou com 44.

Luciano         Você tem filhos?

Saulo             Eu tenho um filho de 20 e um filho de 10, o meu filho de 20, ele faz faculdade perto de Chicago, em Bellevue, é o principal atacante da universidade, então ele está bastante envolvido com a vida dele lá, então é uma inspiração pra mim e tem o pequeno, de 10 anos que mora conosco, comigo e com a minha esposa.

Luciano         Muito bem, o filho de 10 anos, 44 anos, já não é um moleque, 44 é uma idade… 23 anos de empresa e chega o momento que se incomoda e resolve que vai sair daquela coisa tão segura, onde você está tranquilo, está lá levando, todo mundo te conhece, pra mergulhar numa coisa absolutamente obscura que é esse mundo do empreendedorismo, não é? Quanto tempo levou para você pular da ponte?

Saulo                   Eu acredito que com os meus 42 anos, eu comecei a ficar inquieto, não é isso que eu quero para mim, eu quero ser uma pessoa que possa marcar mais, eu quero ser uma pessoa que possa contribuir mais para o mundo, então aquilo começou a incomodar, os 42 anos, eu comecei a vislumbrar uma possibilidade de fazer algo diferente.

Luciano         Mas nesse Brasil maluco, as coisas estão um horror, ano passado a gente já estava numa crise desgraçada, não tem emprego aí fora, monte de gente desempregada, você com 44 anos já é um velho para mercado de trabalho e como é que chuta isso para o alto, tem que ser muito louco pra fazer uma loucura dessa com essa idade.

Saulo             Olha eu penso que coragem é agir apropriadamente quando se tem medo. Então é óbvio que eu tenho medo, mas também é óbvio que eu me preparei financeiramente para não ficar tanto tempo correndo o risco.

Luciano         Quanto tempo?

Saulo             Até uns três, quatro anos eu acredito que eu posso correr risco, pensei num possível plano C caso o plano B não dê certo, mas eu estou muito convencido, convicto de que eu preciso seguir esse caminho. É como se eu entendesse que eu tenho uma vocação que é de inspirar as pessoas, provocar as pessoas, contribuir para o mundo, eu sinto que eu tenho uma convocação pra isso, eu me sinto convidado a me desafiar e estou convicto desse caminho, então eu me dei o direito de arriscar, eu nunca fui uma pessoa de correr grandes riscos, é obvio que nesses últimos dois anos eu fui me preparando pra agir apropriadamente quando se tem medo e agora eu estou agindo com coragem e vencendo os medos.

Luciano         Como é que a família reagiu quando você disse que ia deixar a segurança do executivo da multinacional para mergulhar nesse mundo incerto aí? Tua mulher, como é que ela reagiu?

Saulo             Olha eu tenho uma família fantástica, meu filho é um grande empreendedor, meu filho está nos EUA porque aos 17 anos ele falou assim: pai, eu quero trancar a matrícula na faculdade, quero que você me arrume alguém para fazer uns vídeos meus jogando bola, quero te pedir para ficar em casa estudando inglês, mandar os vídeos para as universidades nos EUA e de repente alguém me quer. Nós mandamos os vídeos para 120 universidades, 12 quiseram meu filho e hoje ele está numa universidade que lhe proporciona uma bolsa e ele joga, então ele foi uma inspiração para mim. Quanto à minha esposa, ela está do meu lado para o que der e vier, nesses últimos dois anos conversamos muito sobre isso e hoje sentimos os medos e a coragem juntos, então estamos aqui de passagem e acreditamos que podemos correr esse risco por enquanto.

Luciano         Eu escrevi um texto há um tempo, eu não me lembro, acho até que está no meu livro, “Diário de um Líder”, quando eu desenvolvi o conceito que eu chamo da armadura emocional, o pessoal quando me pergunta vem cá, pô, estou de saco cheio com a empresa, vou sair, vou montar meu próprio negócio, que que eu devo fazer? Eu falo a primeira coisa que você tem que fazer é desenvolver tua armadura emocional. E o que é armadura emocional? É aquela coisa que vai te proteger no momento em que você descobrir que você não é mais o Saulo da Fiat, agora você é o Saulo, o mané que ninguém sabe quem é, que vai ficar sentado lá esperando ser recebido, que vai mandar um e-mail, o cara não vai responder, vai telefonar, o cara não vai responder tua resposta, não vai ter ninguém puxando teu saco, não vai ter ninguém, nada, você é um Zé e isso para quem sai de um ambiente como a gente viveu é um choque, porque no dia seguinte eu não tenho mais cartão de visita, não sou mais nada e dói muito descobrir que você, de repente, não é mais nada lá. Por outro lado você também tem uma renda mensal fixa, você tem lá… você está numa bela empresa, tem benefício e tudo mais, teu telefone está lá, o carro e você vai perder tudo isso e não lembrou de fazer essa conta quando foi botar no papel o que ia ser a tua vida na sequência lá, você tendo que pagar o plano de saúde, isso é um choque que a tua família vai sentir porque o padrão de vida vai cair, etc. e tal, então dizia o seguinte: preparar essa armadura emocional para a hora que você se jogar, você poder receber essa porrada toda e não cair e não chegar em casa voltando puta, eu sou um merda, ninguém me quer, ninguém me ouve, não tenho grana para poder fazer aquela viagem, fala essa talvez seja a parte mais difícil, porque uma de você guardar dinheiro, se você tiver disciplina você guarda dinheiro para aguentar um pouco, mas a armadura emocional tem a ver com ego e etc. e tal. Você sentiu isso, você trabalhou isso? Você preparou essa armadura de alguma forma? Você sentiu essa pegada quando você deixou o cartão de visita lá e virou o Saulo mané?

Saulo             Bom, a frase: coragem é agir apropriadamente quando se tem medo, eu vi essa frase a primeira vez aos 42 anos e de lá para cá eu vim me preparando para isso. A minha primeira ultramaratona eu fiz ano passado, em abril, essa prova foi uma prova de 70 quilômetros, num lugar inóspito na Patagônia, essa para mim foi uma prova modelo onde eu sentiria tudo isso, eu era um maratonista que fazia 42 quilômetros, estava preparado, eu tinha força física mas eu seria solto num lugar ao sul do Chile e atravessaria uma selva até um outro lugar que é 70 quilômetros e nesse percurso nada me tiraria de lá, nem cavalo, nem helicóptero, eu poderia correr o risco de vida como teve gente que faleceu, aquilo foi para mim um grande teste de ser o Saulo, o mané. Ou eu chegava ou eu chegava, então aquilo ali eu faço um paralelo muito grande dessa ultramaratona, que foi a ultrafiorde com a minha saída da Fiat, então realmente nessa prova eu me lancei ao relento e superei, eu acredito que depois que eu saí da Fiat, tudo o que você falou aconteceu, tudo que você falou, eu já previa que aconteceria, é óbvio que eu sempre procurei mentores, como eu procurei você, Luciano, para poder entender um pouco mais do que que pessoas que passaram por que eu estou passando estão me dizendo, então tem dia que dá um baixo astral, mas na maioria das vezes eu digo: eu sabia, eu vou superar e é só um dia difícil. Acabei de fazer agora uma ultramaratona no Grand Canyon, de 80 quilômetros que começou com três graus e terminou com trinta e três, larguei dez minutos atrasado de todo mundo porque eu não cheguei a tempo, ou seja, isso é um desequilíbrio psicológico enorme, eu fiz uma prova de superação onde tinha 160 pessoas, eu passei 142 e cheguei ainda assim em décimo oitavo, então eu estou comentando isso por quê? Porque tudo o que eu vivo numa ultramaratona, vivemos na vida pessoal e profissional e tem sido um grande ensinamento para eu superar tudo isso que você falou e me encorajar a seguir os caminhos que eu tenho convicção sem ser teimoso, que eu tenho convicção.

Luciano         Vamos falar um pouco dessa questão da corrida aí que eu acho que tem uns paralelos que não dá para escapar. Você já praticava esporte físico, corrida, por quê? Porque curtia correr na rua, é isso?

Saulo             É, há 18 anos eu corro porque eu era gordinho, tive uma crise altíssima de pressão alta, o médico falou assim você precisa fazer uma atividade física, trabalhava na Fiat, na época eu viajava muito, eu precisava de um esporte que me acompanhasse, então a corrida foi o esporte que eu encontrei onde eu levaria para as cidades que eu fui e aí tomei gosto pela atividade e sempre gostei de me desafiar. Então comecei a fazer 10 quilômetros, 15, 21, enfim, eu fui participando de provas, já fiz mais de 70 provas e nunca abandonei. Em 2011 eu levei uma queda e caí de bunda no chão, machuquei a coluna, os médicos falaram que eu não podia correr mais e aí eu fui no primeiro médico, segundo médico, um terceiro médico,  ele falou assim olha, se você contrair bem o seu abdômen e segurar o disco que você perdeu na coluna, você pode daqui a dois anos voltar a correr. Eu fiz fisioterapia durante sete meses, essa fisioterapia fortaleceu o meu abdômen e a partir dali uma coisa que tinha sido ruim, foi um grande aprendizado, porque até aquela época eu não consegui correr mais do que 21, mas eu me fortaleci tanto, fisicamente e emocionalmente, na recuperação que 21 ficou pouco, então eu comecei a fazer 42, então aquilo ali junto à minha vida profissional serviu como exemplo que quando você tem um limite e algo difícil acontece e você supera, você sobe de degrau, aquilo já não  é  o mais difícil, então a partir dai eu comecei a enxergar que a corrida para mim era um grande estímulo para a minha vida profissional, muitas coisas superei e as promoções que eu conquistei, elas aconteceram especialmente após o volume que eu aumentei na corrida, por isso que eu falo, tanto o paralelo do esporte com a vida profissional.

Luciano         Que graça tem botar um tênis, sair de nenhum lugar e ir para lugar nenhum, correr durante 3, 4, 5 horas ou, no caso, uma ultramaratona…

Saulo             10 horas.

Luciano         … 10 horas para nada. Que graça tem nisso? Desculpa, eu estou fazendo a provocação ai, vai ter um monte de nego ouvindo, é uma provocação real como eu sempre faço aqui, qual é? Bota um tênis, não tem nada mais produtivo para você fazer? Vai fazer um muro, vai fazer uma casa, vai pregar madeira, vai sei lá o que, vai plantar mandioca em algum lugar, correr? Gastar energia de um lugar para o outro. Que graça tem?

Saulo             Olha eu digo que a última prova que eu fiz agora em maio, que foi no Grand Canyon, eu até acabei de postar um vídeo da prova, um documentário de 12 minutos no canal de Youtube, quando eu larguei para aquela prova 10 minutos atrasado até o momento que eu cheguei, 9 horas e 18 depois, em décimo oitavo lugar, tendo ultrapassado 140 pessoas, eu falei muitas coisas comigo mesmo e com a câmera, eu devo ter falado ao todo 45, 50 minutos, eu fiz um filtro disso e postei um vídeo de 12 minutos com uma série de lições que eu tirei durante aquela prova, que elas surgiram durante a corrida. E\ntão eu digo que uma ultramaratona hoje, para mim, é o momento de encontrar comigo mesmo, onde eu tiro lições para mim e certamente essas lições inspiram e provocam as pessoas, quem assiste o meu vídeo ou as minhas palestras, é como se a convocação que eu tenho é de me inspirar e inspirar as pessoas naquele momento que eu estou ali fazendo aquela loucura de correr 9 horas e 18, quando se  corre 9 horas e 18, eu carrego toda a minha comida no bolso, eu carrego tudo comigo e ali eu vou administrando tempo, vou administrando a minha capacidade física, vou lidando com a dor, vou trabalhando psicologicamente vencendo os meus desafios e acaba no final sendo um produto muito gratificante, é uma realização assim imensa.

Luciano         Eu te perguntei isso ai porque o que eu fazia de esforço físico quando eu ainda fazia esforço físico, depois eu dei uma parada grande. Eu adorava jogar bola, joguei bola durante muito tempo, eu jogava futebol de salão, eu era goleiro de futebol de salão, mas era assim aquele o insano que no dia do jogo, tivesse velório eu não ia porque eu ia jogar. A gente montou um time legal, quase disputei aí a segunda divisão do campeonato paulista, foi um negócio legal e era garotão e jogava que era uma coisa. Aí cresci, casei, diminuí um pouco, mas continuei jogando, eu morava em Alphaville e lá tinha um campo de futebol society legal, que era do Ado, ex goleiro da seleção de 70 e eu ia lá, de noite era o dia, terça feira à noite era o dia do jogo, eu ia lá jogar e me matava jogando, já com meus trinta e tantos e jogava que era uma delícia aquilo lá, até que um dia, era uma noite que estava frio e chovendo. Frio e chuva e eu jogando e o jogo queimando e frio e chuva e veio uma bola porque eu defendo a bola, de repente eu parei e pensei, que que eu estou fazendo aqui? Nunca mais eu botei meu pé num campo de futebol e aquilo era a minha paixão da minha vida e naquele momento na chuva, no frio, com trinta e tantos anos de idade, já com dor, não sei o quê, peguei a bola na mão e falei não tem o menor sentido isso aqui e parou, parou, nunca mais joguei bola, nunca mais voltei para o campo. A impressão que eu tive é que aquilo foi o momento de virada, sabe, quando uma coisa racional fala o que é isso? Está se jogando no chão, se arrebentando, tomando frio e chuva para correr atrás de uma bola? Vai fazer alguma coisa que preste da tua vida e para de perder tempo aqui. Eu nunca elaborei muito bem isso aí, mas me parece claro que ali foi o momento de virada na minha vida. Eu diria para você que eu fiz mal em não ter continuado alguma outra coisa, devia ter, olha, parei o futebol, vou continuar fazendo alguma outra coisa, depois fui para a academia, fui fazer montanhismo, etc. e tal, essas coisas foram indo até parar lá na frente, hoje eu estou no pior estágio físico da minha vida, nunca estive tão gordo, tão fora de forma, porque eu entreguei a minha… toda a minha energia, desde 2008 para cá, para montar o Café Brasil, o LíderCast, fazer essa coisa andar e acabei esquecendo o outro lado que é o lado físico que eu vou ter que retomar, quanto mais demora pior fica, é mais difícil, mas aquele foi um momento interessante que era o momento que fala, alguma hora esse Saulo vai parar, quando ele tiver assim nos 75 quilômetros de corrida, fudido, com dor em tudo, um dia ele vai parar e falar meu, o que eu estou fazendo aqui? E talvez dê nele essa hora de virada ou de imaginar que isso aqui não tem o menor sentido. Como é que você vê isso? Essa coisa que parece que é como quem adora chocolate Ben & Jerry’s, o sorvete Ben & Jerry’s de chocolate é uma coisa inigualável, eu comi tanto dele que eu não consigo mais comer, enjoei, demais, não aguento mais, não posso nem ver aquilo lá, não é isso que acontece? Será que você não está embevecido com essa história toda da corrida e uma hora dessa esse negócio vai cair na real, você vai falar deixa eu cuidar de fazer alguma coisa mais produtiva do que simplesmente curtir a injeção de adrenalina que me dá fazer uma corrida? Eu estou sendo bastante sarcástico aqui, tá?

Saulo             Não sei se isso vai acontecer, mas se a nossa vida é um gráfico, eu ainda estou naquela fase do crescimento. Hoje o estilo de vida que eu quero levar, ele se afasta muito mais do executivo e vai mais para o esporte e para a inspiração das pessoas. Eu quero fazer ano que vem Mont-Blanc-Chamonix, que é a copa do mundo das ultramaratonas de montanha, que são 101 quilômetros passando pela Suíça, Itália e mais um país, bom, eu ainda me sinto muito motivado a ir além, se lá na frente isso vai acontecer, para mim isso ainda é inacreditável que isso aconteça.

Luciano         Você sente falta de correr?

Saulo             Eu sinto falta de correr.

Luciano         Faz falta.

Saulo             Eu sinto falta de correr, eu já tenho a minha planilha que eu vou correr amanhã de manhã, então eu sinto falta de correr, faz parte da minha vida e eu te falo que nos meus últimos anos de vida profissional o meu melhor desempenho, meu melhor crescimento como executivo, como resultado, como líder de pessoas, foram inspirados especialmente pela corrida, porque quando você vai fazer uma ultramaratona de cinco meses, você tem que estruturar o massagista, a pessoa que vai fazer a sua planilha, o personal, o sono, os longões de fim de semana, administrar isso com a família para que a família não seja prejudicada e tudo isso é um grande ensinamento para que eu seja melhor, por isso que ainda eu não consigo enxergar que eu vou chegar num ponto em que a corrida vá me cansar, então por enquanto eu não vejo esse caminho.

Luciano         Como é que é esse planejamento para você, correr 42 já é uma paulada, 42 já é um desafio, quanto tem, no final ano a São Silvestre?

Saulo             15 quilômetros

Luciano         É por aí?

Saulo             É 15 quilômetros a São Silvestre.

Luciano         15 quilômetros, quer dizer, a gente olha aquilo e fala meu Deus do céu, 42 é 15 mais 15 e mais um chorinho, não é? É quase 15+15+15 não é?

Saulo             80 é uma vida.

Luciano         Pois é, 80.. e 101 então, eu já sei de cara que corre 150, tem uns malucos aí que fazem esse tipo de coisa. Quando você vai treinar para uma coisa desse nível, quer dizer, você não está preocupado com a tua velocidade, não é correr rápido…

Saulo             Não, não é correr rápido.

Luciano         É chegar?

Saulo             É chegar.

Luciano         O grande lance da maratona é chegar. Como é que é, você falou que você mexe aí, você tem que mexer… quer dizer, você tem que botar tua vida em função dessa prova?

Saulo             Não, não é. Vamos falar brevemente, quando eu decido fazer uma prova, cinco meses antes, se eu estava correndo três vezes por semana, eu passo a correr cinco vezes por semana, não mais do que uma hora por dia, essa corrida de uma hora por dia é de seis às sete da manhã, então não prejudica socialmente a família nem o trabalho. No sábado, ao longo desses cinco meses, uns três, quatro sábados você vai fazer um longo que vai variar de quatro horas até sete horas, o que que eu faço? Por exemplo, eu moro em Belo Horizonte, um longo que eu fiz de sete horas, eu saio do Buriti quatro horas da manhã, vou até o aeroporto de Cofins, chego lá, pego o ônibus que volta para o meu bairro e chego em casa meio dia, almoço com a família, então a corrida em si, ela não prejudica o seu dia a dia, o que você muda além disso? Você faz três dias na semana musculação, você tem que ter um personal que monta a sua ficha, filmam você fazendo exercício para que você possa repetir nos outros dias, então tem academia no meu prédio, eu faço lá, também não prejudica, além do que a minha esposa é uma atleta, meu filho é um atleta então eles compreendem isso mais. Alimentação é alimentação mais saudável possível, então eu não tenho uma dieta muito regrada, eu bebo cerveja, eu faço tudo normal, porém não abuso, mas eu como mais carboidrato, então isso é normal, de vinte em vinte dias eu faço uma massagem esportiva, que é para tirar os nódulos, é uma hora só a cada vinte dias, eu vou numa massagista que ela me ajuda, enfim, no dia a dia não compromete, só nos sábados que eu corro um pouco mais de horas, mas não prejudica o fim de semana e aí, como eu já sei quais são esses sábados, eu já consigo programar socialmente, numa sexta feira não sair, ou de repente trocar o treino de sábado para domingo ou para sexta a noite, então é completamente conciliável.

Luciano         E você disse que isso daí nasceu a partir de um estímulo, você teve um problema de coluna e resolver esse problema te deu a motivação para correr mais? Que é o contrário do que se escuta aí. Eu por exemplo, eu tive um descolamento de retina em 2006 e foi no olho esquerdo, foi um negócio complicado, eu descobri às 11 da manhã, 17 horas eu estava no hospital, fazendo uma baita cirurgia no olho, saí de lá o médico falou quinze dias você não vai sair de casa, vai parar de olhar para baixo e durante três, quatro, cinco meses você não vai levantar um livro do chão porque você não pode fazer esforço que isso é perigoso, bom eu fiquei prostrado lá durante, sei lá, quatro, cinco, seis meses, quando eu terminei que estava bom do olho, eu já estava seis quilos mais gordo, minha coluna que era uma merda aí foi de vez, nunca mais eu consegui voltar para uma academia porque se já era um saco fazer academia, fazer academia com dor é o saco ao cubo, não consegui mais vencer aquilo lá, daí foi piorando, então chegou num ponto em que o ano passado eu tive um problema num disco aqui…

Saulo             Hérnia de disco.

Luciano         … foi uma hérnia de disco, pegou minha perna esquerda, tive que fazer cirurgia, foi um negócio terrível, não botei placa nenhuma, só arrumou ali, etc e tal, mas tudo isso contribuiu para que me motivasse cada vez menos a fazer o esforço físico que eu sei que eu preciso, que se eu fizer eu vou melhorar, toda a lógica está colocada claramente para mim e é claro que para mim será muito bom se eu fizer isso tudo ai, eu tenho mais é que fazer porque se eu quiser preservar, etc. e tal. Eu sei disso tudo, racionalmente está lindo maravilhoso, mas eu não tenho nenhuma motivação para levantar daqui com dor nas costas e correr, andar na rua etc. e tal, então, você a chave funcionou ao contrário, o que foi uma encrenca te motivou, para mim o que foi uma encrenca só piorou, tem um problema de mindset aí.

Saulo             Olha só, se você vê o meu vídeo que eu fiz agora do Grand Canyon, no quilômetro 65 senti uma pequena dor no joelho que era nada mais, nada menos que a contração muscular que me impedia de correr, eu tinha que parar de vez em quando, alongar, apertar aquele nódulo, correr mais uns três,quatro quilômetros, doía de novo, eu alongava, enfim, no vídeo eu digo, a dor física ou psicológica, muitas vezes é a fraqueza saindo da gente, por isso que é o inverso, então imagina só, eu corria 21 quilômetros, caí, machuquei a coluna, disseram que não poderia correr mais, o médico diz que eu tinha uma chance, que eu tinha que me dedicar e fortalecer, no momento que eu faço sete meses de fisioterapia e me fortaleço e consigo correr mais. Eu te digo, a dor física e psicológica que eu passei era fraqueza saindo de mim, então a dor, a decepção, a frustração, eu quero que elas sempre me deixem mais forte, toda vez que eu me frustrar e falar assim olha, Saulo você está indo por um caminho muito difícil, sem ser teimoso, não vamos exagerar, tem coisa que é teimosia, eu quero sempre sair mais forte lá na frente, sempre escutando os conselhos, sempre escutando a experiência de quem sabe mais para não ser teimoso, mas sendo persistente, então a dor, muitas vezes é a fraqueza saindo da gente, se a gente inverte esse mindset, você pode se tornar mais forte.

Luciano         Eu vou tentar aplicar isso aí, vamos ver se eu consigo, eu tenho vinte quilos para tirar, não tem sido fácil não. Vamos falar um pouquinho dessa coisa do paralelo do nosso dia a dia no trabalho com essa coisa que você conseguiu juntar duas coisas interessantes, que é a coisa do esporte e ao desafio do trabalho da gente. Se de um lado você tem uma demanda intelectual intensa, porque o trabalho da gente, como executivo numa grande empresa, a tua demanda intelectual, você está o dia inteiro sendo obrigado a tomar decisões, todas elas tentando se adequar ao que a empresa quer, o teu objetivo no final é que a empresa não perca dinheiro, você quer agregar valor, é uma demanda intensa intelectual; no esporte você vai ter uma demanda que talvez o intelecto esteja na preparação e tudo mais, a hora que você entra na corrida a tua demanda é física, então muda completamente, eu tenho dois tipos de demanda e as decisões que você toma numa corrida têm a ver com eu conseguir continuar correndo, continuar preservando meu corpo para ter a capacidade de chegar lá no final. Como é que a tua experiência como executivo ajudou na experiência como maratonista? Agora estou invertendo o jogo, não quero saber como o maratonista ajuda o executivo, quero saber como o executivo se espelha e ajuda o maratonista.

Saulo             Olha, uma das atividades que eu tinha lá na Fiat, era gerenciar a parte de TV corporativa, muitas vezes um diretor de uma outra área precisava que uma demanda fosse pela TV para a rede de concessionárias e ali, da noite para o dia eu precisava criar um texto para comunicar com a rede de forma breve, mas engajadora e no dia a dia do trabalho eu não conseguia fazer aquilo porque eu estava preso a esse stress que você falou, então o que eu estabelecia para mim? Bom, amanhã vou sair para correr, é um treino de uma hora, vai ser uma rodagem tranquila, eu vou pensar numa saída para isso, por muitas vezes eu começava a treinar pensando naquele assunto, como eu estava correndo sem compromisso, entre aspas, eu pegava o telefone, gravava o discurso que eu achava adequado para aquele tema e certamente aquele era o melhor texto que eu encontrava para ir para a TV, eu só pegava aquela gravação, entregava para minha colega que redigia, eu te falo que as melhores soluções de falar com o público da rede foram criados no momento de distração da corrida, ou seja, a corrida por muitas vezes, ela serve como um catalisador do que eu não  conseguia fazer na rotina diária do trabalho em função da pressão, dos números e das reuniões e das interrupções, dos telefones que tocam, então uma corrida, por muitas vezes, ela ajudou na vida profissional.

Luciano         É, só que essa tua resposta  é o contrário do que eu perguntei, você está me dizendo como a corrida ajudou no executivo, eu quero saber o contrário, que é o que ninguém pergunta, como é que o executivo ajudou o maratonista.

Saulo             Ah sim…

Luciano         É o inverso.

Saulo             Então a questão do planejamento, quando eu faço que a minha ultramaratona começa cinco meses depois, todo planejamento que eu peço, o meu consultor de corridas que ele monte o planejamento dos treinamentos do sábado para conciliar com a família, que eu agende as massagens de vinte em vinte dias, todo esse planejamento de uma ultramaratona, eu aprendi com a vida profissional e durante a corrida, toda aquela estratégia de lidar com a pressão, de se superar, de encontrar alternativas rapidamente, foi o mundo corporativo que ensinou para o atleta, então é por isso que eu falo que os dois se ajudam, o meu papel como líder de pessoas, de conciliar ideias, de construir estratégias no mundo corporativo que hoje desenha a minha estratégia, tanto de treinamento quanto de alimentação, quanto de execução de uma ultramaratona. O mesmo software que eu uso para construir uma estratégia no mundo profissional, corporativo, eu uso para fazer a minha ultramaratona. Então é o mesmo software mesmo, é o mesmo.

Luciano         E você está ligado a algum grupo, você está dentro de um grupo de maratonistas ou você corre sozinho?

Saulo             Não, eu corro com a Run&Fun, que é maior assessoria esportiva de São Paulo, que tem uma filial em Belo Horizonte, eu corro com eles há seis anos, eles são as pessoas que mais contribuem para o meu resultado.

Luciano         Uma vez eu estive com um pessoal de corrida, eu cheguei lá, fui fazer uma aula teste, alguma coisa assim, cheguei lá o cara me botou a correia, aquela coisa toda lá e foi uma coisa interessante porque em algum momento o cara falou nós vamos te ensinar a correr. Aí você porra, como ensinar a correr, todo mundo sabe correr, eu também sei correr e aí o cara dá uma corridinha, eu vejo que ele começa a anotar e dizer coisas lá que você fala mas como assim? Não, tua postura está errada, tua pisada está errada, teu passo… estava tudo errado e eu não sabia correr, ali eu vi que eu realmente não sabia correr. É real isso? Existe isso? Esses caras vão te ensinar, você teve que aprender a correr?

Saulo             Olha é real, eu não acredito que as pessoas te ensinem, eu acredito que as pessoas te dão um feedback se você deve colocar o calcanhar ou a ponta do pé, a sua passada, a sua elevação de joelho, a sua elevação de calcanhar, eles vão fazer essa crítica, na prática toda essa crítica é muito bem vinda, mas o que me faz correr longas distâncias é um auto conhecimento. É como se durante a minha corrida eu ficasse o tempo todo sentindo os músculos da perna identificando aquele que está se cansando e buscando por várias vezes uma passada diferente, para descansar o músculo e forçar outro músculo. Então nesse auto conhecimento você adquire com o tempo, é como passar marcha num carro, imagina um carro manual, involuntariamente você consegue conversar com a pessoa do lado e botar em primeira, segunda, terceira, quarta e quinta e sentir se o carro está ainda bem ou não, você consegue conciliar a embreagem com a marcha, então tem alguém que vai te ensinar a passar a marcha, mas depois você faz isso de forma involuntária e você começa a pensar assim bom, agora eu quero dirigir mais economicamente para consumir menos combustível e aí você começa a tomar cuidado daquilo, na corrida é a  mesma coisa. Numa ultramaratona chega no módulo avançado que é você conseguir meditar durante a corrida. Eu te falo que no Grand Canyon eu consegui correr em torno de oito quilômetros sem perceber que eu  corri, é como se eu encontrasse uma velocidade de cruzeiro tão confortável que a minha frequência cardíaca abaixa tanto, até abaixo de 100, com isso o meu coração consegue bombear sangue para todos os órgãos levando hormônio, levanto tudo que é necessário, tudo começa a funcionar automaticamente e a sua cabeça abstrai, você começa a pensar em nada, é como se você sentasse num banco e não pensasse em nada. Então eu consegui fazer isso, isso é um grande ganho, porque é o momento de extremo relaxamento para o cérebro, você ganha em desempenho porque você corre sem perceber e aí é um grande treinamento para a vida, então respondendo à sua pergunta, as pessoas podem criticar positivamente a sua corrida, você tem se sentir correndo e buscando um caminho mais adequado e depois tentar abstrair ao ponto de conseguir meditar, é onde você ganha um grande prazer com corrida e que dificilmente me faz abandoná-la talvez.

Luciano         O mais próximo que eu cheguei disso aí foi a experiência que eu tive lá na minha ida para oi Everest, porque eram caminhadas de dez, quinze, que qinze, o máximo foram doze, doze horas por dia caminhando e não é uma caminhada fácil porque é para cima, então o negócio lá é pesado, eu vou subir oito horas, por subidas extremamente íngremes, em pedra, o negócio é bem complicado lá e eu me lembro, quando eu entrei, já tinha treinado um pouco, mas não tinha nada de profissional nessa história toda e foi difícil me acostumar com a botina, me acostumar etc. e tal. No meu livro, em determinado momento do livro eu comento que teve um dia em que eu comecei a reparar e eu fui arrumando a minha respiração e coordenando a respiração e quando eu acertei a respiração eu virei uma máquina de andar e aquilo foi para mim foi uma descoberta tremenda que eu fiz lá que eu falei o que está acontecendo aqui? Virei uma máquina e comecei a andar que nem… e era um reloginho, porque estava tudo… ai eu notei que tinha um equilíbrio, tinha um balanço, então o meu movimento de perna, o movimento de braço, o bastão de tracking, a respiração, tudo aquilo quando eu consegui botar em sintonia, eu virei uma máquina e aí andei que era uma coisa de louco e foi aí que me deu o prazer, primeira vez que eu senti que prazer é eu estar caminhando desse jeito aqui e eu acho que peguei um pouco disso que você falou ai, em algum momento devo ter entrado em alfa e ali você está numa situação que é o que você está falando é uma coisa tão louca, quer dizer, eu consigo imaginar essa minha situação de extremo relaxamento quando eu estou em repouso, deitado e dormindo, agora, andando, caminhando, correndo, porra, para chegar nesse nível aí você tem que estar num… como nós fizemos, eu estou no meio do Himalaia, enfiado num lugar lá que não tem nada chamando a minha atenção, eu tenho aquela natureza maravilhosa m volta e eu na trilha, ninguém conversando comigo eu estou absolutamente concentrado naquilo e a hora que eu botei as coisas em sintonia, eu entrei no equilíbrio.

Saulo             E Luciano, se você parar para pensar é exatamente isso que acontece no mundo corporativo com uma empresa de sucesso ou uma equipe de sucesso, a coisa começa a ficar tão sincronizada que as decisões, elas vão sendo tomadas pela experiência, pelo feeling, pela intuição e aí a sua equipe também vai se integrando, ou seja, essa intuição da corrida, da caminhada da escalada e do desempenho de uma empresa, ela existe à medida em que você tem amor com o que você gosta, dedicação, que você se entrega para aquilo, essa harmonia, esse sincronismo, ele vai existir em tudo, então é na corrida, na vida profissional, na escalada, em tudo na nossa vida isso acontece.

Luciano         Quando você chega lá para pegar uma prova como essa aí agora, você chegou nos EUA lá, no Grand Canyon, você chegou atrasado, perdeu tempo na estrada, pessoal largou, você largou doze…

Saulo             dez minutos.

Luciano         … dez minutos depois deles lá. Dá medo? Você está se preparando, estou me arrumando para cair na estrada e ir embora. Eu não me refiro ao medo de que um urso vai me pegar e me matar no caminho, eu digo o seguinte, eu vou enfrentar uma prova de oitenta quilômetros, você tem medo disso?

Saulo             Olha só, imagina que a prova largava às cinco horas eu saí três horas da manha do meu hotel e no meio do caminho onde eu encontrei um trânsito das pessoas que iam fazer a prova, que iam largar uma hora depois, que era de cinquenta quilômetros, naquele momento eu já sabia que eu ia chegar atrasado, então uma hora antes eu já estava sofrendo porque eu não ia chegar para o início da prova que eu treinei cinco meses, uma prova que pontua para fazer essa ultramaratona que eu quero fazer de Mont-Blanc – Chamonix, então aquele momento bate medo, bate angústia, bate decepção, bate tudo, então uma hora até chegar lá, eu sabia que ao chegar lá eu não ia me concentrar, eu não ia alongar, eu ia botar a mochila d’água nas costas e ia começar a correr, nessa uma hora eu já fui me preparando porque muitas vezes nós não temos que ter controle sobre a situação, nós temos que ter controle sobre nós mesmos, então nessa uma hora eu falei assim bom, uma situação é fato: eu não chegarei para o início da prova, mas eu tenho que ter controle sobre mim e largar atrasado e fazer uma prova de recuperação e não só fazer uma prova de recuperação, mas aquele inverso que nós falamos de dor e de fraqueza, não só fazer uma prova de recuperação, mas uma prova seguinte: já que você saiu dez minutos atrasado, você vai ter que ter um desempenho melhor para superar esses dez minutos atrasado, então na hora que eu larguei e no vídeo eu falo isso, que eu ainda estava meio desequilibrado, três quilômetros depois em que eu ultrapassei o último colocado, me deu um estalo, eu falei bom, agora a prova é minha, eu vou agora para dentro e vou… então ou seja, a mensagem é: se tem uma situação que você não consegue controlar, controle-se para lidar com aquela situação. E assim tudo na vida, quantas vezes no trabalho eu me preparei para fazer uma apresentação, num dado momento a superintendência, o diretor, quer uma outra coisa, uma situação irreversível e eu tinha que buscar outra saída, então lidar com isso é muito bom à medida em que você entende: eu tenho que ter controle sobre mim.

Luciano         As minhas reações. Eu quando fui lá para o Everest eu conversei com um monte de gente que tinha ido antes de mim, várias pessoas que estavam acostumadas a fazer, eu era um marinheiro de primeira viagem e tudo mais…

Saulo             Isso é importantíssimo.

Luciano         … e a maioria dos caras que eu conversei, quase todos disseram para mim a mesma coisa, Luciano, essa cabeça viaja 90% cabeça, 10% corpo, não adianta nada ficar bombadão na academia, perder teus quilos, tudo isso é importante, mas isso não vai fazer você fazer a trilha, quem vai fazer você fazer a trilha é a tua cabeça, se você não fizer a cabeça, você não faz a  trilha e eu ouvia os caras falando, falava mas que loucura, 90% mente, 10% corpo, sabendo que o que vai pegar… e quando eu cheguei lá eu vi que era exatamente isso, quer dizer, o que faz você desistir ou não, a menos que você tenha uma contusão feia lá, se não for uma contusão feia, se não for uma queda que te arrebentou, o que vai fazer você desistir é a cabeça e depois eu fui reparar, eu não sei se os caras medem assim, mas no tracking, na disciplina do tracking que é aquilo que eu fui, a caminhada, essas caminhadas com uma mochila nas costas e tudo mais, eles medem o grau de dificuldade, são dois pontos de vista, você classifica todas elas assim, o desafio físico e o psicológico. Então grau de desafio físico, pô, grau cinco, é difícil. Grau psicológico, um só ou então cinco e a combinação dos dois é que faz a trilha ficar muito difícil ou não e os caras diziam lá o seguinte, a trilha do Everest que é uma trilha complicada, difícil etc. e tal, ela é mais fácil de ser feita do que a trilha do Aconcágua, por exemplo, que eu fui depois fazer o Aconcágua em 2006, que é uma trilha muito menor, é muito mais rápida, mas é de um desafio psicológico terrível. Se na do Everest você tinha aquela história, eu vou andar três horas, quatro horas, cinco horas, seis horas, vou passar pela cidadezinha, vou olhar, tem aquelas montanhas maravilhosas, tem gente pra eu conversar. A do Aconcágua é um desertão, é um tiro só praticamente que você dá, você dá dois tiros ali, primeiro você chega até três mil, depois você vai embora, no final desse segundo dia que são quase dize horas de caminhada, tem a costa brava, uma subida terrível, é um pesadelo do ponto de vista psicológico e para mim ficou claro aquilo ali, não é se a montanha é muito alta ou muito ríspida, são as condições que você vai fazer aquilo e o pessoal depois que foi fazer outros lugares, por exemplo, o pessoal queria que eu fosse com eles até o Monte Roraima e estavam dizendo lá o seguinte, é muito mais inóspito que o Everest, como assim? Sim senhor, Monte Roraima é o seguinte, selva, umidade, bicho, picada de mosquito, psicologicamente é um inferno, fisicamente não é o mesmo desafio que o Everest, mas psicologicamente ela te derruba com uma facilidade muito maior do que a facilidade que o Everest tem. Isso ficou marcado para mim, com a corrida é a mesma coisa? Você também mede por desconforto psicológico e físico ou o psicológico é igual?

Saulo             Olha só, a prova que eu fiz na Patagônia chilena, eram 70 quilômetros, eu treinei toda a elevação, altimetria, o ponto de lama, ponto de gelo, de descida e de subida, ou seja, eu fui com a prova escrita num papel e treinada. Um dia antes chegou o comunicado que houve uma nevasca e que mudariam, sei lá, 40, 60% do percurso da prova. O que que acontece?  Naquela prova tinham pessoas muito mais preparadas fisicamente do que eu, tinham pessoas patrocinadas, tinham corredores mundiais lá, eu cheguei na frente de muitos deles porque eles não se adaptaram às mudanças, ou seja, psicologicamente eles não conseguiram se adequar àquela situação. Então volta o que eu falei anteriormente: eles não tiveram capacidade de controlar a si mesmo dentro do contexto de alteração, exatamente o que você falou, foi uma prova muito mais psicológica do que técnica por quê? Porque eu fui com a estratégia escrita e de repente aquela estratégia no dia anterior eu tive que rasgar e fazer outra, só que ninguém faz uma estratégia durante cinco meses e faz uma de um dia que seja perfeita, agora, se você não aceitar isso e criar novas alternativas e aceitar, não adianta. Tinha atletas que com quarenta quilômetros de corrida ainda estava reclamando da organização que eles mudaram o percurso, mas eles mudaram o percurso porque teve uma nevasca, não tem opção, mas ele ainda estava sofrendo com aquilo e aí a segunda mensagem é que nós temos que aprender a descansar e não desistir, a gente só deve desistir, como você falou, se você sei lá, rompeu um tendão, não vou ser louco de continuar correndo com um tendão arrebentado, agora, se você tiver força psicológica de seguir, de descansar, literalmente para e falar assim pô, senta aí Luciano, descansa, calma, falta trinta quilômetros, se você não acalmar, come alguma coisa, bebe, conversa com alguém para você seguir, então é essa habilidade, eu não recomento que uma pessoa que corre quarenta e dois na força física corra setenta do nada, eu recomendo que essa pessoa faça treinos de solidão, que essa pessoa aprenda a lidar com ela mesma para superar desafios.

Luciano         O que é um treino de solidão?

Saulo             Treino de solidão é quando você pega… lá em Belo Horizonte uma montanha, eu vou de um ponto a outro levando toda a minha comida e vou treinar sozinho, naquele treino sozinho eu vou olhar a minha passada, vou descansar na hora que eu cansar, vou sentar na sombra a hora que eu cansar, vou beber… ou seja, eu vou fazer um treino de treinamento psicológico de suportar aquela longa distância sozinho e lidando com o cansaço físico que com certeza existe.

Luciano         Isso é uma coisa interessante quando a gente fala da coisa da solidão que é… a gente lida com esse conceito aqui no nosso dia a dia, na vida que a gente vive aqui, estou na cidade. Eu sozinho aqui estou rodeado de 12 milhões de pessoas, sozinho, tem 12 milhões e volta de mim, se eu descer tem o porteiro do prédio ali, tem alguém na rua, tem alguém passando ali. Na minha, lá no Everest, teve um dia que nós chegamos, nós ficamos num hotel chamado Hotel 8000, que fica ao lado de uma estação italiana de esqui que tem ali, já lá, quase nos quatro mil metros de altura e a gente, em alguns momentos da caminhada a gente parava e ficava um dia lá coçando o saco que era aclimatação, se preparando e nesse dia eu falei, eu vou dar uma volta, sai para dar uma volta e dar uma volta significa o seguinte, bota a mochila nas costas e se prepara que a voltinha ia demorar três horas e eu pego e saio sozinho, deixo todo mundo, subo uma encosta e vou partir do outro lado da encosta e eu chego num lugar de onde eu tinha vista da geleira do Combú inteirinha até a cascata de gelo, eu consegui ver o Everest ali na frente, bem distante de mim ali e nesse lugar eu estava sozinho e foi aí que eu senti, talvez, talvez tenha sido a única vez na minha vida que aconteceu isso, que eu senti o que é solidão de solidão absoluta, que aquela o seguinte não tem ninguém perto de mim, o pessoal que eu deixei para trás ficou muito lá para trás, se eu decidi que eu vou me jogar daqui agora, ninguém vai me achar mais, porque não tem referência, eu não estou na trilha, eu estou fora da trilha, estou num lugar que as pessoas não vem e vim aqui de bocudo para dar uma olhada para ver como é que é isso aqui. Aí eu sentei na pedra e fiquei parado olhando aquilo, ouvindo nada, não tem passarinho voando, não tem automóvel passando lá na frente, não tem avião passando, não tem nada, é nada, é você e a natureza num nível assim como eu nunca mais vou ver nada parecido. E ali me deu a sensação de solidão e deu medo, chegou uma hora que eu falei puta que pariu, deixa eu voltar porque o risco que eu estou correndo aqui por estar tão sozinho e é uma dimensão de solidão que você não consegue explicar, é o que aconteceu ali. Imagino que numa situação como essa que você está colocando aqui, não numa prova, porque numa prova você está cruzando com as pessoas, está todo mundo colocado ali, mas quando você fala assim treinar solidão, é algo que as pessoas não tem dimensão, a menos que enfrente uma situação como essa aqui.

Saulo             É, o que você fez é um grande exercício, de Belo Horizonte a Ouro Preto dá 100 quilômetros, mas se você for cortando montanhas dá menos do que isso. Teve uma vez que eu fiz isso, eu fui cortando montanhas, cortando montanhas, passando algumas fazendas, pulando algumas cercas e com essa sensação de solidão, porque teve momentos que eu atravessei matas e desci barrancos, que eu falei se eu cair nesse barranco, eles só vão me achar a hora que tiver mau cheiro e isso é um grande exercício para a vida, nem só para o esporte.

Luciano         E que te dá a dimensão de que a gente não é nada. Deixa eu te contar uma outra experiência, eu fui para o Polo Norte também em 2006 e a gente quando chega lá, nós fomos, era um navio, um quebra gelos nuclear russo, que vai quebrando o gelo até chegar noventa graus norte e você está lá, estou na parte  de cima do globo terrestre, eu desci e botei meus pés no noventa graus norte e ali o navio para, fica encostado ali durante uma ou duas horas, que é o tempo que o gelo vem e o gelo se solidifica em volta do navio, aí os caras descem e organizam um churrasco para o povo do navio, cento e tantas pessoas, descem e faz o churrasco ali, só que a instrução que eles dão para a gente antes é o seguinte, olha, vão desde primeiro os caras da segurança, era uns russos com o fuzil, eles fazem um perímetro, é um triângulo que eles fazem ali, fica cada um num vértice  do triângulo, de olho nos ursos polares, então eles são os caras que estão armados, se o urso vier ele dá um tiro no urso e diziam para a gente o seguinte, vocês não passem do vértice do triângulo, então o limite de vocês é o vértice do triângulo que é quando o cara consegue olhar você e olhar se vem vindo o urso. Se você passar do vértice eles vão perder você de vista e eu lá pelas tantas falei é evidente que eu vou até o vértice do triângulo e saí caminhando, deixei o navio lá pra trás, fui até a beirada, até o ponto em que o cara gritou para mim, daí você não vai, daí eu parei, fiquei em pé olhando para a frente, então o que é aquilo? É uma planície de gelo, toda com pedras de gelo, você não vê, é tudo igual, branco, o céu é branco, a planície, é tudo branco a perder de vista, branco e eu olhando aquela coisa assim e falando o seguinte, tem um urso ali  e eu não estou vendo o urso, eu não vou enxergar esse urso nunca, se ele resolver levantar agora e vir aqui, ele vai me comer porque os caras não vão conseguir parar o urso a tempo e é quando cai, como tinha acontecido no Everest aquela vez, que você fala como não somos nada, somos absolutamente nada aqui, se esse bicho resolver levantar agora ele me pega, é a primeira vez que você tem dimensão de falar eu estou diante de uma coisa que é o selvagem, é a natureza, um cara urbano como eu, exposto a uma situação como essa aqui, da qual eu não tenho saída, se o gelo não resolver abrir agora eu caio e morro, se a montanha resolver abrir e eu cair, também eu morro, se  vier um deslizamento aqui eu vou embora e não há nada que resolva isso, isso é um exercício de humildade que quando você termina você fala cara, eu não sou absolutamente a hora que a natureza quiser ela acaba comigo assim e é uma experiência que a gente não costuma passar nesse ambiente que a gente vive aqui, no dia a dia da gente.

Saulo             E é isso aí, Luciano, nesse último vídeo que eu fiz, eu falo justamente de humildade, então eu acho que numa prova dessa, num lugar como você está no lugar inóspito desses, tem duas palavras que nos definem: paciência, quando não se tem nada e humildade quando se tem tudo. Então, por exemplo, numa prova dessa numa ultramaratona, estava acabando a minha água, eu tinha que ter paciência, administrar, porque faltavam seis quilômetros para chegar água, o sol era de 33 graus, 16 de umidade, então ou seja, paciência, mas quando eu chegasse lá eu não poderia beber a água toda, porque tinha mais atletas ali no deserto. Então são aprendizados que a gente tem nessas situações que são fantásticas. Na ultra fiorde também a mesma coisa, você fica muito mais forte sabendo que você vai correr setenta quilômetros e que se você desistir com vinte, ou você entra pra uma barraca que fica lá até te resgatarem, ou você vai caminhar cinquenta e quem desistiu naquela prova, que foi num sábado, entrou para dentro da barraca e foi resgatado na terça, porque teve uma nevasca, os socorristas não conseguiram passar e as pessoas ficaram lá, domingo, segunda e foram resgatados na terça, não morreram porque tinha comida e tudo, mas é essa sensação, sabendo disso, a sua coragem aumenta e uma pessoa que faleceu, infelizmente, ele machucou o pé, certamente ele parou para se cuidar e a pressão dele baixou, ele desmaiou, os músculos contraíram, o coração parou de bater e veio a óbito, uma pessoa experiente, não cabe a gente julgar se ele abusou ou não, mas são situações que acontecem, mas na maioria das vezes isso nos deixa muito mais fortes, sabendo que naquele lugar onde você estava, onde tinha um urso, você estaria muito mais forte, ali com certeza acho que você correria uma ultramaratona se fosse necessário.

Luciano         Com o urso atrás.

Saulo             Se fosse necessário você correria.

Luciano         Corro cento e cinquenta com o urso atrás de mim. Saulo, agora você entrou nessa tua vida aí de virar aquele… é o cúmulo do masoquismo, se é alguma coisa que define o sujeito ser masoquista é o cara que decide ser o empreendedor brasileiro, vou ser um empreendedor no Brasil, meu Deus do céu, como  é difícil isso, como é complicado. Você então abandonou a segurança do ambiente corporativo e vai se atirar no mundo para ser um empreendedor brasileiro, vai querer lidar com o mundo das palestras, que é um terror, que não é nada daquilo que o pessoal olha de fora. Pô que legal, o cara subiu ali, ficou uma hora e meia falando, falou um monte de bobagem ganhou “10 pau” e está feliz, amanhã tem outra, no fim do mês ganhou um dinheirão, está feliz da vida, todo mundo aplaudindo o cara. Isso é aquilo que a gente imagina, que nem aquela história do cara que vê o Neymar jogando e fala pô, vou ser jogador de futebol para fazer que nem ele. Não vai, são pouquíssimos que tem essa coisa e o trabalho da palestra é um trabalho bastante complicado, um mercado que está complicadíssimo, é um produto difícil de se vender, é um produto que depende muito de você estar na mídia, de você ter reconhecimento, etc. e tal, é um negócio muito difícil bem complicado. E você decide entrar nesse mercado para levar a tua vida adiante nisso aí, o que é  isso aí? É vaidade?

Saulo             Não, não é vaidade…

Luciano         Não vem falar que é coisa para ajudar os outros, não vem me dizer que tem uma luz, um belo dia você acordou de manhã tinha uma luz, uma voz e disse Saulo, levanta-te e vá ajudar os seus irmãos a vencer na vida. Eu quero saber o que é?

Saulo             … bom, o que você falou dessas dificuldades, outras pessoas falaram e essas dificuldades existem no mundo corporativo e no empreendedorismo, lógico que no empreendedorismo ele é maior, mas chega num momento da sua vida que você acredita que você tem uma vocação, você se sente convocado, intimado a fazer aquilo ali de uma forma substancial, paralelo a isso você esta vivendo um momento profissional que o desagrado é muito, é um momento conturbado, juntando todas essas forças, surge alguma coisa lá do fundo que é convicção, ou seja, eu estou convicto que é um caminho difícil, mas que eu posso ser um profissional diferenciado e conquistar o meu espaço, para isso eu me precavi por um tempo financeiramente, ou com um plano C e…

Luciano         O que é o plano C?

Saulo             … o plano C é uma outra atividade, outra atividade, algo mais familiar, então eu me precavi para isso e digo que eu já estou conseguindo dar alguns passos  e você, Luciano, pela sua experiência, pela sua vivência, pela admiração  que eu tenho, é um dos meus mentores, está bom? Eu me inspiro em você porque um dia você foi executivo como eu fui…

Luciano         Não tenho nada a ver com isso hein, não bota nas minhas costas.

Saulo             … não, mas você é um dos meus mentores, um dia você foi um executivo, um dia você se arriscou nesse mercado que era um outro momento, eu sei disso, mas todo momento é o momento de alguém e enfim, a vida, o tempo todo tem gente se arriscando e fazendo de uma forma diferente, eu acredito que a minha palestra, ela é inspiracional, ela é uma palestra que faz as pessoas repensarem muitas coisas, não só na vida profissional, mas na vida pessoal.

Luciano         Você fala do que, da ultramaratona?

Saulo             As palestras inspiracionais que falam das ultramaratonas e da minha experiência profissional, eu acredito que elas são muito mais do que motivacionais, eu acredito que eu consigo provocar as pessoas a pensar de uma forma diferente, de forma que ela saia daquela palestra e saia pensando de uma outra forma, enfim, eu não quero ser palestrante só para ajudar as pessoas, quero sim porque eu gosto disso, mas quero fazer algo que me deixe mais feliz, então esse é o risco que eu estou correndo e na vida o tempo todo tem gente fazendo isso, correndo esses riscos, eu tenho que, por um bom tempo agora, trilhar esse caminho, persistir e se o Neymar chegou onde chegou, se o Picasso, se Einstein, se Michael Jackson chegou lá, eu não estou dizendo  que eu vou ser um deles, mas eu tenho que trilhar para isso, eu tenho que me espelhar nas pessoas que eu admiro, assim como você e  buscar o caminho do sucesso.

Luciano         Muito legal. Olha, eu vou te garantir o seguinte, é uma maratona, é uma baita de uma maratona…

Saulo             Ah, eu faço ultra.

Luciano         … perfeito, então você já está com o caminho meio andado, você já sabe como enfrentar o sofrimento, a dor, etc. e tal, no final das contas é uma coisa que é absolutamente encantadora, o fato de você subir até um palco, abrir a boca, dizer uma série de coisas, as pessoas estarem prestando atenção em você, as pessoas reagirem àquilo, no final alguém vem dizer para você, pô, você falou um negócio que eu precisava ouvir, você me deu uma luz, não há dinheiro no mundo que pague o fato de você imaginar que você, de alguma forma, tocou o coração, tocou a mente das pessoas, isso aí realmente é um privilegio, é uma coisa que a gente não tem quando a gente é executivo de uma multinacional, isso não acontece, é diferente e isso realmente para mim é a gasolina, é o combustível desse mercado, o dinheiro passa a ser a consequência disso, se o dinheiro vier, pô que legal, e se o dinheiro não vier, pô eu estou indo lá, vou fazer  de graça, mas estou fazendo a palestra de graça que eu sei que esse povo precisa, eu sei como é que é e não vivo pelo dinheiro, mas não vivo sem dinheiro, eu preciso do dinheiro, mas não é ele que me faz acordar de manhã e falar que tesão, hoje tem outra palestra, vou de novo contar a história do Everest, que eu já contei quinhentas vezes, vou contar de novo com o mesmo tesão que eu tinha lá atrás porque é um prazer imaginar que de alguma forma as pessoas vão tirar algum proveito daquilo. Quem quiser te encontrar, encontra como?

Saulo             Bom tem o meu site, sauloarruda.com.br, é Saulo Arruda também no Facebook, Saulo Arruda no Linkedin e pelo telefone, (031) 99296-0195.

Luciano         Legal. Meu amigo, vamos ver se essa tua disciplina que você tem aí como maratonista te ajuda nesse novo momento aí, é um prazer saber que você, de alguma forma, se espelhou, você me viu uma palestra?

Saulo             Há 18 anos…

Luciano         150 anos atrás, eu palestrando lá, quando você me viu eu era um executivo da empresa, já palestrando fora da minha empresa para um cliente da empresa e se isso de alguma forma te inspirou eu fico super feliz de ver agora que você está aqui, ver que está seguindo esse caminho aí, boa sorte meu caro, tem uns 170 quilômetros pela frente aí que você vai tirar de letra.

Saulo             Eu agradeço a oportunidade, Luciano, numa palestra que eu fiz para a Fundação Getúlio Vargas, um palestrante no final da palestra me procurou, por um acaso ele tem o mesmo sobrenome que o meu, ele falou pô cara, vou te apresentar para o Luciano Pires, é um cara que tem uma história parecida com a sua, falei pô, mas eu conheço o Luciano Pires, então me dá o telefone dele, aquele foi o empurrão que eu tive para me inspirar ainda mais em você, te procurar, agradeço demais por ter me recebido aqui e eu acredito muito que eu possa ter sucesso e muito obrigado por tudo.

Luciano         Vamos em frente. Um abraço.

 

                                                                                   Transcrição: Mari Camargo.