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Luciano Pires -

Luciano               Mais um LíderCast com outro convidado aqui. Esse é daqueles que eu gosto muito, sabe por quê? Ele está numa posição na qual eu estive há um tempo, eu, durante muitos anos fui alto executivo numa baita multinacional de origem norte americana, comandando equipes, tentando provar para os americanos que o Brasil é um país sério, vivendo um período esfuziante da história do Brasil, porque eu peguei época de abertura com Collor, aquela coisa toda acontecendo, uma expansão gigantesca no mercado automotivo e vivi um ambiente esfuziante do qual eu saí em 2008 e que essa pessoa que está aqui comigo hoje está vivendo isso até o pescoço, então a gente troca umas ideias aqui que são muito semelhantes em termos de experiência de vida, eu começo aquelas três perguntas tradicionais e as mais difíceis do programa que você precisa prestar muita atenção para não errar agora, tá? Eu quero saber seu nome, sua idade e o que é que você faz?

Ricardo               Luciano, bom, meu nome é Ricardo Marques, eu trabalho numa multinacional de origem europeia, trabalho há 22 anos nessa empresa, eu me formei em Administração, me formei em Direito, tenho 46 anos.

Luciano               Ótimo. Qual é o nome da empresa?

Ricardo               Unilever.

Luciano               Muito bem. Unilever. O que é que você faz na Unilever?

Ricardo               Eu sou responsável por uma operação, uma operação de alimentação profissional, a gente fornece ingredientes e serviços para restaurantes, hotéis, lanchonetes, empresas de refeição coletiva.

Luciano               Para quem não está familiarizado, a Unilever é uma empresa gigantesca e quando você entra lá dentro você se perde, porque tem cada área que você vai é uma loucura, é um negócio diferente e nós estamos falando aqui de uma determinada área que vende determinado tipo de produto para um tipo de mercado, os produtos que você vende vão para restaurantes e o pessoal do uso mais profissional, não é para um usuário final lá na ponta.

Ricardo               Isso, é o que a gente chama de be to be, é de empresa para empresa, até as pessoas tem dúvida, por que uma empresa que é conhecida por vender produtos para o consumidor vendem produtos para outras empresas? Porque tem um be to be dentro de uma empresa que é be to see, é interessante, eu fiz essa pergunta, eu comecei a empresa há muito tempo, eu comecei na parte de be to see, eu trabalhei em marketing, trabalhei em vendas, trabalhei em trade marketing e a cerca de 4, 5 anos eu mudei para essa área, eu conheci a pouco dessa área e a primeira pergunta que eu fiz foi por que a empresa tem essa área? E eu fui entender o porquê, e países onde os mercados de alimentação são mais maduros, cerca de metade do que a gente gasta com alimentação, a gente gasta fora da nossa casa, então se você fala que te uma empresa de alimentação e você não vende para as empresas que preparam refeições fora de casa você tem meia empresa de alimentação…

Luciano               Interessante.

Ricardo               … e o fato de você se alimentar fora de casa tem uma relação muito forte com o tipo de comportamento alimentar que você vai ter dentro de casa, que tipo de marca, que tipo de prato, você tem uma experiência, então você escolhe um restaurante, ninguém te forçou a escolher o restaurante, você escolheu o prato, você vai pagar, você teve uma experiência boa, a probabilidade é que você queira repetir esse tipo de experiência, fora de casa e dentro de casa, então esse é um mercado que tem um crescimento no mundo todo muito grande porque todas as tendências sócio demográficas levam para isso, vou dar um exemplo mais básico: o Brasil apesar do nível de urbanização muito alto continua se urbanizando, as pessoas estão vindo para as grandes cidades e as grandes cidades, por mais que a gente tenha metro, ciclovia, ônibus e o que seja, infelizmente a gente não almoça mais em casa, hoje até virou um paradigma, alguém fala para você, almoça em casa, você para, tira uma foto, pede um autógrafo e pergunta: como? É difícil você poder voltar para a sua residência porque a mobilidade, ela é muito reduzida, então a gente, isso é um impacto e na nossa vida de várias formas, então as pessoas acabam tendo que se alimentar fora de casa e as pessoas perguntam, na crise, esse é um mercado que sofre muito? Sofre, porque o mercado de food service, alimentação fora de casa, é um mercado que tem uma parte que é da opção, eu vou jantar, vou comer uma pizza no final de semana com a minha família e tem uma parte que é da necessidade, a necessidade eu vou trabalhar, eu preciso comer alguma coisa, eu tenho duas opções, eu preparo alguma refeição em casa e levo a minha marmita, que é possível fazer, mas que demanda também mais tempo e hoje a coisa mais escassa que a gente tem no nosso dia a dia, especialmente nas grandes cidades, é tempo e eu não tenho… e aí, a gente pensa no passado, há 40 anos, a gente poderia estar falando, mas a minha esposa vai preparar, mas a sua esposa hoje em dia ela também trabalha, as tarefas são divididas, então se você vai fazer a sua alimentação, vai ser você mesmo, a sua esposa fazer a dela, você vai fazer a sua, enfim, não tem ninguém preparando para você.

Luciano               Você está falando aqui, eu estou me divertindo aqui porque eu estou lembrando das coisas, eu sou de uma época que a gente quando morria o velório era em casa, quando eu era molequinho, o velório era na sala da casa, ficava lá o defunto no velório, aniversário eram todos dentro de casa, a gente transava em casa e a gente comia em casa, então essa história de ir com a família em restaurante, fui ver lá na frente, hoje em dia não passa pela cabeça de ninguém de fazer o velório em casa, festa de aniversário eu quero levar num buffet para não ter encheção de saco…

Ricardo               Surge uma nova indústria de buffet…

Luciano               … transar, pô, eu vou no motelzinho, que está tudo arrumadinho…

Ricardo               uma nova indústria.

Luciano               … uma outra indústria e por fim a questão da alimentação, quer dizer, hoje em dia é comum, eu me lembro do primeiro cheeseburger que eu comi na minha vida, eu saí da casa da minha avó, fui até o outro lado da rua e comi aquela coisa interessantíssima que era um cheeseburger, eu devia ter 14, 13 anos e aquilo era um acontecimento, hoje em dia mudou tudo, quer dizer…

Ricardo               Era um acontecimento, mudou muito, então você tem, se você vai trabalhar e vai ter que comer alguma coisa e aí depende do dinheiro que você tem no bolso, você vai num restaurante muito bom, num restaurante não tão bom, você vai, talvez, numa padaria, você vai num bar, você vai come num carrinho que vende na rua, você faz alguma coisa até comer, o mercado da sua opção do final de semana, esse sente mais, porque você pode falar sim ou não e comer em casa e esse mercado mudou demais, você está falando do passado, eu lembro quando eu era pequeno e quando o McDonalds veio para o Brasil era um sonho, era muito aspiracional…

Luciano               O acontecimento

Ricardo               … ir ao McDonalds, porque era uma coisa muito diferente que existia no mercado e ao longo do tempo o mercado foi recebendo outras redes, redes nacionais se desenvolveram, então hoje a quantidade de opções que a gente tem como consumidor são muito grandes, competição é muito grande, então a gente tem uma busca por eficiência muito grande, você tem hoje, por exemplo, um monte de hamburguerias, são red made, o hambúrguer é feito lá, são artesanais e que cresce muito, chamam muito a atenção porque tem um toque de autenticidade pessoal, é o meu hambúrguer que eu faço aqui.

Luciano               Eu escrevi um artigo um tempo atrás dizendo dessa diferença, fala, qual é a diferença entre o hambúrguer que eu como no Monday Night Burgers, do Daniel Pires, meu filho e o hambúrguer que eu como no McDonalds, o do McDonalds é para todo mundo, ele é igual de todo mundo, o do Monday Night é só meu, então eu chego lá, ele vai sair com uma cara minha, ele é mais complicado, leva mais tempo, custa mais caro, demanda mais coisa mas no final eu tenho alguma coisa para mim, não é aquele que todo mundo vai… e eu não sou contra, tem hora para tudo, eu adoro ir no McDonalds, comer um McDonalds de vez em quando. Deixa eu te perguntar uma coisa aqui: quanto tempo faz que você está na empresa?

Ricardo               22 anos.

Luciano               22 anos, teu cargo hoje é?

Ricardo               Sou vice-presidente de food solutions para o sul da América Latina.

Luciano               Sul da América Latina. Você entrou lá com 20 e….

Ricardo               Eu entrei com 24 anos, no pré-plano real, eu comecei a faculdade de direito no Largo São Francisco, na verdade eu vou explicar um pouco porque eu fiz duas faculdades, infelizmente eu estava entrando na faculdade na década perdida e que infelizmente tem muitas similaridades com um pouco do que a gente está vivendo hoje…

Luciano               Anos 80…

Ricardo               … nos anos 80, então para mim, naquele momento de incerteza, a melhor coisa que eu poderia ter no meu bolso eram opções e eu escolho a carreira, eu como muitos jovens eu não tinha uma certeza sobre qual carreira seguir, eu fui escolher uma carreira que tivesse muitas opções, que eu poderia ser, enfim, um advogado, um juiz, um promotor, um delegado, teria muitas opções, então eu optei por essa carreira…

Luciano               Quer dizer, você fez uma escolha que primeiro não foi baseada no teu talento ou naquilo que você queria ser quando crescesse.

Ricardo               Luciano, eu não tinha ideia nenhuma sobre o meu talento, eu não tinha ideia nenhuma sobre o que eu queria fazer, eu tinha muita incerteza, eu optei pela questão da opção, ter opções na mão para o futuro.

Luciano               Tua família, teu pai era empreendedor, era empregado, o que ele era?

Ricardo               Meu pai era empreendedor na minha família não tinha ninguém de grande empresa, na realidade todos eram pequenos empreendedores, então eu não tinha uma referência para seguir uma carreira numa empresa grande, mas enfim, naquele momento eu achei que era o mais seguro ter opções na mão. Eu comecei fazendo uma faculdade de direito, que aliás eu gostei muito, me apaixonei pelo direito mas eu tinha muitas dúvidas se eu continuaria no Brasil. Isso é um absurdo, Luciano, você pensar que os jovens, na década de 80 tinham dúvidas se o Brasil tinha futuro, um país deste tamanho, deste potencial e a minha geração tinha muitas dúvidas, então quem podia pensar em sair do Brasil, pensava e quem não podia pensava no que ia fazer, que não tinha muita perspectiva. Eu entrei na faculdade de direito, depois que eu entendi um pouco o jeito eu vi que o diploma de direito fora do país, ele não é tão simples de você transformar ele em trabalho, você tem formatos, são estruturas de legislação diferente, então você teria que validar o diploma, não é tão fácil assim. Eu pensei, eu preciso ter mais opções, isso não vai bastar para mim e eu pensei em fazer engenharia, pensei em economia, pensei em administração, no final acabei optando por administração porque também era uma carreira que me permitia muitas opções, aí eu passei a faculdade de direito para a noite, fazia faculdade, fazia a Getúlio Vargas à tarde e fazia um estágio de manhã e assim foi minha vida por três anos.

Luciano               Só estudando.

Ricardo               Estudava e trabalhava, estágio, estágio, fazia faculdade, fazia outra faculdade, aprendi nesse tempo foi um aprendizado muito interessante a disciplina de tempo, porque não podia falhar, não tinha tempo, eu tinha que acordar às cinco, voltar para casa às 11, tinha que me organizar bem para isso, mas é possível, depois que você acaba fazendo, como tudo, como a tua viagem para o Everest, tudo o que é impossível, com foco, com muito esforço, muita dedicação a gente acaba fazendo.

Luciano               Deixa eu voltar ali atrás, eu não quero perder, você me deu um gancho delicioso aí porque esse momento que nós estamos vivendo no Brasil é um momento muito interessante e tem algumas lições aí para a gente que já viveu lá  atrás, já passou por outros momentos assim e tem uma molecada nova nos ouvindo aqui que não passou por isso, como você estava falando aí dos anos 80, que você estava numa década perdida, para quem não lembra ou não estava por aqui naquela época, era uma época do plano Bresser, plano Sarney, era uma época que o Brasil estava enroladíssimo, nós tínhamos recém saído dos vinte e tantos anos de regime militar, não tínhamos encontrado um caminho ainda, nós tínhamos tentado…  estava uma loucura aqui, o Brasil estava uma loucura e realmente era um momento que a gente não tinha muita expectativa do que viria pela frente, o Brasil toma um sopro de vitalidade com a aprovação das diretas, que foram reprovadas antes disso, a gente elege o Tancredo, aquele era um momento em que o Brasil… e o cara morre antes de tomar posse, o Brasil dá uma brochada tremenda, assume o vice, que era o Sarney, bota um plano, bom, foi uma loucura aquilo tudo e essa coisa toda desemboca lá no final dos anos 80 começo dos anos 90, quando a gente elege o Collor e o Collor vem e o pessoal lembra da história do Collor. O Collor assume, faz umas loucuras, fica dois anos ali, mas ele assina dois papeis ali que mudam a história do Brasil e esses dois papeis, ele acaba com a reserva de mercado e ele acaba com a lei da informática, do dia para a noite e o Brasil abre as portas, eu estava dentro do mercado automotivo e o que eu assisti acontecer nos cinco anos na sequência ali foi o Brasil virar de ponta cabeça, foi um momento em que a gente se abriu para o mundo, nós viemos conquistar o planeta, o Brasil cresceu, foi uma loucura toda a partir daquelas decisões que aquele maluco tomou e que pouco tempo depois desemboca no impeachment dele. Nós derrubamos um presidente, trocamos o presidente, o Brasil continuou que foi uma loucura, o que veio na sequência foi um presidente que ninguém sabia quem era, o Itamar, que era um maluco, veio Fernando Henrique, o Brasil entrando… ou seja, olha o que aconteceu, olha por o que nós passamos com um impeachment no meio do caminho e o Brasil não acabou, pelo contrário, o Brasil melhorou muito depois de todo esses traumas que aconteceram, então eu estou colocando isso aqui agora porque você viveu isso também naquela época, como um garoto, eu já estava trabalhando no mercado e o que nós estamos passando agora eu não vou dizer para você que é fichinha perto daquilo, mas para quem viveu aquilo que a gente viveu, olhar para isso aqui agora, cara, desculpa, eu não tenho medo do rolo que está acontecendo agora, está certo, eu não vi nada parecido, é muita maluquice, mas já teve ali atrás, já teve confusão, já teve impeachment, a gente já perdeu a esperança e já recuperou tudo outra vez e eu não queria perder esse gancho aqui…

Ricardo               É muito bom porque na verdade é assim, a gente, eu trabalho com pessoas de outros países, as pessoas de outros países tendo… não mudou muito em relação ao que você falou, que você tentava explicar para os gringos o Brasil, a gente acaba todo dia tentando explicar o que está acontecendo, às vezes a gente não tem explicação, às vezes é difícil explicar, nós mesmos brasileiros não temos certeza, mas uma coisa que mudou muito é que eu, pessoalmente, tenho certeza que o caminho que a gente está indo hoje é para o futuro melhor e no final da década de 80 e 90 era tanta mudança e eram tantas frustrações, o plano não deu certo faz outro plano, o presidente vai, depois eles… a gente não tinha certeza da onde, para onde ia o negócio.

Luciano               Hiperinflação…

Ricardo               Hiperinflação, é tão, eram coisas muito loucas, os gringos costumam falar que a gente vive num país CNN, que todo dia tem novidade, tem reportagem nova sobre o que está acontecendo.

Luciano               Eu recebi uma boa hoje, o caras mandaram para mim o logotipo “bom dia PF”, ligo a televisão de manhã, deixa eu ver o que a polícia botou no ar  hoje de manhã, virou um caso de polícia.

Ricardo               Todo dia os jornalistas lá de Brasília falam, eles estão ficando, eles não conseguem mais dormir, porque não pode se desligar mais e se eu vou dormir e acontece alguma coisa? Mas o Brasil ele passou por… quem tem, nesses últimos 30 anos a gente teve muita coisa, então não é a primeira vez e é interessante, ligando com uma outra coisa. Eu trabalho em empresa grande, eu trabalhei com equipes de diferentes áreas e eu aprendi a dar valor porque uma coisa que chama diversidade, é hoje o Dia Internacional da Mulher, a gente fala em diversidade de gênero, mas a diversidade geral, ela é muito importante, eu lembro de, numa dessas muitas crises que a gente teve, eu lembro que eu trabalhava em vendas no nordeste, o meu chefe me ligou e falou, se você pega o avião amanhã para cá, São Paulo porque tem um plano econômico novo, a gente precisa decidir o que a gente vai fazer, então vem todo mundo para São Paulo para a gente sentar e aí peguei o aviãozinho, fui para São Paulo, sentamos todo mundo, senta financeiro… olha o pacto do plano, que vai acontecer com o custo, o que a gente vai fazer? E eu voltei depois de um dia, voltei para a base em Recife e eu tinha três gerentes de vendas que eram mais ou menos da idade do meu pai, muito experientes, naquela época eles tinham 50 e poucos anos e eu tinha uma molecada, vendedores, às vezes com 19, 20, 22 e aí eu vi, pela primeira vez, o valor da diversidade, os jovens estavam desesperados, desesperados, falava o que vai acontecer? Eu não vou conseguir mais vender, o mundo vai acabar e os mais antigos, já tinham passado, talvez por crises diferentes, mas tinha passado por várias, falavam, olha, veja bem, meus cabelos brancos, eles te garantem 100% que isso vai passar, vai passar de um jeito, mas vai passar, então vamos lá, vamos sentar, vamos entender e vamos fazer com calma, porque a gente sobrevive á crise e é muito do que eu vejo hoje, falo olha, a crise, ela piora, ela melhora, ela muda, mas a gente vive num país muito grande, a gente tem muitos recursos, o melhor recurso que a gente tem no país são os brasileiros, os brasileiros são reconhecidos pela flexibilidade, porque para quem passou por tanta crise, por tanto plano, tanta coisa, pelo menos a sambar você aprende, no termo mais geral da palavra, no dia a dia do trabalho, você aprende a buscar outras opções, acho que o jeitinho brasileiro, infelizmente, ele tem uma conotação negativa mas ele tem uma conotação positiva muito importante, a gente não para no primeiro obstáculo porque se não a gente não tinha país, a gente sempre tem obstáculo, todo dia tem um, a gente vai buscando. É importante essa diversidade, esse olhar lateral, para quem trabalha em pequena, grande ou média empresa para ver onde está a oportunidade, então…

Luciano               Eu tenho um amigo que diz o seguinte, cara, os caras indicaram que o PIB vai cair 4% esse ano, ele falou, pô, interessante, 96% ainda estamos por aí…

Ricardo               Exatamente, tem ainda muita coisa. Você vê, a gente vende, enfim, soluções para cozinha, aí você fala, bom, nesse momento vai ser muito difícil, eu falo, não necessariamente, porque é restaurante, o mercado gastronômico ele tem muita novidade, tem muita inovação, mas ele tem muito te tradicionalismo também, então tem muito empresário que tem um restaurante, olha eu estou há tantos anos neste restaurante, tradicional da minha família, as receitas clássicas e quando as coisas vão bem, ele não está muito aberto para fazer diferente, eu falo, ele é um refém do sucesso, sempre deu certo, para que que eu vou fazer diferente, quando o ambiente muda, essa pessoa, esse empresário, esse empreendedor, esse profissional mais tradicional, ele tem que parar para pensar, olha, a fórmula funcionou até ontem, mas hoje ela não está funcionando, existem novas oportunidades que a crise trás reais, não é um speech, não é um falatório só motivacional, de fato tem pessoas, no nosso caso, tem profissionais que estão abertos a ouvirem, a ouvir a sua proposta porque a realidade deles mudou e aí você vê por um outro lado, leva uma proposta e muda e talvez conquiste um cliente por causa da crise e ele continue depois disso.

Luciano               Eu fiz agora, há pouco tempo, botei no ar um podcast Café Brasil chamado “Crise e Oportunidade”, onde eu leio um texto lá do Ricardo Jordão, ele vai falando, a Globo está em crise por quê? Por causa do NetFlix, os táxis estão em crise por quê? Por causa do Ubber. O McDonalds está em crise por quê? Por causa das franquias de restaurante japonês, para tudo tem alguém fazendo acontecer ali. Deixa eu voltar para explorar você um pouquinho mais, você estão está há 22 anos  na empresa, você entrou lá como trainee?

Ricardo               Então, eu entrei como trainee, eu me formei primeiro, eu virei na verdade administrador e não advogado de maneira cronológica, eu iniciei direito primeiro, depois eu comecei a fazer estágio de direito, fiz administração, fazendo estágio de administração, fiz um programa de trainees numa empresa, antes de me formar e fui para o mercado financeiro…

Luciano               Você tem os dois diplomas?

Ricardo                Os dois, os dois e eu estava no mercado financeiro, já não era um estagiário, eu era, não, um funcionário de uma mesa de operações de um banco de atacado e o meu chefe na época, eu falo, eu acho que ele era um chefe muito inteligente, eu acho que ele queria se livrar de mim, mas ele deu um bom conselho, ele falou: olha você não vai prestar algum programa de trainees porque é interessante para quem inicia a carreira porque é uma oportunidade de você tomar conhecimento mais rápido do que é a realidade de uma empresa, então é um investimento que a empresa faz, porque ela tem o programa, são várias empresas que tem. Eu falei: olha, não tinha pensado, mas é uma boa e eu prestei, entrei e eu, como eu te falei, eu não tinha um histórico de pessoas próximas que fossem executivos de empresas grandes, então eu não tinha muita perspectiva, eu falei olha, eu acho que vou entrar, vou ficar um tempo, talvez 2, 3, 4 anos, vou aprender e depois eu vou seguir, provavelmente, para a rota que eu conheço mais, que é empreender, fazer alguma coisa e acabei ficando 22 anos, as pessoas perguntando, mas por que você fica 22 anos na mesma empresa? Eu falo, olha, a primeira frase já está equivocada, não é uma mesma empresa, a empresa que eu entrei em 94 não tem absolutamente nada, nem o logo é o mesmo do que é agora, mudou absolutamente tudo, o mercado exige a mudança e se você consegue buscar boas oportunidades, você consegue encontrar empresas novas dentro da mesma empresa ao longo da sua carreira, em árias novas, em países novas, regiões novas, é legal estar em empresa diferente, realmente diferente? Sim, mas você pode procurar essa diferença de desenvolvimento dentro de uma empresa? Também pode, eu acho que eu não sou radical em relação, eu acho que são caminhos possíveis.

Luciano               Você está falando um negócio que é fundamental agora, porque a gente ouve muito essa lenda urbana já, de que hoje em dia não se admite mais, ninguém mais pensa em fazer carreira de longo prazo, que hoje em dia o cara quer mudar toda hora porque tem essa ânsia da mudança toda, aconteceu comigo também, eu fiquei 26 anos na mesma empresa, o pessoal faz a mesma pergunta, como é que, puta cara acomodado, eu falo olha bicho, na verdade eu não fiquei 26 anos na mesma empresa, eu fiquei cinco períodos de cinco anos em empresas totalmente diferentes porque a cada cinco anos ela mudava, ela comprava outra empresa, ela se reinventava, era um período de crescimento muito grande, eu fiquei na mesma área, minha área sempre foi na área de marketing e com todos os, tudo aquilo que era contato com o cliente, que não fosse a venda, esteve comigo na empresa e foi um período fantástico, e o pessoal, mas por que você ficou lá? Eu falo cara, porque estava muito bom, eu estava me divertindo, eu estava fazendo acontecer, aquilo era o máximo e eu tenho o maior orgulho de dizer que fiquei lá e não me arrependo nem um pouquinho, acho que se eu tivesse parado para sair, como aconteceu algumas vezes de eu parar para dar uma olhada e eu olhei em volta falei, bom, o que vai acontecer se eu sair daqui onde eu estou, com a minha carreira, com respeito, com tudo construído e mudar para aquela outra empresa que está me chamando? O que vai acontecer lá? É uma mudança lateral, quanto mais eu vou ganhar, vale a pena? Não, não vale a pena, vale mais eu investir aqui e ali fiz uma baita carreira, que é possível de acontecer ainda hoje em dia e não há nenhum demérito nisso, quer dizer, esse fogo no rabo de que tenho que mudar a cada cinco anos, espera um pouquinho cara, a menos que a empresa esteja estagnada, ou que você tenha sentado em cima de você um animal que não deixa você crescer, que te impede de fazer, não faz e não deixa fazer, realmente você tem que procurar uma saída, caso contrário, tem que abrir caminho lá dentro.

Ricardo               E hoje eu vejo que uma coisa muito importante mudou no nosso dia a dia, com profissionais em qualquer setor, a gente não precisa ter uma carreira. Então eu fui conversar com um jovem, há um tempo e ele estava na dúvida se ele seguia, ele é empreendedor, ele estava na dúvida se ele seguia os projetos dele ou se ele entrava numa empresa grande para aprender, e a gente foi fazer uma conversa bem informal e eu falei olha, acho que essa tua dúvida da decisão, não pense que essa é a decisão da tua vida, porque você vai trabalhar talvez 50 ou 60 anos e você vai poder ter várias carreiras, voltar a estudar, ele falou, eu conheci de fato um ex general do exército americano, eu conheci num curso no México e ele falou olha, me aposentei aos 60 anos e fui fazer medicina que sempre foi um sonho e agora eu trabalho como voluntário, como médico voluntário, eu acabei de voltar do Iraque e ele  falou, eu conheci a guerra sob o ponto de vista do general, do soldado ao general e agora eu conheço a guerra sob um outro ponto de vista que é do médico e é muito difícil ver o outro lado, mas eu fiquei pensando, você vê, ele, 60 anos, ele se aposentou,  não precisava mais de dinheiro tinha uma aposentadoria boa, tem uma carreira de sucesso…

Luciano               Tem tudo para encostar…

Ricardo               … tudo para encostar, fazer, vamos curtir a vida, vamos viajar, ele falou não, não tenho porque me encostar, eu vou fazer outras coisas, eu vou agregar valor à sociedade e a mim mesmo. Então a gente vai ter agora o questionamento, ficar numa empresa, se você vai ficar numa carreira, você pode até fazer várias carreiras, a nossa expectativa de vida aumentou muito, eu lembro que, se pagar 40 anos atrás, os nossos avós ficavam vovôs com menos de 60 anos, eles já próximo de se aposentar. Hoje em dia a pessoa com 60 anos não está trabalhando, você pergunta, mas está bem de saúde, tem alguma coisa? Não tem motivo, se estiver bem de saúde não tem motivo para não trabalhar e então mudou muito a perspectiva de carreira e a questão importante nesse caminho de carreira é a experiência que você leva para você, eu acabei ficando porque, ótimo, eu tinha desafios, eu gostava do ambiente, eu gostava do desafio, eu trabalhei com coisas tão diferentes como cremes para o rosto e tomates, então fala, mas era a mesma empresa, olha, não sei se você pode considerar trabalhar com sabão em pó, creme de beleza e tomate a mesma coisa, eu acho que são coisas muito diferentes, trabalhar com marketing, trabalhar com vendas, são complementares, mas são óticas diferentes, a experiência que você leva em cada pedaço da tua vida é que é o mais importante, o Steve Jobs, ele tem a frase que é uma frase fantástica, ele fala da questão de connecting dots, que ele, na verdade ele olhou para trás depois, ele viu que o que ele fez se conectava, mas ele viu depois, ele não planejou aquilo, ele viu depois, e o que acontece na nossa carreira, é que a gente te que fazer um esforço, a nossa responsabilidade de planejar, mas a gente começa a conectar esses dots, começa a conectar o que a gente fez, o que a gente aprendeu ao longo da carreira, então a experiência é importante e aí entra uma coisa que a gente estava conversando antes de entrar aqui, eu, essa empresa que eu trabalho tem um programa de trainees que é um dos mais procurados no Brasil, é um programa muito bem estruturado, muito sério, muito bom, eu participei.

Luciano               Quantos trainees por ano?

Ricardo               Olha, são milhares de trainees, são milhares de pessoas que se candidatam, ao final você tem 20, 30, 40 pessoas selecionadas, depende do ano. E eu participei, entrei como trainee e depois eu comecei a participar do outro lado do balcão, ajudando a selecionar as pessoas, por cerca de 15 anos e uma coisa que eu percebi muito, que mudou muito nesse tempo é que eu comecei a ver que os currículos hoje que a gente recebe, são muito bons, são impressionantes, a gente tem pessoas que tem, eu acho que tem um ideal, olha, participe da Atlética, fale uma outra língua, viva no exterior, faça trabalho voluntário e as pessoas preenchem tudo o que você poderia imaginar e gera uma expectativa para quem esta lendo o currículo muito alta, vou falar com uma pessoa que tem uma experiência de vida muito alta, muito grande e você vai conversar com a pessoa e muitas vezes você não tem, às vezes você tem, mas às vezes você não tem conexão entre o papel e a pessoa que está na sua frente, eu fiquei, curiosidade intelectual, fiquei pensando, por que isso acontece? O que mudou nesses anos que os currículos mudam e nem todos os currículos levam a pessoas com mais experiência e ei fiquei pensando no meu caso, eu falo bom, eu fiz uma faculdade de administração, uma faculdade muito boa, Getúlio Vargas, fundação Getúlio Vargas de São Paulo, que tinha muita gente na minha turma que eram filhos de executivos ou de empresários, então o problema de dinheiro não era o caso e eu estava conversando, há alguns meses, com meu sobrinho que está estudando na Alemanha, no Ciência sem Fronteira e eu falei olha, aproveite cada segundo da tua experiência aqui, porque isso é muito rico, isso é um privilégio e privilégio a gente tem que aproveitar muito e ele não entendia muito bem e eu falo olha, vamos entender o seguinte, o seu tio, eu, fiz faculdade de administração na Getúlio Vargas há cerca de 25 anos, você sabe quantos colegas meus durante o período de faculdade foram estudar fora do país? Ele falou o que, metade? Eu falei, nenhum, isso não existia, era muito raro, quando a gente encontrava uma pessoa que tinha estudado no exterior, era como a gente encontrar hoje uma pessoa que almoça em casa, a gente admirava, tirava foto…

Luciano               Eu me lembro, na minha época era o Rotary, se você não fizesse o intercâmbio através do Rotary era…

Ricardo               … muito difícil você entrar…

Luciano               … não dava…

Ricardo               … eu falei, então, você vê, quem tinha a oportunidade de estudar fora, de morar fora por um programa ou outro, eu aproveitava cada segundo, porque ele via que era um privilégio, é uma oportunidade única. Hoje em dia é muito mais fácil você ir morar ou estudar, então o valor dessa experiência, ela pode parecer menor e o que acontece é que muitas vezes as pessoas não aproveitam e não transformam a oportunidade em algo profundo que mude a vida dessas pessoas. O meu sobrinho estava contando, que eu perguntei para ele como cidadão, falei o que você como brasileiro tem de compromisso para me trazer de volta, já que eu estou pagando a sua viagem, estou pagando a sua mensalidade aqui, você tem que me trazer de volta alguma coisa, sou um cidadão brasileiro que paga os impostos, ele falou, olha tio, eu na verdade não tenho o mínimo de créditos para entregar, eu falei, mas como assim? Eu imaginei que você tinha que entregar alguma coisa, ele falou não, não tenho, o programa não exige isso, eu falei, mas deveria exigir, deveria exigir porque isso aqui é um privilégio porque a gente tem milhões de pessoas no Brasil que não tem a menor chance, não de vir para fora, não tem a menor chance de ter uma boa escola…

Luciano               Lá… lá no Brasil

Ricardo               … lá, então você que está vindo aqui, você deveria ter um compromisso muito sério de devolver para o país, para a sociedade que está te trazendo aqui, alguma coisa, ele falou, olha, não tem, ele estuda na Poli, ele falou olha, na Poli, se o coordenador nos chamou, nos chamou à responsabilidade, falou olha, vocês são alunos da Poli, vocês tem que sim se dedicar, a gente vai acompanhar o que vocês vão fazer, mas o fato é que infelizmente o programa não exige atualmente isso…

Luciano               Esse é o problema, isso é um problema seríssimo do Brasil que envolve questões ideológicas, envolve uma visão que entende a meritocracia como sendo um crime, que acha que… bom, se eu for aprofundar aqui eu vou ficar maluco. Deixa eu voltar ali atrás uma coisinha que você falou que me brilhou o olho: você falou em curiosidade intelectual, não foi isso? Repita, por favor.

Ricardo               Curiosidade intelectual.

Luciano               Isso é, talvez seja uma das raízes do trabalho que eu faço com o Café Brasil, com as palestras, com podcast, com tudo aquilo que eu faço, é exatamente essa questão… eu até chamo de iscas intelectuais, eu distribuo iscas intelectuais que tem como função fazer com que teu cérebro entre em forma, então eu brinco, eu falo, eu sou um personal trainer de fitness intelectual, eu quero cutucar você, fazer teu cérebro se mexer para que ele fique forte, um cérebro saudável e forte consegue tomar decisões mais apropriadas e eu digo e tem um momento nas palestras que eu digo o seguinte, não adianta nada você ter acesso à informação se você não tem o repertório para dar sentido para elas, quer dizer, que adianta ter ipad novo, computador novo, software, acesso novo, a nuvem. Se eu não sei o que fazer com isso, então essa garotada hoje tem acesso a qualquer informação, em qualquer idioma…

Ricardo               Não precisa ser na Barsa.

Luciano               … a qualquer hora, em qualquer lugar do mundo sem dificuldade nenhuma, tem sistemas que procuram para ela a informação, tem um texto meu antigo que eu falo dos quirópteros, que na minha época da escola, 10 anos, a professora me dava um trabalho que eu tinha que falar, isso é real, aconteceu comigo, o seu tema é quirópteros, os morcegos, pô, o que eu faço, volto para a casa, pego minha enciclopédia “Conhecer”, compro cartolina, compro goma arábica, compro… não era nem Pritt ainda, era goma arábica, compro pincel atômico e lá vou eu navegar e para chegar no quirópteros eu tinha que ficar procurando na enciclopédia o que era uma viagem, porque imagina um moleque de 10 anos folheando aquela enciclopédia colorida, maravilhosa, quando eu chegasse nos quirópteros eu tinha passado pelo Egito antigo, pelas viagens espaciais, pelos dinossauros, eu tinha visto uma porrada de coisa, mas aí eu tinha que ir lá, copiar aquilo, escrever um texto, desenhar, colar, na segunda feira eu levava aquela cartolina toda amassada na escola, botava lá, a professora olhava e dava uma nota para aquilo, hoje em dia a molecada abre o Google, escreve quirópteros, abre não sei quantos sites, copy-paste, cola ali, então elas têm todo o acesso que eu nunca tive, dava muito mais trabalho para procurar mas elas não vivenciam em momento algum o processo de procura e de busca que vai te expor a tudo aquilo que existia na enciclopédia até você chegar na página dos caras lá. Então acho que há uma perda intelectual gigantesca no meio do caminho, existem ganhos fenomenais e eu até bato muito nessa tecla, eu não sei se essa situação eu posso dizer que é pior ou melhor do que era antes, eu sei que ela é totalmente diferente, até porque essa molecada está se preparando para um mundo que não tem nada a ver com o mundo onde eu vivi e que eu já não sei mais como eu vou ficar nele, eu já passei eu sou outro, daqui a pouquinho vai sair um automóvel que eu não posso mais dirigir porque eu simplesmente não sei lidar com joystick e a vida deles é com joystick, então isso está mudando tudo, talvez exija um outro tipo de inteligência que essa molecada está desenvolvendo que eu não tenho. Eu não consigo lidar com seis coisas ao mesmo tempo, os moleques lidam, porém nenhum deles mergulha profundamente como eu mergulho nas coisas, eles são muito mais superficiais, então…

Ricardo               Tem mais amplitude, menos profundidade.

Luciano               … exatamente, então eu não discuto se isso é bom ou ruim, existem teses que dizem que isso é muito bom, outros dizem que é muito ruim, eu fico muito incomodado com isso, mas eu me coloco no teu lugar. Eu acabei de ler uma matéria essa semana, de uma baita multinacional, gigantesca do ramo da farmácia, que anunciou que acabou com seu programa de trainees porque avaliou e falou, não vale a pena, o que está chegando para nós como matéria prima dá tanto trabalho que não vale a pena mais ter esse programa, nós vamos partir para contratação direta de gente com mais experiência, eu li aquilo falei, cara, que absurdo, como é que alguém ganha experiência se você não der a chance de treiná-la, mas eu imagino me colocando na posição de vocês, tendo que sustentar uma marca que é um negócio fantástico, lidando com segmento que lida com comida, coisa que eu boto para dentro da minha boca, ou seja não dá para brincar, não dá para fazer mais ou menos, ou é direito ou não tem e tendo que capturar essa molecada que chega assim na superfície. Como é que é isso?

Ricardo               Primeiro acho que tem um entendimento diferente entre as várias empresas do que é um programa de trainees, ele é um programa que tem um fluxo dos dois lados, na verdade você está pegando um profissional no começo da carreira para desenvolvê-lo e ele pode ou não ficar na empresa, faz parte do processo, mas você está trazendo alguém que tem uma visão diferente da sua, da empresa, para poder fazer um refresh, para refrescar o tipo de entendimento que você tem de fazer negócio, de atender o consumidor…

Luciano               A diversidade de novo…

Ricardo               … na verdade… de novo a diversidade, está vindo um jovem, o jovem ele vem, ele está mais difícil, não é pior ou melhor, ele é diferente e você tem que se adaptar a isso, fala ó, mas o jovem hoje, se você fala para ele, olha, se você trabalhar muito, acordar cedo, se você trabalhar muito, for muito inteligente, dedicado e ficar 20 anos na empresa, você vai virar X aqui, eu falo não, eu quero virar X em dois anos, no máximo, não 20, mas isso é a realidade, o timing das coisas mudou, ele pode ser que ele não fique dois anos ou pode ser que ele fique 20 anos e eu acho que não tem nenhuma regra clara sobre isso, tem gente que entra com a expectativa de ficar, eu entrei com essa expectativa, então eu posso falar, eu entrei na espera de ficar pouco tempo e gostei muito do que eu encontrei, tem gente que entra e não gosta e o melhor para todo mundo é sair, mas esse timing mudou muito e o que a empresa é obrigada a fazer é entender, o que eu preciso oferecer para esse jovem para ele se entusiasmar e entusiasmado ele entregar o valor que eu espero dele, a mesma formula que eu utilizava há 20 anos funciona? Claramente não, qual é a fórmula? Ninguém sabe, mas essa fórmula passa muito por amplitude.

Luciano               E ela é dinâmica, ela muda, eu coloquei no ar hoje de manhã um programa, o Café Brasil chamado “O Hiato da Aspiração” é o nome dele, “O Hiato da Aspiração”, o que é o hiato da aspiração? É a diferença que existe entre o que eu sou e o que eu quero ser, onde eu estou para aquilo onde eu quero estar e lá eu discuto esse assunto, eu falo que o hiato de aspiração que eu tinha quando eu era moleque e fui começar a trabalhar é totalmente diferente de hoje o moleque que entra com a idade que eu tinha para trabalhar, o hiato dele é muito maior porque eu estava exposto a muito menos coisas naquela época, eu não sabia o que era um bilionário e hoje em dia esse moleque vê o bilionário na televisão todo dia, eu não tinha aspiração a ter um carro o que eu queria? Eu quero um carrinho, quero meu Fusca, hoje em dia o cara quer o carro top, eu não tinha ideia do que era ser um alto executivo de uma empresa com tudo aquilo, para mim era olha, eu quero trabalhar numa empresa legal, hoje em dia eu quero ser o chefe, quero ter a mordomia e tudo mais, então o hiato da aspiração aumentou muito e isso cria uma sensação de frustração gigantesca porque é muito mais difícil você conseguir fechar esse vão e eles tem pressa, então eu quero já, não dá pra ser já, e o que a gente encontra é isso, é uma porção de gente assumindo responsabilidades muito maiores do que ela tem capacidade de entregar e uma imensa frustração no final do caminho.

Ricardo               E aí tem uma responsabilidade nossa como pais e nossa como profissionais de ajudar nesse encaminhamento. Então de novo é muito bom ter diversidade, é fantástico para a empresa você ter jovens com uma visão diferente, obriga você a pensar o negócio de uma maneira diferente, mas você tem que clarificar as expectativas, pode ser que seja já, então eu alo, ah, mas o cara do Facebook não ficou bilionário em pouco tempo? Ficou, mas dá para ficar bilionário em pouco tempo? Dá, dá, ele ficou, vai ter outro que vai ficar, vai dar, mas todo mundo vai ficar bilionário? Não. Não vai ficar.

Luciano               É o fenômeno Neymar, existe um Neymar e existem dois milhões de jogadores de futebol cadastrados no Brasil, tem um Neymar, vai ter outro? Vai, só que tem dois milhões aqui que não chegaram lá.

Ricardo               Tem um amigo que fala, olha, a vida é estatística, primeira vez que ele falou isso eu falei, você deve ter bebido talvez uma cerveja a mais, ele falou é estatística porque na verdade você não tem uma segurança do que vai acontecer, você tem a probabilidade, ele falou assim, olha, se eu acordar cedo, trabalhar muito, for um cara correto, eu vou atingir a felicidade, o sucesso como ele chama? É provável que sim, mas é certo? Não, não é certo.  Mas aquele meu colega é um tremendo de um vagabundo, ele não está nem ai para o trabalho, nunca estudou, ele não vai dar certo na vida. Provavelmente não, mas pode ser que dê. Então a vida é uma estatística.

Luciano               Eu fiz uma série sobre meritocracia onde eu toco exatamente nesse tema, que eu falo essa história toda de você confundir esforço com sucesso, falo cara, esqueça o esforço, ninguém está interessado se você se esforça muito, está interessado no seguinte, você cria valor para o sistema, se você criar valor você pode ser um cara bem sucedido, muito bem sucedido, agora, se você trabalha que nem um maluco e não deixa claro o valor que você cria, esqueça, você vai se matar e não vai chegar lá.

Ricardo               Hoje a gente tem ferramentas de trabalho, home office, ah eu vou trabalhar de casa, ótimo, esse aqui não é taxi, eu não pago por quilometragem, eu te pago por entrega, se você vai trabalhar na sua casa ou da praia, ou enfim, não importa, importa o que você entrega e se você fica… a gente respeita a diversidade, tem gente que gosta, se sente recompensado por um trabalho intenso, respeito. Por outro lado pode ser que tenha alguém que seja muito mais eficiente ou faça de outra maneira em vez de ficar 12 horas no escritório, ele faz o mesmo trabalho em seis, ótimo.

Luciano               Mas você entende a implicação cultural que esse pensamento tem, quer dizer, a gente vive, nós vivemos ainda num mundo que tem um modelo de fábrica que tem 1000 anos, tem um lugar que produz coisa onde eu tenho que fazer cada vez mais com menos, tem um chefe me dizendo o que eu tenho que fazer e uma meta para cumprir, isso é uma fábrica, era assim que os caras faziam armaduras na idade média e é assim hoje em dia também e de repente você chega nesse ambiente, que é um ambiente que exige estabilidade, tem regra, todo mundo igualzinho, horário para entrar, horário para sair, etc. e tal ai você fala agora eu vou medir de outro jeito, no teu bolso tem um celular que vai tocar as 11:30 da noite com uma bomba que você tem que responder por que você está ligado no mundo hoje em dia e de repente eu estou trabalhando na minha casa às 11 horas da noite e nem percebi que eu estava trabalhando às 11 horas da noite, eu trabalho no domingo, eu respondo e-mail a qualquer hora, está tudo misturado e virou uma bagunça, quer dizer, a minha vida pessoal com o meu trabalho não se dá para medir mais como media antigamente e esses dois mundos não se encontraram e ainda não se fundiram, só que está acontecendo tudo ao mesmo tempo agora.

Ricardo               É uma pergunta muito grande, todo mundo que inicia uma carreira numa empresa, como é que eu equilibro a minha vida profissional da minha vida pessoal, primeiro que não existem duas, só tem uma vida, todos nós só temos uma, então você vai ter que estabelecer critérios seus, qual é o seu critério? Você prefere trabalhar até mais tarde, chegar em casa e não abrir o computador ou você prefere sair mais cedo, buscar seus filhos na escola e depois, mais a noite abrir o computador? Se você precisar, no caso. Ah, qual é o certo? Qual é o errado? Não tem certo e errado, qual que você se sente melhor, agora, não faça o que o seu chefe faz porque ele faz, porque ele pode estar errado, então faça a sua lógica e saiba que infelizmente a gente acaba correndo atrás do tempo o tempo todo, ás 24 horas elas não se expandiram, acho que foi uma falha de projeto da humanidade, elas deveriam ter se expandido para, pelo menos, umas 36…

Luciano               Ou o mínimo que a gente pudesse negociar um pouco, pô, me dá essa hora, deixa eu comprar um pouquinho da tua hora e toma um pouquinho da minha e vai  lá.

Ricardo               … realmente esse é um ativo de alto valor e muito difícil de negociar, o tempo.

Luciano               E tem o lance ainda da cultura da empresa, quer dizer, você tem que entender em que contexto eu estou me metendo, no momento em que eu fechei negócio com a empresa, assinei o meu contrato de trabalho, evidentemente que não existe um contrato de 150 páginas dizendo como é que eu devo fazer, isso não existe, vou assinar um contrato de trabalho, que ele é muito curtinho, é um papel ali e aí eu vou entrar dentro de um contexto que muda de empresa para empresa, tem cultura, tem empresa que tem como cultura todo mundo se matando, você pega um modelo como o modelo a AMBEV, que a gente sabe que é um modelo de altíssima pressão, é um modelo de resultado que transforma os caras que sobem na empresa em bilionários, não é à toa, pega a lista de bilionários do Brasil, tem uns quatro ou cinco que são AMBEV ali dentro, no entanto exige das pessoas uma entrega que é um negócio absurdo, chega até a ser considerado desumano.

Ricardo               Mas o importante, Luciano, eu acho que cada um, eu acho que temos propostas muito diferentes em muitas companhias, o mais importante é a transparência, é a clareza, porque também não tem proposta ruim, ou boa, melhor ou pior, mas você como futuro funcionário, ou com futuro sócio dessa empresa, você tem que saber o que você vai encontrar…

Luciano               Onde é que eu estou me metendo.

Ricardo               … onde você está…  se você souber e você fala é isso que eu quero, está ótimo, o problema é você ter uma expectativa muito diferente da realidade.

Luciano               Mas foi essa resposta que o pessoal da AMBEV deu quando eles foram questionados no evento que eu estava, eles foram questionados e a resposta foi exatamente essa, cara, todo mundo sabe como é, quem vem aqui sabe como é que funciona, então ninguém está sendo forçado a ficar, não quer sai fora e acabam ficando aqueles que adotam esse sistema…

Ricardo               Que gostam do sistema.

Luciano               … ah mas é… bom, quem ficou é porque aceitou. Deixa eu voltar lá atrás e dar mais uma explorada em você…

Ricardo               Curiosidade intelectual…

Luciano               … é, mas eu quero voltar um pouco lá atrás, eu quero buscar você lá atrás. Você entrou na empresa como trainee?

Ricardo               Como trainee.

Luciano               … você ficou algum tempo lá até você assumir uma área de chefia, quanto tempo levou?

Ricardo               É, o programa de trainees ele, naquela época, você tinha um interfuncional, a gente passava em algumas áreas, depois você entrava numa área afim, então eu assumi, é o que a gente chamava na época, uma gerência, cerca de dois anos depois que eu entrei.

Luciano               Que idade você tinha, você lembra?

Ricardo               26 anos, mais ou menos 26 anos, por volta disso, hoje em dia o programa são cerca de três anos, mas por volta disso. Era, apesar da idade, eu tinha muito pouca experiência profissional e foi uma primeira transformação muito grande, que a primeira transformação é quando você tem uma equipe…

Luciano               É isso que eu queria perguntar para você…

Ricardo               … essa é a primeira transformação

Luciano               … de repente alguém te chama e fala, você vai ser promovido, a partir de amanhã você é chefe, coordenador, supervisor, sei lá que nome deram, aqui está a sua gravata…

Ricardo               Sua pasta.

Luciano               … e amanhã de manhã você vai entrar aqui e esses meninos que são seus colegas, não serão mais seus colegas, serão seus colaboradores e você é o líder dessa equipe, então do dia para a noite você deixou de ser índio e virou mocinho ou o contrário, deixou de ser mocinho e virou índio e entrou num ambiente onde passaram a te olhar diferente. Você estava preparado para isso, alguém te contou como é que era?

Ricardo               Não, não estava preparado, a minha primeira função de liderança relevante foi quando eu fui para vendas, então eram duas quebras de paradigma muito grandes, primeiro que eu realmente não tinha tido uma equipe grande antes e no caso da equipe, uma equipe comercial, eram muitas pessoas, então eram três gerentes que eram muito seniores, tinham muita experiência, eu já falei, eles tinham praticamente a idade do meu pai e tinha coordenadores de venda, vendedores, espalhados por nove estados, no nordeste, promotores, então você tinha uma equipe de 150 pessoas, por baixo.

Luciano               Você estava comandando essa equipe?

Ricardo               Essa equipe, com 20…

Luciano               Caramba, 150.

Ricardo               … com 26 para 27 anos e eu não sabia o que fazer e o que eu decidi fazer na verdade, primeiro foi ouvir, então eu tinha três gerentes, eu vou primeiro ouvir, eu não tinha o que ensinar para eles, mas foi interessante assim, por que eu fui para lá? O meu chefe na época, ele falou, olha, eu estou te mandando para lá e eu sei que você não tem experiência comercial, mas eu vou te explicar porque eu estou te mandando, eu falei por que você está me mandando? Porque eu não quero só que você me entregue o resultado de vendas todo mês, se fosse só para isso eu contratava alguém que a gente chama de tigrão, um cara com muita experiência comercial, que ele sabe como entregar todo mês. Eu vou te mandar lá para você construir a regional do futuro, então eu quero que você coloque tudo o que você sabe a parte analítica, juntar as informações, eu quero que você faça um profundo entendimento do consumidor, do cliente, da equipe de vendas, de como fazer isso se conectar com o nosso futuro, é para isso que você está lá. Agora, não pense nem por um dia que eu vou deixar você não entregar o mês, você vai entregar todos os meses como o outro profissional iria entregar, mas você vai entregar o futuro, se você ficar lá e só me entregar o resultado, você não fez nada. Então era interessante porque eu falava, entregar o resultado para mim era tudo, ele falou não, entregar o resultado dessa forma de entregar a estimativa de vendas todo mês não é nada, você não está indo para isso, isso é sua obrigação, você tem que fazer o resto. Bom, eu tinha três pessoas que tinham muita experiência em entregar o resultado do mês, então eu tive muita sorte, mais uma vez um privilégio, eu tinha três pessoas boas que poderiam me ajudar a entregar o mês, mas eu tinha que entender, então primeiro eu ouvi, eu via, e aí ao longo do tempo você ouviu um cliente, ouviu outro cliente, ouviu a equipe, e aí você começa a conectar outros dots, você começa a conectar outros pontos e aí você começa a perceber problemas e oportunidade e aí você tem que colocar, arregaçar as mangas e começar…

Luciano               E a curiosidade intelectual a funcionar. Você está falando aqui eu estou rindo porque eu acabei de fazer uma entrevista do LíderCast com o governador Confúcio Moura, lá de Rondônia, um cara que está revolucionando o estado de Rondônia, você está me contanto a história eu estou me lembrando dele me contando a encrenca que ele pegou quando ele assumiu, que ele pegou, por exemplo, a secretaria da saúde, diz que aquilo estava uma bagunça, aquilo era uma zona, era um negócio tão bagunçado que ele trouxe o delegado de polícia para ser secretário de saúde e ele falou, cara, eu botei um delegado de polícia e o meu secretário de saúde, durante um período, foi um delegado de polícia, quando ele terminou de arrumar a casa eu botei um cara da saúde no lugar dele.

Ricardo               É que a saúde era um caso de polícia.

Luciano               Pô, você vê, a missão do cara, falou tudo bem, você vai para lá, mas você vai para resolver um outro lado e você estava me contando aqui, eu estou rindo, falo cara, qual é a missão que eu vou lá, “tá legal”, uma coisa é entregar venda mas você vai para um objetivo muito maior que é fazer uma reestruturação completa daquilo lá. E aí, como é que um garoto de 26 anos chega na frente desses “veião” de 50 anos e chega lá, entra na sala sabendo que o cara está olhando para você e falando assim: esse pirralho, eu vou puxar o tapete desse moleque… Como é que você faz?

Ricardo               Olha, eu tive sorte, Luciano, porque eles também viam uma possibilidade em mim, eles sabiam que eu não sabia nada e eu em momento nenhum eu tentei falar sobre algo que eu não soubesse. Falei olha, realmente eu não tenho experiência, eu estou aqui com uma missão, com um objetivo e eu preciso de vocês. Eles me viam como uma conexão com a empresa, porque eles estavam distantes, você imagina, o red quart é o quartel general em São Paulo, às vezes as pessoas vem aqui, de vez em quando, a gente está aqui isolado, sem suporte, sem conhecimento, se você é a conexão com o escritório, você pode ajudar a gente.

Luciano               Exatamente o que me falou aqui nesse lugar onde nós estamos conversando o Mauro Segura, alto executivo da IBM também, diretor na IBM e ele passou pela mesma coisa, mandaram ele para Belém do Pará, garotão, pegou uma turma muito experiente e o que aconteceu com ele foi isso, eu fiz a mesma pergunta, ele respondeu igual a você, ele falou, eu me coloquei como sendo contato deles com a empresa e eu era o cara que podia ajudá-los e aí eu trouxe essa turma para a gente fazer o trabalho em conjunto.

Ricardo               E aí tem os testes para ver se você é gente como a gente, então eu lembro logo nos primeiros dias um dos vendedores me falou, chefe, você almoça com a gente? Eu falei, almoço, claro. Come buchada? Eu nunca comi mas se vocês comem eu como, e fomos lá para o restaurante, acho que na verdade não era nem almoço, acho que era um jantar, era o final do dia, a gente foi para o restaurante, pediram buchada e aí fizeram um teste, naquela época, que era um teste muito difícil, hoje em dia a lógica de trabalho não permitiria mas naquela época, estamos falando de 20 anos atrás, ou quase isso, acabou o trabalho, estamos fora do expediente, chefe, aqui a gente depois do expediente a gente toma uma branquinha, você toma também? Eu falei, opa, mas eu tomo também, vamos lá. O que eles pedissem eu ia fazer, nunca tinha comido buchada e obviamente tomar uma branquinha no jantar não era a minha rotina, era muito mais um suco de laranja, sem açúcar. E aí eu falei, vamos embora, e eu peguei, comi a buchada, suei porque a buchada obviamente não é uma gastronomia…

Luciano               Não é um prato fácil…

Ricardo               … e para a temperatura do nordeste é um prato para se comer no sul. Com frio, mas é um prato típico e a branquinha em cima. E aí eu falei não, estamos juntos, o que for eu vou junto e assim, não é que transformou naquele momento, daí para a frente, não é isso, mas é você vai construindo a imagem que você tem se você é uma pessoa crível ou não, se as pessoas podem confiar ou não, se você está junto ou não, eu falei olha, eu estou junto para o que der e vier, se for para comer a buchada, a gente come a buchada, se a gente não tiver o que comer a gente não come também, a gente está junto.

Luciano               Quer dizer, olha que coisa interessante você está falando, você está falando de relações interpessoais, isso não tem nada a ver com a tua competência técnica, pô se o cara tem diploma disso, daquilo, se ele é um excelente administrador, não tem nada a ver com isso, você está falando de relações interpessoais, nessa hora, na tua frente tem um ser humano, que tem medo, que tem apreensões, que está querendo aprender quem é você e se você não desenvolver isso também, que envolve o jeito que a gente fala, envolve a maneira como você está aberto para receber as críticas ou até os comentários dessa turma toda e tem muita gente que não leva isso em consideração, né? E acha que isso não é parte integrante do propósito, se eu sou um excelente matemático, se eu sou um baita engenheiro, tirei um baita diploma e sei projetar uma ponte como ninguém, eu estou resolvido, não está.

Ricardo               E aí você volta para o ensinamento do Ozires Silva, é muito interessante, a conversa que ele teve com você aqui, muitas coisas me chamaram a atenção na conversa, mas uma foi muito interessante, ele falou assim: o que falta nos cursos de engenharia é marketing, porque o engenheiro não está lá para fazer só o melhor projeto tecnicamente falando porque isso não é o mais relevante, o relevante é o projeto que seja o melhor para alguém, para o consumidor, para uma empresa, então falta o marketing em vendas para o engenheiro, então tem muitas coisas que nas nossas faculdades, nossos cursos faltam, então essa parte da interação interpessoal, esse conhecimento do outro, na maioria dos cursos a gente não tem isso de maneira estruturada, você vai aprender quando? Trabalhando, interagindo, errando…

Luciano               E chegou de novo a curiosidade intelectual, você tem que ir atrás dessas coisas, então eu acho muito interessante isso, outro dia eu fui fazer um evento, era uma faculdade de engenharia, se eu não me engano, era uma coisa assim, a molecada me rodeou lá, vamos conversar, vamos falar como é que é, e aí como é que a gente faz, o que tem que fazer, como é que eu faço para ter… eu falei o seguinte, quem daqui está fazendo curso de teatro? Como teatro? Isso aqui é engenheiro, para com essa conversa toda. Falei teatro, algum de vocês vai fazer teatro? Nem passa pela minha cabeça de fazer teatro. Então eu falei, então vocês estão perdendo uma oportunidade gigantesca que é a seguinte, quando vocês 50 se formarem, nós vamos ter 50 engenheiros que serão capazes de pegar um problema e trabalhar esse problema sob o ponto de vista de um engenheiro, um de vocês fez teatro, e vai ter a capacidade de enxergar como engenheiro e usar um lado do cérebro que nenhum dos outros 50 foi treinado a usar porque não fez teatro e ao fazer essa coisa absurda que é o teatro, trouxe para a sua bacia, para o seu repertório intelectual um tipo de visão que nenhum dos outros tem e que de repente te ajuda a olhar para o problema e enxergar um negócio que ninguém viu porque eles não conseguem olhar com o olhar de um cara que treinou o outro lado. Nenhuma escola vai te fazer isso, você não vai ver escola de engenharia te ensinar teatro a menos que você tenha a curiosidade intelectual para ir lá buscar, eu bato muito nessa tecla.

Ricardo               A gente junta de novo assim, a diversidade dos times, a diversidade do conhecimento, a amplitude então eu vejo uma parte muito positiva na geração que está chegando agora, porque eles tem essa amplitude de conhecimento, o que muitas vezes falta é aproveitar esse acesso, essa amplitude e aprofundar em termos que você tenha interesse. Não adianta ficar só com a amplitude, você, em alguns temas, tem que ter a profundidade, para você jogar bem e a gente sabe que na nossa carreira a gente vai ter funções que tem mais amplitude, então você é um general manager, tem uma função de muita amplitude, mas para chegar lá você teve funções de profundidade, então olha, ele virou um general manager depois de ter passado muito tempo em marketing, com profundidade ou em vendas com profundidade, a gente tem que mesclar tanto a nossa carreira quanto o nosso conhecimento com essa amplitude, essa profundidade, no passado a gente era muito mais a profundidade, a gente tinha… eu vou ser médico a vida toda, vou fazer isso. Hoje o mundo exige, porque tem junto mais desafios, desafios diferentes, amplitude também, mas sem perder essa profundidade, aí voltando à questão da curiosidade intelectual, eu estava conversando com um grupo de trainees, que já estão na empresa, há algumas semanas e eu perguntei para eles quem era Ozires Silva e ninguém sabia. E aí eu falei olha, tem muitos engenheiros, administradores, eu fiquei surpreso, porque eu sou um apaixonado pela aviação, eu sabia porque eu gostava e porque eu estudei e eu fiquei, falei olha, deixa eu falar para vocês uma coisa, vãos conectar uma coisa com a outra, eu acho que se a gente perguntar para uma pessoa de recursos humanos nesta empresa ou em outra empresa, qual é o perfil do profissional de sucesso do futuro, vai ser uma lista tão grande de adjetivos que vão encher algumas páginas e a gente acaba não tendo todos e a gente tem que fazer algumas opções no que focar, eu tenho para mim uma coisa que é a curiosidade intelectual, intelectual e que eu vou juntar com a pergunta que eu fiz para vocês, vocês nunca pararam para pensar? Por que um país que é fortemente exportador agropecuário, de commodities, de minerais, por que é um dos maiores produtores de aviões que é uma indústria de alta tecnologia? Não gera uma curiosidade em vocês? E aí as pessoas pararam, falei é, sim, e se gera curiosidade, a gente tem que satisfazer a curiosidade, é que nem fome, a gente não pode ficar com fome, se você tem dúvida, se tem alguma coisa que não bate, é isso que a gente tem que aprofundar, essa amplitude tem que virar profundidade nesse momento, é conexão entre a curiosidade intelectual e a profundidade, no que eu vou me aprofundar? Naquilo que você gosta, naquilo que você precisa e naquilo que você não entende. Eu não entendo e a curiosidade, não dá para satisfazer com resposta do Google sem entender o que está por trás, então eu conversei com eles, falei um pouco da história da EMBRAER, que é uma história fantástica que todos, na faculdade deveria ser obrigatório entender, porque é uma história de sonho e transformação.

Luciano               Ele sentou nessa cadeira que você está sentado ai…

Ricardo               É uma honra, porque é uma cadeira…

Luciano               … e aí ele, e ao contar aquelas histórias eu ouvia aquilo e na minha cabeça imediatamente eu vi o fosso que separa aquele tipo de gente que ele descrevia para mim que existia naquela época do que nós temos hoje em dia, até porque os sistemas cresceram de tal forma que o que ele fazia naquela época é impensável hoje em dia, pô vou construir a fábrica, general, é naquela área, bota a fábrica lá, cadê o estudo de impacto ambiental, que estudo de impacto, cadê o lance da terra? Que lance da terra. Não tinha, faça e está certo, era um mundo diferente, era um Brasil diferente, mas a gente vê a distância, como é mais difícil, apesar de todas as vantagens que nós temos hoje em dia, você tomar as decisões que ele tomava naquela época e fazer como eles construíram naquela época. Mas você botou um negócio interessante ai, quer dizer, por que o Brasil exporta avião? Porque alguém resolveu lá atrás que ia fazer e fez acontecer.

Ricardo               É, por uma curiosidade na verdade, que era curiosidade assim que o Ozires colocou na conversa com você, por que, afinal de contas, em 1956 o Brasil não construía aviões com projetos próprios se em 1906 o 14Bis tinha voado com um brasileiro? Então isso é um exemplo, curiosidade intelectual, por que isso não tinha conexão e ele transformou essa curiosidade intelectual em um sonho e o sonho em realização, esse é o caminho e é o caminho que nós, profissionais e nós como pais também a gente tem que ajudar as pessoas, os jovens a se direcionarem, você tem que olhar o teu sonho sobre a ótica do que você vai construir e porquê. Qual é a tua curiosidade? O que você acha que poderia ser diferente? Se você tem essa motivação, dá para construir tudo, não pode ficar na mão de alguém para te colocar, então esse é o nosso papel de questionar esse jovem e falar, o que você tem curiosidade, o que você tem vontade, o que você quer fazer? Até para ajudar, porque como a gente falou, o tempo é o ativo mais importante que a gente tem e desperdiçar o nosso tempo ou o tempo de alguém é inaceitável, então muitas vezes é doloroso, mas muitas vezes você dizer para um jovem, falar ó, este não é o teu lugar, é libertador porque você não está perdendo nem o seu tempo, nem o tempo da empresa, nem o tempo da pessoa, então você tem que ter a coragem, a firmeza e a empatia de se colocar no lugar e falar, olha, tratar com respeito, mostrar o caminho e tentar ajudar para que a pessoa não perca o tempo.

Luciano               E a pessoa que recebeu essa notícia de que aqui não é o seu lugar, aquilo não é o fim do mundo, talvez tenha aberto ali na frente o que ela precisava para procurar um outro tipo de atuação. Mas essa coisa que você falou da curiosidade intelectual, isso para mim é ouro e aí você pensa nisso fala o seguinte, como é que faz? Eu estou lançando agora o podcast número 500…

Ricardo               Haja curiosidade intelectual…

Luciano               … no 499 eu faço um programa de preparação para o 500, não foi ao ar ainda e ali eu comento um pouco do desafio que é fazer esse programa e tudo mais, eu faço um desafio lá, falo eu duvido que alguém tenha aprendido mais do que eu aprendi para ter que fazer os programas, você que escuta e que está curtindo o que está aqui não faz ideia do que eu pude aprender ali e outro dia eu parei para pensar, estava fazendo minhas contas, eu falei, cara, eu nunca li tão poucos livros na minha vida como eu leio hoje, porém eu nunca li tanto na minha vida quanto eu leio hoje, mudei a coisa, então ao invés de ler um livro, eu estou lendo muito mais as publicações, estou lendo trabalho na internet, uma porrada de coisa e sou obrigado a fazer uma baita pesquisa para poder colocar aquilo que eu vou dizer no ar, para poder chegar na frente desse microfone aqui e falar bom, vou abrir a boca para falar alguma coisa que não é uma bobagem tremenda, como é que eu vou fazer isso? Eu tenho que mergulhar e exercitar essa curiosidade e no fim do dia o que eu fiz? Eu estudei, o que eu estou fazendo lá? Estou estudando. Então fui montar o programa número 500, onde eu… chama-se “Caleidoscópio” e ali eu conto a história dos Mutantes, que é uma banda que eu curti, uma banda da minha época e que eu pensei que eu sabia a história dos caras e a hora que eu abro aquele mundo diante de mim, junto aquilo tudo e faço um mergulho profundo, cara, eu saí de lá enlouquecido com o que eu vi ali por que? Porque eu fui estudar esse tema e ao estudar esse tema eu pude produzir um conteúdo que vai ajudar uma porrada de coisa, uma porrada de gente a ver aquilo, quer dizer, e vou fazer 60 anos e eu não tenho a menor pretensão de parar de estudar ao longo da minha vida. Eu acho que talvez essa visão falte muito nessa garotada que está vindo aqui e que não está conscientemente colocando essa história de eu vou aplicar um tempo para receber ou para acumular esse conhecimento para quando eu for desempenhar lá na frente e eu ser bom nisso.

Ricardo               Vamos fazer até uma analogia, está na moda falar sobre hambúrguer e aí pegando exemplo do teu filho e conectando vocês dois são moedores de carne, ele transforma num hambúrguer, dentro do sanduíche e você na verdade fica moendo muito conhecimento e a gente para entregar alguma coisa de valor a gente tem que ter muito embasamento, muito conhecimento moído no nosso cérebro para a gente poder tirar algo que tenha valor. Então esse é um processo que demanda disciplina, que demanda dedicação, que demanda energia, não sai nada de graça, não sai nada fácil, esse teu trabalho de pensar em 500 podcasts com profundidade, quanto de conhecimento bruto você não colocou no seu moedor de carne para poder ter aqueles hambúrgueres e no final das contas algumas coisas não mudam, o valor que você pode entregar em qualquer profissão que você esteja, depende do seu preparo, depende da sua dedicação, é a história da estatística, se você se dedicar, provavelmente você vai entregar muito valor, a gente não consegue garantir, mas se você não fizer isso, provavelmente você não vai entregar valor e a questão da expectativa, do timing tem que ser acertado em relação à expectativa da dedicação.

Luciano               Legal a história fantástica aí, você está numa situação privilegiada, porque você é alto executivo numa multinacional, você tem uma… quando eu falo privilégio, quer dizer, você está numa posição que poucos brasileiros estão, que te permite ter uma visão holística da situação do Brasil, você enxerga de uma posição que pouca gente pode enxergar, e está vivendo num país que está essa loucura que nós estamos vivendo agora aqui. Um país que tem, se você for numerar a série de crises, é uma atrás da outra, eu diria até para você que a econômica é a menor delas, o menor problema que nós temos é a crise econômica, ela é sempre consequência de alguma coisa, nós estamos simplesmente pagando uma conta que foi construída por uma série de desses caminhos que foram tomados ao longo do tempo e nesse ambiente maluco onde você não sabe o que vai acontecer amanhã de manhã, eu não sei, quando eu ligar a televisão amanhã de manhã eu não sei que susto eu vou tomar, você tem que entregar resultados e o teu resultado, a menos que eu me engane, ele é medido em dólar…

Ricardo               É em euros.

Luciano               … em euros…

Ricardo               É pior.

Luciano               … é pior. Ele é medido em euros, então você vai se esforçar que nem um animal, a tua equipe que nem um animal, vocês vão arrebentar de fazer e no final do mês vocês vão ser medidos por uma coisa que vocês não controlam, como é que você lida com essa coisa da frustração de conseguir um número físico mas a grana não deu e chegar para um gringo e explicar, não deu porque houve uma desvalorização, porque houve uma mudança e o gringo vai falar, bom, desculpe, você não cumpriu, mas no íntimo eu cumpri. A empresa tem esse conhecimento, como é que você lida com a sua equipe.

Ricardo               Primeiro que a empresa tem o conhecimento, você tem classificações diferentes dos países, você tem países que são classificados como hiper inflacionários, que não é o caso do Brasil, mas que você tem um tratamento diferenciado e você tem países que sofrem esse impacto do câmbio, mas que tem o objetivo digamos, fixado desde o começo do ano. Então isso que há empresas que trabalham de uma maneira muito diferente, então muitas empresas americanas não trabalham assim, muitas empresas europeias trabalham assim, não tem o certo, não tem o errado, tem impactos, então vamos pensar nos impactos, o impacto é, se eu não levo em conta que a desvalorização, por exemplo, ela afeta você no dia seguinte, porque você tem os insumos, então você não está vendendo eu euro ou em dólar, mas o insumo está refletindo o preço internacional daquela commodity, então você vai sentir no dia seguinte. Você não tem controle 100% sobre isso, você tem que ter um compromisso de atenuar o impacto, mas dentro de certos parâmetros que você não desestruture o futuro, vou dar um exemplo concreto: desvalorização de 30, 40%, o que você vai fazer para entregar o resultado 30, 40% desvalorizado? Isso é uma mudança muito grande, você pode entregar desestruturando o ano seguinte, ou você pode talvez entregar menos, mantendo o futuro. Cada empresa tem uma perspectiva, eu acredito muito na perspectiva da empresa, uma empresa centenária, ela não está para o mês, ela não está para uma semana nem por um ano, então ela tem uma perspectiva de longo prazo, essa perspectiva de longo prazo permite à gente fazer o que realmente é o nosso trabalho, que é entregar valor para o nosso consumidor, para o nosso cliente, se eu aumentar o preço em 40% para compensar o câmbio, não o custo, mas o câmbio, eu estou transformando um problema que ficou interno, que é geral, mas que foi interno para um problema do consumidor, custos, nem todos os custos vão ser repassados dessa forma, então você tem que trabalhar com eficiência, ou seja, no final das contas, Luciano, cada empresa tem que trabalhar com muita responsabilidade para não entregar o curto prazo em detrimento do longo prazo, que o nosso papel não é esse, você viu no histórico há uma década a gente teve muitos escândalos em empresas que acabavam privilegiando, priorizando o curto prazo em claro detrimento do futuro eu acho o compromisso correto é como executivo, como profissional, como cidadão, a gente não pode comprometer nem o meio ambiente, nem a sociedade, nem a empresa, nem o profissional, futuro, eu tenho que entregar o presente, em detrimento do futuro é fácil e é ineficaz, o meu papel é entregar o resultado agora e se eu sair amanhã o colega que vier no meu lugar vai conseguir entregar o amanhã, essa é a grande responsabilidade.

Luciano               Isso é um sonho, que se o país fosse administrado assim a gente não teria essa coisa de a cada cinco anos, quatro anos para, muda tudo que vem o outro não sabe o que vem na frente. Como é que vocês lidam com planejamento nessa coisa brasileira, dessa bagunça inteira. Você tem que dar um número para o ano que vem e provavelmente o teu úmero do ano que vem nunca é menor que o número desse ano, a gente sempre sabe, eu tenho eu estar de igual para cima, eu tenho que crescer de alguma forma, e a gente vê essa coisa escura na frente, não sei o que vai acontecer semana que vem como é que vocês…

Ricardo               São duas coisas…

Luciano               … em uma coisa eu quero que você não perca a perspectiva, como é que você faz isso sem brochar a tua equipe?

Ricardo               …  muito bom, porque são duas coisas, primeiro a gente tem que trabalhar com as melhores informações possíveis e a gente sabe que nunca vai ter 100%, nesse caso cenários de país hoje e você pode trabalhar com consultoria, com banco, você tem n cenários, o cenário no mês que vem está diferente, primeiro trabalhar com as melhores informações possíveis para você ter uma base de construção, outra coisa é trabalhar com as escolhas, que a gente costuma falar em inglês o trade off, com as escolhas e falar o seguinte, eu posso, se o cenário mudar? Quais são as opções que eu tenho em detrimento do que? Então eu falo, você vai proteger a tua margem, a tua rentabilidade, você vai privilegiar o teu crescimento, o que eu vou ter que fazer para alterar se o cenário alterar? Então primeiro que a gente constrói, pega informações para construir a base, trabalha com cenários de sensibilidade para ver quais seriam os impactos se o cenário mudar para cima, para baixo e o ponto que eu acredito que conecta essa análise, esse estudo coma motivação da equipe é ter transparência, então eu lembro que no começo de 2014 eu perguntei, a gente estava numa reunião com a equipe, eu perguntei para a equipe, vocês acham que esse ano vai ser um ano fácil ou difícil? Bom, ia ter copa do mundo, eleição, tanta coisa, então metade achava que ia ser uma no muito bom e metade achava que ia ser um ano difícil, pelas mesmas razões, ah a copa do mundo vai ajudar muito, a copa do mundo não vai ajudar nada, enfim, eu falei, a gente não sabe, na verdade a gente vai descobrir no dia 31 de dezembro o que foi o ano, a gente tem um plano mas a   gente não sabe o que vai ser o dia a dia, a nossa responsabilidade aqui é estar preparado para o imprevisto, para a mudança, então a gente tem que ser rápido, esse é o nosso compromisso, ser rápido. Então eu pedi o compromisso nosso aqui de todos, já que a gente não tem certeza e isso aqui foi uma brincadeira nossa para ver que a gente não sabe se vai ser bom ou vai ser ruim, mas que a gente se adapte rapidamente à situação, então eu preciso de cada u dos profissionais que tenha a coragem de levantar a mão, de questionar, de dar ideias, de falar sobre uma outra perspectiva e o que conecta com o começo da nossa conversa sobre a diversidade, a importância da diversidade, que se você tem um time que é pouco diverso e aí falando não só do gênero, de ter mulheres, ter homens, mas ter pessoas com visões diferentes, com backgrounds diferentes, se você não tem diversidade, você tende a ter um time que olha para o mesmo lado e aí durante um ano de crise, que as coisas vão mudando rapidamente, as pessoas tendenciosamente buscam uma linha de solução, você precisa ter um time diverso que te ajude a olhar coisas que você nunca olharia, não pensaria, normas diferentes e para isso você tem que ter um time diverso e o time diverso ele entrega muito valor, especialmente num ano de crise mas obviamente ele não é fácil, é muito fácil trabalhar com pessoas que são…

Luciano               Yes sir

Ricardo               … yes sir, ou pessoas que pensam exatamente como você, que tem a mesma visão. É muito difícil trabalhar com gente que não concorda, que pensa diferente, mas esse é o real valor de um time, ter a amplitude, que a gente conversou, que te permita ter profundidade e aí você está preparado para o que vier, teve um antigo chefe, um líder muito parceiro da organização que já saiu e ele falava, olha, no final das contas a gente nunca sabe se vai dar 10,5 crescimento, 9.8, a gente se prepara da melhor maneira possível, maneira responsável, séria, com profundidade mas o número ele pode variar porque você tem uma operação 190 países, muita coisa pode acontecer, o importante, de fato, não é se foi 9.8 ou 10.2, foi o como, porque o como conecta esse resultado com o resultado do  ano que vem e o que o acionista, o cidadão, até o governo, que cobra imposto, o que ele quer é continuidade, consistência, isso é o que é o mais importante.

Luciano               Coerência.

Ricardo               Coerência.

Luciano               Coerência, sim. Que delícia ouvir essa história toda e saber como é distante essa conversa que nós estamos tendo aqui dos nossos amigos gringos lá fora, que é outro mundo, é outra coisa. Meu amigo, acho que valeu, batemos um papo aqui interessante, se alguém quiser te conhecer, procurar, você tem um blog, já fez seu blog?

Ricardo               Não.

Luciano               Cadê cara, seu blog com as suas experiências? Cadê a sua página no Facebook com as suas experiências e tudo mais. Olha aqui, eu entrevistei aqui o Cássio, que é da editora Reino Editorial e ele terminou a entrevista dele de uma forma deliciosa, ele falou cara, o tesouro mais perdido desse mundo é o livro que não foi escrito, a música que não foi feita, o texto que não foi distribuído, é quando você morre e leva com você embora o conhecimento. Você já tem uns cabelinhos brancos ai, está na hora de começar a botar isso para fora…

Ricardo               Exatamente. Eu gosto muito, as pessoas perguntam você gosta de fazer o que no seu trabalho, eu gosto muito de compartilhar o que eu a prendi que é um privilégio poder passar um pouco do que eu vi, do que eu aprendi ou da experiência com os outros, eu acho que você tem um ponto aí, quanto a gente tem várias formas de compartilhar, quanto mais amplas as possibilidades de compartilhar, melhor.

Luciano               Legal. Muito obrigado pela visita, espero que você tenha curtido ai a conversa, a gente vai falar mais tempo ainda. Um abraço.