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Luciano Pires -

Luciano          Mais um LíderCast. A pessoa que vem aqui hoje é interessante porque ele chega para conversar comigo ele já vem rotulado, na camisa dele está escrito assim “artes”. Olha que responsabilidade, eu vou começar o programa com aquelas três  perguntas tradicionais, para todo mundo eu digo a mesma coisa, essas são as perguntas mais difíceis do programa, então você, por favor, capriche para acertar logo na abertura. Eu quero saber seu nome, sua idade e o que é que você faz.

Rodrigo          Olá Luciano, olá a todos, é um prazer estar aqui e me chamo Rodrigo Guimarães Buchiniani, tenho 36 anos e trabalho com efetivação do direito, seja por meio do circo, ou seja, divulgando.

Luciano          Um advogado que trabalha também com circo. Aí você pergunta o que é que você faz, eu estou esperando ele vir falar para mim assim, eu sou animador, eu sou palhaço, eu sou equilibrista, eu sou apresentador e o cara chega para mim e fala assim, não, eu sou advogado e lido com direito. Cara, que mistura é essa?

Rodrigo          Eu sempre fui estimulado a seguir paixões e fui criado numa família, num ambiente de amor onde desde a infância sempre fui estimulado a trabalhar abstração e a reflexão, então com 7 anos já escolhi que queria fazer o direito e sem saber, por frequentar circo, quando eu tive a oportunidade aos 16, comecei aprender e não larguei mais.

Luciano          Que família é essa? O que seu pai era, o que sua mãe era, como é que era?

Rodrigo          O meu pai é administrador de empresa e minha mãe é assistente social, então sempre fui estimulado ao trabalho e ao estudo e ao trabalho e estudo com responsabilidade, também pensando no outro e que uma qualidade de vida está numa comunidade e não no indivíduo.

Luciano          Você fala para mim, para eu dizer, para eu pensar em duas coisas que são muito diferentes, eu vou dizer o seguinte, primeiro é um engenheiro e um artista de circo, segundo é um advogado e um artista de circo, eu não consigo ver coisas mais diferentes que essas e essa tua combinação, eu quero explorar um pouquinho dela. Primeiro eu quero saber o seguinte, o que te leva para o direito?

Rodrigo          O que me leva para o direito é o sentimento de justiça, o sentimento de indignação, o sentimento de que eu posso realmente mudar o mundo e o direito é uma ferramenta para isso, bem como a arte, muito ais forte, eu diria.

Luciano          A arte surgiu na sua vida antes ou depois do direito?

Rodrigo          Surgiu junto…

Luciano          Junto?

Rodrigo          … porque na infância nós somos expostos a várias realidades, não tenho ninguém na família que é jurista, que trabalha com direito, um primo, uma tia, mas a minha influência é de televisão e de livro, filme, do direito e do circo da família indo ao circo, na infância, então eu acho que eu fui exposto a essas duas realidades e quando a personalidade ali, lá pelos seus 7, 10 anos começa a se formar, eu optei, é isso que eu quero, quero trabalhar com a justiça, aí o circo veio depois.

Luciano          Legal, então é isso o que eu queria pegar com você, porque essa decisão de você fazer direito, ela deve ter pintado na tua vida, está bom, gosto daquilo, acho legal mas chega o momento que você vai falar, muito bem, vou me matricular na escola e você aí devia ter 18 anos, 17, sei lá, que idade você tinha?

Rodrigo          Com 7 anos, num domingo de manhã, família ainda dormindo, eu desci à sala e liguei a televisão e estava passando o filme “Julgamento em Nuremberg”, isso eu tinha 7 anos, não entendi nada, mas aquilo me mexeu de tal forma que é isso que eu quero para a vida, então eu já direcionei a vida ficada para ciências humanas e aplicação do direito.

Luciano          Pô que interessante isso já é um planejamento estratégico que surge lá atrás, que você junta duas disciplinas que normalmente andam separadas, até não se conversam muito, elas não se falam muito, mas você já teve uma visão interessante, que era usar o direito como uma ferramenta para poder, digamos, eu não sei se está certo essa aspa que eu vou botar aqui, defender essa questão toda da liberdade de tomar as decisões, de você poder usar o criativo e tudo mais, estou certo eu? É por aí?

Rodrigo          Super certo, o trabalhar com a arte significa o que? Estimular a livre iniciativa, estimular a criação, estimular o rompimento de determinadas barreiras morais, a arte tem a função de cutucar a sociedade para reflexão e o circo faz isso há milênios.

Luciano          Você estudou direito aonde?

Rodrigo          Na FMU, minha pós graduação em direito tributário voltado para incentivo fiscal à cultura na FMU em 2008 e concluí o mestrado semana passada na PUC em “Liberdade de Expressão Artística no Espaço Público, uma Interpretação Constitucional”.

Luciano          Meu pai do céu. Vai dar um samba bom aqui hoje. Deixa eu te perguntar uma coisa, você está frequentando uma escola de direito, sentado no meio de 40 carinhas, 30 carinhas, 50, sei lá quantos eram, onde esse teu discurso não cai muito bem, eu imagino que você devia estar, o pessoal não entendia muito bem o que e que você estava fazendo lá. Era assim, existia…

Rodrigo          Sim, até hoje.

Luciano          Continua assim.

Rodrigo          Até hoje, entrei na faculdade de direito em 2001 e já estava no circo, então primeira semana de faculdade eu andei de perna de pau no pátio da faculdade, festas universitárias, jogos jurídicos, eu sempre fui e levei os malabares, cuspia fogo, andava de perna de pau, então nesse sentido eu consegui muita abertura com os alunos e com a faculdade, no entanto, quando eu abria a boca e defendia liberdade de minoria, de qualquer uma, a livre possibilidade de emitir opinião, romper paradigmas, buscar, exigir do professor explicação melhor, então os alunos não me entendiam em muita coisa, os meus colegas de sala e até hoje, me taxavam de coisas preconceituosas, coisas do século passado, porque eu estou falando de minoria significa que eu concordo com ela, não, significa entender que tem o espaço do humano que todo mundo tem o seu lugar, mas por outro lado, professores que são juízes, desembargadores, promotores, advogados, todos me acolheram, todos me deram conforto e o espaço para eu desenvolver essa junção entre direito e a arte.

Luciano          Como é que é ser o diferente da turma? Você ser o cara que quando você chega você sabe que os olhares não são os mesmos olhares que todo mundo dá um para o outro porque afinal de contas são todos iguais e aí aparece esse louco…

Rodrigo          Aí aparece alguém de bermuda, com rastafari e entra numa sala que está todo mundo engravatado.

Luciano          Pois é, e aí, como é que é isso?

Rodrigo          Olha, o que me ajudou era o fato de eu ter levado o entretenimento circo para dentro da faculdade, dentro das festas, então isso criou uma aceitação, ah ele é o artista ele pode.

Luciano          Que é o equivalente àquele esquema do… meu filho foi para os EUA e foi fazer um intercâmbio lá, foi para Chicago, se enfiou numa escola lá no centro de Chicago, foi difícil ele se enturmar ali, porque era um brasileirinho branco numa escola com a maioria de negros, ele tratando todo mundo igual, porque é o esquema do brasileiro e ele vai lá, a primeira coisa que ele faz é pegar o cabelo dele e fazer o cabelo dele trabalhado que nem cabelo de negro e ele vira uma figura que ninguém entende porque é um branco que está como um negro, e não é negro e está… ficou uma confusão até o dia que botaram uma bola na frente dele e ele começou a jogar bola e aí era o craque do time…

Rodrigo          Aí foi aceito.

Luciano          … pronto, foi aceito por todo mundo. Então, que interessante esse negócio da…

Rodrigo          Do imaginário.

Luciano          … pois é mas de você no momento em que você manifesta um talento, que é um talento que não é comum a todo mundo, você automaticamente passa a ser aceito por aquele grupo. Mas ser aceito é uma coisa, ser levado a sério é outra, como é que você lida com isso, tem algum momento que você pô, eu tenho que provar…

Rodrigo          Durante… 2000 eu iniciei faculdade e junto com isso eu fui para o farol jogar malabares no farol, na Faria Lima com a Juscelino Kubitscheck…

Luciano          Para que?

Rodrigo          … eu precisava treinar malabares e também com malabares de fogo significa custo, então eu não tinha dinheiro para ficar treinando no parque, então o que eu optei? Ir para o farol que lá eu ia ter o dinheiro do querosene, da condução e do alimento.

Luciano          Eu não posso deixar de fazer um comentário aqui. Atenção você que como eu é um coxinha e está nos ouvindo aqui agora no seu carro, você que parou no farol e tem um carinha jogando malabares na tua frente ai, esse cara pode ser um estudante de direito, que está ali honestamente trabalhando e essa moedinha que você vai dar para ele aqui agora, ele vai usar para pagar as necessidades dele, inclusive para poder continuar fazendo curso de direito dele, olha como essas coisas mudam a perspectiva da gente, mas muito bem, você vai e… eu estava esperando que você dissesse para mim que você se formou em direito, pegou o diploma e  foi cuidar da sua vida, mas não, você fez a pós, você fez o mestrado, é isso?

Rodrigo          Saí da graduação com um livro publicado, a minha monografia que num primeiro momento chamou “Direitos e Garantias para o Circo”, sobre o enfoque do patrimônio cultural e material e da ação popular, ganhou um prêmio do governo federal que viabilizou a publicação e que veio a se chamar “A Palhaçada no Direito Jurídico no Circo”.

Luciano          É o nome do livro?

Rodrigo          É.

Luciano          “A Palhaçada no Direito Jurídico no Circo”, cara que interessante.

Rodrigo          Então o respeito é claro que trabalhar com arte na sociedade, muita gente ainda não acredita, mas São Paulo é uma cidade conservadora, então quando o ser humano que se propõe a fazer qualquer coisa, tem uma postura de dignidade, uma hombridade e uma educação, o respeito vem. Ele vai encontrar uma fase de conflito, de não entendimento.

Luciano          Que é o choque, o momento do choque.

Rodrigo          Que é o choque. Mas o circo e o direito ensinam a resistir e com o tempo e com as pessoas vão vendo que aquilo que você fala é aquilo que você vive, aí o respeito vai vindo e as coisas vão acontecendo.

Luciano          Você pratica o direito hoje? Você advoga, você tem…

Rodrigo          Advogo, tenho escritório, advogo para a arte, para o entretenimento, em todos os seus aspectos. O artista está tocando, a vizinha chamou a polícia porque tem barulho, estou lá ajudando o artista. É para analisar um contrato com uma grande gravadora, ah vamos ver aqui os aspectos de direito autoral, os aspectos de licença, os aspectos de liberdade artística, os aspectos de controle da dimensão da onde está indo essa assinatura, está bom, é para o meio virtual, mas virtual aonde, só Facebook? É tratar essas balizas, então ser artista e produtor ajuda também desse outro lado, de saber a complexidade que é, tanto um quanto o outro.

Luciano          Coisa interessante que você está me contando, estou viajando aqui, eu consigo ver você num determinado momento dividido em dois, quer dizer, um lado é tua mente racional, tomando a decisão de seguir pelo direito, porque aquilo vai ser uma tremenda ferramenta para você lá na frente e do outro lado eu vejo o coração abraçando a arte, abraçando o circo e falando é aqui que eu quero, minha caixa de brinquedos é o circo, minha caixa de ferramentas é o direito. Como é que você contrabalanceou essas duas coisas, porque normalmente é complicado, as pessoas tendem a jogar tudo num lado só e deixar o outro… como é que você equilibrou essas duas coisas ao longo da vida?

Rodrigo          Bom, eu nunca tive carteira assinada, então nunca fui empregado de ninguém, então eu fui formado para ter um espírito livre, de seguir minha paixão e minha paixão também significa estruturar o meu negócio. Então, desde a infância, sempre fui disciplinado com dinheiro, seja o dinheirinho do final do ano que ganhava do tio, eu dividia em três, uma para eu usar agora para comprar bala, o outro para daqui a alguns dias e o outro para um tênis que eu queria, que eu sabia que eu ia ter no final do ano, então passava o ano inteiro nessa didática.

Luciano          Quem te ensinou isso?

Rodrigo          Ah, aprendi em casa e desenvolvi sozinho. Seja pelas necessidades que a família viveu ou pelos locais de ensino que os meus pais me colocaram, eu estudei na Escola Pacaembu, depois estudei no Dante Alighieri, depois eu fui para a FAAP, depois fui fazer direito e estou fazendo direito na PUC, então eu já parto de bases de partida de ensino que já estimulam também ao empreendedorismo, tem um medo enorme, um medo enorme de não conseguir pagar conta, de não conseguir estruturar a família, de não conseguir… mas se até hoje eu estou conseguindo conciliar e estar abrindo portas, seja do plano do direito dentro da própria OAB, que a gente está numa batalha de criação de uma comissão para estudar melhor o que significa o circo, parques, enfim, e a gente espera que a OAB aprove como também na militância direta, de socorrer o artista ou como produtor, que agora que a gente tem a “Noite da Rose” e a sociedade começar a entender, os convites começam a aparecer, inclusive financeiro, então a gente vai equilibrando com planejamento, eu sei que hoje eu tenho, amanhã eu não sei, então se hoje eu tenho eu vou dividir em três.

Luciano          O teu pai era empregado de algum lugar ou era dono do seu próprio negócio?  Ele tinha um emprego?

Rodrigo          Sim. Tinha. Meu pai trabalhou para a Volkswagen, para a Honda e hoje ele trabalha para uma empresa de representação de produtos para laboratório.

Luciano          E tua mãe?

Rodrigo          É assistente social…

Luciano          Mas também trabalha para uma empresa?

Rodrigo          Minha mãe foi servidora pública federal.

Luciano          Nenhum dos dois tem esse espírito de ser empreendedor?

Rodrigo          Mas os meus avós tem.

Luciano          Seus avós tinham. Eu gosto de investigar isso aí para ver, cadê o espelho? Onde é que você olhou e falou eu vi ali e vou atrás daquele caminho lá.

Rodrigo          Quando o ser humano vem ao mundo, o DNA já vai direcionar muita coisa e o ambiente que ele está imerso vai reforçar isso ou vai dar para um outro lado, então meus pais nunca foram empreendedores, mas meus avós, a tradição italiana por parte de pai, todos, a tradição portuguesa e nordestina da minha mãe uma boa parte, então eu acredito que o DNA, a transmissão de força de conhecimento está no DNA sim.

Luciano          E eles já sabiam que você ia seguir por esse caminho da independência e tudo, eu quero dizer assim, o dia em que você foi na colação de grau, que você estava bonitinho lá…

Rodrigo          Não, estava de sapato de palhaço, buzina…

Luciano          … não botou nem na cabeça o.. para receber o canudo.

Rodrigo          … recebi…

Luciano          … chegou para a sua mãe, mãe está aqui o canudo, todo mundo te abraçou, etc e tal, provavelmente eles tinham um tipo de expectativa, eu queria saber que expectativa era essa deles, é que agora o moleque vai voar, ou não, agora ele vai arrumar o emprego dele.

Rodrigo          Olha, um aprendizado, meus pais são fantásticos, a expectativa deles, seja comigo ou com o meu irmão é: você está feliz na sua escolha? É o que basta. No meu caso, não abri mão do direito e o direito e a arte sempre pagaram minhas contas e sempre me permitiu continuar trabalhando com isso, então eles não tem sofrimento.

Luciano          Não tinham na época né?

Rodrigo          Não, mesmo na época viu, porque eu sempre estagiei, sempre…

Luciano          Você mostrava para eles que havia uma responsabilidade, você deixou isso claro sempre que, espera aí, eu não sou um maluco, eu estou de perna de pau aqui, mas não sou o louco que vai sair por aí se jogando no precipício. Sabe que meu filho, quando ele resolveu que ia fazer a faculdade, acho até que contei isso em algum programa, não me lembro mais, mas vou contar de novo para você, ele estava no colégio e decidiu fazer faculdade, ele chegou para mim e falou pai, eu já decidi o que eu vou fazer, eu quero fazer artes plásticas, quando ele falou para mim artes plásticas, na minha  cabeça eu vi meu filho como um hippie, na Praça da Sé, vendendo miçanga de bolsa e conga, com o filho dele de bata, fodido, entendeu? Eu ouvi ele falar aquilo eu falei, meu Deus, o que eu vou fazer,  esse moleque vai fazer artes plásticas…

Rodrigo          Que pedra que eu atirei na cruz?

Luciano          … porra… então primeiro veio o puta susto, aí eu parei depois do susto falei muito bem, vamos lá, vou ver as coisas que eu aprendi ao longo da vida. Eu tenho alguns amigos que são muito bem sucedidos ao longo das carreiras e usei dois exemplos que eu tenho  muito legais, um deles fez  agronomia, se não me engano, fez agronomia, não tinha nada a ver e  hoje é um baita consultor de empresas, focado em aquisições de empresas, a parte financeira das  empresas e vem de uma escola de agronomia e eu conversando com ele falei cara, o que tem a ver uma  coisa com a outra? Ele falou foi fantástico, o fato de eu ter feito agronomia me dá a chance de enxergar o problema por um ângulo que nenhum dos meus amigos que fizeram economia conseguem enxergar. Eu vejo coisa que eles não veem eu me adaptei aqui e estou super bem. O outro fez química, se formou em química e não sabe a diferença, sei lá, ele não sabe nada de química porque o dia que ele se formou em química, ele entrou numa empresa, foi trabalhar em vendas, bom, o cara virou presidente de empresa nos EUA, é um executivo super bem sucedido e que não tem nada a ver com a  formação de química dele. Aí eu virei para o meu filho falei bom, legal, você quer fazer, qual é a melhor escola de artes plásticas aqui no Brasil? Pô pai, é a FAAP. Legal, se você passar vai fazer. Passou, foi fazer, foi, tirou o seu diploma de artista plástico, foi trabalhar numa produtora de vídeo, virou diretor de criação da produtora de vídeo que eu olhei para aquilo e falei puta, já… que legal, ele está como diretor porque ele tem uma formação que vem da área de artes plásticas, funcionando e hoje está montando um business focado, eu não vou me lembrar o nome daquilo mas é o seguinte, ele faz hambúrguer e ele montou um business que é focado no encontro das pessoas, num determinado dia ele reúne num lugar X pessoas  e lá tem um evento em que ele vai fazer um  hambúrguer, que é um hambúrguer espetacular e aquelas pessoas durante 2, 3,4 horas vão se conhecer, gente que nunca se viu na vida, que tem em comum amar o hambúrguer e aquilo vira um evento que tem tudo a ver com relacionamento e eu vejo aquele moleque e falo cara, esse é o moleque que foi fazer artes plásticas lá atrás, ou seja, o que ficou de lição para mim é muito claro, a formação tem que ser boa e não importa em que é que você vai fazer, não interessa se é matemática, se é geografia, cara, faça formação boa, lá na frente isso vai refletir de algum outro jeito, o importante é que a formação seja boa e o fato de o teu menino escolher fazer…

Rodrigo          Permite ver o que ninguém vê.

Luciano          … claro, ele tem visões que as pessoas não tem e a gente tem uma sociedade que está muito acostumada, eu vou fazer engenharia e logo serei engenheiro e vou me aposentar e vou morrer como engenheiro lá na frente, cara, não é bem assim, talvez a profissão que esta te esperando lá na frente nem existe ainda, o dia que você se formar vai ter um treco que ninguém faz ideia que existia, cabe  a mim como pai sabe, não tolher a acho muito legal isso que você falou que os seus pais sacaram a jogada e falaram moço vai, mas houve uma contrapartida, eu tenho certeza que eles foram assim porque eles viram que você era um cara que demonstrava ter responsabilidade. Muito bem. Vamos ao circo?

Rodrigo          Vamos.

Luciano          Muito bem, aí como é que o circo entra na tua vida?

Rodrigo          Bom… na infância, mas eu me iniciei no circo aos 16 anos, no colégio, já havia amigos que praticavam malabarismos e pirofagia, que é a técnica de cuspir fogo, me aproximei deles e a gente montou um grupo de treino e de ensaio e ficava, na hora do recreio, ensaiando, viajava para a praia e ficava ensaiando. Aí começaram os primeiros convites, então o pessoal via uma trupe mambembe de circenses ensaiando na praia, chamava para fazer a mesma coisa dentro da casa noturna. Aí começou também um diálogo com o dinheiro, com o poder econômico, foi passando o tempo, eu me mantive nesse diálogo com a arte circense, fui fazer recreação infantil, mas sempre com o circo, aí dos 18 aos 21 isso. Aí eu entrei na faculdade de direito, rompi com o trabalho de educação, de trabalho infantil, porque o que eu fazia? Tinha um restaurante, aí montava pintura, montava e ficava lá cuidando, aí quando eu entrei na faculdade rompi com isso, comecei a estagiar e comecei a ir para o farol e junto com isso, lá pelos idos de 2002, 2003, eu me vi num coletivo de circo chamado “Circo no Beco”, que existe há 12 anos na Vila Madalena, que também são circenses que ocupam o espaço público e lá eu fiquei por sete anos. Lá no “Circo no Beco” eu produzi mais de 50 espetáculos e três festivais de circo, espetáculos de rua, com muitos parceiros e todos independentes, ao chapéu, paralelo a isso…

Luciano          Ao chapéu significa? Vou fazer uma performance, tem o chapeuzinho onde as pessoas vão jogar alguma coisa ali dentro.

Rodrigo          … isso, porque faz parte também da formação de público, o período da ditadura militar fez com que gerações se afastassem do espaço público, então pós 88, que é a minha geração, eu sou de 79, mas no espírito aí da anistia, já tem uma consciência de pessoas que estão buscando esse encontro com o espaço público e o chapéu é um diálogo real e efetivo com essas duas possibilidades, do transeunte e da arte. Continuei no farol, comecei a treinar uma técnica aérea que é corda lisa e hoje estou completando nove anos de dedicação em corda lisa, as criações artísticas passam por temática étnica e brasileira, então tem um número que eu misturo capoeira com o circo, ah, junto com a faculdade eu fiz capoeira também, 11 anos de capoeira, então ia para a faculdade, ia para a capoeira, ia para o farol, ia para o estágio, estudava…

Luciano          Deixa eu te dar uma provocada legal aqui, o esquema aqui é esse: provocação na boa aqui. Cara, mundo está caindo lá fora, entendeu? Está uma loucura, tem gente perdendo emprego, os caras estão morrendo na esquina, tem o Zica vírus, choveu e caiu um negócio, vão prender o Lula, está uma confusão sem tamanho aqui e você está na praça com a cara pintada, jogando uns pauzinhos para o alto, que puta bobagem, o que vai mudar no mundo você lá na praça jogando os pauzinhos para o alto, esperando o cara botar um tostãozinho no teu chapéu?

Rodrigo          Olha, muda toda a sociedade, eu acho que o Brasil enfrenta um momento de efetivação de democracia mesmo, se o Brasil está em caos, então está tudo certo. Quando parar essas discussões e essas tensões e essas ansiedades, aí a gente vai entrar num outro grau de desenvolvimento e que a arte serve para mostrar isso. Calma, o tempo não é o do imediato, as coisas não precisam ser a ferro e a fogo, o simples fato de o cara tirar o olhar do celular assim porque fulano está preso e vê o palhaço ali, já traz uma outra perspectiva de relação com o tempo e de esperança, o fato do chapéu é uma construção social. Na Europa isso já existe há séculos, lá na Europa, quando uma família vai consumir um espetáculo de rua, cada um pelo menos tem 50 reais ali para colocar no chapéu, então só aquela família já leva 200, vai pensando em reais, aqui  ainda está muito longe, porque? O pessoal está acostumado de que cultura é em shopping center, gastar com estacionamento, pipoca e cinema, eles ainda não tem a formação ou educação de base de entender que eu também posso ter a arte aqui no meu bairro e vou contribuir de igual como se fosse no shopping.

Luciano          Você está falando uma coisa que para mim é caríssima, para mim, porque ela tem a ver muito com o trabalho que eu faço. Eu faço um podcast e podcast, por tradição, como a maioria das coisas todas da internet é de graça, você faz e dá, faz o blog e dá, escreve e dá e está todo mundo acostumado com o dá e na hora que você fala bom, isso aqui custa manter, eu preciso de uma grana, vem cá, você  está gostando? Estou. Então dá uma retribuição para mim, uma bobagem. Ah pô, já está pedindo esmola, começou, por que eu vou pagar por isso ai? Então no meu ponto de vista eu diria que a discussão toda está na incapacidade que algumas sociedades, a brasileira e é assim ainda, tem de enxergar valor naquele cara que está de cara pintada na rua e que parou na frente do farol e fez alguma coisa ali durante alguns segundos, eu olho para aquilo e não vejo valor nenhum logo, se eu te der uma moedinha será uma esmola, não será a minha contribuição para dizer para você Robson, obrigado, você me deu quinze segundos de prazer, eu tirei o olho do celular, eu esqueci dessa loucura toda porque eu vi você fazendo um negócio com um puta talento e eu estou sorrindo, isso aqui vale, toma, eu estou te retribuindo, não importa quanto eu estou te dando, eu estou te dando como uma retribuição pelo valor que você acabou de me dar. Essa…

Rodrigo          Esse é o ideal.

Luciano          … esse é o ideal e quando você falou aquela história da Europa, me parece que lá há essa… o cara que chegou falou muito bem, estou indo lá para alguns momentos de diversão, quem me der essa diversão merece que eu dê de volta o valor porque eu reconheço o valor que você me dá. E aqui a gente está muito longe disso, as pessoas não reconhecem o valor e fazem questão até de tirar uma vantagem, porque, e eu cansei de ouvir isso, imagina que eu vou pagar para baixar o teu programa, eu falo cara, trinta minutos de conteúdo, eu tive que fazer. Ah mas você já botou patrocinador ai, você não precisa. Essa discussão do valor está totalmente desandada e eu acho que isso é uma grande explicação das situações que o Brasil vive hoje, é a incapacidade de valorizar as coisas corretas, não tem senso de… não tem uma escala de prioridades, o que é valor. Então eu olho para aquilo, eu sou capaz de gastar 200 reais para entrar numa balada, eu pago 15 paus numa cerveja quente, compro o DVD de plástico de um grupo de acrílico que toca uma música que é um funk de mentira e saio de lá, acabei de deixar 400 paus lá dentro, vou embora para a casa e aquilo tudo desapareceu e aí na hora que eu vou comprar um livro, puta cara, 30 reais é muita grana para pagar num livro, eu não consigo ver valor no livro e eu vejo valor naquela macaquice toda, então tem alguma coisa errada nesse processo e eu acho que isso torna a tua vida como artista mais difícil, me fala disso.

Rodrigo          É verdade, as pessoas hoje em dia, eu acredito que seja por força da evolução da tecnologia, eu acho que o mundo virtual, acho não, tenho  certeza, a internet veio a desequilibrar a relação de tempo e de conteúdo das pessoas. As pessoas hoje vivem num universo cheio de conteúdo, mas é todo conteúdo que chega nelas e do conteúdo que chega, as pessoas absorvem? Lá na Praça Roosevelt, quando a gente faz a “Noite da Rose”, isso fica muito claro, você tem duas horas de espetáculo que as pessoas não olham para o celular, as pessoas precisam desse conteúdo, as pessoas,  quando elas confrontam com a arte ali na Praça Roosevelt  é nítido de ver como as pessoas querem cultura e  querem conteúdo, às  vezes parece uma bobagem o palhaço tropeçar, mas não, a pessoa está se identificando no erro, pô, errei com meu filho, errei com a minha esposa…

Luciano          Até porque aquele tropeção é estudado…

Rodrigo          Muito estudado.

Luciano          … ele é muito… ele…

Rodrigo          Por anos ele é repetido, ele é dosado para quando feito, buscar a sensação e explosão do sentimento mesmo. Bom, com relação ao conteúdo e poder econômico sim, o artista aqui no Brasil, ele tem que ser multi facetário, ele tem que trabalhar para várias companhias, ele tem que fazer festinha infantil, ele tem que ir para o farol, ele tem que… mas a  realidade do artista não é tão diferente quando do assalariado também, ou ele tem que ter uma disciplina com  esse orçamento e com essa opção de vida, ou ele vai ser engolido pelo consumo e pela vontade dos outros. Então os artistas… existe um mercado só de  artistas, existe também um mercado de artistas novos chegando nesse mercado e o que falta para o artista realmente conseguir sobreviver desse mercado, é  ele se preparar enquanto empreendedor, porque quando ele estiver preparado como empreendedor, ele vai entender aonde buscar esse recurso econômico.

Luciano          O que é uma equação complicada, porque eu sou um artista, eu quero me entregar de corpo e alma à minha arte, não vem me falar que eu preciso falar com banco, eu vou ter que fazer uma planilha, não me enche o saco, eu sou artista, me deixa compor, me deixa extravasar a minha  arte, não  me enche o saco com fazer conta e essa equação é complicada, não é?

Rodrigo          É, eu como artista penso diariamente sobre essa agenda e como eu organizo isso, porque realmente demanda um tempo enorme de  vida ter que fazer reunião com contador, com banco, com trocar e-mail, pagar conta, isso desanima todo o lado criativo, mas uma coisa que eu me policio é eu tenho que ter equilíbrio em tudo na vida, então eu, para a minha arte, eu preciso de duas horas por dia, duas horas por dia não é absurdo para ninguém, com duas horas  eu consigo meditar, consigo aquecer, consigo fazer preparação física para aquilo que o circo me pede e ainda consigo pesquisar música, criar figurino e quando tem os treinamentos no aparelho, já está tudo focado e tudo reservado para esse espaço que é só da arte, então chega um momento que eu desligo o celular, pode estar correndo prazo, pode estar mas eu posso pagar multa mas me dou esse respeito de ter essa disciplina da criação.

Luciano          Então disciplina, essa é a palavra chave que você colocou aí, quer dizer, aquele momento, eu estou fazendo um programa agora aqui, eu estou montando o programa número 500 do Café Brasil e ele trata dos Mutantes, conta a história dos Mutantes e logo na abertura do programa, lá no comecinho dele, eu boto um pedaço lá em que o Sérgio Dias, que é um deles, ele vem e ele conta a história da guitarra dele que foi construída pelo irmão mais velho dele, que o cara era um… o apelido dele era Professor Pardal, ele construía os instrumentos porque ele não estava satisfeito com as guitarras naquela época, então o que ele fazia? Ele pegava as guitarras que existiam, desmontava aquilo, media tudo, ele foi estudar a dinâmica do instrumento do Stradivarius e montou guitarras e o Sérgio Dias diz o seguinte, nem os Beatles tinham o que nós tínhamos aqui em termos de ciência de instrumento musical. E eu coloco aqui, falo o seguinte, dá uma pausa aqui, vocês estão sacando o que eu estou falando aqui? Os Mutantes não eram três meninos  talentosos que sabiam fazer música. Era isso, mas tinha por trás uma preocupação com o envolvimento, com a parafernália técnica, com  a capacidade de você inovar, inclusive das coisas que estão em volta, a  organização do ambiente onde eu vou estar, a questão da iluminação, eles tinham uma  visão e fala, isso aqui é um grande espetáculo onde um pedacinho sou eu entregando a minha arte, em volta de mim tem uma organização que se eu não pensar nela, no mínimo ou no máximo eu serei igual a todos os outros que estão comprando isso pronto e trazendo para cá e você está me falando uma coisa muito parecida, quer dizer, é uma disciplina que tem que estar a serviço de você e não você atrelado a  ela, quer dizer, não é  por eu terá disciplina que eu deixo de ser um artista, pelo contrário, eu estou tornando mais efetivo o meu trabalho se eu seguir essa disciplina, cara não é fácil hein?

Rodrigo          Não, requer muita renúncia, muita renúncia.

Luciano          Me fala da renúncia.

Rodrigo          Ah saber que os amigos vão viajar e vão festejar a vida por uma semana e falar não porque eu tenho que seguir uma rotina de treino, porque se eu ficar cinco dias sem mexer o corpo eu já perco o rendimento e isso me custa três meses de disciplina, ou quero comprar uma roupa nova mas não tem que comprar um equipamento porque é isso que vai garantir minha vida.

Luciano          Eu entrevistei, nessa cadeira que você está sentado aí, o Kiko Loureiro, Kiko Loureiro é um baita guitarrista que foi agora para o Megadeth nos EUA, é hoje considerado um dos grandes guitarristas do mundo e ele conta a história dele, de como é que ele saiu ali de um bairro de São Paulo e falou, serei um dos maiores do mundo e vou treinar para isso e ele fala, e chega um dia que eu fui colocado na parede, minha namorada chegou, ou a guitarra ou eu e ele falou, a guitarra. E hoje o cara é um dos maiores do mundo. Mas, ele  fala exatamente disso, eu renunciei a tudo aquilo que acontecia em volta porque eu tinha um foco, eu serei um dos melhores guitarristas do mundo. De novo, não é fácil, isso não é muito de brasileiro não, brasileiro tem um esquema de vai levando e do jeito que der a gente faz e dá um time que, você está fazendo um regime, para, é só hoje, dá uma cervejinha ai, a gente leva na flauta. Me fala desse projeto que você está tocando hoje então, como é o nome dele?

Rodrigo          Ah… “A Noite da Rose”, circo, começou em fevereiro de 2014, do encontro de três amigos na Praça Roosevelt. A Praça Roosevelt foi reinaugurada faz três anos e desde a  reinauguração já existe uma ocupação de circenses na praça.

Luciano          Deixa só eu dar uma pausa aqui, tem muita gente ouvindo a gente fora de São Paulo e que não sabe a história. A Praça Roosevelt é uma praça localizada ali na… periferia do centro de São Paulo, tem um centrão, na beiradinha aqui do centrão tem uma praça, tem uma igreja bonita do lado ali, tem uma baita movimentação perto de universidade, perto do Minhocão, aquela coisa toda e essa praça tem uma história fabulosa e muito rica em São Paulo, durante muitos anos era um local de cultura, tinha cinemas em volta, eu cansei de, nos  anos 70, ir assistir seções da meia noite nos cineminhas que tinham ali, filmes que não passariam em lugar nenhum e vinham aqueles filmes europeus e a gente ia para lá como estudante, tinha artes, tinha uma porrada de coisa e com o tempo, lá pelos anos 80, talvez anos 90, aquilo tudo se perdeu, aquilo virou um lugar de tráfico de drogas, ela realmente caiu muito e a praça praticamente acabou, aquilo tudo fechou em volta e acabou e houve depois um movimento para revitalizar, deu um pico, voltou, depois caiu de novo, aí voltou outra vez e hoje aquilo está fervilhando. Tem algumas coisas muito legais, a noite paulista naquela praça é um negócio muito louco, uma coisa tipo, eu olho  para aquilo parece Berlim, parece que você está naquelas grandes capitais do mundo onde tem uma… onde tem um cenário cultural fervilhante mas é um negócio muito à frente, muito louco, peças de teatro muito malucas acontecendo ali e nesse ambiente que de repente você assiste a esse renascimento da praça, não é?

Rodrigo          É, eu estou completando 20 anos de circo assim como esses parceiros e a gente já ocupava a praça antes da reforma e sim, a adversidade artística só alimenta todas as artes, porque a gente também tem ali, junto com a gente, o pessoal da dança, do teatro, do cinema, da fotografia, da imprensa, do cinema, do direito, das polícias…

Luciano          Do skate…

Rodrigo          … do skate, do mendigo, da criança que usa entorpecente que na hora do espetáculo para, incrível, então uma coisa que você falou que é verdade e o circo deixa isso muito claro,  para o circo ser circo passa  porque é uma arte de coletivo, talvez só o palhaço apareça, mas o palhaço sabe que tem alguém que bateu a estaca, que tem alguém ali na bilheteria e que o palhaço sai de lá e vai ocupar essas funções, então o circo tem essa força…

Luciano          E se bobear o palhaço bateu estaca.

Rodrigo          … bate, bate. E a praça foi reinaugurada, o encontro de malabares existe lá semanalmente, em fevereiro de 2014, um ano e pouquinho depois desse  encontro de 3 amigos surgiu a ideia de ter um espetáculo de circo, na rua, de qualidade. 20 anos cada um, então nós temos muitos amigos legais que também querem ocupar a cidade, estar na cidade, também querem fazer as suas experimentações de arte que não encontram espaço nos lugares privados, porque já quer o produto pronto, então veio alimentar toda uma possibilidade de artistas de se expressar, então desde então, pela formação em direito e pelo Circo Herói eu providenciei os trâmites burocráticos e a parte de estrutura, que é ah, precisa ter um trapézio, então precisa ter um ferro ali, ah eu coloquei, e os amigos ajudavam na parte de marketing e na parte de imagem, elaboração de identidade visual e assim foi estruturando, juntos com equipe de produção, “Os Bons meninos” fizemos quatro edições na praça…

Luciano          O que é “Os bons Meninos”?

Rodrigo          … é a equipe de produção…

Luciano          É uma equipe de produção?

Rodrigo          … tem “A Noite da Rose”, tem uma equipe de produção para viabilizar “A noite”.

Luciano          Chama “Os Bons Meninos”? Boa.

Rodrigo          E juntos fizemos 4 edições em 2014, foi um…

Luciano          Deixa eu entender, como é que é a edição, o que é a edição quando você fala, é um período durante X dias…

Rodrigo          … a cada 3, 4 meses tem espetáculo…

Luciano          … que fica em cartaz…

Rodrigo          … é um dia.

Luciano          … ah é um dia?

Rodrigo          … é um dia…

Luciano          Acontece um dia?

Rodrigo          … um dia.

Luciano          E acontece na praça?

Rodrigo          … na praça…

Luciano          Não é que você vai chegar lá, não está coberto, nada, é na praça?

Rodrigo          … é na praça, é um espetáculo, é um circo a céu aberto.

Luciano          Sim, com as pessoas em pé em volta …

Rodrigo          É …

Luciano          … sentadas no chão.

Rodrigo          … a última edição passaram 4 mil pessoas pela praça, novembro de 2015.

Luciano          Que loucura.

Rodrigo          Todas sentadas no chão e nenhuma olhando para celular.

Luciano          Sim.

Rodrigo          Aí em 2014 eu assumi o projeto, tanto com “A Noite da Rose” como equipe de produção e esses amigos começaram a atuar como parceiros, então as questões de decisão, as questões burocráticas e até mesmo de reivindicação de direito, porque estar um dia na Praça Roosevelt fazendo arte significa no mínimo receber três abordagens de PM e GCM falando que eu não posso fazer arte ali, então existe uma enorme colisão de direitos que a sociedade não vê.

Luciano          E os caras não sabem que estão falando com um advogado, com a cara pintada.

Rodrigo          Aí quando entra na argumentação, na educação, quando eles …

Luciano          E aí pode, pode fazer arte ou não pode?

Rodrigo          … claro que pode, desde 88, o papel que a constituição garante, a arte é livre e pode ser feita.

Luciano          E se você interromper as pessoas que estão passando na rua, você não está interrompendo o ir e vir das pessoas?

Rodrigo          Não, isso…

Luciano          Você não está tomando conta do ambiente que devia estar o velhinho passeando e o velhinho não pode passear porque você fechou…

Rodrigo          Não. O bem jurídico maior é a fruição de um direito cultural e São Paulo não é feito de uma única rua, se eu sei que tem alguém obstruindo, eu dou a volta, não vou… Agora, se eu fechar o bairro, aí sim eu estou impedindo o ir e vir, mas nessa situação de rua, eu garanto que o velhinho vai ali assistir e vai sorrir, vai para um outro universo. Aí fizemos, aí em 2014 concluímos quatro edições, em 2015 fizemos três edições e funciona assim, de 3 a 4 meses de articulação, com artistas, agenda, registro, prefeitura, autoridades, independente, pela vontade de fazer arte e na edição, a gente chega na praça às 14 horas e começa a armar o circo, então das 14 às 18, todo mundo vê como o circo levanta, como o picadeiro acontece, aí você vê o artista que é casado, com filho de colo, que fica amamentando e só para de amamentar na hora do espetáculo e tudo isso é visível.

Luciano          O espetáculo começa… é à noite?

Rodrigo          Começa das 7, são duas horas, começa as 19 e termina as 21.

Luciano          Entendi e vocês estão armando… tem duas coisas aqui que você está falando e estão me coçando aqui, eu vou te contar a primeira delas porque que me incomoda muito, a primeira atividade minha principal durante um bom tempo foi ser cartunista, meu negócio é cartoon, eu desenho e eu amava fazer cartoon, ainda amo fazer e a coisa que eu menos faço hoje é cartoon e que embora eu quisesse continuar com aquilo mas uma coisa que me pegou e me ensinou muito para o que eu vinha fazer no futuro era eu ficar inconformado de sentar, criar um cartoon, pegar, fazer a arte todinha e criar, ver aquela obra pronta, linda maravilhosa, pegar aquela obra e de repente publicar num jornal e acabou. No dia seguinte aquele é o jornal de ontem, vai ser jogado fora e o cartoon acabou e ele é jogado numa gaveta eu falo cara, puta esforço para fazer o cartoon e o cartoon foi embora…

Rodrigo          Dias de trabalho.

Luciano          … aí comecei a fazer o programa Café Brasil na rádio, comecei a fazer em rádio em 2005 e de novo, o programa tem meia hora de  duração, 25 minutos, puta trabalheira, vou lá, faço o programa ao vivo na rádio, o programa ia ao ar e acabou e no dia seguinte eu falava, cadê o programa? Já foi, já era, não tem mais. Quando o podcast surge, ele surge e fala bom, então não acabou, o programa existe, ele está aqui, eu posso fazer com que mais pessoas ouçam e mais importante, foi uma visão que eu tive de realizar meu trabalho já pensando nos desdobramentos, então eu não faço mais um cartoon hoje, eu olho para o cartoon e penso no cartoon como o cartoon em si, que depois vai virar ilustração do livro, que vai virar um chart na minha palestra, que vai virar um texto em cima do cartoon e aquilo tudo, desdobramentos e uma porrada de coisas que quando você vê você fala meu, de onde veio tudo isso? Veio daquele cartoonzinho, o programa, eu estou desenhando o programa, escrevi o programa, bom um pedaço do texto virou um post no Facebook, outro pedaço virou um pedaço do meu livro, um pedaço dele virou o meu artigo da semana, outro pedaço outro artigo, a música está aqui, então ele tem um desdobramento gigantesco que é uma… faz parte do meu jeito de criar, então eu sento para criar eu já estou pensando naquilo, você quando fala para mim do espetáculo, eu consigo ver toda essa armação que é de planejamento dificílimo aí de repente chega um dia e é um orgasmo, pum! Acabou. Terminou o orgasmo acabou, recolhe tudo isso aqui, leva embora, acabou o espetáculo, não tem mais, e agora? O próximo só daqui a 4 anos?

Rodrigo          Não, aí tem quando é o próximo.

Luciano          Então e aí, como é que é isso? Essa coisa de legal, o orgasmo foi maravilhoso, ele terminou e tudo se foi, aquela performance genial que aconteceu…

Rodrigo          Que eu fiquei seis meses trabalhando para esses cinco minutos nesse único dia…

Luciano          Eu tinha um amigo que é músico, tocava em bailes em São Paulo e tinha uma banda, que ele só tocava em banda e ele falava para mim arrepiado, ele contava a história, um dos músicos do banco que era um pistonista bom para cacete, um belo dia dá uma luz nesse cara e esse cara faz um solo de piston durante um baile num clube que a banda parou, eu estou arrepiado de contar essa história, a banda parou pelo solo que o cara fez e nunca mais, o solo se perdeu e nunca mais ninguém viu aquilo, aquele momento maravilhoso que deve acontecer com vocês também e aquilo se perde. Como é que é? Estão trabalhando isso, você está gravando para que isso sobre, isso vai virar uma outra coisa, tem um DVD? Como é que é isso?

Rodrigo          Sim, sempre teve uma preocupação com uma preservação da memória, a parte de registro, então a gente tem uma equipe fantástica de fotógrafos e são todos amigos e até mesmo quem não é amigo, mas pelo fato de estar na rua fazendo arte também chega somando força, então nesse sentido a memória fica preservada daí, existem sim edições em que foram captadas imagens todas do espetáculo sim, que vai virar teaser, vai virar DVD, vai virar, pode virar um monte de coisa. Existe o lado humano, fiquei, eu como artista, eu como produtor fiquei quatro meses pensando nisso, eu vou lá, coloco 600 quilos de pé, para no mesmo dia ir embora? Mas aquilo é um momento da vida, é um momento do mágico, do sublime, é um momento em que ou você vive ou você não vive, ou você faz pelo simples fato do fazer, estou aqui para isso, não tenho que me preocupar com o futuro, se eu me preparei para isso, então eu fiz para mim, para esse momento e não pensando no futuro…

Luciano          Que você não quer nunca que acabe, né?

Rodrigo          Sim.

Luciano          E a definição de um momento em que você está vivendo e que você não quer nunca que acabe chama-se felicidade. Felicidade o que é? É eu estar aqui e querer que não acabe nunca.

Rodrigo          Isso. Porque é incrível, a gente fica, vai, o circo ficou na praça ocupado por… a gente fica seis, sete horas na praça, a gente chega, começa a montar, tem o espetáculo, cada um de nós vive o eterno ali, sabe que está conta gota mas todo mundo é pleno, você vê que todo mundo se doa para fazer acontecer e preservar esse espírito que eu acho que é mais sensível, porque a magia, a qualidade do espetáculo vai passar por isso.

Luciano          Isso é um sonho de qualquer líder em qualquer empresa do mundo, conseguir ter uma equipe que consiga encarar o seu dia a dia desse jeito, todos nós juntos, isso é a Marquês de Sapucaí, é aquele momento único que eu vou dar o melhor de mim, vou fazer o melhor espetáculo da terra e só vai ser bom se você for comigo, se você estiver entregue como eu estou entregue, aquilo cria um momento que contamina todo mundo.

Rodrigo          Por trabalhar circo e trabalhar a arte, talvez isso fique mais evidente, mas eu tenho certeza que nas outras profissões também é assim…

Luciano          Não há dúvida.

Rodrigo          … muita gente vem querendo ajudar, aí eu pergunto o que você faz? Ah eu sou trapezista, ah deixa eu ver seu número, então você apresenta no próximo, ah mas eu quero ajudar com produção, quero ajudar isso, quero ajudar aquilo, mas você sabe fazer? Ah não sei, mas quero aprender. Não. Então só venha como trapezista, porque o rapaz para montar o som é um outro parceiro que entende, ele só vai fazer isso, então eu vejo que esse ambiente de harmonia em equipe passa por isso, deixa muito claro a função de cada um e que ela fazendo o que ela já sabe, a coisa fica mágica, fica super colorida.

Luciano          E bom, pelo o que você está comentando aí, esse é o dia do espetáculo é o grande momento para você, ele acontece três, quatro vezes por ano…

Rodrigo          É são três edições ao ano, na praça.

Luciano          … eu entendo que isso não é teu business, esse não é o teu negócio que te gera o dinheiro que paga as suas contas. Estou certo ou estou errado?

Rodrigo          Olha, depende viu, porque estar no mundo e com pessoas significa networking e vários negócios surgem a partir de encontros.

Luciano          É, de novo, a mesma coisa que eu falo para você, o que eu ganho com o meu podcast? Bom, eu ganho todo mundo me ouvindo, falando meu nome, uma hora um cara vai me chamar para fazer palestra e vai me pagar por isso, mas o podcast não é o meu business, meu business é a palestra e o podcast é um caminho para que eu possa ganhar com a palestra. No caso ali me parece aquele povo todo que você mobilizou naquele dia, excetuando o cara que te alugou equipamento de som, aquilo tudo não é o business da vida deles.

Rodrigo          Não, até o equipamento de som é de parceiro.

Luciano          Também está no jogo, você não está nem pagando por aquilo.

Rodrigo          Não. Está todo mundo empreendendo.

Luciano          Isso. Então, como é que você remunera esse empreendimento de uma forma que não seja com o prazer de fazer energia, eu quero saber o seguinte, como é que você custeia isso tudo, traz para dentro o dinheiro que vai te proporcionar fazer de novo e de novo e de novo, ou isso não está no jogo, não interessa?

Rodrigo          Não, não interessa, o prazer de estar na rua e fazer arte é muito maior  do que qualquer dinheiro.

Luciano          Você não está preocupado com a Lei Rouanet, com o estado te bancar isso, bancar aquilo, aquilo é um empreendimento mesmo, de gente abnegada que está construindo algo.

Rodrigo          Eu tenho o “Circo Herói”, é o “Circo Herói” que coloca todos esses equipamentos, então o artista vem para ser o artista, o operador de som vem para ser operador e tudo funciona, como também quando o “Circo herói” precisou, ah eu preciso de caixa de som, preciso disso, preciso aquilo, os  parceiros também colocaram.

Luciano          Sabe o que você está me descrevendo? A Wikipédia, a Wikipédia é isso, os melhores programadores do mundo doaram seu tempo para criar um treco muito louco onde  os especialistas em assuntos vão lá, pegam seu conhecimento e põe de graça e junto esse povo faz um treco chamado Wikipédia.

Rodrigo          Uma coisa que eu acho que é da… está cada vez mais forte com as gerações, o conhecimento não tem dono, você tem que fazer para o mundo, o mundo vai reconhecer, não o conhecimento colocado à disposição, mas a cabeça que fez o conhecimento ir para frente. Então são pessoas que movimentam ideias, que movimentam o mundo, o patrocinador, o fomentador, ele não entende isso, que são as ideias que faz e se eu colocar a minha marca  ali eu vou estar socialmente aceito.

Luciano          Tem patrocinadores no projeto?

Rodrigo          Não, mas as tentativas já começam a aproximação.

Luciano          Isso que eu ia te perguntar, então, eu falei em volta disso, olhando para um evento como esse, que não sei se dá mídia, provavelmente dá alguma mídia, tem 4 mil pessoas, tem um happening, tem uma coisa acontecendo lá.

Rodrigo          Nós conseguimos 4 minutos de rede Globo e 3 minutos de Record.

Luciano          Então isso começa a botar água na boca de meia dúzia de pessoas que podem achar que aquilo é um lugar legal para botar minha barraquinha, distribuir o meu sample, botar minha… vocês já estão recebendo isso e como é que você trata essa aproximação? É legal, é desejável, pode acontecer? Não deve? Como é que é?

Rodrigo          Claro, o diálogo com todos os temas de sociedade, seja econômico, religioso, imprensa, seja político, é tudo bem vindo, está todo mundo querendo transformar a sociedade. Agora, eu não preciso ceder da forma como você quer, então se eu chego, tem uma edição da “A Noite da Rose” para um patrocinador ou para alguém que queira, custa 50 mil reais, envolve 30 pessoas no dia trabalhando e com um bem enorme, não é nada para um patrocinador, mas esse patrocinador não venha com esse dinheiro dizendo eu quero meu logo na frente do seu circo, não vai ter, ele vai ter o logo dele em alguns lugares muito bem demarcados para  que o público veja, mas que não tenha confusão de que, olha o que nós estamos fazendo, não, olha o que o circo está fazendo…

Luciano          E nós estamos ajudando.

Rodrigo          … isso. Essa é a preocupação.

Luciano          Esse o mesmo conceito que eu usei aqui no podcast quando eu trouxe os patrocinadores e é uma puta dificuldade explicar isso para o maldito atendente da agência de publicidade, é dificílimo o cara da agência porque eles não conseguem compreender isso. Eu estou dizendo o seguinte, eu não estou te vendendo o espaço para você fazer propaganda para a minha audiência, catzo, eu estou te vendendo uma oportunidade de você dizer para a minha audiência o seguinte, meu, olha como eu sou legal, eu estou ajudando que o programa que você ama vá ao ar, portanto goste de mim e a próxima vez que você for comprar o produto, lembra de mim porque eu sou o cara que botou dinheiro no teu negócio, agora eu não vou vim aqui para falar compre o produto isso, o produto aquilo, não é essa a função, então o que eu estou vendendo para ele? Eu estou vendendo a relação que eu tenho com o meu público e não o acesso ao meu público, mas isso é uma confusão, você pega um marqueteiro bronco pela frente, o cara quer vim com… eu vou te dar 30 segundos com a locução feita pelo… eu falo não eu não quero 30 segundos de locução, ou eu faço do meu jeito ou não entra no programa e com vocês é igual?

Rodrigo          É igual. A livre iniciativa, o circense, o artista, o empreendedor ele é livre iniciativa, ele tem que ir dar a cara e assumir o risco. Desse conjunto de amigos que fez a “A Noite da Rose” acontecer que em sete edições a gente reuniu mais de 10 mil pessoas em praça pública, estamos chamando a atenção de mídia grande, a gente não está correndo atrás, eles que estão vindo, então existe um conteúdo aí que tem que ser preservado e é isso que me dá a baliza de falar, vamos conversar? Não é no tempo de vocês e o Município de São Paulo ofereceu, no dia 20 de dezembro, nove datas dentro de teatros para a gente fazer o “Cabaré de Variedades”, chegaram com uma proposta financeira que pelo pacote valeu a pena e assim fizemos. Esse foi o nosso primeiro diálogo com o poder econômico e ainda mais relacionado ao estado, ao Município de São Paulo, o projeto “Circo vai ao Teatro” e foi um sucesso sabe, tudo foi muito claro, a ida para dentro de uma caixa preta, para um teatro não descaracterizou o conteúdo e a identidade que é “A Noite da Rose” que é arte de rua e a cultura do chapéu, o chapéu foi passado dentro dos teatros, com todas as anuências e todos os diálogos porque a gente conseguiu colocar um argumento de conteúdo forte, não estamos inventando o chapéu, o chapéu é milenar, estamos trazendo o que? A rua para espaços de diálogo, estou dentro do Município, eu estou lidando com um determinado pensamento e com uma determinada ideologia, mas mesmo dentro desse pensamento e ideologia entende a cultura do chapéu, entende a cultura da arte, entende o circo, então por esses fatores que a gente topou e foi feito e foi um sucesso. Outro parceiro também, um dos maiores fomentadores de São Paulo para a área de circo, fazem espetáculo toda semana em diversas unidades deles, estão se aproximando da gente também, mas…

Luciano          Quem é?

Rodrigo          É o SESC.

Luciano          O SESC? SESC tem uma tradição. Tem sido um palco para uma porrada de gente que não teria outra chance de se apresentar e esse é o momento em que eu vejo a mão peluda do estado cumprindo um papel, embora o SESC não seja…

Rodrigo          É sim, é alimentado pelo sistema S, que é SENAI, SESI e é uma fatia de tributo que vai para gerar isso.

Luciano          Mas é onde eu vejo a mão, a mão peluda do estado ali não me agrada ela estar funcionando ali. Deixa eu te fazer uma provocação, nós estamos chegando na nossa parte final, eu estou ouvindo você falar, você tem um repertório… Você tem um repertório, com é que eu vou dizer? Um repertório, quando você fala para mim coletivo, diálogo com o poder econômico, individualidade, isso é um repertório meio identificado com um certo tipo de pensamento, digamos assim, mais à esquerda, ou mais socialístico ou mais… bota o rótulo que você quiser, ele tem um pensamento voltado para essa coisa do coletivismo e tudo mais, que entra em choque com algumas coisas que o mercado tem do outro lado, então se você quiser caracterizar como direita e esquerda, que é muito pequenininho para cá, mas dá para a gente poder entender um pouco melhor, você tem um pensamento e um repertório de esquerda, montando um tipo de atividade que está sempre foi ligado à esse pensamento de esquerda numa sociedade que é cada dia mais voltada para o dinheiro, para a grana, para o consumo, etc e tal. Tem um choque aí, existe um choque nesse momento e tem uma coisa no meio aí que eu acho interessante, aí vem a provocação, quando você bota o teu chapéu ali na tua frente e você começa a fazer o teu ato, a pessoa que vai botar o dinheiro no chapéu é alguém que olhou e falou, puta merda eu gostei tanto desse cara que eu vou botar o dinheiro ali, eu não estou botando dinheiro para dar uma esmola para ele porque ele é um fodido que está morrendo na esquina, eu estou botando porque esse cara está fazendo um negócio tão legal que eu acho que ele tem um valor e eu vou botar um dinheirinho ali, isso chama-se meritocracia e esse termo é um termo do rotulado oposto ao lado que você tem o teu repertório, como é que vocês enxergam isso? Como é que você lida com isso? Como é que você compreende essa situação?

Rodrigo          Olha eu estou com 36 anos e até hoje eu não me identifiquei com nenhuma ideologia de partido político, não me identifiquei. O direito me dá base ideológica que eu preciso que são os princípios da república, que é transição de governo e prestação de contas, então se isso acontecer para mim está tudo certo agora, entendo que em mim sim há um lado do liberalismo e há um lado do social, entendo que o mundo hoje em dia precisa dos dois juntos, da liberdade proclamada de um lado e da solidariedade querida pelo outro lado, um sem o outro o mundo não movimenta, então eu artista estou vencendo todos os paradigmas de preconceito de ir para a rua para fazer minha arte, eu estou usando dessa liberdade e dessa livre iniciativa do empreendedor. A sociedade ainda não chega nisso, só vê o bem que esse artista faz para a sociedade identifica daí todo uma possibilidade ideológica que às vezes não é nada disso, o rapaz que gostou da arte que colocou 50 reais, ele está sendo tão livre e tão empreendedor quando o artista ali, então eu me encontro junto com essas duas possibilidades, da liberdade de empreender com o social, porque empreender para mim, eu vou ter depressão, dinheiro vai ficar vazio, tudo vai ficar vazio, agora eu mais de 50 amigos empreendendo juntos, somos um coletivo, somos um social, estamos transformando a sociedade, então é a conexão de potências, a organização em rede.

Luciano          Isso está claro em você porque você é um indivíduo… você combina essas duas coisas de forma… quando você sentou aqui e falou sou advogado e sou artista de circo ao mesmo tempo eu falei cara, tem um nó ai, onde é que esse cara trafega e você trafega numa linha interessante que é exatamente na combinação dessas coisas mostrando que uma depende da outra, se eu não tiver uma economia redonda, que incentiva você a empreender, que fala para você o seguinte invista e se der certo fique rico por favor, quando mais rico você ficar, mais legal vai ser, sem isso você não tem a base para poder fazer o social, então não adianta eu falar aqui uma conversa, vou dar para, o estado vai dar tudo para todo mundo, de onde vem esse dinheiro? Só vem dessa economia que tem que ser livre.

Rodrigo          Do povo que trabalha.

Luciano          E livre, e livre para poder fazer, então é o seguinte, eu quero ter liberdade para quebrar a cara ou para ficar rico.

Rodrigo          O mais importante…

Luciano          Ou para ficar rico.

Rodrigo          O mais importante.

Luciano          Entendeu? Agora, se eu ficar rico vai ser o seguinte, como é que você ficou rico? Eu fiquei rico porque eu criei tanto valor para as pessoas que elas estão me dando esse valor e me deixaram ter esse sucesso, assim como se eu não criar valor eu vou quebrar e a hora que eu quebrar e me ferrar não vai ter ninguém vindo aqui e falando vem cá, vamos dar um jeitinho não, eu corri um risco e sou remunerado pelo risco e esse risco produz riqueza, essa riqueza é distribuída e assim vai, quer dizer, esse nível de compreensão de que as duas coisas tem que andar juntas é muito complicado e é parte do que está acontecendo no Brasil hoje, você está vendo, é preto e branco, é pau direto, é briga porque eu não vejo você como adversário, eu vejo você como inimigo e eu não vou atacar tuas ideias, vou atacar você, essa dualidade é uma coisa que está…

Rodrigo          É triste…

Luciano          … é terrível e…

Rodrigo          … mas estudar o direito me tranquiliza um pouco com relação a isso, porque as pessoas só estão podendo fazer isso porque elas estão em democracia. Então, considerando que o Brasil só passou a ser livre de opinião depois de 88, porque as outras constituições caçavam a liberdade de opinião, então as pessoas ainda estão num momento muito selvagem mas o selvagem dentro do infantil, as pessoas ainda são muito infantis e o infantil ataca o que? A pessoa e não a ideia, então é importante ter a tolerância…

Luciano          Precisa amadurecer um pouco…

Rodrigo          … é precisa…

Luciano          … precisa amadurecer um pouco.

Rodrigo          … é, precisa xingar mais, precisa se ofender mais, precisa ser… porque aí vai entender que só xingar não funciona…

Luciano          Sim e você está falando um negócio interessante que é o seguinte, você está indignado, manifeste a sua indignação, você não pode não se indignar porque se eu me indignar eu serei considerado um chato, eu estou nervosinho, como assim você está achando ruim? Fica na fila aí seu idiota, na chuva, fodido e não abra a boca, porque você, dos 100 que estão na fila, se começar a gritar, 99 vão olhar para você com censura, onde é que já se viu fazer isso? Por isso que não muda, todo mundo conformado. Cara, vamos partir para o finalmente aqui, 36 anos, empreendedor, casado, tem filho?

Rodrigo          Solteiro, sem filho.

Luciano          Legal, você está vivendo um momento nesse país aqui que é um momento cheio de surpresas, cada manhã que eu acordo falo bom, deixa eu ligar o jornal para eu ver o que está acontecendo aqui porque eu não sei o que vai rolar aqui, como é que você vê esse caldeirão, você era bem jovem quando as mudanças começaram a acontecer para valer a partir de 88, com a época do Collor, aquela coisa toda, você era bem garotão, você já vivia uma realidade que é bem diferente da que eu vivi, eu sou um poucão mais velho do que você, como é que você assiste isso hoje aqui, o que você vê desse Brasil, que expectativa você tem para o que vem pela frente aí, com base nisso que você está produzindo e nas pessoas que você está conhecendo que estão indo consumir, dá para olhar para isso tudo e falar tem saída, tem esperança?

Rodrigo          Olha, trabalhar com o circo e com a arte, a primeira pergunta é: cadê a crise? Que crise que estão falando? A gente está num período de transição, isso é claro para mim, claro, claríssimo e daqui a cinco anos a gente já vai estar num outro momento…

Luciano          Concordo 125% com você.

Rodrigo          … então eu vejo que agora, já como todos falam de crise, todos inventam notícia, porque quem trabalha com o judiciário, com a política e com o poder econômico sabe que essas três coisas dialogam a todo momento e nada é por acaso, então ninguém vai preso do dia para a noite por acaso, mas sei que é um momento de chacoalhar também as instituições e principalmente as  pessoas que estão fazendo as instituições de botar em cheque a ética dessas pessoas, porque em cima de todo esse ataque, de toda essa confusão, de todas essas surpresas, eu vejo que as pessoas estão em busca do que? De coerência, de ordem, de…

Luciano          Transparência…

Rodrigo          … transparência…

Luciano          … de comprometimento, de entregar aquilo que foi prometido…

Rodrigo          … e a nossa constituição está completando 27 anos, então é um nenê engatinhando, mas ela já dá todos os mecanismos para alterar tudo o que a gente precisa, ela já fala assim, eu tenho o direito de pedir um esclarecimento por escrito e se o servidor não me der, eu tenho a ouvidoria, eu tenho a corregedoria e eu tenho processo administrativo e o processo judicial para me dar o apoio para efetivar isso, as gerações que estão vindo, a sociedade civil organizada, não importa a ideologia mas elas estão usando desses instrumentos para chegar num terceiro lugar, hoje está muito ou esse ou aquele, o resultado disso é o que daqui a cnco anos.

Luciano          Que sem dúvida é algo melhor.

Rodrigo          Sem dúvida.

Luciano          Sem dúvida é algo melhor.

Rodrigo          Sem dúvida.

Luciano          A gente, nós passamos por um impeachment, cá entre nós, até hoje mal explicado porque aquilo não… bom, uma hora… até hoje eu estou dizendo que o cara é inocenta nada, eu estou dizendo o seguinte, a maneira como se explicou aquilo não é convincente merecia cair, está tudo certo, mas a maneira como se explicou aquilo não é convincente, de qualquer forma aconteceu e a gente teve o impeachment e o Brasil melhorou muito depois daquilo, então eu acho que esse choque que está acontecendo e foi legal você falar a história do bebê engatinhando, esse moleque tem que tomar um choque na tomada, se não ele vai continuar enfiando o dedo lá, tomou o choque opa, aprendi, botei a mão no fogo queimei, opa, eu aprendi, se não houver o choque fica essa acomodação que nós estamos vendo ai, vai levando, da um jeitinho aí, não vai acontecer nada? Todo mundo faz, porra, esse é o momento de choque, por isso dói.

Rodrigo          Eu já gosto dos choques viu, porque ou é pelo amor, ou é pela dor, a gente tem um amor, uma hora essa criança vai levantar e ela vai sentir a dor, então eu acho que a gente já está caminhando para isso. Eu pude trabalhar com o direito e com a arte um ponto de identificação é a observação para o mundo e as pessoas estão cada vez mais reivindicando os seus direitos mesmo sem saber se tem direito ou não, mas elas estão, se vai efetivar esse direito que é o que? Ir na delegacia fazer um B.O. ou ir no juizado de pequenas causas por causa do celular, não importa, mas elas já estão buscando essa prática e isso é para buscar o que? Civilidade, respeito, tratamento igual sabe, o que a gente vê na atual política, o detentor do poder, ele chega por um caminho legítimo, que é o voto, seja a nível municipal, estadual e federal porque os três merecem atenção, agora precisa virar a página, sim você chegou ao poder, agora você não é ilimitado no poder, você tem que obedecer a regra, tem que estar sujeito a órgãos de controle e  quem trabalha com a política sabe que as forças são para o que? Para impedir que isso aconteça em marcha lenta, cabe a nós da sociedade civil ocupar esses espaços e…

Luciano          É o que eu falei, eu postei hoje aqui, o cara escreveu para mim falando o seguinte, legal eu também quero a mudança do mundo, eu quero… o que adianta ir na rua dia 13 fazer barulho? E a resposta eu falei o seguinte, ir à rua dia 13 fazer barulho é igual a acender a luz da casa para mostrar para o ladrão que tem gente lá dentro, acendi a luz tem gente aqui dentro, não está abandonado, não está largado e você não pode vir fazer o que você quiser, então nós temos que ir lá para acender a luz. Maravilha, quem quiser te encontrar, quiser conhecer o teu projeto, quiser se aproximar dele, dá os caminhos aí, como é que a gente chega até você?

Rodrigo          É a “A Noite da Rose” ela pode ser encontrada no Facebook, é só digitar lá no Facebook “Noite da Rose” Circo que vai aparecer, é uma…

Luciano          Rose com S.

Rodrigo          Rose com S.

Luciano          De onde vem esse nome?

Rodrigo          A “A Noite da Rose” é uma homenagem à Praça Roosevelt em especial ao Delano Roosevelt, tanto é que a identidade é uma mulher obesa com a cara do Roosevelt, num objeto circense.

Luciano          Não reparei, eu não vi, não reparei, legal, ”Noite da Rose” Circo, vai encontrar o Facebook de vocês.

Rodrigo          E-mail é [email protected]

Luciano          Tem um site também? .com.br também?

Rodrigo          A gente vai lançar ao ar o noitedarose.com.br mas existe um site sim que é o wipix, noitedarose.wipix

Luciano          Quer dizer, de qualquer forma se quiser ver o trabalho de vocês é no Facebook que vai estar anunciado

Rodrigo          Tem um canal no Youtube também de teaser, de clipe, de ambiente que é a praça.

Luciano          Pô, maravilha.

Rodrigo          Quem quiser falar de circo, quem quiser conhecer um pouco essa tecnologia, como a gente faz para articular as pessoas, estamos à disposição e vamos ocupar as ruas com a arte.

Luciano          Muito bem, que bom, ocupar as ruas com a arte, que maravilha. Cara, parabéns pelo trabalho de vocês, adorei, muito legal, vou lá, eu quero ir lá, mas eu quero ver tudo, quero ver o negócio saindo do chão e parabéns por essa disposição que você tem e mais importante é você conseguir fazer essa combinação, conseguir andar com os dois lados em paralelo e enxergar que um suporta o outro e fazer essa combinação. Isso chama equilíbrio e esse é um negócio mais em falta na sociedade, esse é o rótulo que eu queria ter, você está rotulado de artista na camiseta, eu queria botar o rótulo em mim assim equilibrado. Obrigado.

Rodrigo          Eu que agradeço, Luciano e obrigado a todos.

Transcrição: Mari Camargo