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Luciano Pires -

Luciano           Muito bem, mais uma edição do nosso LíderCast. Hoje eu tenho uma entrevista bem interessante aqui porque o cara que vem aqui ele está sempre com pressa, aliás, eu acho que ele sofre de complexo de perseguição, quando ele vai dormir tem um monte de gente perseguindo, mas vamos lá, aquelas três perguntas fundamentais do programa, eu quero saber seu nome, sua idade e o que é que você faz?

Nonô               Bem, eu me chamo Flávio Pagano de Figueiredo, no meu meio as pessoas me conhecem como Nonô Figueiredo, eu tenho 44 anos e eu sou piloto de competição, de carros de competição desde 1984.

Luciano           Desde 84.

Nonô               Desde 84

Luciano           Cara, em que categorias você correu?

Nonô               Quando você começa, no automobilismo você começa muito cedo e a porta de entrada do automobilismo é o kart, é onde você aprende ali, é aonde você é mordido por aquela paixão, ou não, é onde você aprende o que fazer ali atrás de um volante, como guiar numa pista, você aprende os perigos, você começa a entender um pouco muito cedo, eu diria, que nem todo mundo é como aparenta ser, dentro de uma competição, começa a absorver aquele espírito de competição, muito cedo mesmo.

Luciano           E o “muito cedo” é que idade?

Nonô               11, 12 anos e hoje isso a gente está falando da década de 80, atualmente você vê nos campeonatos de kart que eu acompanho, com meninos e meninas de 5, 6, 7 anos, o que para mim é muito, muito cedo, mas você vê crianças dessa idade que os pais colocam e veem nessas crianças o que eles na verdade, muitas vezes, gostariam que eles tivessem sido.

Luciano           Como não é só no kart isso, não é só na corrida não.

Nonô               Talvez em tudo.

Luciano           Não, mas um negócio legal que você está falando, quer dizer, é uma escola fabulosa e não passa pela cabeça da gente que eu posso usar o kart, não para que meu filho seja um corredor no futuro, mas para dar a ele uma aula, vou prepara-lo para a vida através do kart ou coisa assim, né?

Nonô               Eu acho que aí é o esporte em geral, sabe Luciano, eu acho que o esporte, o kart, o automobilismo realmente é uma baita escola, desde muito cedo e eu fui, meu pai correu, eu tenho mais três irmãos…

Luciano           Seu pai correu profissionalmente?

Nonô               Na década de 60, de 70 não existia pilotos profissionais, mas meu pai foi uma das pessoas que trouxe o kart para o Brasil na década de 60. Foi contemporâneo do Wilson, de vários nomes expoentes naquela época, do José Carlos Pace que talvez tenha sido o mais expoente mesmo foi o Emerson, mas o Pace e meu pai, o Pace, o Wilson que é irmão do Emerson são mais velhos do que o Emerson, o Emerson já é de uma geração posterior ao meu pai, só que até esse ano de 1982, 83, com 10, 11 anos, apesar de eu ver muitos troféus em casa, assunto corrida, nunca me interessou e aí de repente, em 83, meu irmão começou a correr, do nada…

Luciano           Teu irmão mais velho.

Nonô               é o segundo, eu sou o terceiro. E aí eu vi ele com o macacão em casa, eu tinha 11 anos, falei também quero e aí meu irmão começou a correr em 83 e eu comecei a acompanhá-lo em 83. Em toda corrida eu falava, pai, eu também quero, meu pai foi me cozinhando, me enrolando até que chegou no final de 83 para 84 ele falou, não, você quer? Eu quero. Então agora você pode correr. E eu lembro que a minha primeira corrida, larguei em último, cheguei em último, mas assim que acabou, a primeira pergunta que eu fiz para o meu pai foi se eu ia correr a segunda e eu lembro disso como se fosse hoje mesmo sabe, aonde foi, quando, o lugar e aí foi assim, e aquilo tomou uma dimensão dentro de mim muito rápido de eu já dizer para os meus pais que eu queria ser um piloto profissional, desde quando eu comecei a correr.

Luciano           O que foi que te pegou ali, qual era o tesão, qual foi o tesão para uma criança de  11 anos, o que é, sentiu poder daquele motorzinho?

Nonô               Luciano, assim, não é a velocidade, muita gente acha que é a velocidade, no meu caso nunca foi a velocidade, o prazer da velocidade, eu acho que foi o desafio de querer ser o melhor, sabe? E o desafio de você melhorar, é uma pergunta que nunca ninguém me fez, mas algo com certeza aconteceu comigo, porque várias vezes meu pai, minha mãe tentando assim, sabe, não, mas é isso mesmo? Por que você não faz outra coisa? Porque desde essa idade eu falo, eu não vou fazer faculdade, vou terminar o colegial e vou morar fora, vou correr fora, que eu nunca entendia que eu fosse ter uma carreira profissional aqui no Brasil, nunca quis, eu sempre quis me profissionalizar fora.

Luciano           Mas isso com que idade?

Nonô               Com 12, 13 anos.

Luciano           Você já conhecia o esquema, você já sabia como é que era, ter essa visão do que lá fora é que acontece e não aqui?

Nonô               Na verdade, quando você começa a correr de kart o que você mira, naquela época? Você mirava a fórmula 1, então eu já sabia naquela idade que para eu correr de fórmula 1 eu tinha que ir pra fora do Brasil, então por isso que eu falava que eu queria ir para fora, queria correr de fórmula 1 e isso com 12, 13 anos e fui sustentando isso, fui sustentando, meus pais talvez achavam que isso ia, em algum momento, ia diminuir e tal, não, não vou fazer faculdade, eu vou para fora, eu vou morar fora, não sei como mas, eu vou e consegui, consegui terminar o colegial, fui morar, ainda com ajuda do meu pai, fui morar nos EUA correndo e aí fui trilhando um caminho bem sinuoso, muito cedo eu vi que eu não chegaria na fórmula 1.

Luciano           Por quê?

Nonô               Por entender que eu não tinha uma estrutura para isso, muito cedo eu percebi que para chegar na fórmula 1 você tinha que ter uma estrutura, tinha que ter muito dinheiro, eu não me via conseguindo isso, eu estava sozinho em busca do meu objetivo de ser um piloto profissional.

Luciano           Quer dizer, o que te leva para a fórmula 1 não é o teu talento como piloto, não é o fato de você ser um tremendo piloto que sozinho vai te levar para a fórmula 1, tem toda um networking em volta de você, você leva com você dinheiro, você leva… basicamente é talento aliado à tua capacidade de contribuir para a equipe com dinheiro que faz alguém chegar na fórmula 1?

Nonô               É um negócio, Luciano, o único que está ali movido à paixão dentro desse negócio é o piloto, então muito cedo eu entendi que para o dono da equipe de fórmula 1, aquilo é um negócio, para o dono da fórmula 1 é um baita de um negócio, para todo mundo é um negócio, para o piloto é só paixão e por isso que muito piloto se dá mal, muito piloto ultra talentoso, com muita capacidade vai perceber que é um negócio muito tarde, quando as oportunidades já passaram, e aí acaba e aí  eu me via sozinho nessa luta em ser um piloto profissional, obviamente meu pai ali do  lado me ajudando no que podia, mas nunca a gente nunca montou uma estrutura como o Rubinho teve, por exemplo, como o Cristian teve, pegando pessoas que eram ali junto que estavam ali junto comigo e  aí vieram outros depois, mas longe de ter essa estrutura voltada para que eu chegasse na fórmula 1. O Rubinho teve estrutura, a família dele voltada…

Luciano           Então, me explica um pouquinho mais essa estrutura, o que é essa estrutura, estou                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   imaginando o seguinte, uma coisa é você… eu tenho contatos com grandes empresas que estão interessadas em me patrocinar, me botam dinheiro, eu consigo então ir galgando isso devagarinho com apoio deles, quanto mais eu venço mais retorno eu dou, etc e tal. Mas, além disso, tem um entourage, tem um monte de gente em volta, quer dizer, tem que ter um assessor de imprensa, tem que ter alguém que caminha por dentro dos meandros da fórmula 1 que vai lá, seria como o teu manager, seria quase que um empresário…

Nonô               Você ser o negócio principal daquela situação e quem está ao seu redor naquele início, é tua família, então no caso assim o que precisaria ter acontecido era meu pai parar tudo o que ele fazia, tudo, falar o Nonô vai chegar na fórmula 1 e eu consigo, eu vou correr esse risco de abandonar o que eu tenho ou, no caso, se não tivesse nada, apostar todas as fichas em mim e fazer o negócio acontecer, foi o que o pai do Rubinho fez, foi o que a família do Cristian e foi o que a família do Helinho fez, foi o Toni,  na verdade, o pai do Toni morreu muito cedo mas ele foi abraçado ali pela família do Rubinho, então  essa estrutura de você realmente com 13, 14, 15 , 16 anos ser abraçado e ser visto como um negócio que vai dar, se der resultado, vai dar retorno daqui a 6, 7 8 anos.

Luciano           E essa estrutura é igual, não importa o país que você vem, não importa de onde você estiver, todos precisam ter esse tipo de estrutura?

Nonô               Tem países que talvez uma estrutura menor, se você é um piloto inglês, está ali já no centro do automobilismo, é óbvio que fica menos difícil, mas é aliar o talento com a capacidade de você ter alguém enxergando aquela situação como um negócio, indo atrás do lado político, lado relacionamento, fórmula 1, categorias um pouquinho abaixo, indo atrás do meio empresarial, atrás do recurso, prometendo retorno e tentando dar esse retorno a longo prazo, é fazer mágica mesmo viu Luciano.

Luciano           Mas sabe o que é legal Nonô? Você sabe que aqui programa aqui o pano de fundo é liderança e empreendedorismo, se você fosse um músico você estava me falando a mesma coisa, é o mesmo processo para ser um… para eu estourar e virar um pop star é a mesma coisa, se você não tiver essa estrutura toda, o meu talento como músico não basta para que eu possa ter sucesso. Eu entrevistei aqui o Kiko Loureiro, entrevistei o Maurício Pereira, entrevistei o Aquiles Priester, tudo gente que está no nível legal como músico profissional e a conversa é igual, uma coisa é o meu talento como o artista naquilo que eu faço, outra coisa é esse, que eu chamo dos detalhes sórdidos que estão em volta e de repente eu tenho que deixar de lado a minha… essa coisa que eu amo fazer que é a minha arte para ir me meter em fazer reuniões de terno e gravata para mostrar para um senhor que ele deveria investir em mim. E aí se abre um mundo completamente diferente, porque você tem que tirar a tua energia daquela tua ação, em vez de eu estar aqui com a minha energia produzindo arte eu sou obrigado agora a ir lá para vender a minha arte, o que de certa forma acontece comigo aqui, o podcast a mesma coisa, o Café Brasil eu faço exatamente isso, quer dizer, tem o momento que é maravilhoso quando eu estou aqui no estúdio criando e é fantástico, e de repente eu saio daqui, eu tenho que pegar uma malinha, hoje não é mais uma malinha, hoje eu  pego o meu ipad e lá vou eu num cara sentar na frente para tentar vender para o cara e nesse momento eu não sou mais o artista, mas é uma composição que é irreversível, não tem como escapar dela, quer dizer, quem olha de fora imagina que o piloto é aquele carinha que dirige muito bem, vai lá, pilota muito bem, senta lá e arrebenta mas para chegar ali é complicado.

Nonô               É, mas ai você me perguntou se lá fora é igual, eu diria que a diferença é um pouco essa entre o cenário brasileiro, o cenário europeu e o americano. No Brasil, nesses 30 anos, eu nunca encontrei alguém que pudesse fazer melhor do que eu o lado fora das pistas. Coisa que nos EUA e na Europa você vê gente mais especializada, eu não tenho tanta propriedade assim, eu fui aprendendo apanhando e apanho até hoje, fazendo curso aqui, um curso ali, mas eu aprendi muito mais na prática mesmo. Então o piloto aqui, muitos deles, tem que dividir esse lado artístico com o lado empresário e isso contamina, infelizmente, contamina o teu lado artístico, falando o lado piloto. O piloto, ele tem que ter a cabeça vazia, ele tem que ser quase um atleta descartável para produzir o máximo que ele pode, se ele tiver qualquer contaminação na cabeça dele, isso atrapalha, que dentro de um cenário de corrida, você pode dizer que foi o carro, você pode dizer que foi um componente, você pode dizer que foi uma série de itens antes de chegar em você, então essa contaminação por muitas vezes fica escondida, mas ela existe, mas o ideal fosse que o piloto tivesse a cabeça vazia…

Luciano           Eu sei

Nonô               … na hora que fala larga, vai, sem pensar em absolutamente nada…

Luciano           Até porque a tua margem para errar é nenhuma, você não tem nenhuma margem de erro.

Nonô               Até pela questão de segurança, não só pela questão da performance, que naquele momento você tem que ser o melhor, mas pela questão da segurança também, você não estar contaminado ao ponto de fazer uma besteira, de errar e comprometer a tua segurança.

Luciano           Deixa eu fazer um paralelo aqui, que você está falando para mim aqui, até para quem está ouvindo a gente aqui porque é legal a gente vê como as coisas são muito semelhantes, eu sou palestrante profissional, então o meu principal ganho é fazer palestras, eu faço palestras ai pelo Brasil afora aí há 20 anos já e eu não vou dizer, não é que não tem segredo, eu domino a arte da palestra, sei fazer, é tranquilo, vou lá e faço, não tem problema, a plateia tem 100, 200, tem 1000, não importa mais para mim, eu entro lá e faço a palestra…

Nonô               Natural.

Luciano           … e eu sempre chego uma hora, uma hora e meia antes para arrumar o equipamento, porque eu dependo demais, eu faço a palestra com muita imagem, etc e tal e não é raro eu chegar na hora da palestra, e a hora que eu chego lá eu vou botar o equipamento o equipamento não roda, o cara não levou o cabo, a iluminação é uma merda, a tela é horrorosa, o som não funciona direito e fica aquela puta tensão que me destrói e eu vou entrar em cena quando eu devia estar com a cabeça vazia, limpa para entrar em cena e arrebentar e entregar tudo que eu podia, eu não consigo porque eu estou com o saco cheio, estão me pentelhando ali, a hora que eu vou entrar em cena, eu vou entrar completamente, vou levar um tempão para conseguir tomar pé da situação, que é exatamente o que você está dizendo, quer dizer, aquele momento é sagrado, eu me lembro daquela cena do Senna, quando ele morreu, que pegaram atrás do carro com a mão ali, ou nas outras corridas quando a câmera focava nele, ele estava parado fixo, quer dizer, não só ele, vários pilotos fazem isso, o cara, meu, o que esse cara está fazendo? Ele está voando fora, está indo para outra dimensão e naquele momento só vai existir aquele elemento único que passa a ser o carro e ele, aquilo é uma coisa só.

Nonô               Mas isso que você falou é muito legal, Luciano, porque é muito difícil para as pessoas de fora entenderem em que dimensão o piloto fica antes da corrida, porque é um isto de você querer ganhar, é um misto de você saber os riscos que você está correndo, é um misto… é uma concentração assim que você está ali, sei lá, a 250 por hora, mais e você consegue identificar tanta coisa, mas tanta coisa que só num nível assim muito alto de concentração você conseguiria fazer, você está ali guiando, você está olhando para a frente, você está olhando para trás, você está mexendo no carro, você está vendo a próxima curva, você está falando no rádio e você está com uma margem de erro 0.000001 é incrível como o piloto consegue fazer  muita coisa ao mesmo tempo num nível de exigência muito alto, só com muita concentração, aí você pode perguntar, mas o que vocês fazem para ter tanta concentração?…

Luciano           Isso que eu ia te perguntar, você tem um ritual?

Nonô               … acho que cada piloto desenvolveu um ritual sabe, mas o que eu quero te dizer é que ás vezes  você olha para um piloto e parece que ele está ali ou triste, ou chateado, ou de cara amarrada, mas na verdade ele está num estado de concentração antes da corrida assim, antes da corrida ele já está naquele estado, ele não entra naquele estado quando é dada a largada, aquilo vai aumentando conforme os dias da corrida vão se aproximando, então  o ritual sim, eu acho que o piloto, ele  é piloto 24 horas por dia, então eu estou aqui hoje conversando com você e tem corrida esse domingo, eu estou pensando na corrida, parte da minha cabeça está pensando nos procedimentos que vão existir sexta, sábado e domingo, então parte da minha cabeça está assim, aí isso vai se aproximando mais, parte da minha cabeça vai pensando nisso e menos parte está preocupada com as outras coisas, mas eu tenho que guardar uma parte da minha cabeça para o lado negócio do piloto, é diferente de pilotos europeus e americanos que ás vezes conseguem estar com a cabeça 100%,  ela vai enchendo do negócio piloto… piloto… piloto. Então acho que o ritual eu não saberia te descrever qual é que é, mas é uma concentração constante…

Luciano           Que deve ser a mesma coisa que acontece com qualquer atleta de alto nível, nem atleta, com qualquer performance de alto nível que você vai ter, não importa se é atleta, ou é artista, ou é um cantor, imagino que o lutador de MMA, que vai disputar o título deve ser a mesma coisa.

Nonô               Só tem um fator que me chama muito a atenção em corrida que acho que aumenta talvez no MMA também seja assim, que nós temos poucas oportunidades para mostrar a nossa performance, então mais um ingrediente que soma para aumentar aquela situação de pressão, de concentração, no caso de um campeonato de Stock Car você tem 12 corridas, por mais que você trabalhe o ano inteiro, você tem 12 momentos, ou no caso de marcas, 8, que você esta ali e tem que performar, não é que se não performar hoje amanhã tem outra oportunidade, não tem, então é você se preparar para aquela história, treino é treino, jogo é jogo, na hora que fala vai, você tem que estar pronto.

Luciano           E o cara do MMA tem 4 vezes do ano e é interessante você falar isso ai, que eu estava lembrando agora negócio do futebol, futebol é o domingo, no domingo, mas tem mais 10 com ele no campo, são 11, eu não estou sozinho, você está… é você e você dentro do cockpit e não tem para onde olhar para o lado e falar Zé, segura as pontas ai que eu vou fazer xixi, não tem cara.

Nonô               E carregando consigo uma equipe, uma equipe de pessoas que assim dão o sangue para aquilo e esse lado equipe é interessante também, como o piloto desenvolve em determinadas situações, em determinadas equipes uma ligação maior do que com a própria família, uma ligação assim de não, você cuida da minha vida, sabe, o mecânico, pô, o mecânico está ali, aquele mecânico que vem e te amarra mesmo, ele é o cara que você escolhe a dedo, que você tenha confiança que a pessoa está ali cuidando da sua vida, então é interessante esse sentimento que também é puro, a cabeça do piloto é pura, talvez a cabeça do artista seja pura e o negócio é que vai contaminando, o dinheiro, a vaidade, o ego, a maldade das pessoas, aquela energia ruim vai contaminando, mas tem momentos que você vê que os sentimentos ali são puríssimos, isso é muito legal.

Luciano           Me fala uma coisa, essa engrenagem que você tem, você tem uma equipe, essa equipe é composta de X pessoas, eu não sei quantos tem ali, digamos que tenha ali 6, 7, 8, 10, 12, não importa, uma equipe de corrida, não importa se é fórmula um, se é Stock Car, não importa, você tem  uma equipe ali, quem é o maestro dessa equipe aí? É o piloto que é o maestro ou é o chefe da equipe que é um maestro que é o cara responsável por fazer essa engrenagem funcionar para que cada um possa dar o melhor de si?

Nonô               Aí importa um pouco a categoria, se a gente for falar de fórmula1, o maestro é, vamos pegar o maestro da Red Bull, que foi a equipe que mais ganhou nos últimos anos, ou da Mercedes que vem ganhando atualmente, é o Christian Horner da Red Bull, que é o responsável pela… é o líder, é o que vai fazer, comandar os engenheiros, os sub engenheiros, os pilotos, os mecânicos, os motoristas do caminhão, ele é o líder. Na Mercedes é o Toto Wolff, o piloto não é o maestro, o piloto é mais um componente desse sistema.

Luciano           Esse sujeito que você citou aí é o cara que vai mandar o piloto: “diminui para deixar o teu companheiro passar para ganhar” esse é o cara que dá a ordem.

Nonô               É, é o cara que manda. O piloto pode ali ter um momento de rebeldia, não fazer, o que é um baita de um erro, porque você trabalha numa empresa, num negócio, você é muito bem pago, falando de pilotos de fórmula 1, você é muito bem pago por aquilo, você está defendendo uma marca, você não está defendendo você, então até nessa situação, o lado piloto, artista já está contaminada, mas é assim. Aqui no Brasil, você tem equipe que são assim, pouquíssimas equipes e algumas equipes… a maioria das equipes onde o piloto é quem trouxe recursos, como é que o piloto que trouxe recurso para aquela situação toda acontecer é visto como empregado? Não é, então ele acaba sendo visto como o dono dessa situação, mas ao mesmo tempo tem muito piloto que não se preparou para ser esse dono, para ser esse líder, então fica uma coisa muito misturada, mas o ideal é esse modelo que existe na fórmula 1, existe na Nascar, existe em alguns campeonatos europeus e que aqui na Stock Car é marcas, pouquíssimas equipes conseguiram implantar esse modelo de negócio.

Luciano           Como é que você vê essa… você consegue notar claramente um modelo brasileiro de piloto, de equipe, que seja diferente do modelo lá de fora, por exemplo, você fala, eu reconheço o modelo alemão, reconheço o modelo inglês, reconheço o modelo brasileiro. Existe isso? Um modelo não só da equipe como um todo, mas um modelo de liderança e tudo mais.

Nonô               Existe. O que eu vejo aqui, Luciano, é salve-se quem puder, infelizmente, falando do automobilismo como um negócio, ele deveria ser uma hierarquia muito bem definida, confederação brasileira, federações, organizadores, equipes, pilotos, mecânicos, essa é a cadeia, mas se a parte do topo da pirâmide não faz a sua parte, que é o que acontece, a confederação, ela não atua para promover o esporte, ela não atua para fomentar o esporte, ela não atua para criar estrutura para o esporte, então fica uma bagunça.

Luciano           Você está falando de futebol, vôlei, basquete, judô, karatê…

Nonô               Eu estou falando de esporte em geral, porque se a gente pega o futebol que é o esporte talvez mais rico do Brasil, do tamanho que é, com tantos apaixonados, imagine o resto, imagine as confederações que gostam de estar escondidas, uma CBF da vida, ela não consegue se esconder, agora, todas essas confederações que você falou, você pega os presidentes, eles estão ali há 10, 15, 20 anos e querem ficar, porque não tem um quarto poder ali olhando, não tem uma imprensa olhando, não tem uma comunidade desses esportes unida para tirar. O vôlei que a gente achou que era o mais organizado do mundo, um ano atrás ou dois anos atrás, apareceu o escândalo, então essa cadeia aqui dentro do automobilismo é muito ruim, comparando com os EUA, Europa, Austrália, não tem comparação, ali funciona, falando, tentando dar um exemplo claro dessa falta de gestão, a gente não vai ter um piloto na fórmula 1 tão cedo, os pilotos da fórmula 1 que aparecem, são iniciativas totalmente individuais, não tem um planejamento do órgão principal do automobilismo brasileiro, não, vamos produzir um piloto para a fórmula 1.

Luciano           Quer dizer, o piloto brasileiro tem um adversário a mais, além, se o piloto lá de fora tem que combater 3, 4 adversários, o brasileiro tem um quinto adversário que é lutar contra essa desestruturação interna aqui, eu tenho que brigar com isso e depois ir lá e ganhar a corrida.

Nonô               O piloto aqui é um herói na verdade, assim como talvez várias pessoas que optaram em fazer suas vidas dentro do esporte, aqui no Brasil. Eu me considero um cara muito privilegiado, muito mesmo, de ter escolhido algo que eu me apaixonei muito cedo e ter tido êxito no meu negócio durante todos esses anos, eu sei o quanto é difícil fazer o que eu fiz. O sucesso, como é que a gente mede o sucesso como piloto? Títulos, eu tive meus títulos, tive minha fase boa, consegui combinar a fase de piloto de ponta, que eu me considero, com o lado negócio, consegui fazer as duas coisas caminharem, que é muito difícil, tem muito piloto que às vezes só se dedica ao lado piloto e quando vai ver o lado negócio não existe e aí o negócio como um todo morre, ou vice versa, se o piloto só se dedicar ao lado negócio, não tiver resultado, também morre, então eu consegui equilibrar a situação para viver disso e vivo ainda disso e quero viver por muito tempo ainda, mas é muito difícil, você pergunta Nonô, consegue fazer tudo de novo, dá para fazer tudo igual? Eu falo não, não dá para fazer tudo igual, porque as coisas mudam, as pessoas dentro das empresas mudam, outros esportes nascem, a gente vê uma tendência por um esporte mais radical, por um esporte que polua menos, automobilismo é poluídor, automobilismo contamina o ambiente, então você vender um esporte assim, mas ao mesmo tempo é um esporte que traz muita inovação, traz muita tecnologia, traz um glamour, traz uma paixão que consegue dar para a marca que está dentro desse ambiente tudo isso que eu acabei de falar, exposição, emoção, então, mas é realmente o piloto tem que enxergar isso como um negócio desde muito cedo, se ele for movido somente ao lado artístico, ele não vai conseguir dar sequência.

Luciano           Deixa eu voltar agora lá atrás, quero pegar você jovem, lá atrás, começando o teu negócio, indo lá para fora etc e tal. Você entra na pista e perde, perde uma, perde duas, perde três, perde quatro, perde cinco e de repente ganha uma e aí perde a próxima e perde a outra, e perde a outra, como é que você lidava, como é que você aprendeu a lidar com essa coisa da derrota, dei o melhor de mim, está tudo bem, vou levar e perdi, culpa minha, culpa do cara que ganhou, ele é melhor que eu, eu sou um bosta, como é que você lida como é que você aprendeu a lidar com isso?

Nonô               Olha, é um ponto…

Luciano           Não quero o Nonô hoje, eu quero o Nonô lá, molecão lá.

Nonô               … eu nunca me senti um derrotado, nunca, desde o início, eu nunca pensei no que eu perdi e sempre, é verdadeiro isso, são coisas que eu nunca pensei, estou pensando agora que você me fez  a  pergunta, mas eu nunca vi nenhum resultado que não fosse o primeiro lugar como uma derrota, eu via como derrota e vejo como derrota, corridas que eu sei que eu não fui bem comigo, que eu, por algum motivo, eu desanimei, ou eu relaxei, ou eu perdi a concentração, isso, eu sai daí derrotado quando isso acontece, mas eu chegar em segundo, terceiro, quinto, décimo, vigésimo, nenhum momento eu saio derrotado. Eu sempre olhei para frente, não, se eu cheguei em vigésimo, o que aconteceu que eu cheguei em vigésimo? Isso nunca abalou minha confiança. Eu comecei muito cedo no kart e logo muito cedo eu tive os resultados que foram, talvez moldando a minha confiança como piloto, muito cedo, eu fui campeão brasileiro de kart em 1986, campeão paulista em 1985, em situações assim, nesse caso do campeonato brasileiro de kart em Florianópolis, meu kart quebrou na tomada de tempo, eu larguei em último da repescagem e eram quatro corridas que definiam o campeão, daí de último da repescagem eu fui na primeira bateria, cheguei em, sei lá, em décimo, na segunda em sexto, na terceira eu ganhei, na quarta eu ganhei. Então eu tive situações que assim, é engraçado que muito cedo falaram, Nonô, você tem capacidade e aquilo nunca foi abalado, nunca, até hoje, nunca, a minha confiança, essa confiança mesmo nunca foi abalada, tem momentos que você  talvez não perdendo essa base  possa estar mais confiante e menos, mas essa base assim, de eu ficar inseguro, se alguém falar para mim, Nonô, você não é um bom piloto, nunca existiu.

Luciano           Até porque você sabe que não é verdade.

Nonô               Não, eu vejo que muitos pilotos ficam preocupados com o que os outros acham.

Luciano           Mas você está falando uma coisa fundamental, eu entrevistei aqui a Leila Navarro, a Leila chegou aqui e a gente começou conversar, ela falou o seguinte: cara, a pessoa vem, me chama de feia, eu não estou nem aí porque eu não sou feia, então na cabeça dela, está na minha cabeça que eu não sou feia, então não adianta me chamar de feia, eu não  vou assumir que o que você  está dizendo vale, quer dizer, no teu caso a mesma coisa. O cara chega ô Nonô, você é um piloto de merda aí, você fala não, desculpa cara, eu não sou e aí o reconhecer isso, agora isso é uma coisa que você construiu e você falou muito bem, duas coisas que me chamaram a atenção. Primeiro é o fato de seus resultados aparecerem logo cedo e você poder experimentar isso e segunda coisa, você falar que o que me mata é a  sensação de que eu relaxei, puta, relaxei, podia ter feito um pouco a mas e não fiz e nesse momento você se sente punido e tudo mais, tem tudo a ver com essa questão de você compor o que é que te leva ao sucesso, um dos pontos é esse, a auto confiança, você saber, pô cara, estou me preparando, estudei para isso, estou interessado, sei que eu tenho condições de fazer e não relaxo, não vou relaxar, quer dizer, você está sentado comigo conversando e a cabeça está lá, domingo tem um compromisso e a hora que eu chegar lá eu vou pegar para valer, isso leva a gente para imaginar que é um grau de profissionalismo que tem tudo a ver com essa coisa da paixão que acho que é o modelo meio que brasileiro, quer dizer, a gente é movido muito a essa questão da paixão que explica muito dos grandes sucessos que o brasileiro tem, você pega, pega os nomes que apareceram no esporte brasileiro aí que você fala pô, o próprio Emerson, você vai pegar o Popó, pega lá o Guga, pega os meninos da natação, você vai ver que aquele cara é um bicho estranho que se dedica de corpo e alma àquilo, alguns deles até fizeram aquilo porque era a atitude da vida deles, você pega um Popó, o que ele tinha na vida dele para fazer? Se não fosse aquilo ele estava enfiado em um buraco lá. Vem para o MMA, que é o que está em voga agora, pega os meninos campeões, o cara está fudido no fim do mundo, arruma aquilo e de repente aquilo se torna a vida dele aquilo e é uma entrega total ali que compõe um elemento importante que é esse elemento da paixão e da dedicação total. Agora, do lado disso tem uma estrutura que se ela não funcionar esse cara vai quebrar a cara. Sou um apaixonado, mas quebro a cara um belo dia eu pego e desisto.

Nonô               Os pilotos de sucesso, sem exceção na fórmula 1, todos tiveram isso, todos tiveram esse lado paixão, por maior estrutura que eles tiveram também, todos, todos saíram daqui, foram morar fora, sabe assim, sofreram, foram movidos à paixão mesmo, se isso não existisse, eu acho que pouquíssimos teriam conseguido, pouquíssimos.

Luciano           Quer dizer, aquela coisa racional e analítica do tipo estou aqui para… não tem.

Nonô               O lado emocional, quando você sai da sua casa, do seu ambiente e vai para um país totalmente diferente… Eu gostei muito da Inglaterra, mas é um ambiente que, na maioria das vezes, assusta, então se não houvesse esse lado paixão, todos, o Rubinho, Cristian, o Helinho na Indy, o Toni, o próprio Massa, sabe, todos foram assim realmente é isso que eu quero, então essa paixão é fundamental e diferencia o brasileiro.

Luciano           Então, agora vamos falar um pouquinho mais dessa paixão e de como é que você enfrenta o momento em que você tem que tomar uma decisão na tua vida, que foi aquele momento e que você falou, não vou conseguir chegar na fórmula 1, então isso seria suficiente para brochar qualquer um, dizer, legal, então vou voltar, vou fazer meu curso de direito, de agronomia, de economia e vou ser um executivo numa empresa e você falou não, espera um pouquinho, se não dá na fórmula 1, vai dar em outro lugar em cima do automóvel pilotando que é a minha paixão, como é que foi esse momento de você  constatar, falar, não dá, por aí não  vai dar, eu vou mudar o caminho, como é que foi isso?

Nonô               Não foi um estalo, eu acho que as próprias situações que ocorreram depois que eu saí do kart foram me dizendo exatamente isso, então foi um processo de talvez um ano depois que eu saí do  kart, por mais que eu tentasse chegar na fórmula 1, ainda, eu sabia que eu tinha que buscar alternativas, isso nunca me brochou, sempre o que me moveu, Luciano, é colocar objetivos, quando eu vi que eu não ia chegar na fórmula 1 eu falei, eu quero ser o melhor piloto do mundo de carros de turismo, isso assim, conversando com você eu vou resgatando essas memórias, eu vou ser  o melhor piloto do mundo de carros de turismo, o que e eu tenho que fazer para ser o melhor piloto do mundo de carros de turismo, primeiro, começar a correr em carro de turismo, depois ir para a Inglaterra, que é lá que está  melhor campeonato do mundo, que está a fórmula 1 dos carros de turismo e eu fui e cheguei e corri, então sempre o que foi me movendo foi, qual é o meu próximo objetivo? Eu nunca olhei e não olho ainda hoje, hoje, ah o que eu perdi? Nunca olhei, nunca, sempre qual e o próximo, ah não dá para ser campeão da stock car? Então eu vou ser campeão do brasileiro de marcas, ah não deu para chegar na fórmula 1? Então eu vou ser o campeão mundial de carros de turismo, então é assim…

Luciano           A fórmula 1 não é um fantasma para você?

Nonô               Nunca.

Luciano           Quando você vai dormir ela não fica te assombrando ali?

Nonô               Eu só tenho coisas boas do automobilismo, o automobilismo me ensinou muito, me sustenta, sustenta a minha família, faço aquilo que sou apaixonado, não me contamino pelo lado que talvez muitas pessoas, eu vejo, gostam do automobilismo, o lado do glamour, o lado do dinheiro, entre aspas ali, mulher bonita, sabe aquela confusão toda que todo mundo vê na televisão? Eu falo puta, deve ser lindo, maravilhoso você estar vestido de piloto, nunca me contaminou isso. Então assim, sou extremamente grato e me considero um cara assim privilegiado, mas tenho muito a fazer dentro do automobilismo, então o que eu não consegui fazer, nossa, ah pô, eu podia pensar também do jeito que você falou, pô o Rubinho correu comigo, o Cris correu comigo, Helinho correu comigo, Toni correu comigo e vários outros, o Helinho foi cinco vezes campeão da Indy, o Rubinho correu 20 anos de fórmula 1, muito  pelo contrário, dizer que eu não gostaria de ter feito isso, é mentira, é óbvio que eu gostaria, mas não tenho nenhum sentimento ruim, considero o Rubinho um herói, um herói, de vir da onde ele veio, fazer o que ele fez.

Luciano           Então, vamos guardar o Rubinho para daqui a pouquinho. Deixa eu pegar um negócio antes de a gente chegar aqui, você está falando uma coisa que para mim é fundamental e tem tudo a ver com o espírito desse programa aqui, a sociedade ela valoriza algumas coisas,  a imprensa especialmente valoriza coisas, então, por exemplo, alguém está nos ouvindo aqui que vai começar soprar o negócio, vou fazer a minha startup, onde é que eu vou me mirar? Eu vou me mirar naqueles exemplos que aparecem no tedex, no ted, que aparecem na imprensa, que aparecem na capa da Veja, da Exame e aqueles caras que o cara criou uma startup e hoje ele fatura 3 bilhões, o outro criou um aplicativo e vendeu o aplicativo por 5 bilhões, os caras estão com o rabo cheio de ganhar dinheiro, eu sou um bilionário, onde põe a mão eles conseguem, meu, é isso que eu quero, eu monto minha startup e não viro um bilionário, eu viro um cara normal, comum, estou ganhando meu dinheirinho, estou me sustentando e imagino que aquilo é que é sucesso e o que eu estou fazendo não é e sem me lembrar que a maioria absoluta das startups não vai fazer bilhão, não vai chegar no pódio em primeiro lugar, não vai ser o campeão da fórmula 1, mas pode ser dar muito bem num negócio menor, então tem uma discussão muito grande em cima disso aí que é esse pessoal que fica mostrando os cases de sucesso e falando, olha aqui, mire-se nisso. Eu falo pô, legal para me inspirar é muito bom, mas quantos Neymar tem? Sabe, tem um Neymar para 2 milhões de jogadores ganhando um salário mínimo, dá para chagar lá? Olha, até dá, mas é complicado, não basta ser bom naquilo que eu faço e isso de certa maneira desestimula muita gente, porque o cara fica de olho naquela loucura e fala, espera um pouquinho, se não dá para chagar até ali, eu tenho outros caminhos onde eu posso me dar muito bem e posso me sentir recompensado…

Nonô               Vitorioso.

Luciano           … vitorioso sem ter que necessariamente ser o bilionário campeão dos campeões lá na ponta. Para chegar nesse tipo de consciência em meio a essa pressão que o mercado exerce é um negócio complicado, porque eu também quero, a mulher bonita, quero dinheiro, quero carrão, quero aquela coisa toda, agora, vencer isso tem que ter um nível de consciência além, ou seja, como é que você fala isso para um moleque de 19 anos  que está nos ouvindo aqui, está desesperado para explodir?

Nonô               Eu acho que esse sucesso todo é uma consequência, quando você pega esse cara que ganhou bilhões, que vendeu o seu negócio, a gente não sabe a história real dele, quantos negócios ele perdeu, quantas vezes ele não se deu bem até acertar o negócio que deu bem. Então, eu não me iludo com essas coisas assim, eu acho que o que eu consegui dentro do automobilismo foi e é ainda por muita dedicação, não adianta falar não, eu quero ser o tri campeão do mundo de fórmula 1 como o Piquet foi, eu também quero e o que que eu faço é esquecer do dia a dia, da sementinha que você tem que plantar hoje, eu acredito muito nesse trabalho de sementinha, você planta hoje, vai plantando, planta 100 sementinhas, uma hora uma brota. Então você apega naquela, outra hora outra brota também, você vai formando o teu campo ali de sementes que germinaram, então é muita dedicação, é se preparar, eu não acho que o sucesso é a quantidade de dinheiro que você tem no banco, eu não acho, o sucesso não pode ser medido por isso, na minha opinião, o sucesso para mim Nonô, não está ligado também a eu ser um piloto campeão 20 vezes da stock car, 20 vezes no brasileiro de marcas ou 20 vezes na fórmula 1, não está. O sucesso está ligado a você carregar e conseguir colocar em prática, o que é difícil, os valores que estão aí para todo mundo colocar, que é a educação, o respeito, pode ser um clichê mas não é, é isso que me alimenta de felicidade é poder transmitir para a minha filha, sabe, as coisas boas, o saber perder para mim é uma lição, você falou um pouco tempo atrás como pé que você lida com a derrota, eu nunca achei que fui derrotado, mas você saber perder e identificar que o outro foi melhor, para aprender com o que o outro fez de melhor ou entender que você não conseguiu fazer aquilo ali mas não te machucar e você valorizar o cara que ganhou, isso é uma vitória, para  mim o campeão mesmo só é um campeão quando ele sabe perder, cara que não sabe perder não é um campeão, pode ganhar uma corrida, pode ganhar duas corridas, mas não vai ser o campeão. Então eu acho assim, que depende muito de como as pessoas medem o sucesso, eu não olho para um cara que tem bilhões, eu falo, eu também quero ter bilhões, não vai mudar minha vida, eu quero ter o básico, quero morar num país que me dê o básico, porque a gente ainda não mora nele, então eu luto para isso e a ferramenta que eu uso para lutar, para se uma pessoa completa é o automobilismo, fazendo a fórmula profissional, é uma paixão, mas não é uma paixão acima da minha família, não é uma paixão acima do que eu quero para a minha filha, quero educar minha filha, sabe, não pode ser…

Luciano           É uma visão um pouco diferente da cultura que nós temos no Brasil, o Brasil é um país que não valoriza nada que não seja o primeiro lugar, quer dizer, se pega em segundo, você é um bunda mole, a medalha de prata é nada.

Nonô               Mas eu acho que a gente tem que combater isso, Luciano.

Luciano           Pois é, concordo com você tremendamente.

Nonô               Se a gente não falar, a gente não combate isso.

Luciano           Acho que é perfeito. Então vamos voltar ao Rubinho. Eu fiz o trabalho todo de recuperação do carro lá dos Fitipaldi…

Nonô               O Copersucar.

Luciano           O Copersucar, aquele todo a base de reconstruir 30 anos depois o carro, botar o carro andando, estive com o Wilson, estive com o próprio Emerson, a gente conviveu um bom período lá e ouvi as histórias inteiras e descobri rapidamente que, independente do trabalho do carro em si, tinha uma história a ser recontada lá porque o que entrou para a história foi que aquilo foi um baita fracasso, que aquele carro não ganhava, que só quebrava, que era dinheiro jogado fora, que os caras eram uns loucos e tudo mais e quando você pega e põe os números e olha para as estatísticas, fala isso era nada disso, pelo contrário, os caras fizeram coisas do arco da velha, que se eles fossem argentinos você ia estar com o saco na lua de ouvir os caras dizerem que o melhor do mundo eram os Fitipaldi, mas como era brasileiro entrou para a história com esse rótulo.

Nonô               Não e assim, você sabe, o Keke Rosberg correu na Copersucar, depois foi campeão mundial, o Adrian Newey era da Copersucar e virou o que é.

Luciano           Exatamente, o próprio Emerson, para abrir mão dos títulos e vir correr na Copersucar. Mas essa dimensão não passou e quando eu lancei, quando nós fizemos aquele projeto que nós lançamos o livro, o livro reconta essa história toda, foi muito legal. Agora eu vi a Globo voltar, fizeram 18 minutos, botaram no ar, ah que legal, eu falei pô, isso nós falamos quando fez 30 anos. Mas um dos pontos importantes ali, eu preparei uma palestra que eu faço até hoje, chama-se “O Complexo de Vira Latas” onde no meio eu conto esse processo da reconstrução do carro e reconto a história e a plateia fica embasbacada porque eles nunca tinham visto aqueles números, eles não sabiam que o Copersucar quebrava menos que Lotus, menos do que Ferrari, eles não sabiam da numeração e ai chega o momento que eu faço a comparação entre dois pilotos, boto dois pilotos sem identificar quais são e falo, esse piloto aqui ganhou isso, ganhou aquilo, esse segundo aqui ganhou isso, ganhou aquilo, esse bicampeão, um nitidamente melhor que o outro, quem são os dois? E aí eu vou para o menos bom, eu boto lá, esse aqui é o Gilles Villeneuve que é um ícone da fórmula 1, que é o segundo colocado e esse primeiro colocado é o Rubens Barrichello e aí a plateia óóó, o Rubens Barrichello que é tratado como Rubinho Pé de Chinelo, que é o cara que não ganha etc e tal que só um brasileiro pode ter na cabeça a ideia de que uma equipe como a Ferrari, que investe 500 milhões de dólares por ano na equipe, vai contratar um cara ruim para ser o segundo piloto da equipe, vai chegar com um cara eia boca e vai botar… nesse nível de negócio não se brinca com isso, você não vai trazer um cara que é meio bom para ser o segundo piloto, você tem que trazer um cara para ser um cara para ser o ganhador, então há qualidades ali que a gente não reconhece, que para a gente só perde, perde, perde e vira motivo de piada e você agora há pouco falou assim: “Rubinho é herói”, me fala.

Nonô               É o Rubinho, ele morava perto de Interlagos, a família dele tinha um depósito de construção pequeno, o pai, a mãe, o Rubinho e uma irmã e começou correr de kart em 83, um ano antes do que eu, naquele ano que eu acompanhava o meu irmão e aí eu comecei em 84, a gente ficou ali, você tem 12, 13 anos você fica amigo de todo mundo e aí o Rubinho, eu via naquela situação que a família toda realmente já naquela época vivia em função do Rubinho, vivia em função dele, vivia em função dele conseguir correr de kart. E aí ele foi assim muito talentoso, foi várias vezes campeão brasileiro, ele foi para a Europa, ganhou tudo o que podia ter ganho, tudo na Europa, fórmula opel, fórmula 3, fórmula 3000, fórmula 3000 ele não foi campeão, mas na fórmula opel e na fórmula 3 foi campeão europeu, campeão inglês, aí chegou na fórmula 1 pela Jordan destruindo todo mundo, chegou causando aquele impacto que pouquíssimos pilotos causaram, um Senna causou, um Schumacher causou e vários outros que foram campeões não causaram, Villeneuve não causou, Damon Hill não causou, Hakkinen não causou, Button não causou, o Alonso causou, seja assim, estou medindo Rubinho com esses caras que são expoentes ao último na fórmula 1 e  aí foi lá na Jordan, depois foi para a Stuart, aí depois ficou 10 temporadas, não sei quantas temporadas na Ferrari e um piloto que fica quase 20 anos na fórmula 1 é exatamente o que você falou, não tem por onde não ser um piloto vitorioso e conhecendo a capacidade dele, técnica anterior a ele chegar na fórmula 1, então o Rubinho realmente, do nada fez o que ele fez, obviamente com aquela estrutura que eu te falei que é necessária, que a família voltou desde muito cedo para fazer o Rubinho acontecer.

Luciano           Mas de qualquer forma você dá um dado aí importante que é o seguinte, a família dele, ele não era filho de um milionário, que botou dinheiro no filho, ele era filho do dono de um depósito…

Nonô               Simples assim, não faltava nada… mas não tinha, longe de ter qualquer condição de fazer o Rubinho correr de fórmula Ford aqui no Brasil. Então assim, eu estou muito a cavalheiro porque eu conheço o Rubinho desde essa época para falar isso, fez o sucesso que fez na fórmula 1, agora talento não faltou para o Rubinho ser campeão do mundo de fórmula 1, para mim faltou não se sentir, talvez, tão derrotado, por mais que ele tenha atingido todo esse sucesso, ele mesmo colaborou para que essa imagem aparecesse aqui no Brasil, eu nunca o vi, ele se vendendo como, não, eu estou aqui, estou na Ferrari, chego em segundo, o que vocês querem?

Luciano           Faltou arrogância para ele…

Nonô               Faltou bater com o pé na porta…

Luciano           É isso que eu estou dizendo, muito bonzinho, muito bonzinho…

Nonô               … acho que arrogância não sei se é… é, pode ser, pode ser usada mas faltou uma confiança maior, confiança que ele tem como piloto, eu não via ele se expressando para as pessoas, então para mim faltou isso, faltou não ter talvez esse complexo aí sabe…

Luciano           De superioridade mesmo, eu sou mais eu e etc e tal. E não dá para dizer que ele não confiava nele, que ele não tivesse autoconfiança.

Nonô               Não, o lado piloto Rubinho até hoje, até hoje, o lado piloto dele, de autoconfiança são poucos que tem, ele corre hoje stock car, foi campeão de stock car no ano passado, mas eu nunca enxerguei nele um cara que fora fala não, eu estou aqui. Então…

Luciano           Quer dizer, você está me trazendo um componente interessante que é aquela história, se você é honesto, mas não parece honesto, você não é honesto aos olhos do público, se você é competente e não aparece competente, você não é competente aos olhos do público, ou seja, não basta você ser bom naquilo que você faz, você tem que verbalizar isso e dizer para todo mundo: sou mais eu e bater no peito…

Nonô               Sou vice campeão do mundo de fórmula 1.

Luciano           … que é outra coisa que o brasileiro detesta, o cara está se achando, o brasileiro odeia isso, se ele vê alguém falando, subiu na cabeça, virou o rei da cocada preta, se  eu chegar aqui e falar o seguinte, meu, eu sou muito bom fazendo podcast, porra, o cara está se achando, quem disse que ele é… é proibido você dizer que é bom e aí acaba acontecendo esse tipo de coisa, quer dizer, se não sou eu a me valorizar e até chegar  para você pode vir que eu me garanto, quem é que vai fazer isso por mim? E no caso dele parece que é uma moto niveladora que passou por cima dele, porque ele acaba virando… virou um rótulo…

Nonô               Mas para mim foi culpa dele, não foi só culpa dessa cultura brasileira, eu considero ele parte culpado de ele não ter uma percepção muito melhor, uma percepção de herói mesmo.

Luciano           E chamado para a briga…

Nonô               O que vocês querem eu estou aqui, sou vice campeão do mundo duas vezes, ganhei tantas coisas na Ferrari, corri tantas vezes, qual outro piloto brasileiro correu na Ferrari? Quem? Explicar mesmo, ensinar as pessoas, foi uma época diferente, o Senna foi o Senna, Piquet foi o Piquet, o Emerson foi o Emerson, aqui o momento é outro. E talvez até de admitir a superioridade do Schumaker, isso não é demérito e combater um pouco o que a gente falou que o segundo é um primeiro perdedor, ele nunca combateu, ele foi o símbolo de que o segundo é o primeiro perdedor e não é, o Schumaker nasce um a cada 100 anos, Pelé acho que não vai nascer outro, acho que a geração dele foi geração do Schumaker, então, mas o Rubinho é um cara assim que merece tudo  que tem, tecnicamente…

Luciano           Vou chamar a atenção aqui, quer dizer, quem está falando agora é um piloto vitorioso, com vinte e tantos anos de carreira, um cara que correu no mundo inteiro, que conheceu alguns dos melhores pilotos do mundo, que estuda o assunto e conhece o assunto. Continua. Fala do Rubinho, esse final que você estava falando agora.

Nonô               … não, o Rubinho tem que ser considerado,  senão dá para botar ele no mesmo nível do Senna, porque o Senna foi tricampeão do mundo, mas de capacidade técnica Rubinho tem o mesmo nível, agora, capacidade para administrar a situação, ele não teve, mas foram épocas diferentes também, mas o Rubinho voltou para o Brasil, foi campeão da stock car, a stock car tem um nível técnico fantástico, stock car não perde de nível técnico de piloto e equipe para nenhuma categoria  do mundo de carros de turismo, mas de novo, a gente está no Brasil, fica escondido, você fala DTM Alemã, pô, DTM, fala V8 australiana, ó, V8 australiana. Fala stock car, ah a stock car é uma baita categoria que a gente não consegue mostrar em função dessa desorganização do automobilismo o potencial que ela tem, de negócio e de esporte.

Luciano           E foi ali que você acabou, quando você volta ao Brasil, você volta ao Brasil para a stock car, é isso? E ali você constrói uma carreira.

Nonô               É, eu comecei em carros de turismo em 1992, quando eu falei vou ser o melhor piloto do mundo em carros de turismo, o que eu preciso fazer? Então, eu preciso primeiro me reestruturar. Aí eu voltei para o Brasil e corri num campeonato que nasceu em 1993 que chamou fórmula Fiat e o presidente da Fiat na época falou que o campeão, o piloto mais novo bem colocado ganharia uma temporada na fórmula 3 italiana, falei, é lá que eu vou estar, meu sonho de fórmula 1 não morreu, vou ser campeão da fórmula Uno e vou correr na Itália. Dito e feito. Eu fui, eu tinha ido para os EUA, voltei para o Brasil, comecei a correr de fórmula Uno em 92, fui campeão, no meio do ano, eu falei para a minha mãe, mãe eu vou ser campeão e vou morar na Itália no ano que vem, então eu preciso entrar num curso de italiano, entrei no curso de italiano e no meio  do ano você ainda não sabe o que vai acontecer  em corrida, mas eu falei, eu vou ser  campeão e vou para a Itália. Entrei no curso de italiano, fui campeão, fui para a Itália, a Fiat me patrocinou um ano lá, e ai no final desse ano a Fiat não quis renovar o patrocínio, voltei para o Brasil e definitivamente me dediquei a carros de turismo, falei, então agora, já que fui para a fórmula 3 e não vou sair daqui, vou definitivamente correr em carro de turismo, voltei para o Brasil na fórmula Uno, que foi onde eu comecei a ganhar um dinheiro, fui bicampeão da fórmula Uno em 95, voltei em 93, 94, 95, 96 eu corri aqui no  Brasil de fórmula Uno e stock car, fui bicampeão de fórmula Uno, campeão da stock car em 94, falei está bom no Brasil, agora eu preciso ir para a Inglaterra que é onde o melhor campeonato do mundo está, aí juntei tudo o que eu tinha de economia, que eu tinha ganho nessa época, fui para a Inglaterra em janeiro de 97, pesquisar quais eram as equipes de uma categoria abaixo da principal do mundo, aí fui lá em janeiro, pesquisei, tudo sozinho, acertei com uma equipe e aí em fevereiro mudei para lá, mirando o que? Mirando o melhor campeonato do mundo de carros de turismo, que era o Super Turismo inglês e eu corri numa divisão abaixo, aí no primeiro ano eu fui quarto colocado nesse campeonato, em 97 e fiz três testes para correr no super turismo inglês, pela Ford, GM e Peugeot, só que eu não consegui correr nesse campeonato em 98, eu fiz mais uma temporada do campeonato que eu estava, fui vice campeão inglês em 98 e corri duas provas do super turismo inglês, convidado pela Valkson, que é a GM inglesa, porque numa das corridas o piloto oficial se acidentou e a GM foi lá e me chamou e aquilo foi um sonho realizado, falei eu vou correr, eu queria ser o campeão do melhor campeonato do mundo de carros de turismo, não fui, então qual é o próximo passo? Correr, então a GM me chamou para correr na fórmula 1 do turismo, eu peguei lá e fui, então aquilo para mim foi algo assim, o tipo, puta Nonô, você queria, você fez, trabalhou, trabalhou, trabalhou, trabalhou e conseguiu. Não consegui dar continuidade, porque o automobilismo é cíclico, eu cheguei próximo a esse campeonato no final do ciclo dele, as montadoras saindo, eu cheguei na hora errada, mas cheguei, consegui, abri a porta e entrei, não consegui ficar, mas aquilo foi um sonho realizado e aí em 99 eu voltei para o Brasil para correr pela equipe da BMW no campeonato sul americano de super turismo e aí em 2000 eu voltei para a stock car nessa nova fase da stock car, que ela se reinventou comercialmente, promocionalmente, tecnicamente, que foi essa fase Globo que nasceu em 2000 e está até hoje. Então, eu fui um dos poucos pilotos, talvez o único até então de ter participado do início dessa fase até  agora e de 2000 a 2014 fiquei na stock car onde eu realmente me desenvolvi como profissional fora da pista, sempre atuei fora da pista, mas foi a stock car que proporcionou que eu me desenvolvesse mais, criasse vários relacionamentos, entendesse mais no negócio e ficasse tanto tempo, fiquei 15 temporadas aí até o ano passado.

Luciano           E agora? Um piloto maduro, 44 anos, já ganhou, já é reconhecido etc e tal, como é que você vê, o que é que vem pela frente?

Nonô               Acho que minha fase, acho não, minha fase de piloto, Luciano, ela está no final, ano passado decidi parar de correr de stock car e estabelecer uma equipe, eu estabeleci uma equipe em 2015 no campeonato brasileiro de marcas, que é uma outra categoria aqui do Brasil, uma categoria que tem uma ligação com as montadoras bastante forte, com a GM, com a Toyota, com a Honda, com a Renault e com a Ford…

Luciano           Vai virar cartola?

Nonô               … não, ser dono de equipe não é ser cartola. Cartola seria ser presidente da CBA e eu acho que a CBA precisa ter pessoas que vivenciaram tudo dentro do automobilismo, dentro da CBA não pode ter gente que sabe muito pouco, hoje a CBA é uma estrutura muito pouco desenvolvida com gente muito pouco comprometida com o futuro de automobilismo, mas o meu objetivo foi, em 2015 estabelecer uma equipe no campeonato brasileiro de marcas, a minha equipe é uma equipe oficial GM, os dois carros da equipe são Chevrolet’s Cruze, eu corro em um dos carros, até porque eu entendi que eu correndo, essa equipe se desenvolveria mais rápido, o outro piloto é um piloto bem novo, que chama Guilherme Salas, tem 21 anos, como equipe nós estamos em segundo colocado de campeonatos de equipe e eu como piloto estou em terceiro colocado a um ponto do segundo com chance de ser campeão, faltando duas corridas. Então foi um ano bastante vitorioso para um negócio que nasceu em 2014, o futuro, o meu futuro está ligado muito mais à equipe do que como piloto, os últimos 30 anos foram Nonô piloto, nos próximos 30 anos Nonô equipe. Quero ter uma equipe que seja referência técnica, comercialmente, promocionalmente, de atitude, de comportamento, miro mesmo esse cenário para a minha equipe, sou bastante exigente, vou seguir essa linha o mais próximo que eu conseguir dela, basicamente é isso, esse é o meu momento atual, me vejo ligado dentro do automobilismo para sempre,  atuo diretamente com organizador da stock car, que é a Vicar, colaborando um pouco com a minha experiência na área de segurança, colaboro com a CBA também nessa questão da segurança, sei da minha responsabilidade como alguém que viveu tanto tempo desse negócio e tenho vontade de colaborar para o esporte que me ajudou a me fazer profissionalmente, não existe aquela situação, não, não quero devolver nada, muito pelo contrário, tenho vontade de devolver para o automobilismo o que eu puder par fazer com que esse negócio, esporte continue vivo e cada vez melhor, não vejo isso em muita gente, o que me frustra, porque eu acho que a gente tem que realmente envolver um pouquinho…

Luciano           Em todas as áreas, todas as áreas você vê isso, é uma coisa que eu não me conformo, vou fazer um paralelo meio idiota, mas acho que funciona muito bem. Essas duplas de cantor sertanejo que estão montados no dinheiro, esses caras tinham que fazer uma escola de música para formar músicos brasileiros e assim vai e o grande escritor deveria fazer  a mesma coisa e o grande médico, o grande advogado… terminei e isso é uma cultura também que lá fora existe muito, quer dizer, cheguei onde eu queria estou muito bem, o que vou fazer agora? Vou fazer um trabalho social na África. E os caras vão. O brasileiro não está muito acostumado nisso não. Nós estamos indo para o final aqui, mas eu não quero deixar cair uma peteca aqui, é um negócio que eu acho que é fundamental para a gente falar aqui. Eu quero saber como é que você lidava com o risco, você tem uma família, você tem uma filha, você tem pais, esposa e você, quando entra num carro e bota o teu macacão e o capacete e entre num carro, você começa a correr risco de vida, por mais que… você está correndo risco de vida. Como é que você lidava com essa questão do risco, de saber que pô, está chovendo, não está legal, tem um maluco, como é que você, eu acho que eu posso morrer e de repente você está á tocando a sua vida, quando acontece um acidente como aquele do Rubinho, que o Rubinho quase vai, o Senna vai, você olha e fala, esses caras  estão onde eu estou, fazendo aquilo que eu faço, de um jeito.. podia ter sido eu, como é que você faz para olhar para isso e falar bom, legal, vou tocar em frente. Como é que lida com o risco?

Nonô               Olha, eu acho que eu lido não pensando muito nele, acho que se você pensar mesmo vai te atrapalhar, mas eu sei que ele existe e eu me protejo. Como é que você se protege? Primeiro estando muito preparado para fazer aquilo que você faz, eu sei o que eu tenho que fazer, como eu tenho que fazer, eu sei com quais pessoas eu tenho que me cercar, eu não vou correr em qualquer lugar, de qualquer jeito, com qualquer carro, mas mesmo você se protegendo dessa forma, existe o risco, existe o risco como aconteceu na stock car, alguns pilotos, 3 pilotos morreram, um em 2001, nessa fase que eu corri de stock car, que foi o Laercio Justino, em Brasília; o Rafael Sperafico e o Gustavo Sonderman, esses dois últimos na categoria de acesso à stock car, é algo que  assim, quando isso acontece realmente choca num nível absurdo, me espanta até como a vida continuou tão rapidamente depois dessas situações, como aquele cenário voltou ao normal, me espantou, algo que eu nunca falei mas como é que pode acontecer uma coisa daquela e o cenário aqui, a stock car, o automobilismo retomar tão rapidamente, o que foi feito para que isso diminua? Ah, todo mundo trabalhou, tentaram aumentar a segurança, mas eu não penso muito que eu possa me machucar, eu me protejo, mas quando eu estou dentro de um carro o único pensamento que tem é fazer o melhor, quando nascem os acidentes graves? Quando tem uma falha mecânica, quando numa corrida sob condições muito difíceis de chuva, quando você corre em pistas que não deveria correr, então são situações que você consegue se proteger, então eu me protejo da melhor forma possível.

Luciano           Os pilotos falam sobre isso entre si, se mobilizam, a gente tem alguns cases muito interessantes ai, inclusive aquele documentário do Senna, recente, é muito legal o momento em que ele levanta e solta o verbo e se rebelam, mas fica claro que nem todos os pilotos entraram na dele, quer dizer, a maioria lá, não, eu vou correr e dane-se. Tem uma união, os pilotos, já foi mais unido?

Nonô               Não, tem, nessa situação do Senna, se não me engano, não era exatamente por uma questão de segurança e si uma questão da chicane, se podia cortar o caminho, não que foi exatamente o que aconteceu com ele e com o Proust, quando o assunto é segurança, acho que o melhor documentário disso é o do Lauda, que  é um filme, esqueci o nome…

Luciano           Rush

Nonô               … Rush, quando naquela corrida do Japão, decidem dar sequência à corrida, ou uma corrida anterior, não, na corrida que o Lauda sofreu o acidente que pegou fogo o carro dele, ele levantou e falou que a corrida não deveria acontecer, só que aí metade, mais da metade não concordou e a corrida deu sequência, então aquele foi um cenário que mostrou uma desunião e naquela época não existia essa preocupação, era um automobilismo realmente ultra perigoso, que a cada 3, 4, 5 corridas morria um, isso é um absurdo, na época, nos dias atuais, quando o assunto é segurança todo mundo levanta e fala, não, não vamos fazer. Se é uma situação que está clara, não, não vamos correr, já houveram (sic) situações assim na stock car, corridas, por exemplo, em Salvador que choveu, estava chovendo muito, corrida televisionada ao vivo pela rede globo, começou a chover um pouquinho antes, não correu, esperou e você pode imaginar o que é uma corrida ao vivo pela rede globo, tem que começar naquele minuto e terminar naquele minuto, não vai correr, ninguém correu e aí a corrida foi adiada uma, duas, três horas até que a pista tivesse condição e o lado comercial ficou em segundo plano, fantástico! Então, quando o assunto é segurança todo mundo se une, deveria se unir também no assunto, na questão negócio, que aí o nosso negócio seria muito melhor, o piloto tem a mania de tratar o outro piloto como inimigo, isso é um erro, o outro piloto não é o inimigo, o outro piloto é um competidor, que naquele momento, mas fora daquele momento tem que ser visto como alguém que pode ajudar o negócio crescer, quanto maior o bolo, todo mundo vai ganhar com isso, se for um bolo pequenininho, esquece, então é a mentalidade assim de não, se eu não tenho que bom que o outro também não tem e não, que bom que eu tenho alguma coisa, o outro cara tem mais mas tudo bem,  mas eu tenho alguma coisa.

Luciano           Então, você me leva para um outro risco, você falou, montei uma equipe, etc e tal, esse treco é caro, não custa barato, qualquer que seja a equipe, se eu quiser montar uma equipezinha de kart, é caro, tudo é caro e você depende de grana para isso aí, você tem que estar batalhando tem que buscar, você chegou aqui pelas mãos de um patrocinador, quem indicou você para vir falar comigo aqui foi a Nakata, beijo para a Sabrina, abraço para o Serjão e eu estava procurando, falei eu preciso pegar um piloto, está na mão o patrocinador seu, como é que é esse lado ai de você falar, muito bem, vai começar 2016 e eu tenho um orçamento para 2016 que é desse tamanho,  é gigantesco e eu não tenho  essa grana na mão, vamos sair atrás e eu não sei se eu começo dia primeiro de janeiro já sabendo que eu vou ter dinheiro até o final do ano ou vou ter só 3, 4 meses de dinheiro, como é que é, isso é um baita risco também, de  repente. Aliás, a Copersucar acaba  assim, acaba lá quando podia começar a tirar resultado, o bicho quebra e o dinheiro desaparece ela termina desse jeito.

Nonô               É um risco constante, é um risco que eu tenho do meu negócio desde sempre, sempre eu chegava em dezembro, e agora? Será que meu negócio continua? O negócio piloto? Será que vou correr o ano que vem? Será que eu vou ter chance de manter meu negócio vivo, a minha paixão? Então eu fui aprendendo a lidar com esse risco também, aí quando eu me tornei dono de equipe agora, esse risco, eu diria, que financeiramente é bem maior, mas eu não penso que não vai dar certo, eu nunca penso que não vai dar certo, mas eu também não fico parado só achando que não vai dar certo, eu vou lá e trabalho, mantenho, faço várias reuniões por mês, se eu estou em janeiro, já estava pensando em 2016, eu não posso pensar em 2016 em dezembro, se eu fizer isso eu não tenho 2016, então eu estou pensando 2016 já há muito tempo, a  partir do momento que o meu negócio nasceu e eu sabia que ele iria acontecer o negócio em 2015, minha cabeça já mudou para 2016. Então, eu vejo o automobilismo é trabalho como um negócio. Se não houver um planejamento eu estou morto, se eu não seguir à risca esse planejamento, obviamente sempre com um aqui, um ali, esquece. Você mencionou a Sabrina, o Sérgio, eles depositaram em mim uma confiança gigante esse ano e algo assim que eu me dedico todo dia para mostrar para a empresa que valeu a pena, de várias formas, não somente nos finais de semana de corrida, mas no dia a dia, com várias ações, ações de relacionamento, ações de venda, campanhas, exposições do carro, a presença do piloto, então é o trabalho fora da pista que existe que pouquíssimas pessoas conhecem e que é feito e o que eu vejo que essas empresas querem, querem estar ligadas a pessoas sérias, a pessoas profissionais, a pessoas que estão ali fazendo de tudo para entregar a mais e eu sou esse cara eu vou fazer de tudo para entregar a mais do que está combinado ali no papel, posso até não conseguir, mas não faltou comprometimento, não faltou dedicação, e é isso, eu vejo que uma grande diferença da Europa, dos EUA aqui no Brasil é que aqui no Brasil as empresas gostam desse perfil comprometido, trabalhador, desses negócios paralelos, uma patrocínio, a empresa gosta de estar ligada a pessoas com valores próximos ao que ela prega ali, eu vejo aqui no Brasil várias empresas que não compram o resultado, que estão ligados ao automobilismo a qualquer custo, então o cara pode ser 10 vezes campeão de stock car mas o cara tem uma imagem, não, não quero, eu vejo que as empresas preferem o cara que está ali, lutador, que obviamente tenha competência para fazer aquilo que faz mas que está ali, mostrando que está lutando, e não um cara que faz coisa errada, que sei lá, faz coisa errada no trânsito mas é um fantástico piloto, não, não é por aí, então eu vejo esse cara assim bem dedicado e comprometido com aquilo que eu faço.

Luciano           Muito bem, Nonô, fantástico, eu não consigo ver outra área, aliás, existem outras, mas essa aqui é muito icônica, esse negócio da corrida, do piloto, de envolver essa questão de liderança, de empreendedorismo, quer dizer, um baita de um business onde quem não sabe o que é olha de fora e só vê um carro e um piloto e acha que aquilo é o lance e não é nada disso, essa visão romântica, se existiu, acabou na década de 70, 80, então isso mudou bastante, isso é um grande negócio, eu acho que o Brasil deu uma barrigada com a morte do Senna, a gente tinha aquele lance todo do herói e aí é uma coisa impressionante porque um piloto se transformou num ícone nacional, que quando a gente fala do Senna não é sobre corrida mais, é uma outra história, acabaram de pintar agora o rosto do Senna num prédio em São Paulo, apareceu na televisão e tudo mais e é um grande herói brasileiro e o cara era um piloto de fórmula 1 e se torna um herói porque, muito menos pelas vitórias que ele teve em si, porque outros também tiveram várias vitórias mas muito mais pela imagem que o cara passou numa época em que aquilo que você falou, certeiro, se fosse o Emerson, na época do Senna, talvez desse  o mesmo resultado, o mundo muda, as coisas mudam barbaramente, a corrida de hoje não tem nada a ver com aquela que era antigamente, você próprio comentou comigo que os custos de stock car subiram astronomicamente, então já virou uma outra coisa hoje, o piloto de stock car de hoje não sei se ele venceria nos  anos 80 ou 90 e o de lá hoje também não funcionasse, então essa coisa desse dinamismo da mudança e o que eu achei muito legal essa tua tranquilidade ai, legal, não está dando certo por aqui, eu vou por ali, estou feliz com o que eu estou conseguindo e vou permanecer nisso, quer dizer, venceu o meu momento de piloto, parei. Não sou mais o piloto, não vou ser mais o cara no holofote com o glamour, mas eu vou fazer a coisa acontecer de um outro lado, usando atua experiência, então parabéns pela visão aí, eu não te conhecia pessoalmente, achei muito legal essa tua visão, acho que para quem está ouvindo a gente aqui é uma lição fantástica e espero que você tenha muito mais vitórias, muito mais títulos pela frente aí, ou como dono da equipe ou ainda… ganha o campeonato esse ano, por favor.

Nonô               Obrigado Luciano, eu agradeço a oportunidade mesmo, eu acho muito legal poder falar do meu negócio, não são muitas oportunidades que nós temos, acho que quanto mais a gente divulgar o automobilismo, como ele realmente é, é bom para o negócio, esse lado empreendedorismo ele existe muito forte, nem sempre com muitas orientações, eu apanhei muito no início e dessas horas foi que eu fui me fortalecendo, nunca o que eu apanhei me desanimou, muito pelo contrário. Então eu realmente agradeço, agradeço o automobilismo, muito e vou continuar lutando e é uma luta diária, acho que as pessoas não podem ter a ideia de que eu estou sentado aqui esperando as coisas acontecerem, não, não estou, mesmo depois de tanto tempo eu me vejo assim trabalhando tanto ou mais para que o meu negócio permaneça vivo.

Luciano           Um abraço. Obrigado.

Transcrição: Mari Camargo