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Luciano Pires -

Luciano                Muito bem, mais um LíderCast, hoje eu estou feliz, eu estou feliz porque eu tenho diante de mim aqui uma figura que muita gente considera um ícone, eu não sei se você gosta de ser chamado de ícone…

Madia                  Eu acho que não é importante…

Luciano                … dane-se…

Madia                  … vão chamar do jeito que quiserem chamar e acabou…

Luciano                … maravilha. Então eu estou diante de mim uma figura aqui que é um dos caras que conhecem profundamente essa questão do marketing, essa área de comunicação. Ele tem um trabalho espetacular que eu acompanho há muito tempo. Se eu já tinha alguma admiração por ele, agora minha admiração vai virar uma coisa quase que de idolatria porque eu acabo de descobrir que ele é bauruense, ô cidade fantástica! E vou fazer aqui as três perguntas fundamentais desse programa, às quais você tem que prestar muita atenção, que são as mais perigosas delas. Eu quero saber qual é seu nome, qual é sua idade e o que é que você faz.

Madia                  Meu nome de nascimento, de pia batismal, de cartório é Francisco Alberto, os dois primeiros nomes, Madia por parte da minha mãe, Souza por parte do meu pai. Francisco Alberto, nunca ninguém me explicou porque eu me chamo Francisco Alberto. Francisco talvez por causa do meu avô, que era de origem italiana e Alberto não sei porque e eu tendo a acreditar que era em homenagem ao Francis Albert Sinatra, mas não deve ser, mas de qualquer maneira, bonito e que eu  acabei de descobrir. A minha idade, eu tenho 73 anos e a terceira?

Luciano                É: o que é que você faz?

Madia                  O que eu faço? Eu sou médico de empresas. Eu sou médico de empresas que tem uma linha de trabalho, que tem uma crença, que lá atrás era um formato de um estilo de gestão, que evoluiu para ser uma ideologia, no meu caso específico é a minha religião que é marketing, significa que quando alguma empresa me consulta, eu vou conhecer a empresa mas, para eu fechar o diagnóstico eu não olho para a empresa, eu olho para fora, eu olho para o mercado, olho para as pessoas que eventualmente possam se interessar pela empresa e se transformar em cliente. Então eu sou médico de empresas. A grosso modo, na medicina você tem dois grandes ramos, que é a homeopatia e a alopatia, no meu território eu não sou nem alopata e nem homeopata, o meu negócio  é marketing, então tudo o que eu faço, tudo o que eu recomendo, é sempre sob a ótica do cliente e sob a ótica do mercado.

Luciano                Madia, com 73 anos, você é da época, você é pré offset, você é da época do past up, você  é da época da letra set, quem está ouvindo a gente aqui acho que não tem nem ideia do que eu estou falando, você é da época do ben day, uma época que estava lá atrás quando havia um romantismo nessa questão do marketing e se criou no  Brasil uma indústria fabulosa, com nomes fabulosos, eu diria até que em termos do comportamento do brasileiro, muita coisa aconteceu a partir do trabalho desses caras que faziam marketing na época em que você estava lá, não vou dizer começando, mas que você estava atuando bravamente. Meu caro, eu vou te fazer uma pergunta agora que é só uma provocação para a gente começar o nosso bate papo. Madia, quantos “p” tem o marketing?

Madia                  Quando eu descobri essa matriz, essa matriz eu descobri há mais de 40 anos e até hoje no Brasil as pessoas imaginam que foi o Philip Kothler quem criou a famosa matriz dos quatro “p’s”, que é produt, promotion, place e price, eles acham que foi o Philip Kotler porque o Philip Kotler todo ano vem para o Brasil provavelmente ganha de 50 a 100 mil dólares, para falar dos 4 p’s, não que ele tenha alguma vez escondido quem é o autor, mas como ele vem muito aqui ele fala, mas as pessoas não prestam muita atenção, então virou ele. De verdade foi um autor americano, no início dos anos 70, chamado Jerome McCarthy, que criou os famosos 4 ‘p’s”. Quando eu comecei a trabalhar com marketing eu gostei muito dessa matriz e era uma outra realidade, ele cria os 4 p’s no início dos anos 70, de verdade, e verdade, no início dos anos 70 já existiam os fundamentos do marketing, a base do marketing, o raciocínio do marketing, mas o mercado era absolutamente inóspito para as práticas do marketing, por que? Porque tinha pouca concorrência, para que o marketing possa crescer, prosperar e florescer, em cada categoria de produtos, você tem que ter 10, 12,  15 concorrentes. Em 1970, se a gente estivesse aqui em 1970, voltar para trás quase 50 anos, se você falasse Madia, vamos comprar um suco de frutas, vamos ali no Pão de Açúcar, que não era  Pão de Açúcar, era o Sirva-se, vamos no Sirva-se comprar um suco de fruta, a gente tinha 3 alternativas, ou a gente ia comprar e ia tomar, comprar e tomar um suco de caju, ou maracujá da Maguary, ou ia ter que esperar uma semana e encomendar um suco de uva da Superbom, hoje você entra num supermercado, você tem 10 metros quadrados ou cúbicos de sucos de todas as frutas possíveis e imagináveis mais as combinações, aí o marketing cresce, prospera e floresce, aí você tem concorrência, tem competição. Porque ele cresce, prospera a floresce? Porque o consumidor tem a possibilidade de escolher e para que você tenha marketing em estado de arte, tem que existir isso, se não existe isso, você não consegue fazer marketing. Então, quando Peter Drucker cria o marketing, de uma inspiração moderna em 1954, um livro que se chama “Práticas de Administração de Empresas”, ele já dizia todas essas coisas, só que faltava o ambiente, faltava o campo para jogar o jogo. Esse campo começa a nascer, a se manifestar a partir de 1970 e hoje é essa maluquice que a gente está vendo, muito pessoalmente 20 anos para trás, quando o mundo que a gente vive hoje, ele é uma segunda pele, que é a pele digital, surgiram infinitas plataformas e finalmente num determinado momento, mais ou menos lá para 1994, um dia a gente acordou e falou, porra, sou eu o cara importante de tudo isso? Esse mundo todo gravita em torno de mim, eu consumidor, pouquinho mais adiante, com as práticas de consumo, a gente se descobriu cidadão, no Brasil isso é recente, no Brasil isso é de junho ou julho, aquela passeata que teve de 2013, se não me engano, lá é o consumidor brasileiro se descobrindo cidadão que é uma coisa fantástica, extraordinária, que a gente não consegue ver nesse momento de crise, tão grande é a crise, mas seguramente o aspecto mais abençoado dessa crise é a descoberta da cidadania, finalmente, pelos brasileiros…

Luciano                É uma consciência…

Madia                  … a consciência. Então o processo evolutivo foi esse. Existiam conhecimento, existiam as técnicas, existiam as práticas mas o mercado  ainda… não existia quantidade de competidores, os campeonatos eram campeonatos de 2 ou 3 times, não era essa riqueza que é hoje no futebol mundial e aí, quando a gente montou a nossa empresa e começou a trabalhar com consultoria e pegou essa matriz, falou, mas está faltando um “p” aqui, aí está faltando outro “p”, hoje nós temos 12 “p’s”. 11 “p’s” de verdade e um décimo segundo “p” que de verdade é o primeiro hoje na nossa matriz que é uma gambiarra que a gente fez, que é phocus, que de verdade phocus não é com “p”, é com “f”, mas aí a gente falou, porra, que sacanagem com o Geral McArthy, ele cria uma matriz com “p’s”, a gente enfiou um “f” aqui, a gente fez uma pesquisa etimológica e descobriu que vem do grego, que é com ph e fechou, aí foi fantástico, é isso. Então nós trabalhamos com uma matriz de 12 “p’s” hoje.

Luciano                Legal, que delícia. Você sabe que tem uma coisa interessante, você está falando aí, a minha cabeça vai a milhão aqui porque eu vou lembrando de como é que era, como é que ficou. Também passei por tudo isso que a gente falou aqui e eu me lembro de uma história interessante que eu até usava, usei num texto e usei numa palestra. Meu avô chegou de Portugal com 12 anos, em 1915, uma mão na frente outra atrás, sozinho, junto com um primo dele, foi para Bauru, foi morar em Bauru, naquela época, você deve ter conhecido ele, porque ele foi presidente da Beneficência Portuguesa, o Duarte Silva etc e tal lá e Bauru, e do nada ele foi fazendo a sua própria vida lá, então ele foi dono de padaria, de supermercado e tinha uma coisa que meu avô fazia lá em 1920, 1930, ou qualquer coisa, o seu João vem de manhazinha na padaria dele para tomar um café, vem caminhando, meu avô vê o seu João vindo, quando o seu João chega, encosta no balcão, o café já está lá pronto do jeito que o seu João gosta, com  pão do jeito que seu João gosta, seu João termina de tomar o café, ele conversou com meu avô, terminou de tomar o café ele, seu Duarte anota aí, o seu Duarte anota na cadernetinha, etc e  tal, então muito bem, eu consigo olhar para esse processo do meu avô e achar ali customer relationship management, consigo achar cartão de crédito, consigo achar foco no cliente, toda essa conversa hoje, que custa milhões para fazer, porque tem que botar um puta software, que tenta recuperar aquilo que meu avô  fazia lá naquela época porque era muito mais fácil, era o one to one, como você fala que a gente recupera essa cidadania, essa consciência de cidadania eu falo, cara, na verdade sempre fomos nós os mais importantes, sempre é o consumidor o mais importante, então, por mais que a gente veja essa casca hoje em dia, os nego contanto história, como é que é? Whistles, bombas, rojões, luzes, fumaça, aquela história toda, no fim das contas eu quero o seu Duarte de volta, eu quero ter para mim aquilo que o seu Duarte fazia com o sujeito que ele atendia há 70, 80 anos. Você não acha que isso aí é marketing demais em cima de coisas que são absolutamente simples, que é esse foco no atender o que você precisa? Eu quero te atender em alguma necessidade que você tem e acabou, o que vier depois é conversa, é papo furado e se cria um marketing, uma forma de tornar isso difícil para poder vender com muito mais facilidades, de repente você está se vendo afundado em complicações, gastando milhões, para fazer alguma coisa que a gente sempre fez.

Madia                  Mas eu acho que você tem razão, eu acho que é isso mesmo, mas eu acho que todo o processo evolutivo ele tem uma etapa, uma fase de estupidez, de burrice. Só que essas fases não são fases de um dia, ou um mês ou um ano, são décadas, então de alguma maneira eu acho que a gente viveu nas últimas três ou quatro décadas uma fase de estupidez, de burrice, de volume, de aumentar volume, de aumentar a velocidade, de não parar para raciocinar. Um dia o Peter Drucker disse o seguinte: “me parece uma insanidade todos os dias milhões de pessoas no mundo inteiro saírem de suas casas com 80, 90, 100 quilos caminharem duas horas para vir trabalhar na minha empresa e no final da tarde essas mesmas pessoas, com 80, 90, 100 quilos, perderem mais duas horas para voltar para suas casas quando tudo o que a gente precisa é do cérebro dessas pessoas que perdem de 2 a 3 quilos”, só que não existia a possibilidade de você trabalhar a distância, então tinha que fazer isso, hoje existe essa possibilidade e na maioria das empresas continua adotando da metodologia ou formato de trabalho presencial, que é uma maluquice, mas é assim mesmo, o processo de aprendizado é um processo demorado, quando você vai desenvolvendo uma cultura, quando você induz uma cultura, você cria um ranço, você cria uma blindagem, você se impermeabiliza, você tem uma dificuldade muito grande de ver, então por isso que muitas das coisas que a gente está sofrendo hoje já poderiam ter sido resolvidas se a gente tivesse a capacidade de novo, de fazer o que o Drucker nos ensinou, que para você mudar não é suficiente você pegar todas essas coisas novas que estão pelo mundo e jogar na velha moldura que você tem na sua cabeça. Você tem que jogar a moldura velha fora, então a gente tem uma dificuldade muito grande de jogar a moldura velha fora, mas isso que você está falando, que é absolutamente verdadeiro, gradativamente está acontecendo, não é por acaso que as grandes redes de varejo de alimento, bebidas e etc, os supermercados, estão investindo em lojas pequenas, em lojas de bairro, porque a gente está voltando de novo para o movimento de diástole, a gente quer ver sístole de concentração e agora tem a diástole, tem a descompressão, que é o que está acontecendo no mundo nesse momento, você tem uma mudança absolutamente total de sociedade, por outro lado também, todas as conquistas dos últimos anos que a tecnologia nos deu, que está nos levando para uma coisa que um autor americano, que ele lançou livro no ano passado, o Jefrey, não me lembro o segundo nome dele, que se chama “Sociedade de Custo Marginal Zero”, conta nesse….

Luciano                Cidade…

Madia                  … “Sociedade de Custo Marginal Zero”, as coisas tendem a se tornar cada vez mais baratas, assim como aconteceu com o microchip, não na velocidade do microchip, mas de alguma forma tudo está acontecendo, é que a gente não para pra fazer conta e raciocínios, mas os produtos hoje são muito mais baratos do que eram há 10 anos, 20 anos, 30 anos, a tendência é continuar sendo isso, então você tem esse momento de descompressão da sociedade que já começou faz uns 5 ou 6 anos mas que vai se tornar cada vez mais forte, em 20 ou 30 anos e a gente vai acabar chegando nisso que você falou, a gente vai retornar e o retorno sempre lembra que a evolução do mundo, o mundo volta para o mesmo lugar mas num outro plano, ou seja, na espiral, não é uma roda burra que volta para o ponto original, ela volta, ela passa próximo a do próximo ponto mas incorporando todos os benefícios, todas as vantagens e tudo o que ela conseguiu conquistar nessa trajetória toda. Então, a gente vai voltar para esse mundo de novo, onde as pessoas vão voltar a fazer coisas artesanalmente, onde as pessoas vão procurar trabalhar próximo das suas casas, de onde moram, onde elas vão comprar nas lojas que são vizinhas dela, onde elas vão voltar na padaria lá, que você contou, enfim, é mais ou menos por aí, mas para que a gente chegasse nisso, a gente tinha que sofrer estupida e burramente nessa sociedade maluca que a gente construiu.

Luciano                Uma maturação que é necessária.

Madia                  É isso aí.

Luciano                Jeremy Rifkin

Madia                  Jeremy Rifkin, exatamente, “Sociedade de Custo Marginal Zero”, é um livro maravilhoso que eu recomendo.

Luciano                Vamos lá. Vou te fazer uma provocação aqui, porque eu andei lendo um texto seu, recentíssimo, o título dele é “99 não é 100” e pegar um pouquinho dessa coisa que você falou, eu passei a usar taxi de uma forma como eu nunca usei na minha vida porque eu mudei de Alphaville para São Paulo, hoje em dia eu estou do lado da minha casa, não uso mais carro para coisa nenhuma, até porque, cada vez que eu saio de carro aqui, além de contabilizar o estacionamento e a gasolina eu pago uma multa, então toda vez é assim, eu resolvi parar, então eu só uso taxo hoje em dia e surgiram então os aplicativos, e eu estava outro dia olhando e falando, por que eu gosto tanto do aplicativo? Primeiro porque ele me traz a cara do cara que vai parar aqui na frente, eu entro no carro e cumprimento ele pelo nome dele, eu falo seu Osvaldo, tudo bem? Ele, tudo bem, seu Luciano. Aquele bicho que era o motorista de taxi que eu não tinha ideia do que era, passou a ser uma pessoa que me chama pelo meu nome como pessoa e a gente senta ali e aquilo abriu um caminho interessante.  Eu aumentei o consumo de taxi brutalmente, ele aumentou as corridas brutalmente, porque aquilo revolucionou o negócio dele, mas aquilo como business tem algumas coisas que a gente tem que pensar um pouquinho, eu vou voltar para aquilo que eu falei para você lá atrás, sobre aquela casca, aquela história da fumaça, do marketing aquela coisa toda, que me parece que surge como uma, quase que uma doença a partir do começo dos anos 2000, quando surge a bolha da internet e de repente o éter começa a valer mais do que o tijolo, então você fala, olha, o software que marca a passagem vale mais do que a companhia aérea inteirinha com todos os seus aviões.  E como é que eu faço interações, como é que eu troco? Eu estou acostumado a te dar um dinheiro, você me dá um tijolo, eu te dou um peixe, você me dá uma cesta e agora cheguei para você e falei assim, estou te dando uma ideia, estou te dando uma patente e quero o teu dinheiro e eu vou comprar música e não tem mais o CD, eu não consigo mais pegar na mão aquele CD, como é que eu vou pagar dinheiro por um treco que eu não consigo pegar na minha mão, ou seja, eu tenho que mudar o jeito como a minha cabeça funciona, eu não sou mais proprietário de coisa nenhuma, eu estou pagando uma assinatura da Netflix e não compro mais DVD e me incomoda muito não ter o DVD na minha mão porque eu não consigo ver valor naquela assinatura que eu não consigo ver colocado num lugar. Me parece que isso tem a ver com esse processo de amadurecimento que você falou  ai que  é o acompanhamento, como é que você vê isso refletido no business, quer dizer, eu tenho impressão que nós estamos vivendo num momento em que existe uma tentativa desesperada, quando um dinossauro gigantesco que é o modelo de negócios que a gente conhece há mil anos, a fábrica produzindo o produto, controlando as coisas, reduzindo custos, está tentando conviver com um treco totalmente novo que não tem nada tangível que é em cima de ideias que tem meios de mensuração que são completamente malucos e um tenta conversar com o outro, um tenta dinheiro do outro, um tenta… e essa coisa não se integra e não foi hoje, isso começou nos anos 2000, já estamos há quinze anos tentando integrar essa coisa. Como é que você está enxergando  essa confusão?

Madia                  De alguma forma, de novo, a gente está vendo o mesmo filme com numa nova versão, mas passando novamente, isso aconteceu lá atrás, por ocasião da revolução industrial e agora está acontecendo de novo na revolução tecnológica, o que move o ser humano, o que encanta o ser humano? O que dá prazer ao ser humano? É construir, é edificar, é fazer. Se ele pudesse viver só disso e se não houvesse dinheiro, se ele se alimentasse disso de alguma forma conseguisse ter a casa dele, os filhos, a família, seria ótimo, mas não tem, você tem que movimentar isso, você tem que gerar algum tipo de moeda para fazer as transações para poder comprar as coisas. Lá atrás também no início… 1970, teve um autor americano, ele já morreu, chamado Theodore Levitt, que ele escreveu um artigo para a Harvard Business Review, chamava “Marketing Myopia”, Miopia em Marketing e nesse artigo ele dizia, o fundamento desse artigo é que as empresas não tem consciência do que verdadeiramente as pessoas compram na empresa. Ele não dizia isso mas, deriva disso algumas coisas que eu escrevi sobre esse assunto quando eu digo que a pior coisa que pode acontecer numa empresa, quando a empresa vai fazer o seu planejamento, quando vai pensar sobre o futuro é fazer uma reunião de brainstorming, juntar todos os executivos e de repente alguém faz uma pergunta que é uma pergunta ferrada, mas é a pergunta errada, mas  ela é ferrada  porque ela mexe com a cabeça das pessoas e as pessoas passam horas tentando responder aquela pergunta e a pergunta é: “qual é o nosso produto?”. Aí todo mundo fala, porra, qual é o nosso produto e todo mundo tenta definir e não existe nada pior para uma empresa que você responder de maneira certa à pergunta errada, vai dar merda, para usar a palavra normal que a gente usa no dia a dia. A pergunta que tem que ser feita é “o que as pessoas estão comprando de nós?” E as empresas têm uma dificuldade muito grande de fazer isso, mas depois de tudo que aconteceu no mercado, depois do amadurecimento do consumidor, depois do prevalecimento desse pensamento do marketing, dessa visão de mercado, as empresas gradativamente irem aprendendo a pensar e se planejar e atuar sob a ótica do cliente, sob a ótica do mercado, que é uma coisa que ainda não se universalizou, generalizou, mas evoluiu bastante, depois de tudo isso veio um impacto tecnológico, tem a tecnologia, vêm todas essas conquistas recentes…

Luciano                Que na verdade não é depois, é ao mesmo tempo, é ao mesmo tempo.

Madia                  … simultaneamente e as pessoas voltam a se encantar com isso. Então, nós estamos vivendo, de 15 ou 20 anos para cá um monte de negócios nascendo, onde todo mundo fala não, como é que viabiliza economicamente? Isso depois a gente vê, é tão prazeroso esse troço, e tão bonito, foi o que aconteceu com a revolução industrial, a mesma coisa e quebrou um monte de empresa, então de novo a gente vai ver isso, vai quebrar, a gente viu no início desse processo um banco como o Unibanco falou, olha, assim que surgiu a internet, falou, daqui a 2 anos ninguém mais vai fazer negócio em agências de banco, então eu vou fazer um banco que não existe fisicamente e fez…

Luciano                O Banco1…

Madia                  O Banco 1…

Luciano                … sim

Madia                  … fez o Banco 1, gastou uns 100 milhões de dólares e não teve mais que 10 ou 12 clientes e 2 ou 3 anos depois fechou…

Luciano                Eu era um.

Madia                  … você era um deles, então você sobrou, a única coisa que eles tinham. Tinha uma hora que tinha que entregar dinheiro, então era uma coisa analógica, era uma coisa feia, então eles rebatizaram os motoboys de currier, não sei se você se lembra disso, o cara que ia levar dinheiro não era moto… era motoboy, mas chamava currier. Não deu em nada, o Abílio olhou para o que estava acontecendo e falou, Meu Deus, ninguém mais vai no Pão de Açúcar, ninguém vai mais no Jumbo Eletro, vou fazer uma coisa só num lugar só, foi de uma infelicidade total ao escolher o nome dessa coisa só que virou “Amélia”, não sei se você lembra, era um mega portal, era um Market place especificamente para substituir as outras empresas dele, também durou um ano e meio, dois anos, gastou uma bala, mas no caso do Abílio, acho que ele aprendeu bastante, ele acabou usando depois um comércio eletrônico do Pão de Açúcar e das outras lojas dele, o Unibanco não aproveitou tanto, mas esse processo acontece de novo e ele está se repetindo. A gente vê a primeira bolha da internet, eu diria que a gente está vivendo de novo uma segunda bolha, as coisas que a gente admira tanto, acha fascinante, como 99, que não é 100, por enquanto, tudo o que ele mostrou é que ele é um fantástico prestador de serviço, mas quantos fantásticos prestadores de serviços morreram de fome, então corre o risco de morrer de fome, como você tem um mundo voltando agora para o livro do Jeremy, “Sociedade de Custo Marginal Zero”, quando a sociedade tende a custo marginal zero, sobra mais dinheiro, como você tem um mundo abarrotado de  dinheiro, sobrando dinheiro, tem uns negos loucos e doidos procurado maluquices  para colocar dinheiro, então alguém lança uma coisa dessa, essas pessoas ficam fascinadas e a gente tem  um anúncio nosso, que a gente fala, vai dar merda e vai dar merda, então os caras colocam um monte de dinheiro nisso e esse  troço acaba desaparecendo, dá em nada, então esses grandes negócios que a gente celebra hoje, comemora, muitos deles até hoje não tem a mínima, a mais pálida ideia em que momento, quando e como vai ganhar dinheiro, mas as pessoas continuam fascinadas, a gente está encantado, está tendo bons serviços.

Luciano                Eu criei um termo, há um tempo, para tentar definir essas coisas, definir como é que pessoas inteligentes se reúnem e tomam uma decisão burra, como é que você vê, pô, foi a direção da empresa que reuniu, são uns caras bala, é o presidente, se reuniram, fazem uma cagada geral, eu chamei isso de “asinidade estratégica”, de asno. A gente senta lá, começa a conversar, estrategicamente faz uma combinação ali, tenta achar a média, toma uma decisão e essa decisão é uma cagada gigantesca, me parece que…. eu tenho visto muito disso, que você fala e olha, mas por que? Mas por que isso? Qual é a estratégia por trás disso? Não demora muito para ver a coisa quebrar. Eu quero te provocar um pouco mais aqui mas, deixa eu voltar um pouquinho atrás, deixa eu pegar aqui, eu acabei ficando tão entusiasmado aqui que eu pulei uma parte importante da nossa conversa que é o seguinte: deixa eu ir atrás cara, vem cá, Bauru? Você nasceu em Bauru?

Madia                  Eu nasci em Bauru, como eu estava te falando um pouquinho antes, Avenida Rodrigues Alves, 979, eu atravessava a rua e estudava no Grupo Escolar Rodrigues de Abreu e fiz os meus primeiros anos, na época ginásio, no Instituto Ernesto Monte que era no alto da cidade.

Luciano                Exatamente onde eu fiz também, no Ernesto Monte.

Madia                  Ernesto Monte.

Luciano                Uma dica para as pessoas que estão nos ouvindo aqui, que é uma coisa que eu não sei se só acontece em Bauru, mas é de Bauru e quando eu falo todo mundo estranha, eu morava na Nazáreas Leite, onze sessenta, então não era Nazáreas leite mil cento e sessenta, era onze sessenta e ninguém entende isso e fala, pô, décimo primeiro quarteirão a 60 metros da esquina, que é genial, mas ninguém mais usa, então quando você valou ai o número da sua rua era o nono quarteirão… Você estudou o que lá?

Madia                  Eu fiz o ginásio normal, fiz até o terceiro ano de ginásio e depois eu vim para São Paulo, vim estudar em São Paulo.

Luciano                Que idade você saiu de lá.

Madia                  Eu saí de Bauru com 13 anos, mas uma coisa muito interessante, que nesse meu momento de Bauru é que quando eu morava lá, tinha um jornal que chamava “Diário de Bauru”, que era de um político chamado Nicola Valonin Junior e ele e para conseguir a simpatia das famílias da cidade ele promovia um torneio de futebol, formava um monte de time, ele dava as camisas, enfim, eu nem lembro se jogava com chuteira ou não, mas dava as camisas e então o futebol movimentava muito a cidade e existia um clube em Bauru que chamava Bauru Atlético Clube, meu pai era presidente desse clube e ele formou um time de meninos que jogavam e que começaram a…

Luciano                Que era o famoso Baquinho.

Madia                  … que era o famoso Baquinho, fazia sucesso e todo ano tinha uma peneira, eu fui lá participar da peneira, o técnico era o Valdemar de Brito  e eu me lembro que um dia eu cheguei na peneira, o Valdemar de Brito olhou para mim e falou, seu nome? Eu falei, Francisco, ele falou, tá bom, vou te chamar de Chico, ta legal? Que posição você joga? Eu falei, qualquer uma. Ele falou, não existe isso no mundo, ninguém joga em qualquer uma posição, hoje você não vai treinar, você vai sentar aqui do meu lado, você vai ver os meninos jogarem e depois você vai escolher, amanhã quando você voltar você escolhe uma posição que você quer jogar. Mas foi uma lição muito importante do ponto de vista de vida, que eu vim me lembrar muito tempo depois, mas o que tem de curioso nisso é que acabei jogando, treinando, mais treinando do que jogando no infantil do Baquinho, eu jogava com um jogador que chamava Zoca que é irmão do outro jogador que chamava Edson, que era o Pelé, e nos treinos a gente treinava infantil com o juvenil, então durante um ano, quase dois anos, a gente treinava praticamente 2,3 vezes por semana, jogando um contra o outro. Então, eu acompanhei muito o nascimento do Pelé e o Pelé jogava nesse Baquinho e esse Baquinho foi o melhor time de futebol que eu vi jogar na minha vida, melhor que o Barcelona de hoje, melhor que o Barcelona de hoje. Para você ter uma ideia, você é de Bauru, você se lembra como é que era, tinha os jogos do Baque, do Bacão, que eram jogos da segunda divisão e  o Baquinho jogava na preliminar, o estádio enchia na preliminar e ficava meia boca no jogo principal, porque as pessoas iam para ver o Baquinho e os placares clássicos do Baquinho eram 23×2, 19×1 e coisas desse tipo, o Baquinho começou a fazer tanto sucesso que um dia os jornalistas de São Paulo e do Rio de Janeiro começaram a ficar intrigados e resolveram lançar um desafio para o Baquinho, que era colocar o Baquinho contra o melhor time juvenil do Brasil, que era o time do Flamengo e aí o jogo foi marcado e foi na Rua Javari, veio o time juvenil do Flamengo, veio o Baquinho e o Baquinho enfiou 8×1 no time do Flamengo, para você ver. Você sabe que até hoje, mais recentemente eu acabei conseguindo voltar a gostar de futebol, principalmente por esses times novos que tem surgido, até como o próprio Barcelona, mas eu tinha uma dificuldade muito grande de assistir um jogo de futebol e achar legal o jogo, porque eu me lembrava dos jogos que eu via do Baquinho jogando.

Luciano                Mas isso acontece comigo, eu gostei demais, eu curti muito, eu estava em São Paulo em 77, acompanhando o coringão, aquela loucura toda, adorava aquilo e eu me desencantei tremendamente, hoje quando perguntam para mim, e futebol? Falo cara, sou corintiano mas eu não tenho mais graça nenhuma porque para mim, isso que eu estou vendo na televisão não é mais futebol, eu tenho um defeito terrível, qual é te defeito? Eu vi o Rivelino jogar, eu vi o Zico jogar, eu vi times jogando onde um cara que errava um passe de 3 metros tomava um esporro de todo mundo e ele ficava envergonhado, ele não vinha reclamar de jogar quarta e domingo e ficar cansadinho, ele não vinha reclamar que está com uma bolhinha no pé. Eram caras que entravam para arrebentar e eles tinham compromisso, entre eles ali, quer dizer, você não podia fazer viadagem em campo não porque você apanhava, hoje em dia acabou isso tudo ai, se perdeu, então eu vejo uma… ao mesmo tempo que se discute o tal do profissionalismo, tem um lado dele lá que não tem mais amor pelo time, não tem amor por camisa, o cara quer é reservar o dele lá, bom mas isso é uma outra conversa que a gente vai embora. Mas legal saber porque meu pai estava lá em Bauru nessa época, meu pai acompanhava, ele era locutor do estádio, lá no Noroeste, a voz do Noroeste era dele, ele acompanhava aquilo de perto, ele me conta histórias do Baquinho, conta uma história de uma preliminar aqui em São Paulo também, eu não me lembro se  era o Baquinho, deve ter sido o Baquinho que estava jogando aqui e o locutor entusiasmado, meu pai ouvindo no rádio, o locutor entrava na preliminar, como é que está ai? Desse jeito, tem um negrinho cabeçudo aqui que esse moleque está fazendo o diabo, eu não sei nem se era naquele jogo do 8×1, o moleque está fazendo cada vez que ele pega na bola, levanta o estádio porque o moleque era o demônio, era o Pelé começando a aparecer lá. Muito legal.

Você vem para São Paulo para estudar o que?

Madia                  Eu saí, vim para São Paulo, meu pai era funcionário público, ele foi transferido, veio para São Paulo, a gente conseguia ter acesso a escolas públicas, então fui estudar no Colégio Roosevelt, da Rua Gabriel dos Santos, que um ou dois anos depois virou colégio de aplicação, ei terminei o ginásio, fiz o curso clássico naquela época, fiz uma bateria de testes vocacionais, como era um colégio experimental, você tinha lá de graça um monte de testes vocacionais e quando terminei os testes vocacionais a pessoa que estava me orientando me disse, olha, pelo que eu vi de você aqui, você tem três caminhos pela frente, arquitetura, direito ou teatro. Eu falei putz, arquitetura não, não quero porque tem muito número, enfim, eu não entendi direito o que era arquitetura, foi uma bobagem, mas resolvi fazer direito e teatro, eu fiz vestibular para fazer direito, fazer teatro, entrei na USP, na São Francisco e entrei na Escola de Arte Dramática e desde pequeno eu trabalhava e naquela época eu já trabalhava, eu trabalhava na Caixa Econômica Federal, no Anhangabaú que era uma agência que tinha 3 expedientes, abria as 7 da manhã, fechava as 10 da noite com 3 times trabalhando, então eu saia de casa, eu morava em Higienópolis ia até a São Francisco de ônibus, naquela época tinha que ir de terno e gravata, se não você não podia assistir aula, saia de lá correndo ia trabalhar na agência da Caixa Econômica Federal, no Anhangabaú, que era uma agência muito legal porque ela atendia as pessoas comuns, ela atendia todos os generais militares da reserva da marinha, exército e aeronáutica, ela fazia os pagamentos, quase todo dia vinham senhoras dos jardins com motoristas de carro, porque elas colocavam as poupanças e faziam uns investimentos ali e ali também todos os deficientes físicos iam retirar os seus bilhetes das cotas de loteria, então você tinha ali naquela agência da Caixa, uma salada de frutas, um perfil do que era característica do Brasil muito interessante…

Luciano                Isso nós estamos falando de 1960…

Madia                  … entre 62 e 66, eu trabalhava no balcão, durante 5 anos, ou seja, sem eu saber eu estava me preparando para trabalhar naquilo que eu viria a trabalhar e depois eu saia de lá voando, ia para a Escola de Arte Dramática, durante um ano deu para fazer isso, no segundo ano os horários já não batiam eu tive que desistir do teatro, o que até o teatro brasileiro deve ficar muito agradecido e aí fui fazer meu curso de direito, no  último ano  de direito você começa a fazer alguns estágios, fiz o primeiro, me incomodei, fiz o segundo me incomodei mais, no terceiro parei no meio, falei não quero isso para a minha vida, estava bastante clara a coisa lamentável que é a justiça deste país, como é que é a processualística, enfim, uma coisa… é um horror, que talvez seja uma das primeiras coisas que a gente teria que resolver agora, quando a gente começar a reconstruir o país e aí eu cheguei em casa um dia e falei para os meus pais, eu não vou ser advogado, eles falaram, mas nenhum curso você vai acabar? Vou acabar mas não vou ser, e aí a minha mãe para me dar alguma luz, me orientar, ela recortava anúncios de jornal e colocava embaixo do meu travesseiro, anúncios de estadão, quando chegava no domingo a noite eu levantava meu travesseiro tinha um bolo de anúncios, um dia, num anúncio estava escrito marketing e aquela palavra, putz, o que é isso, por que será que minha mãe recortou? Ela não sabia, fui para a cidade, consegui achar na cidade dois livros que tinham no título essas palavra, nunca mais fiz e nunca mais vou fazer outra coisa na minha vida e aí já estou falando de  1967, 68, ou seja, já vai fazer 50 anos.

Luciano                Que loucura. E aí você foi procurar, foi trabalha nisso?

Madia                  Aí eu falei, vou procurar um curso para fazer, deve ter algum curso, não tinha, mas na FGV, na pós graduação de administração de empresas tinha cadeiras de mercadologia, aí eu bati lá, o diretor chamava Gustavo Sá e Silva, pedi para falar com ele, o que você quer? Falei Gustavo, eu vim aqui, eu não quero fazer esse curso todo, dois anos e meio a noite, mas tem umas cadeiras de mercadologia que eu gostaria de fazer, então você me autoriza a fazer  matrícula? Ele falou, negativo, não existe isso aqui, ou você faz o vestibular e faz o curso inteiro ou você não vai fazer essas cadeiras. Lá fui eu, fiz vestibular, fiz o curso inteiro, me decepcionei pra burro, mas eu estava fazendo esse curso e um dia eu fui numa festa e cruzei com um americano que chamada Jamie Led, que tinha feito Harvard com Jorge Paulo Lemann, que tinham montado uma financeira no Rio de Janeiro e quebraram e o Jorge Paulo continuou no Rio e ele veio para São Paulo e ele montou uma financeira em São Paulo que chamava Anhanguera, ele começou a conversar e falou, você não gostaria de implantar o marketing na minha financeira? Eu falei, eu gostaria, aí na semana seguinte eu voltei lá na escola, estava comentando com meus colegas de classe, eles falaram Madia, isso é impossível, como é que você vai fazer marketing de coisa que não existe, não é possível fazer marketing de serviço, só pode fazer marketing de produtos, que é uma coisa tangível, quarenta e tantos anos depois o que não existe é produto, só existe serviço. Eu fiquei lá três anos e um dia o Olavo Setúbal resolveu montar uma primeira área de marketing dentro de um banco no Brasil. Contratou um headhunter, foi a Corney Ferrie, para procurar alguém que tivesse trabalhando com isso, só tinha eu, então não foi um processo de escolha muito difícil, eu acabei indo para lá e aí começa a minha trajetória no marketing como executivo, que durou mais ou menos uns 15 anos, numas cinco ou seis empresas diferentes, uma trajetória com um trabalho reconhecido pelo mercado, trabalho que foi feito no Itaú, até de vez em quando o Itaú me chama para contar como é que foi, um trabalho de posicionamento que não tinha personalidade, ele era decorrente de fusões e aquisições, era Itaú América Federal de Crédito, União Comercial, Aliança Portuguesa, era um rolo. Tinham 10, 12 marcas diferentes, as pessoas, os gerentes continuavam trabalhando nas agências originais, não existia uma unidade de pensamento, então todo o trabalho da equipe de marketing do Itaú foi essa, de dar um sentido para aquele banco, de posicionar o banco e criar uma única bandeira e a gente foi eliminando marca até chegar em Itaú América para finalmente cortar América e finalmente virar Itaú, então foi…

Luciano                E talvez seja a marca mais, se não for amais valiosa do Brasil, brasileira, mais valiosa aqui no Brasil não sei se não é a segunda ou terceira.

Madia                  … é, todo mundo fala que as duas marcas mais valiosas do Brasil são Itaú e Bradesco ou Bradesco e Itaú, por causa desse trabalho do Itaú, há 20 anos, já com a nossa empresa Madia Mundo Marketing. Um dia eu fui convidado pelo seu Brandão, que é o presidente do conselho do Bradesco para almoçar com ele, o seu Brandão e o Rômulo Nagib Dasmar, que era o cara que cuidava do marketing no Bradesco, e lá no meio do almoço eles falaram muito do trabalho que eles admiravam, que tinha sido feito no Itaú e que eles achavam que eles estavam precisando de alguma coisa meio parecida com aquela no Bradesco, 15, 20 anos depois e se eu não gostaria, se a minha empresa não gostaria de ajudá-los nisso. Então, a gente acabou fazendo posicionamento do Itaú e fez o reposicionamento do Bradesco, quando a gente fez o reposicionamento do Bradesco, do ponto de vista conceitual, do ponto de vista estratégico, porque ninguém faz nada sozinho, principalmente marca, marca é trabalho coletivo e recorrente, que não termina nunca, a marca é alguma coisa em processo permanente…

Luciano                E reputação, é reputação…

Madia                  … você tem que todo dia…

Luciano                … para acabar com ela basta um…

Madia                  … é isso aí…

Luciano                … uma bobagem.

Madia                  … então de alguma maneira a gente acabou participando, como consultores e como executivo eu acabei participando do Itaú e depois como consultor com a equipe nossa, participando da história do Bradesco.

Luciano                Madia, eu trabalhei durante vinte e tantos anos numa grande indústria de autopeças, eu era o cara de marketing dentro dessa autopeças e eu era considerado, eu era o cara que gastava com uma competência fantástica o dinheiro que aqueles engenheiros penavam ganhar, os caras davam duro de montão para conseguir faturar e quando eles conseguiam ganhar um dinheiro, vinha esse porra desse cara do marketing, gastava o dinheiro todo com bobagem, fazendo folhetinho, contratando mulher bonita, fazendo aquelas festas, aquela bobagem toda. E durante a minha vida inteira eu briguei com esses caras direto, era um quebra pau gigantesco porque a língua que a gente falava era outra, um negócio complicado, mas eu estou falando isso no ambiente onde as pessoas já sabiam do que se tratava, você falar marketing não é mais a mesma … Como é que é desbravar um universo como esse, ou seja, você entra numa empresa para criar um negócio que não existe, esse é o cara do marketing, que ninguém sabe o que marketing é e você está sozinho lá como um dom Quixote tendo que derrubar aquelas barreiras e provar para os caras que tem valor aquela coisa que ninguém via, ou seja, você está falando de marca numa época em que nem se sabia direito, como é que era, como é que você sobreviveu a isso?

Madia                  Não era fácil, eu me lembro, nas reuniões de diretoria do Itaú, quando em algum momento, por alguma razão eu começava a falar sobre a importância da marca, da importância do nome, da importância da reputação, eu conseguia falar no máximo três minutos, porque logo alguém dizia, não enche o saco, nós estamos aqui para vender, esse negócio de marca, não falavam, bullshit porque não era uma expressão da época, mas isso felizmente ficou lá atrás. Não que tenha melhorado muito, mas melhorou bastante, não é incomum hoje no nosso processo de consultoria, uma empresa nos chamar, empresa vai contar a história, montar a empresa e no final da conversa fala assim, pô, você vê, a empresa é legal, os produtos são legais, os serviços que os produtos prestam são fantásticos, a equipe… pô mais as pessoas não querem comprar de nós, por que elas não compram de nós? E a resposta é óbvia, mas você não dá na hora para não chatear a pessoa, não é truque nem sacanagem, porque seria uma indelicadeza. Mas, uma semana depois você volta, pô, descobri porque que as pessoas não compram seu produto, porque elas são ignorantes. São ignorantes? São, elas ignoram a sua existência, você fez tudo para que elas não soubesse que você existe, você fez tudo para que elas não soubessem que você faz, a qualidade do que você faz, enquanto elas não souberem, elas não vão poder comprar, ninguém compra o que desconhece, então a primeira condição para alguém fazer algum movimento, é ter consciência da existência daquilo. Então hoje, o entendimento de marcas, a sensibilidade para marca é uma coisa mais forte, muito mais presente, muito distante do que deveria ser, mas é mais presente. E depois que a empresa vai chegando num determinado grau de maturidade, ela cai em si e ela descobre que a marca não é uma das mais importantes propriedades de uma empresa, é a única, é a única, sem ela você não vai a lugar nenhum, agora quando a gente fala da marca, não é aquela marquinha que a empresa tem, é a soma das manifestações da empresa no dia a dia, nas coisas que ela faz, da maneira como as pessoas falam, como o presidente se comunica, como as pessoas… as soma de tudo isso que construindo no coração e na cabeça das pessoas que admiram a empresa, a marca da empresa, a marca da empresa é uma propriedade maluca, porque ela é da empresa, mas ela mora na cabeça e no coração dos seus seguidores…

Luciano                por isso que eu chamo de reputação.

Madia                  … reputação e é reputação, mas é isso mesmo, é reputação, marca é reputação, mas de novo, não tinha concorrência, então ninguém percebia direito muito isso, agora isso mudou completamente, as empresas estão acordando mas ainda estão muito distantes de investir, de tomar os cuidados e de induzir uma cultura de perseguição pela construção de marca de qualidade, ainda estão muito distantes desse momento, mas melhorou bastante em relação ao que era há 40 anos, é um outro momento de mercado.

Luciano                Você não acha que alguns momentos até essa coisa já meio que extrapolou e a gente sai do 8 e vai para o 80 com uma velocidade brutal, ou investe só nessa marca etérea sem ter a base que segura, aquela história do tijolo que eu falo, cara, se você não tiver três tijolos você não  pára em cima, tem que ter no mínimo um tijolo para você colocar uma coisa em cima, você não pode fazer no ar, parado no ar e eu tenho visto muita coisa acontecer, investimento gigantesco e se criando um conceito, reputação e na hora que você vai entregar aquilo que era a grande promessa, na verdade não tem. E principalmente para quem já saiu do Brasil e já foi lá fora e já experimentou o que é um serviço de primeira categoria sabe, uma proposta de valor daquela que você quando recebe aquilo que foi prometido e até um pouco além e aí você volta para cá e tromba nesse poço de incompetência que a gente vê acontecer aqui, onde eu ligo para a operadora para Net, para reclamar que eu não estou com sinal na minha casa, a pessoa que me atende não sabe do que eu estou falando, promete a visita no dia seguinte, o cara não vem e não me dá bola e eu fiquei lá esperando e é assim, é assim. Eu tenho uma palestra chamada “o olhar Produtivo” que eu vou relatar a você dois dias da minha vida e aí eu vou colocando tudo o que aconteceu em dois dias em cada momento, a partir do momento em que eu tive que ir ao cartório registrar uma assinatura botar um carimbo até o momento que o cara falou que ia entregar o produto, entrega no dia errado, o produto errado, o momento que eu estou para pegar um avião e eu tenho que mudar de finger 4, 5 vezes porque o cara vai mudando a cada hora e isso é um impacto terrível nesse mundo da incompetência. Você não acha que isso tem a ver com essa coisa de perda de capacidade de definição, o que é importante na verdade, onde deve ser investido?

Madia                  Tem várias coisas no que você falou, para fazer essa análise você teria que tentar entrar com consideração da característica de cada setor de atividade, de cada negócio, tem alguns negócios que são negócios relativamente recentes, como é o caso da telefonia, como é o caso da telefonia móvel, como o que foi todo o processo de privatização no Brasil que durante um bom tempo, a palavra de ordem é ocupar espaço, então ninguém está muito preocupado com a porta de trás, está todo mundo preocupado com a porta da frente, está certo ou está errado? Não é relevante, essa foi a cultura prevalecente, então todas as empresas de telefonia saíram alucinadas para pegar 12%, 15%, 20%, era isso, elas não tinham nenhuma política de fidelização, de fazer com que o cliente tivesse o serviço legal, que continuasse, depois a gente resolve isso, primeiro vamos colocar para dentro e depois a gente resolve isso, mas esqueceu de fechar a porta dos fundos e entrava para dentro. Isso acabou induzindo uma cultura, elas já deveriam ter resolvido isso há muito tempo, todos os sistemas hoje deveriam contemplar um atendimento de excepcional qualidade, porque é de uma burrice atroz você ficar conquistando e perdendo clientes, mas essa cultura de início, essa cultura de desespero, de ocupar espaço acabou impregnando toda uma atividade você tem dificuldade de tirar, então quando você vai analisando os diferentes setores de atividade, você vai encontrando diferentes estágios culturais, diferentes características de cultura que leva a isso.

Luciano                Você escreveu sobre isso no teu artigo “99 que não é 100”, você falou exatamente isso, falou o que é? Eu preciso de volume, eu preciso de muito volume e depois nós vamos ver o retorno…

Madia                  Depois a gente resolve. Não resolve. Mas o que hoje as empresas começam a entender? Algumas empresas que estão num grau de maturidade maior, que fundamentalmente, o que a gente acaba fazendo lá na nossa empresa, os serviços que a gente presta. Normalmente uma empresa nos procura e chama porque ela está sentindo algum tipo de dor, eu falei no início que nós somos médicos de empresas, ela está sentindo uma dor, ela está sentindo sintomas que ela não consegue entender direito o que é, mas uma coisa ela sabe, os resultados não estão legais. As pessoas não estão felizes, está começando a faltar dinheiro, está começando a sobrar produto, tem alguma coisa que está errada, elas têm uma dificuldade muito grande de realizar porque elas estão no dia a dia. Nós estamos vivendo um momento de ruptura, de transição no mundo onde a empresa teria que ter dois olhos totalmente desconectados, um olho para olhar o estratégico e um olho para olhar o tático, mas ela não consegue, os dois olhos vão para o tático e ela vai se afundando cada vez mais, cada vez mais olhando para ela e ela está perdendo a perspectiva da floresta, então a empresa nos chama, a gente vai lá, consegue olhar de fora, a gente não está envolvido, procura não se envolver, conhece a empresa, vai conhecer o mercado, vai para o ambiente político, econômico social, tecnológico, identifica oportunidades, ameaças, tendências, desafios, benchmarking e etc, volta para a empresa e fala, meu, você tem que se reposicionar, você tem que voltar ao posicionamento original que você tinha e essa é a primeira parte do nosso trabalho, onde a gente constrói para a empresa um planejamento estratégico sob a ótica do mercado, marketing. Eu digo que a gente faz o que a Dora aventureira, que é uma personagem de desenho infantil que as crianças veem, ela faz, ela constrói um mapa, ela tem um desafio para vencer, ai quando ela começa a olhar para o desafio ela lembra que… como é que ela vai fazer para chegar, qual o caminho a ser feito lá, ela tem um companheirinho dela que se chama Botas, os dois passam o tempo todo com medo de uma raposa, ou raposo, mas aí quando elas estão com essa dúvida fala mapa! Vem um mapa e aí a coisa se… então a gente nessa primeira parte a gente ajuda a empresa a fazer o mapa em direção ao sucesso, realização e coisas desse tipo, aí se entra na segunda parte, que é colocar de pé tudo isso, que é a ativação, a gente está falando de branding, não importa o que você vai fazer, o que você vai fazer de uma forma direta ou indireta, vai contribuir positiva ou negativamente para você ser uma marca forte, uma marca fraca, não importa o que você vai fazer, você vai dizer bom dia, você vai vender um produto, você vai atender um telefone, você vai lavar a mão, qualquer coisa que você faça imita algum código de comunicação que de alguma maneira tem que ser planejado, organizado, treinado, capacitado, para que ele se transforme numa coisa positiva no receptor da tua mensagem.

Luciano                E você está falando de empresa isso já vale para o indivíduo…

Madia                  Sem dúvida.

Luciano                … eu posso falar para você como indivíduo.

Madia                  … o tempo todo, o tempo todo. Então quando você faz marketing, quando você planeja a empresa, você olha no cara que vai pagar a conta, no cara que você suspeita que vai se interessar pelo produto, então você se concentra no suspect, aí um dia ele vai virar prospect, se você trabalhar direitinho um dia ele vai virar cliente se você trabalhar muito bem, ele vai virar um pretcher, ele vai virar um pregador da tua marca, ele vai virar em angel, que é o cliente, que é o patrimônio mais importante que uma empresa pode ter e quanto mais angels uma empresa tiver, mais forte ela será, mais perene ela será. Você olha para ele quando você vai fazer marketing, aí você vem se organizando, caminhando para trás, aí você tem que organizar o trade, aí você chega na tua empresa e organiza a tua empresa, teu público interno, teus parceiros e fornecedores, defina o teu posicionamento e agora você tem que começar a construir tua marca, você tem que ativar o movimento é exatamente o oposto, marketing de fora para dentro. Branding é de dentro para fora.

Luciano                Isso que eu ia dizer para você, me parece que a maioria dos cases que eu vejo aqui são de mão única, só tem uma mão, é do meu umbigo para o mundo, é de mim para o mundo e dane-se o mundo, não tem essa coisa de fora para dentro.

Madia                  É. E o movimento da marca ainda é o seguinte, o público mais importante é o que vai pagar a conta, que é o seu suspect, ele é o último público que vai ser comunicado, o primeiro público a ser comunicado é o teu público clientela, porque branding é irrigação, você vai irrigar dentro, depois você vai parceiros e fornecedores, depois você vai para trade, se já tiver clientes, clientes, se tiver ex clientes, ex clientes, se tiver angels, os angels, para finalmente você chegar no cara que você quer conquistar, mas você vai chegar por inteiro, você vai ser uma orquestra que vai produzir uma música de excepcional qualidade, você vai ter uma mesma partitura, todo mundo vai saber o que falar, quando falar, isso é brand, esse é o processo de construção de marca.

Luciano                Madia, isso me parece tão óbvio…

Madia                  Pois é…

Luciano                Não é?

Madia                  … é, deveria ser…

Luciano                … não era assim há 60 anos? Não era isso também?

Madia                  … é, isso aí…

Luciano                … o seu Duarte não estava pensando inconscientemente nisso?

Madia                  … o tempo todo, quando a dona Terezinha ia comprar pela primeira vez no seu Duarte e ele perguntava, dona Terezinha, a senhora trouxe dinheiro? Ela falou trouxe, então está bom, só esta vez, não traz mais, eu vou dar uma caderneta para a senhora, como a senhora chama? Terezinha da Silva, está aqui seu nome, está aqui na capa, toda vez que a senhora vier comprar aqui a senhora traz a sua caderneta eu vou anotando, quando chegar no fim do mês, a senhora deixa a caderneta, eu fico no fim de semana com ela, quando a senhora vier na semana seguinte a senhora paga e no final de semana ele analisava o comportamento de compra da dona Terezinha que ele conhecia, sabia como é que ela era e com isso ele ia qualificando mais o ponto comercial dele, do ponto de vista de estoque, de atendimento, de serviço, era a pré-história do marketing, do freguês de caderneta é o marketing em estado de arte, a gente está em busca de novo desse momento.

Luciano                E aí seu Duarte abria o Imec dele conectado à nuvem, baixava um app no seu Iphone…

Madia                  Em 1986 o Stan Rapp e o Tom Collins lançam um livro nos EUA que chama “Max Marketing”, que fala exatamente, 1986 é o ano que o microcomputador é lançado, então finalmente nenhuma empresa mais tinha desculpa de não ter o freguês de caderneta, porque está certo que o mundo cresceu para burro e haja cadernetas para suportar esse monte de gente, mas agora tinha uma caderneta moderna que era o microcomputador que se a empresa tivesse disciplina, política e consistência ela faria isso, mas não fizeram.

Luciano                Você sabe que tem uns movimentos aí, eu não sei se você tem acompanhado, o inbound marketing, marketing de conteúdo, tem um movimento gigantesco e tem um pessoal da fórmula de lançamento, pessoal que lançou aí e está fazendo um barulho que quando você pára para ver esse movimento que eles estão fazendo, outro dia eu fui ver, assistir o vídeo do lançamento e tudo mais, nada mais é do que Amway dos anos 70, hoje trouxeram a Amway para cá, é igualzinho ao que era na época, lá atrás e ali o pessoal, outro dia eu vi uma apresentação onde eles, num segundo evento gigantesco no hotel, 1000 pessoas tal, convidam uma garota, a garota sobe para fazer o testemunho dela e faz uma apresentação onde ela deslumbradamente, ela descreve todo o processo que ela utilizou para preparar um sistema em que ela conseguia trazer clientes e fez um monte de dinheiro e eu assistindo aquilo tudo e vendo, quando chegou no final eu falei, essa mulher ela está tendo um orgasmo no palco para dizer que ela conseguiu criar um sistema de conquistar audiência, o que ela está dizendo é que ela conseguiu trazer audiência para o produto do negócio e ela está descrevendo um treco que é assim há 500 anos, o que ela está fazendo agora é descrever táticas para buscar audiência, a estratégia não mudou nem um pingo, é a mesma,  eu preciso buscar uma audiência e eu quero ter uma audiência proprietária, que aí acho que está o nó da questão, e eu não quero ter mais audiência da rede Globo, eu não quero ter a audiência do jornal O globo, eu quero ter a audiência do podcast e LíderCast, é minha, eu sou dono dela e a hora que eu consigo estabelecer esse canal eu passo a ser o cara que lida com isso e eu não preciso mais pagar para atingir uma audiência milionária quando eu posso atingir uma audiência micro mas no meu target ali, e contar isso para um potencial patrocinador ainda está sendo o grande nó da questão. Bom, deixa eu te fazer uma outra provocação aqui que tem a ver com uma coisa que eu e você temos e que muita gente que está ouvindo a gente não tem, que é uma idade certamente avançada. A gente tem tempo de casa, nós estamos aí há bastante tempo, tem uma garotada ouvindo a gente aqui que está ainda novinha, tudo, por ter esse tempo de casa, você já pode se dar ao luxo de não ter muitas papas na língua, a gente pode falar o que a gente quiser, a gente não está muito preocupado e eu tenho notado, eu acompanho muito  esse mercado todo, que você é um cara, especificamente, que não tem muita papa na língua, você teus artigos tem opinião, você não tem medo de dizer o nome das coisas, você escreve e dá o nome daquilo e fala, não gostei, está errado esse negócio não vai dar certo e o nome é  esse, fulano, cicrano e beltrano. Isso falta muito no mercado hoje, a gente vê todo mundo preocupado, não vou dizer o nome, está todo mundo cheio de dedos e a gente perde uma oportunidade gigantesca de procurar quem tem opinião e eu descobri uma coisa importante fazendo podcast que é, num momento em que eu comecei a manifestar a minha opinião claramente e isso aconteceu há dois anos, quando eu comecei a dar uma tinta um pouco mais política no meu programa, eu comecei a assumir o meu lado liberal, o liberal conservador, eu comecei a contar o que era e definir a minha opinião, o que culminou na última eleição presidencial quando eu escrevi um artigo dizendo em quem eu vou votar. Foi uma revolução, sabe, multiplicou barbaramente o número de pessoas no meu Facebook, o que veio de gente, eu olhei para aquilo e falei, acho que essa turma está procurando não é alguém que concorde com eles, mas alguém que manifesta a sua opinião, que diga aquilo que está pensando e que chame as coisas pelo nome que elas tem, você quando faz isso no teu dia a dia, isso é uma convicção tua, isso é um pensamento que você tem de que dane-se, eu vou dar a minha opinião e dane-se o resto, não estou preocupado se o banco vai ficar bravo porque eu falei que ele pisou na bola e não vai me chamar amanhã, não vai ser meu anunciante, como é que você trata essa tua acidez no teu negócio, que eu acho que  é fundamental, eu leio você por causa disso, pela opinião que você expressa claramente ali.

Madia                  Bom, a primeira resposta que eu posso te dar é que eu acho que eu sempre fui assim, se é uma coisa meio irreverente, meio irresponsável, meio porra louca, maluco, o diabo, mas é da minha natureza. Eu falei para você quando eu cheguei no Itaú com o Olavo Setúbal, eu estava no Itaú fazia 3 meses e alguém me pediu uma entrevista num jornal e eu dei a minha entrevista e eu falei um monte de coisa, eu fiz um monte de críticas ao Itaú, não precisa dizer que na segunda, isso saiu no domingo, na segunda feira de manhã o Olavo tinha na mesa dele uns 10 exemplares dos jornais que muitos diretores mandaram me colocando, marcando, ele me chamou para conversar com ele, não sei se ele ficou tentado a me mandar embora naquele momento ou não, mas eu não fiz aquilo pensando em continuar ou não continuar, eu fiz aquilo porque é da minha natureza e acabei fazendo isso. Eu sempre fui assim, as componentes, duas componentes, que talvez façam com que nesse momento eu consiga ser mais preciso, mais específico são duas, eu acho que depois de tantos anos de vida e de ler para burro, de trabalhar para burro, eu acho que amadureci, então acho que tem uma coisa de amadurecimento que te dá discernimento, te dá sensibilidade e te dá segurança para você falar essas coisas e tem uma outra coisa que eu nunca imaginei que tivesse esse peso na vida, porque hoje eu tenho certeza que tenho, eu me lembro quando eu fiz 40 anos, eu falei, pô, estou velho, mas depois rapidamente assimilei, aí fiz 50, aí fiz 60, eu falei não, tá legal, aí você faz 70, eu não sei como é que as pessoas, você ainda não fez 70…

Luciano                Ainda não.

Madia                  … mas eu não sei como é que as pessoas entendem, mas quando você faz 70 você não consegue mais…

Luciano                Engolir sapo…

Madia                  … não, você não consegue perder de vista que te resta pouco tempo de vida, ou seja, por mais maluco que você seja, você sabe, você tem 10, 12, 15, 20 anos da vida com sorte, com saúde e etc, então você não quer deixar para depois o que tem que ser falado e dito agora, mas eu estou te explicando isso dessa maneira porque você me perguntou, porque nem fiz esse raciocínio, estou fazendo até agora, mas eu acho que é assim mesmo, chega num momento da tua vida que se você olhar para a frente você vê que o caminho para a frente é muito curto e que você não pode continuar ficando amaciando eventualmente manifestando opiniões que não necessariamente traduzam não aquilo que você pensa, mas a a intensidade com que você pensa, a paixão que você tem naquilo, então eu acho que é isso.

Luciano                Eu uso um exemplo que eu sempre digo o seguinte, o homem, a mulher eu não sei como é que é, mas o homem, conforme ele envelhece ele vai perdendo a elasticidade escrotal, o saco fica duro e a gente não tem mais saco para aguentar o idiota falando uma bobagem na tua frente, você fingir que está tudo bem que é aquela grande comédia corporativa, com 30 anos eu tenho energia para brigar, eu discuto, eu quero mais é … com 50 eu já estou olhando aquilo e falo cara, desculpa e para mim o  momento claro que ficou quando eu achei que eu ia, não ia mais ficar na empresa, foi numa reunião, numa reunião que estava acontecendo lá que era a área comercial mais o marketing, me chamaram, eu sentei na reunião, tinha o diretorzão comercial e eu era o diretorzão de marketing, nós sentamos na reunião e os caras começaram a discutir e botaram em discussão um assunto que tinha sido resolvido na reunião anterior e começou a discussão eu falei, espera um pouquinho, isso já foi resolvido lá atrás, vocês vão falar de novo nisso? Não porque tem que falar, eu falei, então desculpa, eu vou sair porque é o seguinte, eu não tenho mais muito  tempo de vida, eu não posso me dar ao luxo de ficar aqui mais meia hora discutindo um negócio que já foi resolvido lá atrás porque minha vida vale e eu estou saindo fora, eu saí e fui embora da reunião e para mim ficou muito claro aquilo, quer dizer, valorizar aquilo que é a coisa mais preciosa que a gente já não tem mais quanto tem um garoto de 24 anos e que aí me leva à uma reflexão interessante que agora vou usar você como mentor, tem ouvindo a gente aqui, do outro lado, um menino, uma menina de 24 anos, eles estão dentro do busão, estão indo trabalhar, estão ouvindo esse podcast, a nossa conversa, eles estão indo para um trabalho que não é o trabalho da vida deles, eles estão preocupados, não sabem como é que faz e o tempo deles está sendo consumido, como ele tem tempo demais, ele não está dando a menor bola para isso, se eu tiver que ficar trancado aqui no busão uma hora e meia, faz parte, eu vou ficar e dane-se. E aí você olha para aquilo e fala, meu, como eu queria emprestado o tempo desse moleque, será que ele não aluga para mim? Não aluga mais. Passa uma mensagem para essa molecada de 24 anos com base nessa tua história de vida e tudo mais, essa molecada nesse país aqui agora maluco, o que você olha para essa molecada e fala, meu, mexa-se, para fazer o que?

Madia                  De verdade eu não tenho nenhum conselho para dar, nenhuma mensagem muito especial para dar, porque eu acho que de alguma maneira essa molecada que está aí, ela tem dentro dela a resposta, eu recentemente escrevi um artigo que se chama “20, 40, 60”, eu assisti um filme, que eu nem me lembro o nome do filme, há uns três, quatro meses e eu falei, esses caras mataram a charada, os caras resolveram, 60 somos nós, 60 ou mais de 60, 40 são os groen app digital, eles não nasceram digitais, eles cresceram digitais e 20 são os caras que são os milenium app, mais ou menos por ai. O filme é com um casal de 40 anos, é um casal de 40 anos que por alguma razão resolveu não ter filhos, mas todos os amigos deles são casais de 40 anos que tem filhos, então eles se sentem profundamente deslocados, irem nas reuniões dos amigos deles porque eles não falam de outras coisas que não sejam dos filhos, educação dos filhos, saúde dos filhos. Aí eles olham para trás e veem a galerinha de 20 anos, que é descontraída, que é solta, que é leve, que é ágil, que não tem medo, que se arrisca, não sei o que e eles tentam se enturmar com essa galerinha, não é que eles sejam rejeitados, eles estão impermeabilizados, eles não conseguem, não existe essa possibilidade e tem nós, então os 60 e mais anos e tem um rolo qualquer, tem uma trama no filme e por alguma razão compete aos de 60 anos dar uma definição, dar uma decisão sobre o que era certo e o que era errado e os de 60 anos gostam profundamente mais dos de 20 anos do que dos de 40 anos. Então, eu acho que é mais ou menos por aí, essa molecada que a gente está falando que tem 20 anos, eles sabem o que eles não querem, eles não sabem o que eles querem, mas o que eles não querem eles sabem, eles não querem ser o que a gente foi, eles não querem fazer o que a gente fez, eles não querem alocar um tempo de vida deles, trabalhar alucinadamente, ver o tempo passar e não chegarem nem perto de alguma coisa chamada felicidade, ou seja, eles trocam qualquer coisa por um ambiente legal, por um ambiente feliz, por um ambiente descontraído e, principalmente, que tem uma causa que os mobilize, que faça com que eles se apaixonem e se sintam participantes dessa causa, é isso que a empresa de hoje tem que ter, que é essa matéria de exame que eu comentei agora há pouco, não ter, que estão lá queridas pessoas engravatadas que viraram presidente de empresa e empresas absolutamente formais, burocráticas, os futuros dinossauros, porque são empresas que vão ficar no tempo, elas não conseguem se desconstruir e reconstruir de novo, elas nasceram num mundo onde as empresas eram verticais, tinham não sei quantos níveis hierárquicos, o capital é o dinheiro, então um novo mundo nascendo onde as empresas são planas, são colaborativas e as pessoas vão trabalhar porque elas se sentem felizes, não necessariamente pelo dinheiro que elas ganham, não necessariamente  pela perspectiva de carreira que elas tem, mas pelo fato de elas  poderem viver aquele momento, com muita felicidade, com muita paixão, então essa molecada tem isso…

Luciano                Essa matéria que você viu, essa matéria é uma pergunta para esses CEO’s dessas empresas? Fala um pouquinho mais dessa matéria, a gente falou lá fora, não falou gravando aqui.

Madia                  … aha, falou lá fora… você falou agora há pouco aí de papas na língua, de falar e de soltar ou não soltar, eu sempre procuro na medida do possível lembrar essas pessoas que não tem nada de pessoal, ou seja, eu tenho o maior respeito humano por essas pessoas, pelas circunstâncias que fizeram com que elas tivessem as carreiras que elas tiveram, foram e são executivos brilhantes, viraram presidentes de empresa, mas eles estão na capa da revista de terninho, de tailleur, isso não é verdade, isso não é real, isso é uma fotografia que é datada, que já tem 10, 20 anos de uma empresa que não morreu porque ela está próspera pela inércia, mas ela vai morrer, ela vai acabar e essa matéria toda que a Exame dedicou praticamente metade da revista, para falar que ainda existe a possibilidade de você fazer carreira dentro de uma empresa, meu Deus, eu acho que é a coisa que menos um jovem de hoje quer fazer carreira em qualquer lugar, porque ele viu o pai dele fazer isso, porque ele viu o pai dele trabalhar 35 anos, ganhar um relógio, ir embora para a casa e não ter o que fazer da vida e não ter o que contar da vida dele, então de alguma maneira a principal revista nossa, de negócios, faz uma matéria mostrando um mundo que não faz o menor sentido mais para essa galerinha nova que está chegando, para esse pessoal que está chegando, então é disso que eu estava falando, você tem as empresas clássicas, Johnson & Johnson, sei lá, as grandes empresas que a gente conheceu, que a gente admirava, que tratam de uma realidade que é a realidade que está viva e  que está em pé, mas eu não sei se na segunda feira esse troço não vai desmoronar, acordar que desmoronou, a Polaroid desmoronou, a HP em problemas dramáticos hoje, o Walmart tem uma crise que é maior empresa do mundo, tem mais de 2 milhões de colaboradores, tem uma crise ferrada de identidade e de posicionamento nesse momento, por que? Porque elas tem um formato, elas tem uma linha de pensamento que não faz mais o menor sentido daqui para a frente, tem um mundo novo nascendo e os valores desse mundo novo não tem nada a ver com esse mundo que a gente nasceu e que prevaleceu até hoje  e que  ainda estão de pé, que a gente continua vendo nessas grandes edificações, nesses grandes prédios, nas marcas que estão nas fachadas, esse mundo está derretendo, ele leva 5 anos, 10 anos, 15 anos para derreter, mas ele vai derreter e essa meninada que a gente está falando, que está nos ouvindo agora, se a gente ficar estimulando eles a olhar para esse tipo de mundo, a gente está fazendo com que eles passem a vida olhando no retrovisor, o que virem de costa, vai dar torcicolo, mas mesmo que a gente quisesse fazer isso, eles não vão fazer, eles estão olhando para a frente, porque a gente não precisa falar nada para eles, eles já tiveram o exemplo disso na casa deles, eles já viram o que aconteceu na casa deles e eles não querem isso para eles, nem por um cacete, não vão querer mesmo, então eu não sei se nós somos as melhores pessoas para dar algum tipo de conselho para eles, mas para fazer essa reflexão talvez a gente possa fazer essa reflexão…

Luciano                Você não acha que na esteira disso é que vem essa febre do startup? De todo mundo tem que ser empreendedor, todo mundo em que fazer seu próprio negócio, todo mundo tem que ser dono de si próprio, esqueça de ter patrão e vá tocar seu próprio negócio e a gente vê surgirem 6 milhões de startups e sabe  que só vão sobreviver ali na ponta 12, 10, 100.

Madia                  Eu acho que é, mas eu acho que tem outras considerações aí, em primeiro lugar eu acho que o emprego tal como a gente conheceu não vai existir mais, então as pessoas vão ter que arrumar algum tipo de ocupação, eu acho que em economia de mercado, em sociedade capitalista, sociedade aberta, que são as coisas que eu acredito, acho que você acredita também, a figura mais importante é um maluco chamado empreendedor, aqui não é uma questão antológica, quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha, não existe isso, quem nasceu primeiro é um maluco que acha que tem a capacidade de montar uma empresa e de fazer um negócio, de emprestar recursos da sociedade, de sensibilizar pessoas, de aglutinar essas pessoas e transformar isso em riqueza, ou seja, não é a dúvida se primeiro nasce o emprego ou primeiro nasce o empreendedor. Primeiro nasce o empreendedor, do empreendedor nasce a empresa e da empresa nasce aquilo que a gente chamava lá atrás de emprego e que hoje a gente vai dar uma outra denominação, que vão ser associados, sócios, parceiros, cooperativados, o diabo, mas a relação de emprego tal como a gente conheceu vai terminar, mas esse maluco tem que existir, então feliz o país, você está falando um pouquinho do Brasil, mas é no mundo todo hoje isso, que tem essa multidão de empreendedores, é preciso isso mesmo, tem que ter milhões e milhões de empreendedores para que muitos deles acabem dando certo e pela forma de organizar os negócios, organizar a sociedade que é cooperativo, que são plataformas, que são horizontal, muito rapidamente eles vão se somar, então o índice de sinistralidade vai ser bem menor porque no meio do caminho eles vão se juntando, vão se formando e formam redes, teias, vão se protegendo e as coisas acabam acontecendo.

Luciano                Você, eu vou voltar para o seu Duarte, você quando falou desse sujeito, desse maluco que pode mudar as coisas, empreendedor que começa do 0 e cria um negócio, você descreveu para mim Henry Ford, ou seja, no fundo, no fundo, não mudou nada…

Madia                  Não, não mudou nada.

Luciano                … em um louco achando que pode fazer e acaba que faz, o que nós não podemos correr o risco que eu vejo muita gente correndo, porque tem gente pregando aí o seguinte, basta querer que você faz, se você for, se você quiser você consegue, não é bem assim, se eu quiser e não tiver ferramentas eu não consigo, se eu não tiver dinheiro eu não consigo, se eu não tiver preparo eu não consigo, se eu não estudar  eu não consigo e  até eu costumo brincar muito com o pessoal que vem aqui, olham meu estúdio, puta que maravilha, que coisa fantástica, é por isso que o podcast faz sucesso, é por isso que ele tem um podcast, para eu ter um podcast legal como ele tem, eu tenho que ter uma estrutura como ele tem aí, mas as pessoas estão falando daquilo que é visível, que isso aqui tudo o dinheiro compra e o sucesso do programa não está aqui…

Madia                  Lógico que não.

Luciano                …  está aqui, dentro da cabeça e com coisas que eu construí ao longo desse tempo, o tempo que eu estudei, aquilo tudo que eu aprendi, que eu desenvolvi, ou seja, a quantidade de conteúdo que eu trouxe para o meu repertório para poder trabalhar, depois jogar ele fora e o que você vê aqui de bonito é refino, eu só refinei, tornei mais fácil para mim produzir aquilo mas sem você ter na cabeça essa massa cinzenta, você vai ser mais um daqueles loucos que acham que podem mudar o mundo e não vai mudar porque não tem condições, vai ficar fazendo ações táticas e vai quebrar a cara por não ter estratégia e tudo mais. Vamos partir para os finalmentes, já estamos falando aqui há um bom tempo, o meu finalmente com você não pode deixara de tratar um pouquinho do país que nós estamos vivendo e do momento que nós vivemos no Brasil, a gente está vivendo um momento aqui que olha, eu não me lembro, ao longo da minha história, me lembro de várias crises, vários momentos que a gente passou, mas não me lembro de um momento como esse que nós estamos vivendo agora que é um momento, é uma crise de credibilidade brutal, uma crise assim que você fala, cara, temos que sair dessa, quem é que vai nos ajudar a sair dessa, não tem, tira um, quem vai botar no lugar? Eu  não sei, não confio mais em ninguém, qualquer nome que você me der é uma merda, você está vendo agora, nós estamos tentando aqui escolher o candidato para prefeito de São Paulo, está pegando um quebra e quando apontam os nomes, nenhum deles você olha e fala, esse é o cara, desapareceram essas figuras todas e o Brasil parece que é uma nau que está ficando sem rumo e que se você trocar o piloto vai ser duro o novo piloto fazer a coisa andar adiante. Como é que você está vendo o Brasil nesse momento aqui, de onde vem isso? Qual é o caminho para a gente tentar encontrar uma saída?

Madia                  Olha, eu acho que talvez nesse momento você tem um pouquinho mais de idade, ajude você a entender o que está acontecendo no Brasil, você tem interesse também atrás em lei e procurar etc e tem vivido situações, eu não te contei no programa, meu pai, em Bauru, tinha uma atividade política muito grande, ele era de um partido que não existe mais chamado PSP, era ademarista, se você conversar lá com teu pai, as pessoas da época eles vão te dizer, então por isso eu sempre tive muito próximo da política, em Bauru, eu lembro que eu era moleque, naquela época as eleições eram em cédulas individuais, não  sei se você lembra disso, cada candidato fazia a sua cédula, não tinha cédula única, então nos dias da eleição eu ajudava a distribuir a cédula, você entrava numa cabine de votação, o eleitor, eu não era eleitor, sentava na cabine de votação, se você não encontrasse a cédula do teu vereador, você não podia votar nele, porque tinha que terá cédula do teu vereador, então era uma maluquice. Aí veio a cédula única, quando meu pai veio para São Paulo, eu fui trabalhar na campanha do Carvalho Pinto para governador do estado de São Paulo, eu tinha 15 anos, eu não votava mas eu trabalhei e depois com 17 anos eu trabalhei da campanha do Jânio Quadros para presidente da república, na assessoria de imprensa…

Luciano                Varre, varre, varre vassourinha… Tem uma varre, varre vassourinha…

Madia                  … não tem nada a ver comigo, mas enfim, mas de qualquer maneira quando ele ganhou, teve a chance de eu ir conhecer Brasília, eu fui conhecer Brasília, eu tinha 17 anos, mas o que aconteceu no Brasil durante aquele período todo e que veio desembocar até hoje, tinha um maluco chamado Juscelino Kubitschek, que aconteceu com ele o que aconteceu comigo, não sei se aconteceu com você, teve um dia em Bauru, no Grupo Escolar Rodrigues de Abreu, que a professora falou para mim, Chiquinho, vem aqui para a lousa, eu fui na lousa tinha um mapa do Brasil, ela falou para mim, olha no mapa, eu olhei, ela falou olha no centro do mapa, eu olhei, tem alguma coisa? Eu falei tem, tem um pontinho aí, o que está escrito? Brasília. Então algum maluco, em algum momento resolveu calcular o ponto central do Brasil, colocou no mapa e chamou de Brasília, aconteceu isso com o Juscelino, só que o Juscelino levou a sério isso e resolveu mudar a capital do Brasil e aí começa a desgraça do Brasil, não estou metendo o pau no Juscelino, ele era uma pessoa alegre, feliz, enfim não importa, mas era um maluco e ele resolveu fazer isso, só que ninguém queria se meter naquele mato, construir Brasília naquele sertão, naquele lugar distante, não tinha estrada nem nada, ele teve que sensibilizar um monte de construtoras, que depois viraram, batizadas de empreiteiras, e o cara só ia se meter nessa loucura se ele tivesse um preço 3 ou 4 vezes maior do que ele ganharia se ele ficasse por aqui e começou a surgir esse negócio, isso foi se misturando com os partidos, com as eleições, como nós tínhamos uma legislação eleitoral absolutamente cínica, achar que não precisa de dinheiro para fazer a campanha, como não tinha uma regulamentação direito disso, esse troço foi evoluindo, foi num crescendo e até que um dia veio a revolução de 64, aí deu uma parada, nesse momento o Brasil perdeu 2 ou 3 gerações de potenciais políticos, que foram fazer outras coisas, eu por exemplo no momento da revolução eu era filiado a um partido, o PTB, um ou dois anos depois não tinha mais ninguém, acabaram os partidos, então você não tinha, quem queria fazer carreira política você não tinha nenhuma possibilidade de fazer, você não tinha nenhum caminho para ser percorrido, os partidos voltam depois inventados pela revolução, que eram 2 partidos que era Arena e…

Luciano                PMDB… MDB…

Madia                  … MDB, era MDB, ou seja, partidos de laboratório, e assim renasce a democracia no Brasil, numa coisa absolutamente fake, esses partidos não tinham nenhuma personalidade, eles foram se multiplicando, foram dividindo, a gente foi inventando raio de governo, de coalisão, não foi agora que o PT inventou isso, era lá atrás. O que PT inventou agora foi formas de alimentar essa coalisão com grosseira, pornográfica, escatológica, que é uma coisa dramática, mas foi um ciclo que aconteceu e a gente está, felizmente está chegando no fim desse ciclo, o fim desse ciclo começa em junho de 1983 com a primeira manifestação de cidadania, que ela continua crescendo, nesse momento todos nós temos uma visão muito crítica em relação a todos os políticos, primeiro em relação a eles pelo que eles são hoje, mas por outro lado em relação a nós mesmos que nos omitimos e possibilitamos que tudo isso atingisse a dimensão que atingiu, então nós vivemos um momento extraordinário da nossa história, onde nós temos a oportunidade única, finalmente, de começar um novo país, então nesse sentido eu estou muito otimista, está doendo pra cacete, nós todos estamos sangrando, a nossa empresa está sangrando, está todo mundo com dificuldade, os nossos clientes estão sangrando, mas é um momento extraordinário da história do país, se a gente tiver a inteligência e sensibilidade de aproveitar, se não tivermos, a gente merece ir junto para o fundo do buraco mesmo, porque é isso aí.

Luciano                Esse é o caminho. Legal. Meu amigo, quem quiser entrar em contato com o teu trabalho, quem quiser saber mais da Madia, do Madia, vai te encontrar aonde? Vamos lá.

Madia                  Só entrar no Google lá e colocar Madia, a gente já vai aparecer nas primeira posições, ou Madia Mundo Marketing, vai chegar lá e…

Luciano                O teu blog é o?

Madia                  É Blog do Madia.

Luciano                Blog do Madia, eu recomendo vocês a entrar no blog do Madia, tem uma série de artigos muito legais, são curtinhos, viu molecada, quem não quer ler muito, ele escreve curtinho, escreve para internet mesmo, mas tem ali umas pegadas  muito legais e que fazem parte dessa visão crítica do mundo que a gente precisa ter aqui. Meu caro Madia, meu bauruense, muito obrigado por estar aqui comigo…

Madia                  Obrigado, eu que agradeço.

Luciano                … eu vou ter a chance de conversar um pouco mais com você, a gente vai ver se desenvolve algumas coisas em conjunto ai.

Madia                  Vamos fazer sim.

Luciano                Muito obrigado.

Madia                  Obrigado, eu que te agradeço, até uma próxima vez…

Luciano                Vamos lá.

Madia                  … e vamos ver se a próxima vez a gente faz lá no nosso escritório…

Luciano                Vamos lá.

Madia                  … ta bom?

Luciano                Um abraço.

Madia                  Obrigado Luciano.

 

                                                                                                        Transcrição: Mari Camargo