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Luciano Pires -

Luciano                Muito bem, mais um LíderCast com um daqueles convidados sempre especiais. Eu parei de dizer que hoje a conversa é muito especial porque todas são especiais, se não fosse especial não estava aqui no LíderCast. Então, vou contar um pouquinho como é que eu encontrei essa figura que está comigo aqui hoje, isso foi um convite de uma amiga nossa em comum, que conversando com ele viu que ele acompanhava o Café Brasil, lia os livros, sabia das histórias do Luciano Pires, eles conversaram e um belo dia trocando ideias surgiu a chance de provocar um jantar e eu fui jantar numa das casas que pertence a ele e a gente bateu um papo ali e com um pouquinho de conversa já ficou claro que havia muito café no bule ali, eu fiz o convite para o LíderCast e lá vem ele aqui, então eu vou àquelas três perguntas, prepare-se que como eu sempre digo são as três mais difíceis do programa…

Edrey                   Estou pronto.

Luciano                … e a primeira é a seguinte: eu quero saber seu nome, sua idade e o  que é que você faz?

Edrey                   Meu nome é Edrey, Edrey Momo para os menos íntimos, mas Edrey Momo, eu tenho 46 anos e sou empresário, vamos dizer assim, ou louco, tanto faz.

Luciano                Empresário, você vende automóvel, o que você faz?

Edrey                   Eu sou empresário do ramo da gastronomia, tenho restaurantes, ou mais conhecido como restaurador ou restauranteur.

Luciano                Opa!

Edrey                   E as pessoas usam diversas maneiras de chamar essa profissão, vamos dizer assim.

Luciano                Teu restaurante é conhecido?

Edrey                   É um pouquinho.

Luciano                Qual que é? Fala o nome?

Edrey                   Então, eu tenho alguns, na verdade eu tenho a Pizzaria 1900 que tem 33 anos, vai fazer acho que 34, não, faz 33 anos agora dia 1° de maio…

Luciano                Pausa, para quem não é de São Paulo eu vou dar uma dica que a Pizzaria 1900 aqui em São Paulo é um dos ícones da cidade de São Paulo, quando você fala em pizza aqui a gente sempre cita duas ou três e uma das duas ou três sem dúvida é a 1900.

Edrey                   … é, a gente está sempre por aí. Depois eu tenho dois restaurantes portugueses, na verdade, um que chama Tasca da Esquina que por acaso tem ganhado os últimos prêmios de melhor restaurante português…

Luciano                Muito bom por sinal.

Edrey                   … aqui em São Paulo, muito obrigado…

Luciano                Foi lá que eu fui conhecer e tive ali uma… foi um festim.

Edrey                   … foi um festim exatamente. E tenho mais dois projetos em andamento, na verdade um restaurante japonês, que já que eu estou na rádio tanto faz o que é a comida e uma padaria também portuguesa, enfim.

Luciano                Legal, sempre português né?

Edrey                   É, na verdade eu tenho um sócio português, que a gente tem essas marcas, vamos dizer, da esquina que são a Tasca e a Taberna e agora a Padaria da Esquina, que da Esquina seria a marca, o japonês é com outro sócio que também é um grande cozinheiro japonês assim como o cozinheiro português e a pizzaria, enfim, é de onde eu vim, de onde eu aprendi toda essa história de restauração, enfim, onde meu me formei restaurador e estou usando aí todos os cartuchos que a gente aprendeu ao longo da vida para poder propagar um pouco mais da gastronomia, enfim.

Luciano                Deixa eu cutucar um pouco lá no teu passado, deixa eu buscar lá atrás. Esse negócio da comida é coisa de família, é familiar, é histórico, como é que é isso?

Edrey                   Então, a história é muito interessante porque é assim, a pizzaria na verdade começou com o meu pai que é maestro, não entende nada de gastronomia, enfim, ou de restauração, vamos dizer assim…

Luciano                Maestro.

Edrey                   … maestro.

Luciano                Ganhava a vida

Edrey                   … ganhava a vida, meu pai teve corais em escolas, fazia casamentos, foi viola, enfim, da Orquestra Sinfônica Municipal, aqui em São Paulo, foi um grande regente enfim, óbvio que não era um Eleazar de Carvalho, mas enfim, estava sempre por ali fazendo um belo papel aí na parte musical da cidade. Enfim, fez bastante coisa, teve o Movimento Coral Jovem, foi um professor  em escola pública de música, fez um trabalho muito bonito tentando musicar um pouco e aculturar um pouco parte da escola pública. Ele até brinca que na época do Maluf que é um cara que é extremamente criticado aí por uma série de coisas, ele falou que foi a época que ele mais trabalhou com educação, que era um cara que tinha um pouco um nível cultural em termo musical bastante evoluído e foi com ele que ele fez um grande trabalho aí com as escolas de base mesmo, de periferia assim, criançada para tocar flauta doce, entendendo o que é um pouco de música que na concepção do meu pai, enfim, toda aminha família é muito importante no desenvolvimento, diz que inclusive músicos não tem Alzheimer, porque…

Luciano                O cérebro não para.

Edrey                   … desenvolve, exatamente, exatamente, o processamento musical dentro do cérebro ocupa áreas que só música ocupa, então faz com que isso você não tenha desenvolvimento do Alzheimer, enfim, é raríssimo existirem músicos com Alzheimer, mas enfim, e aí a gente fazia pizza no sítio, meu pai sempre teve como todo artista tem, um dom. Ele fazia pizza no sítio e a gente fazia pizza para os amigos, eu era molequinho, a gente construiu um forninho de pizza e os amigos todos, como todo mundo que acho que entra na área, ou entrou na área de gastronomia, os amigos falam ah porque você não monta um restaurante, poxa, pizza gostosa, as pessoas iam, comiam, uma coisa alucinante. E aí a história que é engraçada é porque que chama 1900 e aí vem todo o porquê das coisas, a gente tem um galpão que foi construído pelo meu bisavô, avô do meu pai, na Vila Mariana, onde é hoje a unidade principal da pizzaria e esse galpão que tinha sido, anos atrás, ele é da época de 1920, 1900 e pouquinho e foi nesse galpão que foi construído, começou o negócio de transformador de bondes na época, depois estava alugado para uma fábrica de estopa, por fim uma serralheria e essa serralheria saiu e o imóvel ficou desocupado e bem nessa época meu pai estava na dúvida, quando o imóvel ficou vago, falou puxa, eu preciso fazer uma coisa da minha vida porque a música não dá, não vai dar para terminar de pagar a escola de vocês e aí ele comentou, putz, não sei se eu monto um estúdio de música para fazer gravações, casamentos e coisas do gênero, ou monto uma pizzaria. A minha grande sorte que ele montou uma pizzaria porque eu sou um péssimo músico, eu não consigo tocar nenhum instrumento direito, enfim, e aí ele ficou nessa dúvida, se juntou com a minha avó, que por acaso é mãe da minha mãe, não mãe dele, enfim a sogra, ser sócio de sogra é uma coisa engraçada…

Luciano                Pô, é um risco tremendo.

Edrey                   … mas segundo a minha mãe ela teve duas sogras, a mãe dela e a mãe do meu pai, porque enfim, a minha vó gostava mais do meu pai que da minha própria filha, enfim, e aí a pizzaria abriu de uma maneira totalmente amadora, tipo muito mais por feeling do que por qualquer outra coisa.

Luciano                30 anos atrás? Estamos falando em 80 e…

Edrey                   83

Luciano                … 83

Edrey                   Exatamente.

Luciano                Quando já tinha, pizza já era uma marca de São Paulo.

Edrey                   Tinha, a gente ia bastante em pizzaria, inclusive antes de abrir a gente comeu pizza em todos os lugares possíveis e imagináveis, não aguentava mais fazer pesquisa com o meu pai. Mas assim, resumindo a história, enfim, se não…. a história da pizzaria daria mais do que um programa, mas enfim, a gente abriu amadoramente dizendo, tipo meio na loucura, tanto que quando deu umas 9 horas da noite escuto meu pai fechando a porta, que era uma porta e rolo que está lá até hoje, aí eu falei nossa pai, o que aconteceu? A maior correria porque estava cheio, ele falou: não, acabou a farinha, falei como assim acabou a farinha? Aí enfim, não, fecha para tudo, primeiro dia, aí a gente foi contar quantas pizzas a gente tinha feito nesse dia e o número foi 17.

Luciano                Ah…

Edrey                   É, 17 pizzas…

Luciano                E acabou a farinha.

Edreu                   … e acabou a farinha, aí se você fizer uma conta besta que um quilo de farinha faz 4 pizzas, vai mais ou menos, tinha sei lá, 5 quilos de farinha na pizzaria para inaugurar um restaurante, então assim, se fosse em dias de hoje não duraria uma semana a pizzaria, porque estaria no Facebook, no Instagran ou em qualquer outro lugar dizendo olha que fracasso, que coisa, enfim. E a gente foi ao longo do tempo aprendendo a ter um negócio, então meu pai ficou lá uns dois, três anos e depois, como os artistas, se desinteressou, enfim não era a praia dele ficar tocando o negócio, enfim, e eu nessa época tinha dezoito anos e ele me entregou a chave e falou assim: se vira, como bom italiano, educação era assim, se vira, vai aprender e faça o que você achar que tem que fazer e aí, a partir daí eu me enfiei no negócio e…

Luciano                Com 18 anos?

Edrey                   Com 18 anos.

Luciano                Com nenhuma experiência profissional?

Edrey                   Nenhuma experiência, tinha experiência de trabalhar com ele, tipo durante dois anos ou três, que foi mais ou menos o intervalo entre ele estar e sair. Eu montei um delivery, quer dizer, na verdade a gente montou uma unidade de delivery na mesma rua porque já estava o negócio estava grande, tipo trabalhando bastante e a gente tinha que abrir um outro forno para dar conta do volume e esse outro forno a gente montou esse delivery e aí ele me deu a chave e falou se vira. Nisso eu tinha, com as histórias todas que a gente tem que aprender na vida, nessa época a gente tinha um gerente que começou como caixa e ao longo desses dois, três anos foi crescendo lá dentro, o braço direito do meu pai que o nome dele é Maciel e ele era gerente nessa época e aí meu pai me deu esse delivery e falou assim, olha se vira e o Maciel desesperado falou, pô, o filho do dono está vindo aqui, vai tomar meu lugar, eu vou tesourar ele daqui porque eu sou o gerente, eu que mando aqui, não quero ninguém dividindo a liderança comigo, então…

Luciano                Especialmente esse moleque.

Edrey                   … especialmente esse moleque, porque você imagina, com dezoito anos era um pouco… e nessa época eu estava, depois eu entrei no exército, acabei tendo que servir, enfim, então foi uma fase muito corrida para mim em termos de trabalho e a noite ia para a pizzaria, enfim, e fazendo cursinho e no fundo eu queria ser veterinário e a pizzaria começou a tomar meu tempo e eu falei, puxa, preciso optar. Isso foi um momento em que eu tive que optar. Eu falei, vou fazer administração de empresas então e resolvi largar a ideia de ser veterinário e prestei faculdade, fui fazer administração de empresas e aí eu tinha esse dia a dia com o Maciel que era bastante complicado.

Luciano                Então antes de entrar no Maciel, você vai me permitir eu fazer aqui, vou dar uma explorada, 18 anos, 1983, é diferente de 18 anos hoje, é bastante diferente, mas de qualquer forma 18 anos é um garoto, que tem aquele sonho que era ser veterinário, de repente está lá na empresa do pai dele e não necessariamente era aquilo que você pensava para o teu futuro e se vê diante de uma tomada de decisão que ia impactar profundamente no futuro, no teu futuro pessoal, profissional etc e tal. Como é que um moleque de 18 anos toma uma decisão dessa, ele vai buscar orientação aonde?

Edrey                   Pois é.

Luciano                Ele se tranca no quarto e fala chegou  a hora ou ele fala o vento bateu aqui e dane-se. Como é que é?

Edrey                   Então é difícil dizer que eu não lembro bem, quase trinta anos depois mas enfim, eu lembro de ter sofrido muito assim, eu acho que a minha mãe foi uma pessoa que me apoiou muito no que eu quisesse fazer, tipo, minha mãe é uma pessoa, graças a Deus, muito tranquila em relação a isso. Eu lembro que foi muito difícil porque assim, eu tinha a pressão do meu pai querendo que eu me tornasse um homem de negócios e tomasse conta do negócio dele, eu lembro até que eu pedi para sair de casa com dezenove, tipo o ano seguinte porque eu não aguentava mais, entre aspas, ter patrão vinte e quatro horas por dia, porque eu chegava em casa e meu pai começava a falar comigo sobre negócio, perguntava como é que estava a pizzaria e eu falava poxa, agora que eu cheguei em casa eu quero desligar um pouco e não tinha essa oportunidade. Então, conversei com a minha mãe, falei me ajuda, preciso sair de casa que eu não estou aguentando, então assim, não sei se é pelo signo, se é pelo meu estilo, se é pelo meu jeito de ser, eu sou um cara extremamente teimoso e se você falar para mim olha, você não vai conseguir tal coisa ou não dá certo tal coisa ou tenta de outro jeito, eu vou insistir até o fim das minhas forças mas eu faço acontecer. Graças a Deus eu tenho um histórico bastante… de sucesso no caso, porque assim, tudo que eu me meti a fazer deu certo, não sei se é  persistência, se é teimosia, se é chatice, sei lá, não sei nem o adjetivo que usar, mas é uma coisa de correr atrás até… E aí quando meu pai, entre aspas, me provocava e o Maciel me provocava tipo esse moleque não vai aguentar, parecia que tinha uma força contrária dizendo assim, eu vou até o fim, então foi muito duro, eu lembro de sofrer muito com o Maciel, porque ele, inclusive, contava coisas para o meu pai, tipo olha, ele chegou tarde, ele saiu mais cedo, e para mim era muito difícil, você imagina, dezoito, dezenove anos, meus amigos todos passavam na pizzaria e falavam, estamos indo para a praia nesse final de semana, você não quer ir? Não, vou trabalhar, sábado e domingo são os dias que mais trabalha. Namoradas entendeu, tipo puta eu vou sair daqui meia noite e vou te pegar. Meia noite meu pai não deixa eu sair de casa, assim, foi uma fase muito dura nesse sentido e ao mesmo tempo foi ela própria, essa dureza ou essa provocação que me fez sair dessa situação, eu falei não, eu vou, como assim que eu não vou conseguir, entendeu? Como assim que não… não funciona para mim, se você disser para mim, você não vai fazer tal coisa, se eu quiser fazer eu vou fazer, não importa e eu não sei o que é isso.

Luciano                Isso aí o que é? É seu pai, sua mãe? Quem era assim?

Edrey                   Acho que minha mãe é um pouco assim, meu pai também, é um cara, meu pai teve fábrica de instrumento musical, tudo o que ele fez ele fez muito bem feito.

Luciano                Já tem um DNA empreendedor nesse projeto.

Edrey                   Acho que sim, é meio de família assim, tipo meu irmão também é um cara extremamente determinado, meu irmão queria fazer academia da Força Aérea, foi lá, fez preparatória, prestou, passou, aí não passou por um exame, não sei, físico, sei lá,  aí foi no ano seguinte, prestou de novo, passou e não passou porque tinha uma miopia, sei lá,  uma coisa na vista que ai não tinha outra alternativa, já não dependia mais dele, não satisfeito ele foi tirar brevê, entendeu? Foi aprender a voar de outro jeito, ele queria voar, entendeu? Então assim, eu acho que tem um pouco de genética, mas assim, eu não sou um cara que desiste fácil e quanto mais provocado eu sou, pior eu fico, eu não sei que é isso, se tem algum nome, mas enfim.

Luciano                Mas então, vamos voltar lá atrás, me dá uma dica de novo, então você com 18 anos, de repente cai na tua mão uma chave e junto com essa chave vem um business que devia ter, sei lá, X garçons…

Edrey                   É, tinha um tamanhinho razoável.

Luciano                … e um cara a fim de puxar o teu tapete ali, ou seja, isso é um ambiente onde grita a comédia corporativa, onde você tem todas aquelas sacanagens do mundo dos negócios e você chega lá cru, sem eira nem beira e começa a tomar bola nas costas, tomar puxão de… e aí? Alguém te orientou, você ia assumir a liderança de um negócio sem ter nenhum input de liderança, olha é assim que se faz, cuida com isso, como é que foi?

Edrey                   Então, o que era engraçado é que assim, eu tinha 18, 19 anos e tinha que dar ordem para nego, todos muito mais velhos do que eu, muito mais experientes o que eu e eu tinha o Maciel que desfazia todas as ordens que eu dava, quer dizer, então o que eu pensei? Falei preciso organizar essa coisa de uma maneira que seja produtiva. Se eu ficar numa disputa de liderança, o negócio perde, eu vou perder e o Maciel vai perder. Aí eu sentei com o Maciel, um belo dia, falei bom, não dá…

Luciano                Que idade tinha esse Maciel?

Edrey                   … o Maciel tem 10 anos exatos a mais do que eu. Sentei com ele falei assim: escuta, dois cachorros grandes aqui latindo não vai resolver. Você precisa entender que eu não sou uma ameaça e sim, algo que pode fazer com que no nosso negócio, o meu negócio, na época, possa andar melhor. Então, se você entender que eu não sou uma ameaça, as coisas vão funcionar melhor, tanto para mim quanto para você. Então eu tive com ele, como é que eu vou dizer, um entendimento e eu acho que uma das grandes virtudes que eu tenho é tentar entender o que está acontecendo e agir em cima disso, eu não me considero melhor que ninguém em absolutamente nada, mas acho que eu tenho uma percepção muito grande de associar coisas e entender o porque dessas coisas, eu não vou tratar a causa, eu vou descobrir porque, o que causou aquilo, é um passo um pouco antes, então eu estava tentando entender porque o Maciel tinha tanta resistência comigo. E aí eu fui descobrindo uma história, uma conversa que ele teve com meu pai que meu pai tinha feito uma promessa para ele, tipo ah o dia que a gente vender  dez mil pizzas eu vou te dar um pedaço da sociedade e meu pai se fez de canhoto, deixou passar e passou e para o Maciel não tinha passado e quando ele me contou essa história, eu perguntei, por que essa mágoa? Entendeu? Por que essa resistência? Ele me contou essa história, falei espera ai que eu vou resolver isso e aí eu fui conversar com meu pai e de fato ele tinha feito essa promessa. Eu falei para o meu pai, olha se os tempos eram outros ou enfim, isso já passa a ser um problema seu, eu acho que você tem que resolver essa pendência com o Maciel. E a gente resolveu essa pendência com o Maciel e eu me tornei sócio do Maciel e aí no andar da carruagem pintou um outro negócio e eu e o Maciel compramos uma outra pizzaria em Moema, foi a primeira filial, eu vendi carro, moto, tudo que eu tinha, ele também e a gente comprou essa sociedade, botamos lá uma 1900, mau pai falou não, vão vocês que agora está tudo bem, então toquem o barco, então assim, às vezes tem algum ranço, alguma coisa que precisa ser resolvida, se não você não limpa e eu acho que os canais tem que estar muito limpos, se não a coisa não flui e hoje o Maciel, ao longo desses trinta anos que a gente trabalha junto, o Maciel é quase um irmão mais velho, ele me ensinou um monte de coisas, é um cara que tenho uma admiração muito grande. A história dele é terrível, ele é filho de pai e mãe analfabetos, no interior de Minas Gerais e veio para São Paulo com uma mão na frente outra atrás, entrou para trabalhar como caixa, foi até gerente e aí hoje ele é meu sócio com o mesmo percentual que os familiares, então assim, é um cara que eu tiro o chapéu, um cara que me ensinou muito sobre liderança, vamos dizer assim.

Luciano                Mas é impressionante essa tua história, se você olhar por alguns ângulos, o primeiro ângulo é o seguinte: é a carga de sabedoria de um garoto de dezoito anos para segurar a peteca e não chegar lá em casa e pai, ou ele ou eu, esse puto está querendo me sacanear, quer dizer, segurar essa explosão de…

Edrey                   De revolta, com 18 anos você quer virar a mesa.

Luciano                … mas isso é parte de ter 18 anos é isso e a outra coisa interessante é você vencer esse momento e os caras continuarem, estar aí até hoje, não sobrou mágoa nenhuma, sobrou uma história, quer dizer, você teve um momento de, a gente chama isso de assertividade , você chegou na frente dele: serei assertivo, está acontecendo isso, isso, isso, estamos sendo totalmente transparente e ele assimilou e vocês resolveram essa pegada.

Edrey                   É, o Maciel, ontem mesmo a gente almoçou junto, bateu papo sobre um outro assunto que está rolando aí na família, enfim, um cara super parceiro, foi meu amigão mesmo durante muito tempo, um puta sócio que, assim, com ele eu entendi o que é o lado que eles chamam o lado do peão sabe, que meu pai não tem muito essa coisa, tipo de lidar com funcionário e o Maciel diz que ele vindo da base que ele veio, ele me ensinou muito de entender o que o teu funcionário está precisando, a gente brinca que é o peão, peão maneira de dizer, mas assim, é entender a necessidade do teu colaborador e não simplesmente tratá-lo como uma máquina, como alguém que eu compro só com dinheiro, tudo bem que o capital versus trabalho está aí na relação e uma coisa extremamente normal, mas tem muito mais que isso e esse muito mais que isso quem me mostrou foi o Maciel. Falou pô, o cara não tem onde dormir, às vezes o cara não tem condução par ir para a casa e fica até cinco da manhã esperando o primeiro ônibus do outro dia para poder voltar, ele fica num bar bebendo e dorme muito pouco e se alimenta mal, sabe, umas coisas que assim, que não faziam parte do meu universo entender isso e ao longo da convivência com o Maciel, ele era muito mais próximo deles, uma questão de talvez de origem, mas assim, entender isso fez com que eu entendesse como eles pensam e quando você fala assim, ah qual é o teu grande diferencial enquanto líder ou enquanto empreendedor, é entender o que o outro está pensando, eu acho que isso faz toda a diferença, eu sou, enfim, é difícil falar da gente mesmo mas assim, eu acho que eu sou um cara extremamente respeitado, exatamente por isso, quer dizer, eu não trato as pessoas como máquinas ou como qualquer outra coisa, eu trato gente como a gente, as pessoas olham para mim e falam pô Edrey, que legal, não sei o que lá, não importa se é faxineiro, se é, enfim, não importa quem seja, porque antes de mais nada é uma pessoa e…

Luciano                Quantos funcionários você tem hoje?

Edrey                   … ah, juntando tudo deve ter uns 500, 400.. é gente.

Luciano                Não só o fato de ser gente. Primeiro que é gente. Segundo que você está lidando num segmento da economia que é um negócio, eu vou falar assim com todas as letras, é horrível, lidar com comida é o ó do borogodó, porque tem um treco ali sentado na tua frente chamado cliente, que é a pior coisa que existe na humanidade, você está dando comida para esse cara, ou seja, tua margem de erro é quase nenhuma, o potencial que você tem desse cara ficar puto da vida, arrumar encrenca, reclamação e você, cada um que entra é de um jeito, cada um entra com um gosto, com uma expectativa e você tem que lidar com isso tudo sabendo que não é você que está ali, é alguém que está o teu preposto que está ali.

Edrey                   É por isso que eu digo assim, quer dizer, a grande maioria das pessoas que trabalha comigo e eu faço questão disso e é engraçado que, eu ganhei o ano passado um prêmio do restaurador do ano, enfim, coisa do gênero e até tem um amigo meu que tem um restaurante, ele falou assim puta, você é o primeiro cara que eu vejo ganhar esse prêmio que não anda de blazer pelo seu restaurante, eu falei assim como assim, o que você quer dizer com isso? Ele falou quer dizer que você é um cara que rala, que trabalha e é diferente do cara que pega dinheiro e monta um restaurante e essa é a grande diferença, porque você sabe, e a minha questão que eu faço, grande questão que eu faço é de estar junto com eles, então eu quero que o meu funcionário entenda como eu penso, só assim ele pode replicar o que eu faria, não adianta escrever um manual, eu sou um pouco avesso à burocracia, mas enfim, uma discussão grande na pizzaria era exatamente essa, eu acho que o dia a dia é o entendimento de como processa a cabeça do líder, vamos dizer assim, em relação ao teu funcionário, então ele tem que replicar aquilo, como é que ele vai aprender isso? Eu descobri ao longo do tempo que é só te observando e eu faço questão de trabalhar, tanto que as pessoas olham, putz, você está no restaurante. Eu falo estou e eu pego bandeja e recolho talher quando cai no chão e atendo mesa e levo bebida e faço absolutamente os serviços dentro do que precisa ser feito, primeiro para que eles entendam que você sabe fazer e te respeitam muito por isso e segundo porque eles percebem como você faz e entendem que tem que replicar aquilo e a minha, que você está dizendo, exatamente onde nós temos problemas com clientes são porque existem outras pessoas tratando, os funcionários tratando outras pessoas que não são você, se eu pudesse atender e cozinhar para todo mundo seria lindo, mas eu tenho negócios e os negócios tem que andar sem a minha presença, então eles tem que entender como eu funciono e esse é o grande trabalho…

Luciano                E você tem um negócio fundamental, que dizer, o drive do teu negócio é a reputação dele, não é a comida que você faz, não tem nada a ver, é a reputação que você constrói, quer dizer, se você continuar fazendo a comida de primeira categoria, mas a tua reputação for quebrada, o teu negócio acabou.

Edrey                   Sim, porque tudo tem que andar junto, assim, você constrói essa reputação ao longo do tempo, é óbvio, mas assim, é muito de, como é que eu vou dizer, é fazer com que tudo funcione como você gostaria, como se você fizesse parte da engrenagem só que é o que eu falo, eu sou o óleo dessa engrenagem, eu preciso ver se as peças então funcionando direito, então tem que percorrer toda a engrenagem.

Luciano                E tem que saber que é aquilo que você falou no começo, não é que eu estou sentado lá numa mesa olhando de cima e construir um negócio onde eu não me envolvo nele até o pescoço, né?

Edrey                   Não adianta, é aquilo tipo, não adianta por dinheiro, por exemplo, tem muita gente que trabalha na mesma área que eu que acha que resolve as coisas contratando um bom gerente entendeu? Não, eu pago bem o meu gerente e está resolvido, o cara nunca trabalhou com esse gerente, ele não sabe se o gerente pensa como ele pensaria, o meu gerente da Tasca hoje, que é o Mauro e o Hugo que trabalha na Taberna, fora os outros da pizzaria são os caras que trabalharam comigo, eles sabem como eu penso, só de olhar ele sabe o que ele tem que fazer. Então isso é um desenvolvimento que demanda tempo e demanda dedicação tua de estar na operação e para mim, a grande diferença que eu sinto hoje é em qualquer restaurante que você vai, quer dizer, você percebe, tem restaurantes que tem dono e tem restaurantes que tem máquinas trabalhando. Então quer dizer, essa diferença eu acho fundamental, que dá toda a questão desserviço e tudo e a reputação que a gente fala, quer dizer, eu tenho um SAC na pizzaria que é incrível, imagina a quantidade de clientes que eu tenho, o SAC tem um histórico de SAC perto de zero assim, quer dizer, no sentido de problemas todos são muito bem tratados lá dentro sabe, não fica uma reclamação, não fica uma observação que não tem um retorno e tudo isso é construindo, construído ao longo do tempo.

Luciano                Mas nem sempre foi assim.

Edrey                   Não.

Luciano                Eu sei de uma história sua lá no começo, teve uma greve que os caras pararam tudo…

Edrey                   Quem te contou essa história?

Luciano                … te botaram na parede e você teve uma reação surpreendente, conta a história aí.

Edrey                   Essa história é boa, na verdade muito legal porque assim, a gente estava fazendo umas modificações acho de pontuação de salão, coisas do gênero, não me lembro exatamente o que era e fizemos uma reunião e eu sou super transparente, eu chego para o funcionário e digo para ele o que eu quero e ele tem que dizer para mim ok, está bom, não está e se está bom está bom, sabe, não tem essa não, estou falando que está bom só para te agradar e tudo bem, não, não existe isso, eu tenho um canal aberto que a qualquer momento, tal coisa está me incomodando, ok, o que está te incomodando? Ok, então vamos resolver. E sempre foi assim, cara extremamente acessível, então a gente estava discutindo e…

Luciano                Isso, só me dá o contexto, onde era, lá no comecinho?

Edrey                   Na loja da pizzaria da Vila Mariana…

Luciano                Já tinha mais…

Edrey                   … já tinham outras, enfim, tinha um gerente que chamava Araújo na época, trabalhou comigo 25 anos e a gente teve essa reunião com os garçons e estava praticamente ok, vamos estudar o caso, enfim, era uma coisa de pontuação.

Luciano                Que idade você tinha?

Edrey                   Ah eu já devia ter, sei lá, eu já tinha filho, tinha uns 30 e pouco, uns 15 anos atrás. E aí eu estou indo, estava de mudança, claramente porque eu estava indo na 23 de maio, um puta trânsito, sexta feira, final de tarde,  levando coisas de uma casa para a outra, porque eu ia mudar. Enfim, o Araújo  me liga e fala assim, Edrey estou com um problema. Falei o que foi, Araújo? Não, os garçons não querem descer para trabalhar. Seis horas da tarde, falei como assim não querem trabalhar? Não, porque o assunto lá não ficou resolvido, eles querem uma resposta hoje se não eles disseram que não vão trabalhar. Espera aí Araújo, está de brincadeira, tinha dezoito garçons. Como assim não vão descer? Não, falaram que querem falar com você agora. Estou no trânsito, 23 de maio parada, cheio de coisa no meu carro. Edrey, eu nunca te pedi nada, agora eu preciso de você, tem que vir aqui se não eu estou perdido. Falei está bom, põe eles na sala de reunião, estou voltando. Quer me tirar do sério é quando tem que mudar um compromisso, alguma coisa que eu acho que não precisava, eu fico doido. Fui, cheguei na sala de reunião, estavam todos lá, eu falei o que está acontecendo? Não porque a gente quer resolver isso se não a gente não vai trabalhar. Eu dei um esporro, não vou repetir aqui por uma questão de audiência, tem menores ouvindo, mulheres, idosos, sei lá. Mas assim, vocês estão pensando que eu sou um moleque? Em bom português, vocês trabalham comigo pelo menos, acho que o mais novo ali tinha, sei lá, cinco anos, três anos comigo sabe? Vocês estão de brincadeira comigo, vocês querem parar a empresa por conta de um assunto que pode ser resolvido segunda feira. Não vejo lógica. Lógico que eu não fui falando assim, mas vocês estão me chamando do que? Que é isso? Tipo aquela coisa, indignado até o último estágio. Falei pelo amor de Deus, eu quero saber quem é o louco que não vai descer para trabalhar. Aí acho que eles se chocaram um pouco porque assim, eu sou um cara extremamente calmo, tranquilo, não grito com ninguém, tenho uma paciência de Jó e eles me viram num estado que eu devia estar transtornado, desceram todos para trabalhar, aí o Araújo, conversei com o Araújo falei o que houve? Ele falou assim ah, não sei o que eles queriam resolver isso agora, falei pô Araújo, você tem que usar um pouco de… não teve jeito, eles queriam falar contigo. Falei está bom, aí pensei e falei bom, então já resolvi o que eu vou fazer, eram dezoito ou dezesseis garçons, acho que eram dezesseis garçons, isso foi sexta feira, Chegou no domingo, fui para lá à noite, subi dois garçons, mando os dois embora. Na semana seguinte mais dois, todo domingo eu ia a noite à pizzaria durante sete semanas, quase dois meses, eu fui trocando a equipe inteira.

Luciano                Mandava dois por domingo.

Edrey                   Dois por domingo, parecia big brother…

Luciano                Quer dizer, no terceiro domingo…

Edrey                   … eles já sabiam,  eu chegava lá eles ficavam esperando para ver quem ia subir, quem subia sabia que ia mandar embora, enfim, comigo não tem mais ou menos e fui limpei todos e aí na última semana eu cheguei lá, os últimos dois que estavam lá já me viram e começaram a tremer, aquela coisa toda, puta vou embora, enfim, subiram os dois na sala eu coloquei os dois na sala e falei assim, vocês sabem porque vocês são os últimos? Aí eles olharam para mim e falaram assim não. Porque vocês não vão embora. Aí você vê aquela expressão de “meu Deus, o que vai acontecer comigo? Vai mandar matar?” De onde vem essa história? Aí eu falei assim, vocês vão ficar para contar essa história. Os dois estão lá até hoje, um chama André e o outro chama Rubens, um é o gerente da loja de Moema e o outro é gerente da loja dos jardins.

Luciano                Que legal.

Edrey                   Que eram garçons na época.  Então assim, aquilo virou tipo uma lenda lá dentro que assim, eles entenderam a história e a cultura da pizzaria nesse caso de que assim, não dá para pisar na bola com eles, porque eu não piso na bola com ninguém, não atraso um dia de pagamento, pago tudo direitinho, tudo certinho, sou um cara chato nesse quesito, então não pise na bola comigo, entendeu? Assim, eu faço a minha parte, faça a sua.

Luciano                Muito legal essa história.

Edrey                   Eles estão lá até hoje.

Luciano                Você elevou ao cubo uma ação que eu sempre, eu me lembro já de ter recomendado isso para um monte de gente, amigos meus que vem ah pô, como é que está a situação, está complicada e eu, manda um embora, como assim? Mande um embora. Mas… mande um embora, só isso, só mande um embora e acabou e depois reúna a equipe inteira e pergunte para a equipe se a equipe sabe porque aquele um foi embora e aí faça uma reflexão com a equipe todinha para que eles cheguem à conclusão de porque é que aquela pessoa perdeu o emprego. E só essa reflexão vai botar as coisas nos trilhos porque aí os caras, eles vão concluir o que estava acontecendo ali, que é o que você fez, só que você fez de uma forma mais, você foi sádico.

Edrey                   É que também não podia mandar todo mundo embora, a minha vontade, era óbvio, se eu pudesse, mandava todos no mesmo dia, mas eu tinha que trocar a equipe e trocar uma equipe de atendimento de salão de uma loja como a loja Vila Mariana é uma coisa extremamente complexa, com dois garçons novos por semana ai demanda treinamento, demanda uma série de coisas, enfim, ainda bem que eram outros tempos que tinha, hoje em dia…

Luciano                Você é terrível. Deixa eu te perguntar outra coisa aqui, você então começa a tocar, o garotão tocando a pizzaria. Quando é que você olhou para aquilo e falou meu, eu acho que isso aqui vai dar certo, isso aqui pode ser o meu futuro, gostei. Vou fazer disso aqui a minha profissão, quando foi que caiu essa ficha?

Edrey                   Quando, putz, sei lá, quando eu fiz 20 anos, sei lá, quando eu vi que eu gostava sabe, tipo eu, quando eu, aí acho que eu tive que abrir mão de uma fase tão de trabalhar sábado, domingo e feriado, e um trabalho complicado, enfim, quando eu abri mão disso tudo eu falei assim: bom, já que isso está me custando caro, vai ter que me dar um retorno, então assim, eu falei agora eu vou acelerar até onde eu puder, montei várias unidades, enfim, aí eu falei bom,  isso aqui dá certo, quer dizer, aquela coisa tipo replica o modelo e toca o pau, tem que fazer esse negócio crescer, eu sou um cara extremamente agressivo comercialmente, tipo, eu até, todo mundo fala para mim, eu não sei se eu teria a tua coragem.

Luciano                Minha?

Edrey                   A minha.

Luciano                A tua.

Edrey                   A minha própria coragem, até a tua de ir para o Everest eu não sei se eu teria, mas enfim, mas eu acho que é…

Luciano                Só para empatar, eu não teria de abrir um restaurante.

Edrey                   … o Everest você vai e volta e está tudo bem, restaurante dura um pouco.

Luciano                Eu fui dono, através da minha esposa de uma franquia, uma franquia de um café.

Edrey                   Daí que vem o Café Brasil?

Luciano                Foi, exatamente daí. O Café Brasil vem exatamente daí, era um negócio, era uma franquia de um café que não tinha como dar errado, o meu sócio era um dos donos da franquia, que foi na minha casa, chegou para mim, propôs o negócio, falou isso aqui é imperdível, nós estamos lançando um novo conceito que em vez de ser um café lá embaixo é um café no topo do prédio, baratinho, você vai investir 60 mil reais aí, nós vamos montar o café, se não der certo a gente vende por 100, você ainda sai por cima da cocada preta, você vai ser meu sócio. Pô mas é claro, peguei minha mulher, sócia da filha dele, a minha mulher e a filha dele, montaram o negócio, botaram o café e aquilo foi um horror da minha vida, primeiro que era um negócio, não tinha plano no negócio, era horrível, não funcionava, o prédio não estava pronto, estava no último andar, começou a funcionar não tinha funcionário, era um micro negócio dentro de uma franquia, então tudo o que você tinha que comprar vinha a mais, tinha que comprar a torta e lá vendia um terço da torta, então era um negócio horrível, o cara um baita de um irresponsável, chegava fim de mês não tinha dinheiro para pagar a turma lá, tinha que cada um comparecer com o seu, então ele em vez de dar o dele, não me dá a conta da água aí que eu vou pagar e não pagava, horrível. Uma confusão sem tamanho e o dia que ficou claro para mim que essa coisa não ia funcionar, eu estava fazendo uma palestra em Campinas, minha mulher me telefona e fala ó, chega, já deu, não é, acabou, não dá mais e ai ficou claro para mim que não tinha mais jeito e eu estava tomando um chapéu ali de sessenta mil reais, até porque não vendeu coisa nenhuma, ninguém ia comprar aquele negócio, tive que, simplesmente, me livrar daquilo e perdi tudo. Eu estava tomando um banho e pensando cara, o que eu vou fazer com esse prejuízo, aí eu estava pensando, falei pô, e tenho lá um lugar bonitinho, está bem arrumadinho, pô e se eu transformar aquilo num ambiente para eu gravar umas entrevistas, eu podia montar um esqueminha lá, filmar essas entrevistas, fazer um negócio legal, como se fosse assim, duas pessoas tomando um café e conversando, pô o café, eu vou gravar, Café Brasil, pô, Café Brasil, então esse nome custou 60 mil reais, mais um monte de dor de cabeça, até hoje, até pouco tempo atrás, eu continuo com dor de cabeça, me custou um amigo, que foi a coisa que mais doeu, custou um amigo, era um amigo, nunca mais e mas nasceu daí, daí veio essa coisa, o resto deu tudo errado, só sobrou o nome Café Brasil, que veio de um trauma, você transforma o limão numa limonada, mas dali para a frente, comida, nós temos…

Edrey                   Estou fora.

Luciano                … estou fora, comida eu estou lá para comer, comer e reclamar.

Edrey                   É difícil, é um ramo bem difícil. E está cada vez mais difícil.

Luciano                O que você coloca, você olhando agora essa tua experiência, você já colocou um negócio importante aí, você entendeu que aquilo era teu propósito, entrou de corpo e alma, tua energia está lá dentro, a tua alma está lá dentro, você vive aquilo, a gente vê que você tem um prazer muito grande nisso, tanto tem que está procurando mais sarna para se coçar, porque está abrindo mais coisa e mais coisa e mais coisa, então você está integral ali dentro, eu acho que isso é uma parte importante para esse sucesso, mas só isso não basta, então que mais que você coloca ali como os atributos para fazer um empreendimento que tenha esse nível de exigência funcionar?

Edrey                   Acho que tem tanta coisa, é assim, eu acho que eu tenho um pouco de sorte, óbvio, mas é que acho que, ontem eu escutei uma definição de sorte que é quando a oportunidade, uma definição grega, quando a oportunidade encontra o momento…

Luciano                É preparo mais oportunidade.

Edrey                   … é, não sei…

Luciano                É uma coisa assim, na minha é essa…

Edrey                   … eu não lembro bem, mas enfim…

Luciano                … preparo mais oportunidade é igual a sorte.

Edrey                   … é, mas o que eu acho que eu me cerco de boas pessoas, eu tenho, eu não tenho como fazer tudo o que eu faço hoje sozinho, enfim, não tenho nenhuma expectativa nisso, e eu faço questão de que as coisas funcionem sem a minha necessidade de estar, mas eu funciono muito mais como um conselheiro hoje, com um cara que está lá para dar uma linha, para dar um conceito do que obviamente um operador, então assim…

Luciano                Mas o teu avião já esta em voo de cruzeiro, eu quero saber um cara que quer tirar do chão o avião e que não tem um caminhão de dinheiro atrás dele, que não tem um sócio que sabe tudo atrás dele e que tem aquela ideia que fala assim, vamos montar um negócio, vamos montar uma pizzaria, é fácil?

Edrey                   Não, não é, não é e eu não recomendo, honestamente eu não recomendo, eu acho que, enfim, posso falar pelo meu setor, eu estou montando dois negócios agora porque são projetos que já vinham há algum tempo e acabaram coincidindo com a crise, vamos dizer assim. Mas, eu não começaria algo, quer dizer, na verdade acho que eu começaria, eu tenho um problema que é assim, todo mundo fala que na crise que você tem que investir, enfim, tem um monte de máximas aí, que na verdade assim, eu não tenho medo de investir se eu acredito, mas é o que eu falo para todo mundo, tem que ter perseverança e paciência, porque as coisas não funcionam como a gente quer, por mais planejamento que eu faça, por mais estudo que eu faça, por mais… lógico que aquilo vá acontecer, às vezes não acontece, eu não consigo reger todos os fatores que impactam num negócio, então o que eu acredito muito é que é assim, eu tenho que acreditar no conceito, então por exemplo, quando eu montei a Tasca da Esquina com o Vitor, ele tem esse restaurante lá em Portugal, queria ter um restaurante aqui em São Paulo, eu fui entender o conceito, como é que é? Ah não sei, eu vou lá para Portugal para ver, é um conceito que eu acho que funciona, por que eu acho? Porque é diferente do que tem e é melhor em alguns quesitos, então para mim fazia sentido, ok, vamos fazer e aí você faz e aí, quando a gente abriu a Tasca, inclusive, tivemos muita dificuldade no começo porque assim, eu sou sócio de um português que nunca tinha morado no Brasil, apesar de ter vindo várias vezes para cá e eu conhecia muito pouco de Portugal e o conceito de trabalho português é totalmente diferente do nosso, até a linha de raciocínio de português é diferente do nosso, tem um monte de piada, mas tem algumas coisas que a lógica diferente em Portugal e enfim, começamos a ter alguns conflitos…

Luciano                E ele fala português…

Edrey                   … e ele fala português… as pessoas vem para mim, o que você faz no restaurante? Eu faço a tradução, tipo do português de Portugal, porque ele fala com os funcionários e às vezes eles não entendem, os termos são diferentes. É outra língua, por mais que seja português e aí é assim, a gente teve algumas confusões, por exemplo, o Vitor queria muito que fizesse igual lá em Lisboa, tem dois horários de reserva, às 8 e às 10, quem chegar as 8 sai até as 10, quem chegar as 10 vai embora à meia noite, enfim, é assim que funciona, isso tem que funcionar aí. Falei Vitor, São Paulo, se eu marcar as 8 o cara chega as 8:30, um de uma reserva de seis, aí vai começar chegar as pessoal vai chegar nove horas da noite a mesa está completa, começa o serviço, você quer que ele saia as dez, de que jeito? Não, mas tem que combinar com ele, falei não, não existe isso, então assim, a gente teve algumas dificuldades culturais ali para resolver, mas o que eu nunca abri mão? De entender que a comida que era feita, além de excelente categoria e eu daria o serviço, então o combinado era esse, então eu vou manter o meu e você mantém o teu e constantemente trabalhando isso, quer dizer, a Tasca passou por uns momentos de dificuldade onde a gente chegou a falar putz, será que isso vai dar certo? E aí é que eu acho que faz a grande diferença, porque as pessoas quando montam um plano de negócio, quando pensam em alguma coisa estimam que, ah daqui a seis meses vai estar tanto de funcionamento e tal, tal, tal coisa, o histórico que ele cria ou que ele prevê é aquilo que tem que acontecer, se não acontecer aquilo, quebrou. O que a gente faz ou o que a gente tenta fazer é assim, é montar esse entre aspas plano, com o dobro do tempo, o triplo do tempo ou o tempo que for necessário para que aquilo mature, porque se não, não vai dar certo.

Luciano                E não tem receita.

Edrey                   Não tem. Por exemplo, a Tasca sofreu um pouco. A gente abriu a Taberna, sofreu também, eu já achei que a Taberna não fosse sofrer tanto porque já tinha a Tasca, o Vitor já era um cara mais conhecido, era uma filial, uma filial, uma marca vai da Esquina também, a gente já achou que fosse abrir num outro nível e não abriu, então tem uma estrutura e tive que desmontar essa estrutura, de pessoal, de serviço, para adequar ao movimento que foi, eu não sei se foi a crise, se foi uma expectativa gerada a mais, teve gente até que falou assim, ah tem um plágio teu que chama Taberna da Esquina lá no Itaim que não é a Tasca, falei não é plágio, é meu também, ah puxa, não sabia! Então toda essa, como é que eu vou dizer, os fatores que não são controlados por nós influenciam no teu negócio e às vezes você precisa ter, como é que eu vou dizer, mais gasolina ou mais pista para esse avião decolar, e as pessoas às vezes apostam tudo que essa pista vai ser suficiente e o bicho não decola e aí meu…

Luciano                É, tem muita gente que vem conversar comigo sobre o podcast, o Café Brasil e tudo mais e eles assustam quando eu falo olha cara, quando eu montei esse negócio aqui eu não tinha a menor expectativa de ter qualquer retorno antes de cinco anos. Porra meu cinco? Eu falei cinco, e sabe quanto tempo levou? Sete. Mas eu tinha na cabeça que durante, no mínimo, cinco anos eu estaria pagando e investindo para tirar o negócio do chão, se tivesse dado antes, maravilha, mas na minha cabeça era cinco e levou sete e depois de sete ele entra então, o cara vem hoje e olha fala pô, mas espera um pouquinho, não é tão difícil fazer, vou fazer igual também, te prepara bicho, leva cinco ou seis anos.

Edrey                   Não, e o que acontece muito é isso, quer dizer, na minha área então, todo mundo quer ter restaurante, todas as pessoas que eu converso ah eu vou montar um restaurante, o sonho, eu fiz gastronomia na Anhembi Morumbi, da minha turma de 50 ou 40, quantos eram? 30 começaram, formaram vinte e poucos, alguns já saíram e todos tinham um sonho de ter um restaurante, sabe quantos estão na área hoje? Eu.

Luciano                Um.

Edrey                   Um, não dois. Tem um que está trabalhando, que é uma amiga minha, está trabalhando, é assim, com restauração mesmo só duas pessoas, aí você fala, o que aconteceu? O que aconteceu é que não dá, quando você fala bom, eu consigo fazer uma pista de 500 metros e preciso de quatro quilômetros para decolar, ninguém vai.

Luciano                E o interessante é que a gente só tem olhos para ver os que dão certo, essa turma quando olha só vê o que dá certo.

Edrey                   Não, o meu tipo de negócio, 88%, segundo o SEBRAE ou ABRASEL, sei lá, tem um monte de estatísticas aí, antes de completar um ano…

Luciano                Quebra.

Edrey                   … quebra, que vivem dez anos são 2%. Então assim, é um ramo dificílimo, agora então assim, a lucratividade vem diminuindo, o cliente acha que está pagando caro, saiu até um… estava correndo agora na internet um negócio legal que foi uma resposta de um gerente, uma mulher pede um, na Inglaterra acho, sei lá, pede uma água quente com uma rodela de limão e o cara vai lá e manda a conta de 2 pounds e o outro tinha comido uma torta, pagou 1,90 pound, não sei se você leu esse texto, é bem interessante…

Luciano                Não li não.

Edrey                   … e ela indignada vai na mídia social, porra, 2 pounds numa água com limão, que absurdo, pedi uma rodela de limão para por numa água quente que eu pedi, me cobraram 2 pounds. Que absurdo, onde já se viu? Uma rodela de limão 2 pounds. O cara responde, você não pagou 2 pounds numa rodela de limão, quando você chegou o garçom foi lá te atender, você fez o teu pedido, o garçom saiu de lá, foi até a cozinha, pegou a xícara, pegou o pires, botou a colher, botou a água, levou até sua mesa, você pediu limão, ele voltou, pegou o limão, cortou o limão, pegou a rodela, levou a rodela até você, depois ele tirou a xícara com a colher, mandou lavar… tem todo um descritivo da operação inteira aqui, então assim, você não está pagando só o limão e essa é a percepção que as pessoas tem, a gente teve na pizzaria até uma época que tinha alguns vinhos, alguns rótulos que estavam por acaso em supermercado enfim, às vezes o importador vendia para o Pão de Açúcar, vendia para a 1900, o cara ia indignado na pizzaria dizendo assim, ah, prateleira do supermercado está custando R$ 30,00 estão cobrando 90, o Maciel…

Luciano                Na cabeça dele a conta é a seguinte, você comprou por 30 e está ganhando 60.

Edrey                   … exato, aí o Maciel foi lá, então vai lá no meio  do corredor do Pão de Açúcar, senta lá, põe uma toalha na mesa, pega um saca rolha, pega uma taça que custa R$ 100,00, de cristal não sei o  que lá e põe o vinho e toma lá no meio, entendeu? Quer dizer assim, a mídia, por certa maneira, malhou demais a restauração, malhou demais assim, o que tem de serviço envolvido por trás e ainda mais que para mim um negócio extremamente chato, difícil, porque é coisa que você põe na boca, você vai engolir, você vai num restaurante para engolir, pensa o nível de confiança e intimidade que você tem com a coisa, quer dizer assim, porra como é que você vai… o processo interior a você ter coragem de por uma comida na boca, você tem que ter muita tranquilidade para isso, quer dizer, é uma coisa que pode te matar.

Luciano                Você pode comer num restaurante por quilo e gastar R$ 17,00 para almoçar, pode almoçar num restaurante português de altíssimo nível e pagar R$ 170,00 para almoçar, nos dois casos você vai matar a tua fome mas há uma relação de valor envolvida ali que se você não piscar…

Edrey                   Sim e o que é incrível é o que tem por trás, as pessoas não enxergam, eu adoraria vender mais barato que eu acho que eu venderia muito mais, mas você tem que ter um lucro, se não, não sobrevive.

Luciano                E você ainda tem aquele sócio lá, aquele da mão peluda…

Edrey                   Esse sócio então…

Luciano                … te comendo por um outro lado ali.

Edrey                   … se eu te contar o número assim é assustador.

Luciano                Bom, vejo pelo meu business, o meu pobre negocinho  micro, pequenininho, o meu sócio está aqui me comendo pelas pernas. Perguntar uma coisa aqui, tem dois olhinhos vendo a gente ali…

Edrey                   Olhinhos?

Luciano                … é, tem dois olhinhos ali que devem ter 22 anos, 23 anos, que estão olhando ali e esses olhinhos que, para quem não sabe, é a Giulia, que  é a filha do Edrey e tem uma pressa desgraçada, esses olhos tem uma pressa e eu sei porque tem mais dois que estão ali embaixo que tem uma pressa desgraçada…

Edrey                   Que chama Gabi.

Luciano                … eu quero tudo para amanhã, eu quero já, eu já quero emprego legal, com salário legal, eu quero já ser dono, eu quero o meu e quero agora e não demora muito e se me encher o saco eu largo tudo e vou procurar outro. Como é que eram os teus olhos com aquela idade? Essa pressa que essa molecada tem, eu estou te perguntando isso porque do lado da gente tem gente assim ouvindo, tem muita gente ouvindo que tem esse mesmo conceito dessa juventude atual aqui que tem uma pressa desgraçada.

Edrey                   Eu não entendo, até porque assim, eu tenho uma filha de 22, eu tenho um outro de 20, eu acabo tentando entender bem que passa nessa cabeça, e é engraçado porque assim, eu vejo que eles andam numa velocidade extrema, de querer chegar logo, porém não tem paciência nem interesse ou nem dedicação para asfaltar o caminho para chegar logo. O que eu quero dizer com isso? Eu sempre fui muito curioso e sempre fui atrás das coisas que eu quis aprender, enfim, fiz N cursos e sempre corri atrás do que eu achava, puta não estou entendendo isso, eu vou pesquisar, eu vou fuçar. O que eu acho que na cabeça deles acontece assim, está tudo muito fácil, a informação está aí em qualquer lugar, coisa que não tinha na nossa época, então eu acho que assim, a gente teve que asfaltar o caminho, eles olham, tem N caminhos asfaltados e é muito fácil para eles pegarem qualquer desses caminhos, então primeiro assim, eu acho que a adolescência está durando até mais tarde, com 20 anos eu já, 19 anos eu já morava sozinho, pagava minhas contas, enfim, cuidava da minha vida, eu não consigo imaginar os meus filhos morando sozinhos, eu acho que eles vão morrer dentro de casa, tipo acabou a água, não pagou o aluguel, o cara vai despejar, não sabe nem onde é o banco, sabe esse tipo de coisa? Até acho que a nossa sociedade também protegeu demais, enfim, eu acho que tem uma série de questões aí que se a gente for discutir vamos ficar o resto do dia, mas basicamente eu acho que assim: eles tem a informação à disposição, o que faz com que eles não desenvolvam o aprendizado, vamos dizer assim…

Luciano                A história da calculadora, se eu tenho calculador não preciso saber matemática.

Edrey                   … eu me viro… e eles são muito confiantes nesse quesito eu me viro. Só que quando vão enfrentar de fato o mercado, ou o mercado de trabalho, vão tentar entender como funciona o mundo de fato, dão com a cara na porta, porque assim, não há, como é que eu vou  dizer assim, você não consegue confiar em alguém que não sabe nada e acho que… para mim  eles não desenvolveram esse… eles estão achando que em qualquer momento eles podem aprender e não dá para aprender de uma hora para a outra.

Luciano                E que vão encontrar lá fora o papai e a mamãe…

Edrey                   Um mundo receptivo dizendo assim não filhinho, eu te espero, não tudo bem, você errou essa vez, tudo bem, pode fazer de novo, não, pode gastar mais 200 páginas da impressora que depois a gente arruma esse trabalho todo que está errado, eu corrigia, eu dei aula em algumas faculdades e corrigia trabalho de gastronomia e o cara trazia para mim a gastronomia do México, está bom, então vinha lá toda a história, está bom, estou lendo e tal, aí eu corrigindo o português, isso aqui está errado, isso aqui não tem concordância, escreveu essa palavra errado, não dá para dar uma nota para esse infeliz aqui, DP. Pô professor, o trabalho está lindo. Tá, mas você não sabe escrever. É, mas você é professor de gastronomia. E daí? Aonde está a conexão da coisa, você tem que falar português, escreverem português, você não sabe escrever, eu falei se eu fosse contratar qualquer um de vocês eu não contrataria e  eu acho que basicamente eles tem preguiça sabe, eu quando vou dar uma palestra ou qualquer coisa, tem lá um monte de aluno eu falo assim, SENAC gosta de me chamar bastante, tem um amigo lá que fala para mim, ah Edrey, vem aqui dar uma palestra para a galera, eu preciso de alguém de mercado para falar como é que é o mercado etc, eles estão entrando no mercado de trabalho, eu falo olha, quem quiser mandar um currículo fica à vontade, recebo dois, aí até chamo um ou outro, vem, ah não, tem que trabalhar muito, não, tenho que sair cedo, tenho eu chegar tarde em casa, eu falo meu, onde você vive?

Luciano                E alguém vai ter que fazer esse trabalho e alguém vai valorizar esse trabalho e essa molecada toda vai ser atropelada por quem estiver disposto a…

Edrey                   Eu assim, eu fico pensando se eu tivesse hoje 20 anos, eu seria um avião de trabalhar tipo, para mim não tem problema de trabalho, eu trabalho muito até hoje e eu vejo que eles tem preguiça, realmente assim, tipo para mimo grande problema hoje é que assim, a gente está criando uma sociedade preguiçosa, sabe quer dizer, pô eu vejo pelos meus pais, enfim, tudo que vem para trás da gente são histórias assim de gente que ralou mesmo, tipo ralou mesmo, minha mãe, pô, minha mãe trabalhava na CETESB, saía da CETESB ia para a pizzaria, trabalhava na pizzaria nos primeiros anos, sábado, domingo, feriado o dia inteiro, antes de trabalhar na CETESB, quer dizer, quando ela começou a trabalhar na CETESB resolveu fazer faculdade, tinha dois filhos, como a pessoa dorme? Meu pai também dava aula em nove escolas, tinha a  orquestra sinfônica, tinha mais não sei o que e ia para a pizzaria a noite. Os exemplos que eu tive foi assim, porra esses caras ralam muito se eu quiser ter alguma coisa eu tenho eu ralar e eu não vejo mais e não são os meus filhos, eu estou dizendo assim em termos gerais…

Luciano                É uma geração.

Edrey                   … é uma geração que eu acho que acha que vai acontecer naturalmente e acho que nada vai acontecer naturalmente, eu vejo poucos jovens determinados, sabe, com sangue nos olhos mesmo, tipo puta eu vou, vou,  vou,vou sabe, determinados e não vejo mais isso, é engraçado, eu sinto falta, sinto falta porque eu gostaria muito de ter alguns comigo sabe?

Luciano                Sei.

Edrey                   O que eu tenho de molecada lá, meu Deus do céu, muito pouco, sabe? E o cara que trabalhar não, você não quer fazer um extra no final de semana? Não, porque, eu vou para a praia. Não sei o que vai ser sabe? Tem hora que me dá um pouco de desespero.

Luciano                É, chega a hora que a gente para para pensar e fala, será que o errado sou eu? Será que eu que estou errado de ficar aqui dezesseis horas  por dia, de pegar o final de semana eu estou sentado lendo um livro, eu não estou, meu pessoal desce a lenha em mim, porque pô, é final de semana é para curtir, passear com a família, você fica lá no Café Brasil sentado escrevendo, trabalhando e eu respondo, mas quem disse  que eu estou trabalhando? Eu estou sentado eu estou escrevendo, eu não estou trabalhando, eu estou escrevendo e aquilo é o meu lazer, aquilo é o meu tesão, quando eu sento para ler um livro eu não estou estudando, eu estou curtindo aquilo que eu estou fazendo, então…

Edrey                   É então, mas eu acho que o grande segredo é esse, quando você consegue juntar a caixa de ferramenta com a caixa de brinquedo, o que eu acho que essa molecada ainda não…

Luciano                Acha que vai ganhar a caixa, vai ganhar as duas e não vai ganhar, tem que construir.

Edrey                   … então é então e eu não sei se eles estão procurando essas caixas, quer dizer assim, eu acho que eu encontrei a caixa de ferramenta e a caixa de brinquedo, eu gosto do que eu faço e para mim, quanto mais você gosta do que você faz, menos você trabalha, eu não tenho…

Luciano                Você sabe que tem uma coisa interessante, eu falo num outro programa que eu gravei aqui, que tem gente que vem visitar aqui, olha a estrutura, você está num estúdio profissional, tudo arrumadinho, bonitinho tudo aqui, então a turma olha isso aqui e tem uma ideia do que é o tal do Café Brasil e eu falo olha, tem o que você vê e o que você não vê. Então o lado que dá para ver, você entrou aqui tem um estúdio legal, profissional, tudo lindo, bonitinho, maravilhoso, tudo o que você consegue ver o dinheiro resolve, o dinheiro compra, tendo dinheiro você compra o microfone igual, compra isso aqui tudo, monta um negócio igualzinho mas eu duvido que você vá fazer um programa igual ao meu, porque a diferença está no que você não vê e o que não vê está aqui dentro da minha cabeça, agora o que foi, o dinheiro comprou? Não comprou, eu fui atrás, eu fui estudar, fui aprender, pô me ralei de montão, tem aí sei lá, 40 anos de experiência e a gente vai juntando essas coisas e usa essa tecnologia que o dinheiro compra para facilitar a maneira de produzir isso aí, mas o que interessa é o conteúdo que está, que a gente juntou ali que é um trabalho intelectual que toma tempo e que dói para cacete, tem que acordar cedo, tem que ir atrás, tem que perder horário de sono, tem que fazer escolhas e trocas, eu troquei um  momento que eu podia estar com a molecada tomando a cerveja por estar aqui na reunião discutindo, assistindo um cara falar etc e tal…

Edrey                   Mas o que é bom é que ninguém te tira.

Luciano                … é, depois que você constrói, o problema todo é você olhar isso e ter essa consciência com 19 anos, você olhar para isso e falar assim, com 19 anos, com a consciência de que eu tenho que construir esse lado que o dinheiro nunca vai comprar e para construir não tem como pegar, não tem como comprar isso.

Edrey                   Não tem, exato, não tem, não tem almoço de graça como a gente fala, não dá. Eu falo muito para a Giulia que está ali com aqueles olhinhos, que eu acho que são uns olhões, é um pouco grande, e genético mas tudo bem, enfim, eu falo muito para ela até, agora acabou de se formar, ela está um pouco tipo confusa com o que fazer da vida e etc, eu falo faz currículo, o que é fazer currículo? Sei lá, vai estudar, vai formar, vai aprender língua, fazer não sei o que, porque eu acho que essa formação vai deixar ela ilimitada no crescimento, uma discussão que eu estava tendo com ela eu falei  olha, não adianta você querer entrar numa empresa agora, começar a trabalhar, ela é super nova, com vinte e poucos anos é cedo, eu acho até, ah vai lá, passa num processo de trainee, entra numa empresa, começa a trabalhar não tem mais tempo para nada e vai chegar um momento a carreira vai barrar, olha você só pode ser gerente, não dá para ser diretora porque não tem…

Luciano                Tal e tal e tal…

Edrey                   … tal, tal, tal, tal ou não  vai chegar nunca muito mais para a frente, então eu falei para ela, aproveita que você se formou cedo, arregaça as mangas e vai estudar, põe a mochila nas costas e vai para a Europa passear ou vai fazer qualquer coisa, tudo isso vai formar seu caráter, o seu entendimento do que é o mundo, as tuas relações de ética, tudo e tudo isso você vai usar, mas você tem que abrir a cabeça para absorver tudo isso.

Luciano                E se expor às oportunidades que aparecerem…

Edrey                   E tem que botar a cara para bater.

Luciano                … olha, tem que para poder viver aquilo você vai ter que acordar domingo de manhã sim, está bom, eu vou acordar domingo de manhã e talvez eu não deva ir na balada sexta feira, talvez eu não e compreender isso é difícil, essa molecada. Nós estamos parecendo dois “véio” falando.

Edrey                   Exatamente, eu estava aqui pensando, eu falei nossa…

Luciano                Puta papo de “véio”, que papo furado é esse de “véio”.

Edrey                   Mas é bom.

Luciano                É mas eu não sei, é uma coisa que a gente enxerga de longe. Deixa eu te perguntar, estamos indo para a nossa reta final aqui, me fala uma coisa: você é um empresário brasileiro, você tem o teu negócio no Brasil, você viveu os últimos 30 anos como empresário brasileiro, então você assistiu lá atrás, desde o Sarney, não é isso? Sarney, Collor, viu tudo isso acontecer até agora como empresário brasileiro, como é que você está vendo esse momento aqui que nós estamos vivendo neste país…

Edrey                   “Nunca antes na história desse país”…

Luciano                … no papel de um empresário brasileiro, de novo, você não está apoiado em nenhuma autarquia, você não tem dinheiro do governo, se você não cuidar do teu negócio vai quebrar a cara, o risco é 100% seu, se você não atender teu cliente bem e não levar valor para ele, esse cliente não vai, você vai quebrar e ninguém vai te socorrer, você não tem como correr lá e pedir me dá uma grana, me protege, não tem proteção, você pelo contrário, você é o empresário riquinho que anda de moto, que explora teus clientes, explora teus…

Edrey                   Funcionários.

Luciano                … funcionários, só quer saber de ficar rico e dane-se o resto seu coxinha. Fala.

Edrey                   É difícil dizer. Mas enfim, eu assim, eu passei por tanta coisa já, como você falou, Sarney tudo, quando o Collor travou todas as poupanças, meu pai estava viajando naquele dia, no dia anterior para fora e eu era novo ainda, quanto faz isso…

Luciano                Foi 90, 91, 92. 91, 92.

Edrey                   … eu tenho o que, 92, vinte e poucos anos, meu pai falou e agora? Falei deixa que eu me viro e aquilo foi engraçado que eu tinha tanto dinheiro porque assim, como ele bloqueou toda a poupança, 50 mil, sei lá que tinha, eu tenho no movimento da pizzaria de um final de semana, eu acho que era o cara mais rico do Brasil em termos líquidos, eu tinha muito dinheiro, muito papel com muito cliente que foi no restaurante comer.

Luciano                E você não teve tempo de depositar a féria do fim de semana.

Edrey                   É, não e eu, é exatamente, eu podia comprar qualquer coisa porque eu lembro que o Cadete GS, conversível estava na época custando, sei lá, custava 100 mim reais em dinheiro de hoje, estava na época por 10 mil porque a galera tinha que vender, por N questões, eu até liguei para o meu pai, acho que eu vou comprar uns 3, 4 carros, ele falou fica quieto ai, não se mete, não inventa enfim. Mas aquela coisa, tudo foi tão confuso, eu acho que assim, hoje financeiramente era uma loucura, a gente montava o cardápio da pizzaria no dia primeiro, no dia 20 já tinha que mudar porque senão no final do mês não fechava a conta, com oitenta e pouco de inflação do Sarney, eu lembro bem dessas coisas., Eu acho que hoje, comparando com o que foi, acho que as coisas estão um pouco mais sólidas, em termos de instituições, eu acho que as coisas, a justiça trabalhista funciona um pouco melhor hoje, o patrão já não é visto mais como um senhor de engenho que tem escravos sabe, quer dizer assim, acho que algumas coisas estão melhores economicamente apesar de tudo, as coisas tem um sentido, as coisas tem preço, que fazem alguma lógica e tudo. Porém eu, enquanto empresário, eu acho que quanto menos o estado querer cuidar das coisas, principalmente da vida dos empresários ou dos negócios dos empresários, mais fácil fica, não é que eu não quero pagar imposto, não é que eu não quero, ou quero sonegar ou quero fazer alguma coisa errada dentro do meu negócio ou vou abusar dos meus funcionários, eu acho que o problema todo é que tem muita opinião sobre N coisas em cima do meu negócio, por exemplo, um caso recente, eu queria contratar um jovem aprendiz, tem lá um programa etc etc, eu não posso contratar porque segundo uma informação que eu recebi, onde ele vai trabalhar vende bebida alcoólica, eu falei poxa…

Luciano                No restaurante.

Edrey                   … pois é, eu falei não é possível, isso não faz sentido, assim como eu tenho que ter cadeira para gordo no meu restaurante, mas que caceta, como é que eu vou oferecer uma cadeira para um gordo, ele chega lá falo assim olha, para, você não pode sentar nessa cadeira, eu vou pegar uma cadeira para o senhor, ele vai falar você está me chamando de gordo? Não, imagina, a lei obriga que eu tenha uma cadeira de gordo e por aí vai.

Luciano                Você devia tirar vantagem disso, a companhia aérea está cobrando, cobra mais caro, você entra no avião, quero sentar numa cadeira melhor, tem que pagar.

Edrey                   Não, se você pegar os absurdos, tem uma lei do Agnaldo Timóteo acho, não me lembro bem, enfim, que tinha que ter monitores espalhados pelo salão com câmeras da cozinha, com câmeras na cozinha mostrando o que está acontecendo na cozinha para que o cliente visse, tem que ter bebedouro, tem que ter copo plástico se o cara não confia na limpeza do teu copo, você fala meu Deus do céu me deixa trabalhar pelo amor de Deus, é só isso, sabe,  me deixa trabalhar, se o cliente optou é dele a opção, não é do governo, não é do estado, se eu tenho cadeira para gordo ou não, problema meu, se eu tenho acesso para deficiente ou não, problema meu, se eu tenho banheiro para deficiente, problema meu sabe. É um risco que eu corro com o meu negócio, o cara quer fumar dentro do meu negócio, problema dele ou meu, se eu perco ou não ciente, eu não tenho gerência e isso enche o saco, em bom português, isso é que cansa, isso que cada hora aparece uma novidade. Ah não, agora funcionário tem que ter três folgas não sei do que, tem que ter intervalo de oito, meu, deixa o cara trabalhar, ele não pode ter dois registros na carteira, eu tenho dois restaurantes, pô, quero que ele trabalhe de manhã num e a tarde no outro, é opção dele, não posso, por que? Não estou com chicote nem com revolver, eu não posso, isso enche o saco, ser empresário aqui enche o saco por conta disso, ah não, você tem que ter, não pode por mesa na calçada, ok, tudo bem, tem um limite, está bom, agora não, tem que ter uma TPU com não sei o que, aí você vai na prefeitura, você gasta dinheiro, aquela velha história, para conseguir uma coisa que teoricamente não está atrapalhando ninguém, sabe, em bom português é um saco, isso enche o saco e isso que eu não tenho muita paciência e aí você fala, bom então vou contra tudo e contra todos, não dá, entendeu? Porque o estado é muito mais forte, então assim, ser empresário num país onde o que eu acho é que não há muita lógica ou o que eu acho é que querem legislar sobre tudo, ou essas legislações são criadas exatamente para… enfim, vai pela constituição, para que uma constituição desse jeito, para não deixar ninguém fazer nada, chato.

Luciano                É assim, toda confusa…

Edrey                   É chato, uma coisa, você não pode chamar o cara de anão, ele é menos favorecido verticalmente, o negão, o pô negão, negão é assédio moral, pô, tem um monte de negão lá na cozinha, ô Negão, é Negão mesmo e ele gosta que chama de Negão e ele sabe que não estou ofendendo…

Luciano                Eu botei um post essa semana com um texto de um amigo meu que começa o seguinte, contanto uma história do Millor Fernandes que se passou em 1970, a época mais negra da ditadura. Ah cara, o primeiro comentário que vem…

Edrey                   Ah, negro não…

Luciano                … não pode usar negro para dizer que alguma coisa é pior porque isso denota um preconceito eu falei, mas espera um pouquinho, eu lendo português, época negra, esse negro quer dizer o seguinte, obscuro, o lugar que eu não tenho visão, eu não consigo enxergar porque está escuro, está tudo preto, é escuro, está muito escuro, eu não consigo ver nada, não tem transparência nenhuma, isso para mim quer dizer a época negra da ditadura, não tem nada a ver com cor de pele até porque o negro da escuridão existe antes do ser humano, caramba, o  que veio primeiro? E eu terminei dizendo para o cara, qualquer resquício de racismo ou de preconceito está na cabeça de quem lê, não está na palavra em sim, é na cabeça de quem lê, quando você lê e acha que aquilo é racismo, é na tua cabeça que ele existe lá. Bom, saímos fora, fugimos aqui. Para terminar, puta crise, ô crise, 2014 foi complicado, 2015 um ano de crise, 2016 as notícias não são nada boas e eu não estou me sentindo muito bem, aquela história, e ainda não estou me sentindo muito bem…

Edrey                   É, estou meio mal.

Luciano                … como é que você está vendo isso no teu segmento e que você está com projetos nascendo agora, coisa nova vindo ai e aí?

Edrey                   Eu acho assim duas coisas primeiro, eu acho que vai passar é óbvio, como tudo passa. Eenfim, talvez tenha que descer um pouquinho mais, mas enfim, eu sou um cara que faz muita conta assim, não que seja matemático ou goste, mas assim, eu faço contas, eu acho que é óbvio, apertou um pouco o… você tem que apertar também, então assim, você corta um pouquinho daqui, corta um pouquinho de lá e vai tentando se manter ok, pode ser que fique mais um ano com uma margem muito menor do que eu acho que é viável para o meu negócio ou alongue de 5 para 7 anos o retorno enfim, mas eu acho que é uma coisa que vai passar, então assim, ter essa paciência faz parte, não adianta entrar em pânico, não adianta começar a querer que a  coisa funcione de uma outra maneira, mudar o modelo de negócio ou inventar uma outra coisa, quer dizer, tem que ajustar as velas para o vento. Eu acho que essa é a grande questão e quanto mais você conhece o teu negócio, quanto mais você vive o teu negócio, mais rápido você consegue ajustar. Eu acho que tem muita gente passiva nesse sentido, que fica esperando quieto, eu não fico esperando  quieto, tanto que os negócios nossos que a gente está trabalhando agora já estão cada vez mais, antes de abrir, cada vez mais ajustados para o que tem pela frente, então assim, eu vou abrir muito menor do que eu gostaria, muito menor do que eu poderia, por conta,  exatamente, do que a gente imagina que vem por aí, mas eu acho que também uma coisa que é aquele senso comum, quer dizer assim, eu acho que o pior já passou. Então assim, as pessoas se conscientizaram e eu acho que  o coletivo começa a falar assim, putz se é assim, então eu vou decidir melhor onde eu vou gastar meu dinheiro e é aí que eu acho que eu consigo continuar acreditando que eu tenho que investir porque eu acho que eu faço um bom trabalho e eu acho que o meu nível de assertividade é bom e eu tenho, como vou dizer assim, é ganhado a maioria das disputas, vamos supor, tipo eu acho que dentre as pizzarias de São Paulo, a minha pizzaria é uma boa opção e não uma opção porque é a mais cara, porque é a mais famosa, porque é a mais velha, porque não sei o que, é porque a relação custo benefício é ideal para aquele tipo de, quer dizer, é a melhor equação a relação custo benefício, acho que nos meus restaurantes também, acho que tudo o que eu estou fazendo é dentro da melhor relação custo benefício possível e eu acho que com isso eu consigo convencer o consumidor a vir no meu negócio e tenho de fato os números se mantido num nível razoável, então eu acho que dá para esperar essa fase passar, é óbvio que eu falo muito que eu gosto muito de que as pessoas aprendam a entender a relação custo benefício, não existe caro ou barato, caro é o que não vale a pena pagar, e acho que as pessoas tem que entender isso, tem muita gente que acha que as coisas são caras, mas não são caras, porque o que tem de o benefício que trás junto é indescritível, então assim, eu tento fazer com que os meus negócios tenham uma excelente relação custo benefício. Então você vai na 1900 você vai comer uma pizza muito boa, muito bem feita, com um serviço espetacular, de uma embalagem, um prato, uns ingredientes de boa qualidade etc e etc, mesma coisa nos  portugueses, mesma coisa no japonês, a padaria tende a ser assim, então assim,  é tudo muito bem pensado, não é porque eu posso cobrar mais caro que eu vou cobrar mais caro, porque se não… Eu tenho que ter uma equação bem feitinha, tenho que ter uma percepção muito boa, então eu acho que são esses dois caminhos assim, tem que ter um pouco de paciência, ajustar rápido que eu acho que a grande maioria demora muito para ajustar, eu vejo pelos meus concorrentes, tem muita gente devagar para entender o que está acontecendo porque a restauração teve durante muitos anos uma margem de lucro muito folgada, quando meu pai começou, 40% de margem que era uma coisa… tanto faz, tipo…

Luciano                Esconde tudo, toda ineficiência desaparece.

Edrey                   … assim, é lindo, hoje a gente trabalha numa margem de 12, 14, entendeu? Quer dizer assim, o negócio quando está muito ruim vai para 8, quer dizer assim e é o mínimo dos mínimos se eu falar, vamos supor que o negócio fature 500 mil reais, estamos falando de 40 mil reais, para dividir em 4 sócios, puta você fala, o trabalho que tem, você está ganhando quase o ganha um cozinheiro.

Luciano                E se você piscar vai embora mais.

Edrey                   É, quebra uma máquina, custa dois mil reais para arrumar, três acabou, fora o investimento que tem que ter, enfim, não vou entrar no mérito. Mas é isso.

Luciano                Muito bem, muito bem, bom, quem nos ouviu aqui ficou com apetite aberto, se quiser encontrar teus restaurantes, vamos lá, vamos recapitular, onde é que nós vamos?

Edrey                   Vamos lá. Então, se quiser entrar no meu Facebook tem lá os restaurantes, mas enfim, tem vamos lá.

Luciano                Começa com o teu Facebook.

Edrey                   Meu Facebook é Edrey Momo, é só entrar lá, tem bastante…

Luciano                Mas o Edrey tem o Y?

Edrey                   … é E d r e y  M o m o, tem o Instagran também, tem foto de comida para quem gosta e enfim, tem lá o 1900, tem um site, tem lá os sete endereços, a gente tem uma 1900 também no Kidzania que é um parque de diversões no Shopping Eldorado, além da 1900 tem a Tasca da Esquina, que fica na Alameda Itu, tem a Taberna da Esquina que fica na Bandeira Paulista com a Leopoldo, vem ai a Padaria da Esquina, que fica, ela vai ficar na Alameda Campinas, deve abrir em maio, abril maio e está vindo um japonês que chama Taka Daru, que é um Izakayá, que para quem não sabe é um bar japonês.

Luciano                Vai ter karaokê lá?

Edrey                   Não. Chega de música. Mas é tipo um boteco japonês, não tem sushi nem sashimi, enfim, a gente está numa linha de comida bem diferente, que fica em Pinheiros, na Rua Costa Carvalho, deve abrir em final de março, mais ou menos, estamos aí acreditando que esse país vai dar certo.

Luciano                Prometo a você que eu vou lá conhecer…

Edrey                   Está convidadíssimo

Luciano                … vou conhecer porque eu de comida, o lado que eu curto da comida é exatamente esse, é comer muito bem.

Edrey                   É o melhor lado na realidade.

Luciano                Edrey, obrigado por comparecer, um abraço.

                                                                                  Transcrição: Mari Camargo