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Luciano Pires -

Luciano          Hoje eu estou feliz, estou aqui para fazer um LíderCast, eu estou faz tempo toureando ela, a gente tentou não marcar, mas é uma agenda maluca, eu não sei qual é mais maluca, se é a agenda dela ou se é a minha, o fato é que eu tenho há tempo tentado conversar com essa pessoa que está aqui comigo e a gente não conseguia, agora eu aproveitei uma vinda dela a São Paulo, consegui capturar, aqui estamos dentro do fantástico estúdio do Café Brasil e eu vou fazer aquelas três perguntas mais difíceis da entrevista, depois fica tudo fácil, está bom? Como é seu nome, qual é a sua idade e o que é que você faz?

Andrea           Eu sou Andrea Sebben, tenho 46 anos e sou psicóloga intercultural.

Luciano          Psicóloga intercultural, isso é novidade é?

Andrea           Isso é novidade, Luciano, novidade, nossa ciência tem não mais do que 30 anos.

Luciano          E o que é um psicólogo intercultural?

Andrea           Bem, a gente faz várias coisas, eu, pessoalmente, eu cuido da adaptação de brasileiros que vão para o exterior e estrangeiros que vem para o Brasil em três áreas, pessoal do intercâmbio, quem vai fazer ensino médio no exterior, universidade no exterior. Os cursos, minha segunda área são os executivos expatriados que é então os brasileiros que vão, os estrangeiros que vão, Bosch, Siemens, Mitsubischi, Honda, Itaú e a terceira área, que é a mais novinha, são os jogadores de futebol que vão para o exterior.

Luciano          Eu acho que você não vai sair mais daqui hoje. Nós vamos ter assunto que não acaba mais. Que coisa interessante, quer dizer que você, mas você começou como? Tratando de brasileiros que vão para lá ou dos gringos que vem para cá, como é que começou?

Andrea           Ah, eu comecei há 20 anos, aqui em São Paulo com o pessoal do intercâmbio, então eram os brasileirinhos que iam, os pequenininhos e passados os anos, os pais desses adolescentes diziam, vem cá, a gente está precisando de você lá na Nestlé, ah, a gente precisa de você lá na Caterpillar, ah lá na Brastemp e eu, é? Por que, o que tem lá? Expatriados, eu, meu o que é isso, expatriados?

Luciano          20 anos atrás era quando começou aquela loucura do Brasil mandar gente para lá, trazer gente para cá, começou aquela… Faz 20 anos isso, né?

Andrea           É, mas naquela época os meus primeiros 10 anos foram com adolescentes, só com adolescentes e os pais faziam esses alertas, mas nunca me ligavam, enfim, uma carreira, cada carreira tem sua etapa, mas lá para 2007 eu, expatriados, o que é isso? A resposta que eu recebi foi muito engraçada, o cara falou, é gente, é que nem high school, só que eles são velhos e tem barba na cara, porque incomoda igual, sofrem igual. Eu falei, está bem, vamos lá, vamos tentar e é o meu chão, eu amo esses caras.

Luciano          Quer dizer, você deixou de trabalhar com uma molecada que ia para lá estudar…

Andrea           Não, não, eu continuo…

Luciano          … eu digo, você abriu teu horizonte, quer dizer, não era só a molecada que ia para lá para estudar, de repente você pegou o sujeito que vem, que traz a família, ou que vai e que leva a família para viver numa cultura indefinidamente, não é um moleque que vai lá estudar seis meses e volta, um ano e volta, é um cara que vai…

Andrea           Ele vai, ele pode ter short insane man, que é o cara que vai para três meses, pode ser um long insane man, que pode ficar dois anos, três anos, a gente tem os international management do HSBC que são dez anos insane man e tem os chamados localizados, que vão para ficar para sempre, mas é isso. O meu dia a dia hoje, ele é bem legal assim, eu tenho, por exemplo, ontem, onde é que eu estava ontem? Eu estava no salão do estudante e na expo que teve, são as duas maiores feiras de intercâmbio, então ontem eu estava com adolescentes, palestrando. Tem outro dia que eu estou na casa do Hayakawa San, o presidente da Nissan, fazendo o treinamento dele, da mulher, do Mister Lee, presidente da Dusan, ou do Christian e tem outro dia que eu estava treinando um jogador que ia para o Tottenhan e o pai dele, a gente começou os trabalhos e o pai dele, ah doutora, mas tem um problema, eu não sei ler e eu falei, não tem problema nenhum, desliga essas “poioca” aí e vamos no gogó, então o meu público é muito intercultural.

Luciano          Que fantástico, vou explorar você bastante aqui. Quem foi o primeiro cliente teu? Aliás não, espera um pouquinho, vamos voltar atrás um pouquinho, me fala da Andrea, você veio de onde, você é gaúcha, você se formou em que, você…

Andrea           Dá para ver que eu sou gaúcha?

Luciano          … mais ou menos tchê, mais ou menos tchê, é que eu trabalhei um pouquinho de tempo em uma empresa gaúcha e eu capturo, eu capturo os “bah”, eu capturo no ar. Fala para mim, de onde você veio, o que você estudou, o que você fez?

Andrea           Então, sim eu sou gaúcha, quando eu tinha 18 anos eu fui para a Espanha fazer um programa chamado Oper, fui ser babá 6 meses e foram, por supuesto, los piores 6 meses de mi vida, sofri como una cabra, como se dice no?…

Luciano          Não falava nada de espanhol…

Andrea           … sofri bastante esses 6 meses e aí eu comecei a me perguntar por que a psicologia não estudava isso? Por que que umas pessoas se davam tri bem e outras sofriam como eu, por que nós éramos de um jeito los espanholes com la politura de cabreo, os americanos com aquele all the time, aí eu falei, quero estudar isso e aquelas coisas de destino, que eu acho que a gente tem encontros marcados com o destino, a gente só fica sabendo quando chega, pois não é que o cara que inventou a psicologia intercultural estava em Madri naquele ano trabalhando para a Acnor, alto comissionado das Nações Unidas para os refugiados e aí eu tranquei a PUC em Porto Alegre, passei para Complutense de Madri e virei estagiária do cara e o que era para ser seis meses lá fora, virou cinco anos.

Luciano          Você descobriu que o cara estava lá, como assim?

Andrea           No jornal…

Luciano          Aqui no Brasil ou lá?

Andrea           … não, lá em Madri.

Luciano          Você estava em Madri, você leu o jornal, descobriu que o sujeito que era o papa do negócio estava lá, você foi procurá-lo?

Andrea           É, que nem eu fiz contigo, eu li ali, “Brasileiros Pocotó” meu, o cara é brilhante, ah não, não vou deixar escapar…

Luciano          Vou lá…

Andrea           … vou lá.

Luciano          Me fala disso.

Andrea           Não, foi…

Luciano          Lá na… eu quero saber o seguinte, o que move, como é que é que você vai, na cara dura? Chega lá e bate na porta? Fulano sou a Andrea e vim aqui para te ver?

Andrea           É. Como foi com a gente, por exemplo,

Luciano          De onde vem isso?

Andrea           Bom aí…

Luciano          Por que isso?

Andrea           … por que isso? Porque me intrigava muitíssimo aquilo que passava comigo, as dores que passavam comigo. Bom esse cara está trabalhando com refugiado, na adaptação de refugiado, eu me sentia uma refugiada e ao final eu fui voluntária dois anos em Madri, no Centro de Recorrido a Refugiados aonde realmente aquilo entrou na minha alma, aquilo entrou na minha alma, Luciano, de uma forma e depois com ele, aí depois eu fui para Roma, fiquei 2 anos trabalhando no Projeto Erasmus…

Luciano          Volta lá, o quero explorar você chegando nesse cara, você bate na porta, fala por favor, eu queria marcar um appointment com o seu fulano de tal e ele te recebeu?

Andrea           Hã, hã

Luciano          Aí você falou eu sou uma brasileira e quero estudar o que o senhor eu queria me aproximar do senhor?

Andrea           É. É isso aí. Aí ele, tá legal qual é o teu objetivo? Eu disse, eu quero entender a imigração, profundamente, minha vida é isso e ele falou, ok, quer fazer voluntariado comigo no Centro de Recorridos? Quero. E aí eu comecei e aí a literatura que estava, naquela época, Luciano, coisa linda, estou falando de 1979, se chamava psicologia das nações, eu estive com ele, depois em 1994 no XXIII Congresso Mundial de Psicologia Aplicada, era eu, ele, David Sam, a (inaudível), que já tinha uma certa idade, enfim, a turma lá que começou, não tinha nem nome o troço…

Luciano          Como é o nome dele?

Andrea           Ele é o John Barry. E aí vamos lá, vamos começar, então eu nunca fiz uma formação em psicologia intercultural, eu nunca tive isso, eu dou formação em psicologia intercultural, mas vamos dizer que eu bebi da fonte, então por exemplo, o mestrado, quem me deu literatura foram os meus colegas, porque ai logo eu entrei para a International Association for Cross-cultural Psychology, logo, em 1998 e foi o de lá para cá…

Luciano          Você encontrou então um caminho, é aí que eu vou trabalhar para o resto da vida, foi uma coisa consciente, não passou pela tua cabeça que você ia arrumar um emprego numa grande empresa, que você ia ter uma carteira assinada, como é que foi isso ai? Ou você falou, não, vou montar meu próprio negócio, vou virar uma empreendedora, como é que foi?

Andrea           Não, nada disso, eu tinha 18 anos, era uma moleca apaixonada, eu tive essa experiência lá em Madri, muito forte, eu já volto para lá, mas vamos passar um pouco a fita de 1989 a 1997, mais ou menos, quando eu voltei para o Brasil, eu voltei para o Brasil, o que eu vou fazer da minha vida? Aí falava, ia nas universidades, psicologia intercultural, ninguém sabia o que era, eu tive umas amigas em São Paulo, que haviam morado comigo em Madri e Roma, em Louvain e aí elas diziam, Déia, vem matar saudade do primeiro mundo, guria, vem para São Paulo, está fazendo o que aí com essa sub-raça? E eu triste, com medo, engraçado eu tinha virado o mundo todo e eu bah, mas São Paulo, gurias? Aí vim, aquela velha história de os filhos de Francisco descem no Tietê de ônibus, morrendo de medo, então um dia, num Franz Café da vida ai elas, vem cá, porque tu não vira consultora? Eu falei Jesus, que é isso gente? Consultora? Isso é uma empresa? Não, Andrea, tu vai trabalhar para várias empresas. Ah é? E por que vão querer me contratar? Bom, porque você tem conhecimento, então elas fizeram uma listinha para mim, as queridas madrinhas aqui e eu fui visitar…

Luciano          Que idade você tinha?

Andrea           Bem, aí eu já tinha 26, já estava velha.

Luciano          Está bom, mas vamos lá, velha, 26 velha, tá bom. Mas você até vir para cá, você morava em Porto Alegre com seus pais?

Andrea           Morava em Porto Alegre, aí logo me casei, aí o primeiro, segundo ano o marido que bancava, porque as pessoas diziam assim, primeiro lugar, deixe de ser louca, esse troço não existe. Aí eu dizia, não é porque vocês não conhecem que não existe e eu chorava, eu dizia, mas isso é a coisa mais linda do mundo e segundo lugar, mas São Paulo, São Paulo?

Luciano          Você estava casada quando veio para cá?

Andrea           Estava casada.

Luciano          Então, eu queria explorar isso um pouquinho. Então uma garota de 26 anos, com uma experiência legal lá fora, trabalhando numa área que as pessoas não sabem que existe e que você…

Andrea           Até hoje não sabem mesmo.

Luciano          … que você primeiro vai ter que convencer a pessoa que isso existe e que ela precisa disso e você recebe esse desafio de vim para São Paulo, para cá, com 26 anos, quer dizer, se você vier para cá tem que mover o marido junto, ou tem que largar o marido, sei lá…

Andrea           Não, eu nunca vim, nunca morei em São Paulo.

Luciano          Tá, então legal, mas e aí, com é que vem essa decisão de falar, legal eu vou abraçar essa carreira e vou, porque me parece que você tem um espírito meio eu vou, vou lá, vou ver o que dá, se eu bater na porta e der um não eu volto e lido com esse não e…

Andrea           Então eu te conto uma coisa bem bonita, eu comecei com intercâmbio, certo?  Eu vinha para cá, descia de um ônibus lá no Tietê, ia para a casa das minhas amigas, em Ribeirão Pires e fazia e subia aqueles jardins lá perto, para lá e para cá atrás das agências de intercâmbio e não queriam me receber e não me recebiam, e não me recebiam. Um dia me deu um nervoso, eu ligava lá de Porto Alegre, ah fulano está em reunião, um dia eu falei “vou vim”, vim na cara dura, não me recebiam, aí eu passei na frente de um pet shop e vi um peixe, peixinho no aquário, olhei aquele peixe e falei, meu, olha isso, estou me sentindo um peixe fora d’água, esses caras não me dão… ah, tive uma ideia, comprei um peixinho, comprei um peixinho, botei num saquinho e fiz um cartãozinho assim: “você já se sentiu um peixe fora d’água? Eu já, eu estou aqui, Andrea Sebben”. As pessoas já me conheciam por causa do telefone porque eu não largava do pé delas, então a minha primeira agência X, eu cheguei lá, me sentei, mandei entregar para o diretor de RH…

Luciano          O peixinho.

Andrea           … o peixinho, eu falei, diz para ele que eu estou aqui, tá? Me lembro até que quando eu cheguei, eu… com licença, fulano está ai? Você é a Andrea Sebben? Como é que tu sabe? Eu já reconheço a tua voz. E aí o cara me recebeu, porque ademais ele tinha que endereçar aquele peixe e aí eu comecei a comprar peixinho, então as pessoas me recebiam…

Luciano          Com peixinho.

Andrea           … com peixinho.

Luciano          Grande sacada.

Andrea           Não sei, mas…

Luciano          Ora se foi, grande sacada. Mas aí, você batia lá na porta, chegava para o cara e falava, cara eu estou trazendo uma proposta de negócio que você não sabe bem o que é e aí, eu quero explorar isso bastante porque tem acontecido muito comigo sabe, tipo assim, quando eu vou visitar alguém para propor que o cara venha para o podcast Café Brasil, que venha fazer um patrocínio etc e tal, aí chego na frente do cara e falo muito bem, eu sou Luciano Pires, eu sou do podcast Café Brasil, sou do podcast Líder Cast e a resposta do cara é assim: pode o quê? Aí quando eu escuto “pode o que?” Eu falo meu Pai do Céu, eu vou ter que voltar para a pré-história para contar uma história para esse cara para apresentar para ele uma coisa que ele não sabe o que é e vou precisar convencê-lo de que será bom para ele estar em algo que ele não tem a menor ideia do que é, portanto ele não precisa daquilo e aí o mundo fica escuro porque pô, você tem que tatear, pegar cada um deles, quer dizer, é matar um leão a cada visita, tem que começar tudo do zero, imagino que você, na época, era igual porque você estava construindo alguma coisa, você não tinha nem referência, eu faço aquilo que o fulano faz, eu trabalho com aquilo que o fulano traz, você nem tinha isso, né?

Andrea           Não, não tinha.

Luciano          E aí?

Andrea           Mas ainda é assim, Luciano, ainda é assim, o povo acha que eu trabalho com hábitos e costumes de outro país e eu fico ofendidíssima com isso, eu digo meu, abre o Google e tu, tu não vai precisar me contratar, se você quer saber de hábitos e costumes. O que nós estudamos é o esquema mental dos povos, existem 130 categorias que mapeiam o esquema mental, então não é coisa pequena, é coisa muito linda, mas as pessoas não sabem que existe, então eu ainda tenho essa dificuldade em prospectar um cliente, geralmente passa por um apetizer de uma palestra, por 15 minutos de uma demonstração, porque as pessoas não sabem o que é.

Luciano          E depois que pegam aí entendem e aí vai.

Andrea           Ai vai, aí for lifetime, aí é legal.

Luciano          Você tem uma empresa hoje? Tua empresa?

Andrea           Tenho.

Luciano          É uma empresa, você tem um time trabalhando com você?

Andrea           Tenho.

Luciano          Esse time atua no Brasil inteirinho e no exterior. É isso?

Andrea           É.

Luciano          Você vai para lá, treinar os caras que vem para cá e aqui você treina…

Andrea           Não, os caras que vem para cá, eu atendo quando eles chegam, os caras que vão para lá, eu atendo quando eles saem, só que a gente tem outros produtos, sempre na mesma linha que é o desenvolvimento de equipes multiculturais, ou conflito de equipes multiculturais, então se está dando briga, sei lá, lá em Bogotá da empresa X de brasileiros com colombianos, bom, aí eu vou lá ajudar, ah está tendo encrenca, sei lá, no time X lá na Holanda, aí eu vou lá, vou lá porque a encrenca está lá, então, mas geralmente é daqui do Brasil que a gente trabalha.

Luciano          Entendi. Me conta desse trabalho teu aí que isso é fascinante, imagino que você hoje deve conseguir enxergar as coisas de uma situação meio privilegiada, você viu aquele lance da carta aberta ao Brasil, que o americano escreveu agora aqui, o Mark Manson?

Andrea           Sabe que eu não li ainda, a Bel Pesce botou, né?

Luciano          Botou, eu fiz um podcast, a semana passada eu botei no ar o podcast daquilo lá, chamado “A Carta Aberta ao Brasil”, foi um americano que morou quatro anos aqui, casou com uma brasileira, vai embora para os EUA e mandou escrever um texto aqui dizendo basicamente o seguinte: olha, o Brasil tem tudo para ser um país fantástico, lindo, maravilhoso e só não é porque a culpa é tua, brasileiro, porque você se acomoda com as coisas, você não tem uma visão de produtividade, de qualidade, você aceita a baixaria, você aceita o que é meia boca, você é condescendente, então se está tudo ruim, começa com você, se mexe para fazer a coisa funcionar, ele faz paralelos, então muita gente ficou puta da vida, porque onde já se viu um americano vir aqui falar mal do Brasil, muita gente falou, é exatamente isso que ele está falando e foi muito interessante, eu montei um programa inteirinho com a carta dele, mas eu trouxe mais uma porrada de coisas para dizer o seguinte: olha, o que esse cara está falando não é novidade nenhuma, isso é falado no Brasil há séculos…

Andrea           Você vem falando isso há muitos anos.

Luciano          … monte, eu falei, inclusive eu tenho isso falado há muito tempo, dessa questão da mudança cultural e você tem escolhas agora, você pode ficar putinho com o americano, pode dizer que ele né… pode dizer que o americano dos EUA é uma merda, porque o cara pega uma arma e mata gente lá, que aqui nós somos maravilhosos, você pode negar a realidade ou pode botar a carapuça e falar cara, eu vou trabalhar para mudar isso e eu imagino que pegar alguém como você, que está experimentando essas culturas, analisar essa questão deve ser um negócio fantástico né? Existe um jeito brasileiro de administrar, de liderar, de ter um jeito brasileiro que você olha e fala pô, esse perfil é de brasileiro e esse cara jamais vai fazer como um americano, ele vai ter que rebolar para tentar entrar dentro da… você consegue enxergar esses perfis?

Andrea           Então, esse rebolar aí, é o que eu chamo de competência intercultural, é a nossa capacidade de se adequar, de criar estratégias de adequação, não estou falando ficar igual, assimilar, ou… não, mas é uma modelagem inteligente, sabe? Todos os povos tem, como eu disse, esquemas mentais diferentes, eu adoro aprender com eles e se eu quero me aproximar deles, porque qualquer negócio que eu vá fazer passa por cumplicidade, ninguém vai confiar em mim se não houver proximidade emocional, é, o negócio é esse, a grande questão da intercultura é o distanciamento emocional. Se eu quero me aproximar das outras culturas eu tenho que diminuir essa distância, de que maneira? Me aproximando desse esquema mental de uma forma confortável para mim, então o que a gente faz é isso, é desenvolver a competência intercultural para poder me aproximar do esquema mental do outro, eu vou te dar um exemplo de como que a gente se conheceu, por que eu virei tua fá e por que hoje  tu está na sala de aula todos os dias comigo,  porque, tudo bem, então eu estudo esquema mental, aí muita literatura, eu gosto muito daquele livro “A Cabeça do Brasileiro”, do Alberto Carlos, daqui a pouco cai na minha mão um brasileiro pocotó e eu, cara, quem é esse homem? Mas como é que ele conseguiu, de forma tão prática e inteligente e perspicaz traduzir o esquema mental do brasileiro? Lembra quando a gente se encontrou? Eu disse Luciano, deixa eu te mostrar isso aqui, então vou dar um exemplo agora para o nosso ouvinte, existe uma forma brasileira de administrar, bem, uma dessas categorias se chama ambiente, ambiente e os povos se dividem entre coação, controle e harmonia…

Luciano          Como é que é? Coação, controle e harmonia.

Andrea           … e eu vou te falar da teoria, vou falar para o ouvinte e o nosso caro ouvinte vai ter que adivinhar, quem é o Brasil? Bom, os primeiros povos que lidam com o ambiente de uma forma coação, eles tem frases típicas tipo “se Deus quiser eu passo no vestibular”, “eu cheguei atrasada por causa da chuva”, eu não escolhi a psicologia intercultural, foi sorte, eu estava lá em Madri, encontrei o Barry, “a senhora desculpa, políticas da empresa”, “o senhor desculpa, o sistema não permite”, em toda essa fala, Luciano, a responsabilidade, ela está interna ou está externa?

Luciano          Está externa, é alguém que eu estou jogando para alguém a culpa…

Andrea           Exato.

Luciano          … não sou… não é comigo.

Andrea           Então, esses polos, se eu tiver que ir para o âmago do valor deles, porque cultura tema dos valores, eu diria o valor central dos povos coação é não responsabilidade. Eles tem fé, eles são resilientes, eles são maravilhosos assim, eles são easy going, eles confiam na vida, em Deus, na… sei lá…

Luciano          Deixa a vida me levar, vida leva eu.

Andrea           … é, mas a responsabilidade realmente é um troço assim que não está no esquema mental, no mind desse povo, aliás eles até se irritam, esses povos, quando tu pede isso para eles.

Luciano          Que povos são esses? Dá um exemplo aí, brasileiro…

Andrea           Não, segura aí que agora eu vou dar o contraponto…

Luciano          Ah tá, você está vendo que eu estou aqui subindo na mesa aqui já.

Andrea           Os povos de esquema controle vão olhar para os coação e vão dizer assim meu, olha só, você chegou atrasado por causa da chuva? Porque tu não saiu antes. Como é que é o negócio? Se Deus quiser tu passa no vestibular? Lá no meu país é assim, se eu estudo eu passo, se eu não estudo eu não passo. E como assim tu, a psicologia intercultural foi sorte? Guria, tu não estuda isso há 25 anos? Tu não dedica a tua vida a isso? Então qual é o valor central dos povos controle? É a responsabilidade. Não obstante, não peça deles muita flexibilidade, muita fé, muito relaxamento. Enquanto a gente usa Havaianas, eles vão usar um coturno, what your proof? Para ir para menos 45 graus lá em cima do teu Everest, então são esquemas mentais diferentes, junto com mais 129, que agora não vou dar aula porque se não vocês nunca mais vão querer ouvir a nossa fala, mas que juntos formam essa forma de administrar do brasileiro, então vou te dar um exemplo, eu estou com engenheiros britânicos e brasileiros, o britânico chega para o brasileiro e diz: “tu vais entregar as peças no prazo?” e o brasileiro diz: “não, fica tranquilo, se Deus quiser o mês que vem está aí”. O britânico olhou para mim e disse, “eu não entendi, Deus trabalha na empresa?”. Então, essas formas se chocam o tempo todo, bem, eu vou falar só desses dois, mas quem é Brasil, coação ou controle?

Luciano          O Brasil é coação.

Andrea           Coação? E ele é coação, eu sou… e olha que com quem que eu estou falando hoje, com o Luciano. Mas, eu tenho certeza que se entrar dentro da tua casa, conversar com tua mulher e teus filhos, gente, conta ai para mim, quando é que o pai é coação? Eles vão dar exemplos.

Luciano          Claro que sim e não tenho dúvida nenhuma, aliás eu já me peguei centenas de vezes… trabalhei numa empresa americana, viajei, fiz negócio com os caras do mundo inteiro e eu sentia, eu contei até uma história no meu livro lá no “Diário de um Líder”, que eu, numa reunião que eu fui, que eu sentei com um americano estava eu e outro brasileiro, a gente sentou com ela e nós estávamos discutindo lá um projeto que ia colocar aqui no Brasil e eu comecei a ficar incomodado porque tudo p que eu falava ela repetia, então eu falava, ela virava para mim e falava você quer dizer isso? E ela repetia aquilo que eu dizia e eu ficava incomodado eu falei, pô, essa mulher está achando que eu sou idiota, caramba? Porra…

Andrea           É, porque tu te irritou.

Luciano          … mas quem… eu fiquei irritado porque eu falei, eu estou falando, já está falado, já está dito, não tem que ela ficar repetindo, depois que eu parei para pensar e ali no texto eu escrevo, eu falo, quando eu converso com outro brasileiro a gente vai no legal, legal, legal, legal, legal e ela não falou isso, ela falou legal não, deixa eu deixar muito claro que nós estamos na mesma sintonia, você quis dizer aquilo que eu entendi, sim, então próximo passo. Quer dizer, ela fazia questão de fazer com que a gente entendesse exatamente o que estava sendo dito ali, eu e ela. No Brasil não é assim, no Brasil eu falo é legal, vamos fazer? Vamos. E aí vamos, mas como é que foi dito mesmo? Como é que era? Que hora que era para estar lá? Ah sei lá, que hora que eu marquei? Sei lá. Então esse choque acontecia o tempo todo e houve uma outra vez, que teve um lance que ali para mim foi marcante, eu tinha uma… o chairman of de board, o homem de 8 bilhões de dólares veio ao Brasil e nós íamos fazer uma reunião, eu não me lembro se era em Curitiba, onde que era, em que a imprensa vinha lá, ele ia apresentar o projeto para a América do Sul e coube a mim fazer a apresentação dele, o power point dele, quem ia fazer era eu, eu estava acostumado a fazer, então eu sentado na mesa, eu trabalhando, fazendo o power point e faltando assim 10 minutos para começar o negócio, eu fazendo o power point e a assessoria dele em cima de mim desesperada porque o power point não estava pronto e para mim era a coisa mais natural do mundo, calma, ele vai chegar, aqui é apertar dois botões e fazer e os gringos desesperados em cima de mim e eu fazendo na minha levada porque eu sabia que no fim, se Deus quisesse ia dar tudo certo; e a gringalhada, cara, como é que alguém pode correr esse risco de chegar aqui e o negócio não dar certo e a hora que começou a apresentação, a apresentação foi legal, tudo, mas eu tinha botado vários cliques no power point e ele ficou puto da vida, porque ele clicava o negócio e não mudava a imagem porque entrava uma setinha, entrava um negócio aquele outro e ai eu olhei para aquilo, quando eu fui embora para a casa eu falei puta merda, eu tentando fazer do jeito brasileiro e achando que o gringo ia usar aquilo como um brasileiro que para mim era a coisa mais natural do mundo, para eles era uma puta irresponsabilidade, o cara não fez na hora que tinha, nós não testamos antes, nós não fizemos, então ficou claro para mim que essa flexibilidade que nós temos, esse colchão que o brasileiro usa que sabe olha talvez dê certo, se não der certo a gente dá uma ajeitada, no meio do caminho a gente vira… para eles não tem, então o que para mim era criatividade, jeitão de fazer, para ele era o seguinte: uma puta irresponsabilidade, esse cara é um irresponsável, então o que eu achava que era uma qualidade, para o gringo era um defeito e isso foi ficando claro conforme eu trabalhava ali na empresa.

Andrea           Então, mas é uma pena que as pessoas, eu, tu, a maioria das pessoas elas acabaram aprendendo essas coisas na vida com muitos erros, acertos e erros, o objetivo do nosso trabalho é poupar as pessoas disso, a turma diz assim, ah tu explica para a gente, tu mostra para a gente como é que é o Brasil, é isso que tu faz. Às vezes as empresas dizem, o que tu faz aqui em São Paulo? Tu leva no MASP, no Iguatemi, eu falei ah gente, não, não me interessa conhecer o Brasil, aliás os estrangeiros que eu atendo conhecem o Brasil mais  do que eu, o meu negócio é explicar o Brasil. Aí de novo foi aí a nossa intercessão, na época, do te achei, eu falei pô, que legal, mas a gente faz isso porque o brasileiro ele é muito auto referencial, aliás todos os povos são auto referenciais mas a gente, especialmente, porque a gente é muito grande, tu olha para um lado é mato, para o outro é oceano e aliás em qualquer povo do mundo o que reclama da gente é esse etnocentrismo exacerbado, mulher bonita é no Brasil, amigo mesmo é no Brasil, comida boa é no Brasil, carnaval é no Brasil, meu, alguém te perguntou? Eu sempre digo isso, alguém te perguntou? Então achar que o  que é válido aqui é válido lá, é a contra mão da educação intercultural, porque o Brasil acha isso.

Luciano          Mas não em também uma história que o brasileiro é o único povo que mete a boca no seu próprio país de forma violenta, na frente de qualquer estrangeiro e chega lá fora, lá no Brasil é uma merda, lá é tudo ruim…  ?

Andrea           Sim, mas isso são coisas diferentes, uma coisa é o etnocentrismo, de se auto referenciar e… por exemplo, frase típica do Brasileiro em qualquer lugar do mundo: “bah, que gente esquisita, nossa que gente estranha, credo o que eles estão comendo?” Eu sempre digo, Brasil, o mundo inteiro é estranho e nós somos os bonitos? O mundo inteiro é diferente e nós somos uma regra, isso é etnocentrismo, ponto. Agora, nós não somos ufanistas, nem patriotistas, nem nacionalistas, os nossos irmãos americanos são, etnocêntricos, ufanistas, patriotistas, nacionalistas, aí dá aquele coquetel que todo mundo conhece, então o brasileiro ele mete pau neles sim, mas quando ele vai ao redor do mundo ele se agarra na bandeira brasileira e não sei o que dá nele que ele resolve exercer a cidadania quando está lá fora, esses dias um brasileiro na Singapura, achei tão engraçado, ele disse, brasileiro quando está no exterior é que nem porquinho da Índia, anda tudo em bando, não é?

Luciano          Japonês é assim também, não é?

Andrea           É.

Luciano          Japonês é assim também, vai tudo em bando para lá e para cá. Me fala uma coisa, qual é a maior dificuldade que você encontra. Chegou um coreano aqui e eu peguei o coreano não foi por acaso, porque eu acho que o asiático deve ter muito mais barreiras para se adaptar, sem saber, não conheço nada, pelo que eu vi, pelos contatos que eu fiz, eu imagino que um asiático tem muito mais dificuldade para se integrar a uma cultura brasileira do que teria um americano, do que teria um inglês, do que teria um europeu, até por proximidade cultural. Entra um coreano aqui, daqueles bem coreano, não é? E você vai ter que explicar o Brasil para ele…

Andrea           Bom, para começo de conversa já que tu falou em Coréia e Ásia, de todos os meus irmãos asiáticos, os coreanos são conhecidos como os latinos da Ásia, então vamos dizer que são os mais fáceis para nós e que são os que teriam menos dificuldade, porque eles são mais latinos, entre aspas, mas todos esses povos tem esquemas mentais completamente diferentes dos nossos, praticamente opostos, então… e também são povos muito etnocêntricos, a Coréia é muito etnocêntrica. O que acontece quando dois etnocêntricos se encontram? Se bicam, porque referência sou eu a referência é tu, então ultrapassar isso para eles, poder se adequar um pouco mais a uma referência do brasileiro, isso é muito sofrido, por exemplo, a Coréia é um país cheio de punições, cheio de regras, regras, regras, regras, Singapura, Singapura é proibido andar pelado em casa, explica essa…

Luciano          Dentro de casa.

Andrea           … é, tu sabe porque? Eu acho super curioso, é proibido cuspir, mastigar chiclete, veio Singapura na cabeça agora, mas são cidades muito verticalizadas, onde as pessoas se enxergam o tempo todo nos apartamentos, então tu não pode andar pelado dentro de casa porque o outro vai te ver, então tem todo um protocolo e os coreanos também vem com esses protocolos, aí eles veem a gente rompendo isso o tempo todo, burlando isso, eles dizem, mas não tem punição? Como, que tipo de punição? Punição, não tem punição? Te pergunto, Luciano, tem punição?

Luciano          Não.

Andrea           Não tem.

Luciano          Nem quando tem a gente respeita.

Andrea           Não tem. Então os guris ficam assim, isso aqui é outro planeta, sim, porque para nós a Coréia também é outro planeta e a gente sofre. O que a gente diz assim que quando, por exemplo, uma empresa se junta, sei lá, os americanos compraram, a Springer que foi comprada pelos chineses, aí eu estava treinando os chineses em Buenos Aires. Tu pode mudar o logo, tu pode mudar a cor da sala, tu pode mudar todo o layout da empresa, mas tu não muda o comportamento dos povos, então o desafio é esse, é fazer com que ambos se aproximem de uma forma mais generosa, não importa quem vem, quem vai, porque brasileiro adora dizer, mas eles que estão vindo. Meu, para com isso, educação intercultural é para a vida, no matter where. Eu do alto dos meus 46 anos me niego rotundamente a ser hóspede, eu quero ser hospedeira, nós estamos juntos aqui, eu quero que você se sinta bem na minha presença, ponto final. Tu poderia pensar não, mas ela é minha visita, não é não, tu é minha visita na minha presença, então desenvolver isso aqui no Brasil com quem está vindo, eu acho bem importante.

Luciano          Até porque isso vai te permitir entender a expectativa dele que ele está na tua frente, eu vou abrir a boca para falar com você, se eu não tiver a menor ideia do o que é a tua expectativa, o que se passa na tua cabeça, eu vou falar aquilo que eu acho que está certo ou não e daí para ter um conflito é “dois pitaco”. Eu me lembro, a gente não precisa ir muito longe, quando você fala essa questão das culturas, a empresa que eu trabalhava comprou muitas empresas e ela cresceu por aquisições do mundo inteiro e aqui no Brasil também, comprou várias empresas aqui no Brasil e a gente teve dificuldades brutais dentro do Brasil, quando a nossa empresa comprou uma outra para integrar duas culturas de brasileiros, quer dizer, eram empresas diferentes, de brasileiros, quando juntou uma com a outra, 10 anos depois você ligava na outra empresa e os caras ainda falavam o nome da empresa de 10 anos atrás porque eles não conseguiram assimilar uma cultura que é igual, a cultura de brasileiro. Agora imagina quando você leva isso para Argentina, para outros países aí, a coisa deve ser mais complicada ainda.

Andrea           Mas tu tocou num ponto interessante aí para o ouvinte saber, a gente sempre pensa que o treinamento intercultural, as dificuldades interculturais são dentro do âmbito internacional, mas a gente também trabalha na adaptação de brasileiros dentro do país, chamados ádvenas, então por exemplo, vou dar meu exemplo pessoal…

Luciano          É, você vive no outro planeta. O planeta que você vive lá é outro, é o planeta gaúcho, o planeta…

Andrea           … não, melhor ainda, eu moro em Florianópolis.

Luciano          Você mora em Floripa?

Andrea           Eu moro em Floripa, então é outro mundo ainda. Mas olha só, eu morei na Espanha, na Bélgica, na Itália, Estados Unidos e Canadá, sabe o lugar mais difícil para mim, de adaptação até hoje? Florianópolis.

Luciano          Floripa.

Andrea           Floripa me deixa louca e tudo bem, não tenho vergonha de falar.

Luciano          Tem até um idioma estranho lá né?

Andrea           É, se tu quiseres eu posso falar manezinho também.

Luciano          Fala manezinho um pouquinho.

Andrea           Vá ser mais bonitinha, é porque assim eles são muito tititi, assim fica difícil porque a cidade é um pouco pequena e tal, é um mercado um pouquinho estreito né, eu também não sou muito peixe, eu sou mais a carne. Mas enfim, é isso, a intercultura ela é para a vida, eu gostaria de deixar essa mensagem na nossa conversa, tu quer, sei lá, eu digo para os meus engenheiros da EMBRAER, estão indo para onde? Mauritânia, beleza, tu queres te adaptar na Mauritânia, como é que está tua relação em casa, com a tua mulher, porque tu dorme com teu principal conflito intercultural toda noite, intercultura é isso, ah eu sou tri intercultural, eu tenho 30 passaportes e 170 países, isso não me diz nada, por exemplo, uma empresa gaúcha nos chamou para treinar os CFO deles, ok, de onde ele é, Alemanha, quando é que ele…

Luciano          Chief Financial Officer

Andrea           … eco, aí, de onde ele é? Da Alemanha. Quando é que ele chegou? Há 2 anos. 2 anos. 2 anos. Porque vou treinar o homem que está há 2 anos no Brasil? Porque ninguém aguenta a cara dele. Então eu chego no dia do treinamento cavalheiro, o senhor já morou fora? Eu já, nem sei o que estou fazendo aqui, eu morei na Suécia, eu morei na Alemanha, eu morei na China, eu morei não sei o que. Eu bah, que legal e uma pergunta importante, cavalheiro, depois dessas migrações belíssimas, você se tornou mais humilde? Mais elegante? Mais….

Luciano          Você falou tudo isso para ele?

Andrea           … eu falo.

Luciano          Bom, está certo, é que é um alemão né?

Andrea           É.

Luciano          É, dá para falar para um alemão isso, se falasse com um brasileiro acho que você ia arrumar uma encrenca.

Andrea           Não, via de regra eu vou falando, eu vou falando aonde eu queria chegar é que lá pelas tantas eu disse, e tu está feliz em Porto Alegre e ele, eu estou muito bem, é só tu amigão, porque a torcida do Inter e a do Grêmio estão de saco cheio. Então esse cara, ele é internacional, ele não é intercultural e geralmente as pessoas pensam não, mas esse aqui já morou no raio que o parta, tá, mas o cara é uma anta, um acéfalo.

Luciano          Sim, sabe que nós tivemos aqui um cara que veio para tocar uma fábrica em Sorocaba, um americano, ele ficou sete anos no Brasil e voltou para casa sem falar português? Sete anos comandando uma operação e voltou para lá sem falar português e se negava a falar e você sacava que o cara não queria estar aqui, quer dizer, como é que você vai conduzir um business assim? Só na chicotada, só na porrada e aí eu montei uma apresentação chamada Doing Business in Brasil, que eu comecei a levar para esses caras, então os caras iam fazer alguma coisa, então vinha um grupo aqui para querer  investir no Brasil, eu levava lá para mostrar para eles e a história ali era a seguinte, era esqueça tudo o que você conhece sobre fazer negócios na tua terra e vem entender como é que a coisa funciona aqui e aí na hora de mostrar um empreendimento brasileiro eu botava o carnaval e quebrava os caras no meio, quando eu mostrava o carnaval eu falava, vocês estão olhando isso aqui e para vocês isso aqui é uma grande festa onde as pessoas vão se divertir e vão fazer o maior espetáculo da terra, olha o egocentrismo ai, e aí quando eu começava a contar as regras do carnaval, cara tem sete categorias, os caras tem uma hora, 65 minutos para passar, se levar um minuto a mais perde ponto, perde ponto, perde ponto, cara isso aqui não é uma festa, isso é um puta dum negócio seríssimo onde os caras tem uma chance de entregar direito, só tem essa chance, se errar acabou, só no ano seguinte. E aí os gringos ficavam enlouquecidos porque eles não faziam a menor ideia de que aquilo era uma competição muito séria, para eles era uma festa, uma diversão. E aí eu trazia o outro lado, falava o seguinte, vamos ver agora quanto esse pessoal está ganhando para fazer isso, nada, eles estão pagando. Como é que é a relação de hierarquia e chefia? Cara, não tem, esses 3 mil caras  que estão na rua quantas vezes eles se encontram ao longo do ano? Cara, 3, 4, 5, esse cara comprou essa fantasia pela internet e aí ficava claro que eles estavam lidando com um tipo de gente que é movida por algum outro tipo de coisa que não simplesmente uma coisa assertiva, você tem que fazer 10, se fizer 10 eu te pago 8 e está resolvido. No Brasil não é assim, é uma outra história e os caras ficavam, eu não fazia a menor ideia que era essa coisa onde eu tentava mostrar para eles a diferença que existia e dizia para eles o seguinte, regra número 1 para você vir para o Brasil, comprou a operação aqui, não bote um gringo para tomar conta da operação no dia seguinte, sabe, bote do lado dele um capataz brasileiro e faça o gringo aprender com esse capataz brasileiro como é que a coisa funciona porque a dinâmica é completamente diferente, isso com a escola que eu tinha na empresa lá e anteontem eu fui fazer uma palestra numa empresa brasileira que também foi comprada por uma americana, os caras falam, aconteceu uma coisa, botaram um gringo aqui, caiu tudo, deu tudo errado e aí trouxeram um latino americano, trouxeram um mexicano, o mexicano olhou para os brasileiros e falou, espera um pouquinho, elegeu o capataz dele que é um brasileiro, ele falou, água para o vinho, porque houve uma percepção melhor do que era essa diferença, mas essa história é fascinante mas eu queria ir para um outro caminho aqui com você.

Andrea           Mas eu acho que deve ser uma delícia te escutar, já vou fazer o convite no ar aqui para todo mundo ficar de testemunha que a gente tem que subir no palco juntos, Luciano…

Luciano          Vamos.

Andrea           … porque a forma com que você ilustra a tua experiência, teu know how acumulado, isso é muito legal, muito legal.

Luciano          É, o que a gente aprendeu ali na pauleira, mas deixa eu falar uma coisa para você aqui, nós estamos agora… você passa, quanto tempo você passa no Brasil no ano, muito tempo no Brasil?

Andrea           Não, a maior parte no Brasil.

Luciano          Então você está aqui e você está vivendo este momento que nós estamos vendo no Brasil aqui agora, que é o momento dessa percepção de crise, é o momento em que a gente está pagando uma conta, momento em que nós estamos aqui todo mundo perdido, é um momento em que a imagem do Brasil lá fora me parece que está um pouco…

Andrea           Prejudicada.

Luciano          … prejudicada porque houve uma série de promessas e que a gente era a bola da vez, de repente não é a bola da vez coisa nenhuma e coisas do tipo vai acontecer a olimpíada, o Rio está sujo, o mar está um horror, tem a zica, tem o não sei o que, corrupção, roubo etc e tal, nós estamos então enfrentando um momento em que o cara olha e fala, brasileiro… O que esses caras tem para ensinar para nós aqui? E eu tinha lá uma experiência muito legal, que é essa que eu queria bater com você essa questão toda dessa percepção do brasileiro. Eu ia para as reuniões nos EUA e chegava nas reuniões e entrava lá e mostrava o processo nosso aqui e a gente aqui você sabe como é que é, o que é para fazer? É para construir esse estúdio? Deixa comigo. Eu vou construir. Em quanto tempo? Quanto tempo leva? Leva 6 meses, está legal, vou fazer em 3 meses. Quanto custa? Custa 100. Eu vou fazer por 40 e sai da frente e aí eu faço, boto o bicho em pé, maravilha, quando você está aqui puta que legal, que bonito, que maravilhoso, deixa eu ver a planilha? Que planilha?

Andrea           É bem assim.

Luciano          Deixa eu ver orçamento? Que orçamento? Não era para fazer? Não está pronto, não ficou legal? Então não em enche o saco. E a gente chegava nos EUA com isso, então a apresentação na empresa,  todos os marketings do mundo inteiro reunidos, vou mostrar como é que funciona, e a gente chegava lá com uma simplicidade, no Brasil isso que vocês aqui levam doze steps para fazer, nós fazemos com quatro steps no Brasil, por que? Porque a gente lá corre muito mais riscos que vocês, vocês aqui mostram para o advogado, a gente não tem advogado coisa nenhuma, se der errado a gente se vira e os gringos ficavam o tempo todo assim, uau, great, he where demand, great, super… virava as costas os caras não davam a menor bola para nós, a gente voltava para o Brasil, não acontecia nada, ninguém fazia nada, a gente voltava frustrado para cá e uma vez eu conversando com um dos caras, pô e o cara puto da vida, a gente vai lá, mostra um puta projeto maravilhoso, os caras não dão a menor bola, eu falei faz uma coisa, se a gente tivesse que fazer reunião no Brasil e viesse um paraguaio e fizesse uma apresentação para nós igual àquela que nós fizemos para os americanos, o que você faria com o paraguaio? Você ia dizer para ele cara, muito bem, muito legal, lindo, maravilhoso. Deixa esse índio ir embora nós vamos resolver nossa vida…

Andrea           Diria hasta nunca, muchas gracias.

Luciano          … então eu falei, é a mesma coisa, então nós somos os Yanomamis entrando dentro daquela cultura maravilhosa e eles olham para nós e falam, o que esses índios querem aqui? Então havia essa questão da gente lidar o tempo todo com essa percepção de que nós somos os tais e chegava numa cultura e falava tais coisa nenhuma, esses caras estão contando um monte de histórias, uma hora eles vão quebrar a cara e ninguém vai poder consertar, portanto eu não vou adotar nenhum processo deles porque é um processo que envolve um mar de risco muito grande, com a qual eles convivem, nós aqui não podemos conviver com isso, não podemos nos dar ao luxo desse negócio dar errado e quebrar, mesmo que o histórico deles seja de nunca ter dado errado…

Andrea           E não sabem, Luciano, isso daria uma margem de insegurança e de angústia, não, não fariam.

Luciano          … mas você vê, isso é real?

Andrea           Claro

Luciano          Isso é assim no mundo todo?

Andrea           Claro, isso é o esquema mental. Isso é o que a gente chama de fraco e forte, controle e incerteza ou flexibilidade e controle, tem povos que lidam com uma margem de flexibilidade enorme e com conforto, e com conforto e outros não. Deixa eu ver agora, me faltam exemplos mas na verdade a gente vive no dia a dia, sei lá, um troço tolo, quer ver? Aí a gente foi para a Disney, entrou no Parque Universal, estacionou o carro, cedinho, vamos brincar, brincamos o dia inteiro, na volta cadê o carro? Sim. Você sabe como é que estão os estacionamentos lá na Universal, né? São sei lá, 8 prédios, cada um com 12 andares, cada um com uma cor, com um bicho, com um nome de filme, meu, cadê o carro, a gente não sabe onde está o carro, mas aí tem os telefones de SOS, aí você liga, olha só perdi meu carro. Tudo bem, qual é a placa do carro? Então não sei a placa do carro. Qual é a marca do carro? Eu também não sei qual é a marca do carro. Tá, qual é a cor do carro? Ah isso eu sei, é branco. Ok, que hora você chegou? Bah, eu cheguei na entrada assim, eu acho que era 8:15, 8:30. Tá bom, fica aí que o segurança está indo te buscar. E veio a van, me pegou e me levou para o meu carro. Quer dizer, do outro lado da linha havia um americano pensando, mas escuta, quem é essa mentecapta, mas o que é isso? Que mixórdia mental essa criatura não sabe o carro, a hora, a marca, nada. E não obstante eu falei, o que é isso? Esses caras acho que é mágica, ele me manda uma van me buscar e me leva para o meu carro. Então é, são formas de viver.

Luciano          Mas legal esse lance, que você fala no nosso esquema mental brasileiro é o seguinte, cara eu estou entregue para a Disney, eu vim aqui, para me entregar para a Disney e eu não quero nem saber onde é que eu parei o carro, eu estou tão deslumbrado com aquilo que eu vou me entregar de corpo e alma. Garanto que você se divertiu muito mais do que aquele gringo que iria lá, porque você, cara dane-se, que comer, sei lá onde eu vou comer, sei lá onde eu vou dormir, eu quero me entregar de corpo e alma que é uma coisa muito brasileira. Eu tenho uma outra história que eu conto lá no livro também, que um brasileiro saiu com o filho dele foi para os EUA e o sonho do menino era assistir o jogo da NBA dentro de um ginásio legal lá e eles compraram no Orlando Arena, uma coisa assim lá para assistir o jogo, eles estavam em Nova York, no dia anterior ao jogo ou no dia do jogo, uma coisa assim, deu uma tempestade horrível lá, pararam os voos, eles  não conseguiram voar para Orlando e perderam o jogo, então ele como bom brasileiro, dancei, não vou conseguir estar lá, perdi o jogo, já era, já fui, acabou, muito bem. Chega no Brasil, falou cara eu chego aqui no Brasil, entra um e-mail para mim da Orlando Arena, seu fulano, o senhor estava com ingresso para o jogo, a gente reparou que o  senhor não veio, o que foi que aconteceu? E ele responde olha, eu não fui porque aconteceu… Perfeitamente, o senhor quer usar o seguro?  E ele: que seguro? O senhor quando comprou ingresso tinha um seguro para esses casos, o senhor tem direito ao seguro, o senhor quer usar o seguro? Se o senhor quiser o senhor recebe o dinheiro de volta. Ele, eu quero e ele usa o seguro e recebe um cheque no valor do ingresso que ele não usou. E aí você para para pensar e fala o seguinte: espera um pouquinho, não é só que tinha um software capaz de determinar que o cara não foi, definir quem era o cara e disparar um e-mail perguntando para ele por que é que ele não foi, havia uma outra preocupação de fazer com que esse cara usasse um direito que ele tinha, que ele não sabia que tinha, ele não tinha a menor ideia que tinha um seguro lá e os caras vem, escuta o senhor quer usar aquilo que o senhor não sabe que tem e ele ficou encantado e falou, que loucura. Eu fico imaginando numa outra cultura, eu falei o cara não sabe do seguro, fica quieto, não fala nada, deixa quieto que esse trouxa não vai usar e a gente ganha esse dinheirinho.

Andrea           Então, nessa pequena história que tu conta tem a ver com todo o papo que a gente teve até agora, a gente viu dois esquemas mentais se encontrando que é o controle, o controle quando fala de ambiente e o controle quando eu falo de flexibilidade e controle, do fraco e forte, controle e incerteza.  Quando você junta esses dois dá isso daí, dá o can aid and troust system, dá uma série de protocolos que a gente vê aí nos outros países e que funciona, porque eles são assim e a gente não é. Um outro exemplo que me veio agora, o aeroporto Salgado Filho lá em Porto Alegre, toda vida a gente teve aeroporto pequenino, normal, aquela coisa toda, aí bom, vamos fazer aeroporto novo. Bah, bonito aeroporto, está lindo, aeroporto internacional, quando ele fica pronto, Luciano, ele já está obsoleto, aí eles tiveram que, para receber na antiga web jet e Azul, eles tiveram que reativar o aeroporto velho que é um cacareco sem fim, que quando eu chego com os estrangeiros lá eu tenho vontade de chorar, então assim, é má fé? Não, não é má fé, é uma forma de viver que não prevê esse planejamento, essa responsabilidade, não consegue pensar nisso.

Luciano          Quer dizer, não é nem falta de planejamento isso? É incapacidade de jogar três casas à frente.

Andrea           É, não existe esse repertório, por exemplo, quantas palavras tu conhece para a palavra verde?

Luciano          Verde, verde escuro, verde claro.

Andrea           Deu, no máximo verde limão. Se você pegar ai meu Deus, sei lá, Namíbia, Namíbia, Azerbaijão, Tanzânia, esses caras tem pelo menos umas 15 palavras para o verde, porque isso? Porque há muito tempo atrás eles se orientavam com a folhinha do verde do outono, com a folhinha do verde da primavera, do orvalho da manhã, a palavra neve, quantas palavras existem em português? Neve. Ah mas aí tu vai para a Itália, neve, neveicas, lavinias, lavanca, nem sei de cór todas, mas o que é isso? Ah é tipo de neve, se a neve é fofinha, se é dura, se caiu ontem, se já está aí há muito tempo, se vai ter, como se diz, avalanche, então não existe, nosso modo indicativo, quantos tempos verbais do modo indicativo, 6. Tá. No máximo são 10, 12, ta, no italiano, por exemplo, sono estato, ovuto, são tempos verbais que embora eu saiba falar, eu também não sei muito bem te explicar o que é, então a coisa da responsabilidade e do planejamento eu não sei te explicar muito bem como é que é, mas eu não tenho.

Luciano          Mas passa por isso, quer dizer, você está falando um negócio fantástico aí que é aquela história que é o seguinte, se eu… isso está num livro do Orwell, “1984”, quando ele fala da novilíngua, quando ele fala que uma das formas do partido, do governo manipular o povo, é eliminar certas palavras do dicionário, então ele fala, eu elimino conceito e já que o conceito não existe, ele pega o conceito livre sabe, livre como liberdade não existe, o livre que ele tem lá é outro livre mas jamais como liberdade, portanto se eu não consigo conceituar, aquilo não existe, então eu deixo de querer liberdade porque eu nem sei que ela existe…

Andrea           Exato.

Luciano          … que é aquela coisa que você está falando aí dos verdes, quer dizer, eu chego aqui eu vejo quinze tons de verde, tem um nome para cada um deles, eu estou muito mais rico, eu consigo elaborar muito melhor com você e isso traz também uma outra história, quer dizer, por isso que a gente bate sempre na ideia de que, cara, você precisa ampliar teu dicionário, ampliar o teu repertório verbal, quanto mais você lê, quanto mais você aprende,  quanto mais você consegue definir as coisas, mais chance você tem até de se explicar, ou até de entender o que está acontecendo, então se eu só tenho 4 palavras, meu mundo está limitado àquelas quatro e esse exemplo que você deu da neve é perfeito, neve acabou. Para mim é aquela coisa, eu pego um outro cara do meu lado que olha a neve de dezesseis jeitos diferentes, quem é mais rico? Na medida em que pode interpretar, pode até tomar cuidado, aquela neve tal eu não vou passar perto dela porque aquela é a neve X não é neve Y. De certa maneira isso é um trabalho que eu venho batendo muito que é repertório bota para dentro da cabeça, amplia o teu repertório, quanto mais você aprende…

Andrea           Bah, mas está bravo né?

Luciano          … mas é isso.

Andrea           Mas está bravo. É.

Luciano          E aí quando você pega essas duas culturas, junta uma com a outra, pega de novo a neve, sabe o cara que fala de dez neves com o cara que fala de uma neve só, como é que esses dois caras conversam?

Andrea           Mas então, aí explica a minha paixão por essa questão do intercâmbio sabe, eu acho que o intercâmbio cultural, ele tinha que ser obrigatório, toda criança deveria fazer intercâmbio, todo adolescente, ontem eu estava falando isso lá na feira, ah por que você quer ir para o exterior? Para aprender inglês. Eu digo, cara deixa de ser mesquinho, tu vais aprender inglês ou sim ou sim, a menos que você tenha um problema neurológico grave, isso é de último, tu vai ter uma lição de cidadania, não estou dizendo que tu vais aprender coisas melhores, mas certamente coisas diferentes que vão engrandecer teu repertório.

Luciano          Eu entrevistei nessa cadeirinha que você está, o Bruno Garschagen faz uma semana, o Bruno escreveu um livro maravilhoso sobre essa coisa do novo brasileiro odeia político, mas adora o governo, em determinado momento ele fala um negócio lá que eu achei genial, ele fala o seguinte: sabe como é que faz para resolver o Brasil de vez? Nós tínhamos que pegar a população pobre brasileira, aquela pobre mesmo, uns 30% que são muito pobres, levar esse grupo todo para os EUA e deixar eles passarem um mês lá e a gente traz de volta, com esse um mês, esses caras vão estar expostos a escolhas, oportunidades e possibilidades que eles nem fazem ideia que existe, então como eu não conheço um celular que funciona bem, eu vivo com esse que está aqui, para mim a vida é isso aqui, celular é isso aí, é uma porcaria porque todos são assim, eu não tenho comparação com alguma coisa que funciona bem, eu não conheço um lugar onde o ônibus está marcado para as 11:48 e ele chega as 11:48, onde você compra uma passagem hoje para daqui a um mês e está escrito que o avião vai parar no  finger 12 e você chega lá daqui a um mês e o avião para no finger 12, como eu vi lá na, estava na Finlândia, falei quero ver se vai dar certo isso, 11:48 o ônibus, 11:48 o ônibus, desci do avião, quando eu cheguei na coisa de bagagem, minha bagagem já estava, a bagagem chegou antes de mim, falei que é isso, esses caras são loucos. Depois de ser exposto para isso eu volto para cá, aí eu começo a me queixar, falo espera um pouquinho, é possível ter um  outro tipo de visão, é possível você ter outro nível de serviço, é possível obter, se lá dá, por que aqui não dá também?

Andrea           Deixa eu só fazer assim um adendo à tua fala, eu não pegaria só os 30% da classe mais miserável, até porque eu trabalho com a elite, mas eu pegaria os adolescentes de elite e também levaria lá para fora, não para aprender isso, mas para aprender outros valores, não a língua ou o que existe de tecnologia, mas para aprender outros valores que está nos faltando aqui também em casa, por exemplo, a questão do trabalho, a questão do respeito aos mais velhos, eu amo os meus adolescentes e falo mesmo, acho incrível o fato de eles tratarem os pais como funcionários, tu tens que me levar, tens  que me buscar, tens que me dar dinheiro, eu digo para aí, te liga, tu acha que teu pai aqui está para te servir agora? Mas essa falta de respeito ao passado, à hierarquia, aos mais velhos que também faz parte do esquema mental do povo, não existe no Brasil, a vida é hoje, aqui e agora.

Luciano          Você assistiu um filme chamado “Precisamos Falar sobre Kevin”?

Andrea           Eu li o livro.

Luciano          Você leu o livro, você não viu o filme, bom, o filme, o começo do filme é um choque para qualquer brasileiro porque o começo do filme é um pai e uma mãe discutindo com um moleque de 16 anos porque o moleque não sai de casa, não vai embora de casa e o pai e a mãe e aí cara, quando é que você vai sair? E aí, está se virando ou não? Arrumou teu trabalho ou não? Quando é que você vai embora daqui?

Andrea           Pronto, é isso.

Luciano          Quando é que você vai sumir de casa? E você vê aquela discussão e fala cara, eu quero meu filho de 30 anos morando comigo em casa, eu quero ele comigo em casa, eu quero minha filha comigo, o brasileiro tem essa coisa do ninho e vários amigos foram para o Canadá agora e os caras contando, para mim é um choque, o canadense não sabe que com 16 anos o moleque, a menina vai ter que arrumar um jeito de cair fora de casa e esse cair fora faz parte desse “vá tratar da sua vida” e não há a menor possibilidade de esse cara vir tratar o pai e a mãe como funcionário, a partir de amanhã eu estou por conta, vou ter que me virar.

Andrea           Mas até em casa esse paternalismo, agora eu estou falando da nossa elite, que de novo, são os meus queridos, mas onde os pais os protegem de uma maneira funcionalista, tu quer ver, tu pergunta para um adolescente para eu mensurar o grau de maturidade do adolescente, não sei, que idade tem teus filhos?

Luciano          25 ela e 31 ele.

Andrea           Ah, já são um pouquinho maiorzinhos…

Luciano          Não, são adolescentes ainda.

Andrea           … tudo bem… são?

Luciano          São.

Andrea           … então vou pegar o de 25, eu posso fazer a seguinte pergunta para o teu guri, fala aí, como é que é teu pai, tem duas coisas, ou ele vai dizer assim ah meu pai é tri sabe, ele me leva para cá, me leva para lá, ele me dá as coisas, ele faz tudo o que eu quero… é, well, bad news, não perguntei o que teu  pai faz, eu perguntei quem teu pai é. Como assim? Assim que os adolescentes respondem, por que? Como é que ele é como pessoa? Como é que é o teu pai? Ah, aí tu me pegou. Então são relações funcionalistas que é assim que o nosso país também funciona, então a história do intercâmbio, os pais dizem assim, ah mas ele não está indo lá para sofrer, não quero que meu filho sofra, ah então tá, então tu casa por ele,  tu trabalha por ele, tu inclusive começa a usar as roupas dele, porque eu tenho uma notícia ruim,  tu vai frustrar muito teu filho na vida e a vida vai frustrar o teu filho e ele tem que criar casca para isso e a nossa cultura aqui não… tem também isso no seu esquema mental.

Luciano          Você está trabalhando com isso há vinte anos, você notou mudança, tem uma mudança cultural?

Andrea           Ah é claro que tem.

Luciano          Você consegue notar, brasileira, o que está acontecendo, para pior, para melhor?

Andrea           Eu acho que está piorando…

Luciano          É mesmo?

Andrea           … ah que saco, eu detesto falar isso, eu queria ter notícias boas, mas eu acho que está piorando, eu acho que essa desigualdade social, ela vai criando feridas imensas na sociedade sabe, tanto para quem está embaixo tanto para quem está em cima, vai criando uma coisa de prepotência, de ilusão de controle, acho que a tecnologia também está estragando, estou falando em intercâmbio, na minha época, puxa vida, era carta, era eu by myself stand by me e hoje não, o pai fala, a mãe resolve, deixa que o pai… poxa, sabe, não acho…

Luciano          Bom, tem um garoto e uma menina de 24 anos ouvindo a gente aqui, ele  está no busão, indo trabalhar, trabalho que ele não gosta muito, está com o saco cheio, quer fazer outra coisa da vida, quer trocar outra coisa adiante e eu preciso dar um recado para esse menino, essa menina, esses  dois brasileiros, passa um recado para eles. O que você quiser.

Andrea           Ah Luciano, o que eu vou dizer?

Luciano          Imagina, primeiro imagina ele no busão ouvindo assim e passa, Andrea, do alto da tua experiência toda, se esse moleque e essa menina quiserem dar certo na vida, o que você tem a dizer para eles?

Andrea           Bem, posto que vocês estão falando com a mulher da intercultura, eu só posso dizer: saiam do país, não definitivamente, não em termos de fuga, de covardia, não é isso, mas saia do país para aprender novas formas de pensar, novas formas de amar, de perdoar, de administrar, saiam, depois voltem e criem suas próprias estratégias, eu acho que é isso que está faltando, o exemplo que você deu de que as pessoas não tem modelo, eu vou te dar um exemplo tolo, a gente treinou todo o pessoal da ENGEPAR, do metrô Rio para receber  os  estrangeiros na copa e  eu trouxe da Espanha, não de propósito, era coisa de moleca assim, eu trouxe da Espanha uma expressão que eu uso até hoje que é: cavalheiro.

Luciano          Cavalheiro.

Andrea           Cavalheiro.

Luciano          Cavalheiro, sim.

Andrea           Eu uso isso, o que eu ou fazer? Eu entro no taxi e digo, cavalheiro, por favor, na rua Aratãs, cavalheiro, por favor a conta, eu falo isso, da sempre io falo, parlo questo, bom, resultado, as pessoas acham o máximo, me acham assim uma dama, ok, lá no metrô Rio a turma, a gente treinou todo mundo, bilheteria, como fala o que dirige o trem, não sei os nomes certos, mas enfim, faxineira, todo mundo, eles diziam, bah mas tu sabe Andrea, que o povo às vezes é mal educado. E vocês? Vocês já usaram o termo cavalheiro? Aí deram risada, porque o pessoal acha blasé, mas então eles tem uns uniformes muito bonitos, aí eu chamei o segurança e disse, vamos brincar, eu vou te pedir uma informação e tu vai me responder me chamando de senhorita e eu vou te chamar de cavalheiro depois vamos fazer com homem e a gente fez, e eu disse como tu te sentiu? Aí ele, ai, eu me senti tão importante, eu me senti respeitado, me senti valorizado. Beleza, é só uma palavra, cavalheiro.

Luciano          A questão é que não é só uma palavra…

Andrea           Exato.

Luciano          … é um conceito e a gente, quando deixa de usar, perde o conceito, ao perder o conceito você não consegue mais praticar aquilo que você está dizendo, a minha palestra “Tudo bem se me convém” tem um determinado momento lá que eu venho e falo de virtude e pergunto para a plateia, vem cá, quanto tempo faz que vocês não ouvem alguém se referir a uma outra pessoa como essa pessoa é virtuosa, ah essa palavra “virtuosa” sumiu do dicionário, não se usa mais isso é uma baita bobagem.

Andrea           Tu diz de alguém chamar alguém de virtuoso?

Luciano          Virtuoso, sim, essa pessoa é virtuosa, fulano tem virtudes, é virtuoso, isso desapareceu, sumiu e quando some a palavra some o conceito e ao sumir o conceito eu não uso mais, eu me desacostumei disso, então para mim todo mundo é bruto e quando aparece alguém eu falo como assim virtuoso, não ouvi mais falar disso, pois é.

Andrea           Eu mesma, tu me pegou agora, ah o que ele está falando?

Luciano          É isso aí

Andrea           Entendi.

Luciano          Você vê que é coisa do conceito. Quem quiser achar a Andrea como é que faz para olhar teu trabalho e ver o que você está fazendo, tem um site, como faz?

Andrea           Ah que legal, sim tem o site que é o www.andreasebben.com.br

Luciano          O Sebben tem dois B’s e um N de navio no final.

Andrea           … isto…

Luciano          Andrea, não é Andreia, é Andrea

Andrea           Andrea

Luciano          Andrea Sebben com s b b e n

Andrea           Tem os livros que é o “Intercâmbio Cultural, para Entender e se Apaixonar”, o “Expatriados.com”, “Os Nortes da Bússola”, que é um guia para conviver e negociar com culturas estrangeiras, agora eu estou terminando “Mais Pontes Menos Barreiras” ciência da intercultural.

Luciano          Está no Facebook

Andrea           Estou no Facebook, estou no Linkedin, onde mais?

Luciano          Sei lá, Twitter, outra coisa assim.

Andrea           Eu não sou tão tecnológica quanto… ah não, Twitter não, WhatsApp é sempre bem vindo. É isto e vai ser um prazer, vai ser um prazer.

Luciano          Olha, faltou programa, eu vou querer você de volta aqui, a gente vai tratar de um assunto, nós vamos mergulhar um pouco mais nesse assunto porque ele é fascinante, dá para ficar aqui até altas horas conversando a respeito.

Andrea           Luciano e eu agradeço muitíssimo, gente olha, eu não sei se vocês sentiram o que eu senti a primeira vez que eu olhei esse cara, mas foi um alento sabe, minha alma assim refrigerou, falei pô gente, cabeça pensante é bom, não que a minha seja a mais pensante de todas mas…

Luciano          Mas é bom, é bom…

Andrea           Que oxigena, oxigena.

Luciano          … saber que o trabalho de alguma forma está batendo em gente que está fazendo cabeça  de outras pessoas aí também e eu nada mais eu faço, só falo sou um cronista do que acontece por aí e acho que a gente devagarinho vai mudando essa cultura. Eu concordo com você, eu vejo mudanças culturais acontecendo e não é para melhor, o que eu não sei é se isso é bom ou ruim para esse mundo que nós estamos vivendo hoje, não sei se é um mundo diferente que vai exigir gente que tenha um olhar diferente, talvez seja mais árido, seja mais complicado do que era para nós, mas para mim está muito claro, eu vou fazer 60 anos, 60 anos e esse mundo que está aí fora não é mais meu, ele é dos moleques de 30, então eu já estou dando um passo atrás falando bom, espera um pouquinho, quem vai tocar adiante é essa moçada que tem 30 e talvez eu me queixar disso tudo pode ser só um sinal de que eu não caibo nesse mundo porque ele mudou, ele ficou diferente. Espera mais um tempo para ver se isso vai ou não. Obrigado por você ter vindo.

Andrea           Muito obrigada.

Luciano          Adorei, quero você de volta.

Andrea           Muito obrigada, obrigada gente por me ouvir aí, beijo carinhoso.

Transcrição: Mari Camargo