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Luciano Pires -

apoio dkt

Luciano          Muito bem, mais um LíderCast. Esse é um daqueles que para mim tem um significado muito interessante. Tem um filósofo romano chamado Sêneca que uma vez escreveu uma coisa, que é mais ou menos assim: “Feliz o homem que tem alguém por quem ele tem tanta admiração que só de pensar na pessoa ele tem paz espiritual…” alguma coisa assim, ele estava falando de modelos que a gente segue. E quem está aqui comigo para essa entrevista hoje é um sujeito que tem sido um modelo para mim desde que eu entrei no mundo das palestras. Quando eu fui começar eu falei, bom, se tem alguém que eu quero fazer igual, esse alguém é o Max e de lá para a frente eu passei a seguir o que o Max fazia, seguir os passos dele e acompanhei a carreira dele bem de perto, ou seja, admiro profundamente, então para mim é triplamente um prazer estar aqui como apresentador, como entrevistador, como amigo, como admirador e tudo mais. As 3 perguntinhas básicas, para começar, são as seguintes: eu quero saber o seu nome, sua idade e o que é que você faz.

Max                Max Gehringer, 66 anos, como dizia o filósofo Harrison Ford, “não é a idade, é a quilometragem” e eu acho que nada que está previsto na legislação brasileira em termos de profissões dessas que a gente procura na tabelinha do imposto de renda, mas palestrante que não é profissão, escritor que também não deve ser, comentarista de rádio e de televisão.

Luciano          Você está parecido comigo, eu tive um problema sério, eu trabalhei durante 26 anos numa grande indústria e enquanto eu estava na indústria era muito fácil, eu chegava no hotel, na hora de eu entrar no hotel, o cara botava o papelzinho lá, profissão eu botava, marqueteiro, diretor de marketing, podia botar até metalúrgico, auto peças e o dia que eu comecei esse meu negócio aqui, a primeira vez que eu fui, o cara botou o papel eu falei, bom, escrevo o que agora? Tudo o que você falou aí eu pensava também, mas eu falei, nada disso me define, eu sou um escritor, mas um escritor não é o meu trabalho principal e aí fiquei enrolado, hoje quando a pessoa pergunta: o que você faz? Eu pergunto se ela tem tempo. Que bom ter você aqui Max, que bom que você veio aqui ao LíderCast, eu vou explorar um pouquinho você aqui durante os próximos longos minutos, e eu queria, primeiro fazer um painel rapidamente, saber de onde é que você vem, de onde vem esse Gehringer, saber o que é, se é austríaco, alemão, o que é isso, de onde vem isso?

Max                É suíço.

Luciano          É suíço e você está aqui no Brasil, nasceu aqui?

Max                Nasci em Jundiaí.

Luciano          Jundiaí. Legal e aí começa a sua carreira, eu sei que você trabalhou num ambiente corporativo também, fala um pouquinho, o que você fez?

Max                Bom, para a gente não perder demais o tempo de quem está nos ouvindo, Luciano, eu cresci, me encontrei no mundo numa época em que a gente começava a trabalhar muito cedo, cedo demais, então era comum que com 10 anos a gente já tivesse algum trabalhinho que a gente fazia, mesmo que fosse para um vizinho, mesmo que fosse para não ganhar nada. Eu como nasci no interior e o interior naquela época era muito  mais distante da capital do que é hoje, quer dizer, vou para São Paulo, tinha que cortar cabelo, cortar a unha, engraxar o sapato, era quase que uma viagem a ser planejada com vários dias de antecedência.

Luciano          Onde era esse interior?

Max                Jundiaí.

Max

Luciano          Jundiaí.

Max                É, que fica, hoje fica a 50 quilômetros aqui da Marginal, mas na época parecia que ficava perto da Sibéria, como diz Eurico Miranda e meu pai e minha mãe eram operários, meu pai era mecânico, minha mãe era tecelã, a instrução dos dois era primária, eu então tive a imensa sorte, comparado com a geração atual de jovens, de não ter cobrança em casa, porque você imagina, se eu fizesse  o curso primário e mais o primeiro ano do ginásio eu já ia ser a pessoa mais estudada em casa, que era todo o sonho do meu pai e da minha mãe e…

Luciano          Seus pais eram brasileiros?

Max                … meu pai suíço….

Luciano          E a mãe brasileira.

Max                … a minha mãe é brasileira e então o que eles queriam é que eu concluísse o ginásio, depois fizesse algum curso técnico, não tinha nenhuma intenção de que eu fizesse um curso superior e quando eu comecei a trabalhar, vários bicos, ninguém jamais me disse que eu precisava ser chefe, ou ser executivo, ou ser diretor, ou ser nada, porque nós não tínhamos na família inteira ninguém que era chefe de ninguém. Tinha um tio que era contramestre de tecelagem acho que ele era o que tinha o cargo mais elevado de todo mundo na família, então sem pressão e sem ambição foi muito mais fácil começar a vida. Eu comecei fazendo pequenos trabalhos, eu passava, encerava um cinema em Jundiaí, passava vermelhão, para matar pulga e podia assistir filme de graça, incluindo filme até 18, eu tinha 12, então já era um grande negócio. Fui trabalhar numa mercearia, entregava leite, eu trabalhei numa farmácia, trabalhei numa transportadora como atendente, os serviços iam se sucedendo, aí eu cresci na carreira cinematográfica porque em vez de encerar eu virei pintor de cartazes, eu trabalhei de letrista, chamava…

Luciano          E se alguém perguntasse, você diria, eu faço parte do ramo cinematográfico.

Max                Minha avó falava, meu neto trabalha no cinema, ela já dizia isso quando eu encerava o cinema, imagina quando eu pintava cartazes de cinema. E aí eu comecei a trabalhar com carteira assinada, com 16 anos e aí fiz uma bela carreira diria eu, comecei a trabalhar o serviço que dava, aprendi o que era networking embora não conhecesse  a palavra, porque foi uma vizinha, a Cecília, que trabalhava, que foi lá e falou, conseguiu um emprego e eu também aprendi, na época, a primeira noção de que eu adquiri na vida de sustentabilidade, porque minha mãe falou para mim, quando eu tirei nota baixa na escola, ela falou para mim, você estuda para arrumar um bom emprego que nós não vamos sustentar vagabundo nessa casa, então isso chama sustentabilidade, não tinha esse nome, então a gente já tinha todas as lições desde criança, agora inventaram nomes novos para elas, a Cecília, nossa grande Cecília Lemer, vizinha, virou networking e não vamos sustentar vagabundo chama sustentabilidade, faça alguma coisa para todo o seu futuro.

Luciano          A cadernetinha do meu avô em 1915 na padaria, virou cartão de crédito, é a reinvenção, aquilo que a gente já conhece. Que legal. Me fala uma coisa aqui, você  está me dando uma série de insights legais e o principal deles é a diferença absoluta entre a tua criação com aquela da molecada de hoje em dia, que é outro papo, essa história do pai, se vira, vai sustentar que aqui ninguém vai sustentar vagabundo, hoje é ao contrário, hoje eu quero meus filhos comigo, quero a molecada, protegendo, não deixa aí e é evidente que isso vai dar uma consequência lá na frente que eu não sei se vai ser boa ou ruim, já discuti isso bastante, mas ai você entra num ambiente, digamos assim, corporativo, pode ser pequenininho, depois cresce. Eu sei que você foi longe, você chegou a ser altíssimo executivo em várias empresas, como é que foi esse processo, você falou o seguinte, ninguém nunca te ensinou que você ia ser chefe e um dia você  se pegou sendo chefe e o que é isso? Apareceu um insight na sua cabeça que diz assim, bom, daqui para a frente eu não sou mais índio, agora sou cacique, eu passo a mandar e eu vou ter que me preparar para isso, como é que isso aconteceu?

Max                Com toda a sinceridade do mundo, Luciano, eu passei boa parte da minha carreira me perguntando porque alguém tinha me promovido a alguma coisa, porque eu não enxergava em mim mesmo algum tipo de habilidade que me diferenciasse das  outras pessoas que trabalhavam comigo, sabe quando a gente é criança, tem aquele cara que sabe fazer conta de cabeça, tem o outro que tem  letra bonita, o outro que consegue decorar um livro inteiro, eu não me via assim, eu falei, pô, todo mundo é melhor que eu em alguma coisa, eu talvez fosse mediano numa série de coisas e foi por isso mesmo que eu fui estudar administração, que é um curso genérico, que você aprende um pouquinho de cada coisa, talvez isso faça parte da minha vida, mas eu trabalhava em fábrica, aprontamento de produção, na fábrica sempre aparece uma ou outra oportunidade e então um dia lá, na Cica, que fazia extrato de tomate em Jundiaí, um dia lá precisava uma turminha para fazer relatório ou alguma coisa assim então me deram um servicinho mais burocrático, eu devo ter feito aparentemente o serviço bem feito, então quando criou um pequeno setor que englobava todos os apontadores de produção, eu fui colocado no comando dele, foi o meu primeiro cargo assim, digamos, de chefiar alguém mas eu não me sentia muito como chefe, eu nunca fui muito bom para dar ordens para pessoas, esse tipo de coisa, então eu ficava tentando levar a turma numa boa ali, mais perdoando do que exigindo e sempre me dizendo: eu fui promovido, que coisa de louco, eu não esperava nada disso, minha mãe não acreditou, ela pensou que eu estava brincando quando eu falei, eu fui promovido. Promovido a que? Eu falei, eu sou supervisor, ela falou, nossa, super, parece um negócio tão grande, super… E depois criou-se na empresa um departamento que não existia que chamava planejamento e controle e produção, o que acontece é que eu era, de todo mundo que estava ali na fábrica, a pessoa mais próxima daquela área, eu não fui promovido a gerente, trouxeram alguém de fora, como a gente dizia na época no interior, trouxeram alguém de São Paulo, pessoal que usa terno, tem malinha, maletinha, uma maletinha que tinha um sanduiche de mortadela dentro, mas era uma maletinha e eu acabei sendo o sub, segundo cargo lá e continuei trabalhando na fábrica. Um dia apareceu uma concorrente, a Peixe, a Peixe foi a primeira grande empresa de conservas do Brasil, ela é do século XIX, do interior de Pernambuco, em Pesqueira, foi um colosso que um dia você precisa contar a história da Peixe, é impressionante, eles faziam tanta goiabada e gastavam tanto açúcar que eles construíram a maior usina de açúcar no Brasil, a Usina na Barra, em Pernambuco só para fazer açúcar para a goiabada, goiabada, marmelada e outros doces, eles  patrocinaram o primeiro programa de TV do Brasil, quando José Mojica veio cantar em São Paulo,  na TV Tupi, mas na época a Peixe já estava decadente, ela tinha sido comprada pelo grupo Brascan, que era o dono da  Light, venderam a Light para…

Luciano          Para os ingleses, não, para quem?

Max                … para o governo, foi priva.. como é o contrário?

Luciano          Foi estatizada.

Max                … estatizada e aí eles ficaram com um monte de dinheiro, saíram comprando tudo o que tinha pela frente, aí compraram a fábrica nacional de vagões,  compraram a Peixe, compraram mais umas coisas ali e a Peixe precisava de alguém que fizesse esse trabalho, que fosse a segunda pessoa da área industrial mas que cuidasse mais da parte de planejamento, administração, então era abaixo do diretor industrial mas já era um cargo…

Luciano          E aí ela olhou para o concorrente e falou, deixa eu ver quem brilha lá e tinha o Max lá.

Max                O diretor industrial da Cica tinha trabalhado na Peixe, então ele estava na Cica, então ele me recomendou quando perguntaram para ele, tem alguém? Ele falou tem um camarada aqui, não sei se ele vai querer ir. Então acho que eu fui indicado, eles me chamaram para conversar, eu achei que era uma boa ideia, eu tinha já 8, 9 anos quase de Cica, eu…

Luciano          Que idade você tinha na época?

Max                … 23?  É.  Eu achava que era uma boa ideia sair do interior e vim para São Paulo, pegar todos os bacilos que tem direito, a gente muda, a gente passa 15 dias espirrando quando muda para cá porque é tudo novo aqui…

Luciano          Eu vim com 18.

Max                … espirrou à vontade, é isso, você passa um mês gripado. Até se imunizar. E eu achei que seria uma boa ideia, a gente se separa, cria uma vida à parte, mora um pouco sozinho, então eu vim trabalhei e…

Luciano          Então, você me deu um gancho, eu vou te interromper e vou fazer isso o tempo todo. Me fala desse momento, o momento em que, porque aconteceu comigo também, aquele momento que diante de você, você tem algumas possibilidades, você só tem 23 anos, tem papai, mamãe em casa, a família toda lá, aqueles laços fortes na região, teus amigos estão lá, namorada, está tudo lá, de repente surge diante de você uma oportunidade. Ou eu continuo aqui tocando a minha vida e posso ir à diante, etc e tal, ou eu assumo esse outro negócio aqui que é escuro, é num  lugar que eu não conheço, onde eu não tenho  a minha família, onde eu vou estar sozinho e  eu não sei o que pode acontecer lá, então você tem duas situações, uma muito confortável e uma de extremo risco e você, aos 23 anos, fala eu quero risco e vai atrás. O que move, o que te leva a essa decisão?

Max                Minha família tinha uma mania de falar no diminutivo, você precisa ter um empreguinho, para ganhar um salarinho, aí você compra uma casinha, sabe, tem um casalzinho de filho, vai tirar “umas ferinha” no fim do ano, quem sabe até tem um carrinho algum dia, era uma vida assim,  uma visão de futuro muito diminutiva de modo geral, eu acreditava que se eu saísse da influência desse tipo de coisa…

Luciano          Do inho…

Max                … do inho, ninguém exigindo muito de mim, fosse viver num lugar diferente, eu pelo menos ia aprender um monte de coisa, então do ponto de vista de carreira, eu não tomei o que seria a decisão certa, eu vim para uma empresa muito menor, numa situação financeira de mercado muito pior, mudando para São Paulo, quer dizer, tive mais despesas, passei a ganhar menos do que eu ganhava, mas eu tinha um cargo de maior responsabilidade, passei a viajar para fábricas, pelo Brasil, coisa que eu não fazia quando eu estava em Jundiaí, conheci um monte de gente, conheci cidades…

Luciano          Mas aquela decisão foi racional? Foi racional…

Max                … foi.

Luciano          … de você sentar e falar, deixa eu pensar e racionalmente eu vou escolher ir para lá porque acho que lá eu posso ter mais possibilidades.

Max                Foi, é, eu pensei o seguinte, Luciano, eu falei, já estou há 8 anos aqui, ou eu saio agora ou eu vou passar o resto da vida aqui, falei, então vamos arriscar, existe um momento na vida que a gente pode arriscar, quer dizer, se eu mudasse para São Paulo e desse tudo errado, eu voltava…

Luciano          Aos 23 anos você podia…

Max                … eu voltava e arrumava outro emprego. Depois você começa a namorar, aí casa, aí tem filho, então a cada uma dessas circunstâncias, a decisão começa a ficar muito mais complicada, quer dizer, está namorando, já tem alguém para pelo menos dividir, casou, são duas pessoas agora, tem filho, já são 3, tem mais um, já são 4, agora os pais começaram a depender mais… então vai aumentando…

Luciano          As âncoras que te prendem onde você está, é muito mais difícil sair.

Max                … e diminuir a coragem, então eu sempre acreditei que se tinha um momento para tomar decisões na vida, era antes de casar e de preferência antes dos 25 anos, falei, então vamos arriscar, não tenho muito a perder.

Luciano          Pai e mãe, qual a reação?

Max                A minha mãe chorou durante um bom tempo porque, ah vai mudar para aquela lonjura… Você sabe o que vai acontecer lá.

Luciano          Para quem está ouvindo a gente e não está em São Paulo, eu vou explicar uma coisa aqui: tem gente hoje que mora em Jundiaí e trabalha em São Paulo, sai de manhã e vem para cá e trabalha em São Paulo e volta para lá, quer dizer, nós estamos falando de um… é tão absurdo pensar nisso hoje em dia, quando você fala pô, vai para longe, vai para outra cidade, meu Deus, para falar como é que eu faço, a ligação telefônica vai demorar.

Max                Eu fiz isso, Luciano, durante 20 anos, indo e voltando todos os dias, dirigindo, que acontecia? Os carros começaram a ficar melhores, as estradas começaram a ficar melhores, de repente o que era tremendamente distante, começou a ficar perto, quer dizer, quanto tempo leva hoje uma viagem? 35 minutos que é o tempo de sair e chegar na boca da Marginal e dali para a frente é o mesmo problema de todo mundo, não sabe quanto tempo vai demorar para andar um quilômetro, mas até chegar ali é meia hora, piscou já chegou.

Luciano          Como a gente só imagina que essas barreiras que caem é a barreira da tecnologia, mas fisicamente ela cai também. Jundiaí não ficou mais longe, a distância é exatamente a mesma, mas hoje você não tem mais problema nenhum em morar lá e trabalhar aqui.

Max                É o contrário, todo mundo está indo para lá, tem um monte de gente morando lá e trabalhando aqui, mas que sempre morou aqui e está preferindo morar lá.

Luciano          Seu pai apoiou a medida, a decisão?

Max                Meu pai como bom suíço, meu pai sempre achou que eu teria que tomar as minhas decisões. Sempre, desde criancinha, acho que o primeiro boletim que eu levei para a casa, minha mãe falou, ah trouxe o boletim, conversa com ele, ele falou, problema dele, ela falou mas como é problema dele, ele tem seis anos, como é que pode ser problema dele? Meu pai achava isso, ele não tinha aquele apoio explícito, mas também ele não achava que estava errado, chegava, dizia pai, eu vou fazer tal coisa, ele bom.

Luciano          Você sabia que ele estava lá, você tinha um backup lá.

Max                Isso.

Luciano          Aí você veio para cá e chega num ambiente falando diferente, eu cheguei aqui valando “poRta” “poRco” FeRnando” com “oRgulho”, caí dentro de um ambiente paulista, onde é porta, porco, Fernando, com orgulho, quer dizer nem que eu quisesse eu conseguia sumir na multidão, eu era o caipira  lá no meio, como é que  foi esse teu desembarque aqui?

Max                Fui morar no Largo do Arouche, em frente ao O Gato que Ri, tinha o cine Belas Artes ali, minhocão, era um belo lugar ali para morar, Pingão.

Luciano          Que ano era isso?

Max                75

Luciano          75, foi exatamente quando eu cheguei em São Paulo, cheguei em 75.

Max                75. Pegava o carro, descia ali… do Arouche, descia a Avenida… a São João,  aquele pedacinho, pegava o Minhocão e a empresa que eu trabalhava ficava na boca da Marginal do Tietê, então era muito fácil de chegar, muito fácil e tinha um trânsito miserável, principalmente para quem vinha de fora, eu aprendi a primeira coisa, Luciano, o seguinte: quando a gente muda para uma outra cidade ou para um outro país, se a gente ainda pode chamar o cabeça  do casal, que era antigamente, aquele que trabalhava, hoje pode ser a cabeça do casal, a mulher vai o homem vai junto, essa pessoa sofre menos, o que trabalha, porque ele tem o que fazer o dia inteiro, ele está com o tempo tomado, então tudo o que ele tem que fazer é achar o melhor caminho para chegar na empresa e chegando lá, passar o dia, ele vai conviver, as pessoas não são tão diferentes assim, volta e dorme. Então eu, para dizer a verdade, não senti muita diferença.

Luciano          Você estava solteiro.

Max                Eu estava solteiro. Eu queria te falar uma coisa legal sobre sotaque, meu pai viveu muito tempo no Rio, quando ele veio para o Brasil, ele chegou com 14 anos no Brasil, com 17, 18 anos ele foi para o Rio e ficou lá até os 32 e ele sempre falava que ele não tinha nenhum problema que eu falasse “ceRca” “voRta” e “poRta” com a família, mas ele queria que eu aprendesse a falar direito, então ele me fazia ouvir a Rádio Nacional do Rio de Janeiro.

Luciano          Falar direito era… para ele aquilo era falar direito, sim.

Max                Então pegava, ele sintonizava o rádio e depois ele tirava a lição, que era eu repetir o que eu tinha ouvido no rádio, quem é do Rio de Janeiro está nos ouvindo não vai acreditar muito nisso, mas o carioca em 1960, 70 tinha muito menos sotaque do que tem hoje, é só pegar, tem, por exemplo, gravação da final da copa do mundo em 1950, que está disponível, a gente pode ouvir, com o Antonio Cordeiro e o Jorge Curi…

Luciano          Espera aí que eu vou tocar um pouquinho. 21:51.2 – 21:54.1 pausa.

21:54.1 Luciano fala da gravação 22:00.6 Luciano explica.

Max                E aí…

Luciano          Mas e aí…

Max                … você ouve os locutores falando Rrrádio Nacional, Rrrrio de Janeiro, quer dizer, aquele R que eu uso muito hoje, o pessoal fala, de onde vem esse R, eu falo, vocês não vão acreditar, do Rio de Janeiro, não, é que nós não falamos assim, eu falo, não fala agora, mas um dia talvez tenha falado.

Luciano          Ou era o modelo da rádio naquela época, era o modelo da rádio.

Max                Provavelmente, era o que mais ou menos se chamava o padrão bacharel…

Luciano          Que fala jornal, jornal, o L no final…

Max                Jornal Gaúcho, então era Rrrádio Nacional do Rrrrio de Janeiro à noite, agência Nacionall na voz do Brasil, Ministério da Justiça, negócios exteriores e de manhã o grande matutino Tupi, então falava Alô caro ouvinte, são 7H e 20M não perca a sua condução. Então eu ouvia no interior esse pessoal falando e comecei a incorporar um segundo sotaque que era o sotaque que eu tinha que usar quando não tivesse falando com a caipirada, hoje ele me é extremamente útil, extremamente útil, eu agradeço muito a preocupação que meu pai teve.

Luciano          Quando você volta para o interior, você fala “porta” “porco”… fala normal?

Max                Falo. É porque em família você começa a falar meio, sabe, usar umas mesóclises aí, as “tia” fala, te carreguei no colo, sem vergonha, mau agradecido, ficou rico, ficou orgulhoso, sabe essas coisas? Então…

Luciano          Eu venho para gravar o Café Brasil aqui, eu venho aqui e faço a leitura dele, eu tenho essa preocupação, eu falei, eu tenho eu fazer uma leitura que não denote nenhum tipo de sotaque que privilegia. Então eu sou obrigado a falar porta, porco ou… de vez em quando sai um “poRrta” lá e dói, no entanto quando eu estou no interior, é “porta”, “porco” e conversando na boa aqui sai tudo assim, mas é legal essa história, interessante, aprendeu pelo rádio.

Max                É, nós temos um amigo em comum, que é o Reinaldo Polito e eu descobri que o Polito e eu temos idades bem parecidas, experiências muito parecidas, porque o Polito é de Araraquara e eu e ele fizemos a mesma coisa quando a gente tinha treze anos, a gente fazia o serviço de auto falante da quermesse da igreja matriz, ficava dedicando música para quem estava na barraca não sei do que e eu e ele nos divertimos muito porque São Paulo está bem mais perto de Jundiaí do que Araraquara está. Araraquara é longe, mas é impressionante, ele, o Polito contando o bairro, a vizinhança em que ele vivia e eu contando a minha, dá impressão que a gente morava há duas casas de distância, casa germinada como dizia no interior, é muito parecido, o tipo de vizinhança, o fato de que todas as casas tinham corredorzinho do lado que estava sempre destrancado e as visitas entravam sempre pela cozinha, a porta da sala ninguém nem sabia onde estava a chave porque jamais era aberta, então. E ele também incorporou esse sotaque, ele tem dois,  ele tem o de Araraquara e tem o que ele usa para ensinar na expressão verbal.

Luciano          Mas aí, você vem para cá, chegou na capital e agora o jogo é pesado, não tem mais papai mamãe, não tem os amigos, você está sozinho aqui, e aí?

Max                Bom, ai eu fiquei seis anos na Peixe, talvez a primeira grande lição que eu tive foi que eu comecei a trabalhar em maio e em dezembro a Peixe foi vendida. A Brascan vendeu a Peixe, a comunicação sobre os que iam ficar e os que não iam ficar, foi feita no dia 24 de dezembro e eu fiquei, então imagina uma cena de todo mundo de pé, o responsável lá por recursos humanos dizendo, olha, as pessoas que eu falar o nome, por favor permaneçam, as que eu não falar então feliz natal e a gente se vê na semana que vem, então você torcia para não falar o nome…

Luciano          Isso é um campo de concentração, os caras chamando os vem aqui vem para o trem os que não vem sai no trem, meu Deus do céu, e aquele clima maravilhoso.

Max                … é, e isso foi quando, seis meses, ou oito meses, depois de eu ter começado, esse é um alerta, pode acontecer com qualquer um, de novo eu pensei, por que que não aconteceu comigo? Talvez porque não existisse uma outra pessoa que fazia o que eu fazia, quer dizer, toda a parte de números, dados, diário industrial, eu levantava, eu analisava, eu tinha, então esse cara tem alguma coisa para fazer, vamos segurar, além disso não ganha muito. Então eu fiquei. Só que esse pessoal era realmente cortador de custo e aí aconteceu uma outra coisa que eu aprendi que nunca mais esqueci, Luciano, que não existe organograma onde você tem um quadrinho subordinado a um quadrinho, não existe isso, quando você tem um quadrinho subordinado a um quadrinho, um dos dois está demais e o organograma era exatamente assim, tinha o diretor industrial, tinha o meu quadrinho e ali embaixo tinha gerente de fábrica e tudo mais, basta qualquer consultoria hoje ao ver os dois quadrinhos um pregado no outro fala assim, pode eliminar um dos dois que a coisa vai continuar funcionando e numa das famosas crises brasileiras que nós tivemos, teve corte de custo e foi eliminado o quadrinho do diretor e eu me tornei sem muita experiência técnica, eu me tornei o cabeça da área industrial e como eu me dava bem com o pessoal, ninguém reclamou de eu ter ficado e eu também. De novo, não era o cara que ia lá cobrar, perturbar, falava, vocês sabem o que vocês devem fazer, o gerente de uma das fábricas tinha de casa, tempo de casa, o que eu tinha de idade, então não era, vou dar dura num cara desse. Tinha vinte…

Luciano          Você reparou que você estava fazendo com a tua equipe o que o seu pai fez com você?

Max                … é, dar liberdade…

Luciano          A mesma coisa que seu pai fez com você, o problema é teu. E essa coisa, o meu papel era perdoar os caras, muito mais do que cobrar, que me parece que é o modelo brasileiro de administração, que naquela época você já exercia, o paizão. Se você vai lá e dá uma dura, todo mundo fica magoado, pô, não gosta de mim, não tem aquela assertividade que o norte americano tem, por exemplo, que o cara chega, te dá uma dura e ninguém encara aquela dura como uma coisa pessoal, no  Brasil, pelo amor de Deus, mas é interessante isso, você está fazendo com eles o que teu pai fez com você.

Max                … e talvez isso me ajudou muito, Luciano, porque eu tinha me formado em administração nessa época. Agora você imagina, eu trabalhava em área industrial, eminentemente técnica, química, alimento e não tinha nenhum conhecimento específico técnico de alimentos, engenharia de alimentos, engenharia química ou engenharia de produção, ou qualquer tipo, a minha sobrevivência se devia apenas ao fato de que as pessoas confiavam em mim e eu confiava nelas, mas essa confiança começava quando eu dizia claramente para os engenheiros que eu não entendia nada de engenharia, falei, se vocês tentarem me enganar vocês vão conseguir em aproximadamente quinze segundos. Eu espero que vocês não façam isso, porque vocês vão precisar de um monte de coisa e eu estou mais perto dos homens que vocês, então eu posso conseguir um monte de coisa. E eu me preocupava em saber o que a pessoa estava precisando, até o que a família, às vezes tem um filho que joga bola, pô, vamos meter o moleque numa escolinha, esse tipo de coisa e criar esse espírito muito mais de colaboração e dizer que vocês não precisam de mais um técnico para tecnicamente dizer o que vocês devem fazer, vocês estudaram para isso, se foram contratados tem experiência suficiente, eu sou, então a ponte entre vocês e algo que vocês precisam, querem, necessitam e podem ter em termos de carreira.

Luciano          Ai alguém vê isso aí, cria um título novo, chamado Líder Servidor e vende milhões de livros.

Max                Se eu tivesse tido essa ideia. Mas continuei com a preocupação, um dia vão descobrir que… podem botar alguém melhor no meu lugar, então. Mas, durou o suficiente para eu começar a adquirir mais confiança em mim mesmo, eu falei, pô, é incrível porque eu cheguei à primeira posição de uma área industrial de uma grande empresa sem ter estudo para isso e de certa forma sem ter tido a experiência necessária, eu trabalhava há muito tempo, em anos, mas eram serviços pequenos, a gente não aprendia assim…

Luciano          Então eu vou lhe provocar, tá? Puta sorte hein, Max?

Max                É, eu tive sorte.

Luciano          Você é um cara sortudo, hein? O que é a sorte?

Max                A sorte é… eu acredito na sorte no sentido de que às vezes a pessoa se prepara extremamente bem e a oportunidade não aparece, outras vezes a oportunidade aparece e a pessoa não se preparou, essa segunda é terrível, porque aí é uma falha da pessoa, mas a primeira, que ela se preparou é sorte. Eu conheço muita gente, Luciano, inclusive no nosso ramo de palestrante, a gente conhece um monte de palestrante bom, eu conheço no mínimo 20 palestrantes que eu considero bem melhores do que eu, mas não conseguiram deslanchar, sabe, faltou em algum momento faltou alguma coisa que ninguém consegue explicar, isso eu chamo de sorte, é alguém chegar assim e dizer, escuta, você não quer ter um programa na televisão ou qualquer coisa assim? Porque eu? Não sei, escolheram. Alguém tirou o papelzinho da urna lá em cima nas nuvens e é você.

Luciano          Ou porque você estava naquela festa, naquela hora em que surgiu a oportunidade e você estava lá.

Max                E aí estava preparado, essa é a parte boa, quando apareceu, está preparado? Estou preparado, não tem problema nenhum, então eu acredito que o que nós chamamos de sorte, o que algumas pessoas podem chamar de fé, que isso tem uma influência e é bom a gente acreditar, é bom pedir esse tipo de proteção e agradecer por ela porque se isso não fizer bem para a carreira, mal não vai fazer, nenhum e vai fazer a gente se sentir melhor.

Luciano          Até porque você transparece essa tua vontade de fazer acontecer, brilho no olho, isso está tudo ligado, é a mesma coisa. Eu fiz um programa há um tempo o chamado “Serendipidade” é um termo inglês muito pouco usado aqui que é aquela história de você estar procurando uma coisa e encontrar outra absolutamente inesperada e aquela outra, quer dizer, você, estou pesquisando um negócio, descubro outra coisa, vou olhar, penicilina, descobri a penicilina a partir de outra coisa que eu estava fazendo, isso é serendipidade, que tem tudo a ver com essa história de o meu fogo interior de estar buscando alguma coisa, pode ser que aquilo que eu estava buscando eu não achei, mas abriu um caminho do lado aqui que foi exatamente o que aconteceu contigo, eu não sei se você imaginava naquela época que um dia você seria o cara que estaria na rede globo de televisão, no programa de maior audiência da TV brasileira, falando na TV, falando num microfone de rádio, você sai, então, você fica nesse teu caminho e de  repente você sai da indústria e vai para serviços.

Max                Eu fui para, saí da área industrial eu fui para vendas, eu fui contratado por um headhunter porque era uma multinacional, então fiz as entrevistas e aí vem, de novo, os americanos queriam uma pessoa para vaga de diretor industrial que fosse a segunda pessoa da área industrial e não a primeira. Eles queriam uma pessoa sem muito vício, que ainda tivesse que aprender, para poder desenvolver, então eu entrei na multinacional como diretor industrial e depois fui para vendas. Quando eu fui transferido para vendas, eu já tinha perdido o medo, porque eu já tinha tido que explicar na área industrial como é que eu conseguia ser diretor industrial sem ser engenheiro, agora eu vou para vendas, você nunca foi vendedor, eu falei dá licença, é tudo a mesma coisa, é gente, com necessidade, com vontade, com queixa, com desespero, esse tipo de coisa. Junto todo mundo aqui, tem três ou quatro  que são mais experientes, tem dois ou três aí que eu já desconfiei da cara deles, então o resto parece tudo gente legal, falei, escuta é resultado, vendas é uma área gostosa, assim como a  área industrial porque dá para medir resultados, se não o objetivo, o cara fez o cara não fez, é mas furou o pneu, mas choveu, tá bom, no quinto mês seguido, que só chove na estrada que ele vai andar, você começa a desconfiar que alguma coisa está errada.

Luciano          Você me deu um gancho delicioso, deixa eu dar uma fugidinha aqui, eu fujo e volto. Se o Bernardinho fosse convidado para ser técnico da seleção brasileira de futebol, daria certo?

Max                Eu tenho dúvida, isso foi aventado há algum tempo, o Bernardinho até disse, na época, que se ele pudesse levar toda a comissão, e tivesse tempo, o Bernardinho deixou isso bem claro, ele precisava de um tempo na seleção para que ele pudesse impor, recolher dados, fazer o planejamento, treinar, impor a filosofia e aí começar a ganhar, isso não funciona no futebol…

Luciano          Não, esquece.

Max                … não, seleção brasileira não, ah vamos fazer um teste, vamos fazer um teste mas vamos ganhar, fazer um teste, nós vamos perder, cai o técnico.

Luciano          Se tivesse tempo, você acha que ele faria, ele conseguiria?

Max                Ah eu acho que sim.

Luciano          Mesmo não sendo um técnico de futebol.

Max                Não, mas ele ia trazer três ou quatro que eram, porque ele tem aquele monte de gente que fica do lado dele, notebook, ali tem um especialista em cada coisa. Nós criamos, desde sempre no Brasil, a ideia do treinador como uma figura extremamente poderosa e agora está ficando cada vez mais poderoso, porque os técnicos ficam e os bons jogadores vão embora, então o técnico, hoje você já não vê mais jogador dando entrevista depois do jogo,  é  só o técnico que fala e na cabeça do brasileiro ainda tem essa coisa de que o técnico, a influência dele no resultado é enorme, não só na parte tática, como também na parte psicológica, capacidade de motivar o jogador, time que perdeu dez jogos seguidos, de repente muda o técnico ganha cinco jogos seguidos, o que aconteceu? Aconteceu que o pessoal botou na cabeça que podia ganhar, então eu acho possível.

Luciano          Você não acha que isso é uma questão da cultura do brasileiro? O brasileiro precisa desesperadamente de um técnico, eu estou falando o brasileiro em geral, e a gente vê isso claramente, você vai ver os esportes nossos de competição, onde a gente sempre se dá muito bem quanto tem um técnico tipo o Bernardinho que o cara vai lá, quando é o Felipão que ganha a copa, era o Felipão, o paizão que juntava, então quando aparece um técnico brasileiro, se torna quase que imbatível, a hora que não tem técnico a gente se perde, ou depende de um talento único, um Guga da vida que aparece ali, pelo brilho pessoal dele, ele conquista, ou então não dá nada porque brasileiro precisa de técnico. Volto para o nosso caminho aqui agora, então você, assumindo esse papel, entra lá para ser o técnico da equipe de vendas e de repente você está lidando com gente e nessa altura da tua vida, você já não era mais o menino do interior que estava experimentando, você já estava numa posição onde as decisões tem impactos importantes e tudo mais. Você foi se preparando para isso ou foi aprendendo na porrada?

Max                A multinacional tinha a vantagem de fazer um tipo de avaliação de desempenho que eu não tive nas empresas brasileiras, as empresas brasileiras eram muito mais de, se alguma coisa está errada, alguém falava e tentava resolver imediatamente, não tinha planejamento de carreira, uma série de coisas e foi a primeira vez que alguém sentou comigo e disse, olha, nisso aqui você é bom, nisso aqui você não é tão bom, então nós vamos pagar um curso para que você melhore, a gente fazia cursos no Brasil, fazia cursos fora do Brasil. Eu fiz alguns que eu considero muito  bons, me ajudaram bastante, mas uma coisa que eu preciso agradecer à multinacional, foi a primeira vez que eu fiz uma apresentação em público, eu tinha 30 anos, primeira vez que eu fiz uma apresentação, eu trabalhava desde os 15, pelo menos, 14, 15 anos, eu nunca tinha falado para um grupo de mais de 3 ou 4 pessoas, quando eu entrei na multinacional uma das coisas que me disseram, você tem que aprender a falar, você tem que chegar na frente de uma plateia, seja de5 pessoas ou seja de 500 pessoas, 2, 3 mil vendedores como nós tínhamos e dizer alguma coisa que os convença a fazer alguma coisa, hoje isso para mim tem um significado enorme.

Luciano          Eu não quero perder essa oportunidade porque eu estou diante de um dos maiores palestrantes do Brasil, sem dúvida nenhuma, se tiver um top five, o Max é um dos top five do Brasil, que está me dizendo aqui da primeira vez que ele enfrentou o publico, eu quero explorar isso um pouco mais. E aí, chegou um determinado dia, você tinha que subir, não sei se subir num palco, você tinha que ir lá na frente e falar para X pessoas..,.

Max                Em inglês.

Luciano          … ah, em inglês, perfeitamente…

Max                Fui fazer uma apresentação (inaudível)

Luciano          … ah, foi lá fora ainda…

Max                Foi lá fora. Eu considerei seriamente, Luciano, acordei tão nervoso, aliás não dormi, levantei nervoso, eu falei, pô eu vou tomar um vidro de Pepto Bismol, que é aquele purgante tipo Magnésia, que tem no Brasil aí eu tenho uma diarreia, alguém me leva para o hospital e assim eu escapo, tudo aquilo me passou pela cabeça, como é que eu escapo disso? Meu inglês não é bom, eu não entendo o suficiente, eles vão me fazer perguntas que eu não sei responder, sabe aquele desespero que te dá de alguma coisa nova?

Luciano          Aconteceu, muito parecido, eu tive que fazer isso também, em inglês lá fora e dá vontade de pular do prédio e falar eu vou desaparecer ninguém vai me achar mais. E aí?

Max                Aí a gente descobre que americano é legal, não sei se fosse outro povo se seria diferente, se o pessoal seria mais agressivo, mais os americanos tratam a gente muito bem, então eles procuraram me ajudar, no fim o presidente da empresa até me disse, olha, parabéns, o seu inglês melhorou muito, eu falei para ele, ele não, é que os resultados são bons, quando o resultado é bom a gente pode fazer a apresentação em japonês que todo mundo entende. Aí eu fui pegando o jeito pela coisa, eu comecei a gostar de falar, incrível, eu falei como muita gente, eu disse, eu não gosto de falar, não, manda outro falar, não quero falar, muitas vezes a grande oportunidade que alguém tem na vida, pode vir num momento desse: então você é assistente, ou é alguma coisa, preparar uma apresentação para o chefe fazer, um power point, alguma coisa, aí o chefe toma um Pepto Bismol, quem vai fazer a apresentação, o único cara que entende a apresentação além do chefe, aí está lá o Zezinho, em frente à presidência da empresa, dois ou três gringos ali, faz a melhor apresentação e ninguém mais esquece dele.

Luciano          O que é esse prazer de estar lá na frente com o pessoal te ouvindo, quanto disso é ego, quanto disso é vaidade, quanto disso é percepção de que você está ajudando alguém, como é que é isso? Como é que você vê isso, Max?

Max                O componente ego, ele substitui o componente vergonha, quase que na mesma proporção, você tinha uma vergonha enorme, ao ser aplaudido pela primeira vez, há uma sensação que apaga todo um passado, abre um horizonte totalmente novo…

Luciano          E você quer de novo.

Max                … é uma droga, Luciano, você vai querer outra vez, pô, que hora que eu vou falar de novo, só no ano que vem, não, vamos armar uma convenção de vendas aqui para que eu possa falar, e a gente tinha muitas convenções de venda, fazia convenção com os americanos, então todo mês tinha alguma coisa, convenção regional, mas entrava o ano, vamos começar a falar e aí eu gostei da experiência, então tem um componente de se sentir bem, de se sentir reconhecido, aplaudido, é verdade que todo mundo que está lá na plateia eram subordinados, quere dizer, ou aplaudia ou estava despedido, mas de qualquer forma, melhor ser aplaudido do que ser vaiado…

Luciano          Tinha uma plateia. (3x)

Max                … não muito neutra mas tinha uma plateia.

Max                Ai eu comecei através de alguns amigos que você também conhece, o pessoal da SSJ, o Fernando Jucá, Fernando Jucá e o SS, o Santilli e o Conrado, eles tinham aberto uma pequena empresa com uma ideia maravilhosa, que damos aqui aos nossos ouvintes: quer ficar milionário? Faça o que esses meninos fizeram, eles se formaram, uma tremenda de uma faculdade, a melhor faculdade de administração do Brasil, cada um entrou numa empresa grande, enorme, aí se juntavam na sexta feira, happy hour e um dia alguém falou assim, a maioria das coisas que seaprende na escola não serve para nada no trabalho. De sexta feira, normalmente você fala, é verdade e o futebol como é que está, já muda de assunto e eles levaram isso a sério e começaram a montar um curso para recém formados que iam ouvir profissionais que estavam trabalhando em empresas, não eram palestrantes profissionais, contar o que era de verdade uma empresa e através do Fernando Jucá eu fui fazer um desses eventos, falar na minha área, que era vendas, planejamento, um pouco de marketing, eu preparava a apresentação, aí fiz a primeira, legal, gostou, 300 reais eu ganhava, mas era legal. Aí foi a segunda, foi a terceira e eu comecei a fazer. Aí já não era uma plateia de subordinados, foi uma belíssima experiência.

Luciano          E você não estava falando dos resultados da sua empresa nada disso, você estava falando já de comportamento, de liderança, etc e tal.

Max                É algo que desde aquela época eu venho repetindo que quando uma faculdade tem um currículo acadêmico de um curso de negócios, ela vai falar de finanças, vai falar de administração, vai falar de contabilidade, vai falar de uma série de coisas. Aí você fala assim, bom, comecei a trabalhar, primeira coisa, sentou um cara do meu lado aqui que não usa desodorante está um cheiro desgraçado de ruim, que aula que eu aprendi como lidar com essa situação? Meu chefe me deu uma bronca que eu considero injusta, que aula que eu aprendi isso? Tem um colega aqui que é tremendamente invejoso e está fazendo minha caveira, como é que eu reajo? Que aula que eu aprendi? Nenhuma. Então você descobre que quase a totalidade das coisas que vão fazer com que um profissional se saia bem ou mal, seja querido, seja odiado, seja respeitado, seja ignorado, ele vai aprender na prática, no dia a dia, então era isso que a gente fazia, como é que você começa, o que é, por exemplo, período de experiência numa empresa. Período de experiência é o período em que um aprende a confiar no outro, o que é estágio, que é um…. estagiário cobra muito, ah eu comecei na empresa e não acontece nada, falei não vai acontecer nada, você tem o estágio inteiro para provar o seguinte: se o teu trabalho é deletar planilha do computador, não é que você vai fazer planilha, você só vai deletar, tem que aprender, só isso, você tem que ser  o melhor deletador de planilha que já apareceu nesse planeta, tem que criar esse diferencial, muita gente já entra e começa a reclamar, não, mas o que eu estudei, isso aqui qualquer pessoa que anda e fala também faz, não é trabalho para mim, eu já tenho um nível, não, não é isso que a empresa quer, a empresa quer saber o seguinte, se a gente der o pior trabalho do mundo, como é que você vai comportar em relação a isso…

Luciano          Vai se desestimular, vai ser a vítima, etc e tal. Outro dia eu estava, eu não me lembro onde é que foi que eu vi alguém comentando e eu achei fantástico aquilo e a pessoa estava dizendo exatamente isso, que ela mede a qualidade da pessoa que trabalha com ela pelo quanto essa pessoa se dedica para a tarefa mais imbecil, ele falou. Então eu consigo pegar uma planilha Excel e ver beleza na planilha Excel porque eu consegui ver que o cara, pô, o cara trabalhou isso aqui, ele colocou uma coluna em bold, a outra ele arrumou, ele fez a diagramação, o cara botou um tempo para transformar aquela planilha idiota, uma planilha Excel, em  algo esteticamente apreciável. Esse cara merece minha atenção, o outro que fez a planilha do jeito que a planilha é não está nem ai, então é possível colocar esse teu tesão, a tua qualidade em qualquer tipo de ação e isso é  muito difícil hoje em dia para quem está, eu entrei hoje na empresa, eu já quero ser o diretor amanhã, quero a vaga perto do elevador e etc e tal. Bom, aí você continua na tua carreira e chega lá, presidente de empresa, e aí cara? Foi sorte também?

Max                É, mais ou menos, porque ali eu já era mais ou menos conhecido no mercado e eu acho que foi um pouquinho de sorte, um pouquinho de, não sei definir bem, mas…

Luciano          Foram te buscar?

Max                … foram me buscar, o presidente da empresa,  ao contrário do diretor, quer dizer, a pessoa vai subindo, encarregado, supervisor, gerente, diretor, até diretor tem uma vantagem, a pessoa sobre dentro de uma determinada área, ou só finanças, ou administração, vendas, ela tem uma experiência enorme naquela área, então quando ela chega lá em cima ela entende tudo e todos  os subordinados são da mesma área, o presidente não, se ele tem 5 subordinados, são 5 áreas diferentes e eu garanto que dos 5, 3 entendem muito mais do que ele da área específica, então aí é o que se chama, tradicionalmente, de a solidão do presidente, ele tem que acreditar desesperadamente que os subordinados estão fazendo tudo certo e os subordinados tem que acreditar que eles tem um presidente que vai funcionar como o escudo que vai defender, que vai ser justo…

Max                … que vai ser justo, o que eu fazia como presidente, eu vinha fazendo acho que desde que eu era office boy, eu fundava jornalzinho, se a empresa não tinha jornalzinho eu fundava um e continuei a fazer isso quando era gerente, quando era diretor e quando era presidente, eu fazia o jornalzinho mural, tirava umas cópias, botava nos quadros de aviso, tentando antecipar qualquer boato negativo que pudesse haver, quer dizer, antes que alguém espalhe nós vamos dizer o que está acontecendo, então de certa forma eu me transformava no gerador de notícias ou boatos, se a notícia virasse boato eu soltava uma outra notícia desmentindo o boato, procurava também sempre nas comunicações não ser burocrático demais, aquela linguagem assim muito quadrada, eu não citava, como você fez muito bem, não citava frase de filósofo, nada, mas tentava ser um pouco divertido naquilo que eu escrevia para as pessoas. Continuei, durante esse período, a fazer as palestras ali para jovens que estavam entrando no mercado de trabalho e aí uma conhecida nossa, Denise, do banco de palestrantes que trabalhava na SSJ na época, me viu, falou, eu queria, ela queria se lançar na carreira de agenciadora…

Luciano          Que ano era isso?

Max                … 1997

Luciano          97

Max                … e ela vaio falar comigo, ela tinha me visto falar lá para a SSJ, falou você não quer virar palestrante profissional? Eu falei, soa tão ridículo, palestrante profissional, vê se pode? E por algum motivo eu comecei a pensar que ela podia ter razão, ela podia ter razão, eu falei, eu gosto de falar.

Luciano          Você já tinha visto palestrantes profissionais se apresentando até então?

Max                Alguns poucos que nós havíamos contratado para as nossas convenções, mas não era comum que a gente contratasse, a gente gostava de fazer teatrinho, tudo com o pessoal da casa, normalmente economistas.

Luciano          E aquilo nunca chamou tua atenção, de você olhar e falar, pô, esse pode ser um business lá na frente?

Max                Para dizer a verdade, Luciano, bem lembrado, quando eu estudava na faculdade ainda, em 1972…

Max                … 72, na Faculdade Padre Anchieta de Jundiaí, um dia teve lá no teatro, veio falar o Joelmir Betting, que estava com um livro famoso na época, o “Na prática a teoria é outra” e ele chegou, sentou, no palco só tinha uma mesa, então ele sentou, tinha o microfone em cima da mesa, ele pegou um calhamaço de papel e começou a ler, como ele fazia na televisão, quer dizer, ele não esteve falando de pé, andando, interpretando, ele leu, literalmente ele leu, aí terminou, todo mundo bateu palma e ele saiu, nós nos encontramos, porque saímos pelo fundo ali, encontramos, ele estava entrando num Galaxy, com motorista, eu falei, pô, essa é uma baita de uma profissão, pô, tudo que tem que fazer é escrever um texto, ler e sai de Galaxy, eu preciso pensar nisso no futuro…, então não era propriamente uma ideia nova e pode ser que quando a Denise falou comigo eu tenha me lembrado do Joelmir Betting e também do John Lennon que viu o filme do Elvis Presley e quando viu mulherada pulando em cima do Elvis falou, “this is a great job”, pode ser tudo consequência disso e eu comecei a fazer algumas palestras, mas eu senti imediatamente duas coisas: a primeira é que era legal, eu senti uma enorme responsabilidade porque agora, ao contrário do que acontecia, eu estava ganhando razoavelmente bem para fazer a palestra, quer dizer, quanto mais você ganha mais você fica preocupado, que você pode deixar de ganhar então eu ficava muito preocupado, muito preocupado, mas a gente vai aprendendo de palestra em palestra como é que controla um pouco a ansiedade. A segunda coisa, decorrência da primeira, é que eu tinha um trabalho, então eu trabalhava, era presidente de empresa, então eu não podia dizer, agora eu vou para a Bahia e volto depois de amanhã, então eu só podia fazer palestra desde que elas não interferissem com o meu horário, ou seja, de  noite em São Paulo, no máximo. Depois de um ano, quando  começou a ficar mais ou menos claro que se eu tivesse todo o tempo do mundo para fazer isso, havia até uma possibilidade de eu ter um rendimento igual ao que eu tinha como presidente, eu falei, vamos arriscar, vamos arriscar. Aí eu arrisquei.

Luciano          De novo, então vamos lá, você nessa época tinha que idade?

Max                48.

Luciano          48 anos, presidente numa empresa, casado, filhos, muito bem, reconhecido, tranquilo, podia ficar lá e aposentar numa boa. Decide de novo, chegou na encruzilhada, posso continuar aqui e me dar muito bem, lá na frente eu vou estar tranquilo, ou posso mergulhar nesse buraco negro que tem na minha frente. E como aquele garoto de Jundiaí você fala: eu vou no buraco negro, só que agora você estava cheio de amarras, você tinha todas as amarras do mundo ali. Não dá mais para errar, é muito complicado errar aos 48 anos…o que te fez…  você estava de saco cheio do teu dia a dia. Você me falou uma coisa uma vez, num café da manhã, quando eu te contei que eu estava prestes a também dar um salto, etc e tal, você falou para mim, Luciano, a gente sabe que chegou a hora quando a gente acorda de manhã e fala, puta vida, eu tenho que ir trabalhar, quando isso acontecer você já sabe que chegou a hora, foi isso que aconteceu com você?

Max                Eu não tive, Luciano, uma grande desilusão ou decepção na vida corporativa, muito pelo contrário, eu acho que eu tive uma sorte desgraçada, aconteceu muita coisa que, eu não sei se normalmente teria acontecido, mas eu cheguei a posições que eu não esperava chegar, não lutei desesperadamente para atingir e todo mundo, quando eu comecei a insinuar que eu ia parar para me tornar palestrante, as pessoas falavam assim, você está louco, quer dizer, todo mundo tenta chegar numa carreira na idade que você chegou, porque daqui para a frente agora você tem vinte anos de felicidade, carro com motorista, sabe, um monte de mordomia e eu, não era bem isso que eu queria na vida, quer dizer, vinte anos de mais do mesmo, existem momentos que, ou a gente faz uma coisa ou não faz. Eu acho que essa de vim para São Paulo, por exemplo, foi uma, servir o quartel foi outra, quer dizer, minha mãe falava, você não deve servir o quartel que você só aprende coisa ruim no quartel, mas ou você vai ou você não vai, quer dizer, não dá para falar eu não vou mas daqui a cinco anos eu vou considerar se isso é possível ou não. Eu pedi para servir quando teve a seleção no exército, servi, passei um ano no quartel, aprendi hierarquia,  disciplina, organização, um monte de coisas que me foram tremendamente úteis a vida inteira e eu senti algo parecido quando chegou na hora de decidir se eu, simplesmente largava a função de palestrante porque ela era irreconciliável com a função de presidente que eu tinha, até porque os executivos, era uma multinacional também, os executivos que estavam acima de mim já não estavam gostando muito da ideia, nessa época ainda como presidente, eu tinha começado a escrever  para a Exame, foi a primeira revista…

Luciano          Isso que eu ia te perguntar, se você já era o Max da Exame.

Max                … então, foi uns seis meses depois que eu comecei a trabalhar com a Denise, a Denise me falou: todo palestrante precisa de um livro, eu falei escrever até escrevo, mas não conheço nenhuma editora, ela falou, não, a editora eu acho, ela realmente achou, a editora publicou, tremendo serviço de divulgação que a editora tinha, um dos livros caiu na editora Abril, e eu fui  convidado a conversar e me  falaram, olha, nós estamos procurando alguém que escreva mais ou menos do jeito que você escreve, o que é sorte também, sem dúvida, se estão procurando…

Luciano          E caiu o teu livro na hora… É impressionante, eu fico imaginando isso hoje, um editor chegar para alguém e dizer o seguinte, estou procurando alguém que tenha o teu perfil, de alguém que não é conhecido, você não era o cara da mídia na época, não era o Max, era o Max.

Max                … ninguém sabia quem eu era. É que eles estavam procurando, a Exame sempre foi uma revista bastante árdua, séria, e o pessoal estava procurando alguém que escrevesse sobre mercado de trabalho com humor, foi o que me disse lá o diretor, ele falou, olha, tem um monte de gente que escreve bem sobre e bem sobre mercado de trabalho mas não conseguimos encontrar um que faça as duas coisas,  quer testar? Eu falei, vamos testar, mandei lá 3 ou 4 textos e simplesmente continuou, até hoje eu não sei se eu fui aceito ou não, Luciano, porque a ideia era, depois de 3 textos a gente conversa, nunca mais. Era a comédia corporativa, o Exame, depois da Exame, já estava todo mundo pertinho, eu comecei a escrever na Você S/A, que tinha a última página Você S/A, da Você S/A para Vip, a coluna sobre carreira e emprego, aí tinha uma revista nova, chamada Revista da Web, que foi um tremendo de um sucesso, teve acho que 28 edições, mas pegou aquele boom da internet, foi uma loucura, então eu escrevia um pouquinho também ali, aí eles se aproveitaram que eu escrevi, então eu já entrei num monte de revistas, Placar, Claudia, de repente em 6 meses eu já estava escrevendo para 6 ou 7 revistas.

Luciano          Uma baita vitrine…

Max                Uma baita vitrine.

Luciano          … que você… por sorte.

Max                Por sorte, isso ajudou muito a carreira de palestrante…

Luciano          Sem dúvida.

Max                … uma coisa é você mandar uma, hoje seria um e-mail ou alguma coisa assim para uma empresa com um tremendo de um currículo, aquelas coisas e outra coisa é a Denise, a minha agente, alguém perguntar assim, mas quem é o Max, ela perguntava, você não lê Exame? É assustador alguém ouvir uma pergunta, leio, então, ele está lá, e de repente isso cria uma dimensão assim que ajuda bastante, então esse foi um belo salto. Então larguei, comecei a fazer palestras, escrevia na Editora Abril, tinha muitos bons leitores, um dos ótimos leitores, caso uma leitora que eu tinha, era dona Marisa, da CBN, que ela lia…

Luciano          Marisa Tavares.

 

Max                … Marisa Tavares, ela lia Exame e ela estava precisando de alguém que fizesse uma coluna na Rádio CBN sobre o mercado de trabalho, o mundo corporativo, a dúvida dela era a voz e aí eu comecei a agradecer meu pai por tudo o que ele fez por mim, então eu tinha a voz, nos encontramos, o nosso teste, a entrevista que a Marisa fez foi o café da manhã e eu me lembro tão bem que ela me disse  seguinte, você escreve e fala ou comenta sobre o que você quiser, da maneira como você quiser, uma liberdade total, então funcionou muito bem, estou há 11 anos e meio na CBN, quase 3 mil comentários diários eu já fiz.

Luciano          Virou uma marca.

Max                A CBN tem uma audiência muito boa de manhã, aquele horário ali das 6:30 as 8:30 é uma maravilha…

Luciano          O povo no carro, o povo no automóvel… sim.

Max                … é, todo mundo ouve, uma das pessoas que ouvia era a dona Eugênia Moreira, do Fantástico que estava procurando alguém para fazer um quadro no Fantástico sobre carreira e emprego, que viria a ser “o Emprego de A a Z” como eu já era da casa, a CBN é da Globo, e eu tinha uma coluna e ela ouvia a coluna no carro indo trabalhar, conversamos lá no….

Luciano          Isso em Bauru a gente falava assim, você é rabudo.

Max                … é isso, é por ai, o resumo disso, Luciano, é como você deve ter percebido, eu não fui procurar a profissão de palestrante, a Denise me achou, eu não fui procurar as revistas, a Maria Teresa Gomes e o Paulo Nogueira me acharam…

Luciano          Não, vai para trás, espera aí, a Peixe foi te pegar.

Max                … é foi me buscar lá …

Luciano          A Peixe foi te buscar em Jundiaí.

Max                … é, é isso,  aí veio a dona Marisa, depois veio Eugênia Moreira, então todo mundo, qual teria sido o meu mérito? Era estar preparado, eu não poderia, por exemplo, você precisa publicar um livro, bom mas eu não sei escrever, bom, eu sabia escrever, escrevi a vida inteira para mim mesmo, acho que como você, a gente escrevia, jogava fora, escrevia jogava fora até ficar contente com o que estava escrito, mostrava para um e para outro, mas na hora que publicou o livro, o estilo estava pronto, quando as pessoas falavam, você escreve de um jeito diferente, eu falei, obrigado, bom ou ruim? Não, bom. Eu falei bom, estou escrevendo assim há 30 anos, tinha que aprender alguma coisa. Eu tinha dicção para rádio, o timbre da minha voz não é nenhum mérito meu, mas a maneira como eu falo é, então isso eu tive que aprender e a televisão é aquilo, a televisão é mais fácil de todos, porque você pode errar, você não pode errar na palestra…

Luciano          Claro, você pode errar porque ali tem o vt, o cara corta, volta, vamos fazer de novo, mas deixa eu explorar um pouquinho mais isso aí. Aí, Max, chega num momento em que criou-se uma persona Max Gehringer, Max Gehringer que é maior do que o Max que está na minha frente aqui, hoje eu tenho um ser humano aqui, legal, mas o Max Gehringer, virou uma branding, virou uma marca imensa. Quando é que você se deu conta de que existia uma persona gigantesca chamada Max Gehringer que estava lá naquele luminoso gigantesco lá na frente, brilhando escrito Max Gehringer, que as pessoas olhavam aquilo, nossa, o Max, quando é que você se deu conta disso?

 

Max                O Fantástico, porque na rádio, nas revistas tem a foto, aquela pode ser a foto da formatura do ginásio, pode nem parecer com a pessoa, mas a foto fica lá para sempre, aí tem a rádio, que o pessoal ouve a voz e aí todo mundo que ouve uma voz começa a imaginar como é que a pessoa poderia ser, todo mundo que me encontrava, antes de ir para a televisão, ah eu achava que você era mais baixo, eu achava que você era mais gordo, falei obrigado. A televisão te revela, ali todo mundo fica sabendo quem é e o Fantástico, nós tivemos com “O emprego de A a Z”, nós tivemos ali alguns belos números de audiência, tivemos 26 edições e se eu não me engano, para não errar, eu diria que entre 15 e 18 dessas 26 edições foi o líder de audiência do Fantástico, o que representava uma plateia estimada de 32 milhões de pessoas no Brasil inteiro…

Luciano          Que absurdo.

Max                … aí não tem dúvida, você pega um avião no dia seguinte, todo mundo te conhece, aí veio a história de que cada celular se transformou numa máquina fotográfica, nós somos de uma época, quer dizer, o filme era caro, você tinha 24 chapas, então tinha que ficar esperando o sol chegar naquela posição certinha para, depois manava revelar, agora você pode armazenar ali 20 mil fotografias na tua máquina e deleta tudo o que não ficou bom, então era um tal de para, tira foto, então eu tive que me acostumar com isso, nunca fez parte da minha vida alguém me parar para conversar, eu ainda fico, não sei bom o que responder e  sinto muito por isso, quando alguém me fala, não, eu li o negócio que você escreveu, aquilo me deu uma luz, ou aquilo me… eu falei, será? Teve todo esse efeito mesmo? Será que a pessoa está confundindo com alguém? Então eu sempre agradeço, falo olha, de verdade eu não sei o que responder, mas é bom escutar essas coisas, então obrigado por me dizer, tento sempre, vamos tirar fotografia, claro que vamos tirar fotografia, depois de palestra é uma festa danada, então nesse momento eu comecei a perceber que eu tinha me transformado, principalmente por causa da televisão, em alguém que eu estava na casa de todo mundo e quando a pessoa me encontrava, ela me tratava como alguém que estava na casa dela domingo de noite, o Max falou para mim.

Luciano          O que te traz uma outra responsabilidade totalmente diferente daquela que você tinha no teu dia a dia. De repente essa pessoa quando vem e fala, Max eu quero uma foto, a tua reação pode ser determinante para essa pessoa, pô o cara me esnobou, pô puta pentelho, o cara tem o rei na barriga e você é obrigado a se colocar ali, você falou uma coisa para mim outro dia, naquele mesmo café que nós tomamos juntos, você me disse uma coisa que me marcou, que você falou o seguinte, eu perguntei e aí Max, como foi o Fantástico? Você falou assim sabe o que o Fantástico fez comigo? Eu falei o que foi? Destruiu minha biografia, porque hoje as pessoas quando me contratam elas querem o Max do Fantástico e aí? Fala disso. Deixa eu elaborar um pouquinho mais com você aqui, até um determinado momento você  é contratado porque você tem um conteúdo pertinente para aquele evento então não me importa muito se você é o Max que brilha ou não, mas o Max tem um conteúdo que eu preciso aqui, eu preciso falar sobre inovação, o Max é um cara legal, ele vem, ele fala muito bem disso ai etc e tal. Existe um outro momento em que isso deixa de importar, não interessa mais, eu quero botar o Max porque é o Max, então se o Max sentar lá, pegar uma cadeirinha, botar um monte de pasta, um monte de papel e fizer que nem o Joelmir Betting fez, sentar e ler, quando terminar eu vou perguntar o que ele leu, não tenho a menor ideia mas eu vi o Max, eu dei a mão para o Max, eu bati uma foto com o Max. Como é que isso acontece, como é que isso repercute no teu entender desse processo todo?

Max                Lembrando das nossas velhas aulas de marketing, eu acho que tem duas coisas, a  primeira é quando a gente fala de propaganda, comerciais, que era a tua área, não a minha, eu sou administrador mas gosto de dar palpite em tudo, propaganda, que você tem a frequência, você mete propaganda, todo mundo lembra dela porque ela passa todos os dias e depois você tem uma inserção num programa que tem uma audiência notavelmente grande, então com uma inserção por semana você consegue atingir o publico, eu tenho as duas coisas, eu tenho a rádio que tem a frequência todo dia no mesmo horário eu estou lá falando os meus 2 ou3  minutos e  aí tinha no fim de semana um programa, não importa, Luciano, o efeito é impressionante, não importa se eu apareço 15 segundos, as pessoas lembram, às vezes ela lembra de quem está assando atrás da câmera e apareceu meio segundo na tela, eu encontrei o fulano, você viu ele lá, é muito marcante, eu diria, as pessoas gostam de contratar alguém que já seja conhecido da plateia para falar…

Luciano          Porque assim agrega prestígio ao evento.

Max                Isso, exatamente isso e porque digamos que o risco de quem contrata é menor…

Luciano          Sem dúvida nenhuma.

Max                … e então aí já ajuda bastante, porém o pessoal ouve a CBN, eles já tem uma noção de como eu abordo assuntos, o que é que eu vou falar, o que é que eu sou contra, o que é que eu sou a favor, então não há uma grande surpresa quando eu falo, eu acho que o que surpreende, na maioria dos casos a plateia, é descobrir que eu, talvez, seja mais bem humorado do que eu pareça no rádio e na televisão, para mim, se o público não rir a cada um minuto, no máximo, nós estamos transformando a palestra num tédio, então eu sempre coloco alguma coisa, então o pessoal ri e fala, não imaginei que você fosse engraçado, não sei se eu sou, mas eu acho que todo mundo tem que rir.

Luciano          Max, eu sou e uma geração de palestrantes posterior à tua, você entrou no mercado quando ele estava na época de ouro das palestras no Brasil, quando houve um boom gigantesco, depois o tempo passou, crise de 2008, todo mundo que perdeu emprego virou palestrante, ate o LULA é palestrante, então houve uma mudança muito grande nesse mercado. Então um cara como eu hoje, por exemplo, eu tenho que me virar nos 30, eu tenho Facebook, eu tenho Twitter, eu tenho site e tenho podcast, eu me viro, você não tem Facebook, você não tem Twitter, você não tem site, você não tem porra nenhuma, você só não tem isso por que você tem essa outra plataforma que te basta, ou por que isso é uma filosofia tudo, sabe, eu não quero estabelecer esses canais todos porque vai acabar me envolvendo de tal forma que eu vou ter que botar um tempo precioso meu nesses novos processos. Como é que você, aliás, a pergunta é assim: você nunca teve? Não é que você resolver não ter agora, você nunca teve, você nunca se preocupou em fazer o site do Max Gehringer, é porque nunca precisou ou é porque é uma filosofia sua?

Max                Eu nunca vi necessidade, Luciano, nunca vi necessidade. É bem possível que se eu precisasse de algum tipo de divulgação que eu achava que eu não estava tendo, eu teria o site, só que quando eu comecei na revista, a revista tinha prestígio muito grande, revista de negócio, em relação pelo menos ao que tem hoje. Quando eu fui para a televisão, a televisão me deu uma visibilidade que eu não conseguiria com site…

Luciano          Nenhum outro canal.

Max                … nada, era  grande demais, então eu fui deixando o tempo passar e fui sentindo que eu não tinha uma necessidade urgente de ter nada disso, o Youtube é um negócio interessante porque a última vez que eu vi, tem 10, acho que 14 mil post’s lá de vídeo, áudio meu no Youtube…

Luciano          Com você?

Max                … comigo, nenhum deles colocado por mim, eu não coloquei nada no Youtube até hoje, então são abnegados que se estão nos ouvindo, Deus os abençoe e muito obrigado, que se dão ao trabalho de, muitas vezes, pegar um comentário meu da CBN editar, porque ele tem um som, então o camarada coloca uma imagem, reproduz o texto, que esse texto não está em lugar nenhum, ele precisa ser transcrito a partir do áudio e coloca lá,  eu falo,  puxa vida, eu devo tanto a esse tipo de pessoas que muito provavelmente, se eu fizesse um site, eu não ia fazer tão bem, então além de tudo, quer dizer, além de eu não ter visto a necessidade, eu dei, vamos voltar apalavra de novo, eu dei a tremenda sorte de uma boa quantidade de pessoas fazer por mim o que eu, por preguiça, ou por falta de necessidade não fiz. Eu queria agradecer a todo mundo.

Luciano          Use o microfone aqui.

Max                Obrigado mesmo.

Luciano          Max, 65 anos, você está chegando no final da “envelhescência”, o que tem pela frente?

Max                Eu, sinceramente, até os 60 anos eu não senti muito, passou muito rápido, passou muito rápido e está acelerando cada vez mais, eu percebo que meus dias passam muito rápido, qualquer coisa que eu faço passa rápido, nós devemos estar falando aqui há mais de uma hora e parece que nós estamos há 5 minutos…

Luciano          1 hora e 13minutos.

Max                … então, é uma loucura isso aqui, é uma loucura, eu me lembro quando eu estudava, na escola das irmãs, que eu ficava olhando pela janela e via a torre da igreja de Jundiaí, então eu olhava para a igreja, aquelas aulas de aritmética, faltava 9 para as 10, aí olhava de novo, continuava faltando 9 para as 10, parou o relógio da igreja, não passava o tempo, talvez pela quantidade de novas experiências que a gente tem quando é criança, aquilo é…

Luciano          É a relatividade, que o próprio Einstein falou, enquanto você está curtindo fazer o tempo voa e isso aqui é uma grande curtição, quer dizer, a gente fala aqui e nem viu como foi. Mas eu repito o que vem pela frente?

Max                … eu vou continuar fazendo o que eu faço, já declarei ao pessoal da rádio e da televisão e gostaria muito de continuar a ser considerado, como eu não criei nenhum caso, tenho bastante tempo de casa já, faz 12 anos de rádio e eu estou no Fantástico desde 2007, então são 8 anos, vai para 9 já, está estabilizado ai e todo ano o meu contrato é renovado anualmente, como o contrato tem sido sempre renovado, espero que continue sendo, então são duas coisas que me dão extremo prazer, gostoso de fazer, resultado bom, um monte de gente vê ou ouve, comenta, é gostoso, eu diria que o que isso traz de satisfação é enorme em relação ao tempo e ao talento que eu emprego para fazer as gravações, áudios e vídeos. Eu continuo escrevendo, mas não tenho mais tanto interesse em publicar livros, eu vou acumulando tudo numa pasta, eu tenho uma espécie, se a gente pode chamar assim, de uma hemeroteca”…

Luciano          Hemeroteca?

Max                … hemeroteca é uma biblioteca desorganizada, você tem um monte… é como se fosse um dicionário de…

Luciano          Com as palavras fora de ordem.

Max                … isso é uma hemeroteca, essas coisas, você põe um monte de meia na gaveta, não faz par, essas coisas assim, então eu vou acumulando sempre pensando, um dia eu vou achar alguma coisa interessante para fazer com isso, leio bastante, pesquiso bastante e hoje talvez, o  que eu faço é escrever para mim mesmo, é  muito gostoso…

Luciano          É fantástico.

Max                … porque não tem compromisso, se eu gosto está bom.

Luciano          E você assim exorciza uma porrada de coisa, eu quando estou com a cabeça cheia, eu sento e escrevo e não necessariamente sobre aquilo que me enche a cabeça, eu  escrevo sobre algo e o exercício de você se entregar àquele momento em que, antigamente era da tinta para o papel, agora é para a tela do computador, eu começar um texto e não saber como é que ele vai terminar, que baita surpresa quando chego no final, olha onde eu cheguei, isso é um exercício fantástico que ajuda a gente de várias formas. Max, eu vou para o final e tem alguma coisa que você lembrou, quer falar? Alguma coisa que você quer falar…

Max                Em termos de livros, eu tinha dito já para algumas editoras que eu não queria mais escrever de novo o mesmo livro, estava escrevendo sobre trabalho e emprego, ou emprego e trabalho, ou carreira e trabalho, carreira e trabalho, carreira e emprego, emprego e carreira, então eu fiquei acho que uns 3 anos sem publicar nada, aí apareceu a Sandra Espilotro que era diretora da editora Globo e o filho dela, o Tiago, tem uma editora de e-book, você não quer escrever um livro, eu escrevo um livro, mas você me deixa escrever sobre o que eu quero? Mas você não quer escrever sobre emprego e carreira? Eu falei não, Sandra, não quero, exatamente por isso… então você escreve sobre o que você quiser, então eu escrevi um livro chamado “Quem Mexeu no meu Trema?”, que é a história desde o começo, desde o século XIX, dos desacordos entre Brasil e Portugal quanto às modificações ortográficas que nós tivemos na língua.

Luciano          Está aqui na outra sala, você não vai embora sem, por favor autografar.

Max                Mas muito divertido, até porque agora, em 2016 a nossa presidente, o primeiro ministro de Portugal tem que assinar o acordo, se eles não assinarem continua valendo em paralelo o trema, eu acho que linguiça sem trema não é linguiça, é “linguiça”, então eu quero que o trema fique, depois escrevi os livros, uma série de livros que eu já tinha escrito para a Placar, em 2006 sobre a história das copas do mundo que é um negócio que só aumenta de tamanho…

Luciano          Você tem um interesse muito grande por futebol, né?

Max                Eu gosto muito…

Luciano          Gosta muito, né?

Max                … gosto muito. E escrevi um livro para a Editora Saraiva, eu também devia um livro lá para a Flávia, diretora da Saraiva, ela veio falar comigo quando eu não podia escrever, eu ainda estava sob contrato com outra editora, escrevi um livro com, esse sim sobre trabalho, mas de maneira diferente, a partir de um texto que eu já tinha escrito para a “Você S/A”, que era pegar perguntas contemporâneas e respostas com versículos bíblicos, como o texto foi muito reproduzido no tempo da “Você S/A”, até hoje tem aí,  para quem procurar no Youtube, o título é “Apenas Ouça”, alguém fez toda a transcrição, muito interessante, e eu escrevi também, chama “Todas as Respostas”, depois disso eu falei, se eu for escrever outro livro, provavelmente vai ser sobre um assunto que eu vou gostar de escrever mas não necessariamente alguma editora vai gostar de publicar,  então hoje conversando com você eu vi que você já tomou a situação em suas mãos e fala assim, escuta, nós não precisamos mais de ninguém nesse mundo aqui, nós fazemos tudo por conta própria, esse pode ser um caminho…

Luciano          Eu acho que sim.

Max                … ou através do e-book, eu até pensei, Luciano, falei eu gostaria muito de publicar meus e-books para o pessoal baixar de graça, bota num lugar onde tem uma imensa visibilidade, mas eu não quero vender e-book, eu não quero ganhar dinheiro com e-book, eu quero que as pesquisas que eu fiz, as coisas que eu escrevi, a maneira como eu escrevo coisas que eu gosto e compartilhar com todo mundo, essa seria uma boa maneira.

Luciano          Tem um, eu vou falar uma bobagem aqui, mas tem um instituto Max Gehringer pintando aí, nasce e você bota isso tudo ai que esse é o grande lance, que é você compartilhar.

Max                Você me perguntou seu tinha mais uma coisa, as pessoas perguntam para mim, certamente para você também, o que precisa para ser palestrante? Porque palestrante é uma classe que está aumentando bastante e …

Luciano          De novo, de novo, é irresistível você entrar numa sala, o sujeito chegar ali na frente, blá blá blá durante uma hora, ganha uma grana, e vai embora. Porra meu, isso é muito fácil, eu vou ganhar dinheiro assim, claro que eu vou. Aí eu olho na internet, te uns cursos de palestrante, eu vou lá faço o curso, me formo e vou faturar e vou ganhar 40 paus por mês, não é fácil, Max?

Max                É simples, aliás, voltando à palestra do Joelmir Betting, eu não queria ir, porque era da faculdade, eu falei lá na empresa, eu não vou, é perda de tempo. Ou perca de tempo, como dizem no  interior, é perca de tempo. Então, perda de tempo, não vou, aí o seu Fausto que era uma pessoa mais iluminada do que eu, um senhor com o qual eu trabalhava, ele me disse: Max, se você tem oportunidade de ouvir alguém que ganha para falar uma hora o que você ganha para trabalhar o mês, vai ouvir, eu fui. Grande visão. Aí o que acontece? Acontece que tem um monte de gente que fala bem, um monte de gente que apresenta bem, faz treinamento dentro da própria empresa, todo mundo elogia, pô, você fala bem, você devia ser palestrante, aí o pessoal vai tentar, não é fácil como parece porque os bons, não os bons, o termo é completamente errado, os palestrantes mais notórios são aqueles que têm uma visibilidade prévia, quem vai falar? Fulano, quer dizer, eu não preciso pesquisar para saber quem ele é, tenho uma noção de quem ele seja, ou porque escreveu um livro, ou porque está na televisão, ou porque era ministro, ou porque é um esportista, seja o que for, mas já tem um reconhecimento prévio, isso pode ser também tempo decorrido, nós temos colegas palestrantes aí que estão fazendo palestra desde a década de 70, quer dizer, é claro que depois de 30, 40 anos todo mundo sabe quem eles são, mas quando amanhã ele fala, o que precisa para ser um palestrante, eu falo, menos do que você pensa, precisa de três coisas, você precisa saber  contar histórias, ter boas histórias para contar e ter  a certeza de que essas histórias têm a ver com a plateia, tem algo que você vai proporcionar à plateia. Parece brincadeira, Luciano, mas se a gente pegar as três coisas, tem um monte de palestrante que a gente conhece e que é bom naquilo que faz, mas que, ou não consegue, quer dizer, vou contar a minha história e a minha história é maravilhosa, mas a plateia não está interessada, jamais eu consegui fazer o que esse cara faz, há palestrantes que são bons apresentadores mas não tem as boas histórias para contar, chega lá e fala assim, olha, Aristóteles disse isso, Einstein disso isso, Napoleão disse isso e o pessoa fala bom, o que você acha, isso ai eu acho na internet, não preciso vir aqui para ouvir, então não cria a própria história que é o que no fundo, no fundo, numa sala com um monte de gente assistindo, é o que envolve a plateia, é a tua história boa, ruim, não interessa, pode ser um exemplo, pode ser um bom exemplo, pode ser um mau exemplo, às vezes eu conto histórias que é um exemplo do que as pessoas não devem fazer na vida mas que eu fiz, eu errei, então mas estou contando de qualquer maneira para que as pessoas aprendam e escrever um livro,  é muito bom publicar, muito bom ser conhecido.

Luciano          Embora publicar um livro também no Brasil é uma complicação, é muito complicado.

Max                É mas… Eu uma vez disse, Luciano, que as pessoas mandam fazer cartão de visita, é muito melhor mandar fazer um livrinho de autoria própria de 30 páginas, manda imprimir, porque cartão de visita todo mundo recebe joga fora, livro ninguém joga, quem ganha um livro vai ler, então é muito melhor do que um cartão de visita, se você pensar na quantidade de cartões de visitas impressos por ai, o livro vai acabar sendo um bom negócio, um belo cartão de visita e já mostra o talento que tem, escreve 5 ou 6 histórias sobre empresa, liderança, esses temas básicos, mudanças, e é uma boa sugestão e de resto, queria te agradecer, já está na hora de agradecer?

Luciano          Não… não vai embora ainda não que eu tenho mais uma última aqui. “Minha vida é andar por esse país”, eu passo um tempo desgraçado viajando e é uma loucura e faço aquela que todo palestrante fala, palestra dou de graça, eu cobro pela viagem, encontrei com o Paulo Storani, que o Paulo Storani hoje é um dos mais requisitados do país e o Paulo falando para mim, o Tejon falando para mim, eu não aguento mais aeroporto, eu não aguento mais avião, eu estou deixando de fazer porque eu não aguento mais, eu quero ficar em casa e não dá mais. É boa a vida de palestrante? Ela te traz prazer depois de 30 anos palestrando, você olha para trás e fala, valeu a pena, vale a pena, quem quiser fazer é um caminho interessante para seguir. O que você me diz?

Max                Como qualquer outra atividade profissional, ela tem um momento inicial de preocupação, será que vai dar certo? Será que não vai dar certo? Um momento muito bem de entusiasmo ao perceber que vai dar certo e em algum momento, como em qualquer atividade, a gente precisa entender que está na hora de diminuir o ritmo, de começar a pensar em outras coisas, entender que o tempo passa, que outras pessoas virão com ideias novas, com propostas novas e nós todos seremos substituídos. Eu diria que eu aproveitei muito bem o período de notoriedade que eu tive como palestrante, muito bem, era aquele momento em que eu comecei a aparecer na televisão o número de solicitações em plateia explodiu e ai eu fiz um acordo com a minha família, eu falei, vamos aproveitar e depois disso a gente estabelece um plano para cada ano ir diminuindo o número de palestras, eu faço relativamente poucas  palestras agora, não viajo muito, viajo muito pouco, não viajo mais de uma vez por semana de avião, se tem uma viagem de avião, não fecha a segunda palestra na mesma semana, quando é uma viagem muito longa, tipo assim, Bahia para cima, acho que Belo Horizonte já está ficando meio assim, meio muito longa, Belo Horizonte para cima, aí o espaço é até maior, eu só voo por uma companhia aérea que eu pego o avião em Campinas, porque fica pertinho da minha casa, eu não venho mais para São Paulo, porque brincadeira, Luciano, elimina aí duas horas…

Luciano          No mínimo…

Max                … eu levaria duas horas e meia para chegar no aeroporto, lá eu levo 25 minutos, então tem que ser sempre por lá, então eu vou sempre procurando maneiras de fazer, o que eu posso fazer para continuar a ter a mesma alegria, que é a única coisa que não mudou, a alegria infanto-juvenil de estar num palco e de vez em quando olhar para aquela plateia, a tua boca está dizendo uma coisa e a tua mente está pensando o seguinte: esse pessoal está me ouvindo, eles estão olhando para mim, não tem ninguém checando celular, nada, eles estão escutando o que eu estou falando, às vezes tem centenas, mais de, às vezes mais de mil pessoas na sala, aí eu começo a pensar, esse povo saiu de casa, veio até aqui, é ruim para estacionar, vai ser ruim na hora de sair, mas estão aqui sentados, não levantam, ninguém vai no banheiro…

Luciano          Estão me entregando 90 minutos da vida deles, que eles podiam estar fazendo qualquer outra coisa e me deram esses 90 minutos e outra coisa, que para mim é, você só se toca quando você está lá, estou olhando para esses 500 e agora eu vou fazê-los rir e eles riem, e agora eu vou fazer com que eles fiquem pensativos, e eles ficam, e agora eu vou emocionar essa turma e eles se emocionam, essa sensação que para mim, alinhada com aquela história de que eu tenho algo a dizer, eu preciso dizer e ao eu dizer as pessoas estão ouvindo e no final vem alguém e fala meu, você falou exatamente aquilo que eu precisava ouvir, eu acabei de falar um puta monte de obviedade, nada do que eu falei aqui é novidade e a pessoa fala eu sei, mas do jeito que você falou eu não tinha ouvido ainda, então eu acho que isso é independente da grana que você ganha e tudo mais, essa é a paga do palestrante, quando o cara te escreve, ou te encontra e fala você disse algo que causou uma virada na  minha vida, eu penso como você, eu falo mas  quem sou eu para fazer uma coisa dessa, fui fazer uma palestra muito recente agora no Rio Grande  do Sul, para uma plateia de cegos, um evento de cegos, minha palestra é extremamente visual, muito Power Point, muito vídeo, eu interajo coma  tela e de repente eu ia para um lugar onde as pessoas não podiam ver a tela, eu falei, puta merda eu vou ter que fazer agora a palestra como? Vou fazer um podcast, se eu não posso usar tela eu vou usar o som, o áudio, então eu montei uma palestra onde a tela era para mim, ela me guiava, mas o que eu fiz com a plateia foi o som, etc e tal. O que para mim era um puta desafio, porque você fala para uma plateia que está te olhando e você sabe que não está te vendo, o que é esquisitíssimo, você fala cara… aí você faz um gesto e você sabe que o teu gesto não  significa nada e você se sente ridículo, para quem eu estou fazendo se ninguém está me olhando? E de repente no final a turma vem para você e cara, que delícia, que maravilha, você fala puta que pariu, virei o x men, virei um super homem, eu sou um cara que tem um talento especial e nessa hora eu rejuvenesço, eu ganho tesão de viver e aí é que está a paga, então eu acho que para mim o ser palestrante é esse presente que a gente ganha no final delas.

Max                Eu diria, Luciano, que ser palestrante são aqueles 90 minutos.

Luciano          São aqueles 90 minutos.

Max                Porque aí você vai dormir, no dia seguinte você acorda 5 horas da manhã, ou antes, para ir par ao aeroporto, aí você fala assim pô, que vida que eu tenho, eu vou parar com isso, não dá, você precisa daquele 90 minutos para renovar a cada vez, tudo aquilo que você… que é o grande momento, seria bom se a gente tivesse uma opção de poder fazer uma palestra on line mas que transmitisse a mesma vibração da presença ao vivo, que eu acho que ninguém…

Luciano          O que é impossível

Max                … não importa o tamanho da tela, nós não vamos conseguir fazer isso.

Luciano          É impossível.

Max                … então nós vamos ter que ir lá…

Luciano          Quem está nos ouvindo aqui entenda: se você já ouviu uma orquestra sinfônica ao vivo, sabe do que é que nós estamos falando, vai no Imex, senta lá e assiste uma orquestra sinfônica maravilhosa tocando e depois vá na Sala São Paulo, assiste uma apresentação ao vivo, o que acontece ao vivo é inexplicável, porque tem esse lance aqui, por isso que eu faço esse programa aqui assim, eu não gravo o programa por Skype, nada, eu gravo assim, eu e o Max aqui, ao alcance um do outro, eu acho que cria um bonde, cria uma ligação aqui que passa pelo microfone e vai estourar no ouvido de quem está nos ouvindo aqui.

Max                … eu não sei quanto tempo nós temos aqui, mas falando em experiência ao vivo, uma vez escreveram um livro ali, um grupo ali de torcedores ai do Corinthians, escreveu um livro sobre o jogo mais marcante da minha vida, do Corinthians e eu sou torcedor do Paulista de Jundiaí.

Luciano          Paulista de Jundiaí.

Max                É, meu primeiro time é o Paulista de Jundiaí, meu segundo time é o Corinthians, então eu fui convidado como autor ali, eu escrevi uma história e eu me lembro, acho que o Juca Kfouri que também escreveu uma, que ele é corintiano, ele falou eu nunca vi um negócio desse, o teu jogo marcante é um jogo que o Corinthians perdeu, era o único do livro, todo mundo aquelas grandes glórias, mas pelo que você comentou de estar ali naquele momento e sentir. O jogo foi o seguinte, o Corinthians teve uma época que não ganhava do Santos de jeito nenhum, mas não ganhava, não importa o que acontecesse não ia ganhar…

Luciano          Era o tabu.

Max                … era o tabu, e aí teve um determinado momento que o Corinthians, acho que foi 71, 72, o Corinthians estava com um time bom e o Santos não estava tão bem e o Pelé se machucou, Pelé se machucou e no domingo tinha jogo no Morumbi, então veio lá a caravaninha de Jundiaí, vamos ganhar, Pelé não joga, aquele tempo podia falar negão, agora não pode mais falar negão, mas falavam negão, o negão não vai jogar e o Corinthians completo, e vamos lá, encheu o Morumbi, chegamos lá 11 horas da manhã, até hoje minha pele está pipocando, a gente não conhecia protetor solar…

Luciano          Detalhe para o pessoal novo que está nos ouvindo aqui, quando o Max fala encher o Morumbi nos anos 70, ele está falando de 100 mil pessoas, não é 40 mil que nem hoje.

Max                … não, 117 mil…

Luciano          117 mil pessoas.

Max                … e aí ficamos lá, aquela cantoria sabe, o jogo era as 4, 11:30 estava quase lotado e canta e grita, e canta e grita, quando faltavam 5 minutinhos, aí entra o locutor do estádio, alo, alo, atenção senhores público… escalação das  equipes, e aí tinha aquela cerimônia tradicional que ele falava o nome e dava o tempo para a torcida aplaudir ou vaiar, então ele falava assim: Corinthians… número 1, Ado… aquele delírio assim, então todo o time do Corinthians aquele delírio, ai chegou no time do Santos… Santos… número 1, Claudio… a turma uuu, o clima estava bom  clima, e aí foi indo ele falou, número 10, Pelé…

Luciano          Silêncio.

Max                … e aconteceu isso que nós ouvimos, como dizia Dalton Trevisan, deu para ouvir unha crescendo, time do Corinthians estava na boca do túnel, pronto para entrar no campo, foi o célebre jogo em que o Pelé deu chapéu ao mesmo tempo no Ditão e no Luiz Carlos, com 25 minutos do primeiro tempo já estava 3×0 para o Santos e aí eu escrevi…

Luciano          E se você quer saber, eu aposto com você que o Pelé jogou machucado, eu aposto que ele entrou em campo e falou, eu não vou engolir essa, que o Pelé, ele tinha essa gana que você não vê mais hoje em dia. E aí você escreveu essa história.

Max                Eu escrevi porque foi, porque foi, porque que é um jogo marcante? O único jogo que eu conheço na minha vida que o time perdeu para o locutor do estádio, matou o time, sei que tantas mil pessoas ali, todo mundo com a boca aberta, pô o cara vai jogar.

Luciano          Quebrou a expectativa na hora.

Max                Foi um cacete federal.

Luciano          Que história maravilhosa. Sabe quem me contou uma história dessa linha, vamos aproveitar que nós estamos falando aqui, eu fiz um trabalho junto com a Hortência, para a Hortência, a Hortência estava me contando, nós fomos jogar lá, aquele que elas ganharam em Cuba, que foi aquela coisa maluca, ela falou era uma coisa interessante porque a gente entrava em campo e a gente perdia no uniforme, porque a hora que a gente entrava em campo, via o time americano do lado, aqueles tênis maravilhosos, a gente com aqueles tenizinhos, aquela roupa maravilhosa, cara, a gente perdia o jogo no uniforme e naquela vez que nós ganhamos, nós fomos jogando, fomos ganhando, quando chegou no último jogo, nós entramos no vestiário, estamos sentadas  lá, fomos nos reunir para conversar, falamos, quer saber de uma coisa? Já chegamos até aqui, vamos ganhar essa porra. E elas entram e ganham, aquela coisa, a expectativa, mudou a expectativa das meninas, ah, já que nós estamos aqui, não tem mais expectativa nenhuma, o negócio é ganhar e  elas vão e ganham o jogo, o que você está contando aí é uma história de uma quebra de expectativa para 117 mil pessoas.

Max                E era preciso, Luciano, estar presente para entender aquilo, como é que eu vou descrever ao microfone o silêncio…

Luciano          De 117 mil pessoas no Morumbi.

Max                … impressionante. Eu acho lindo esse trabalho aqui de depoimentos porque nós não temos nada preparado aqui, essa conversa se não parar logo atravessa a noite, algumas pessoas maravilhosas, você precisa trazer, se já não trouxe, a Paula é uma delas…

Luciano          Sem dúvida.

Max                … tem que trazer a Paula. A Paula, além do carinho que eu tenho pela  Paula, ela jogou no Divino lá de Jundiaí, o tempo que ela jogou o Divino não  perdeu nenhum jogo, 3 anos ganhando de todo mundo, mas a Paula tem uma maneira de dizer as coisas com uma tranquilidade, como se tudo o que ela fez fosse a coisa mais simples do mundo, quando você falou da Hortência eu me lembrei, a Hortência era explosão, era entusiasmo e a Paula conseguia o mesmo resultado, com uma calma…

Luciano          Zen, totalmente zen.

Max                … totalmente, ela ia batendo a bola, batendo a bola…

Luciano          Eu fiz para elas duas uma proposta de desenvolver uma palestra das duas, onde as duas iam em cena para palestrar e a ideia era retomar aquela coisa das duplas sertanejas, lá de antigamente, que faziam um duelo, as duas iam entrar e o tema da palestra era o seguinte: como é que você pega duas craques desse nível, que estão em altíssimo nível, põe no mesmo time, uma compete com a outra, mas uma competição do bem, quer dizer, o resultado da competição da Paula com a Hortência é o Brasil ganhando o título, dai eu me reuni com elas de montão, isso que você está falando é fantástico, a Paula é uma delícia. Mas eu vou trazer sim, vou trazer essa turma toda.

Max                … teve um jogo, eu acho que é lamentável que a gente não tenha o arquivo de vídeo que os americanos, os ingleses principalmente tem de coisas antigas, mas jogos abertos do interior, lá no começo, fim dos 70, começo dos 80, que dava sempre o time  que as duas estavam jogando, Piracicaba, onde jogava a Paula, que ela estudava lá na universidade e a Hortência devia estar jogando, Osasco, alguma coisa assim, ou num time do interior, mas eu me lembro de um lance, TV Cultura, se  isso existisse seria lindo, um lance  livre e o time da Hortência estava perdendo, normalmente… saiu o lance livre, ela começou a bater a  bola no chão e começou a dar bronca nas meninas do time dela, vocês estão morta??? Dava para ouvir bem, enquanto ela estava dando bronca, ela atirou a bola na cesta sem olhar e a bola entrou, o locutor da Cultura falando para o comentarista, você viu isso?  O outro falou, você acha que ela fez de propósito? Volta a bola para ela, ela gritando com a menina, atira e tchum, de chuá de novo…

Luciano          Sem olhar.

Max                … sem olhar, aí o locutor, eu não sei se era o Noriega pai, era um desses caras muito bons, ele falou, eu vi isso, pena que isso ficou perdido, que pena.

Luciano          Você sabe que você está falando um negócio interessante que é o seguinte, isso não é basquete, basquete é o que os outros fazem, o Oscar, por exemplo, que ele conta as histórias dele, ele fala… o Oscar não jogava basquete, quando entrava em campo e botava a amarelinha da seleção, era outra coisa que ele estava fazendo, aquilo era um nível de entrega que… o sujeito é um autista, o Messi é um autista, para fazer o que ele faz tem que ser um autista e é um autista no sentido de que esse cara tem um super poder, ele desenvolve lá uma capacidade de interagir com a bola que pessoas normais não tem, então eu acho que é uma entrega absoluta que é mais ou menos aquela que eu tenho quando eu estou num palco, que eu acho que você tem também quando está num palco que aquele momento é o momento da entrega, eu quero descer daqui… por isso que eu sou chato de montão quando eu vou nos eventos, eu falo uma luz decente, me dá uma ela decente, me dá um som decente, não é por mim não, é porque quanto melhor for isso aqui, mais eu consigo entregar para essa plateia que está aqui e eu quero ter o melhor desempenho na minha vida nesse momento, essa questão de você se entregar totalmente. Grande Max Gehringer, nós estamos aqui há uma hora, 42 minutos conversando, você viu como passa rápido e é uma pena, eu vou querer fazer mais isso aqui, a gente conversar mais, eu quero te agradecer de montão, eu sei que as tuas vindas para São Paulo são raríssimas, você aceitou o meu convite de estar aqui no LíderCast, então muito obrigado de novo, esse papo aqui foi fantástico, eu vou querer me encontrar mais com você, a gente vai inventar de fazer alguma mutreta junto ai no  bom sentido, para entregar mais conteúdo para mais pessoas.

Max                Se Deus quiser, Luciano, obrigado pela oportunidade, um belíssimo papo como todo o papo de dois interioranos, isso aqui  se você não para vai a noite inteira, acende a fogueira, mas eu espero como sempre, que uma coisinha que eu e você tenhamos falado aqui, uma coisinha, possa ser  útil para cada uma das pessoas que nos ouvirem, se isso acontecer estamos gratificados, então Deis de abençoe, muito obrigado.

Luciano          Muito obrigado, um abraço.

Transcrição: Mari Camargo