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Luciano Pires -
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Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast. O PodCast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. O convidado hoje é Varlei Xavier, professor, que levou a figura do palhaço para a sala de aula, para, ao lado os alunos, aprender com mais eficiência. Muito bem. Mais um LíderCast. Esse aqui chega por meio de um ouvinte, o Ramón Freitas, que entra em contato comigo, manda uma mensagem: tem um cara interessante que faz um trabalho legal. Entramos em contato e aqui está ele diante de mim. E o interessante é que quando eu perguntei para ele sobre a pessoa que lhe indicou, ele: é um amigo meu da Bahia que eu nunca encontrei pessoalmente. Essas são as maravilhas das internets. Três perguntas fundamentais, as únicas três que você não pode errar de jeito nenhum. Seu nome, sua idade e o que você faz?

Varlei Xavier: Bom, meu nome é Varlei Xavier, eu tenho 39 anos, estou à beira dos 40. E eu ouvi um PodCast falando – esses dias você falou – que depois dos 40 muda tudo. Então eu estou preparado aí para mudar tudo.

Luciano Pires: Por isso que você falou. Você falou 39 com um gosto. Eu tenho 39 anos. Aproveita que é o fim dos ‘inta’.

Varlei Xavier: É. Mas estou animado. Estou animado para essa fase nova aí. E perguntando o que eu faço? Aí é complicado, porque se for para resumir o que eu faço só isso vai durar uma hora de PodCast. Eu diria que eu faço encantamento.

Luciano Pires: Faz encantamento de serpentes ou de pessoas?

Varlei Xavier: De pessoas. Encantamento de gente.

Luciano Pires: Muito bem. Estamos aí. E como que é a história do Ramón, cara?

Varlei Xavier: Bom. O Ramón eu conheci por conta de um grupo do WhatsApp do Murilo Gun. Alunos do Murilo Gun do pessoal que faz… acompanha as lives do Murilo Gun. Uma época eu comecei a acompanhar as lives do Murilo. E aí comecei a fazer amizade com o pessoal. Me colocaram num grupo de WhatsApp. O Ramón começou a me acompanhar. Começou a me dar uns toques para melhorar o meu trabalho e tal. Algumas sugestões. E ele fez a logomarca do meu trabalho.

Luciano Pires: Ah, do teu negócio?

Varlei Xavier: É.

Luciano Pires: Então ele sabe bem do que se trata.

Varlei Xavier: É. Ele é um parceirão hoje em dia.

Luciano Pires: Você nasceu onde?

Varlei Xavier: Eu nasci em Santo André, na verdade. Só que eu sou todo do ABC. Eu moro em Mauá, eu trabalho em Santo André. Comecei minha carreira em São Bernardo. A minha esposa nasceu em São Caetano. E ela trabalha em Ribeirão e em Diadema.

Luciano Pires: Está completo. Você tem o ABC inteirinho. Aliás, o ABCD inteirinho aí.

Varlei Xavier: É. Às vezes, em um dia, passo por três, quatro, cinco cidades.

Luciano Pires: Você tem irmãos?

Varlei Xavier: Eu tenho irmãos. Eu tenho mais dois irmãos da mesma mãe. E vários outros que não são da mesma mãe. Mas que são tão importantes quanto…

Luciano Pires: Seu pai era um reprodutor?

Varlei Xavier: Não, na verdade não. Na verdade, eu tenho grandes amigos e ex-alunos que hoje já são adultos e que são…

Luciano Pires: Que você trata como irmãos?

Varlei Xavier: Exatamente.

Luciano Pires: Bom. Então eu peço desculpas para o seu pai aí. Me desculpe o seu pai.

Varlei Xavier: Não. Tranquilo.

Luciano Pires: O que o seu pai fazia, a sua mãe fazia?

Varlei Xavier: O meu pai tem uma história dele no Café Brasil. Eu não sei em que Café Brasil que era. Mas é lá no comecinho de 2016. O meu pai era técnico de telefonia. Eu costumo dizer que ele era semianalfabeto. Mas falando isso porque assim: porque ele estudou muito pouco na vida. Mas o meu pai, ele escrevia poesia e ele escrevia samba-enredo. E ele era Cidadão Samba de Mauá. E o meu avô é fundador da X9 de Santos, que deu origem à X9 Paulistana. E aí minha mãe é técnica de radiologia. E por conta do meu pai, que um dia ele me levou para trabalhar na prefeitura de Mauá, eu estava lá trabalhando, consertando telefone. Eu olhei na mesa e falei: pai, o que é isso aqui? Ele falou: isso aqui é poesia. Aí vários poemas em cima de um vidro na mesa. E aí eu não escrevia na época. Mas eu comecei a olhar e perguntar: isso aqui fala do quê? Esse aqui fala do quê? E num determinado momento eu falei: vou escrever um poema. E aí na verdade, eu ditei para ele um poema. Ele escreveu. Fez a mesma coisa, mandou imprimir lá e colocou. E assim começou a minha vida na arte, na educação e tudo mais.

Luciano Pires: O seu pai era funcionário público, é isso?

Varlei Xavier: Ele trabalhava na prefeitura de Mauá. Isso, na época.

Luciano Pires: E a história dele está no Café Brasil? Eu não vou me lembrar disso, cara.

Varlei Xavier: É. Foi um Café Brasil que você falou sobre sambas-enredo. E aí depois eu mandei uma resposta falando assim: por conta do samba-enredo, do carnaval, eu conheci isso e isso e essa pessoa e tal. Então agradeço muito ao meu pai.

Luciano Pires: Que legal. É bom saber. Olha só. Então de longa data então, aqui. Como era teu nome, teu apelido quando era criança?

Varlei Xavier: Meu apelido quando era criança? Bom, eu era chamado de Testão.

Luciano Pires: E agora assumiu?

Varlei Xavier: Pois é.

Luciano Pires: Assumiu. Uma testa bem avantajada.

Varlei Xavier: E sabe o que é o mais louco? Hoje em dia um dos gestos mais característicos do meu trabalho é o beijo na testa.

Luciano Pires: É? E aí acabou ficando com o Testão. O que o Testão queria ser quando crescesse?

Varlei Xavier: A primeira coisa que eu disse. Que eu lembro, eu estava num salão de cabeleireiro, o cara cortando o meu cabelo, cinco, seis anos. Ele falou: o que você quer ser quando crescer? Eu falei: quero ser ator. Mas na verdade, eu não sei se era isso que eu queria mesmo. Mas acabou que com o tempo eu…

Luciano Pires: Você foi caminhando para esse lado?

Varlei Xavier: Eu fui caminhando para esse lado.

Luciano Pires: Mas não era isso. Você não começou desde criancinha a seguir atrás, a fazer peça de teatro, aquela coisa toda?

Varlei Xavier: Não. Muito pelo contrário.

Luciano Pires: Você cursou escola normal. Tendo em casa um funcionário público e uma técnica em?

Varlei Xavier: Radiologia.

Luciano Pires: Radiologia. Maravilha. Nenhum dos dois eram empreendedores?

Varlei Xavier: Não.

Luciano Pires: Os dois funcionários, carteira assinada, etc. e tal? Legal. Na hora de escolher: o que eu vou fazer, o que eu vou cursar? Que escola que eu vou fazer? Que faculdade eu vou fazer? Você chegou a fazer alguma coisa? Você fez faculdade?

Varlei Xavier: Fiz.

Luciano Pires: E o que você escolheu fazer?

Varlei Xavier: Eu gostava muito de recitar poesia. E gostava muito de dizer poesia. E a poesia falou mais forte. Eu cheguei a pensar em Jornalismo. Mas depois a poesia gritou e eu fui fazer Letras.

Luciano Pires: Letras?

Varlei Xavier: É. E para pagar a faculdade eu tinha que arrumar um emprego. Porque a hora que eu passei no vestibular a minha mãe falou: parabéns. Mas agora você precisa arrumar um emprego. E aí o que eu fiz? Um dia eu acordei e tinha um jornal em cima da mesa, ela falou: vai fazer inscrição para esse concurso aqui. Circulado assim. Oficial de escola. Trabalhar na secretaria. Aí eu peguei e olhei todo aquele edital. Eu tinha 18 anos ou estava completando 18, eu não me lembro. E aí eu li todo o edital e eu percebi o seguinte: a inscrição para oficial de escola era 20 reais e precisava do ensino médio, que eu estava completando. Li mais abaixo tinha uma falando: inspetor de alunos. Inspetor de alunos precisava do ensino fundamental na época e era 10 reais. Ou seja, eu ia embolsar 10 reais para mim. Eu falei: eu vou me inscrever para inspetor de alunos. Então vamos lá. Fui no banco, fiz a inscrição, comprei a apostilinha lá, fiquei com 10 reais. Na hora que minha mãe chegou ela falou: e aí? Fez a inscrição? Eu falei: fiz para inspetor. Ela ficou doida. Ela falou: meu Deus do céu. Olha o jeito que você é. Você é um moleque, você é magro. Ninguém vai te respeitar. Eu falei: mãe; fiz para inspetor. Prestei e passei. E se eu tivesse sido oficial de escola eu ia ser muito frustrado. Porque lidar com papel, secretaria e tudo mais.

Luciano Pires: E burocracia e tudo mais.

Varlei Xavier: E aí eu entrei numa escola que estava inaugurando. Eu era o único inspetor. Uma pessoa para cuidar de portão, de 500 alunos por período, de almoxarifado e de atender professor, de rodar mimeografo. Então eu tive ali um batismo de fogo. E foi muito legal.

Luciano Pires: Quanto tempo você ficou?

Varlei Xavier: Eu fiquei como inspetor por quatro anos.

Luciano Pires: Enquanto fazia a faculdade de Letras?

Varlei Xavier: Isso. E aí aconteceu uma coisa muito importante. Eu sempre gostei de recitar poesia. E eu inventava algumas coisas. Eu sempre fui a pessoa que inventa moda. Sempre tem que inventar alguma coisa nova. E aí eu estava lá no pátio e uma professora falou para mim: Varlei você manja mais de poesia do que eu. Você não quer ir na minha sala ler poesia para os meus alunos? Uma molecadinha de primeiro ano. E aí eu fui lá. Fui ler poesia para as crianças, fui recitar Cecília Meirelles. E aconteceu que na semana seguinte as crianças começaram a vim com os poemas decorados. E a professora falou: eu não sei o que fazer. E aí eu comecei a ir na sala de aula no meu horário de almoço para propor um trabalho de recitação de poesia ali, declamação, sei lá. Naquela época eu falava dessa forma. Acontece que aquilo foi virando teatro. E aí eu criei um trabalho voluntário na escola. Aos sábados as crianças iam para recitar poesia. Aí a gente ia se apresentar num monte de lugar.

Luciano Pires: Sem que você tivesse nenhum preparo? Você não era um professor de teatro?

Varlei Xavier: Não.

Luciano Pires: Você não tinha, não conhecia nada?

Varlei Xavier: Não tinha.

Luciano Pires: Deixa eu perguntar alguma coisa para você aqui: cara, poesia é um treco chato, cara. É um treco pentelho. É um treco que fala de coisas que a gente não entende direito. E a molecada quer o celular, cara. Eu quero game, eu quero barulho, eu quero cor, eu quero agitação. Eu não quero essa coisa de velho me enchendo o saco. E você me diz que você chega com a poesia e a molecada entra naquilo e começa. Como que é essa relação? Você me conta uma história de… quanto tempo faz isso?

Varlei Xavier: Isso começou em 99. Hoje eu faço 20 anos de carreira. Esse ano.

Luciano Pires: Então, em 99. Então há 20 anos você teve essa experiência toda com a garotada descobrindo a poesia e tudo mais. Isso acontece hoje em dia também? A poesia ainda tem essa pegada? Ou essa geração nova que chega não tem mais olhos e ouvidos para a poesia?

Varlei Xavier: Tudo depende de com quem você está.

Luciano Pires: Do agente?

Varlei Xavier: Tudo depende do agente. Tudo depende da paixão. E eu acho que eu dizia a poesia com tanta paixão, com tanto brilho no olho, que isso brilhava os olhos deles também. E era muito bonito ver as crianças recitando poesia. Eu lembro do primeiro dia que a gente fez uma apresentação. Veio gente da Secretaria de Educação ver. Porque começou a chegar lá – a escola era perto da Secretaria de Educação – e eram várias apresentações durante o dia. As pessoas vinham em cada sessão. E para mim, eu estava fazendo uma banalidade. Eu estava fazendo as crianças recitarem poesia. E todo mundo começava a olhar: mas isso é maravilhoso. E assim: para mim era muito especial. Mas não era… para mim era normal. Para mim era comum o que eu estava fazendo. Mas existia algo muito forte ali. E aí aquilo foi virando teatro. E assim que terminou a minha faculdade, os meus amigos foram para a pós-graduação. Eu fui fazer teatro. E aí foi incrível, porque o teatro transformou o professor que eu virei tempos depois. Que aí eu me exonerei da prefeitura e fui trabalhar como professor da rede estadual. E ali eu era um professor que sabia lidar com o improviso, sabia ter jogo de cintura, que recitava poesia. Então eu costumava começar a aula com um poema. Além do fato de eu poder assumir um outro personagem em sala de aula e aquilo era…

Luciano Pires: Aula de que você estava dando lá?

Varlei Xavier: Língua portuguesa.

Luciano Pires: Língua portuguesa.

Varlei Xavier: Língua portuguesa.

Luciano Pires: Tem tudo a ver.

Varlei Xavier: É. E era um barato. Lógico que como todos os problemas da educação que a gente sabe. Todos os problemas que um professor enfrenta. Até um determinado momento que eu falei: não, espera. Eu estava terminando o meu curso de teatro. Aí já tinha conhecido a linguagem do palhaço – que daqui a pouco a gente fala sobre ela – e aí eu me exonerei para ir trabalhar com o teatro estudantil. Então aí eu fui para as escolas particulares para trabalhar.

Luciano Pires: Segunda exoneração sua?

Varlei Xavier: Segunda. Na verdade, três. Porque eu tive dois cargos como professor. Aí eu me exonerei e fui trabalhar nas escolas particulares, dando aula de teatro, montando grupo de teatro estudantil. Fazendo a molecada fazer temporada. Arrumar recursos para montar os próprios espetáculos.

Luciano Pires: Que interessante. Você é um cara que construiu a tua carreira tendo como base o teatro, sem fazer teatro.

Varlei Xavier: Exatamente.

Luciano Pires: Você não estava em cartaz no Teatro Ruth Escobar de segunda, terça e quarta. Não era isso. Você estava trabalhando com a garotada lá dentro, o teatro, num ambiente que não era o teatro profissional. Mas a tua profissão era o teatro?

Varlei Xavier: É. Eu fui estudar teatro. Me formei ator. E aí assim, meu foco muito foi sempre a direção. Porque o diretor, ele tem muito do professor. E aí depois eu voltei para a escrita também como dramaturgo. Então normalmente eu escrevia. Não chegava para os alunos e falava: vocês vão montar Romeu e Julieta. Então a gente passava por um processo de criação coletiva, que era muito legal. E a minha carreira de diretor, professor de teatro, ela veio até o ano passado, quando eu comecei uma outra transição de carreira. E agora eu estou entregando para os meus ex-alunos, que hoje já são colegas de trabalho e já são formados. Então…

Luciano Pires: Que idade tinha essa garotada que você dava aula? A faixa etária?

Varlei Xavier: Quando eu era professor em sala de aula era do 6º ao 9º ano normalmente. E essa galera que normalmente eu trabalhei. Mas eu já trabalhei com crianças de seis até adultos, dando vivência teatral para professores e tudo mais.

Luciano Pires: Se você pudesse se definir hoje e tivesse que escolher entre professor, ator, escritor. O que é o elemento mais forte? Palhaço? O que é o elemento mais forte em você?

Varlei Xavier: É o educador.

Luciano Pires: Educador?

Varlei Xavier: É.

Luciano Pires: Você deu uma resposta boa. Por que reúne tudo isso né cara?

Varlei Xavier: Exatamente.

Luciano Pires: Dá para ser tudo isso que eu falei para você.

Varlei Xavier: Exatamente. Que aí está o palhaço, está o professor, está o diretor de teatro, está o dramaturgo.

Luciano Pires: Sim. E você ali, quando… outra coisa interessante: você foi desenvolvendo esse teu estilo de dar aula, essa tua forma, de maneira independente. Não era que você estava vendo alguém fazer e foi atrás. Você foi sentindo. A poesia funciona. Deixa eu usar. Eu fiz aqui outro dia uma entrevista com o Doug Alvoroçado, que é um cara que começa na parte de TI, etc. e tal, vai terminar como professor. E ele conta: ele vira um professor para quem tem deficiência de audição. Garotos surdos. E ele contava: como é que eu ia ensinar garotos surdos? Ele falou: então eu fui procurar tudo aquilo que essa molecada se interessava e trazia para a sala de aula. E eu usava esse interesse deles para explicar a matéria. Então se eu tiver que dar uma aula de matemática, ao invés de eu dar uma aula de matemática, 1 e1 vai ser 2. Eu vou pegar um acontecimento. Agora lá está tendo um eclipse. Eu uso o eclipse para ensinar matemática para a garotada. E aí muda tudo. E também ele foi descobrindo isso na sensibilidade. E você fez parecido?

Varlei Xavier: É. Você falou a palavra aí que para mim é muito importante, que às vezes falta. Eu vou falar na educação agora, mas eu acho que às vezes falta em muitas áreas, que é a sensibilidade. É você poder captar aquilo que não está visível. E perceber aquilo que não é perceptível. Ler o aluno pelas entrelinhas e captar nos detalhes. O professor é o profissional que tem que ter os sentidos muito apurados. E ele tem que refinar muito a percepção dele. Eu sempre acreditei muito nisso.

Luciano Pires: Sim. Essa é uma visão interessante, que vai muito além da minha habilidade de saber ensinar matemática.

Varlei Xavier: Exatamente.

Luciano Pires: Eu tenho que ser meio psicólogo, meio sociólogo, eu tenho que ser um leitor de gestual do corpo. Ver o corpo da molecada, que vai falando. Eu faço muita palestra. E o palestrante é muito parecido.

Varlei Xavier: Sim.

Luciano Pires: A gente passa o tempo todo lendo a plateia. E pela reação da plateia você sabe se está indo bem ou não ali. Mas me fala uma coisa: então você vem e começa a dar aula. E aquilo ficou claro para você que você estava feliz ali, dando aula? Esse aqui é meu negócio. Eu quero dar aula. Ou você tinha uma ideia lá na frente de: serei dono de uma companhia de teatro um dia. Ou: vou ter um programa de televisão. Você tinha alguma ideia lá na frente, que fazia com que você imaginasse que a tua função ali como professor, você estava passando por ela para chegar nalgum ponto ou era ali que você queria desenvolver?

Varlei Xavier: Eu tinha certeza do que eu não queria. E o que eu não queria era uma educação onde não houvesse encantamento. E na sala de aula isso é muito fácil de acontecer.

Luciano Pires: Não ter encantamento?

Varlei Xavier: É muito fácil.

Luciano Pires: E você, de repente, está sentado numa sala de professores, onde têm 40 professores, 38 dos quais não têm nenhuma capacidade de encantar a garotada. E olha para você com uma cara estranha. O que esse louco fica fazendo?

Varlei Xavier: Eu ouvi muito: você é novo. Você está começando. Você só inventa moda. Você não devia fazer isso, porque depois você está arrumando para a sua cabeça.

Luciano Pires: Esse tesão vai passar.

Varlei Xavier: É. Eu ouço isso até hoje. Só que já faz 20 anos. Então assim: tenho certeza que não vai passar. É lógico que o ambiente, ele te prejudica também. Então muitas vezes, quando eu estava naquele ambiente da escola pública – não por ser pública – pelo contexto em que ela está estabelecida, eu sentia que não era mais o momento de eu estar ali. Porque não era mais possível…

Luciano Pires: Você estava só?

Varlei Xavier: Eu estava só. E chegava um momento que eu falava: eu já fiz tudo que eu podia. Agora vai além de mim. E aí eu comecei a adoecer. E foi nesse momento que eu decidi partir para a minha exoneração. Daí ir para o teatro estudantil. E aí no teatro estudantil sou eu com a turma.

Luciano Pires: O que é o teatro estudantil?

Varlei Xavier: O teatro estudantil é o teatro que é feito dentro das escolas. Mas existe também o teatro escolar, que é quando o professor… seja um professor de teatro, que vai montar uma pecinha com os alunos. Agora, o teatro estudantil é aquele onde o foco é o estudante. Então assim: sobre o que vocês querem falar? A partir do que a gente quer falar a gente cria um espetáculo, a gente cria um texto. E a partir dali, se aprende língua portuguesa. Não se parando para discutir a língua portuguesa. Mas se aprende porque é a nossa língua.

Luciano Pires: Onde se encaixa o teatro estudantil? Deixa eu ver se eu entendo. Eu não consigo entender. Eu tenho a disciplina da matemática, eu tenho a geografia, eu tenho história, eu tenho português. Onde é que se encaixa o teatro estudantil? Ele é uma disciplina por si só? Ou ele está dentro de uma área de letras, está dentro da língua portuguesa? Onde é que ele está?

Varlei Xavier: Eu gosto quando ele é fora da grade. Por que ele é fora da grade? Porque dentro da grade você está preso. Dentro da grade você está… o nosso currículo chama grade. E quando você está…

Luciano Pires: Sim. Começa aí.

Varlei Xavier: Exatamente. Então quando você está fora da grade, você tem o aluno que opta por estar ali.

Luciano Pires: Isso que eu ia te perguntar: estando fora da grade, você é opcional?

Varlei Xavier: Exatamente.

Luciano Pires: Passa a ser opcional?

Varlei Xavier: É.

Luciano Pires: O garoto escolhe estar lá ou não?

Varlei Xavier: É. As pessoas vivem falando assim: teatro tem que ser obrigatório. Música tem que ser obrigatória na escola. Empreendedorismo tem que ser obrigatório. Tem que ser obrigatório meditação. Eu acho que nada tem que ser obrigatório. Tudo tem que ser acessível.

Luciano Pires: Eu tenho uma experiência como palestrante. Vamos lá. Que é muito parecida uma coisa com a outra. E a gente conversando sobre a diferença que você tem nas plateias de palestra. Então eu sou muito contratado para ir falar para empresas e também participo de alguns eventos que são abertos. Então tem o pessoal que organiza o evento, eu vou lá. A turma paga para ir no evento, etc. e tal. E eu costumo dizer que isso é muito parecido com o pessoal do stand up comedy. O que acontece? O cara que vai fazer stand up, ele sobe num palco diante de uma plateia que pagou para estar lá. Então saí da minha casa com a minha namorada, com meu marido e paguei para sentar num lugar e para ver a pessoa contando piada. Então só essa predisposição já cria uma plateia a fim de rir. Eu quero rir, eu quero me divertir. Então eu estou ali para aquilo. Quando você vai para uma empresa, você vai num evento da empresa, onde todo mundo que está lá está obrigado. Ninguém foi para rir. Ninguém está lá para assistir. Então são completamente diferentes as plateias. Uma é super receptiva, porque o cara está: eu vim aqui porque eu quis. Eu imagino no teu caso, o garoto: eu escolhi vir fazer aula de teatro. Você já pega uma matéria prima com tesão de participar?

Varlei Xavier: É. E eu brigo com o meu pai para estar aqui. Sabe assim? Então é demais. É muito gostoso. E aí você gera engajamento. Você discute assuntos que eles querem discutir. E aí tem vida. Às vezes a aula dura três, quatro horas e passa voando. Às vezes ele não vai para a escola de manhã ou por algum motivo não teve aula. E ele quer que tenha aula de teatro à tarde. É muito legal. Então foi uma carreira muito bonita que eu construí ao longo desses anos. E que agora eu estou sendo mais um mentor dos meus colegas de trabalho que foram meus alunos. E que hoje eu passei o bastão para eles. Quem sabe um dia eu volte? Mas eu acho que eu também preciso me reciclar um pouco, ver outras coisas, até para que eu chegue depois como artista… porque é um trabalho artístico. A gente fala assim: educação. Na verdade, eu costumo dizer que: arte/educação. A boa, de verdade, é pleonasmo. Arte/educação é igual subir para cima e descer para baixo. Toda arte que é boa, que é potente tem um potencial de transformação em educação.

Luciano Pires: Total.

Varlei Xavier: E toda educação que é de verdade, que é maravilhosa, ela é uma arte. Eu costumo até dizer que falta arte na arte de educar.

Luciano Pires: Vira uma burocracia. Uma coisa burocrática. Eu tenho meta para cumprir. Se deu; deu. Se não deu… bom. Não é à toa que o Brasil está nessa pindaíba com relação ao conteúdo da nossa educação aqui. Você então, num determinado momento você vai fazer a sua nova transição. Em algum momento passou pela tua cabeça que você deixaria de ser funcionário de alguém ou de alguma empresa, para ser dono do teu próprio negócio? Isso esteve no seu horizonte em algum momento?

Varlei Xavier: Em algum momento sim. E até quando eu era criança. Eu ainda estou funcionário. Hoje eu trabalho numa escola onde eu sou coordenador de projetos e programas. E eu coordeno um programa de aprendizagem autodirigida. Mas eu também tenho os meus pequenos negócios. Que hoje em dia eu já estou dando palestra também. E estou desenvolvendo o meu trabalho – que é a minha menina dos olhos – que é o Palhaço Aprende. Daqui a pouquinho a gente fala sobre ele.

Luciano Pires: Vamos chegar nele.

Varlei Xavier: Vamos lá.

Luciano Pires: Como que o palhaço entra na tua vida? Você gostava de palhaço quando era moleque?

Varlei Xavier: Gostava, mas nunca fui fascinado. Tem gente que tem medo.

Luciano Pires: Tem. Eu sou absolutamente fascinado.

Varlei Xavier: Olha só.

Luciano Pires: Se passar um palhaço eu paro o que eu estou fazendo e fico que nem bobo vendo qualquer palhaço. Eu estou aqui na esquina eu fico… menos aquele do farol. Se eu falar que sim é mentira minha. Mas se botar um palhaço na minha frente, eu sou fascinado.

Varlei Xavier: É. É muito legal. E aí, quando eu entrei na escola de teatro, no dia que eu fui fazer o teste para entrar tinha um grupo de palhaços, de alunos. E a forma como eles interagiam. Porque não era uma coisa assim: temos algo montado. Ele chegava lá e batia papo com a gente.

Luciano Pires: O professor de palhaço?

Varlei Xavier: É. O professor, ele preparava alguns alunos – que eram alunos da escola de teatro – para estarem ali à disposição. Então a gente estava ali se preparando para o teste e o palhaço saía e vinha falar com a gente.

Luciano Pires: Caracterizado de palhaço?

Varlei Xavier: É. Aí eu olhei aquilo ali e falei: isso é diferente. Porque não tem ensaio. Tem uma preparação. Tem uma estrutura por trás. Mas é outro negócio. O palhaço, ele está aberto ao que vai acontecer. E aquilo mexeu comigo. Nesse mesmo tempo eu comecei a ver o trabalho dos palhaços de hospital. E eu olhava para a escola e eu via escola doente. Eu via vários problemas na educação. Uma vez eu tomei uma maçãzada no olho. Foi uma coisa maluca.

Luciano Pires: Uma briga com estudante? Ou eles entre eles acertaram você?

Varlei Xavier: Na verdade, eu fui vítima de uma maçã perdida.

Luciano Pires: Uma maçã perdida?

Varlei Xavier: Uma maçã perdida. Então teve uma guerra de maçã e sobrou uma maçã no meu olho. Eles não queriam me acertar. Mas eu descia para o pátio para ficar com os alunos na hora do recreio. Que, aliás, eu não gosto de chamar de recreio. Eu prefiro chamar de recheio, que é a parte mais gostosa, que fica no meio. Então eu descia, ficava lá com eles. Teve uma guerra de maçã. Bateu uma no meu olho. E aí a diretora falou: você pode ir na delegacia. Eu falei: não. Eu só quero passar nas salas. E aí eu fui de sala em sala, nas 10 salas que estavam lá embaixo. Eu falei: eu não sei o que aconteceu. Porque eu estou lá embaixo porque eu gosto de vocês. Essa maçã aqui machucou. O meu olho inchou. Arrebentou meu óculos. Eu falei: doeu aqui. Apontei para o olho. E depois eu apontei para o coração e falei: doeu mais aqui. E aí segurando o choro e tal. Aí a molecada começou a chorar. Isso era para ser uma experiência traumática. Mas virou mais uma das experiências mais bonitas que eu tive na minha vida. Porque no final do período tinha 200 alunos na porta para me abraçar. Todo mundo chorando. Então assim: aquele momento era um momento de vulnerabilidade extrema. Que depois eu fui descobrir que é o palhaço. O palhaço, ele é a vulnerabilidade. Ele não é alguém que está fazendo graça. Na verdade, você ri do palhaço porque ele cai. E porque ele aceita que ele caiu. Porque ele é vulnerável. E aí eu me fiz a seguinte pergunta, eu falei: se tem palhaço de hospital, por que não tem palhaço na escola? Se às vezes a escola é tão doente quanto um quarto de UTI? Eu já entrei em salas de aula onde não tinha esperança. Então eu falei: tem alguma coisa aí. Então eu vou investigar isso. E aí eu comecei a investigar o palhaço e entrei em sala de aula.

Luciano Pires: Com roupa de palhaço?

Varlei Xavier: Exatamente.

Luciano Pires: Você chega para dar uma aula, para uma garotada que espera um professor normal e aparece um cara vestido de palhaço?

Varlei Xavier: Mais ou menos. Porque na verdade, o palhaço não entra para ensinar nada. Ele entra para aprender. Desde a primeira vez que eu entrei em sala de aula, a pergunta sempre foi: o que está acontecendo aqui? O que vocês estão fazendo? E aí a criança ou o adolescente, o que ele vai fazer? Ele vai ensinar o palhaço. Porque o palhaço também, o superpoder do palhaço é errar. Então o que o palhaço vai fazer é errar. E aí quando ele erra – e aí tem toda uma estrutura para isso, tem todo um trabalho para isso – a criança identificou que está errado. O conhecimento já está acontecendo. E aí ela passa o quê? A organizar mentalmente o conhecimento para conduzir o palhaço em direção da aprendizagem. Além de ela criar empatia. Porque assim: esse cara tem mais dificuldade do que eu. Como é que eu ajudo? E muitas vezes ele não tem paciência. Ele acaba desenvolvendo. E é lindo. Então às vezes as pessoas falam para mim: o que você faz? Então você entra em sala de aula como o palhaço e faz um espetáculo?

Luciano Pires: Sim. Dá uma aula vestido de palhaço ou faz um espetáculo?

Varlei Xavier: Eu falo: não. O espetáculo é a aprendizagem. Eu sento. A aula é do professor. O professor está dando a aula dele.

Luciano Pires: É isso que eu ia te perguntar. Então eu imagino que… o palhaço sempre tem uma escada. Ele sempre tem uma escada para ele ou ele é a escada para alguém. E no teu caso você está interagindo com o professor também?

Varlei Xavier: E com o aluno.

Luciano Pires: E já combinou com o professor, que essa aula do professor… deixa eu ver se eu consigo entender então. O professor tem que cumprir uma carga horária. Ele tem “x” aulas ao longo do dia, a aula dura 50 minutos. Em algum momento esse professor concordou com você que você vai interferir na aula dele e você vai fazer uma muvuca. Ou seja, 25 minutos da aula dele serão por conta da muvuca que o palhaço está fazendo e que faz parte do… como que eu vou dizer? A generosidade dele, de ceder o tempo dele para que você possa cumprir essa tua parte?

Varlei Xavier: É.

Luciano Pires: Você não tem uma carga horária para cumprir?

Varlei Xavier: Na verdade, o palhaço aprendedor, ele é uma profissão nova. Eu estou criando uma profissão nova.

Luciano Pires: Eu estou gostando dela.

Varlei Xavier: Eu falo que é a profissão do futuro. Ele entra. Ele faz uma visita semanal na sala de aula. Pode durar de 50 minutos a duas horas. E nesse momento, o professor está dando a aula dele. Só que na educação a gente não tem ninguém comprometido com o erro. E o que a gente tem hoje em dia e sempre teve – mas hoje em dia isso está muito forte – são pessoas com medo de errar. E medo de errar vai tirando a vontade de aprender. Porque você não quer assumir o risco de tentar fazer uma conta. Eu costumo dizer que o medo de errar é uma doença degenerativa, que é incapacitante. Então o palhaço, ele arrisca. E arriscando ele erra. Errando, os alunos vão conduzindo. Então normalmente, o ideal é que o professor, ele só lance luz para o problema que o palhaço propôs para o erro, que a gente chama de melhor erro possível. Que é como se fosse o MVP do palhaço. E aí a criança vai ajudando a conduzir o palhaço para a aprendizagem.

Luciano Pires: O que é MVP? Explica aqui o MVP.

Varlei Xavier: MVP é o Mínimo Produto Viável.

Luciano Pires: Minimum Viable Product. Certo. Que isso é linguagem de startup.

Varlei Xavier: Exatamente.

Luciano Pires: E está na boca do palhaço e professor?

Varlei Xavier: Exatamente. E aí a gente tem o melhor erro possível. Que tem três características básicas, em primeiro lugar: o erro tem que ser contextualizado. Porque ele precisa fazer parte daquele universo. Senão é só mais uma gracinha. E às vezes uma gracinha pode ser uma desgraça. E aluno que faz palhaçada o professor já tem. Ele não precisa do palhaço para isso. E aí o palhaço vai lá, propõe um erro que é contextualizado, que é identificável. Então a criança precisa olhar e perceber: aqui tem um erro. Aqui está errado. E solucionável. Por quê? Porque a criança precisa conduzir esse erro. Então quando o palhaço está em sala de aula, quando ele está propondo o erro, ele tem que pensar se o erro tem essas três características. Então não é simplesmente dar a resposta errada. Mas é dar a melhor resposta errada. E a gente não é treinado para isso. A gente é treinado sempre para dar a resposta certa. Então quando você está em sala de aula como palhaço é uma desprogramação que você tem que fazer. E quando você sai de sala de aula, você sai cansado.

Luciano Pires: Eu imagino cara. Você tem que estar ligadaço. Deixa eu ver se eu consigo entender a dinâmica. Eu quero tentar descrever aqui para a gente visualizar – eu e o ouvinte aqui – visualizar a cena. Temos uma sala de aula com 30 garotos e garotas lá. Um professor dando aula. De repente a porta se abre e entra uma figura barulhenta, colorida, é isso? Com maquiagem e tudo mais?

Varlei Xavier: É. É uma maquiagem bem discreta. Não é aquela…

Luciano Pires: Mas é maquiagem?

Varlei Xavier: Mas tem maquiagem, tem o figurino.

Luciano Pires: Batom eu sei que tem.

Varlei Xavier: Tem o nariz.

Luciano Pires: E entrou escandaloso ali? Alguma coisa assim?

Varlei Xavier: Não.

Luciano Pires: Senta no meio dos garotos. O que acontece?

Varlei Xavier: Tem primeiro o protocolo de entrada. Então assim como o palhaço de hospital, ele não invade o quarto, que é a única coisa que a criança pode dizer não no hospital. O palhaço, ele bate na porta, ele pede licença. Ele pergunta se ele pode entrar e onde que ele senta. Nisso ele já está deixando que a autoridade é do professor. Então ele não entra para atrapalhar o professor.

Luciano Pires: Ele pede para o professor se pode entrar? Pergunta para o professor?

Varlei Xavier: Exatamente. Ele pergunta para o professor. E aí o professor fala: senta naquele lugar. Então tem uma cadeira ali para ele, uma mesa ali para ele. A partir daí…

Luciano Pires: Esse lugar não é no meio da garotada?

Varlei Xavier: É no meio da garotada.

Luciano Pires: Você vai sentar do lado. Chegou um colega de classe novo aqui?

Varlei Xavier: Exatamente. E é muito legal, que ao longo do tempo o palhaço vai sendo identificado como um colega de sala. Como um colega de turma. Então tem a cadeira. Eu já cheguei, já tinha o nome do meu palhaço ali, um crachazinho. E aí ele passa a fazer parte daquele…

Luciano Pires: Que idade tem essa garotada?

Varlei Xavier: Normalmente as crianças vão do 1º ao 5º ano. Mas eu já fui até alunos do Fundamental 2, até 9º ano.

Luciano Pires: Me dá a idade? Idade em anos?

Varlei Xavier: De seis anos até dez, mais ou menos.

Luciano Pires: Seis a dez. Legal. Criança. Legal.

Varlei Xavier: Mas os adolescentes também entram no jogo. É muito legal. Teve uma aula que eu estava acompanhando, que era uma aula de MMC. E os alunos não queriam fazer atividade. Eu sentei com eles. Eles sentavam em mesas. Eu tirei o material, comecei a fazer a atividade e comecei a mostrar para eles. E eles começaram a olhar. Falou: professor isso aqui que ele fez está certo? Não. Está errado. Abriram o caderno, começaram a produzir comigo. Que eles não queriam fazer atividade. Terminaram falando: aqui é produtividade. Você tem que vir todo dia. Então é muito louco como o adolescente também entra no jogo.

Luciano Pires: Você viu coisa parecida acontecendo em algum lugar?

Varlei Xavier: Ainda não vi. Não conheço.

Luciano Pires: Essa ideia tua do palhaço na escola. Tem o Doutores da Alegria. Você vai ser o Professor da Alegria. Você não chegou a ver isso em lugar algum?

Varlei Xavier: Não, não vi.

Luciano Pires: Você não foi buscar na França uma ideia para implementar aqui?

Varlei Xavier: Não. Na verdade, não vi no planeta. Pode ser que alguém esteja fazendo. Mas com esse nome Palhaço Aprendedor, eu não conheço. Então eu falo que eu sou o primeiro. E hoje nós já temos mais quatro.

Luciano Pires: Antes de você chegar nele, como é que você chegou… você falou que você viu o palhaço e falou: que legal. Você, naquela tua experiência no teatro, quando você viu o palhaço e viu que aquele negócio era legal. Veio aquela ideia: tem no hospital. Você chegou a estudar a mecânica do palhaço? Aprender a ser palhaço? A fazer espetáculo como palhaço etc. e tal, para depois chegar na sala de aula?

Varlei Xavier: Sim, sim. Eu tive todo um trabalho de construção dentro da escola de teatro. Foi uma ironia, porque exatamente o professor que trabalhava comédia popular, trabalhava teatro, ele não foi meu professor. Mas a minha namorada na época – que hoje é minha esposa – ela tinha essa formação com ele. Então eu ia pegando informação; ia experimentando individualmente. E durante a minha formação, o meu espetáculo de formatura – que a gente fica em cartaz – a minha construção de personagem era uma construção que depois eu fui descobrir que era o palhaço. Porque o professor chegou e falou: cara isso aí é palhaço, que você está fazendo. E aí na hora que terminou a temporada, eu simplesmente pus o nariz. E aí continuou assim.

Luciano Pires: Você criou um personagem? O doutor fulano, o professor fulano? Zezinho? Como que é o nome dele?

Varlei Xavier: Campônio.

Luciano Pires: Campônio.

Varlei Xavier: Isso.

Luciano Pires: Chama-se Campônio?

Varlei Xavier: Exatamente.

Luciano Pires: Da onde vem Campônio?

Varlei Xavier: Sabe aquela música do Vicente Celestino? Disse um campônio à sua amada.

 

Luciano Pires: Puta, mas isso é muito antigo.

Varlei Xavier: É muito antigo, triste. E o personagem, ele… era um espetáculo chamado Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu. E era uma trupe de circo/teatro e ele era o filho da dona da companhia. Só que ele tinha problemas. Então ele fazia o menino prodígio da companhia. Só que ele já tinha quase 30 anos. E assim, a ingenuidade dele era muito a ingenuidade do palhaço. Então acabou rolando. E eu fui me aprofundando nessa linguagem. Eu fui estudando e tudo mais e cheguei lá.

Luciano Pires: Muito bem. Você está no LíderCast, um PodCast focado em liderança e empreendedorismo, que proporciona conversas nutritivas, com gente que está aí para provocar mudanças. O LíderCast faz parte do Café Brasil Premium, a nossa Netflix do conhecimento, que redefine o termo estudar, ao transformar o seu smartphone em uma plataforma de aprendizado contínuo. Você pratica uma espécie de MLA, Master Life Administration, recebendo conteúdo pertinente, de aplicação prática e imediata, que agrega valor ao seu tempo de vida. São videocasts, sumários de livros, PodCasts, e-books, eventos presenciais e a participação em uma comunidade nutritiva, onde você faz um networking com gente como você, interessada em crescer. Acesse cafedegraça.com para experimentar o Premium por um mês sem pagar. Como que foi a primeira experiência nas salas de aulas, de você entrar e: hoje será o primeiro dia. Vou ver se esse treco dá certo. Você fez os balões de ensaio com a molecada ou você entra numa aula, convence um professor? Fala: se prepara que vai ter um treco novo aí. Como que foi isso?

Varlei Xavier: É. Eu convenci uma professora, uma colega. E aí ela estava dando aula para uma turma de 5ª série na época, que hoje em dia é o 6º ano.  Então são alunos ali entre 10 e 11 anos. E aí ela falou: eu quero participar disso. Eu quero ver. E aí ela estava dando uma aula de geografia. E aí a gente combinou. Eu dava aula à tarde. Ela falou: então nesse dia eu vou de manhã. Pode ser? A gente combinou qual era a aula. Ela falou: o tema vai ser mapas. Mas eu não lembro hoje como era. Isso foi em 2005, aliás, 2006, mais ou menos. Combinei mais ou menos com ela como que ia rolar. E entrei. E aí assim: funcionou muito. E tem um vídeo na internet, um menino – que hoje é adulto – falando como que foi essa experiência na época. Porque ele fala que quando eu saí, o olhar da molecada foi: o que aconteceu aqui? E ele falava assim: parecia que eu entrei numa montanha russa e rolou toda aquela emoção e eu quero mais. E aí eu comecei a ir para as minhas salas. Então eu fazia um combinado com a minha turma. Saía, me maquiava, me trocava e voltava. Aí eu tive a seguinte sacada: falta a mediação. Então o professor é fundamental. E aí eu comecei a desenvolver com os professores. Aí quando eu fui para a escola particular a partir de 2013, aí eu tive uma escola onde eu tive liberdade e eu tive uma professora que topou desenvolver esse trabalho com uma certa frequência. Então eu ia ir toda a semana. Aí eu fui criando a estrutura. A gente foi entendendo como é que funciona e tal. Então desde 2013 até hoje eu já tenho mais de mil horas de sala de aula como palhaço.

Luciano Pires: Como palhaço. E você falou que você tem quatro. São quatro já?

Varlei Xavier: Isso. Hoje já são quatro, além da minha esposa. A minha esposa, ela acompanha como palhaça em uma escola. E na escola onde nós estamos ela tem uma palhaça na sala dela. Então isso é muito legal, que ela consegue pegar os dois lados. E mais três atrizes que foram minhas alunas e que já estão conseguindo desenvolver esse trabalho comigo.

Luciano Pires: Como é que você mede o resultado desse teu trabalho? Para chegar no final do mês, alguém faz uma conta e fala: puta perda de tempo. Esses caras estão vindo aqui, fazendo essa bagunça, a molecada… qual é o QPS lá? Qual é o indicador que vocês usam para mostrar que esse negócio funciona? Que não seja o indicador romântico, sabe? Todo mundo alegre, todo mundo feliz. As crianças retêm mais. Sim. Retêm mais. Como que você sabe que retêm mais? Você tem indicadores que demonstrem? Que um professor vai falar: eu quero esse cara comigo, porque, bicho, dá uma olhada aqui. Existe isso?

Varlei Xavier: É nessa fase que a gente está agora. Assim, de tentar criar essa métrica para que…

Luciano Pires: Há quanto tempo acontece? Assim, em horas, em ano quanto tempo?

Varlei Xavier: Desde 2013.

Luciano Pires: 2013. Então você já pegou. Você já conseguiu pegar uma turminha do começo ao final?

Varlei Xavier: Sim. Hoje já tenho turmas que acompanharam o meu trabalho com palhaço que estão no ensino Fundamental 2, 6º, 7º ano. Eu ainda acredito que eu estou muito ainda no intangível. Então agora, por conta… eu falei recentemente no TEDx Campinas. E por conta do TEDx Campinas veio a oportunidade de eu fazer um MBA agora. Na verdade, um MBI em Inovação.

Luciano Pires: Convite? Você recebeu um convite para isso?

Varlei Xavier: Na verdade eu estou fazendo esse MBA por que…

Luciano Pires: Onde?

Varlei Xavier: Na UFSCAR. E agora o caminho é realmente entender como é que eu desenvolvo uma métrica. Porque assim: é visível. Só que eu quero tangibilizar para que não seja – como você falou – apenas uma coisa romântica. E assim: a gente percebe a felicidade. Mas como que a gente mede a felicidade? O Wellington Nogueira do Doutores da Alegria fala em felicidade interna bruta, como que a gente mede? Mas existem indicadores pedagógicos que são possíveis de tangibilizar. Então é nesse momento que a gente está. A gente está buscando desenvolver.

Luciano Pires: Tem uma demanda da garotada para o palhaço entrar em sala de aula?

Varlei Xavier: Sim. Deixa o palhaço faltar uma semana para você ver o que acontece. A molecada fica louca. A molecada vai cobrar. Porque normalmente a gente também trabalha na escola em outras funções. E eles conhecem a gente sem a figura do palhaço. Porque a gente não trata a criança como besta. A criança sabe que ali tem uma pessoa por trás. Tem um ator por trás. Só que é lógico que a gente cria toda uma simbologia para isso. E as crianças vêm cobrar a gente. Ela fala: por que ele não veio hoje? Na época que eles estão em semana de prova. Às vezes duram duas, três semanas a prova. Aquela molecada fica doida. E eles vêm contar para a gente as coisas que aconteceram em sala de aula com o palhaço, como se a gente não soubesse. É um negócio muito louco.

Luciano Pires: Eles conseguem dissociar você, como que é? O cidadão civil daquele personagem que está lá dentro. São pessoas diferentes.

Varlei Xavier: Exatamente. É muito louco assim.

Luciano Pires: Eu tenho uma palestra minha sobre inovação, que quando eu chego no final dela, eu vou dar as dicas da inovação. E uma das dicas eu conto uma historinha. Eu vou contar aqui agora, que eu digo o seguinte: eu tenho um amigo meu, fulano, que tem sessenta e poucos anos de idade, trabalha como vice-presidente numa empresa. Outro dia, eu encontro com ele no final da tarde. Ele vem caminhando e vem com a bolsinha, a malinha da academia junto com ele. E aí eu paro o carro: fulano, como que é? Vai malhar? Ele: não, malhar nada cara. Eu estou indo para o meu curso de palhaço. Que curso cara? Curso de palhaço. Me matriculei no Circo Escola Picadeiro, tenho aula segunda, quarta e sexta das oito às dez. O que é isso cara, quanto tempo dura isso? Dura dois anos. Você vai se formar o quê? Palhaço. E nisso a plateia já: kkkkk. E por que isso cara? Você é vice-presidente da empresa, 60 anos, avô, por que vai fazer curso de palhaço? Você está ficando louco? Ele fala: Luciano, você não faz ideia do que aconteceu com a minha vida, por conta do curso de palhaço. Eu digo: o que foi? É o seguinte: a vida inteira eu entrei nas reuniões que nem um palhaço. Agora eu entro convicto. A plateia: kkkkk. Mas acontece uma coisa: quando eu pego esse nariz aqui e boto o nariz aqui, eu mudo o mundo. As pessoas que eu conheço há 30 anos, elas mudam comigo. E eu entro numa reunião de diretoria onde tem um conflito e eu vejo graça. Eu fui treinado a ver graça onde só tem conflito. Então, de repente, eu surjo com soluções que ninguém pensou nelas. Porque eu estou olhando por um ângulo que os outros não conseguem ver, porque eu tenho um treinamento como palhaço. Então eu uso essa ideia de que ao vestir o personagem, ele passa a enxergar o mundo numa janela totalmente diferente dos outros. Começa a ter possibilidades que não existiriam com um senhor de terno e gravata. Como palhaço ele pode ver, ele pode falar, conversar com a garrafa e criar uma graça dali. E isso cria perspectivas. Se eu falo isso para o Murilo Gun, ele fica doido. Porque é exatamente essa ideia: é a criança de novo. Jogue o problema. E olhe por lados que você não vai estar com a grade. Você não vai estar engradado ali.

Varlei Xavier: É. Uma vez aconteceu – isso sem falar de conteúdo, porque dentro do conteúdo tem coisas lindas também – uma vez tinha terminado a atividade. As crianças ainda estavam terminando as atividades delas e eu falei assim: o que eu vou fazer agora? Porque eu não posso atrapalhar a aula, porque as crianças estão terminando as atividades delas. Só que ao mesmo tempo, eu como palhaço, sinto a necessidade de fazer alguma coisa. O que eu comecei a fazer? Porque tem hora que é você com você mesmo. E se você estiver bem, isso contagia. Eu estava com o lápis na mão. Eu coloquei o lápis perto do peito e comecei a tocar o lápis como se ele fosse um violão. Mas comecei a curtir aquilo. E estava lá tocando. Aí daqui a pouco vem uma criança e fala: o que você está fazendo? Eu falei: estou tocando. Mas está tocando o quê? Violápis. Você nunca viu violápis? Não, mas eu não estou ouvindo nada. Liga o botão da imaginação aqui. Ligou o botão da imaginação. Eu comecei a tocar. Agora eu estou ouvindo. Posso tocar também? Pode. Aí eu falei: o que você vai tocar? Eu vou tocar uma flauneta. Eu falei: o que é uma flauneta? É uma flauta de caneta. Aí daqui a pouco um pegou um batucorracha. E a gente tinha uma orquestra tocando na sala de aula, nos últimos momentos da aula, quando a aula estava acabando e já não tinha mais o que fazer.

Luciano Pires: Sim. Todas as possibilidades estão abertas. Como que reagem os colegas professores que não têm essa tua flexibilidade de abraçar essas coisas novas aí? Como que reagem eles?

Varlei Xavier: Quando eles têm um palhaço em sala de aula, o que eles se sentem é aliviados. É incrível eu falar isso. Mas eu não tive até hoje nenhum professor que se sentiu intimidado pela presença de um palhaço em sala de aula. Porque o trabalho que a gente faz é muito cuidadoso. A gente deixa claro para o professor que ele não está sendo vigiado.

Luciano Pires: Que não vai usar como uma escada para fazer piada dele.

Varlei Xavier: Exatamente. É. Isso a gente não faz. Acontece muito do professor começar a rir. E aí é muito engraçado que eu falo assim: do que você está rindo? Teve uma vez que uma turminha de 1º ano… era um exercício assim: tinha que colocar não sei quantos pães. Desenhar não sei quantos pães que tinham na cesta maior em três cestas. E aí eu comecei a desenhar vários pães. E aí a professora perguntou: Campônio está dando o número certo? Eu falei: não, fica tranquila que vai dar muito mais. E nisso ela começou a rir, que ela não parava. E ela tinha passado por uma semana muito difícil. Muitas vezes, eu como palhaço, sentei na sala dos professores para ouvir os professores. E só aquele ato de ouvir do palhaço, transformou o dia deles. Então eu já tive professores que falavam: você tinha que vir todo dia. É muito louco.

Luciano Pires: E é legal que você está dando uma… a inclusão dessa figura simbólica naquele ambiente que é tradicional contamina. Ela tem impacto e influência sobre todos os lados. É na garotada. É no funcionário da escola, porque você vai brincar com ele também no caminho. É com o professor. É com todo mundo. E isso não tem como não criar um ambiente… porque você está lá como um bicho do bem, para dar risada, para se divertir. Isso eleva o espírito de todo mundo. Tem que ser assim.

Varlei Xavier: É. É muito gostoso.

Luciano Pires: Como você lida com a criança que tem medo de palhaço? Se bem que no teu caso, com uma maquiagem discreta, isso reduz muito. Que o grande problema do palhaço é a maquiagem pesada. Aquilo assusta mesmo.

Varlei Xavier: O que acontece em primeiro lugar é: antes de eu entrar numa sala que eu nunca entrei. Cheguei na porta da sala – aquilo que você falou – tem que fazer a leitura da sala. Então isso é fundamental. Porque ali na porta você já consegue ver se tem alguma criança que se colocou ou que demonstrou algum tipo de medo. A partir daí então, a primeira coisa que o palhaço faz é: ele não entra. Inicialmente ele não avança. E se ele tiver que entrar naquele momento, ele deixa claro para a criança que o espaço dela, a bolha dela não será rompida. Então normalmente o palhaço, ele vai sentar longe. E o que acontece é que às vezes, na mesma aula, a criança já está in do atrás do palhaço. Porque muitas vezes o medo do palhaço vai de você estar na rua, está num açougue. Está um cara que está com uma fantasia – que na verdade ele não é palhaço, alguns são, mas têm muitos que estão com uma fantasia – vai lá e grita no seu ouvido. Dá nó no seu cabelo. Invade a sua privacidade. E lógico que tem a ver com os filmes de terror também. Mas quando você percebe que ali, aquele espaço, ele não vai ser invadido, a criança, ela vai se sentindo segura. E aí assim, isso é natural, ela sentir um interesse de se aproximar. Então eu não me lembro de um caso que teve medo de palhaço e que ele não foi solucionado. Eu já entrei numa sala que era uma sala de alunos bem agitados, onde aconteceu uma histeria coletiva na hora que eu cheguei na porta. Porque um aluno gritou e todo mundo gritou. Eu permaneci na aula, porque a professora pediu e tal. Só que na aula seguinte o que aconteceu? Aí veio o Varlei, aí veio o professor, veio o educador, colocou o figurino no chão e falou assim: pessoal, aqui, isso é um trabalho. Então acontece isso e isso. Aí tive uma conversa com a galera. Aí eles entenderam. Na aula seguinte não tinha mais problema. E eles aceitavam o jogo. E quando me encontravam era uma coisa. E quando encontravam o palhaço era outra.

Luciano Pires: Mesmo sabendo que era você vestido.

Varlei Xavier: E eles gostam muito mais do palhaço.

Luciano Pires: Mas não tem dúvida. Cara, que interessante essa tua história. Onde é que você se abastece da… deixa eu ver. Você tem que lidar muito com o improviso. Porque eu imagino que mesmo quando a professora fala: eu vou dar uma aula de mapas. Você não está com um script na cabeça de que vai ser essa, essa e essa piada. Você está aberto para o momento, o que vai acontecer ali. Tem que ter um treinamento para isso aí. Até para não fazer aquilo que você falou: a piada pela piada. Só pela gracinha. Tem que ter um treinamento para isso. O treinamento como palhaço te ajudou isso? Você foi cursar – a gente falou do Márcio Ballas aqui logo um pouquinho antes de entrar, que é um mestre do improviso – você foi estudar para se preparar para ser o palhaço educador?

Varlei Xavier: Sim. Aliás, palhaço educador nunca existiu até então. Mas eu fui estudar o universo do palhaço. Eu fui estudar linguagem. E aí a partir do momento que eu entrei em sala de aula, eu criei uma estrutura que conversa. Que faz a linguagem do palhaço conversar com a linguagem da sala de aula. Eu costumo brincar que o palhaço aprendedor, ele é a combinação de três figuras: ele é a combinação do palhaço. E aí o foco é o palhaço de hospital. O professor e do aluno que não entende a matéria. Você soma tudo isso, divide por três, dá o palhaço aprendedor. Porque ele é um profissional da educação. Só que ele se abastece muito das crianças. Então quando a gente está em sala de aula, a gente está observando muito como as crianças se portam. Porque às vezes, a resposta para o que eu vou dar no futuro tem a ver com algo que eu vi na criança. E como o palhaço se coloca vulnerável? Quais são as coisas que a criança fala que o palhaço pode pegar para si? Os próprios trejeitos que as crianças usam às vezes, a gente acaba reproduzindo.

Luciano Pires: Você tem que estar antenado com o universo delas, porque se elas são as crianças do game, você tem que saber do que se trata. Porque ela vai falar: tio vi ontem tal coisa. Você tem que, pelo menos, ter uma ideia do que é aquilo ali. Para não ser um palhaço ultrapassado.

Varlei Xavier: É. Exatamente.

Luciano Pires: Por isso que você falou: termina a aula você está um trapo.

Varlei Xavier: Está um trapo.

Luciano Pires: Você está falando aí e está me ocorrendo o que aconteceu comigo. Eu comecei a fazer workshops. Além de palestras eu fiz workshops. Montei vários workshops aí de quatro horas, seis horas, oito horas e fiz vários deles. Só que chegava no fim do workshop eu estava um caco. Por quê? Porque são seis, oito horas ligadaço. Você tem que estar antenadaço no que está acontecendo. A matéria que você está passando. A interação com as pessoas. As perguntas que vão aparecer. Você não consegue desligar um segundo. Depois de seis horas você está um bagaço. E as pessoas acham que não. Já sabe a matéria. É só chegar lá e jogar em cima. Não é. Eu lembro exatamente isso. Chega alguém lá com tudo quadradinho, joga em cima da molecada e dane-se. E não é isso cara. Se você quer puxar, você tem que pegar o feedback. Joguei. Funcionou? Não. Então espera um pouquinho. Tem uma coisa errada. Deixa eu procurar outra saída. E aí você tem uma demanda que não estava no programa e você tem que sair bem dela para não perder credibilidade e tudo mais.

Varlei Xavier: É. É sim. O palhaço, ele tem que estar com todos os sentidos no máximo. Então assim, todos os canais de percepção super aflorados. Por isso que você está numa outra chave de atenção. E hoje em dia eu já estou fazendo também o que a gente está chamando de retomada. Então as palhaças, elas vão para a sala de aula. E depois elas me trazem o que aconteceu ali. Então aí a metodologia vai ficando muito mais refinada. Porque aí a gente vai tratando das sutilezas de cada prática. Então ela falou: isso aconteceu dessa forma. Eu fiz certo? Eu falei; primeiro: não tem certo e errado. E, segundo: tem esse e esse caminho que você poderia ter feito também. Então, o trabalho, ele vai ganhando complexidade. Porque é um trabalho muito complexo. Não é para qualquer um fazer. Não é meter um nariz de palhaço. Não é meter uma fantasia e entrar em sala de aula.

Luciano Pires: Eu entrevistei aqui o Silvio Messias que faz palhaço de hospital e ele falou exatamente isso. Ele falou: é proibido entrar no hospital se você não tiver todo o treinamento. E não é todo mundo que consegue. Porque o negócio é extremamente sério. Eu não resisto a fazer um comentário aqui, que é o seguinte: tem muita gente que… eu vou na festinha infantil e tem um palhaço brincando com a molecada lá. E eu trato aquilo como uma puta de uma bobagem. O cara está fazendo a palhaçada dele lá. E na verdade, é um profissional envolvido num negócio que é complicadíssimo, que é conquistar aquela garotada, brincar com aquela garotada. Aguentar a demanda da garotada, com a cabeça funcionando, para que aquilo dê certo. Não é um mané que está lá vestido de colorido e fazendo piada. Tem um profissional trabalhando ali. Então muita gente nem respeita. E por isso que eu acho que, talvez, que o que me chama tanto a atenção e me deixa tão fascinado com o palhaço é exatamente com essa coisa de: esse cara assumiu um personagem. Ele está fazendo uma coisa muito séria, que é graça. Eu preciso achar graça no que ele está fazendo. Portanto, se ele não fizer direito eu não vou achar graça. Eu tenho que respeitar um cara desses caras. Porque ele está num ambiente aberto. Não é um ambiente controlado. Não tem: volta e faz de novo. É ao vivo. É em cores, ali na tua frente. Tem que respeitar. É um puta de um trabalho, que demanda muito e que merece respeito.

Varlei Xavier: É. É quase um sacerdócio. E exige da gente. Tem um palhaço que eu gosto muito que é o Márcio Libar.

Luciano Pires: Como é o nome dele?

Varlei Xavier: Márcio Libar.

Luciano Pires: Márcio Libar?

Varlei Xavier: Isso. É um mestre. E ele fala assim: o palhaço é aquele que aceita que perdeu. Quando você está em sala de aula, você aceita que você não sabe. E a partir daí, quando você mostra que não sabe, aquilo pode ou não ficar engraçado. Porque às vezes, nem sempre a gente é engraçado também. A gente às vezes é curioso. Às vezes é divertido. Mas nem sempre existe a obrigatoriedade de causar a gargalhada. Eu prefiro até o brilho no olho à gargalhada. Quando o olho da criança brilha, ela vem me conduzindo. As aulas que eu mais gosto de acompanhar são aulas de matemática. E eu sou péssimo em matemática. O palhaço aprende. Eu costumo brincar que ele surgiu quando eu tinha oito para nove anos e eu estava na sala de aula. A professora me chamou para eu resolver uma multiplicação com dois números. Eu errei uma, duas, três vezes. A professora bufou, virou e tomou o giz da minha mão. E escreveu com raiva o resultado na lousa. Desde então eu nunca mais fui bom em matemática. Parece assim, quando as pessoas falam em matemática, parece que elas estão falando um outro idioma. E as aulas que eu mais gosto de acompanhar são as aulas de matemática. E são aulas onde eu me permito errar. A minha esposa estava falando ontem de um aluno, que ela achava… um menino que tinha muita dificuldade em matemática e que tinha um outro que era muito rápido e que tinha um raciocínio muito veloz. Ele conseguia resolver as contas muito rápido. E aí ela sentou com a palhaça. Os dois meninos sentavam com a palhaça. Quem conseguiu ensinar melhor o menino que sabia ou o menino que não sabia tanto assim? Foi o menino que não sabia. Porque ele conseguia ter empatia com a palhaça.

Luciano Pires: Empatia. Sim.

Varlei Xavier: E aí ela olhou e falou assim, ela falou: eu quero chorar. Porque foi nessa hora que eu descobri que ele já sabia. Ele só não estava seguro o suficiente. Quando ele encontrou alguém menos seguro, alguém mais vulnerável que ele, ele conseguiu entender. Ele falou assim: tudo bem se eu errar.

Luciano Pires: Que esse é o grande lance. Quando você ensina, a melhor maneira de aprender é essa aí. Escuta: criança é um bicho cruel. Eles são cruéis. E quanto mais novo é pior ainda. Porque eles estão ainda naquele lance de aprender o convívio social. Então fazem bullying e xinga e bate e etc. e tal. Você costuma sofrer esse tipo de ataque ou de agressão das crianças? Não digo depois. Mas se chegou? É uma situação nova ali, elas vão experimentar para ver até onde vai. Você costuma sofrer esse tipo de assédio?

Varlei Xavier: Não é comum, mas já aconteceu. Já aconteceu de eu tomar um pisão, de eu tomar um tapa. E normalmente quando isso acontece é a criança pedindo atenção. É a criança falando: cara olha para mim. E a partir do momento que eu passo a olhar, as coisas se diluem. Então, por exemplo, esse caso que eu estou te falando foi uma menina que me deu um pisão e um tapa no primeiro dia de aula. E que depois de algumas semanas era a aluna que estava mais próxima de mim. E que no ano seguinte, eu fui dar aula de teatro para ela. E para essa turma eu não fazia mais o palhaço. E aí um dia, no Dia do Circo eu levei o meu palhaço para ela. Ela me abraçava e chorava, com uma saudade e com um amor, que era muito bonito. Então na verdade, ela queria ser vista.

Luciano Pires: Pais. Como que é a interação do palhaço com os pais? O palhaço participa de uma reunião de pais e mestres? De alguma forma, os pais entendem o que está acontecendo lá? Como que funciona isso?

Varlei Xavier: Já aconteceu. Já aconteceu de ter os palhaços na reunião. Eu também já visitei algumas reuniões, principalmente no começo do ano. Eu nunca tive nenhuma reação negativa dos pais. Os pais, na verdade, eles têm uma visão talvez um pouco distorcida do que é. Que é, de repente, achar que eu estou entrando ali para fazer graça ou que eu estou entrando para animar a galera. E na verdade, a graça, ela acontece quando estamos num estado de graça. E a animação acontece quando existe interesse e alegria por aprender. Mas quando as crianças vão contando o que acontece na sala de aula, aí eles vão dizer: quer dizer que o palhaço senta para aprender com vocês? Ele não vai dar aula? E aí é uma reação de espanto. Uma mãe de uma aluna – que depois virou minha amiga – ela falou: quando eu ouvi a minha falar que ela estava ensinando o palhaço eu desacreditei. Eu falei: nunca vi isso na minha vida. Então é muito legal.

Luciano Pires: Que legal. Você falou que você está preparando uma turminha. Você está com quatro já com você ali. E falou também que você desenvolveu meio que um método aí. Ele está formalizado? Você tem um método escrito? Você tem já uma metodologia, que você pode, de repente, montar um curso para eles, o curso do palhaço educador?

Varlei Xavier: Com certeza.

Luciano Pires: Você já fez isso? Já existe?

Varlei Xavier: Ainda não fiz. Porque como ainda é uma metodologia muito nova, é um trabalho muito novo, o que eu quero é que ele ganhe um pouco de notoriedade. Que eu coloque as pessoas que estão no meu entorno, meus ex-alunos, pessoas que estão de alguma forma, ligadas comigo, para que depois eu consiga replicar. E eu trabalho muito com jovens de baixa renda também. Então eu sou fundador de uma ONG lá em São Bernardo do Campo. E a molecadinha começou comigo com seis anos também. E hoje eles são alunos. O professor de teatro deles foi meu aluno também. E aí eu olho, esses dias eu fui visitar a turma, fui fazer uma mentoria do trabalho, eu olhei e falei assim: essas são as próximas palhaças aprendedoras. Porque é um pessoal que também quer viver de arte. E é um ramo que é muito difícil. É muito difícil lidar.

Luciano Pires: E você aponta para algumas alternativas interessantes, que são aquelas de: o que o palhaço faz? Ou ele está no circo, ou ele está no teatro ou ele está no farol pedindo doação. Não, cara. Ele pode estar no hospital. Agora você está mostrando que ele pode estar na escola como um instrumento educacional e não como um bibelô que vai fazer barulho e gracinha ali. Animar a garotada.

Varlei Xavier: E tem potencial de escola. Quantas escolas nós temos no Brasil? Então assim, cada escola pode ter um palhaço aprendedor. Se tiver um palhaço aprendedor em cada escola, então quantos profissionais a gente não pode formar aí? Então assim, a ideia é que a gente consiga dar escala para isso no futuro. Mas a gente ainda está engatinhando. Está muito no comecinho. Eu até falo assim: você é um case de sucesso? Eu falo assim: não, por enquanto eu sou um case de insucesso. E não tem nenhum problema nisso. A gente está testando. O palhaço aprendedor, ele é produto desde 2016. Porque até então eu não…

Luciano Pires: Ele acabou de começar.

Varlei Xavier: É. Eu não imaginava que eu podia levar para outras escolas. Eu achei que era naquela escola que eu estava fazendo ali. Até no momento que eu fui numa escola, apresentar o que eu fazia. E ela falou: eu quero isso. Eu quero o palhaço. Eu não quero aula de teatro. Eu quero o palhaço. Eu falei: espera aí, então tem gente que quer. Ao mesmo tempo, é difícil também a gente convencer as pessoas de que ela quer. É igual quando… antes de existir o iPhone. O Steve Jobs ele fala isso: você vai descobrir que você quer isso. Então as pessoas ainda precisam descobrir.

Luciano Pires: Eu falo muito com o pessoal que me pergunta sobre PodCast. Eu falo: o desafio do PodCast é tentar fazer um patrocinador investir um dinheiro numa coisa que ele não sabe o que é e muito menos que ele precisa. Então primeiro eu vou te apresentar o que é, vou mostrar que você precisa e vou te convencer a investir nesse negócio aqui. É triplicado. Se fosse um modelinho que todo mundo já conhece você chega lá e fala: eu tenho. O meu é mais bonito que o dele. Compra o meu. Na nossa posição aqui, eu vim te apresentar um negócio que você nem sabe que existe. Aí tem que realmente desbravar. Tem que abrir. E aí chega um ponto interessante que você falou aí, essa professora que falou: eu quero o palhaço. Quer dizer, é encontrar um interlocutor que consiga entrar em sintonia. Entendi o que esse cara está trazendo. Enxerguei valor nessa proposta dele. E quero aqui na minha escola. Isso é o mais difícil. Porque não tem interlocutor assim em todo lugar não.

Varlei Xavier: E sabe que nessa mesma escola aconteceu uma coisa curiosa. A escola começou a passar por uma dificuldade financeira muito grande. E ela falou: a gente, infelizmente, a gente não vai conseguir te pagar. Então a gente vai ter que descontinuar o trabalho. Mas a gente quer continuar em contato com você e quem sabe a gente volta no futuro. Sabe o que aconteceu? A escola perdeu 50 alunos quando eu saí. Aí perguntava: por que você está saindo? Porque não tem mais palhaço. E aí você fala: espera. Se criou alguma coisa ali. Então às vezes isso acontece. Essa escola, ela teve um prejuízo muito maior, na verdade. Só que ela não conseguia dimensionar.

Luciano Pires: Ela criou um valor e depois tirou o valor. E aquilo ficou sensível. Como que se remunera isso? Eu sei que é tudo muito novo. Você não deve ter uma tabela de preço. Mas é hora/aula. É por entrada? É pelo dia de trabalho? Como que você faz?

Varlei Xavier: O palhaço aprendedor, ele ganha pela hora/aula. Porque ele é um profissional da educação. Então como profissional da educação, ele ganha pela hora/aula. Então ele tem um valor “x”. E para eu fechar com uma escola, eu preciso de uma carga mínima. Então, por exemplo, porque não dá para ir lá e dar uma aula na semana e ele ganhar uma mixaria durante o mês. Então tem que ter uma carga mínima. E aí a partir dessa carga, ele permanece na escola. Só que também, a carga não pode ser muito alta. Porque é um desgaste emocional muito grande. Então ele precisa ter tempo para meditar. Agora a gente vai começar a fazer times meditativos de palhaços. Esse é o meu próximo passo. E meditar de nariz.

Luciano Pires: Eu quero entrar numa sala dessas para ver 18 palhaços meditando. Deve ser uma cena de filme.

Varlei Xavier: E de nariz. Porque é um trabalho de autoconhecimento. Ele vai precisar fazer uma higiene emocional. Porque assim como o palhaço de hospital, ele também precisa de ter estrutura. Eu nunca entraria num hospital, por exemplo. Eu sinto que eu não tenho estrutura e eu não tive treinamento para isso. Tanto que as pessoas falam assim: por que você não vai em hospital? Não. Não é. É o que o Sílvio falou: não é por aí. Agora, o meu trabalho em sala de aula, ele precisa de um acompanhamento emocional. Tinha uma época que eu estava com 30 horas na semana em sala de aula, como palhaço. Eu falei: cara, eu vou ter que parar. Porque assim: eu estava arrebentado. Eu só queria dormir. Porque é um desgaste. É uma energia que você gasta. Eu não estou falando de energia…

Luciano Pires: Física.

Varlei Xavier: É.

Luciano Pires: Não. É emocional.

Varlei Xavier: É emocional.

Luciano Pires: É inteligência. Queimando neurônios ali.

Varlei Xavier: Porque você está o tempo todo no seu vulnerável também. E você ouve coisas. Então é bem louco assim. Então tem sempre uma carga máxima do palhaço, que ele cuida.

Luciano Pires: Quais são seus planos agora? Eu entendo que você pretende ficar nessa, você quer ampliar a questão toda do palhaço. Já foi reconhecido, já foi chamado para um TEDx. Não é mole não. Não é pouca coisa. O que você tem pela frente? Qual é o projeto? O que você precisa para a coisa expandir?

Varlei Xavier: O meu desafio agora é entender de onde sai a grana. De onde sai o financiamento para fazer esse trabalho acontecer. Se é de um edital? Se é de um patrocinador? Porque se eu for – é lógico – no potencial só de: vou vender para uma escola aqui, para uma escola ali. O trabalho, ele vai escalar de uma forma muito mais lenta. E eu quero dar uma escala um pouco mais rápida. Então eu estou agora tentando trazer junto para o educador, o artista, para o palhaço, para o professor, o homem de negócios. Então as coisas só vão começar a andar e funcionar quando eu entender de business. Então sabe quando é uma… eu me sabotei durante muito tempo e negligenciei durante muito tempo. E chega. Está na hora de você entender de negócios. Então a pós-graduação agora, o MBA está vindo para me ampliar os horizontes aí. E para ver de onde que rola. Então se tiver alguém aí que está a fim de levar para a sua escola ou de patrocinar de alguma forma, estamos aí à disposição. Porque não é um trabalho que eu acho que agora, no momento, deva ser voluntário. Porque no futuro ele pode até ser. A gente pode até oferecer. Eu tenho até um plano de: a hora que eu conseguir 10 escolas particulares, eu dou para uma. A hora que eu conseguir 15 escolas particulares, eu dou para duas. A hora que eu conseguir 20 escolas particulares, eu dou para três. Eu até falo que no Palhaço Aprende 5+5=1; 10+5=2; 15+5=3.  Então a hora que a gente conseguir fazer isso, a gente vai oferecer voluntariamente. Mas como artista, a gente também tem que aprender a se valorizar enquanto profissional.

Luciano Pires: Sem dúvida.

Varlei Xavier: Então a gente está nesse momento. Então se alguém quiser financiar, se alguém quiser patrocinar, se alguém quiser tornar esse projeto escalável, eu estou aí à disposição e vai ser um prazer.

Luciano Pires: Como é que a gente acha você?

Varlei Xavier: Pode ser pelas redes sociais, ou seja, Varlei Xavier.

Luciano Pires: Varlei com V?

Varlei Xavier: Varlei com V e com I. É bem brasileiro. Eu acho que o nome já é bem complicado.

Luciano Pires: Para botar um Y e um W ali. Ia piorar. Então é Varlei com V e I.

Varlei Xavier: Xavier com X. Varlei Xavier. No Instagram, no Facebook e tem também o Facebook Palhaço Aprende e no Instagram é palhacoaprende. E tem o meu site pessoal também, que é o varleixavier.org. E é ponto org porque aí tem o Palhaço Aprende. Tem um programa de aprendizagem autodirigida também, que eu tenho nas escolas. Eu trabalho com teatro estudantil e palestras também.

Luciano Pires: Maravilha.

Varlei Xavier: E eu também estou retomando um projeto antigo, que é um PodCast. É um PodCast com histórias de educação. E qualquer um pode mandar uma história. A pessoa grava com o fone de ouvido no celular mesmo. Chama Missão Encantamento.

Luciano Pires: Que legal. E você apresenta a história?

Varlei Xavier: A pessoa grava a própria história e aí eu sonorizo. As pessoas estão falando muito bem. Foi um projeto que eu iniciei em 2016, quando eu iniciei um projeto chamado Doutorado Informal. E aí eu comecei a fazer esse PodCast. Eu fiz dois episódios e não tive mais perna. Mas agora eu estou retomando. Já estou pedindo as histórias. Já estou recebendo algumas.

Luciano Pires: Legal.

Varlei Xavier: Então Missão Encantamento vai estar por aí também.

Luciano Pires: Se quiser um estudiozinho legal para gravar, está à disposição aqui cara. Pode usar.

Varlei Xavier: Opa, muito legal.

Luciano Pires: Só me avisar, vem aqui, que vai ser um prazer cara.

Varlei Xavier: Nossa… eu vou adorar. Eu vou adorar.

Luciano Pires: É isso aí. Grande Varlei. Ótimo cara. Adorei saber essa história do palhaço que aprende. Eu acho que isso tem um potencial fantástico cara, de crescer muito. Eu espero sinceramente que baixe uma luz aí nos interlocutores e que enxerguem o potencial que tem esse trabalho para te chamar nas grandes escolas. Escolas ricas que chamem e que te encha de dinheiro. Porque aí você vai lá nas que não podem e vai falar: o cara me pagou lá, eu posso vim aqui. A moçada que está treinando comigo vai treinar e nós vamos atingir as escolas por esse país todinho aqui. Que eu acho que é aquilo que eu falei no começo: eu sou absolutamente fascinado por palhaço. E eu acho que esse fascínio que eu tenho é um fascínio de criança. E não há criança, por trás até da que tenha medo, ela vai ter uma fascinação. E usar isso como ferramenta para ensino cara, isso é maravilhoso. Baita ideia. Aliás, puta ideia viu?

Varlei Xavier: Puta ideia.

Luciano Pires: Parabéns, obrigado pela presença aqui. Você veio lá do ABC, gastou três horas do seu dia para estar aqui. Mas eu acho que foi um papo legal aí. Se ele te der sorte você vai ter umas chamadas legais aqui em função desse PodCast.

Varlei Xavier: Fico muito feliz. Agradeço demais. Agradeço ao Ramón também, porque um cara muito especial. E que eu acho que o sonho dele, um dos sonhos dele era eu estar aqui.

Luciano Pires: Que legal. Então está resolvido. Agradeço mesmo. Obrigado pela dica Ramón. E olha você que está ouvindo a gente aí: se tiver mais palhaços educadores ou gente interessante assim, avisa que a gente sempre gosta de convidar e trazer essas histórias excelentes para contar. Cara obrigado. Um abraço.

Varlei Xavier: Eu que agradeço.

Luciano Pires: Muito bem. Termina aqui mais um LíderCast. A transcrição deste programa você encontra no lidercast.com.br. O LíderCast nasceu da minha obsessão pelos temas liderança e empreendedorismo. É em torno dele que eu construí minha carreira, com mais de mil palestras, nas quais distribuo iscas intelectuais, para provocar equipes e indivíduos e ampliar seus repertórios e sua capacidade de julgamento e tomada de decisão. Leve o fitness intelectual para a sua empresa. Acesse lucianopires.com.br e conheça minhas palestras.

Locutor: Você ouviu LíderCast com Luciano Pires. Mais uma isca intelectual do Café Brasil. Acompanhe os programas pelo portal cafebrasil.com.br.

 

 

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