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Luciano Pires -
Download do Programa

Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast. O PodCast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. O convidado hoje é Tristan Aronovich, ator, diretor e produtor de cinema que atua no Brasil e nos Estados Unidos. Uma história fascinante. Muito bem, mais um LíderCast. Sempre lembrando que eu gosto de começar contando como é que a pessoa chegou até aqui. Esse aqui foi mais um daqueles caminhos tradicionais. Entra no meu e-mail um release feito por uma agência de comunicação, falando: tem um cara assim, assim, assado. Eu olhei aquilo e falei: rapaz, isso aqui pode dar samba. Eu respondi para eles. Pronto. Não deu… cara, não deu uma semana.

Tristan Aronovich: Está dando samba já.

Luciano Pires: Uma semana já deu samba lá. Então o programa começa com três perguntas, que são as únicas que você não pode errar. O resto você pode chutar à vontade. Essas três, de jeito nenhum. Que é: seu nome, sua idade e o que você faz?

Tristan Aronovich: Ô louco. Puta; vamos ver se eu não erro.

Luciano Pires: Vamos lá.

Tristan Aronovich: Vamos lá. Meu nome é Tristan Aronovich. Tristan é um nome meio esquisito, que o pessoal fala Christian, fala qualquer negócio assim, no Brasil…

Luciano Pires: Tristan com T.

Tristan Aronovich: É Tristan com T.

Luciano Pires: Tristan.

Tristan Aronovich: Então às vezes que eu vou no prédio de alguém, assim: quem é? Tristan. O cara: Christian? Não. Tristan. Cara, só isso já dá uma crise de identidade já. Daí eu falo: não. É como triste, mas com AN no final. Que é um nome gaélico.

Luciano Pires: Já é cinematográfico isso.

Tristan Aronovich: Isso já é cinematográfico. É engraçado, no Brasil não é comum. Mas na Europa, na França, em vários países europeus, países de origem gaélica, celta é comum. Nos Estados Unidos também é relativamente comum. Mas aqui ainda é um pouquinho exótico. Tinha o Tristão.

Luciano Pires: Athayde.

Tristan Aronovich: Tristão de Athayde. Tem também o Tristan Tzara. Tem alguns nomes aqui que ficaram conhecidos. Mas eu nunca conheci ainda…

Luciano Pires: Outro Tristão?

Tristan Aronovich: Outro Tristão ou Tristan aqui no Brasil. Aí Aronovich, que é russo. Aí ficou uma salada total.

Luciano Pires: Então não é um nome…

Tristan Aronovich: Artístico. Não, não cara.

Luciano Pires: O nome está lá no teu documento?

Tristan Aronovich: É o meu nome.

Luciano Pires: Legal. Idade e o que você faz?

Tristan Aronovich: A idade: 36 anos. Cara, o que eu faço? Eu faço uma porção de coisas. Mas prioritariamente, desde os sete anos, eu acho que a atividade que eu faço há mais tempo, se for por cronologia. Eu sou ator em primeiro lugar. Posteriormente comecei a trabalhar muito como músico. E a última profissão – que é talvez, a que te tenha chamado a atenção e que me trouxe para cá – é de cineasta. Então esse tripé. Ator, músico/musicista e cineasta.

Luciano Pires: Interessante. Isso vai dar uma conversa muito boa aqui hoje. Você nasceu onde?

Tristan Aronovich: Eu nasci em Porto Alegre.

Luciano Pires: Gaúcho, cara?

Tristan Aronovich: Gaúcho. Por acidente. Porque meus pais são uns gringos que se encontraram em Porto Alegre.

Luciano Pires: Essa é a pergunta: o que seu pai e sua mãe faziam ou fazem?

Tristan Aronovich: Sim. Bom, meu pai é falecido já, mas era antropólogo e minha mãe também. Minha mãe é viúva ainda. Então ambos se conheceram trabalhando em prol da causa indígena. E minha mãe é russa. Então o pessoal veio de outros países para trabalhar na causa indígena aqui. Era um período que estava rolando uma história de demarcação coisa e tal. E eles acabaram se conhecendo ali. E aí tiveram um romance e eu acabei sendo…

Luciano Pires: Seu pai é brasileiro?

Tristan Aronovich: O resultado.

Luciano Pires: Ele é brasileiro?

Tristan Aronovich: Não, nenhum dos dois na verdade. É russo e alemão. É uma salada maluca. E eu aí por… então, o DNA nesse caso, não seria brasileiro. Mas eu sou politicamente 100% brasileiro.

Luciano Pires: Você tem irmãos?

Tristan Aronovich: Tenho um irmão por parte de pai, com outra esposa. E tenho outras duas irmãs também. Todo mundo espalhado pelo mundo.

Luciano Pires: Os dois eram antropólogos então?

Tristan Aronovich: Exatamente.

Luciano Pires: E trabalharam com os Villas-Bôas?

Tristan Aronovich: Indiretamente sim. Eu acho que pessoalmente não, porque é uma outra geração. Os Villas-Bôas eu acho que são de uma geração um pouquinho mais. Talvez a geração dos meus avós. Mas indiretamente sim. Então eu cresci ouvindo… português foi uma das últimas línguas que eu ouvi na minha casa e na minha vida. Eu ouvia em casa, eu ouvia inglês, ouvia francês, ouvia tudo. Porque eles se comunicavam assim, eu ouvia caingangue, que era a língua dos índios que estavam lá em casa. Aí eu acho que o português ficava a cargo da escola.

Luciano Pires: Eles se conheceram aqui no Brasil?

Tristan Aronovich: Se conheceram aqui no Brasil.

Luciano Pires: Uma russa e um alemão se conhecem aqui?

Tristan Aronovich: Se conhecem aqui, trabalhando com índios. E aí eu sou o resultado da salada.

Luciano Pires: Então você tem um pouquinho de cada cultura dessas na veia?

Tristan Aronovich: Cara, se você olhar a família dos dois, os dois já são completamente misturados. Então tem parte norueguesa, parte escocesa, parte isso, parte aquilo. Então eles mesmos não são reflexo puro ou clichê da cultura russa ou alemã, eles são também uma mistura. Então para mim foi muito gostoso, porque eu cresci no meio de uma salada cultural, literalmente e com índio em casa ainda.

Luciano Pires: E com índio em casa.

Tristan Aronovich: É. Então foi uma salada. Uma família nada ortodoxa

Luciano Pires: Como que era o teu apelido quando você era molequinho?

Tristan Aronovich: Cara, então, Tristan já é curto o suficiente. Muita gente falava Tiara. Porque eu sempre fui cabeludo, desde molequinho. Desde que eu me conheço por gente. Eu tive cabelo curto acho que uns dois anos da minha vida. Não deu certo. Dá muito trabalho.

Luciano Pires: Cabelo curto?

Tristan Aronovich: Tem que ficar cortando. Isso é um problema. Tipo: a cada um mês, dois meses tem que ir na barbearia cortar. Assim eu não faço nada, com o cabelo meu comprido. E vai deixando. Então o pessoal chamava de Tiara também. Só. De apelido era isso aí. Aqui no Brasil hoje em dia, algumas pessoas me chamam de Tris, o que eu acho meio engraçado até.

Luciano Pires: Tris?

Tristan Aronovich: É.

Luciano Pires: O que o Tristanzinho queria ser quando crescesse?

Tristan Aronovich: Olha cara, eu acho que como toda criança, eu tive vários desejos. Mas desde muito molequinho eu já estou metido nas artes. Porque os dois lados da família também traziam muito isso. Então eu morava no Brasil; aos sete anos – seis para sete anos – quando me colocaram para atuar num programa de televisão aqui – que eu acho que não existe mais – na TV Cultura chamado Rá-Tim-Bum. Você lembra?

Luciano Pires: Sim. Opa, quem não lembra? Isso marcou época.

Tristan Aronovich: Então eu comecei atuando ali. E minha mãe, como boa russa – os russos levam a arte muito a sério – falou: está gostando? Eu falei: estou adorando, mãe. Ela: então vai fazer direito. Porque está um lixo esse negócio. Vai aprender. Vai fazer aula de teatro, interpretação.

Luciano Pires: Isso onde, aqui em São Paulo?

Tristan Aronovich: Isso aqui no Brasil, na época. Porque eu cresci metade no Brasil, metade fora do Brasil. A vida foi meio a meio.

Luciano Pires: O teu nascimento, você falou: foi por acaso, em Porto Alegre.

Tristan Aronovich: Foi por acaso, em Porto Alegre.

Luciano Pires: Estavam passando por lá?

Tristan Aronovich: É porque era um momento, eles trabalhavam na época para uma… nesse movimento de demarcação, através de uma ONG – se eu não me engano; como faz tempo, eu posso estar meio equivocado – chamava ANAI, Associação Nacional do Índio, se eu não me engano. E a base dessa ONG era Porto Alegre. E também havia outros familiares em Porto Alegre. Então naturalmente, a coisa acabou ficando por lá por um tempo. Depois a gente foi para São Paulo. O meu pai já não. O romance não durou tanto tempo assim. E aí depois eu fui para a Califórnia. Onde eu passei todos os meus estudos, toda a minha formação acadêmica, foi quase toda nos Estados Unidos.

Luciano Pires: Você foi para lá garotinho ainda?

Tristan Aronovich: É. Eu acabo indo garotinho. E fiquei de vez adolescente. Aí da adolescência até concluir toda a parte acadêmica eu fiquei lá diretaço.

Luciano Pires: Mas essa história então, você curtiu a história de ser ator?

Tristan Aronovich: Eu adorei, adorava.

Luciano Pires: E você achou que aquilo podia ser: isso vai ser meu jeito de ganhar a vida?

Tristan Aronovich: Olha, quando você é moleque você não pensa assim, você só está curtindo. Então eu adorava. Adorava ir para o set, me divertia muito. Ganhava dinheiro para fazer o que eu fazia por prazer, que é brincar de faz de conta. Porque o que um ator faz basicamente é estar brincando de faz de conta. É uma realidade imaginária e você está dentro dessa realidade, você tem que levar ela muito a sério. É incrível. É o que eu faço em casa sem ninguém me pagar. E aqui está a TV Cultura me pagando para fazer. Demais. Mas a minha mãe achava – e meu pai também, mas isso era um pouquinho mais incisivo por parte da minha mãe – ela achava que o artista tinha que ser muito completo. Então ela foi me colocando para fazer aula de música, aula de dança, várias outras coisas, para ir complementando. E isso foi expandindo o leque. Então eu queria muito, talvez a coisa que eu mais quisesse ser, conscientemente quando moleque, era roqueiro. Eu gostava muito. Então eu pedi uma guitarra elétrica para a minha mãe, ela foi lá e me deu um violão. Eu fiquei frustradíssimo. Eu falei: não mãe, é guitarra elétrica. Ela: não, então primeiro você vai ouvir Andrés Segovia, vai aprender violão clássico e depois eu te dou a guitarra elétrica.

Luciano Pires: Que legal.

Tristan Aronovich: E dito e feito. Eu acabei no início por obrigação, fazendo violão clássico, já tinha feito piano, violino; vários outros instrumentos. E acabei me apaixonando pelo violão clássico depois de um tempo. E levei muito a sério, por muitos e muitos anos. Uma das minhas faculdades é em Música, por conta do violão clássico. Eu fiz duas faculdades, uma delas foi Música.

Luciano Pires: Você falou um negócio aí que é interessante, que levanta uma lebre bem legal. Essa ideia da tua mãe imaginar que para ser um artista tem que ser completo. Que é uma coisa interessante, que você está vendo lá nos Estados Unidos, que um cara vai num programa de televisão, ele abre a boca para cantar, o cara canta afinado. Toca uma música, ele dança. E ele escreve. Os caras parecem que falam assim: cara, para você fazer sucesso lá você tem que estar disposto a estar…

Tristan Aronovich: Você tem que ser versátil.

Luciano Pires: Muito versátil?

Tristan Aronovich: Isso.

Luciano Pires: E desenvolvem todas essas áreas aí?

Tristan Aronovich: É. Os norte-americanos bebem muito a tradição do musical, que foi algo que Hollywood na Época de Ouro e mesmo a Broadway mesmo, em Nova Iorque. É uma coisa que marcou demais a formação do ator. Então o ator, para ter alguma chance, ele tinha que ser multi habilidoso. Eu não falo nem multi talentoso, mas multi habilidoso. E os russos sempre tiveram muito isso. Então a Escola de Arte Russa sempre primou muito pela versatilidade do artista. Então o ator que também dança, que também dirige, que escreve. A filosofia bem stanislavskiana, que o artista tem que ser o mais completo possível. E minha mãe é filha de uma excelente pianista e de uma das maiores cantoras de opera da Rússia também. Ela acreditava nisso e levava isso muito a sério. Então desde o início ela falou: bom, se é arte, então pensa arte. Pensa grande. Não vai ficar só decorando um textinho. Isso vai te deixar um ator muito obtuso. E aí ela foi me encorajando. E hoje… claro, quando criança às vezes, você fica enraivecido. O que eu queria ir fazer aula de violino, quando eu tinha seis anos de idade? Eu queria era estar brincando. Mas hoje eu só tenho a agradecer. E continuo tocando vários instrumentos. Hoje é claro, eu toco muito mais aqueles que eu acabei escolhendo por prazer. Alguns mais exóticos. Fui resgatar as minhas origens. Eu toco harpa celta, que é uma coisa muito rara, gaita de fole, essas coisas assim. Que doideira né? Uma doideira. Mas continuo tocando todos os outros que minha mãe gostava que eu tocasse naquele momento, que foram a minha base musical. E que bom.

Luciano Pires: A tua adolescência para a juventude, os seus 16, 17, 18 anos, que é quando você define: eu vou cursar tal coisa, para ser alguma coisa na vida. O que foi que te definiu lá?

Tristan Aronovich: Ah não, aí era arte. Porque eu já trabalhava há 10 anos com isso. Então nesse momento, para mim já não havia dúvida. Porque eu já estava ativamente. Eu ganhava dinheiro já com aquilo. Eu já tinha uma carreira no Brasil e nos Estados Unidos, nos dois lugares. Então com 16, 17 anos eu já tinha literalmente uma carreira em música e televisão, cinema. Então aí já não era mais dúvida. Aquele momento: o que eu faço na faculdade? Para mim não foi… para mim a questão era assim: têm várias possibilidades de faculdades de artes. Então para mim, a única questão era: qual delas vai ser mais benéfica para a minha carreira agora? Porque vai ser ou música ou cinema ou teatro. Então para mim a única questão foi pesar qual seria a escolha mais coerente dentro desse universo. Eu acabei optando por música e cinema na época. Porque como eu já atuava há 10 anos, eu conhecia muito pouco do ofício do cineasta. Se você me soltasse com 17 anos atrás das câmeras, eu era um zero à esquerda, um ignorante completo. Então você como ator fica numa posição muito ingrata, que é de sempre depender de teste ou de convite ou algo do gênero. Então quando você quer contar as suas histórias, você fica limitado como ator. Então eu falei: se eu fizer cinema, talvez isso agregue mais para a minha carreira até como ator. Porque aí eu posso contar as minhas próprias histórias. Eu não dependo só de um teste. Eu posso desenvolver os meus projetos. Eu vou conhecer vários outros cineastas fazendo faculdade de Cinema, que vão virar amigos meus e consequentemente, também vão poder me convidar para os filmes. E isso não impede que eu continue estudando atuação da mesma forma. Que é o que eu fiz.

Luciano Pires: Nós estamos falando de 97, 98?

Tristan Aronovich: Eu comecei a faculdade em 99. E aí eu demorei mais – não por ser burrinho – porque como eu fiz duas ao mesmo tempo…

Luciano Pires: Você fez lá?

Tristan Aronovich: Eu fiz lá, isso.

Luciano Pires: Então, uma coisa interessante. Você estava com um pé lá e outro aqui. Essa coisa do vai e vem, vai e vem. Atuando num segmento é tratado de forma completamente diferente nos dois países. A indústria da arte nos Estados Unidos é uma loucura. Aqui no Brasil.

Tristan Aronovich: É uma piada.

Luciano Pires: Aqui, pelo amor de Deus. Aqui… e você sentia o baque quando ia e voltava de lá?

Tristan Aronovich: Mas completamente. Completamente. Ainda sinto.

Luciano Pires: Eu imagino.

Tristan Aronovich: Ainda sinto, até hoje. Você tem cidades como Los Angeles, que na verdade surgiram por conta dessa indústria. Tanto que em Los Angeles, se você fala, corriqueiramente: você trabalha com o quê? Você fala: industry. Significa que você trabalha na indústria de entretenimento. Então quando você fala: trabalho na indústria. Aqui no Brasil parece que você trabalha, sei lá, como metalúrgico, alguma coisa do gênero. Lá não. Lá você trabalha ou com cinema, alguma coisa ligada a entretenimento.

Luciano Pires: Sim. Eu tenho uma experiência interessante lá em Los Angeles. Eu só entendi onde eu estava quando aconteceu isso. Eu estava passeando lá no hotel. Eu pego um jornal, para olhar um jornal. E passei por um lugar lá que tinha um chamado para fazer testes para fazer o Robin no filme do Batman. Como assim? Olha onde eu estou.

Tristan Aronovich: Como é que vê isso no jornal?

Luciano Pires: Aí eu estava lá e estava sendo lançado, era pré-lançamento na verdade. Depois que eu entendi, os caras fazem alguns screens, botam no cinema. Depois mexe um pouquinho e solta [inint 00:5:36]. E estava A Lista de Schindler. Estava sendo lançado. E era uma espécie de um pré-lançamento. Aí eu vi que estava anunciado no cinema tal. Aí eu peguei e fui. Fui sozinho. Cheguei lá, sentei. E A Lista de Schindler é uma porrada. Eu assistindo o filme, vendo gente chorar em volta de mim. Eu fico arrepiado quando eu lembro cara. Chega no final do filme ao invés de eu sair, eu fiquei sentado. Eu estava tão abalado com aquele filme. Eu fiquei sentado e subindo o letreiro no cinema. E os caras em volta de mim falando: meu primo. Olha lá eu lá. Eu falei: cara, eu estou num lugar onde essas coisas são feitas.

Tristan Aronovich: Exatamente.

Luciano Pires: Deve explodir a cabeça da gente. Imagina você…

Tristan Aronovich: Ah sim, para quem ama é um negócio de doido. Quando você pisa a primeira vez no… parece coisa de turista. Mas você pisa naquela Calçada da Fama a primeira vez, você fica arrepiado, por saber da história que aquele lugar contém. O que aquilo já representou. O que aquilo já foi. É muito gostoso.

Luciano Pires: Você fez então uma Escola de Cinema? Você se formou então em cinema?

Tristan Aronovich: Eu fiz duas faculdades simultaneamente. Por isso que eu falei: não é que eu fui burro. Eu demorei mais tempo porque eu fazia as duas. E eu tive um privilégio muito grande – que como eu te falei – que eu já tinha uma carreira na época. Então eu não tinha condições. Poxa, filho de antropólogo, eu não tinha condições de pagar estudos. Então eu fui convidado para estudar com bolsa integral. E ao mesmo tempo, eu ganhava um salário da faculdade, por eu estar lá.

Luciano Pires: Que legal.

Tristan Aronovich: É. E aí eu fazia então cinema e fazia música ao mesmo tempo. E trabalhava para as duas faculdades. Então eu era professor assistente, tanto em música quanto no departamento de cinema. O que para mim era maravilhoso, porque me colocava em contato mais próximo ainda com os professores. Então, por isso que eu levei cinco anos e meio para concluir as faculdades. Porque eu tinha que fazer cumprir as cadeiras das duas e ainda trabalhar para os dois departamentos.

Luciano Pires: Você define depois, antes de vim embora para o Brasil. Porque eu não sei se você adquire passagem ou se você…

Tristan Aronovich: Eu estou sempre de passagem.

Luciano Pires: Você está lá e aqui?

Tristan Aronovich: Eu estou sempre lá e aqui. É.

Luciano Pires: Você está onde o projeto te leva. É isso aí?

Tristan Aronovich: Isso. Embora eu tenha uma empresa no Brasil, que é uma âncora muito grande. Então, por mais que eu esteja desenvolvendo e fique tempo fora, eu sempre tenho que estar no Brasil, pelo menos duas vezes por ano, por conta da empresa que eu tenho aqui. Porque é saudável para a empresa que eu esteja presente. Mas eu estou sempre de passagem. Quando eu estou lá eu nunca sei exatamente quanto tempo eu vou ficar.

Luciano Pires: Me fala uma coisa: um cara que se forma em cinema. E você escolheu direção é isso?

Tristan Aronovich: Direção.

Luciano Pires: Se formou para dirigir?

Tristan Aronovich: Isso.

Luciano Pires: Eu imagino que para galgar, até chegar: estou dirigindo o meu primeiro filme. Que é um processo meio complicado ali. Ninguém vai te dar um filme: eu sou o Zé. Me dá.

Tristan Aronovich: Não, não.

Luciano Pires: Como que é o caminho para…

Tristan Aronovich: Têm vários. Se você é uma pessoa com um perfil, uma personalidade muito proativa é claro que você pode acelerar um pouquinho. Não que seja o melhor caminho, nem o mais saudável. No meu caso, eu sempre fui bastante proativo. Então na própria universidade, eles faziam uma coisa muito bacana. Você era obrigado a fazer uma porrada de filmes. Todo semestre. E era um sistema rotativo. O que significa que eu tinha que passar por todas as funções. Então eu tinha que pegar, às vezes, um curta de um colega meu e ser diretor de fotografia. No outro eu tinha que ser diretor de arte. No outro assistente de produção. E isso é muito bom, porque vai te dando uma segurança e uma visão completa de todo o processo. E aí quando você dirige, você está se sentindo relativamente seguro, porque você passou por todas as etapas de todas as áreas. Então é claro que eu dirigi algumas coisas mais estudantis, durante a universidade. Muito videoclipe, porque é uma das paixões minhas, que era música e cinema. Então é uma delícia fazer videoclipe para mim. Mas ainda no meu último ano de faculdade eu disse: cara, eu vou dirigir. Eu vou fazer um longa. Eu não me sentia ainda pronto para dirigir um longa-metragem. Mas eu pensei: eu vou produzir – que é, talvez, a função logisticamente falando mais complicada que tem; mais complexa – e veio meio que co-dirigir. Vou convidar um colega meu que eu confio demais. Ele dirige. Mas eu vou ficar do lado dele chupinhando tudo que eu puder e aprendendo. E aí no meu último ano a minha formatura, ao invés de ser um curta, que é o que eles exigem, eu já fiz um longa-metragem. Então isso acaba acelerando o processo. Aí dois anos, em 2007, dois anos depois da faculdade, eu já estava dirigindo o meu primeiro longa.

Luciano Pires: Você resolveu fazer um longa. Cara, um longa a gente… eu não vou num banco, pego cinco mil reais e faço um longa?

Tristan Aronovich: Não, não.

Luciano Pires: Custa uma grana.

Tristan Aronovich: Custa uma grana.

Luciano Pires: E aí como é que você financia um treco desses sem ter feito nenhum antes?

Tristan Aronovich: Isso. Cara, primeiro assim: estando na universidade e trabalhando pela universidade…

Luciano Pires: Só uma dica. Esse aqui é um programa sobre empreendedorismo e liderança.

Tristan Aronovich: Legal.

Luciano Pires: Por isso que eu fico sondando você.

Tristan Aronovich: Não, claro.

Luciano Pires: E eu vou querer saber como que é. Qual é? Onde que está o caminho?

Tristan Aronovich: Claro. Eu estava… eu era um bolsista. E a faculdade – e aí tem o lado bom do capitalismo – me usava muito como garoto propaganda da faculdade. Então como eu tinha um portfólio bacana, um currículo bacana, tinha um evento, um jantar. A faculdade que eu fiz foi fundada pelo Disney, pelo Walt Disney. Então às vezes tinha um jantar para angariar fundos para a faculdade, eles me convidavam para ir lá me apresentar, tocar, mostrar um filme que eu tinha feito; alguma coisa assim. E aí eu comecei a perceber: opa, aqui tem coisa. Eu posso também tirar proveito disso de outras maneiras. Então quando eu comecei a pensar no longa. A hora que eu comecei a pensar nesse longa, um ano antes de fazer esse longa. Eu falei: bom, agora que eu estou com roteiro pronto, passo número um é pegar todo apoio que eu puder da universidade. Porque do ponto de vista de estrutura, eles tinham tudo que era preciso para fazer o filme. Eles tinham equipamento, todas as câmeras, as lentes. Tudo que eu precisasse, eles teriam. Os recursos humanos eu poderia tirar proveito também da universidade. Porque os alunos todos iam adorar a experiência de fazer um longa-metragem. Então eu já eliminava muito custo aí, então, de recursos humanos e de equipamentos, tecnologia. E eu sabia que depois de sair do meio universitário, eu não ia mais ter isso. Então eu tinha que aproveitar aquele momento. Muita coisa que estudante universitário não percebe que têm em mãos. Cara, você sai da universidade, você não tem mais aquela estrutura. Eu falei: agora é a hora. Eu tenho só mais um ano e meio nesse lugar aqui. Eu tenho que tirar suco disso. Porque daí eu saio daqui com um longa como portfólio. E aí é claro que resta ainda uma grana boa, que é: você convida uma galera para fazer um longa. Então você está falando de gravar por dois meses. O mínimo que você faz é pagar transporte, alimentação, essas coisas todas. Que ainda assim é uma grana preta. Então o que eu fiz? Eu vendi uma das motos que eu tinha. Eu tinha duas motos que eu tinha conseguido comprar ao longo de vários anos, trabalhando para as faculdades. Então eu vendi uma das motos. Eu pagava aluguel. Eu morava num apartamento. Então todo mês você rasga o dinheiro do aluguel literalmente. Eu decidi que eu não ia mais pagar aluguel. Aí eu comprei uma Dodge 1974, uma Kombi baratinha, eu paguei 900 dólares, nunca vou esquecer. Eu falei: vou me mudar para essa Dodge. Vou morar nela. Assim eu vou economizar ao longo de um ano uma grana preta de aluguel. Então eu guardo o dinheiro da moto. Eu economizo toda grana de aluguel. E eu acho que se eu conseguir juntar 10, 15 mil dólares, pelo menos para alimentar os estudantes todos, eu consigo. E dito e feito. Um ano e pouco morando na minha Van, tipo aquela Van do Scooby Doo sabe?

Luciano Pires: Sim.

Tristan Aronovich: Morava no estacionamento da faculdade.

Luciano Pires: Cara, isso é meio anos 60, bicho, aquela coisa meio de…

Tristan Aronovich: Mas completamente, cara.

Luciano Pires: De contracultura.

Tristan Aronovich: Completamente. Mas a Califórnia ainda tem um pedaço gigante da Califórnia que ainda está nos anos 60. Então todo esse movimento de contracultura, ele surgiu lá, dá para quase falar que ele nasceu lá. Você tem São Francisco, Los Angeles. Aquilo foi tudo muito forte lá. Então é como se a Califórnia tivesse vários portais, que você atravessa e você está literalmente nos anos 60. Não é brincadeira.

Luciano Pires: Ninguém falava: esse é o cara que mora no carro.

Tristan Aronovich: Cara, pelo contrário. Olha que loucura o que aconteceu. Eu comprei a minha Dodge e era linda, assim. Olha eu vou te dizer: eram carros feitos para durar. Bebia muito a Dodge. Mas eu nunca tive nenhum problema mecânico com aquele carro, de 74 o carro. E eu cheguei no estacionamento da faculdade e aí eu morava na minha Van. E aí, devagarzinho, o rumor foi se espalhando. E alguns outros alunos diziam assim: Tristan, você está morando na Van? E eu: estou. E como que você faz? E banheiro? Eu falei: cara, eu estou no estacionamento da faculdade, eu dou 15 passos e tenho banheiro da faculdade, tem os vestiários, tem chuveiro. Tem tudo que eu preciso ali. E eu passava quase que o dia inteiro fora da Van, de qualquer forma, nas aulas. Então era literalmente um lugar para dormir e guardar minhas coisinhas. Era só isso. Cara, que interessante. Luiz, não deu dois meses tinha uma comunidade no estacionamento. Um monte de estudante começou a comprar Van e se mudar para o estacionamento da faculdade. Virou uma espécie de mini cidadezinha das artes, dentro do campus universitário. E é claro que você pode imaginar que era uma faculdade só de artes. Você imagina as festas que eram lá. A galera saía das aulas às onze da noite. Vamos para onde? Vamos para o estacionamento. É lá que a coisa está rolando. Lá tem ator, tem musicista, tem todo mundo lá. E eu me lembro, por um ano acho que tinha uns intercambistas brasileiros. Levaram um monte de instrumento de samba. Aí eu comprei um cavaquinho e aprendi a tocar cavaquinho. Então toda noite o samba comia solto no estacionamento. E eu acho que a gente chegou num ponto em que devia ter uns oito carros habitados no estacionamento e todos nas vagas próximas. Então virou literalmente uma comunidade ali. E claro, a gente tem que levar em consideração coisas que no Brasil, talvez, impossibilitassem isso. Questão de segurança e tudo mais. E lá não tinha problema. Lá era tranquilo. Tinha evidentemente a segurança do campus. Mas também, quando você está com 22 anos você também nem pensa muito nisso.

Luciano Pires: Com 22 anos você é imortal.

Tristan Aronovich: Nem está passando na sua cabeça questão de segurança. Mas nunca nada aconteceu. O que aconteceu é que, eventualmente, assim: a gente não podia morar no estacionamento da faculdade, por regulamento da faculdade. Então a cada tanto a gente tinha que passar uns dias fora para dar uma disfarçada. Aí o que a gente fazia é que todo mundo ia para o estacionamento do Walmart e ficava lá. Porque o Walmart permite, encoraja os trailers a passarem a noite lá. Eles dão até os hubcaps de água. E é uma sacada muito esperta. Porque acontece, você acorda de manhã, o que você quer? Você quer tomar um café, alguma coisa, senta e consome. Então isso me ajudou a custear o primeiro longa.

Luciano Pires: Como que chama o longa?

Tristan Aronovich: Far West.

Luciano Pires: Far West?

Tristan Aronovich: É.

Luciano Pires: O que aconteceu com ele?

Tristan Aronovich: Cara, ele foi muito bem. Ele foi premiado. Ele foi menção honrosa no Festival Paralelo de Tribeca, que é um festival enorme nos Estados Unidos. Ele foi… antes de ter a Netflix tinha a Net Moovies, que foi quase que uma precursora da Netflix. Ele foi comprado e lançado pela Net Moovies também. Então teve uma visibilidade muito boa. Eu trouxe ele para o Brasil também, ele foi hors concour em Teresina, no Festival do SESC também. Então ele teve uma vida. Porque o que eu queria era usar exatamente como portfólio. Ele realmente rendeu o que ele deveria. Ele me garantiu um emprego de quase um ano na USP, aqui no Brasil também. O pessoal assistiu, gostou muito e me convidou para dar uma série de aulas lá ao longo de um ano. Então ele cumpriu muito bem o seu propósito e fundamentalmente me abriu portas. Porque através dele, eu fui convidado para fazer o meu segundo longa em Los Angeles.

Luciano Pires: Aí já por uma produtora?

Tristan Aronovich: Aí já por uma produtora de lá. Então ele serviu ao propósito. Falando de liderança e empreendedorismo. Era o que eu queria. Eu queria ter um portfólio sólido. Eu queria que o pessoal visse e falasse assim: esse moleque está na faculdade e está fazendo um longa. E um longa com qualidade. Então eu sei, evidentemente, hoje eu assisto…

Luciano Pires: Você tem vergonha dele?

Tristan Aronovich: Eu não tenho. É claro que ele tem vários problemas. Claro. Um cara de 22, 23 anos fazendo meio que às pressas um longa com um orçamento reduzido, tem uma série de problemas. Mas o acabamento dele é muito bom. É um acabamento muito profissional. Então é um longa que você poderia assistir em qualquer canal de televisão, qualquer sala de cinema. E era isso que eu queria. Eu queria que o pessoal visse que eu tinha capacidade de fazer um filme profissional. E ele serviu. Ele cumpriu esse propósito. E me rendeu os outros convites. Me rendeu o convite para o Chance in Life.

Luciano Pires: Essa coisa do convite que é um negócio interessante. Porque eu sempre fico imaginando o seguinte, eu imagino assim: a recepção de uma grande produtora, 96 mini diretores de cinema esperando com o portfólio na mão. O próximo. O próximo. Para ver se encaçapa alguma coisa lá. Mas na verdade não é assim.

Tristan Aronovich: Não.

Luciano Pires: Porque eu acho que o grande lance é você expor o trabalho. Alguém viu.

Tristan Aronovich: Exatamente.

Luciano Pires: E falou: esse cara tem café no bule.

Tristan Aronovich: Cara, você tem que correr atrás que nem um maluco.

Luciano Pires: E esse correr atrás é exibir, é isso?

Tristan Aronovich: É.

Luciano Pires: Exibir. Exibir.

Tristan Aronovich: O seu filme tem que chegar na boca do povo. Todo mundo tem que assistir o filme. Você tem que ter cara de pau. Eu aprendi muito com um professor em Los Angeles que me dava aula. Inclusive não era nada ligado à arte. Ele dava uma disciplina chamada Business of Film. Então, o Negócio do Cinema. E era um professor que era muito engraçado, amigo meu até hoje, Gerick Schurmann. Ele está bem velhinho hoje, deve estar com uns 80 anos. E ele era tão respeitado na universidade. Ele dava aula dois dias na CalArts. Quando ele ia dar aula, eles eram obrigados na faculdade, desligar o sistema de detector de fumaça, porque o Gerick Schurmann se recusava a dar aula sem o charuto dele. Ele tinha que estar com o charutão. Então Hollywood clássico, clássico. E aí ele contava uma história maravilhosa. Uma das últimas aulas dele de negócios, de venda, ele falava assim: eu sou filho do Vincent Schurmann, que é um dos maiores diretores da Era de Ouro de Hollywood. Eu inaugurei o curso de cinema da Yale. Ele foi o primeiro aluno do curso acadêmico da Yale. É uma das maiores universidades do planeta. A minha formatura, o meu projeto de formatura foi um documentário em que eu gravei e entrevistei pessoalmente os maiores diretores vivos daquele momento, Europa e Estados Unidos. Então ele falou: quando eu terminei a faculdade, eu falei: cara, eu tenho diploma da Yale. O meu pai é um diretorzaço em Hollywood e todos os grandes diretores me conhecem. Eu falei: eu estou bem. Estou com tudo garantido. Agora é só eu ir para casa esperar o telefone tocar. O que aconteceu é que o telefone nunca tocou. Jamais. E aí ele levou quase um ano e pouco para entender que ele que ia ter que correr e fazer as tais ligações. Então isso foi uma lição que ainda bem, eu aprendi muito cedo. Talvez por vir de uma família que mistura culturas e antropólogos. Que os caras não ganhavam nada. Nunca puderam me ajudar. Então eu não ganhava um centavo de ajuda da família para fazer faculdade. Então tinha que correr atrás, desde muito moleque. Eu comecei a trabalhar com 12 anos. Então essa coisa de você ser obsessivamente proativo sempre esteve presente. E com o Far West foi isso. Todo mundo falava assim: imagina, você vai fazer um longa-metragem na faculdade? Você está louco? Você já faz duas faculdades ao mesmo tempo. Dá aula em duas faculdades. Como é que você vai conseguir fazer um longa? Eu falei: cara, porque se eu não fizer agora, eu não faço mais. Esse suporte, essa estrutura que eu tenho aqui eu não vou ter quando eu sair do universo acadêmico, universitário. É agora. E agora a CalArts vai querer me ajudar porque eles me usam como garoto propaganda. Então se eu falar: eu quero aquela câmera do Avatar. Ah, é para o Tristan. Então deixa. Porque seja lá o que ele for fazer, vai dar jogo. Então eu tirei proveito disso. Eu falei: agora é a hora de tentar pegar de volta. Claro, eles já tinham me dado a bolsa. É injusto falar: pegar de volta. Não sei se você entende o que eu quero dizer. Bom, já que eles me usam como garoto propaganda, deixa eu usar um pouco isso também. E tirar proveito dessa história toda.

Luciano Pires: E você saiu de lá com a ideia de que… você se forma que ano?

Tristan Aronovich: Eu me formei em 2005.

Luciano Pires: 2005?

Tristan Aronovich: Isso.

Luciano Pires: Você sai em 2005 então, com o teu certificado lá de diretor de cinema e músico na outra mão.

Tristan Aronovich: Exato.

Luciano Pires: E com a decisão de fazer o que, na vida?

Tristan Aronovich: Quando você conclui a faculdade tem aquele vazio gigante. Que a vida universitária é uma coisa que te absorve de um jeito e quando aquilo termina você fala assim: uau, e agora?

Luciano Pires: Sabe o que eu fiz? Uma puta viagem cara. Os meus pais falaram: e agora. Eu falei: agora o seguinte, eu vou fazer a viagem. Quando eu voltar eu vou pensar no que eu vou fazer para trabalhar. Entendeu?

Tristan Aronovich: Exatamente.

Luciano Pires: Teve um período gigantesco sabático ali. Fiz uma viagem. Voltei. Aí vamos montar o negócio.

Tristan Aronovich: Mas quando eu me formei em 2005, foi um momento muito peculiar. Primeiro: meu pai tinha acabado de falecer. E aquilo mexeu muito comigo. Foi numa circunstância muito dolorosa. E minha mãe estava no Brasil. E ao mesmo tempo, o Brasil estava vivendo um momento, um pouquinho de efervescência cultural.

Luciano Pires: 2005 era o Lula.

Tristan Aronovich: Gilberto Gil estava no Ministério da Cultura. E ele tinha recém-criado um órgão chamado ANCINE, que ainda existe. Então eu estava meio perdido. Por um lado, acabou a universidade, fiz dois longas. Ok. Agora também tem um tempo natural aí, que a indústria vai processando um pouco. Eu não vou me enfiar, nem tinha grana para fazer…

Luciano Pires: Mas você termina a faculdade lá?

Tristan Aronovich: Na Califórnia.

Luciano Pires: E vem para cá?

Tristan Aronovich: Aí eu decido vir para cá, porque meu pai tinha morrido. Eu estava muito abalado com aquilo. Minha mãe estava aqui. E eu falei: cara, o Gilberto Gil é ministro, tem esse negócio chamado ANCINE. E eu estou com um portfólio muito forte. Eu estou com dois longas muito bons. Aqui em Los Angeles eu sou mais um. Tem muita gente incrível em LA. Eu falei: de repente no Brasil eu me destaco. Então talvez seja uma sacada eu voltar para o Brasil e ver o que eu consigo construir lá, antes de pensar em mestrado. Que depois eu fui fazer mestrado, especialização, outras coisas. Talvez seja um momento bacana. É claro que você derruba muitas ilusões. Quando eu cheguei aqui eu descobri o que era ANCINE. Eu nem sei se eu posso falar muita coisa. Melhor não. Mas vamos só dizer assim: não era nada do que eu imaginava que fosse.

Luciano Pires: A competência não era moeda?

Tristan Aronovich: Cara, olha…

Luciano Pires: Não era moeda?

Tristan Aronovich: Não. Não era. Então a ANCINE é um grande órgão público que deveria, enfim, promover ou auxiliar produções e tudo mais. Mas acaba que cai nessa teia burocrática brasileira tão assustadora, que quando você tenta… você vira cineasta de Excel. Para lidar com esses órgãos públicos, esquece faze cinema. Você vai ficar anos da sua vida fazendo documento, planilha e não sei o quê. E quando aquilo começou a acontecer… a minha sorte é que assim que eu cheguei, eu peguei esse emprego na USP. Então isso foi realmente muito bom. Isso fez sentido. Então estava dentro daquela moeda que eu estava imaginando, que realmente eu ia me destacar por chegar aqui com um portfólio sólido. Então eu fiquei dando aula lá por um ano. O que também, para currículo sempre é uma coisa muito boa.

Luciano Pires: Professor da USP.

Tristan Aronovich: Sim. Com 25 anos de idade, 24 anos de idade. Era uma coisa muito boa. Agora, fazer filme com verba pública e usar a ANCINE, aquilo eu caí do cavalo, mas de um jeito assim, meteórico. Meteórico. E eu não conseguia nem sequer entender a lógica daquela coisa toda. Até porque eu estava vindo de um país onde a cultura é o oposto disso. Você não faz cinema em Excel nos Estados Unidos. Você faz cinema no set de gravação. E aqui cara, se eu te conto o tipo de documentação que me era exigida na época. Às vezes eu dou palestra e conto. O pessoal não acredita. Eu tenho até hoje os documentos para provar. Eu posso falar?

Luciano Pires: Claro. O problema é seu. Não é meu.

Tristan Aronovich: Eu falei: cara, eu vou fazer um projeto simples aqui, só para começar a ver como é, para sondar o território. Que seja tranquilo de fazer, verba baixa, orçamento pequeno. Vamos ver como que esse negócio funciona. E eu era o produtor, o roteirista e o diretor desse projeto. Era um documentário.

Luciano Pires: Isso que eu ia te perguntar: o que é um projeto simples? É um documentário de 30 minutos?

Tristan Aronovich: Era um documentário. Não. Era um longa. Ia ser uma hora e meia, sobre um grande campeão de artes marciais brasileiro. Que era um amigo meu. Eu falei: cara, a história dele é incrível. É baratinho de fazer isso. Eu preciso de pouca coisa. Então eu roteirizo isso aqui rapidinho. Eu produzo e dirijo isso daqui. É mamão com açúcar. E daí isso vai me ajudar a ver como é a temperatura. Como está a temperatura aqui no Brasil e como é mesmo esse negócio de órgão público e não sei o quê. Que eu nunca tinha mexido com isso na vida. E aí você, claro, tem um processo burocrático gigantesco que te fazem atravessar. Até aí ok. Você vai estar mexendo com verba pública. É super compreensível. Mas quando começa a chegar no ilógico, aí a coisa não é mais divertida. Então eu me lembro que lá pelas tantas, depois de seis meses. Eu nem sei mais quantos meses. O projeto estava em trâmite. Que você submete o projeto, ele fica lá em trânsito, sendo avaliado e tudo mais. Depois de vários e vários meses me chega finalmente uma comunicação dizendo que faltava um documento. Mas eu sou tão CDF, eu sei que eu mandei tudo. Que documento é esse? Não, é que o roteirista tem que ceder os direitos do roteiro para o produtor produzir o filme, senão pode dar uma briga de direitos autorais depois. E daí eu falei: mas espera aí. Eu sou o roteirista, eu sou o produtor. Isso está no projeto há meses e meses aí em trânsito, com vocês. Eles: pois é. Mas isso é um documento padrão.

Luciano Pires: Que você faz para você?

Tristan Aronovich: Aí eu falei: mas espera aí. Eu não estou entendendo. Me corrija se eu estiver errado: eu vou ter que fazer um documento dizendo: eu Tristan Aronovich, solteiro, blá-blá-blá cedo os direitos do meu próprio roteiro para mim mesmo, Tristan? É. Eu falei: não, você está brincando. Caso eu esquizofrenicamente queira me processar daqui a 10 anos. Eu roubei os meus direitos do meu filme? É protocolo. Eu falei: mas gente, tem protocolos e protocolos. Isso é completamente non sense.

Luciano Pires: Burrice. Aí você tem que dar um…

Tristan Aronovich: Aí você conta até 50. Porque você sabe que quando você está lidando com órgão público, se você perde as estribeiras ali, a pessoa coloca o teu projeto no fundo da pilha e você demora mais um ano e meio para ouvir falar alguma coisa. Eu falei: ok. Eu tenho que ir lá no cartório fazer isso tudo bonitinho? Sim. Eu nunca vou esquecer a cara do cara do cartório quando ele olhava o documento que tinha que autenticar. Ele: senhor está certo aqui? Está. Está certo.

Luciano Pires: De mim para mim?

Tristan Aronovich: De mim para mim. Cara vai que… a gente nunca se conhece por completo. Tem o meu lado obscuro. Aí pelo menos eu posso provar para o juiz: não juiz, eu cedi para mim mesmo esses direitos aqui.

Luciano Pires: Muito bem. Você está no LíderCast, um PodCast focado em liderança e empreendedorismo, que proporciona conversas nutritivas, com gente que está aí para provocar mudanças. O LíderCast faz parte do Café Brasil Premium, a nossa Netflix do conhecimento, que redefine o termo estudar, ao transformar o seu smartphone em uma plataforma de aprendizado contínuo. Você pratica uma espécie de MLA, Master Life Administration, recebendo conteúdo pertinente, de aplicação prática e imediata, que agrega valor ao seu tempo de vida. São videocasts, sumários de livros, PodCasts, e-books, eventos presenciais. E a participação em uma comunidade nutritiva, onde você faz um networking com gente como você, interessada em crescer. Acesse cafedegraça.com para experimentar o Premium por um mês sem pagar.

Tristan Aronovich: Depois de muitos trâmites incoerentes, finalmente o meu projeto foi aprovado. Aí o que acontece quando um projeto é aprovado? É até uma coisa legal de falar. Às vezes o pessoal acha: então o projeto foi aprovado, já tem dinheiro. Não, não é isso. Quando um projeto, ele é aprovado, significa que ele está apto a captar recursos. Então esse tempo todo era só para ele estar apto. Quer dizer, eu nem ia ter um centavo no bolso ainda. Era só para poder dizer: olha fulano de tal, agora se você investir, você pode deduzir do seu imposto de renda. Então tudo isso era para isso. Não era nem que eu ia estar com dinheiro para rodar o documentário. Aí o que acontece é que eles te dão um prazo de captação.

Luciano Pires: Pelo menos aceitaram o valor que você pediu?

Tristan Aronovich: Aceitaram.

Luciano Pires: Ou deram uma cortada?

Tristan Aronovich: Não, não, aceitaram. Estava tudo certo. Era um projeto realmente muito simples, muito transparente, muito tranquilo. E aí quando saiu em Diário Oficial a publicação de que o projeto estava aprovado – eu nunca vou esquecer – a minha sócia na época, a Mariana, aqui em São Paulo, ela me ligou comemorando: Tristan saiu. Aleluia. Depois de um ano indo e voltando. Indo e voltando documentos completamente malucos. Foi aprovado para captação. Mas tem um problema. Eles devem ter se confundido lá na hora de publicar. Ela disse: você vai ter que ligar lá para ver com eles o que aconteceu. Porque o projeto foi aprovado – eu não me lembro agora o dia exato, mas eu me lembro que era naquela semaninha entre Natal e Réveillon. Vamos supor: 26 de dezembro de 2006 – e ele está apto a captar recursos até 31 de dezembro de 2006. Daí eu falei: não, é claro que foi um erro. Porque nem se juntar Globo Filmes, Xuxa, Trapalhões, ninguém capta recursos na semana de Natal e Ano Novo aqui no Brasil. É tipo captar recursos agora, na semana de carnaval. E mesmo se fosse no meio do ano,  são cinco dias para captar recursos. E leva-se meses ou às vezes até anos para captar recursos. Eu falei com certeza foi um taipo. Deve ser 31 de dezembro de 2007. Aí eu ligo lá, cordialmente: oi – eu já conhecia todo mundo por nome já a essa altura do campeonato – eu acho que houve um equívoco aí no Diário Oficial, deve ter sido um taipo ali. Eu acho que ao invés de 2007 digitaram 2006. Ah não, não, está certo. O que acontece é que quando a gente aprova o projeto fica apto a captar naquele ano fiscal. E o ano fiscal encerra dia 31 de dezembro. Daí eu falei: ok. Aí conta até 100 de novo. Eu falei: tudo bem. Então o que eu faço agora? Porque nenhum ser humano do planeta capta em cinco dias. E muito menos nesses cinco dias. Então você vai ter que solicitar uma prorrogação da extensão do prazo. Eu falei: então você está falando comigo, eu já estou solicitando essa prorrogação. Não, não é assim, a gente vai te encaminhar a lista de documentos que você vai ter que enviar. Eu falei: olha… nessa hora. Nessa hora…

Luciano Pires: Bem-vindo cara.

Tristan Aronovich: Nessa hora eu falei assim: joga esse projeto onde você quiser. Eu não quero mais saber disso cara. Dane-se. Eu estou abandonando esse processo agora realmente. E daí de lá para cá os filmes que eu rodei no Brasil eu nunca lidei com nada de órgão público, verba pública. Nada disso sempre foram custeados de maneira privada.

Luciano Pires: Você foi para o caminho privado?

Tristan Aronovich: Fui para o caminho privado.

Luciano Pires: Me dá uma visão da diferença entre você financiar um filme no Brasil e financiar lá fora, nos Estados Unidos? Como que é?

Tristan Aronovich: A visão, cara é água para o vinho. Porque lá fora existe um modelo de negócio muito óbvio na verdade. Cinema é um veículo promocional muito forte. Então se você consegue entender isso, você trabalha com toda a iniciativa privada em cima dessa força promocional. Então qualquer filme, o que o pessoal chama de propaganda subliminar. E o pessoal tem uma ideia muito errada, o pessoal fala: propaganda subliminar é quando você coloca um frame. Meu, não, não é isso que é propaganda subliminar. Propaganda subliminar nada mais é do que o merchan, a propaganda que você não percebe que está sendo feita. É só isso. Então o cara vai lá, ele está dirigindo numa cidade, é natural que ele passe na frente de vários estabelecimentos comerciais. Agora…

Luciano Pires: A clássica. Para mim, a clássica, a melhor de todas que eu vi até hoje foi De Volta para o Futuro, quando ele está na cama, desmaiado lá e a menina chama ele de Calvin.

Tristan Aronovich: Ah, a cueca. Então…

Luciano Pires: Calvin, como Calvin?

Tristan Aronovich: E é bonitinho aquilo. É bonito. Então não parece que você está fazendo uma propaganda. Aquilo está completamente inserido no contexto do filme. Agora, imagina a grana que a Calvin Klein deu para o filme para que utilizassem. Podia ser qualquer outra marca de roupa. Você vê, até um exemplo clássico, o filme Clube da Luta. Que é um filme em teoria anticorporativista. Em teoria. Agora, numa das cenas iniciais o Edward Norton entra na Starbucks e toma um café. E tem um close gigante do Starbucks. E ele está lá tomando. Isso é completamente normal, porque o Starbucks é uma rede que nos Estados Unidos está em cada esquina.

Luciano Pires: Sim, faz parte do teu dia a dia.

Tristan Aronovich: E ele está lá narrando, falando alguma coisa. Ninguém estranha que ele entra lá, pega um café e sai. Não é que ele fala: estou tomando um delicioso Starbucks. Não. Como se nada estivesse acontecendo. Ele entra e sai e pega o café dele. Quanto custaria para a Starbucks pagar para o Edward Norton fazer um comercial dele? E outra: o comercial tem um tempo limitado. Aquele comercial vai ser veiculado por um mês, dois meses e já era. O Clube da Luta foi feito há quase 20 anos, eu acho 15, 20 anos. E o pessoal continua assistindo. Ele continua veiculando subconscientemente a imagem do Edward Norton [inint 00:47:11] com o Starbucks. E aquilo está lá. Então essa é a principal moeda de troca norte-americana. É um investimento simples, direto.

Luciano Pires: E já tem cultura. As empresas têm cultura desse investimento.

Tristan Aronovich: Todo mundo.

Luciano Pires: Todo mundo já sabe.

Tristan Aronovich: Um exemplo muito interessante. Tinha um seriado chamado 24 Horas. E duas marcas de computador estavam presentes no seriado, a Dell e a Apple, que são concorrentes. Agora, o que acontecia? Eram os chefes das operações, o próprio Jack Bower, a Chloe, que era assistente, eles só usavam Apple. Mas todos os trabalhadores do dia a dia e os hackers da CIA, que era o centro da tecnologia, usavam Dell. E isso é muito interessante de perceber como que isso está entrando no subconsciente do público. Ah tá, então o cara que está lá no dia a dia, o trabalhador não sei do que, precisa de uma máquina boa, confiável. Ele vai usar a Dell que é boa para aquilo ali. O bambambam, que é o cool, que é o mais legal, mas que não necessariamente está lá sentado na escrivaninha está com a Apple. E é normal. O computador tem que ter uma marca. O que vai aí é o jogo do produtor executivo de conversar com os empresários e dizer: então, eu posso colocar o seu aqui ou ali ou ali. É assim que eu vou inserir.

Luciano Pires: Existe algum momento em que eles planificam o filme e falam onde estão os lotes de…

Tristan Aronovich: Tudinho, tudinho. E realmente é até uma coisa gostosa de fazer. Tem um carro nesse filme. Que carro vai ser? Qual o perfil da personagem? Vai ser um GM, GMC, o que vai ser? E aí a partir disso você faz o seu business plan e você apresenta e vai disputando, vai fazendo um pitting para os investidores. E essa cultura está difusa e é normal. Agora, aqui no Brasil, o que começou a acontecer, claro, o cinema desapareceu por um bom tempo depois do famoso período das pornochanchadas e tudo mais. Ele sumiu. E aí começa a ter a retomada. E daí na retomada tem a criação das famosas leis de incentivo, que são tão polêmicas e controversas hoje em dia. Essas leis, elas são uma verdadeira faca de dois gumes. Por que, o que acontece? Elas serviram para alavancar realmente, naquele momento inicial, oferecendo benefícios extras para as marcas ou sei lá, quem fosse investir no filme. Mas ao mesmo tempo agora, criaram uma estrutura viciada de indústria. Em que você só consegue um patrocinador se o teu projeto estiver incentivado. Então o cara, além de ganhar o merchan que o filme americano propiciaria, porque você oferece as contrapartidas. Ele também ganha benefícios de imposto de renda.

Luciano Pires: Quer dizer, a gente cria uma cultura…

Tristan Aronovich: Deformada.

Luciano Pires: Deformada.

Tristan Aronovich: É uma cultura deformada.

Luciano Pires: Aquilo que nasce como um benefício vira uma cultura… aliás, devia ser uma coisa: isso aqui é temporário. Está acontecendo agora para decolar…

Tristan Aronovich: Se você estudar a história das leis de incentivo, quando elas foram promulgadas era para ser temporário. Mas acontece que virou uma deformidade permanente. E muitas vezes nas tais contrapartidas, o que acontece? Como já existe esse benefício fiscal, você não tem a obrigação da inserção de marketing. Então, por exemplo, você não precisa colocar nada da PETROBRAS no meio do filme.

Luciano Pires: Você só bota o logotipo…

Tristan Aronovich: Já botou lá no início. O que também fica muito chato. Porque você vai ver filme nacional, você precisa ficar 15 minutos do início do filme vendo um monte de logo. Você até já esqueceu que filme você ia ver. Fica lá logo de empresa X, Y, Z, H, não sei o que e governo do estado daqui, governo do estado de lá.

Luciano Pires: E para a empresa? O que traz para a empresa? O que ela ganha com logotipo?

Tristan Aronovich: Isso na verdade eu acho – isso sou eu, é a minha opinião; e é claro que o ouvinte tem todo o direito de discordar – eu acho até que é negativo. Porque você está lá, você quer ver logo o filme. Na hora que aparece aquela logomarca você fala assim: ah meu Deus. Vai logo. Fica uma coisa meio negativa. Se isso não fosse trabalhado dessa forma e se o cara pegasse uma lata de refrigerante no fim e fosse da Coca Cola ninguém ia reparar. E está lá a propaganda. Está lá o merchan. Aí a Coca vai lá e paga, como qualquer investidor paga para fazer uma campanha publicitária. É tiro e queda.

Luciano Pires: Eu acho que também tem uma outra coisa, Tristan. Que quando você olha para… eu agora estou me colocando no lugar do empresário que vai ser investidor. Primeiro, que eu não acredito que haja um profissionalismo no Brasil, do cara de marketing pensando em cinema.

Tristan Aronovich: Ah, não, não.

Luciano Pires: A empresa não tem. Pintou alguém aqui, deixa eu ver o que ele tem para oferecer.

Tristan Aronovich: Isso.

Luciano Pires: Outra, ele vai me oferecer. Vai botar meu logotipo. Quanto de dinheiro? Tanto de dinheiro. Quantos espectadores vai ter? Meu, se der sorte e for um…

Tristan Aronovich: É risível.

Luciano Pires: E for um Tropa de Elite.

Tristan Aronovich: Exato.

Luciano Pires: Mas a maioria absoluta vai ter o quê? 10 mil, 20 mil, 50 mil, 100 mil e tudo mais.

Tristan Aronovich: É muito pouco.

Luciano Pires: Então, do ponto de vista da exposição da marca, também no Brasil…

Tristan Aronovich: É muito insignificante mesmo. É algo que realmente… até também porque o cineasta brasileiro, ele está demorando muito para entender que filme também é um produto. Então, eu sou um artista, eu cresci na arte. Eu amo a arte. Mas eu tenho que entender o quê? Esse filme tem que ser visto. Ele também é um produto. Se eu vou batalhar por um investimento, um patrocínio, eu tenho que entender. Eu tenho que fazer um estudo de marketing de público em cima disso daqui. Não adianta eu fazer um filme que só minha mãe vai assistir. Então isso é um problema. Isso gerou também muitas vezes, uma rejeição por parte do público, de assistir filme nacional. O cara vai lá e prefere ver o Avengers do que ver um filme brasileiro.

Luciano Pires: Também você foi pegar…

Tristan Aronovich: Peguei um exemplo cruel.

Luciano Pires: Você pegou forte.

Tristan Aronovich: Peguei pesado.

Luciano Pires: Mas vamos pegar e vamos analisar. Vamos pegar dois fenômenos que aconteceram. De um lado você tem Cidade de Deus, Tropa de Elite, que são filmes que tem uma linguagem hollywoodiana, que você vê e fala: isso aqui não é Brasil.

Tristan Aronovich: Exatamente.

Luciano Pires: É uma garotada nova que vem com aquela linguagem pronta e produz. De todo ponto de vista. O roteiro é fantástico. A atuação é fantástica.

Tristan Aronovich: Redondo.

Luciano Pires: A cinematografia é maravilhosa. É tudo muito bom. E quando você termina você fala: cara, não. Isso não foi feito no Brasil. Então eles vêm e conseguem. E tem uma temática que é muito nossa. Quer dizer, a gente se reconhece vendo aquilo lá. Ao mesmo tempo, na outra ponta, o que é? São os filmes, as comediazinhas românticas com atores da Globo, que já traz junto a exposição do cara que estava na Globo. Ele já viu o cara, ele é engraçado.

Tristan Aronovich: É uma novela numa tela grande ali.

Luciano Pires: É. E então isso limita muito esse universo do cinema aqui no Brasil. Então eu imagino que alguém que está aqui para viver de cinema no Brasil, cara, deve ser ingrato.

Tristan Aronovich: É ingrato. E você tem que ser muito empreendedor. O pessoal fala: quando você investe, você tem que diversificar a sua cartela de investimentos. Quando você trabalha com cinema você tem que fazer a mesma coisa. Então se você for viver só de dirigir teus filmes no Brasil, meu amigo, vai ser complicado. A não ser que seja uma exceção de uma exceção. Até pessoas como Fernando Meirelles, que é o diretor do Cidade de Deus, até ele diversifica.

Luciano Pires: Ele tem uma produtora.

Tristan Aronovich: Ele tem. Ele é um empresário. Então, ele não vive dos filmes que ele dirige. Ele vive também dos filmes que ele dirige. Mas ele tem uma produtora que faz publicidade, que faz institucional, que tem vários outros projetos, vários outros diretores associados. Então o cineasta tem que pensar como um empreendedor também, senão ele desiste. Ele vai chegar lá aos 30, trinta e poucos anos, a porca começa a torcer o rabo. Ele desiste. Eu também, aqui, o que eu faço é: eu abri uma empresa, já tem 10 anos aqui no Brasil. Assim que eu cheguei da faculdade eu abri. E aí eu fiquei aqui…

Luciano Pires: É uma produtora?

Tristan Aronovich: É uma produtora. Em horário comercial é uma produtora de cinema. Hoje em dia – com muito orgulho – eu posso falar que é a mais premiada do cinema independente, do Brasil.

Luciano Pires: Que legal.

Tristan Aronovich: E durante a noite é um centro de treinamento. A gente presta treinamentos. Então têm vários cursos lá. Então, de novo: para diversificar essa… vamos chamar de cartela de investimentos. Então durante o dia a gente cuida dos nossos próprios projetos. Os nossos filmes, seriados, seja lá o que for. E durante a noite a gente ministra workshops, palestras, cursos de formação técnica e aos sábados tem uma pós-graduação em cinema. Que, aliás, é a única no mundo que o cara tem que fazer um longa na formatura. Para não ser só aquele TCC teórico, ele é obrigado a fazer um longa.

Luciano Pires: Você judia dos caras. Longa aqui no Brasil então.

Tristan Aronovich: Tem que fazer.

 

Luciano Pires: Deixa eu pegar um lance que você falou ali atrás. Eu quero usar isso como mais um estímulo para a gente trocar uma ideia aqui.

Tristan Aronovich: Claro.

Luciano Pires: Vamos pegar Avengers, Os Vingadores. Quando chega um filme desses no Brasil cara, ele toma conta de 70, 80% das salas de cinema e encerrou. Você vê São Paulo, que tem três mil salas de cinema. Sei lá quantas tem hoje aqui em São Paulo. E aí você vai no shopping center, tem seis, sete, oito salas, três estão passando Avengers e no outro Avengers. Então o que acontece? A distribuição de filme no Brasil está na mão de três ou quatro grandes distribuidoras que são globais.

Tristan Aronovich: Isso.

Luciano Pires: Eu não sei se tem mais alguma brasileira? Ainda tem?

Tristan Aronovich: Tem. Mas são pequenas.

Luciano Pires: Pequenas. Furar essa barreira cara e enfiar um filme brasileiro no meio dessa… com tanta escassez de… o filme entra, fica em cartaz durante quatro ou cinco dias e desaparece. E vai passar onde, cara? Quer dizer, você tem um produto que demanda um trabalho desgraçado. Você passa meses fazendo aquilo.

Tristan Aronovich: Anos cara.

Luciano Pires: Anos fazendo aquilo e termina com o seu produto e agora você não tem como exibi-lo.

Tristan Aronovich: Sim.

Luciano Pires: Eu não consegui exibir aqui. Eu vou na TV Brasil e consigo botar no ar na TV Brasil. Eu vou num festival onde meia dúzia de pessoas vão ver.

Tristan Aronovich: Claro.

Luciano Pires: E como que fica cara, essa frustração, de você ter a tua obra que não é…

Tristan Aronovich: Hoje em dia a gente não ganha – pelo menos o cinema brasileiro – você não ganha dinheiro com sala de cinema. Então você tem várias plataformas de janelas de exibição para cinema. O cinema ainda dá muito prestígio. Então quando teu filme passa na sala de cinema é incrível. Agrega valor e tudo mais. Mas geralmente o que acontece é que se o teu filme é um produto bem-acabado, se ele está redondinho, está bem resolvido. Se ele tem qualidade – o que não é tão simples quanto parece – ele tem que estar pelo menos bem resolvidinho. Você vai ter que batalhar venda para outras plataformas. Então plataforma online, canal de televisão, canal de televisão fechado, V on D, que é aquele Vire on Demand, empresas aéreas. Então, dos filmes todos que eu fiz, de todos os longas que eu fiz. Eu acho que uns quatro ou cinco, mais ou menos, foram para salas de cinema. Mas ali eu ganhava – não estou brincando – mil, dois mil reais de lucro. Que chegava para o meu bolso como diretor. Era uma coisa… eu chegava, eu dava até risada. Eu dizia: ganhei 1.500 reais com esse filme aqui. Que bom. Ganhei alguma coisa. Onde eu via dinheiro era nas vendas associadas. Então a minha agente de vendas – que é uma pessoa incrível – ela pega esse filme e ela começa a trabalhar a venda em janelas de exibição em outras plataformas. Então ela vende para os canais a cabo primeiro, para a V o D, para Netflix, para empresa aérea, para a Air France. E aí você vende por território. Então uma coisa é você vender para a Warner Brasil, outra coisa é vender para a Warner Brasil e Central América. Warner Brasil e Norte América. Cada venda é uma negociação separada. Então você vai vendendo em territórios distintos. E, de repente, você vê que o filme se pagou quando você conseguiu vender o filme ao longo de… ele já está com uma venda casada de quatro ou cinco anos, para 260 canais. Você fala: olha que legal. Agora eu estou vendo lucro. Agora que ele se pagou. E a verdade cruel para o cineasta é que a grande maioria dos filmes nem vai para os cinemas. Eles vão direto para esses outros canais de exibição. O cinema ainda é o nosso sonho de consumo. É o glamour. É o prestígio. Você quer o teu filme lá. Você quer a galera paradinha naquela sala vendo. Mas cara, eu acho que 90% dos filmes estão direto em catálogos de televisão, de empresas aéreas. Vão direto para lá. E aí que está a sobrevivência financeira do cineasta. Ironicamente, ele se chama cineasta. Mas não é no cinema.

Luciano Pires: Não é mais.

Tristan Aronovich: É. Não é mais no cinema. É em televisão. Eu estou com um filme meu que está agora passando na Paramount. Passou ontem, estava passando no canal. E ele foi vendido direto para a televisão.

Luciano Pires: Que filme é?

Tristan Aronovich: O Black and White.

Luciano Pires: Black and White?

Tristan Aronovich: É. Então ele teve exibições simbólicas em cinema. Ele teve pré-estreias em salas de cinema. Então ele teve eu acho que uns quatro meses, uma exibição no MIS, que é uma sala muito bonita aqui em São Paulo, pré-estreia. Mas aí conversando com a minha agente, a gente viu que era um tipo de filme, uma temática, que ia se dar muito melhor se ela já fosse direto para o canal de televisão. Para a televisão. Ela vendeu. Eu fiquei feliz, eu falei: ótimo. Vou ter a chance de ir lá ver o filme na salinha de cinema? Não. Tive aquela, que foi uma ocasião especial. Mas é um filme que foi direto para a televisão. Quando eu rodo eu nunca penso em televisão. Eu estou sempre pensando na telona de 11 metros. Mas às vezes…

Luciano Pires: E o cara do Avengers, ele faz pensando em IMEX.

Tristan Aronovich: Ele ganha dinheiro com 3D.

Luciano Pires: Quatro…

Tristan Aronovich: 3D, XD, ah sim.

Luciano Pires: Etc. e tal. Porque ele já vem para aquela turma.

Tristan Aronovich: Não. Esses caras, eles ganham.

Luciano Pires: Ali não tem erro. Ali não tem jogo. E até uma coisa, que outro dia eu estava conversando sobre o Bohemian Rhapsody, o filme, quando ele foi lançado. Foi lançado, eu fui lá assistir. E como todo amante do Queen saí de lá em lágrimas do cinema, porque aqueles 20 minutos finais do filme é uma loucura. Mas aí o pessoal conversando: porque faltou muita coisa. Eu falei: cara, vocês pararam para pensar que esse roteiro passou na mão de pelo menos cinco advogados representando entidades diferentes? Um advogado de cada músico do Queen. Um advogado da gravadora. O do estúdio. E esses caras, cada um botou um pitaco no roteiro.

Tristan Aronovich: Com certeza.

Luciano Pires: E o roteiro sai lá na ponta com outra cara.

Tristan Aronovich: Sim.

Luciano Pires: Quer dizer, você tem que atender demandas. Aqui não pode, porque senão vai… só pode entrar maior de 18. A gente quer baixar a idade para poder ter mais gente. Então descaracteriza todo o trabalho inicial.

Tristan Aronovich: Exatamente. Sem dúvida. Sem dúvida. É uma lástima para o fã. E também você tem lá duas horas para contar uma história de uma vida inteira também. Daria para falar do Queen por duas semanas sem parar. Escolhas têm que ser feitas. Como o pessoal – eu, que faço cinema – às vezes, o pessoal lê um livro. Ele fala: eu li o livro. O livro é muito melhor. Não tenta comparar. Uma mídia é uma mídia, outra mídia é outra mídia. O livro é feito para ser lido e para que você crie o filme na sua cabeça, com a tua imaginação. O filme é uma outra plataforma. Tem que ser adaptado, ajustado. Não tem. É a mesma coisa que comparar música com um prato de comida. Você vai lá… e eu acho que era o Miles Davis que falava isso – se eu não me engano – ele dizia que falar sobre música era como pintar sobre arquitetura. Uma coisa assim. Não adianta. Não adianta você comer um prato de salada e dizer assim: não, mas eu gostei mais do CD que eu escutei ontem do que esse prato de salada. São coisas diferentes.

Luciano Pires: É verdade.

Tristan Aronovich: Ou aquela galera que vai ver um Avengers da vida e fala assim: eu não gostei porque é só efeito especial. Como assim é só efeito especial? Você imagina o trabalho que dá para fazer um negócio desses?

Luciano Pires: E a proposta foi essa do filme.

Tristan Aronovich: Claro.

Luciano Pires: Eu vou lá para ver o quê?

Tristan Aronovich: É lógico. Cara é um exército de gente que estudou uma vida inteira, que está lá se matando, para fazer uma coisa interessante. Um Avatar da vida. Esses filmes têm um mérito assim, incrível. É uma coisa linda de fazer. O Senhor dos Anéis.

Luciano Pires: Você sentiu que essa exuberância tecnológica que o cinema atingiu… porque hoje em dia… eu estou esperando aparecer um filme estrelado por Humphrey Bogart hoje.

Tristan Aronovich: Sim. Já, já. Ele com Gene Kelly.

Luciano Pires: Eu vou apertar um botão: eu queria ver nesse papel Humphrey Bogart. Não, eu queria ver o Burt Reynolds aqui. E eu aperto um botão e vou botar o cara na hora lá.

Tristan Aronovich: A gente chega lá.

Luciano Pires: É uma exuberância tecnológica que é inimaginável para os caras de épocas atrás, quando faziam aquele cinema que era… que… isso eu falo, quando eu pego hoje em dia, eu digo para você: o meu filme predileto, aquele que eu quero, que o dia que eu morrer eu vou levar comigo para o túmulo é Casablanca. E aí você pega Casablanca e fala: cara, preto e branco, bicho. Umas câmeras que não dava para carregar para lá e para cá.

Tristan Aronovich: Dinossáuricas.

Luciano Pires: Limitações totais em termos de iluminação. Tudo limitado. E o cara fazer uma obra que se tentarem fazer de novo, não conseguem o que ele conseguiu ali. Essa exuberância tecnológica, ela de certa forma, não meio que destruiu um pouco a essência do que é o cinema cara?

Tristan Aronovich: Eu acho que ela às vezes coloca em risco, o story, a história. Porque o pessoal às vezes está indo para a sala de cinema não para ver uma história boa, mas para ver o espetáculo. Então você está indo para ver tipo um show do Cirque Du Soleil agora aí no cinema. Então você vai ver o Avengers você nem sabe exatamente qual é a história. Mas é um espetáculo visual…

Luciano Pires: Grande…

Tristan Aronovich: É sensorial.

Luciano Pires: É um prazer estético e não tem o prazer intelectual ali.

Tristan Aronovich: Exato. Um Casablanca da vida, onde é que ele ganha? É a história. É o roteiro. Aquilo não importa. Aquilo, daqui a dois mil anos vão assistir e vão se emocionar. Porque a história mexe com você. Efeito fica obsoleto. Então hoje a gente fala que é uma exuberância. Talvez daqui a 50 anos seja engraçado, seja esquisito ver os efeitos de hoje. Então, sem desmerecer, porque eu sou fanzaço também desses efeitos todos. Eu acho impressionante a maneira como eles fazem. Mas cinema ainda é sobre contação de histórias. Então se a história está comprometida, talvez ele não tenha uma durabilidade muito grande. Então se a gente pensar em cinema como história, aí eu acho que às vezes compromete. Mas também é esse 1% desse cinema espetáculo também, que a gente está falando. Porque a maioria dos outros filmes não tem recursos para fazer isso. Então os outros ainda têm que se amparar na história. E se o filme não está conseguindo caminhar e ir para a frente é porque, às vezes, a história não está sólida o suficiente. Isso também pode ser resultado de uma geração que está crescendo assistindo filme que não se ampara na história e consequentemente não consegue mais fazer história. Não consegue mais contar história. Eu dou aula de cinema. Os meus alunos, a maioria não lê. Não tem o hábito de ler. E eu fico completamente chocado. Eu sou obcecado por leitura. Você vai no meu quarto. O meu quarto é o mais esquisito do mundo. Tem uma cama e literalmente centenas de livros ao redor. Por tudo que é lado. Não tem mais nada. E alguns instrumentos musicais espalhados. E aí eu vejo até em pós-graduação. Em pós-graduação você não está dando aula para criança ou adolescente. Mas você está falando de gente de 30 anos. E eu viro e falo assim: quantos aqui já leram Dostoiévski? Tem turmas aí que ninguém levanta a mão. Quem já leu Tolstói? Quem já leu Machado de Assis? Esse eu li porque era obrigatório na escola. Não. Quem leu adulto, pensando, refletindo? Com prazer.

Luciano Pires: Com prazer.

Tristan Aronovich: E o pessoal não levanta a mão. E aí eles olham para mim: eu estou estudando cinema. Por que eu tenho que ler? Como assim? Você tem que entender de contação de história. O livro é a primeira mídia que a gente tem que consegue computar e registrar contação de histórias para outras pessoas.

Luciano Pires: É. E usa a tua imaginação. Você é parte daquilo.

Tristan Aronovich: É claro. Você virou o diretor. Você virou o editor. Você virou o câmera quando você está lendo o livro.

Luciano Pires: Exatamente.

Tristan Aronovich: Então se você não é obcecado por contação de histórias e por histórias, como é que você vai contar histórias boas depois? Então eu acho que uma coisa que talvez mais comprometa o cinema. Mais do que esses efeitos. É a gente pensar que a gente está lidando com uma geração que lê pouco. Que está acostumada a ver filme espetáculo, que são filmes que não se baseiam na história. Então o cara já não tem mais dentro, na víscera essa coisa da história, de um ato dramático. Aí o resultado vão ser filmes insossos.

Luciano Pires: É uma sequência de tweets, tuitadas. Tun, tun, tun.

Tristan Aronovich: O pessoal fala Geração Millenium. Não. É geração hashtag. É a geração que acha que vai mudar o mundo pondo uma hashtag lá no Facebook.

Luciano Pires: Me fala uma coisa, cara: e essa transição de poder de Hollywood para Netflix? Eu estou usando dois exemplos aqui, mas que é, por exemplo, cara, o prazer que eu tive assistindo Beaking Bad. Eu me lembro poucas vezes de ter tido o mesmo prazer assistindo um filme no cinema. Até porque são produtos diferentes.

Tristan Aronovich: Claro.

Luciano Pires: Beaking Bad eu consigo contar uma história em 35, 40, 50 capítulos. Quer dizer, você faz o que você quiser com o seu personagem. O cinema tem duas horas e deu. Você tem que matar ali. E no começo era aquela história, as primeiras séries eram sopa operas. Eram novelinhas que estavam ali. E agora um puta roteirista de Hollywood migrou para cá. Um puta ator migrou para cá. Você pega um Game of Thrones, que era… a produção visual daquilo.

Tristan Aronovich: É impressionante. Cada episódio…

Luciano Pires: Era uma loucura aquilo lá. Então os caras já trouxeram para a telinha o que era domínio de Hollywood. Ou seja, estão derrubando todas as…

Tristan Aronovich: Os paradigmas.

Luciano Pires: Tudo. Quebrou tudo lá. Ao ponto de chegar no Oscar agora e você já chega lá com a Netflix: opa, é o meu filme que está aí para ganhar o Oscar. Como que isso está impactando cara? Nessa indústria antiga da produção?

Tristan Aronovich: É um casamento inevitável. Então eu acho que até agora, a gente já está aceitando melhor. Eu acho que até uns quatro, cinco anos, o pessoal ainda estava muito: ah não, meu Deus, a Netflix está matando o cinema. Ainda tinha meio que uma rixa, uma briga.

Luciano Pires: Você como diretor se conforma em um cara assistir teu filme num celular?

Tristan Aronovich: No celular eu ainda… cara, mas você pegou pesado também. Celular? Celular é pesado. Mas assim, eu tenho que aceitar que vai acontecer e já deve estar acontecendo. O cara deve ir no Youtube e ver o meu filme lá no celular. Assim, me dói. Me dói. Porque quando você pensa num filme, primeiro, você pensa numa tela de 11 metros. Então você está compondo uma imagem que tem muito detalhe, muita informação, para uma telinha de 20 centímetros. Então eu sei que o cara, ao assistir no celular, ele vai perder muita coisa. Mas não tenha dúvida. A história vai estar ali? A história vai estar ali. Então, mais uma vez a importância da história. Agora, todos os detalhes subliminares e as sutilezas vão estar ali? Não. O cara vai perder. Na televisão eu não ligo. Até porque eu amo assistir seriado, as séries também. E pode ser uma tela razoável, a televisão. Você bota uma tela boa lá. Agora, celular cara, me dói. Me dói. Mas o que eu posso fazer? É o que é. Tanto que no LA Film agora – a minha produtora – tem um seriado que a primeira temporada foi muito bem, chamada DOD.

Luciano Pires: DOD?

Tristan Aronovich: D, O, D.

Luciano Pires: Está passando onde?

Tristan Aronovich: Está no Youtube, no canal da própria produtora. E agora a gente está negociando a venda para a China, da segunda temporada.  Ela já foi feita como uma web série. Então não foi feita como seriado de televisão. Então os episódios são muito mais curtos, são muito mais ágeis. Porque o spam de atenção do pessoal em web é dois minutos, três minutos.

Luciano Pires: Quanto dura um episódio?

Tristan Aronovich: Tem episódio de um minuto e meio e episódios mais longos, de três minutos e meio.

Luciano Pires: Cacetada.

Tristan Aronovich: É muito ágil. É muito ágil. E aí o que acontece é: desde a concepção – esse é o maior desafio para o diretor e para o fotógrafo – você já tem que pensar: isso aqui vai ser assistido numa tela de 20 centímetros. Então toda a informação tem que poder ser transmitida para uma telinha de 15, 20 centímetros.

Luciano Pires: Senão vai parecer aqueles westerns espaguete.

Tristan Aronovich: Aqueles closes hilários. É. Então a gente sabe que tem que adaptar a linguagem que a gente tinha até alguns poucos anos atrás para isso. Porque é algo muito cruel, de quem trabalha com entretenimento audiovisual. Você estuda uma coisa agora, aprende agora. Quando você dominou, ela já mudou.

Luciano Pires: Sim. E outra coisa cara: roteiriza para um minuto e meio de atenção? Roteiriza para três minutos de atenção?

Tristan Aronovich: E para o roteirista, para o pobre do coitado. Todo mundo entrou numa cadeia nova de produção. A gente está tendo que se re-ensinar tudo. E não tem faculdade ou curso que te ensine isso rápido o suficiente. Então o foco agora é entender história, [inint 01:12:04] porque isso vai ser sempre a alma. É o Casablanca que você falou. Agora, a mídia, o formato, a cada 12 horas está mudando. Então isso a gente vai ter que ir aprendendo [inint 01:12:16]. Você está fazendo uma coisa agora, quando você acabou de fazer agora: ih, mudou. É outra plataforma já. Já não é mais para isso. Ironicamente o DOD passou num festival de cinema em tela grande, de 11 metros. Aí é o oposto. Aí você fica morrendo de vergonha, assim: ah meu Deus. Essa imagem não foi feita para essa tela grande. É engraçado. Fica o efeito contrário. Mas é ingrato isso. É ingrato. Que na hora que você aprende, já mudou. Já era.

Luciano Pires: Então, você está falando uma coisa interessante. Você lembra daquela história do Glauber Rocha de: uma ideia na cabeça e uma câmera na mão? Eu me lembro disso aí na época. O que aconteceu? Aquelas câmeras gigantescas; aquilo tudo foi reduzido de tamanho. Veio lá o 16 milímetros. Chegou até o 8, Super 8 e tudo mais. Que eram câmeras minúsculas. E começou na época uma história de que agora cara, qualquer pessoa pode ter uma câmera na mão e uma ideia na cabeça e está feito cinema. E não é nada disso.

Tristan Aronovich: Não é nada disso.

Luciano Pires: Cara chegou um computador novo, uma ideia na cabeça. Não é nada disso, cara. Tem todo um embasamento intelectual. Tem uma história para ser contada. Que a tecnologia não vai resolver isso.

Tristan Aronovich: Claro que não.

Luciano Pires: Não vai resolver?

Tristan Aronovich: A tecnologia possibilita. Você tem a possibilidade de fazer. Agora, ainda é o ser humano por trás da tecnologia, que faz. Eu me lembro de uma entrevista uma vez, do David Gilmour, do Pink Floyd, que eu amo o Pink Floyd. E aí eles tinham lançado – antes de eu nascer até – um negócio chamado Live at Pompeii, que era uma… que eles gravaram lá, levaram uns caminhões inteiros para Pompéia, de equipamento. Descem aquele monte de equipamento e ficam fazendo um sonzaço assim, por um tempão. Aí eu me lembro que numa entrevista – e eu já era vivo nessa entrevista, era obcecado pelo Pink Floyd, amava os caras – aí alguém virou e falou assim: mas também, com tudo isso de equipamento, aí qualquer um… aí o David Gilmour na entrevista, olhou e falou assim: tá bom. Eu te dou todo esse equipamento.

Luciano Pires: Vai fazer.

Tristan Aronovich: Leva, vai fazer o som que a gente faz. Então eu acho que é exatamente isso. Eu me lembro. Na época que eu estava dando aula na USP, de cinema, eu fiz uma coisa que é uma heresia. Eu quase fui assassinado. Eu nunca estive tão próximo da morte, eu acho. Que eu estava fazendo uma análise de cinema, de produção. Então era uma coisa mais fria. E eu tive a audácia de colocar Titanic lado a lado com Deus e o Diabo na Terra do Sol, do Glauber Rocha. E o pessoal na USP, o pessoal só faltou me massacrar. Como que você coloca isso? Eu falei: gente é cinema. Eu quero ver prós e contras, diferenças, semelhanças. E aí alguém virou e falou assim – porque na época o Titanic tinha sido o filme mais caro produzido até então, 110 milhões de dólares; que hoje em dia já é a média de qualquer filme da Marvel, passa disso – e o pessoal também: mas com 110 milhões de dólares, qualquer um faz esse filme. E eu falei: ah é? Pega qualquer produtora aqui no Brasil e dá 110 milhões de dólares para ver se eles fazem. Não faz. Primeiro que eu acho que uns 60 milhões desaparecem.

Vozes superpostas [01:15:23]

Tristan Aronovich: Mas não faz. É que nem celular. Hoje em dia qualquer um grava com celular. Significa que é bom? Não. Você pode? Pode. Pode levar o equipamento lá para Pompéia? Poder pode. Mas é o ser humano. É a alma. É o coração que está por trás, que vai fazer aquilo ser interessante ou não. É a história que você está contando que vai fazer isso interessante ou não. Quando a galera começa a estudar cinema existe uma verdadeira obsessão por tecnologia e equipamento. É muito engraçado. E eu que lido quase que diuturnamente com isso, vejo assim: o pessoal que está chegando lá – de 18 a 25 anos – não, mas tem que ser essa câmera, tem que ser… eu falo: cara, não esquenta com isso. Você vai aprender essa câmera aqui hoje, daqui a três semanas vai ter uma melhor. Então não foca nisso. Foca no conteúdo, no que está por trás da câmera.

Luciano Pires: É o que está acontecendo com o Youtube. Eu vou levar você agora para o extremo oposto.

Tristan Aronovich: Isso. É isso mesmo.

Luciano Pires: Então eu não preciso mais… a camerazinha do meu laptop. É a camerazinha daqui.

Tristan Aronovich: Isso.

Luciano Pires: E por que vai fazer sucesso? Porque tem algum conteúdo que se adaptou a essa audiência dele.

Tristan Aronovich: Exato.

Luciano Pires: E o cara tem 10, 20, 30 milhões de seguidores; feito com um negócio num celular ali.

Tristan Aronovich: É. Mas não é por causa do computador ou da câmera dele.

Luciano Pires: Não.

Tristan Aronovich: A tecnologia possibilita. Mas é o conteúdo que vai criar esse vínculo. Vai estabelecer o vínculo.

 

Luciano Pires: Quais são os planos, meu caro?

Tristan Aronovich: Têm vários. Eu acabei de gravar um longa de horror divertidíssimo agora, que deve ser lançado primeiro nos Estados Unidos, que foi feito para lá – e que depois vem para cá – chamado Skull.

Luciano Pires: Skull?

Tristan Aronovich: S, K, U, L, L.

Luciano Pires: Ah, a caveira.

Tristan Aronovich: Isso. A caveira. É divertidíssimo. Eu fui explodido. Tomei tiro. Tudo que eu adoro fazer, tipo Disneylândia para adulto.

Luciano Pires: Você fez aqui?

Tristan Aronovich: Aqui no Brasil. A gente rodou aqui em São Paulo.

Luciano Pires: Daqui para lá?

Tristan Aronovich: Isso. Foi uma coprodução do LA Film com a Infravermelho, que é a Infravermelho Filmes, que também é uma… são amigões assim, de muitos e muitos anos.

Luciano Pires: Me dá o plot. Me dá o plot.

Tristan Aronovich: O plot é hilário. Mas é terror. Mas é uma máscara pré-colombiana que encontram na Amazônia. E a máscara tem poderes sobrenaturais. Ela é amaldiçoada. Então a máscara escolhe quem ela vai possuir. E a máscara então, possuindo o seu hospedeiro, o hospedeiro vai virando aos poucos um demônio que vai matando. Porque a máscara faz parte de um demônio do 5º Círculo do Inferno. E essa máscara misteriosamente vem parar em São Paulo. E ninguém consegue parar, porque a polícia tenta parar e não dá para parar, porque é uma máscara amaldiçoada. E só um índio, um descendente de índios que sabe de toda a história, junto com um padre. Eles vão ter que se associar a uma policial, que compra a ideia deles, para daí então usar os rituais necessários para mandar a máscara de volta para o Círculo do Inferno onde ela pertence. Então resumidamente esse é o plot. Então o bom de filme de horror…

Luciano Pires: Mas esse filme é sério?

Tristan Aronovich: É. Mas o bom é que é assim: se o filme de horror ficar bom ele é horror. Mas se ele fica ruim, fica trash e também tem público. Então não tem muito erro. Mas ele foi muito bem feito. O pessoal da Infravermelho manda muito bem. Então eu acho que vai ficar um produto muito, muito legal. Então a gente acabou de rodar. Tem duas semanas. Está fresquinho, fresquinho. Agora a gente está editando. E daqui a um mês e meio eu começo a gravar um outro do André Seagal. Eu só não posso falar o nome, porque ele tem os direitos autorais do filme. Que ele está vendendo uma série de produtos. É muito inteligente a abordagem do André.

Luciano Pires: Vocês estão gravando isso tudo digital?

Tristan Aronovich: Tudo, tudo.

Luciano Pires: Tudo é digital agora?

Tristan Aronovich: 100% digital.

Luciano Pires: Tudo digital.

Tristan Aronovich: E com câmeras inclusive, de fabricantes que fabricavam câmera de película. A Arri, que era a maior fabricante de câmera de película, hoje fabrica… as melhores câmeras de cinema digital são da Arri também, ironicamente.

Luciano Pires: A Arri Flex, fantástica.

Tristan Aronovich: Exatamente. E agora hoje tem a Arri Alexa, que é a de preferência dos cineastas, que é digital. Eles chamam de câmera de cinema digital. E que vai ser um dos – senão “o” – primeiro filme de Kung-Fu, tipo esses do Jackie Chan. Rodados aqui no Brasil.

Luciano Pires: A terra da artes marciais?

Tristan Aronovich: Então, pois é. O plot divertidíssimo. Esse eu tenho até medo de falar alguma coisa indevida. Senão o Sig depois escuta aqui e fica brabo comigo. Mas eu só posso falar que vai ter um estilo muito bacana de Kung-Fu completamente novo, inusitado. Porque eles estão resgatando um gênero que, enfim, fez muito sucesso em filmes asiáticos nos anos 80, que era misturar um pouco ação com humor.

Luciano Pires: Jackie Chan.

Tristan Aronovich: Isso. Exatamente. Então o roteiro é muito redondinho. É muito bacana. E ação com humor, evidentemente eles queriam um cara bem gringo, para fazer o vilão da história. Então me convidaram para fazer o…

Luciano Pires: Você vai ser o vilão?

Tristan Aronovich: Eu vou ser o mauzão da história aí.

Luciano Pires: Legal.

Tristan Aronovich: E vou lutar contra uns caras que trazem todo um estilo novo de Kung-Fu, que é hilário. É maravilhoso. Maravilhoso.

Luciano Pires: Tem dois livros que você trouxe aí?

Tristan Aronovich: Trouxe. São meus. Eu trouxe para te dar aqui de presente.

Luciano Pires: Esse primeiro aqui. Vamos mostrar para a câmera aqui. A Bíblia do Cinema.

Tristan Aronovich: Isso é quando você está em desespero.

Luciano Pires: Guia Prático do Roteiro ao Lançamento. Que legal. Eu vou devorar isso aqui, bicho.

Tristan Aronovich: Depois você abre lá no versículo 12, capítulo 13 e…

Luciano Pires: E o outro é Fazendo Cinema, Making Films.

Tristan Aronovich: Esse é bilíngue.

Luciano Pires: Bilíngue. Mais de 70 exercícios e atividades práticas para roteiristas, produtores. Que legal cara. Muito bom, bicho. Não tem muita literatura brasileira, feita aqui no Brasil, de cinema?

Tristan Aronovich: Quase zero. Quase zero. E foi o que me motivou a fazer. Porque desde 2006 dando aula, eu sempre incorria nesse obstáculo. Então literatura, livro para o pessoal. Tem que comprar de fora. E o cara que não fala inglês? Aí é um problema. Então aí tinha um ou dois que foram traduzidos. Mas às vezes não supriam as necessidades. Ué, então vamos fazer. Vamos fazer e a gente publica.

Luciano Pires: Quem quiser te encontrar? Quero frequentar as aulas na tua produtora lá. Como que a gente acha?

Tristan Aronovich: Claro, claro. A produtora é LA Film. É como se fosse em inglês. LA de Latin American, film. Film em inglês. Então lafilm.com.br. O telefone de lá é 11, que é aqui de São Paulo, 3969-0347. Então todo mundo está convidado a passar lá. É uma produtora. Sempre tem muita coisa legal rolando lá. Tem eventos. E à noite, treinamentos. Quem quiser estudar, aprender alguma coisa. Tem tudo: produção, roteiro, atuação. Tudo que você pode imaginar rola lá. Tem o Instagram, que é lafilm_oficial. Tem o meu Instagram também que é tristan.aronovich. Então qualquer um desses caminhos é um caminho tranquilo para me encontrar e encontrar a produtora.

Luciano Pires: Maravilha. Cara, que legal bicho. Excelente. É muito… é fascinante encontrar gente de cinema que tem essa tua experiência de estar com a perna em dois lugares. Lá na Meca do cinema. E na realidade brasileira aqui.

Tristan Aronovich: Sim, sim.

Luciano Pires: Sai de lá e vem para cá e vê essa diferença e conseguir mesmo assim produzir.

Tristan Aronovich: E é bom, porque eu trago coisas de lá para cá quando eu estou aqui e levo um pouco dessa sobrevivência daqui para lá quando eu estou lá. Que aqui é um cinema de sobrevivência.

Luciano Pires: É. E já tem os diretores brasileiros fazendo acontecer lá fora.

Tristan Aronovich: Ah, sim, sim.

Luciano Pires: Já, já a gente vê você aí na frente de um Robocop 2 ou 3.

Tristan Aronovich: Tomara. Se alguém quiser.

Luciano Pires: Numa grande série…

Tristan Aronovich: Marcos 8.

Luciano Pires: Já pensou que legal aí?

Tristan Aronovich: Incrível. É incrível. Tomara. Tomara. Tomara.

Luciano Pires: Grande Tristan. Obrigada.

Tristan Aronovich: Muito obrigada. Valeu velho.

Luciano Pires: Um abraço.

Tristan Aronovich: E eu não sei que dia que isso aqui vai ao ar, mas para o ouvinte. A gente está gravando dia 8 de março. Então feliz Dia das Mulheres aí para todas as mulheres que estiverem escutando.

Luciano Pires: Ainda lembrou disso aí.

Tristan Aronovich: Independente do dia que isso aqui for veiculado.

Luciano Pires: Tá bom.

Tristan Aronovich: Então valeu cara, prazerzaço.

Luciano Pires: Um abraço. Muito bem. Termina aqui mais um LíderCast. A transcrição deste programa você encontra no lidercast.com.br. O LíderCast nasceu da minha obsessão pelos temas liderança e empreendedorismo. É em torno dele que eu construí minha carreira, com mais de mil palestras, nas quais distribuo iscas intelectuais, para provocar equipes e indivíduos e ampliar seus repertórios e sua capacidade de julgamento e tomada de decisão. Leve o fitness intelectual para a sua empresa. Acesse lucianopires.com.br e conheça minhas palestras.

Locutor: Você ouviu LíderCast com Luciano Pires. Mais uma isca intelectual do Café Brasil. Acompanhe os programas pelo portal cafebrasil.com.br.

 

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