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Luciano Pires -
Download do Programa

Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o PodCast que trata de liderança e empreendedorismo, com gente que faz acontecer. No programa de hoje, temos Juliana Lucena e Abbey Alabi. Ele é imigrante africano, que chega ao Brasil para estudar. Quebra a cara, e hoje abre oportunidades de futuro para pessoas de classes mais baixas. E ela, é seu porto seguro.

Muito bem, mais um LíderCast. Esse aqui foi assim. A Juliana Lucena entra em contato comigo através do Facebook, que é um lugar que eu não uso muito para contato, porque não foi um comentário no post, mas ela deve ter entrado em contato no Messenger, e eu dificilmente olho aquilo. Mas eu olhei, “Luciano, escuto muito o LíderCast, e tenho uma dica para você. Um cara que eu conheci…”, e me passou um nome estranhíssimo. Ele veio da África, e… Eu falei, vai dar samba, vamos lá. A gente marcou, e estamos aqui. Então esse aqui é uma sugestão, a partir de um ouvinte. Se você que tá me ouvindo aí, tiver… Bom, se tá me ouvindo, já conhece qual é a pegada do LíderCast. Então, se souber de gente que cabe aqui no programa, é só dar a dica. A gente faz uma avaliação. Tendo bala na agulha, vamos conversar. E é o que vai acontecer aqui hoje.

Três perguntas fundamentais, que são as únicas que você não pode errar. Que são, seu nome, sua idade, e o que você faz.

Abbey Alabi: Bom, meu nome na verdade, é Abbey (inint) [00:01:33.19] Alab. Como é complicado as pessoas pronunciarem meu nome, eu gosto bastante do meu nome, eu tenho um apelido que eu gosto de ser chamado, que é Abbey, que é (inint) [00:01:50.04] na minha terra, as pessoas chamadas (inint) [00:01:53.14], o apelido é Abbey. Então, Abbey Alabi.

Luciano Pires: Muito bem Abbey Alabi. Qual a sua idade, e o que que você faz?

Abbey Alabi: Eu tenho 37 anos agora. Sou professor de inglês. Eu dou aula de inglês.

Luciano Pires: Com esse seu sotaque, você nasceu onde?

Abbey Alabi: Eu nasci na Nigéria, na cidade chamada Ibadan. Ibadan fica mais ou menos há 120 quilômetros, do deserto mais famoso, que chama Lagos. E é isso.

Luciano Pires: Nigéria, é o Brasil da África?

Abbey Alabi: Mais ou menos por aí.

Luciano Pires: É, porque tem 200 milhões de habitantes, não é isso?

Abbey Alabi: É quase isso.

Luciano Pires: Tamanho por tamanho, nós estamos ali, pau a pau. E você nasceu no interior então, pode se chamar assim? Vocês usam essa relação também? Capital e interior?

Abbey Alabi: Tem interior também. Mas só que Ibadan não é interior. Na verdade, Ibadan é tão popular, que ele recebe primeiro TV Station, canal de TV, em todos os países negro africanos, e também recebeu a primeira universidade (inint) [00:03:03.28].

Luciano Pires: Que legal. Quantos habitantes tem hoje?

Abbey Alabi: Lá, acho que tem uns 4 milhões, se não me engano.

Luciano Pires: Cara, é uma baita cidade.

Abbey Alabi: ela foi, há algum tempo atrás, um polo muito importante de política na Nigéria. Depois que Lagos virou mais famoso. Antes, Ibadan era mais famoso.

Luciano Pires: Você tem irmãos?

Abbey Alabi: Eu tenho. Eu venho de uma família de 5 irmãos. Sem meninas. Só homens.

Luciano Pires: O que que seu pai e sua mãe fazem, ou faziam?

Abbey Alabi: Meu pai era jogador de futebol profissional na Nigéria. Eu cresci vendo meu pai como uma pessoa famosa, jogador de futebol que todo mundo conhece bastante. E minha mãe era aquela senhorinha calma, quietinha. Ela tem restaurante, ela é tipo (inint) [00:03:55.13], não sei como fala em português. Aquele que faz comida no restaurante. E ela faz bastante comida. Então, através disso, ela começou a empreender, e ela tinha restaurante dela, abriu vários restaurantes em Lagos. Porque ela mudou de Ibadan para Lagos, para crescer mais no trabalho dela.

Luciano Pires: Seu pai chegou na seleção?

Abbey Alabi: Meu pai, segundo ele, jogou 2 vezes na seleção. Mas não chegou a jogar acho que fora da África. Acho que ele jogou algumas partidas, mas segundo ele, até contra Pelé, quando Pelé foi para lá, ele foi um dos que treinou com Pelé. Então era sonho dele vir para cá no Brasil.

Luciano Pires: E você falou na sua mãe, dando a impressão de que ela foi sozinha. Seu pai morreu?

Abbey Alabi: Na Nigéria, é um pouco diferente. Não é separação. É na procura da felicidade, entre aspas, ela recebeu uma proposta de trabalhar no Law school, escola de direito, tipo OAB daqui. Então, meu pai fala assim, “vá falar com seus filhos. Se seus filhos liberaram você, você está livre”. E ela veio falar comigo, lembrei muito bem, ela falou “Abbey, posso ir a Lagos para trabalhar em law school?”. “Sim, mãe”. Todos nós irmãos aprovamos ela, e ela falou com meu pai, meu pai “tá bom. Seus filhos aprovaram, pode ir”. Então ela voltava para casa, há cada quinzena.

Luciano Pires: Que barato, é cada lugar. Mas vamos lá. Como que eu vou chamar você ao longo do programa? Abbey?

Abbey Alabi: Abbey.

Luciano Pires: Sempre Abbey. O que que o Abbeyzinho, lá se fala assim? A criança tem esse diminutivo no nome também?

Abbey Alabi: Não tem. Chama de little Abbey.

Luciano Pires: O que que o Little Abbey queria ser quando crescesse?

Abbey Alabi: Uau. Era tão diferente, porque como eu falei para você, meu pai era jogador de futebol. E somos 5 meninos. Então há grande expectativa de que pelo menos uma pessoa tem que ser jogador de futebol, entre a gente. Então, era muita pressão. Mas, eu não gostava de ir na onda desse jeito. Eu gosto de fazer o que eu talvez consiga dominar. Então, todos meus irmãos são jogadores, menos eu. Eu só catava no gol. Eu era goleiro. Então eu prefiro dedicar bastante ao estudo. Um dia, a gente estava na rua, brincando de lua, eu tenho um (inint) [00:06:31.15] play que fazia na época, ao anoitecer. Todas as crianças ficavam no quintal contando histórias, brincando, falando de escola, o que passou no dia. Estava passando um avião. Olhei para meu pai, “pai, o que é isso aí?”. Ele falou, “esse é um avião”. “Mas, como que voa?”. Ele, “tem alguém lá na frente, chamado piloto, que pilota”. “pai, quando crescer, eu quero ser piloto de avião”. Isso me levou até os 16 anos, ficou até 16 anos.

Luciano Pires: E você foi atrás de ser piloto, não?

Abbey Alabi: Eu fui atrás. Mas só que uma coisa mudou, porque eu sou mais pé no chão. Então, quando eu terminei o colégio, falei para o meu pai. “Pai, eu quero fazer piloto”, falei isso. Ele fala, “tudo bem, você pode fazer. Mas só que, você não vai para faculdade. Não é colégio, é aviation school que você vai ter que ir”. E aí fiquei pensando, como a gente era criança na Nigéria, tinha algumas músicas que a gente canta, que faz a gente dedicar mais ao estudo. Então essas músicas falavam de faculdade, colégio, isso ficou na minha cabeça meio, “eu não posso viver sem faculdade. Eu tenho que ir lá”. Então amor para ir para a universidade, era maior do que ser piloto. Então, “pai, eu tenho que ir para a faculdade, eu vou na universidade”. E aí ele falou assim, “então tem que mudar”. Eu mudei para o outro curso que eu fui fazer na faculdade.

Luciano Pires: Que curso você escolheu?

Abbey Alabi: Na verdade, eu escolhi petrol chemical engeneering. Que você chama de…

Luciano Pires: Engenharia Petroquímica.

Abbey Alabi: Isso. Mas quando eu fiz prova, não passei, passei em geologia. Fui fazer geologia na faculdade.

Luciano Pires: Que ano era isso?

Abbey Alabi: Em 2000. 99.

Luciano Pires: Eu não conheço a história da Nigéria. O que eu sei da Nigéria, é muito olhando de longe, não sei como que é. Mas eu sei que cada vez que vem uma história de algum país africano, vem com um monte de conflitos, com problemas políticos, tem briga toda hora, guerra, tem tudo lá. A Nigéria foi assim também? Passou por troca de regime, regime comunista para regime democrático, derrubada de golpe, etc. e tal? Você passou por isso lá?

Abbey Alabi: Sim. Eu não passei, mas li na história. Tinha bastante militar, que tinha vários tipos de golpe, eu li na escola. Mas, o que eu vivi, era a de 93, quando Chief Abiola, foi eleito presidente. E o presidente militar que estava lá, simplesmente anulou eleição. Isso causou muito problema. 12 de junho. Então eu tinha, nessa época, 12 anos. Então eu pude entender, estava no colégio, então consegui entender. Parou tudo, não chegou a ser guerra de matar todo mundo. Não. Mas, teve protesto, mais pacífica, mas teve protesto. Acho que a gente não teve escola 4 semanas, para acalmar. Foi isso que eu vivi sobre turbulências.

Luciano Pires: Deixa eu explorar você um pouco. É a primeira vez que eu peguei um africano para valer aqui. Então, vou explorar um pouquinho. Vou sair um pouco da sua história, depois eu volto para ela, tá? Eu to nesse momento aqui, estudando profundamente a história de Ruanda, e do genocídio de Ruanda, porque eu to acompanhando histórias que tenham sido resultado de países que colocam uma população de nós, contra eles. Divide a população, e o que acontece depois? Então, você vai para Alemanha, divide-se a população, dá no que deu, né? Você vai para Tchecoslováquia, dá no que deu. Então, todo lugar acaba no genocídio. Agora, nesse momento, eu to mergulhado com a história de Ruanda, e é exatamente 93/94, até 97, quando acontece o genocídio. E ali tem uma coisa muito interessante, que é a maneira como eles dividem as etnias, (inint) [00:10:48.17], e são etnias que convivem ali. E a impressão que eu tenho, que sempre me passaram, é que a África é toda assim. São muitas etnias, que convivem lá, e as vezes sai briga, que é uma briga de etnias, uma entre a outra. A Nigéria é assim também? São etnias?

Abbey Alabi: Sim, são etnias, e praticamente cada cidade da Nigéria, tem uma língua diferente. Então, você tem mais ou menos 500 línguas. Então, isso acaba gerando o que nunca vai gerar no Brasil, como afeitos, desafetos, entre eles. Se a gente pega ônibus junto, você zoa gente da minha etnia, eu vou ficar bravo com você. Então é fácil. É como se alguém chegasse aqui, “você é baiano”. Então, tem isso em todas as etnias. A briga, ela é impulsionado com isso, entendeu? Tem várias etnias que as pessoas se identificam com a sua etnia. Entendeu? Quando as pessoas não querem que isso aconteça, é obrigado todo mundo a falar inglês, para não ter aquela…

Luciano Pires: inglês então é o segundo idioma?

Abbey Alabi: Eles chamam de oficial language.

Luciano Pires: Exatamente essa dificuldade. A diferença com o baiano, é que o baiano fala português. É a mesma cultura, acredita na mesma coisa, tudo igual. Não tem essa diferença. Quando você fala que são 2 etnias, e me diz que elas falam idiomas diferentes, cara, separou tudo.

Abbey Alabi: Sim. Mas, na verdade, tem 3 principais. Que esses outros que eu falei 500, está abaixo deles. Quando por exemplo, eu sou de Ibadan. Você falou para outra cidade, que tem mais ou menos 70 km de Ibadan. Ele chama, tem uma tribo que chama Igbo, Arrussa, Yoruba. Esses 3 principais. Eu sou de Yoruba. Yoruba, é mais do Sudeste. Então mesmo eu sendo de Yoruba, se eu viajar mais ou menos 50 km, muito provavelmente eu já não entendo mais o que eles estão falando, se falarem a língua local. Entendeu? A comida, a palavra muda totalmente. Não é água, é como se água fosse cabeça, alguma coisa assim. Tipo, totalmente diferente.

Luciano Pires: Como fala água no seu idioma?

Abbey Alabi: Omi. Agora, tem outro aí. Você falou omi, omi quer dizer respirar. Agua, quer dizer o mi.

Luciano Pires: É difícil. Que interessante, para nós fica difícil até entender o que é isso. Eu não consigo compreender como deve ser a tensão social em um ambiente como esse. Porque você administrar um país onde tem 500 idiomas, meu, isso é muito complicado.

Abbey Alabi: Então as pessoas voltam, porque é da cidade dele. Eles não voltam porque ele é bom em fazer isso. Tem essa diferença muito forte, que hoje em dia melhorou bastante, pelo que eu to vendo de lá. As pessoas começam a pensar diferente, educação ajudou bastante. Cada família, no mínimo, tem 2 ou 3 graduados, doutorados. Então, é bem visível. As pessoas estão reeducando para voltar bem. Hoje em dia não tem mais briga na Nigéria. Tem algumas situações, Nordeste, Norte do país, onde as pessoas ficam no Jungle. Lá no mato mesmo. Mas, o país inteiro é bem mais diminuído hoje em dia.

Luciano Pires: Você que está nos ouvindo aí. Acabou de ter uma ideia, de como nós brasileiros somos… Deus mora aqui. Que nós estamos preocupados aqui politicamente, que uma turma é da esquerda, outra turma é da direita, mas é todo mundo brasileiro. Você vai tomar uma cerveja, conversar a mesma história. Imagina o que deve ser você gerenciar um país, com esse tipo de coisa. Muito legal. Vamos voltar para a sua história então. Você vai fazer geologia.

Abbey Alabi: Sim, fui fazer.

Luciano Pires: Fez? Se formou em geólogo?

Abbey Alabi: Não me formei oficialmente, porque eu decidi vir para o Brasil no meio do meu curso. E a ideia é estudar aqui no Brasil e voltar para lá, para terminar tudo. Mas, a história mudou.

Luciano Pires: Por que Brasil?

Abbey Alabi: Na verdade, sinceramente falando, eu não quis vir para o Brasil. Eu quis ir para Irlanda, Dublin, e Toronto, no Canadá. Mas, quando fui fazer aplicação para fazer (inint) [00:15:38.23], para começar a estudar na embaixada deles na Nigéria, falaram que estava fechado a bolsa de estudo. Minha mãe, como eu falei para você, ela mora em Lagos, tem um restaurante em Lagos, mas o restaurante dela fica na frente do lado da rua da embaixada brasileira, entendeu? Eu cheguei triste, ela perguntou porque, tá tudo fechado, só posso tentar ano que vem. Ela falou, “porque que você não tenta o Brasil? Estão falando que a USP é muito bom”. “Mae, eu não falo português, não sei jogar futebol, não tenho nenhum amigo lá. Como que eu vou viver lá?”. “Não, eu conheci muitas pessoas lá”. Eu sempre quis fazer o que minha mãe quer. É meu sonho. Tudo o que ela quer, eu gosto muito de fazer e realizar. Mesmo que não é conveniente para mim.

Luciano Pires: Como é o nome dela?

Abbey Alabi: Moreliat. Ela insistiu, eu quero que você vá para o Brasil. Eu falei, ok.

Luciano Pires: A mãe mandou…

Abbey Alabi: Que seja assim. Eu vou. Todos os meus amigos achavam que eu era louco. Tipo, vamos para Londres. Não quero. Onde eu você vai? Eu quero ir para o Brasil. Então, a maioria deles foi para os Estados Unidos, Europa, e eu vim para cá.

Luciano Pires: Você veio para estudar então?

Abbey Alabi: Eu vim para estudar, mas no primeiro dia, a história já mudou.

Luciano Pires: Vamos lá. Quando é que você chegou no Brasil?

Abbey Alabi: Eu cheguei no dia 08 de dezembro de 2003.

Luciano Pires: Sem falar português?

Abbey Alabi: Nem sabia o que era oi. Porque na Nigéria, quando você fala oi para as pessoas na rua, é tipo chamar atenção de alguém. Que o que você está fazendo, está errado. Tipo, oi? Eles falam oi para chamar atenção. Ou, se coloca no lugar. E quando a pessoa falou oi para mim, eu vi oi que a entonação deles, não é tão agressiva como é lá. Mas quando ouvi oi, eu já opa, o que que eu fiz de errado? Mas depois, primeiro café da manhã que eu tomei, é tão engraçado, que o cara foi lá, comprou pão francês, leite, e colocou em cima da mesa. Abbey, faz café da manhã. Ele colocou Nescau também lá. Aí ele foi embora, não sei onde ele foi. Cheguei na cozinha, peguei o pão francês, estava duro. Ixi, ele não viu, comprou o pão errado, vencido. Joguei no lixo. Peguei outro, tudo duro. Caramba, ele vai ter que comprar outro pão. Joguei tudo no lixo. Falei assim, vou misturar leite com… sabe aquela caixa de leite que vocês usam aqui? Abri, e tinha colocado agua para ferver, claro. Mas, tá tudo aguardo. Lá, a gente toma tipo de um leite evaporado. Quem já passou na Europa, deve saber o que é. Ele vem, parece um leite condensado, mas só que não é doce.

Luciano Pires: E você coloca na agua.

Abbey Alabi: Você dilui na agua, na verdade. Ele incorpora, vira leite, a gente tomava. Aí eu taquei tudo, fiz aquela meleca. Quando ele voltou, “o que que foi Abbey?”. “você comprou pão errado, leite estragado”. Depois que eu fui entender que leite é assim no brasil, pão é assim.

Luciano Pires: Você foi morar na casa de alguém, tem algum conhecido da sua mãe?

Abbey Alabi: Quando minha mãe decidiu, quando eu peguei visto para vir para cá, minha mãe é bem influente, ela conhece muitas pessoas também. Ela falou, Abbey, eu conheço alguém, e me conectou com o irmão dele lá. O irmão que está aqui no Brasil pegou no aeroporto. Ele me levou onde aconteceu isso.

Luciano Pires: Legal. E você veio para estudar? Você veio tudo armado. Você foi para a USP?

Abbey Alabi: Sim, não fui, nem cheguei na porta. Eu fui lá 1 ano depois.

Luciano Pires: O que aconteceu?

Abbey Alabi: Aconteceu que, é difícil. Na hora que eu cheguei aqui no Brasil, primeira noite, primeiro dia, perdi todo dinheiro que eu tinha. Mais ou menos, uns 5 mil dólares na época.

Luciano Pires: Você foi roubado?

Abbey Alabi: Eu fui roubado na cara dura. Passa seu dinheiro. Tá bom, entreguei para ele. E nada mais.

Luciano Pires: Quem era esse cara?

Abbey Alabi: Irmão do amigo da minha mãe. Entendeu.

Luciano Pires: Pediu para você passar o dinheiro para ele, e na confiança…

Abbey Alabi: Ele falou assim, vou arrumar documento para você, vou levar você em todo lugar, vou levar você na USP. Ele fez uma história, onde eu não tinha como me defender, não sabia o que estava acontecendo, não falava português. Eu não era burro, mas só que a única pessoa que eu vi.

Luciano Pires: Claro, você estava totalmente dependente dele.

Abbey Alabi: Exatamente. Então, ele me deixava em casa, saía, trancava a porta, ia embora. Então, ele voltava de noite só, era isso. Era muito complicado para mim. Ele chegava, me dá mais 2 mil dólares. Dava para ele. Então, perdi tudo assim. Quando fui entender… Nessa época, eu morava em uma casa que não tinha luz, energia elétrica, nada. Fiquei assim. Na hora que eu fui acordar, uns 4 meses depois.

Luciano Pires: Esse cara te enrolou então durante 4 meses. Você não começou seu curso, nada disso?

Abbey Alabi: Perdi tudo, liguei para minha mãe depois, 4, 5 meses, ela chorava, porque não sabia onde eu estava. Não tinha contato, não tinha nada. Na época, para ligar para fora daqui do Brasil, era muito caro. Era uns 5 reais por minuto, e não ficava muito claro também. Então não tinha dinheiro mais. O cara pegou tudo, não falando mal da pessoa, mas só que é a minha história. Ele pegou tudo, sobrou 100 dólares na minha mão. Aí ele fala, sobrou 100 dólares com você. Falei, não sobrou nada, acabou. Aí que eu menti, Deus que me perdoe. Eu coloquei aqueles 100 dólares no meu bolso, e ele desistiu de mim. Depois ele falava, onde você vai morar? Não tinha onde morar. Eu morei um pouquinho na rua. As pessoas me ajudaram bastante, brasileiros, muito.

Luciano Pires: Caramba meu, que história.

Abbey Alabi: É, era complicado.

Luciano Pires: Esse cara era africano também?

Abbey Alabi: Era da Nigéria.

Luciano Pires: Caramba.

Abbey Alabi: Era complicado.

Luciano Pires: Bom, vamos lá. Você, seu sonho, 4 meses depois você descobriu que seu sonho tinha meio que…

Abbey Alabi: Na verdade, eu sou de uma fé muito forte. Eu acho que tudo que acontece tem um motivo.

Luciano Pires: Fé em que?

Abbey Alabi: em Deus.

Luciano Pires: Você é cristão?

Abbey Alabi: Eu sou muçulmano.

Luciano Pires: Ok.

Abbey Alabi: E eu acredito que tudo o que acontece com a gente tem motivo. Temos que aprender com isso. Eu não tenho ódio de ninguém. Eu só falo que isso realmente aconteceu comigo. E muitos brasileiros, me viam na época, me ajudaram muito, com ovos, farinha de trigo, pão.

Luciano Pires: Você foi morar na rua?

Abbey Alabi: Praticamente. Não diria rua. Eu morei em uma laje por um tempinho, e depois uma moça que morava na frente da laje que eu morava, que ela não sabia que eu não tinha onde morar, ela olhou para mim, ela falou com um rapaz da África também, que morava na rua, que gostava de mim. Aí o moço, Abbey, ela gosta de você. Eu não entendi, falava em inglês. Tá bom. Gosta de mim, como assim? Fiquei com medo. Como que uma mulher vai gostar de um homem que não tem trabalho, não tem o que fazer, nada, não tem onde morar. Eu tinha essa cultura. Homem tem que procurar alguma coisa, tem que procurar o que é. Então, como que uma mulher gostava de mim, sem eu ter nada? Aí ela veio, mas eu gosto de você, falou isso. Falei assim, eu to com fome. Ela foi na casa dela, trouxe para mim, bisnaguinha e guaraná. Foi a primeira vez que eu tomei guaraná na minha vida. Tipo, não tem na África guaraná, temos Fanta, Coca, Seven up, mas guaraná não. Não tinha lá. Eu bebi aquela noite, comi bisnaguinha, era uma maravilha. Ela me convidou para a casa dela, a mãe dela me adorou, todo mundo gostou, e me deram um quintal para morar. Muito bom.

Luciano Pires: Deixa eu entender cara. Deixa eu tentar entender essa história. Que idade você tinha?

Abbey Alabi: Eu tinha 23 quando cheguei.

Luciano Pires: 23 anos. Você veio para cá.

Abbey Alabi: Quando cheguei aqui, tinha 22.

Luciano Pires: Você não chegou a se formar lá?

Abbey Alabi: Não.

Luciano Pires: Você não chegou a pegar seu certificado. Mas você frequentou universidade lá?

Abbey Alabi: Sim.

Luciano Pires: Muito bem. Então você não vem para cá como um nó cego? Você tinha educação, você veio para cá preparado, e veio com um sonho de seguir, com 5 mil dólares no bolso.

Abbey Alabi: Sim.

Luciano Pires: 4, 5 meses depois, você não tinha mais nada, você não tinha seu curso pela frente, você estava morando na rua. Eu não consigo imaginar uma situação mais complicada, para ser bastante educado aqui. Na verdade, eu queria falar fodido, né? Do que um cara que não está no país dele, morando na rua, sem falar o idioma, sem dinheiro, e que perspectiva existia ali cara? O que que você estava fazendo…

Abbey Alabi: Mais uma coisa, estava muito frio. Quem é da Nigéria, sabe o que eu to falando. Na Nigéria, não faz frio, de onde eu venho. Na época, era tipo, abril, era muito frio. Para um africano, era o dobro, ou triplo.

Luciano Pires: Na noite de um abrigo paulista, de São Paulo.

Abbey Alabi: Sim, era muito, muito frio. Eu não tinha roupa, não tinha nada, era isso.

Luciano Pires: Cara, e aí? O que faz uma pessoa em uma situação como essa sua?

Abbey Alabi: Primeiro que eu falei, não é clichê, é verdade, da minha fé. Eu acredito muito em Deus. Eu acho que eu consigo, em nome de Deus, com certeza. Eu não demonstro que eu estava sofrendo, e também tinha orgulho, de pedir, não. Eu falo assim, eu vou nos supermercados, para ajudar as pessoas a colocar as coisas, compras, no carro. Eles me davam 10, 20 centavos. O único jeito para eu conseguir fazer alguma coisa, é estudar essa língua, entender essa língua. Eu fui fazer matricula em uma escola de TI. Chama TCC, é no parque Santo Antônio, Jardim São Luís. Tem uma escola de TI antiga, não existe mais. Era 50 reais por mês. Aí eu fui lá, comecei a estudar lá.

Luciano Pires: Onde você arrumou os 50 reais para pagar?

Abbey Alabi: Era ajudando as pessoas a colocar… eles me davam moedas. E a senhora também que me deu a casa, dona Terezinha, ela também me dava algumas moedas, dinheiro as vezes. Ela me apoiava muito.

Luciano Pires: A sua mãe cara, lá adiante, ela sabia que o filho estava morando na rua?

Abbey Alabi: Não. Eu falava para ela que estava no Mc Donalds, eu estava bem, ótimo. Porque não tinha como ela me ajudar. E eu sabia que se eu voltasse para lá, eu não ia passar fome, nada vai acontecer. Mas, eu pensei assim, eu já estou aqui, a minha vida tem que começar agora. Se eu não enfrentar dificuldade agora, eu vou ter que enfrentar ela uma vez na vida. Agora é uma vez. Se eu volto para Nigéria, eu volto no meu conforto. SE eu continuar aqui, eu vou encarar, vou tentar fazer tudo. Sabe? Lutar, e tentar vencer.

Luciano Pires: Você não se aproximou dos grupos de outros africanos que estão aqui?

Abbey Alabi: Não me aproximei, porque eu gosto muito de trabalhar. Tenho orgulho do que eu faço. Se eu tenho celular, em nome de Deus, eu acho que orgulho que eu comprei com meu dinheiro, com meu suor. Eu gosto muito. Então não tenho tempo de ir lá, vamos conversar. Não, eu prefiro ficar em Jardim São Luís, trabalhar muito, é isso.

Luciano Pires: Você sofreu preconceito aqui?

Abbey Alabi: Eu não sei, sinceramente falando. Eu só senti uma vez, que eu sempre falo com um amigo que fez essa pergunta para mim. Porque como nós somos africanos, na Nigéria, não tem branco, tudo negro. Então, não tem essa ideia de que você pode sofrer preconceito. Então, aqui no Brasil, eu me vejo, quem tá na minha frente, eu sou aquela pessoa. Se eu to na frente de um japonês, eu sou japonês naquele momento. Quando eu to na frente de uma pessoa branco, eu sou branco naquele momento. Então, eu não sinto. Talvez aconteça, talvez alguém já fez, mas com certeza parece que o Abbey não ligou. Porque uma vez eu estava em uma empresa onde eu dava aula, a gente estava tomando um café. Isso que eu falo para o meu amigo, quando ele faz essa pergunta para mim.

Eu peguei café, todos estavam pegando café, Davi Lova, Marcelo Pacheco, aí a gente estava tomando café, um rapaz apareceu e falou, senhor, você é segurança daqui? Falei não, não sou segurança não, sou professor. Para mim ele fez uma pergunta, ele não sabe o que eu sou. Para mim, não tem nada a ver se eu sou segurança, qualquer coisa. Mas só que naquele momento, eu não era segurança. Eu sou professor de inglês. Mas os meus amigos brasileiros, eles atacaram ele. Não, não, ele é professor da gente. Eu não entendi. Calma, porque estão brigando? Depois que eles me explicaram. Então, quando alguém pergunta para mim se você sofreu preconceito, eu sempre falei. Eu não sei se eu sofri. Talvez o cara estava confundindo mesmo.

Luciano Pires: Você então, morando de favor no quintal da dona Terezinha, ganhando um dinheirinho de nada ajudando as pessoas no mercado, você vai fazer o curso de TI. E sem falar português direito ainda.

Abbey Alabi: Sem falar português. A ideia era tentar aprender.

Luciano Pires: E o que acontece?

Abbey Alabi: Aprendi, graças a Deus. Eu comecei lá, tirei nota boa, terminei, tenho certificado de lá, eu ganhei muitos amigos por lá, porque todo mundo gostava de mim quando eu aprendia lá. Mas antes de terminar, minha vida começou a melhorar. As pessoas começam a falar, porque eu vou da Nigéria, então eu conheço um pouquinho sobre a religião Rubanda. Rubanda, não sei a diferença entre Rubanda e outra… mas, religião africana. Então tem pessoas da Nigéria, que traziam esses artigos, eles deixam, pegam, eu vou vender no Rio de Janeiro e em São Paulo também. Uma vez estava passando rua, o cara falou que eu sou nigeriano. Me chamou, eu fui lá, e comecei a vender essas coisas.

Luciano Pires: Passou a vender então artigos relacionados a religiões africanas.

Abbey Alabi: Isso, eu vendia em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Luciano Pires: Muito bem. E o plano, qual era o plano do futuro.

Abbey Alabi: Eu nasci, cresci aprendendo que tem que estudar. Então, naquele momento, eu sabia que eu tinha que fazer isso, para eu colocar meu pé no chão, eu volto para estudar. Eu não tenho medo de voltar tudo, começar tudo de novo. O mais importante, é estudar. E nesse processo, lembra da dona Terezinha, e filha dela que falava que gostava de mim? Ficou gravida da minha filha. Então, eu estava até pensando…

Luciano Pires: Ela gostava de você, vocês começaram a namorar?

Abbey Alabi: Sim.

Luciano Pires: Tá ok. Então você morava na casa dela lá no fundo, e namorava com ela. Que sorte sua.

Abbey Alabi: Sorte mesmo.

Luciano Pires: E ela ficou gravida?

Abbey Alabi: Ficou gravida.

Luciano Pires: Eles são negros também?

Abbey Alabi: Negros. E aí eu estava pensando em ir para a Europa, porque na Europa eu consigo estudar mais fácil. Mas, quando ela ficou grávida, eu vou ficar por aqui, procurar faculdade por aqui, eu vou cuidar da minha filha, e depois a gente vê o que que vai dar. E é isso, a vida continua.

Luciano Pires: Você está com ela ainda?

Abbey Alabi: Não mais. Tivemos que…

Luciano Pires: Aqui no Brasil a gente separa.

Abbey Alabi: Mas a minha filha vive comigo ainda, e a gente… somos amigos, a gente conversa de vez em quando, tudo certo, não tem problemas.

Luciano Pires: Que interessante essa história. Eu to aqui me mordendo para fazer umas perguntas, mas vamos lá.

Abbey Alabi: Fica à vontade.

Luciano Pires: Você então começou a fazer a venda.

Abbey Alabi: Sim, das coisinhas. Voltei para São Paulo, uma vez estava na rua, e uma moça me falou, Edilene, era uma vizinha. Você tem que dar aula de inglês. Falei assim. Eu não quero ser professor. Uma coisa na vida que eu não quero ser, é ser professor. Falei isso 2 vezes. Na terceira vez, eu tenho uma personalidade, que eu não gosto de falar não para as pessoas. Eu acho que tudo que alguém fala para você, você tem que ter calma, ouve, tem motivos. A terceira vez, falei ok, eu vou fazer. Falei com uma amiga minha, cunhada na época, que trabalhava em um escritório. Nome dela é Shirley. Shirley, dá para você fazer um cartaz para mim, em inglês. Tipo, inglês, alguma coisa assim. Ela fez, colocou meu telefone, e colocou na rua, no poste.

Luciano Pires: Dando aula onde? No quintal que você morava?

Abbey Alabi: Não. Eu ia para a casa das pessoas. E eu não sabia como dar aula de inglês. Porque falar inglês é uma coisa. Dar aula de inglês é outra coisa totalmente diferente. Então, quando eu colei, uma moça que chama Fabiola, ela me chamou. Tem um outro rapaz, que viu meu cartaz no poste, chama André Galvão. Ele que fez eu virar permanente professor de inglês. Eu fui dar aula para ele, ele falou assim, continue, você é muito bom, eu gosto de você. Falei assim, eu, não devo ser um bom professor, você tá enganado. Ele olhou para mim, continuou falando isso. Essa Fabiola também falou, Abbey, você tem que dar aula para todos meus alunos. Ela é professora de Espanhol. Então, as vezes ela pega outro trabalho de inglês. E me chamava para… toda vez que ela me chamava, as pessoas gostavam muito. Então ela, Abbey, é você, você. Eu comecei, talvez eu sou bom. Tá bom. Um dia fui dar aula no Tatuapé, com meu amigo Rafael Bafini. Ele falou, graças à Deus que você não é biólogo. Aí então tá bom gente, eu não vou contestar mais, eu vou ser professor. Aí eu fui professor de inglês.

Luciano Pires: A USP onde está? Cadê a USP?

Abbey Alabi: Um dia, talvez no futuro. Eu vou falar para o senhor. Eu fui na USP pela primeira vez, nessa história, semana passada. Fui falar com Cassio, ele Abbey, estou na USP, vem me encontrar. Falei assim, Deus, você é bom. Finalmente eu entrei aqui. Fui na USP.

Luciano Pires: Quanto tempo depois isso?

Abbey Alabi: 15.

Luciano Pires: 15 anos depois.

Abbey Alabi: Sim.

Luciano Pires: Você encontra um caminho como professor de inglês. Vou me acertar aqui. Você não foi trabalhar para ninguém? Você foi montar seu próprio negócio?

Abbey Alabi: Sim.

Luciano Pires: Deixa eu te especular uma outra coisinha aqui. Você estava no Brasil sem visto? Não precisa de visto?

Abbey Alabi: Não, precisava.

Luciano Pires: Como que era? Estava morando na rua, sem documento, como que era isso?

Abbey Alabi: Exatamente. Quando eu cheguei, visto era para renovar, mas não tinha como. Eu perdi aquele negócio, e eu virei ilegal. A hora que eu virei ilegal, ficou muito difícil. Eu tenho que fazer alguma coisa. E nessa época que eu vendia as coisas na rua. Um amigo falou, Abbey, se a polícia pegar você, você vai ser mandado de volta para a Nigéria. Sim. O que que você vai fazer? Tem que andar com seu passaporte, pelo menos. Eu andava com passaporte. Quando eu descobri que minha namorada ficou gravida na época, ele falou, Abbey, na hora que ela ganhar o filho, você pode procurar permanência no Brasil.

Então, quando minha filha nasceu, eu virei permanente.

Luciano Pires: Você não fez o filho para arrumar visto aqui no Brasil?

Abbey Alabi: Não, pode perguntar para ela. Sabe o que aconteceu? Eu to grávida. Eu tinha 23 anos. Na minha cultura, é uma cultura você ter um filho nessa idade. Você tem que estar estudando. Eu fiquei muito triste, decepcionado, chorei muito. Ela ficou… calma, vai dar tudo certo. Não, não quero falar com você. Era muito difícil para mim. Mas eu liguei para minha mãe, e meu pai. Não Abbey, é sua reponsabilidade. O apoio que os dois me deram, foi que eu fiquei forte, porque a única pessoa que vai me julgar mesmo, me punir mesmo, era eles. Ele falou, não Abbey, você fez correto, ela ficou grávida, mas vai cuidar do seu filho tranquilo. Eles nem sabem que isso vai virar alguma coisa para mim. Nem eu também sabia. Aí eu fui falar com um amigo, ele não Abbey, assim que ela ganhar o filho, você virou permanente aqui. Ah é? Sim. Depois que eu fiquei sabendo, e deu certo.

Luciano Pires: Essa situação de uma pessoa te encontrar na rua. Trazer você para dentro da casa dela. Você namorar com ela, ter uma filha com ela. Isso poderia acontecer na Nigéria? É possível acontecer uma coisa assim na Nigéria?

Abbey Alabi: Poderia.

Luciano Pires: Culturalmente não tem uma barreira?

Abbey Alabi: Tem preconceito, tá, tem preconceito. Mas só que, por incrível que pareça, as mulheres têm muita voz na Nigéria. Quando tiver aqui no Brasil, que as pessoas falam que não tem. Não, as mulheres têm voz. Se o ladrão entrar para roubar alguém, e a mulher ficar na frente, talvez não roubem. Eu já sofri na faculdade com isso. A mulher ficou na frente das pessoas que querem machucar a gente, não vai tocar neles. Ninguém tocou. Então, elas têm voz, o que pode acontecer. Tem preconceito? Tem, só que elas têm muitas vozes, tipo, o que elas querem fazer, elas fazem.

Geralmente eles tendem a respeitar mais os maridos, os filhos, mas elas têm voz delas, eu acho.

Luciano Pires: Vamos lá, vamos chegar nos dias atuais. Vamos chegar. Você começa a dar aula, ficar conhecido, começa a arrumar mais alunos. E aí, que ideias que começam a surgir na sua cabeça? Você continua morando lá na casa. Eu notei que você fala da dona Terezinha com carinho. Você não citou o nome da sua esposa até agora. Da dona Terezinha, você já falou 3 vezes, e com carinho da dona Terezinha. Me parece que foi ela que foi a sua mãezona aqui.

Abbey Alabi: Ela foi, e ela sempre falava para as pessoas na época, que eu fui o filho que ela não teve. Então é carinho de respeito, ela me conhece, eu sou firme, mas, eu respeito bastante. E não adianta o que acontece depois, o que ela fez para mim, tanto ela quanto a Deise, toda a família fez por mim, se elas não fizessem na época, eu não estaria aqui. Isso tá claro para mim.

Isso que eu sempre falava para as pessoas. Como que eu vou conseguir devolver o que esses brasileiros fizeram para mim? Eu tenho que devolver de algum jeito. Não sei como, mas, em nome de Deus, eu vou conseguir devolver. Nessa época pensava em dinheiro. Mas hoje em dia dona Terezinha é independente, como sempre ela foi. Não vou chegar hoje e dar dinheiro para ela. Ela não precisa, ela trabalha, ganha dinheiro dela. Todos que eu falo, são independentes, entendeu? Então, eu descobri que são brasileiros, e se eles me ajudaram, eu posso ajudar outros brasileiros, que não necessariamente seria dona Terezinha e a família. Pode ser outros brasileiros que talvez não faça ideia. Então isso que me faz na cabeça, na época. Um dia, eu vou conseguir devolver um pouquinho do que os brasileiros me fizeram quando eu cheguei.

Luciano Pires: Agora me conta porque que você veio parar aqui hoje, e conversar comigo. Porque aquela moça lá, falou que ele está com umas ideias aí, tá fazendo um negócio aí de ensinar inglês, mas não é para um cliente que vai lá e paga você. Como que foi, o que apareceu?

Abbey Alabi: O que apareceu, é que algum tempo atrás, eu, meu amigo Juliano Ferrari. A gente falava, se eu ganhar na mega sena, o que que vai acontecer? Até ele falava, vou fazer isso… Eu lembrava que ele falava assim. Metade desse dinheiro que eu ganhar eu vou investir, Parque Santo Antônio, São Luís. Eu vou investir tudo para as pessoas terem oportunidade. Aí a gente falava isso muito. Um dia eu falei, espera aí, eu vou ter que esperar ganhar na mega sena, eu nunca aposto, eu nunca vou ganhar. Eu tenho que fazer alguma coisa agora. Aí eu entrei no elevador, tinha uma professora lá, chamava Piavale, era bem-conceituada essa professora. Ela olhou para mim, assim, o que você faz que todo mundo gosta de você? Até as pessoas que não são seus alunos, gostam de você. A gente se encontrou na Unilever, eu dava aula lá. Aí fiquei assim, uau, uma excelente professora me elogiando desse jeito. Falei assim, acho que eu sou bom. Então, se eu sou bom, meu sonho tem que se realizar agora. Eu vou levar esse bom que eu tenho, para as pessoas que não tem condições de pagar. Aí ligo para meu amigo, Marcio Galvão. Marcio, você providencia espaço, eu vou providenciar o ensino. Fizemos. A gente conversou, decidiu em cobrar R$ 10,00 reais por aluno. Mas, mesmo assim não fiquei contente, porque eu não queria cobrar nada.

Luciano Pires: Isso no bairro de vocês.

Abbey Alabi: No Parque Santo Antônio.

Luciano Pires: No Parque Santo Antônio, vocês criaram um espaço, anunciaram para criança, para qualquer tipo de pessoa?

Abbey Alabi: todo mundo. As pessoas compareceram, formamos em 3 anos, 40 pessoas. Que hoje, são amigos, tá? E a gente terminou, mas eu não queria parar ali, porque as pessoas que me ajudavam na época, na minha cabeça, não cobravam nada, e não esperavam nada de volta. Aí falei assim, eu quero fazer alguma coisa totalmente gratuito. Mas não sabia como. Mas, coloquei na cabeça, fiquei orando. Como falei, eu tenho uma filha, e ela mora comigo.

Luciano Pires: Como é o nome dela?

Abbey Alabi: Jummy. Ela mora comigo, é minha vida, e ela tem um atraso de desenvolvimento. Eles acham de atraso global. E é muito difícil a gente conseguir colocar na escola. Então isso fez muitos anos. Ela tem hoje 13 anos, mas até então, era muito difícil, muito difícil mesmo. E o que acontece. Minha mãe veio para cá, me ajudar. E ela viu a situação, ela não vou embora mais. Ok mãe, aqui você não sabe falar português, a gente mora em condomínio, não tem interatividade, não tem nada. Não é justo colocar a senhora aqui mais de 1 ano. A minha filha fala, papai, eu vou para Nigéria com a vovó. Não, jamais. Não vou deixar. Ela ficou falando, falando muito. Uma vez minha mãe falou, a gente levou ela… na última escola que a gente levou, não deu para ela ficar infelizmente. Ela falou, ok, deixa ela ir comigo. Falei, ok, vai com a vovó. Falei, Deus, se a minha filha for com a vovó, o horário que eu tenho para ela, sábado e domingo, eu vou doar para outras crianças aqui no Brasil. Para fazer o que eu sei fazer, dar aula de inglês, para aquelas pessoas que não tem condição de pagar. E dessa vez, vai ser totalmente gratuito. Aí eu liguei de volta para o Marcinho. Marcio Galvão, e aí, vamos fazer, e em nome de Deus, tudo conectou. Ele falou, tem uma igreja para você aí embaixo, que você pode simplesmente usar.

Luciano Pires: Uma igreja?

Abbey Alabi: Igreja.

Luciano Pires: Uma igreja católica?

Abbey Alabi: Não, igreja evangélica, que eles não estão mais usando. Pode usar. Ok. Cheguei no escritório…

Luciano Pires: O Marcio é um evangélico, um pastor, o que que o Marcio é?

Abbey Alabi: Um amigo. Hoje evangélico, mas na época era amigo mesmo. Alguém que você chama para fazer churrasco. É um grande amigo. Ai ok. Cheguei no meu escritório, eu tinha uma secretaria que trabalha comigo, falei para ela, vamos fazer isso, isso. Abbey, porque você não faz na minha terra também? Na sua terra? Sim. Ela mora em Itapecerica da Serra. Aí fala assim, ok, anuncia, fala para as pessoas que eles vão aprender inglês gratuito. Ela fez anúncio. Ela me perguntou, você sozinho? Eu falei, eu vi um amigo nigeriano, professor de inglês. Então fechou, eu vou chamar uns amigos nigerianos para ser voluntários, e vamos montar essa cadeia de voluntários. Vamos. Eu só pensei assim, falei para ela, ela lançou, em Itapecerica da Serra nós abrimos nosso projeto que chama Inglês para Nossa Gente. Foi assim que nasceu. A gente lançou no dia 06 de agosto, 2017. Foi o primeiro ano. Apareceu mais de 200 pessoas.

Luciano Pires: Em Itapecerica da Serra. E o que que é isso? Uma ONG, vocês montaram uma organização?

Abbey Alabi: Sim. Na verdade, não era ONG, virou ONG um ano depois. Porque eu não sabia que poderia ser ONG, poderia ser alguma coisa.

Luciano Pires: Vocês estavam totalmente informais ali? Não tinha contrato, não tinha CNPJ, não tinha nada.

Abbey Alabi: Não tinha nada. Eu tinha que preparar o livro, eu mesmo que escrevi todos os livros, imprimi, comprei uma impressora, imprimi todo o material, encadernei, fiz tudo. Entreguei para todo mundo que a gente dava aula. Então era isso. E eu chamei muitos amigos particulares, amigos que também falam inglês, mas não fluente. Mas assim, se você já sabe falar nice to meet you, então, vem ensinar outra pessoa a falar isso. Então todo mundo se juntou, e a gente, todo mundo está crescendo desde então.

Luciano Pires: Sábado e domingo?

Abbey Alabi: Sábado, domingo, segunda, quarta, quase todo dia, hoje em dia.

 

Luciano Pires: Muito bem, você está no LíderCast, que é um PodCast focado em liderança e empreendedorismo, que proporciona conversas nutritivas com gente que está aí para provocar mudanças. O LíderCast faz parte do Café Brasil Premium, a nossa Netflix do conhecimento, que redefine o termo estudar. Ao transformar o seu smartphone em uma plataforma de aprendizado continuo. Você pratica uma espécie de MLA, Master Life Administration, recebendo conteúdo pertinente, de aplicação prática e imediata, que agrega valor ao seu tempo de vida.

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Você hoje dá aula normal, em alguma escola, alguma coisa assim, não?

Abbey Alabi: Não, empresas.

Luciano Pires: Porque você comentou que você estava dando aula na Unilever. Para dar aula na Unilever, você tem uma empresa, você teve que organizar seu próprio negócio? Você montou uma empresa?

Abbey Alabi: Não. Pode ser freelance. O aluno liga para você, aí você vai lá, marca horário, e dependendo da possibilidade, já começa a dar aula para eles.

Luciano Pires: Então você tem hoje, seu ganha pão, hoje é esse. Você dá aula de inglês para empresas. E nas horas vagas, você montou esse projeto de ensinar o pessoal em Itapecerica da Serra.

Abbey Alabi: Não é só lá não. Temos 3 unidades agora.

Luciano Pires: então cara, isso faz 2 anos?

Abbey Alabi: 2 anos agora.

Luciano Pires: Como chama o projeto, fala de novo.

Abbey Alabi: Inglês para Nossa Gente. ING.

Luciano Pires: Que não tem uma sede, é uma ideia e um agrupamento de pessoas que estão dispostas a fazer. Você vai em Itapecerica, conversa com alguém, arruma um local.

Abbey Alabi: Sim.

Luciano Pires: Esse local o que que é? Uma igreja evangélica também?

Abbey Alabi: Em Itapecerica não é, é uma escola pública, e maioria de nossos parceiros são em igrejas evangélicas.

Luciano Pires: Que cedem para você o espaço, para você gratuitamente dar as aulas.

Abbey Alabi: Sim.

Luciano Pires: Quantas pessoas você está atingindo hoje?

Abbey Alabi: Hoje, no projeto, estamos com 500 e pouco.

Luciano Pires: Muita criança?

Abbey Alabi: Muitas crianças, adolescentes, pessoas adultas, idosos, 50, 60 anos.

Luciano Pires: E é gratuito?

Abbey Alabi: Totalmente gratuito. Inclusive livro.

Luciano Pires: Qual o critério que vocês têm para a pessoa… chega, se inscreve, e começa a fazer?

Abbey Alabi: A gente tem tempo de inscrição, de cada unidade. Quando fecha não dá mais, espera o próximo semestre. Mas quando ainda dá, a gente faz agrupamento com idade. Quando dá. Quando não dá, faz todo mundo junto. Temos um esquema mais diferente de ensinar inglês.

Luciano Pires: Isso que eu ia te perguntar. Você foi buscar alguma didática, você foi buscar uma sequência? A pessoa quando sai de lá tem um certificado? Como que você organizou essa…

Abbey Alabi: Na verdade, dando aula há muitos anos, eu sou o tipo de pessoa que gosto de aprender. Aprendo muito. Eu olhando para você, eu to aprendendo muito. Então quando eu decidi fazer, então tá bom. Eu faço um livro, eu mesmo vou escrever esse livro. Esse livro vai atender em todas as situações. A gente foca muito menos na gramática, aumenta bastante o lado conversação. Durante 2 anos, você vai sair falando inglês, mesmo intermediário. Essa é a nossa proposta. Então, se você terminar 2 anos intermediário, e quer continuar, tem mais 2 anos. Então, a metodologia, é por (inint) [00:51:08.11], a gente criou. E mais teatral. Então, a conversa sai, você vai fazendo isso com a gente, no mesmo dia já sai falando inglês. Não é mentira. Pode ir lá, ver as pessoas falando whats your name? Nice to meet you. How are you? Já estão saindo falando. Cada dia aumentando, cada dia treinando. Nossa metodologia é isso. É o que eu uso no meu dia a dia, dando aula.

Luciano Pires: Se eu quiser fazer o curso completo com você, são 4 anos que eu vou ficar com você? 4 anos, 2 mais 2.

Abbey Alabi: No IPNG. Inglês para Nossa Gente, porque a gente tem 2 horas por cada aula. Por isso que demora 2 anos, entendeu? Se fosse mais tempo, particular, é diferente.

Luciano Pires: Ok. Eu to me referindo agora ao IPNG, que é gratuito. Então são 2 anos, mais 2.

Abbey Alabi: 2 anos, mais 2.

Luciano Pires: Ok. Então aí eu saio de lá já falando inglês.

Abbey Alabi: em nome de Deus.

Luciano Pires: Não morro de fome, né?

Abbey Alabi: Mas depois há cada 2 anos, a gente está promovendo uma escola (inint) [00:52:22.03], bolsa de estudo, para ir a Irlanda ou Estados Unidos. Então o melhor aluno em todas as unidades do mesmo nível, ele vai ganhar uma escola (inint) [00:52:22.03].

Luciano Pires: De onde vem o financiamento para esse tipo de coisa?

Abbey Alabi: Vem de Deus.

Luciano Pires: Como que você faz para sair? Você tem que gastar gasolina, tem que comer, pessoas, impressora. Como que vocês financiam isso?

Abbey Alabi: Meu trabalho. Eu trabalho, ganho dinheiro, meu salário.

Luciano Pires: E não recebe nada…

Abbey Alabi: De volta. De vez em quando, acontece, viu. Por exemplo, agora a gente fez o nosso programa de ovo de pascoa. A gente distribuiu ovo de pascoa para todo mundo. Então, primeiramente, eu comprei tudo com meu dinheiro. Alguns amigos particulares, que comuniquei, a gente está fazendo isso, eles confiam em mim, claro, me ajudaram. Eu vou te dar 100, 200, 500. Então ajuda entra, mas eu procuro ajuda quando eu realmente preciso de uma coisa grande, como a gente fez agora.

Agora, dia a dia, produzir livro, alguém quer ajudar em casa, essas coisas é tudo por minha conta.

Luciano Pires: Como você gerencia seu tempo? Você tem que trabalhar para viver. Você pode falar para mim, olha, não vivo por dinheiro, mas eu não vivo sem dinheiro. Sem dinheiro, eu vou morar embaixo da ponte outra vez, vou ficar… Como que você gerencia essa sua carga de trabalho, seu dia a dia? Que hoje em dia, é uma loucura. Eu não consigo imaginar eu conseguindo arrumar tempo para mais alguma coisa. E essa mais alguma coisa, não me trouxe algum tipo de retorno. Eu to colocando da seguinte forma. Eu imagino que o inglês para nossa gente, tome um tempo interessante seu. Ele não é uma coisa que voluntario, vai quando dá, 2 horas por semana. Eu imagino que seja mais que isso. Além de ter o trabalho em si de dar aula, você tem toda uma organização. Você tem que coordenar isso tudo. Isso deve tomar um tempo seu. E tem um tempo que sobra para você trabalhar. Como que você gerencia isso?

Abbey Alabi: Primeiramente, eu trabalho com designar trabalho para algumas pessoas, que abre essa possibilidade. Por exemplo, minha esposa, a Juliana Lucena, ela abre mão de trabalhar mesmo, e focar no projeto. Lado administrativo, por exemplo, ela que fez 500 chocolates sozinha, com ajuda da mãe dela, alguns amigos, foi ela que fez. Claro que não é fácil. Abbey, você tem tempo? Eu consegui cozinhar porque eu cancelei algumas aulas, sinceramente. Eu vim aqui conversar com o senhor, daqui a pouco eu já vou dar aula. Porque eu preciso dessas aulas para financiar tido, entendeu? Então esse tempo não tem. Eu acho que tudo o que eu faço, eu faço com todo carinho, sinceramente. Eu faço com amor, com tudo. Então, não tem muito problema. Se eu dormir 3 horas por noite, bem dormido, para mim ok, não tem problema. Quando tem feriado, eu não dou aula na ONG, eu durmo mais. Mais ou menos por aí.

Luciano Pires: E você convidou a Juliana nessa…

Abbey Alabi: Eu convidei, ela topou mais do que eu.

Luciano Pires: Juliana, tá disposta a falar um pouquinho, não?

Juliana Lucena: Oi!

Luciano Pires: Muito bem, estamos em 3 aqui, eu tenho diante de mim a Juliana vai lá. Seu nome, sua idade, e o que que você faz.

Juliana Lucena: Ai meu Deus. Meu nome é Juliana Lucena Lucena, eu tenho 29 anos, e atualmente eu sou do lar. Eu trabalho na ONG, voluntariamente também.

Luciano Pires: Vocês estão juntos há quanto tempo?

Juliana Lucena: 6/7 anos. Desde 2012. A conta não é muito com a gente.

Luciano Pires: Como que você conheceu ele?

Juliana Lucena: Então, nesse primeiro projeto que ele tava falando, que ele deu aula no Parque Santo Antônio com o nosso amigo em comum, o Marcio, que ele cobrava os R$ 10,00 reais, ele acabou dando aula para minha irmã, e meu irmão. Eu não pude ir, porque eu trabalhava aos domingos. Era domingo de manhã as aulas. Eu trabalhava, não pude ir. Meus irmãos conheceram ele, fizeram aula com ele, tudo. Só depois de 1 ano, ou mais, que a gente foi se conhecer realmente. Mas, ele não dava aula para mim.

Luciano Pires: Aí você conheceu por causa dos seus irmãos então. Olhou para ele, “to gostando desse cara. Isso?”. O bicho é perigoso, o cara é perigoso.

Juliana Lucena: Foi mais ou menos. Na verdade, esse amigo que ele fez parceria, mais ou menos, também era amigo em comum. Também acabou virando aquele negócio de juntar todo mundo, junta os amigos de cá, de lá. E deu um dia que tava todo mundo junto em um almoço, e aí começaram as piadinhas, porque tava todo mundo em casal, só eu e ele solteiros. Em um almoço com os amigos, que gosta de pegar no pé, ficaram fazendo piadinha, vocês dois, tá todo mundo em casal, então vocês tinham que ser um casal também.

Luciano Pires: Você já tinha separado da…?

Abbey Alabi: na mesma época. Eu estava em processo de separação. Quando eu conheci, por isso que eu até demorei um pouquinho para eu falar com ela, porque prefiro separar os dois, antes de iniciar outro. Na verdade, ela não foi pivô não. Aconteceu naturalmente.

Luciano Pires: E aí? Uma garota, que idade você tinha?

Juliana Lucena: Eu tinha 22.

Luciano Pires: uma garota brasileira, de 22 anos, pinta um negão nigeriano, falando enrolado o tal do português. Como que é isso aí? O que que você tava fazendo? Estudando em que? Fazendo o que da vida? Até aparecer a figura na sua frente?

Juliana Lucena: então, eu estava estudando design de interiores, porque a minha vida inteira eu trabalhei com projeto de móveis, e projetos de interiores. E eu estava nisso. Pensei que eu ia ser uma designer. Eu estava estudando, estava trabalhando muito em lojas de planejados. E aí apareceu, também não sei explicar. Foi uma coisa sem…

Luciano Pires: Bom, vamos juntar os trapos. Vocês se conheceram, etc. e tal. Eu não vou querer detalhes. E aí onde nasce essa história de ONG? Porque eu acho que você acompanhou. Quando vocês se juntaram, já tinha ONG, não?

Juliana Lucena: Não, não tinha.

Luciano Pires: Então, você acompanhou isso tudo. Como que nasce essa coisa? Deixa eu te especular um pouco mais agora com a Juliana, que é o seguinte. Ju, com meu marido. Tudo o que eu quero da vida, é juntar com meu marido, constituir minha família, ter segurança. Quero comprar minha casa própria. Aquelas ideias que a gente tem, etc. e tal. E uma boa parte do tempo dele, que ele estava dedicando para a família, agora ele dedicou a um outro negócio, que era ajudar os brasileiros. E de repente, surge de novo uma família. Vem a garota, cheia de sonhos, etc. e tal. E pega um maluco que resolve que parte da vida dele, ele vai doar para outras pessoas. Isso já estava no seu espírito? Você também sempre agiu assim? Como que é?

Juliana Lucena: Sim. Eu cresci também em uma igreja evangélica. E minha mãe, ela sempre ajudou muito todo mundo que era da igreja. Ela, eu me inspiro muito nela. Ela sempre teve esse espírito muito de ajudar as pessoas. Alguém queria fazer uma mudança, ela providenciava caminhão, sabe, tudo na comunidade, que eu nasci também no Capão Redondo.

E acho que meio que veio em mim isso. Mas, ele é mais louco que eu, em relação a isso. A gente estava junto, em 2016 eu decidi fazer um intercâmbio, nós decidimos, conversamos. Eu decidi. Eu fui para os Estados Unidos, fiquei 2 anos lá. E aí foi quando a mãe dele veio para ajudar com a filha dele. Até então, a gente veio morar junto, eu tava ajudando com a filha dele, e aí a mãe dele veio para ficar, porque eu fui fazer intercambio nos Estados Unidos.

Luciano Pires: Intercambio de que?

Juliana Lucena: Eu fui fazer um intercâmbio que chama au pair, que você mora na casa de uma pessoa, você trabalha e estuda. Você trabalha na família cuidando das crianças da família.

Eu fui. Como eu sempre fui um pouco meio assim, não vou falar uma coisa que possa me comprometer, mas eu fui para cuidar de adolescente. Cuidei de 2 adolescentes. E aí foi uma experiência maravilhosa para mim. Enquanto eu estava lá, ele inventou a ONG, começou com o processo da ONG. Foi na metade de 2017. Eu estava lá.

Luciano Pires: Você encarou essa ida dela para lá, como o que?

Abbey Alabi: Sim. Como eu falei, para mim tudo o que acontece, tem motivos. Então, motivo, quando nós dizíamos, é muito importante. Agora algum motivo de lá, a gente não pode falar, tipo, porque é uma coisa particular. Então, quando ele estava lá, a gente decidiu, Ju, você vai. Sim, confirmamos, ela foi, e graças a Deus quando ela voltou, toda aquela situação que a gente estava pensando, tudo foi resolvido, e foi muito bom, tanto para ela quanto para mim. Moralmente, ajudou a gente como casal. A gente não é de brigar não, a gente é muito parecido. A Ju e eu, como você falou, é loucura. Ela gosta de loucura, eu também sou. Então a gente faz aquela troca.

E quando ela foi para os Estados Unidos, foi punk, foi difícil para mim, não ter sua parceira. Quando eu olho para o lado, ela sabe o que eu estou falando, ela sabe o que eu quero falar, ela sabe tudo. E vice-versa, entendeu? Então, eu estava sozinho. Era bem difícil. Mas, quando ela voltou, desde lá… a gente tinha um logo, ela refez o logo, refez o site, refez tudo, desde lá. Então, ela começou a ajudar desde lá. Claro, que quando eu comecei a fazer isso, eu falei para ela, Ju, eu to pensando em fazer uma coisa assim. Eu sei que ela vai me apoiar. Olha, pode ir Abbey, qualquer coisa você fala comigo.

Ela é muito boa em tecnologia, ela é muito espera. Então, eu sei que mesmo se ela não sabe, ela busca, procura solução. E eu não tenho essa paciência suficiente que ela tem, de fuçar, ver. Agora, chegar em casa, Ju, vamos fazer isso. Aí eu sou disso. A gente inventa, e tenta fazer.

Juliana Lucena: A gente fala que a gente dá certo, porque ele é o da ideia. Às vezes ele acha que eu sou pessimista, entre aspas, porque ele dá ideia. “Vamos fazer isso”. Eu já penso, “como vamos fazer isso?”. Quais os processos. Mas, ele quer aquilo, e a gente sempre consegue achar os caminhos.

Luciano Pires: Interessante essa história. A ONG de vocês, se constituiu quando? Quando vocês montaram? É uma ONG, tem registro, tudo certinho?

Juliana Lucena: Literalmente, foi 2017.

Luciano Pires: E vocês foram buscar parcerias? Vocês têm gente que entrou para ajudar vocês? Vocês têm alguma organização? Porque eu converso com muita gente de ONG aqui, e teu Capão Redondo, a Neide do Capão Redondo, ela conta uma história parecida. Cara, vou começar a fazer, dane-se. Lá na frente, ela descobre que ela tem que se organizar, e vira o que ela tem hoje. É uma baita organização que tá lá, mas com suporte de Nike, de uma porrada de gente ali. Só o Estado que não faz a parte dele. Mas, a parte provada, todo mundo faz. No caso de vocês, imagino que o caminho também seja esse. Que você, como pessoa física, tenha limitações. Você tem uma organização, opa, já passo a existir, até para contatos. Vocês chegaram a fazer alguma coisa?

Abbey Alabi: Na verdade, tentamos fazer. Eu conheço muitas pessoas, particular. Eu vou atrás. Como o senhor estava falando agora pouco comigo, é difícil eu cancelar aula, para poder ir atrás. Porque se eu cancelar aula, eu perco dinheiro. Então, eu não vou perder dinheiro, para ir atrás de uma coisa que pode dar certo. Porque eles olham, gente, época do Lava Jato, a gente tá pensando em ficar um pouquinho… Pensando nisso, eu perdi 5 aulas. Cada aula, eu sei o valor, é muito dinheiro. E o que que a gente pensou em fazer? Diminuir drasticamente em outro gasto. A gente não quer crescer o gasto. Então nosso livro, não é caro. A gente gasta no livro R$ 10,00 reais, no máximo, cada um. Então, a gente tenta fazer isso, para não… do meu bolso, dá para arcar com o que nós temos hoje. Ah, projetos eventuais… a gente chama amigo particular para ajudar. Claro, se a gente consegue uma parceria boa, forte, vai ser muito melhor que eu vou mesmo fazer outras coisas, ajustes que realmente precisam. Como o senhor sabe, voluntários são bons, maravilhosos, mas, eles são de apoio. Eles são de apoio psicológico, apoio… sabe, tudo?

Luciano Pires: Outra coisa, eles são voluntários. Por mais que eles queiram fazer, voluntários é a segunda coisa mais importante, se bobear, que ele faz na vida. Ele tem a vida dele para tocar. E amanhã de manhã mudou alguma coisa, o voluntário voou, já se foi. E tem o investimento, tudo o que você colocou ali, é muito complicado.

Abbey Alabi: Tem aluno te esperando. Cadê as aulas? Entendeu? Então, graças a Deus eu não posso reclamar, porque nunca deu errado, sempre deu certo. Quando mesmo a gente chegou nesse ano, com todos os professores em ordem. A minha ideia é fazer rodízio em todas as unidades, visitar, dar um up, dar energia para todo mundo. Entender que eu to junto. E a gente recebeu indicação de 2 professoras, que não podem mais continuar, por motivos que outra pessoa que começou com a gente como professor, ganhou outro convite para ser professor de uma escola de inglês. Onde ela vai receber? Eu não vou falar para ela não ir. Ele tá com a gente há 1 ano e meio. Parabéns, deu um abraço nele. Se você precisar de mim, alguma recomendação, fala comigo, você trabalha com a gente, eu poso dar um certificado para você. Tá tudo bem.

Outra professora, porque ela mudou para Morumbi, e dá aula em Carapicuíba. Não dava. É uma pessoa simples, também não tem como todo aquele dinheiro para gastar todo sábado.

Então, acabou fiando eu e a Ju dando aula. Mas a gente não reclama disso, a gente faz. Eu sei que temos que organizar melhor, para melhorar. Mas só que, se você não pensa no espírito do projeto, você vai ter que parar. Mas se a gente pensa no espírito do projeto, a gente vai em diante, vai tentando. As pessoas sabem que nós somos reais, a gente abraça ele, fala com ele, desculpa, não deu para trazer livro agora, porque a gente não consegue comprar todos os materiais ainda. Assim que der, a gente compra, imprime, e leva para vocês.

Claro, se a gente achar um patrocinador, fica muito melhor. Eu preciso montar uma equipe, que liga para os alunos, que sabe da pessoa. Dá apoio ao professor, ao aluno. Essas coisas são muito importantes. Mas, por enquanto, nós não conseguimos ainda.

Luciano Pires: Vamos falar de futebol? Você tem que jogar no ataque, e na defesa ao mesmo tempo. Você é o goleiro, e atacante. Quando você tá fazendo gol lá na frente, o gol tá aberto aqui atrás. Não tem o que fazer.

Ju, como é que vocês medem se esse negócio é legal, se tá dando certo, se tá funcionando, se isso não é só um sonho maluco desse doido aqui, que não vai levar a nada, que nem um muito obrigado vocês têm, e que, sabe, essa sensação que eu to impactando, e mudando vida de pessoas. Como que isso chega até vocês?

Juliana Lucena: É muito pelo contrário. Eu acho, que nem ele estava falando da ação da Pascoa, que a gente tá gravando agora próximo a Páscoa, a gente recebeu tanto carinho de volta, tanto amor, pessoas que não estavam esperando um ovinho, sabe, de 200 gramas, simples, aos olhos de algumas pessoas. Mas para eles, foi um gesto muito especial. Mas a gente sabe também, que tá indo em uma direção bacana, que uma de nossas alunas, aluna dele, inclusive, lá em Itapecerica da Serra, no começo do ano, se não me engano, ela se tornou voluntária em outra unidade, dando aula para as crianças.

Então, ela aprendeu do zero com ele, tá aprendendo ainda, e tá ajudando com as crianças. Então é isso que a gente sempre costuma falar. Por isso que o nome do projeto é Inglês Para Nossa Gente. Que é da gente para você, você para a gente, quem pode ajudar com alguma coisa ajuda. A gente criou uma família grande.

Luciano Pires: Meu amigo Ricardo Jordão Magalhães, que ele fala o seguinte. Você não tem que ser faixa preta para dar aula. Porque se você é faixa amarela, você pode ensinar a faixa branca. O mínimo que eu sei, eu já consigo ensinar alguém, você faz a pessoa subir um degrau, ela precisa de mais, e assim vai subindo devagarinho.

Juliana Lucena: Ele costuma falar uma frase que é assim. O conhecimento que você dá para alguém, não vai tirar de você o conhecimento que você tem. Você continua tendo aquilo. É diferente se você talvez ajudar com dinheiro. Talvez o dinheiro, falta para você. Mas o conhecimento não. Você continua com aquilo, mesmo se você tá entregando para outra pessoa.

Luciano Pires: Sim.

Abbey Alabi: É mágico, porque o que ela falou agora. Aconteceu outros, que algumas pessoas começaram as aulas com a gente. Abbey, eu quero saber como dar aula. Eu gravava vídeo, de cada livro, mando para eles. Eles assistem, dão aula. Hoje em dia, a gente tem uns 4 ou 5 professores que começaram com a gente, e está dando aula nas escolas normais de inglês.

Então, todo mundo tá ganhando. Ah, mas eu não falo muito bem. Foi assim que começou. Abbey, meu inglês é ruim. Calma. O que você já sabe, passa para o outro. O que acontece, é que a gente sabia, mas não podia contar, é que, quando você vai na sala de aula, você quer dar aula para alguém, você estuda antes de ir. E quando você estuda antes de ir, você cresce, entendeu?

Luciano Pires: eu falo isso muito. Nessa minha função aqui de PodCast, para poder preparar um programa, eu sou obrigado a mergulhar naquele assunto, estudar um pouco do assunto, ler bastante, e fazer um trabalho que é uma coisa, chega a ser um privilégio. Eu tenho que pegar um texto gigante, e fazer com que ele fique pequeno, tenha começo, meio e fim. Que seja legal. Nesse trabalho de burilar aquilo, eu sou obrigado a mergulhar em assuntos, que eu jamais faria.

Gravei hoje, vou publicar amanhã, um programa que chama-se a Tese do valor subjetivo, o nome dele. Cara, eu sabia alguma coisa do valor subjetivo. Mas, eu fui obrigado a mergulhar para aprender mais. Quando termina o programa, eu tenho mais alguma coisa para dentro de mim. Se eu tiver que ensinar alguém, vai ser melhor ainda, porque eu vou experimentar. Será que isso que eu sei, eu to conseguindo passar a diante?

Então, esse lance do professor é mágico. Vocês se casaram?

Juliana Lucena: Não, ele tá me enrolando.

Luciano Pires: é que na Nigéria é assim. Casa, separa. Você já foi para a Nigéria?

Juliana Lucena: Nunca fui. Não.

Luciano Pires: A família dele te conhece?

Juliana Lucena: Sim. A mãe e o pai, e dois irmãos, que estão lá, que não vieram ainda para o Brasil. Então a gente não se conhece.

Abbey Alabi: Ela não vai não. Ela debocha bastante. Risos.

Luciano Pires: Como que é você dividir sua vida, com uma cultura tão diferente? Não é tão diferente, porque tá na base da nossa. A base do brasileiro, você é de origem, na sua matriz você é africana também, né? Então culturalmente, tá muito perto. Mas, no dia a dia, ele fala de um jeito diferente do seu, ele é muçulmano, você é evangélica, você é cristã. Então já tem um momento legal aqui, da gente opa, como que essa coisa funciona. Mas, mais que isso, seu marido é estrangeiro. Você chegou a ter cidadania brasileira, já tem ou não.

Abbey Alabi: Ainda não.

Luciano Pires: E como que é essa coisa tão diferente, hein?

Juliana Lucena: É complicado. No começo, foi mais. Porque principalmente no relacionamento de homem e mulher, ele é muito mais firme, não era muito carinhoso. Eu também não sou muito carinhosa, não sei porque eu cobrava tanto isso. Mas enfim, era muito distante. Se eu não mandava mensagem, ele não mandava. Acabava que eu achava que ele não gostava de mim, não estava nem aí. A gente passou um ano meio que em briguinhas pequenas por coisas bobas.

Quando eu parei, respirei, comecei a entender a forma que ele mostrava que me amava, e que se preocupava comigo, que estava comigo, mudou tudo. A gente passou… a gente briga muito pouco, porque a gente conseguiu entender um ao outro, a forma como é.

Em relação à cultura, é muito parecido, que nem você falou. E a parte da religião, as vezes que a gente pega um pouco, mas não briga. A gente sempre conversa muito abertamente.

Luciano Pires: Respeitam a religião do outro.

Juliana Lucena: Muito.

Luciano Pires: Você reza para Meca, etc. e tal?

Abbey Alabi: Graças a Deus.

Luciano Pires: Com regularidade, com horários?

Abbey Alabi: Com horários.

Luciano Pires: tudo certinho.

Abbey Alabi: Exatamente. Quando a gente fala de religião em casa, as pessoas acham que a gente briga, deve brigar. Não tem como brigar. É uma opção. E ela tem religião dela. Eu lembro dela de fazer as coisas da religião dela. E as vezes também ela me lembra, Abbey tem que fazer isso, eu faço. Quando chega época do Hamadan, ela não pode fazer, eu falo para ela, não me dá beijo na rua durante o sol, essas coisas. Ela respeita. Uma das coisas que faz com que o casal fique muito forte é isso, porque é respeito. Quando eu vi uma coisa interessante, porque a maioria dos brasileiros não conhece muito sobre islamismo. Eles acham que você tem que matar, bater, soltar bomba. Então quando ela, desculpa, eu vou falar do outro casamento. A mãe, aquela dona Terezinha, entre aspas, quase me obrigou a ir para a igreja. Eu fui algumas vezes.

Luciano Pires: É isso que eu to notando. Quer dizer, o que eu to vendo claramente é o seguinte. Você não tá tentando evangeliza-la, nem ela a você. Quer dizer, mantem como são.

Abbey Alabi: Exatamente. Ela falava Abbey, tipo, entre aspas, se você não for, não tenho comida, entre aspas. Ficava muito triste. Quando eu consegui valor financeiro para eu comprar meu apartamento, na época, ela perguntou. Minha filha vai ser da sua religião? Não, ela vai seguir a religião dela, eu vou seguir o meu. Isso está no alcorão. Então, você pode casar com crente, que é cristão, ou judeu, que crê em Deus. Pode sim. Então, se ela quer seguir a religião dela, se ela quer saber da tinha religião, eu falo para ela. Isso eu concordo, não concordo, tudo bem, você chegou na sua conclusão. Se um dia, eu quero ser da sua religião. Tudo bem, é livre.

Luciano Pires: Se ela for com você para a Nigéria, e vocês resolverem que vão viver na Nigéria. Ela vai poder fazer assim na Nigéria, a sociedade vai aceitá-la tranquilamente, desde que você não vá até boko haram. Não chegando no boko haram, tá tudo certo?

Abbey Alabi: Sim, não tem problema não. Na Nigéria, onde a gente mora, se a gente for para lá, é Lagos, ou Ibadan, é bem civilizado. Você pensa que você está em São Paulo, ou Campinas. Mas, com as pessoas mais pretos, negros, totalmente. Então a diferença é isso, e calor.

Então, fora disso, é tudo igual. Na Nigéria, onde eu moro, tem muitos casais que é assim. O pai pega a bíblia, vai para a igreja. A mãe pega alcorão, vai para a mesquita. Não tem isso.

Luciano Pires: É possível a convivência harmoniosa dentre…

Abbey Alabi: Sim. Dentro da família tem muçulmano, cristão, dentro da mesma família. Então, não tem como brigar. Há discussão sobre qual é melhor. Quando chegar nisso, a gente fala de Jesus. Ah, quando a gente pensa que chegou no extremo, que amor de Jesus é diferente, que amor que tenho por Jesus… parou! Vamos comer, vamos fazer alguma coisa, e vida que segue.

Luciano Pires: E a hora que aparecer um filho?

Abbey Alabi: Eita nós, porque você foi tocar no assunto? Ela tá gravida.

Luciano Pires: Bem-vindo. Esse bebe vai ser batizado, ou vai ser… como se chama na sua religião?

Abbey Alabi: No islamismo, todas as crianças que nascem, nasceram batizadas.

Luciano Pires: Não há nenhum tipo de cerimonial.

Abbey Alabi: Só se essa criança crescer, e chamar outra pessoa de Deus. Aí tem que ser batizado para islamismo de volta.

Luciano Pires: Ok. Mas quando nasce, não tem nenhum tipo de cerimonial, como o cerimonial Cristão?

Abbey Alabi: Não tem. Ele só pede para dar oferta para as pessoas que não tem o que comer. Tem um cálculo ali. Eles pegam, e dão dinheiro para as pessoas pobres.

Luciano Pires: Já falaram sobre isso?

Juliana Lucena: Mais ou menos. Não falamos muito firme.

Luciano Pires: Esse é um assunto interessante.

Juliana Lucena: E time também, infelizmente.

Luciano Pires: Time de futebol também?

Juliana Lucena: Eu sou São Paulo, ele é Corinthians.

Luciano Pires: Mas aí… ainda mais jogando um futebol ruim que esses caras estão jogando, não vale nem a pena perder tempo com isso lá. Mas é interessante ver essa integração, e vocês vão ter que… a hora que o bichinho chegar. Muito bem. Como que é o seu plano, o plano de vocês, para essa ONG. Ela pode virar um… não quero chamar de negócio, porque dá impressão que passa a ser… não é um negócio para ganhar dinheiro. Pode virar seu meio de vida, no bom sentido, que é o seguinte. Eu faço um trabalho que é social, que tem um impacto muito grande. Eu to ajudando um monte de gente. Se eu recebesse meu sustento, a partir disso, para poder ajudar, eu poderia me dedicar mais ainda para muito mais gente. Eu poderia ampliar isso de uma forma gigantesca, desse que eu pudesse ter meu sustento, a partir disso aqui. É aquela velha história. Não fiz isso para ganhar dinheiro, mas não posso fazer se não tiver dinheiro. E boa parte do meu tempo, eu não posso nem ir buscar um patrocinador, porque eu to dando aula.

Vocês têm alguma ideia de que isso possa vir a ser uma coisa estruturada, uma ONG estruturada, com fonte de financiamento, etc. e tal?

Abbey Alabi: Sim. É complicado, sinceramente falando, eu rezo, peço para Deus me guiar todo dia melhor, para o dinheiro não ficar muito importante no projeto, que amor seja mais importante no projeto, sem que precise de dinheiro. Quando ela voltou dos Estados Unidos, eu prometi a ela que vamos nos casar. Quando ela voltou, falou assim, cadê o dinheiro. Espera aí, vamos lá na unidade. Quando chego na unidade, mostro para ela, aqui nosso dinheiro. Ela me abraçou, fechou, to contigo. Quer dizer, dinheiro que eu tinha guardado, a gene gastou tudo no projeto.

Se a gente tem condições pessoais, que a gente não precisa de outra pessoa ajudar, a gente vai gastar sim. Mas só que como o senhor falou, se eu conseguir dedicar mais, e conseguir pagar minhas contas, com certeza em nome de Deus, vai ser muito melhor.

Mas, por enquanto, como não tem, a gente trabalha para buscar. E a gente vê esse projeto, a gente fala entre a gente, pode existir em qualquer lugar. Pode existir no Brasil. Eu tenho amigos em Brasília que quer levar para lá. E não precisa ir lá. Só precisa passar lá de vez em quando, para continuar a entender como que é, supervisionar, só isso.

A gente quer levar até o Acre, todo lugar no Brasil, onde a gente sabe que as pessoas simples precisam, e realmente precisam. Outra coisa. É libertador você ouvir uma música e viajar naquilo. Entender o que a música falou. Talvez eu não entendo. Mas quando eu morei aqui no Brasil, eu não sabia falar oi. A minha primeira frase, era tipo, parece que o mundo abriu, o céu abriu. É muito louco, é muito interessante. Então a gente tá sentido isso com os alunos. Aí chamava alguns amigos particular, para ir entrevistar meus alunos em inglês. Eles falam, você chora. Menino chegou na sua sala, sem saber nada. Começa a falar, how are you? Fine. Where do you live? I live in… sabe, você vê ele falando isso, sabe, sonhando mais, indo além. É maravilhoso.

Luciano Pires: Tem mais outra coisa. Quer dizer, com acesso à internet, esse garoto, essa menina, vai ter aceso a qualquer coisa, em qualquer lugar do mundo. Essa geração já está muito mais disposta, já tem um ouvido muito mais preparado para inglês, porque ela joga vídeo game. Ela já tem acesso, já tá sendo batida por aquilo. Então tem uma predisposição para aprender muito mais, do que eu tinha na minha época. É muito mais distante. Hoje em dia eu to jogando um game com um cara na Polônia. E ali, nós estamos nos virando ali em inglês. Isso em todas as classes, não é só a classe rica. Todas as classes.

Luciano Pires: Pelo menos, se a gente receber alguns apoios, vai ajudar muito, mas muito mesmo. Ganhar meu sustento, minha família é simples, não precisa muitas coisas. Se eu quero… a gente estava fazendo umas escolas de inglês totalmente diferente, esse vai ser nosso projeto, ganha pão. A gente desenvolveu algumas técnicas totalmente diferentes em inglês, escola de inglês mesmo, a gente tá pensando em fazer. Em nome de Deus vai dar certo, a gente consegue fazer isso. E a gente vai ficar muito mais nesse projeto. Se não der certo mesmo, a gente acha um patrocinador firme, que acredita na gente, com certeza vai ser muito bom.

Luciano Pires: em nome de Deus que de certo.

Abbey Alabi: A gente não fala em nome de Jesus. A fala em nome de Deus.

Luciano Pires: Você fala em nome de Deus. Ela fala em nome de Jesus. Então tem uma… A gente sabe do que se trata.

Abbey Alabi: É um pouquinho diferente.

Luciano Pires: É muito legal saber essa predisposição de vocês. Tomara que essa coisa de certo. Acho que com o barulho que esse programa vai fazer, provavelmente vocês vão fazer alguns contatos legais né. Olha, e quando nasce o bebe?

Juliana Lucena: Setembro.

Luciano Pires: Então é bem recente. Vocês não viram ainda se é menino ou menina.

Juliana Lucena: Ainda não. E a gente não quer saber.

Luciano Pires: Vai saber só quando nascer. Não dá para saber se é azul ou rosa ainda.

Abbey Alabi: Exatamente.

Luciano Pires: Legal. Quem quiser entrar em contato com vocês, conhecer o projeto. Se eu quiser levar o projeto para a minha região, se eu quiser dar aula junto com vocês, se eu quiser me voluntariar. Se eu quiser ser patrocinador, como que eu faço para conhecer vocês, o site que você fez.

Juliana Lucena: O site é inglesparanossagente.org. Ou no Facebook, Instagram, também @inglesparanossagente.

Luciano Pires: O caminho natural é esse. Algum e-mail, alguma coisa assim?

Juliana Lucena: O e-mail é [email protected]

Luciano Pires: Cai para você?

Juliana Lucena: Cai para mim direto.

Luciano Pires: Legal. E aí?

Abbey Alabi: Sim. É isso mesmo. Eu quero falar que todo mundo pode ajudar, de várias maneiras. Várias ideias, que pode agregar ao projeto. Nosso projeto é inglês para nossa gente. Mas lá dentro, nós temos outros projetos. Nós temos day out, o connection. Coneccion, ë o que a gente fez no início do programa, que é muito bom. A gente chama algumas pessoas, que o inglês mudou a vida deles. Porque nessas periferias, percebemos que adolescentes, crianças, eles veem mais Neymar, Messi. Gente, você pode ser Neymar, Messi sim. Mas também pode ser André, Lucio, que estuda inglês, e hoje está em Chicago, vivendo a vida dele bem. Não precisa ser Neymar todo mundo. É um, em cada 1 milhão de pessoas.

Então a gente pega a visa dessas pessoas, grava vídeo para a gente, como o inglês, educação mudou a vida deles. E a gente fez isso. Todas as pessoas assistiram, foi muito bem impactado. A gente mandou, em nome de Deus, alguns que deram algumas pessoas. Então eu não posso ser Neymar, mas eu posso ser André. Pode, tem que estudar um pouco mais.

Luciano Pires: E vai precisar de uma ferramenta para te ajudar. Essa ferramenta é o inglês, sem dúvida.

Abbey Alabi: Então temos isso no projeto. Qualquer ideia que é boa, “quero agregar isso com esse projeto”. Vem. Nós não temos orgulho, é nosso projeto. Não. A gente fala, é nosso projeto, não é eu e a Ju. Hoje estamos na frente, tocando.

Luciano Pires: Esse o nosso teu, é o nosso da comunidade.

Abbey Alabi: Exatamente de todo mundo. Eu quero fazer isso com eles. Então vem. Analisamos, encaixa nosso projeto, nossa ideia. A pessoa fala Abbey, vamos cobrar? Não. Teve um professor que me ligou, Abbey, acho melhor pelo menos pagar nosso transporte. Eu falei, quanto é seu transporte? Mas não nesse tom, fui, falei com ele. Ele entendeu. Gente, desculpa.

Luciano Pires: Você falou para ele, “oi”.

Abbey Alabi: Esse “oi”, eu falei para mim. Ele entendeu que vai ser zero mesmo. Vaio ser zero. Todo mundo fala… meu mecânico, seu Paulo, ele olha para mim francamente, o que você quer com isso? O que que você tá falando? Ele fala assim, ninguém faz isso, ninguém faz nada de graça. Alguma coisa você quer. Eu falo assim, então tá bom, vai ter que esperar muito, porque nada eu não quero. E se alguma coisa vem como dinheiro, essas coisas, vai ser investido no programa. Claro, que eu não vou pegar 1 milhão e gastar tudo lá dentro. Eu vou fazer plano com ele. E se você me ver com um carrão, pode crer que eu comprei com meu dinheiro. Que eu sempre quis, a gente comprou nossa casa antes do projeto. Eu faço questão de levar voluntários para vir na minha casa, para ver que eu já tenho essas coisas antes do projeto, entendeu? Eu chamo alguns amigos, que são próximos a mim, Marcos Galvão, que são meus amigos. Gente isso tá acontecendo, e geralmente eles me…

Luciano Pires: Essa transparência é fundamental.

Abbey Alabi: Sim.

Luciano Pires: Olha, o que eu posso dizer a vocês. Deus os abençoe, Deus de sorte a vocês. Esse trabalho de vocês é fantástico, e a gente sabe que é aquela coisa da pedrinha no lado. Quer dizer, você aos pouquinhos, daqui há 10 anos vai olhar para trás e falar, olha aquela pessoinha que se formou conosco aqui, e a gente abriu caminho para ela. Não tem dinheiro que pague. Você falou isso lá no começo. Aquele carinho que vem, não tem dinheiro que pague. É isso que mantem a gente continuando a fazer. Boa sorte para vocês, para o baby. Be welcome. E quando vocês tiverem com algum projeto legal, deixa a gente ficar sabendo. Vamos fazer um barulho.

Abbey Alabi: Com certeza.

Luciano Pires: inglesparanossagente.org. Bem-vindos.

Abbey Alabi: Abbey e Juliana Lucena.

Luciano Pires: Isso aí.

Muito bem, termina aqui mais um LíderCast. A transcrição deste programa, você encontra no LíderCast.com.br. O LíderCast nasceu da minha obsessão pelos temas liderança e empreendedorismo. É em torno dele, que eu construí minha carreira com mais de mil palestras, nas quais distribuo iscas intelectuais, para provocar equipes e indivíduos, ampliar seus repertórios, e suas capacidades de julgamento e tomada de decisão. Leve o fitness intelectual para a sua empresa. Acesse lucianopires.com.br, e conheça minhas palestras.

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