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Luciano Pires -
Download do Programa

 

Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o PodCast que trata de liderança e empreendedorismo, com gente que faz acontecer. No programa de hoje, eu trago Amanda Sindman, profissional de comunicação, jornalista e mulher trans. Muito longe do estereótipo que a sociedade aprendeu a usar para os trans.

Vamos lá então, mais um LíderCast. Esse aqui, eu vou dizer que começou de um jeito diferente. Esse aqui funciona assim. Estou eu lá conectado nas minhas redes sociais, para lá e para cá, acompanhando no Twitter, quando de repente entra uma thread. Para quem não conhece o que é thread, é o seguinte. Para quem usa o Twitter, sabe que ali tem uma limitação de caracteres. Você pode escrever ali de 140, 200 e poucos caracteres, não tem muito espaço para escrever. Então, quando a gente quer escrever um texto muito longo, a gente vai soltando um trechinho de cada vez, e forma uma linha. Então você diz o seguinte, “siga essa thread”, que significa, você vai seguir um por um, e no final de vários tweeds, você vai ter um texto grande, né?

E ali entrou uma thread, com um tema interessantíssimo. Quando eu li, falei, “cara, alguém escrevendo um negócio com começo, meio e fim, sem militância. Será que dava um programa? Deixa eu arriscar”. Liguei, entrei em contato, convidei, e aqui estamos.

Você já ouviu o programa, já sabe que ele começa com 3 perguntas que são as fundamentais, aquelas que são necessárias, né? E que são, seu nome, sua idade, e o que que você faz?

Amanda Sindman: Bom, primeiro cumprimentar todo mundo, agradecer a honra de estar aqui, e dizer que antes de chegar aqui, eu dei uma estudada, né, nos programas. E chegou nessa parte. Diga seu nome, já começou difícil. Risos. O que que eu vou falar para esse cara? Bom, meu nome é Julia Curtis, mas o pessoal na internet me conhece como Amanda Sindman. Eu tenho 34 anos, e sou jornalista.

Luciano Pires: Jornalista. Para quem não tá vendo, o bicho tá nervoso aqui. Mas, cara… Olha aqui. O que que eu fiz aqui. Eu chamei você para conversar, porque você domina um tema que hoje é muito falado na sociedade, vou retomar aqui, não devia ter falado o bicho tá nervoso, cara.

Amanda Sindman: Risos. A bicha tá nervosa, também não funciona.

Luciano Pires: Olha, para quem não tá vendo aqui, a bichinha tá nervosa aqui na frente da gente, sabe?

Amanda Sindman: Eu me acalmo com o tempo, não tem problema.

Luciano Pires: Eu sei que acalma. Faltou uma erva aqui, né? Faltou seu chimarrãozinho aqui, né? Mas olha, eu chamei você aqui, porque você domina um tema que está em evidencia na sociedade, e você tratou de uma forma que eu nunca tinha visto ser tratado no tempo. Você disse que é Julia, e é Amanda. Amanda, é um nome que você escolheu para criar uma conta no Twitter e tudo mais, né? Até entendo…

Amanda Sindman: Pouca gente sabe disso, mas agora tá no ar.

Luciano Pires: Agora tá no ar, né? Mas você não nasceu com nome de Julia?

Amanda Sindman: Não.

Luciano Pires: O nome de Julia, está na sua certidão de nascimento?

Amanda Sindman: Na minha certidão de nascimento.

Luciano Pires: Ok. E você fez uma mudança. Que nome você nasceu?

Amanda Sindman: Nasci com nome de João. Bem comum, assim.

Luciano Pires: Você tá com 36?

Amanda Sindman: 34.

Luciano Pires: Você tem irmãos?

Amanda Sindman: Ao todo, 11 irmãos. Com chance de ter mais.

Luciano Pires: É mesmo?

Amanda Sindman: 7 biológicos, uma de criação, e 3 do meu padrasto.

Luciano Pires: Você nasceu onde?

Amanda Sindman: eu nasci em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. E praticamente, vivi a vida inteira lá. Eu saí em curto espaço de tempo para morar em Porto Alegre, para estudar. Depois morei um pouco no Rio de Janeiro, mas nada diferente disso.

Luciano Pires: O que que o Joaozinho queria ser quando crescesse?

Amanda Sindman: Como é que eu posso dizer? Porque eu acho a coisa mais engraçada, porque eu costumava ler jornal. Não entendia nada. Eu olhava o jornal, achava uau, as pessoas escrevendo. Então, sempre tive essa queda pelo jornalismo.

Eu acho que o que me empurrou mesmo, o que eu queria ser quando crescer, era produtora do Casseta e Planeta. Porque na época, eu era criança, não era aqueles programinhas pequenas, uma vez por semana. Era uma vez por mês. Então era um programa enorme. Eu não entendia nada da crítica política, mas, eu achava aquilo muito legal. Eu sempre queria fazer alguma coisa naquele estilo.

Luciano Pires: É interessante, porque você tava no interior do Rio Grande do Sul, vendo aqueles cariocas loucos, porque aquilo era de certa forma meio revolucionário, né? Porque eles entraram dentro de um ambiente da Rede Globo, com uma proposta que já veio sendo quebrada ali atrás, na TV Pirata, e tudo mais.

Amanda Sindman: Eu tinha medo da TV Pirata, porque eu não entendia que era programa de esquete. Eu assistia a abertura deles, e me assustava, porque não tinha nexo, para criança ainda.

Luciano Pires: E aqueles caras eram muito loucos, né? Muito doidos. Mas a ideia então, você falou, “eu vou quando crescer, me meter nessa ideia de escrever, vou para humanas”, que ficou claro para você que não ia ser exatas, né? Tá. Quando é que você começou a descobrir que existia alguma coisa diferente no seu jeito de ser, na sua… Porque você é uma pessoa trans, ok?

Amanda Sindman: Isso nem é a parte mais assustadora de mim, né?

Luciano Pires: Isso. Eu to até com medo aqui, de o que que vai aparecer aqui. Mas, quando é que você começa a descobrir que havia alguma coisa diferente no que você era, comparado com outros garotos? Vamos ver, vamos lá.

Amanda Sindman: Antes de responder essa, eu queria deixar claro que essas opiniões que eu vou dar agora, refere a minha experiência. Eu conheço outras meninas trans, estou conhecendo outros meninos trans agora, que eu não conhecia. E a experiência de cada um deles, é diferente uma da outra.

Então, a minha resposta, ela serve para mim, mas, não necessariamente, serve para os outros.

Luciano Pires: Deixa eu fazer o meu statement aqui, tá? Então a minha ideia de trazer você aqui, foi exatamente para ouvir uma história de alguém que vive em um determinado contexto e tudo mais. E eu queria, ao ouvir a sua história, entender que não existe um modelo, não tem um padrão, não tem um estereótipo, não tem uma coisa que você bate o olho e fala, todo mundo é assim. Não é. Cada pessoa…

Amanda Sindman: Eu só quero deixar claro, que alguém pode ouvir isso e pensar, “não, mas eu conheço um caso que foi diferente”. Não, eu não to julgando esse caso, to falando da minha experiência.

Mas então, eu não vou saber precisar um ano. Mas foi mais ou menos, durante a puberdade. Que quando o corpo começa a mudar, as características de sexo secundário começam a aparecer, e eu vi que as características de sexo secundário que estavam aparecendo em mim, não eram as que eu queria. É meio difícil de explicar, até entre nós é difícil, mas, é como que se para mim, as pessoas me olhassem, e visse algo que eu não era. E me tratassem de uma forma diferente do que eu queria. E foram anos encarando isso. Na pratica, segurando para dentro, não botando para fora. Porque a minha jornada de transição mesmo, começou há pouco mais de 3 anos. Então foram o que? 15, 16 anos, guardando isso dentro de mim.

Luciano Pires: Eu não consigo imaginar nem o que seja isso, fica até difícil de compreender. Porque, quando você fala de característica de sexo secundários, evidentemente, a primaria, são os órgãos genitais, a barba, o gogó, todo aquele desenho…

Amanda Sindman: A primaria é o órgão genital especifico. As secundarias, é tudo que acontece na puberdade.

A questão de… até a gente vai entrar nisso mais tarde, para falar de cirurgia e tudo mais, mas, é essa arte da aparição dos órgãos sexuais secundários, da diferença secundária, que vai definir mais ou menos como funciona a vida da pessoa depois.

Então antes disso, é muito difícil você ter uma aparição de transexualidade.

Luciano Pires: Quer dizer, você tá falando na puberdade. Vão começar a surgir os pelos, vão começar a surgir a mudança do corpo. E ali então te dava um nó. Você acordava achando que todo mundo olhava o Joao, e na sua cabeça, não era o Joao.

Amanda Sindman: Não era.

Luciano Pires: Como é que você processava isso? Como é que você sentia essa diferença?

Amanda Sindman: Bom, eu tinha um problema extra nisso tudo. E para explicar isso, eu vou ter que voltar a história um pouco mais.

Luciano Pires: Aqui é o LíderCast, então, nós somos donos do tempo. Você pode ir para frente, voltar, não tem problema.

Amanda Sindman: Então, eu vou soltar um dado aqui agora, e eu vou ter que deixar ele aí, porque se eu explicar toda essa parte, vai perder o nexo da história. Mas, eu prometo que vai ficar tudo claro.

Então, a minha história propriamente dita, começa aos 3 dias de vida, quando a minha mãe biológica me abandonou no hospital. Eu fui criada por um casal adotivo.

Então, eu tenho dois pais, e duas mães. Então assim…

Luciano Pires: Que você conhece?

Amanda Sindman: O meu pai, eu não conheço, o biológico.

Luciano Pires: Não conhece o pai biológico. A mãe biológica você conhece?

Amanda Sindman: Mae biológica eu conheço. Então isso gera muitos problemas. Muito trauma. Tem muita literatura específica sobre isso, explicando. A primeira, trauma de perda. Porque a criança, mesmo que ela seja nova, tendo poucos dias de vida, ela registra essa perda. Então, fica aquela coisa na cabeça. A minha mãe, que deveria ser a pessoa que me carregou na barriga, que deveria cuidar de mim, não me quis. Se a minha mãe não me quis, como alguém vai me querer?

E isso não se forma no pensamento de forma consciente. Então, o que a gente vive na cabeça. Uma rejeição internalizado, que as vezes você nem sabe que existe. Eu tive a sorte que meus pais nunca me esconderam isso. Então, nunca teve aquele momento, meu Deus, eu sou adotado. Eu já sabia. Mas assim, eu nunca tive vontade de ir atrás da família. Quando eu comecei a ficar mais velha, tudo, quando eu tinha idade para querer ir atrás, eu nunca quis. É uma jornada que eu só fui fazer mais tarde, na vida.

Luciano Pires: E esses pais que te adotaram, tinham filhos naturais?

Amanda Sindman: Não.

Luciano Pires: Você então…

Amanda Sindman: 3 anos depois de mim, meus pais adotaram uma outra pessoa, que é minha irmã mais nova. Então, nós sempre fomos 2 filhos adotivos.

Luciano Pires: Ok. Você chegou a descobrir porque sua mãe te abandonou?

Amanda Sindman: Ela não chegou a me dizer, mas ela me deixou meio claro. Eu já vou chegar nessa parte. Porque só linkar esses dois fenômenos, né? Eu já tinha esse trauma de rejeição. E quando eu tinha 14, 15 anos, que essa época começou a aparecer minha disforia, era o que, 98/99. Naquela época, ser gay assumido, não era visto como é hoje. Ser trans, muito menos. Então, ficava aquela coisa, se eu contar, ninguém mais vai me querer.

Luciano Pires: E no Rio Grande, tchê?

Amanda Sindman: No rio Grande, pior ainda. Interior do Rio Grande do Sul, informação demora para chegar.

Luciano Pires: Sim.

Amanda Sindman: Então, a cabeça das pessoas é diferente, demora, é mais lento. Então eu tinha muito medo disso, na época.

Luciano Pires: E me fala uma coisa. Que idade você tinha na época?

Amanda Sindman: 14, 15 anos, por aí.

Luciano Pires: você tinha uma compreensão do gay, sabe? Eu acho que eu gosto de pessoas do mesmo sexo que eu? Você tinha essa compreensão? Porque tem uma diferença entre gay, e transexual. Eu imagino uma criança se percebendo primeiro gay, para na sequência se perceber trans. Imagino que seja assim.

Amanda Sindman: Não necessariamente, porque existem duas coisas.

Luciano Pires: Amanda, eu sou totalmente ignorante no assunto. Então você me quebra no meio, toda vez que eu falar uma bobagem aqui.

Amanda Sindman: Não, não tem problema. Existem dois conceitos, que é o conceito de quem você gosta. Eu gosto de homem, gosto de mulher, isso é uma coisa. E outro, como eu me vejo, que é identidade de gênero. Então, eu posso muito bem ser homem que gosta de home, gomem que gosta de mulher. Ser uma mulher que gosta de um dos dois. Ser uma mulher que gosta dos dois. Ou meu problema pode ser outra coisa. Eu posso não me perceber do jeito que eu sou, independente de quem eu goste.

Existem casos registrados de transexuais, que antes de se assumirem, levavam uma vida heterossexual normal. Homem gostava de mulher, e mulher gostava de homem. E só foram descobrir gosto do sexo oposto, depois da transição.

Luciano Pires: Tá. Você tá marcando um momento, tem um momento de transição, que a gente vai chegar nele. Como é que você conduziu esse teu… você já criou um ambiente para mim, que é complicado. Quer dizer, eu to no interior do Rio Grande do Sul, estou em uma família na qual sou adotado. Sinto que algo diferente acontece comigo, você estava na escola…

Amanda Sindman: E não tinha com quem conversar.

Luciano Pires: Então, havia um bullying, havia… você manifestava essa sua diferença de alguma forma, não?

Amanda Sindman: Havia bullying, e eu sempre sofria bullying, mas não por isso. Essa questão da transsexualidade é uma coisa que eu mantive muito guardado. Sabe? Nunca, evitava manifestar da forma que eu podia. Como que eu vou te dar um exemplo. Um homem que repara em uma roupa de uma menina. Um adolescente, digamos, repara na roupa de uma menina, e faz um comentário inocente. Ele não tá necessariamente sendo trans. Ele viu uma coisa, e está comentando. Mas como é que eu vou saber que as pessoas não vão ver que tem algo errado comigo?

Luciano Pires: Sem você perceber que está dando…

Amanda Sindman: Era aquela paranoia autogerada. Eu to dando deixa? As pessoas vão perceber que eu to escondendo alguma coisa? Isso pressiona. É um dos motivos pelo qual os transexuais têm maior incidência de doenças mentais também. É muita pressão.

Luciano Pires: Você tem que estar se policiando… o jeito que eu vou tossir. O jeito que eu espirro. A maneira como eu olho. Quer dizer, tem que ter um gestual que eu não posso deixar transparecer que tem alguma coisa. Caso isso aparecer, eu ser denegrido.

Amanda Sindman: Se eu fizer um gesto mais feminino, as pessoas vão olhar para mim, vão descobrir. Elas não podem descobrir, porque se descobrirem, eu vou ficar sozinha, sabe? É toda essa carga, e não é fácil.

Luciano Pires: E criança, carregando isso criança. Como é que você, bom, vamos tentar separar sua vida. Você tá na escola, estudando, você vai estudar para alguma coisa, você definiu que queria ser jornalista, e ali vou conduzir minha vida nessa direção. Foi isso que você foi fazendo. Essa coisa de procurar universidade, tudo mais, você foi buscar jornalismo, isso?

Amanda Sindman: Não. Assim, nessa época, isso 98/99, foi a época que começou internet no Brasil, internet comercial do jeito que conhecemos hoje. Web 1.0 ainda, mas… Então, eu queria fazer algo na internet. Depois eu fui descobrir que eu queria comunicação na internet. Mas, na época, esse conceito de jornalismo e internet, os dois não se misturavam. Então, eu fui fazer ciência da computação. Algo totalmente do outro lado.

Luciano Pires: Mas está perto, tá no TI.

Amanda Sindman: Na época não, na época isso não existia. Aí eu fiz um semestre, não me adaptei, larguei, e naquela época eu estava escrevendo textinho, nada demais. Era texto para os colegas, tipo editorialzinho, jornalzinho de escola, nada… E daí, eu gosto de escrever, eu vou escrever, vou fazer letras. Isso foi metade de 2002. Eu fiz letras 1 ano e meio, durante 2002 e 2003.

Luciano Pires: Onde?

Amanda Sindman: Em Passo Fundo mesmo. Tudo isso em Passo Fundo. E aí chegou uma parte da vida, que eu decidi não, eu não quero mais ficar aqui. Eu quero sair daqui, não necessariamente fazer outra coisa, mas eu quero trocar de cidade. Então eu larguei a faculdade.

Luciano Pires: Por que você quis trocar de cidade? Ir para um lugar maior?

Amanda Sindman: Ir para um lugar maior, ter outras experiências. Eu tinha 18/19 anos na época, estava na idade de sonhar alto. Então eu larguei a faculdade, e fiquei 1 semestre estudando, e fui fazer vestibular fora.

Então eu fiz 3 vestibulares. Eu fiz para letras, na URSC, e fiz Federal do Paraná, em Curitiba. E fiz jornalismo na PUC Rio Grande do Sul. A única que eu não passei, foi na URSC. Então, eu tinha que escolher. Ou ficava em Curitiba, ou ia para Porto Alegre. E eu escolhi Porto Alegre, talvez pelos piores motivos, porque conhecia gente lá. Porque daí eu não ia me sentir sozinha. Essa questão de solidão, é comum em pessoas trans. Mas, bate muito o martelo na cabeça. Ainda mais adoção, tudo mais.

Nessa época, tem todo esse turbilhão em mim, só que eu não sei lidar com isso. Então, fui para Porto Alegre. Fiquei 2 anos e meio.

Luciano Pires: Você não tinha se aberto nem com os pais?

Amanda Sindman: Nem com os pais.

Luciano Pires: Com ninguém?

Amanda Sindman: Ninguém. Ninguém sabia. E não tinha, aquela coisa, aí já faz uns anos depois. O gay já estava começando a ser mais aceito. O meu melhor amigo nessa época, que é meu melhor amigo até hoje, ele é gay. Hoje em dia, ele é assumido. Nessa época, ele era também, totalmente armário. Então a gente vivia mais nessa exclusão. Mas eu não tinha nem falado para ele ainda. Fui falar para ele, anos depois disso. E ainda sim, para tomar uma atitude, demorou mais alguns anos.

Enfim, eu fiquei 1 ano e meio em Porto Alegre, e a solidão começou a pesar. E daí que me deu um surto de depressão brava. Eu acordava de manhã, não conseguia sair da cama. Perdia aula. Eu perdi quase 1 semestre inteiro, porque não conseguia sair da cama. O máximo que eu saia de casa, tinha dias, era para ir no mercado comprar comida.

Luciano Pires: E não tinha ninguém cuidando de você?

Amanda Sindman: Não. Morando sozinha.

Luciano Pires: Caramba.

Amanda Sindman: Acho que foi no meu aniversário, eu tinha ido para casa, e era um domingo, eu estava voltado para Porto Alegre. Eu não sei como eu consegui entrar no ônibus, porque minha vontade era sair correndo. E sair chorar em um canto qualquer, porque eu não queria voltar. Porque tinha dias, que eu não conversava com ninguém.

Lembra, isso 2000 e pouco. Então, não tinha nem internet. Era internet discada. Se conectasse de dia, adeus conta telefônica.

Luciano Pires: Sim, não é fácil. Bom, precisamos sair dessa. O que acontece?

Amanda Sindman: Bom, em 2007, eu não aguentei mais, tranquei a faculdade. E transferi minha faculdade de volta para Passo Fundo. Aí lá como tinha família, tinha suporte melhor, tudo, eu fiquei por lá, consegui terminar a faculdade. Assim, isso foi em 2010, que eu cheguei a terminar. Mas tem algo interessante aí. Eu tinha feito uns estágios em Porto Alegre, que eu trabalhei na própria faculdade, laboratório de jornalismo online, que já era um pouco mais para frente, já tinha experiência de jornalismo online, que foi que eu vi. Eu gosto disso. Eu fiz depois alguns trabalhos acadêmicos desse lado também.

Luciano Pires: Lado do?

Amanda Sindman: Cyber cultura.

Luciano Pires: Tudo cyber cultura. Você mergulhou…

Amanda Sindman: Tentei.

Luciano Pires: Você tem diploma de que?

Amanda Sindman: Meu diploma é jornalismo.

Luciano Pires: Você largou para trás tudo que era TI, e ficou.

Amanda Sindman: Fiquei em jornalismo. Eu queria seguir essa área, cyber jornalismo. Twitter era incipiente, era época do Orkut, mas, ninguém usava isso como ferramenta de comunicação direito ainda. Ainda mais interior.

Luciano Pires: Imagina, você falando isso hoje em dia, quando essas coisas são…

Amanda Sindman: Onipresentes.

Luciano Pires: O Twitter tá sendo usado para dar um balão na imprensa. Ele é até mais importante em alguns momentos, do que a própria imprensa normal. A gente lembrar que teve um dia que a gente olhou, para que serve um treco que só tem 140 caracteres. Que merda que é isso?

Amanda Sindman: Na época, para publicar no Twitter, tu mandava SMS para o Twitter. Não tinha celular, era os Nokias antigos. Então eu fazia experiências de jornalismo por Twitter, por conta própria. Ninguém me falava nada.

Luciano Pires: Sim.

Amanda Sindman: Então eu saia na rua, via alguma coisa, vou publicar pelo Twitter no celular sem internet, era SMS. SMS internacional, pensa na conta depois. Aí chegava para os professores de jornalismo. “Ah, porque o Twitter isso…”. O que que é Twitter? Sabe? Porque vamos fazer jornalismo no Orkut. Não dá. Então isso foi meio desanimador.

Tinha um professor só, que entendia um pouco mais de jornalismo online. E na época, eu consegui fazer com que ele fosse meu… pegar uma linha de pesquisa, eu fui orientanda dele, né? Ele ia ser meu orientador de TCC. No semestre que eu protocolei ele de orientador, ele pediu demissão.

Então eu fiquei lá. E agora, ninguém mais entendendo o assunto, eu não tenho onde conseguir bibliografia. Não conheço quase ninguém na área. Eu tive que mudar minha monografia, achar outro orientador.

Luciano Pires: Quer dizer, você de alguma maneira, espelha na sua atividade profissional, um problema que você tinha na vida pessoal. De novo eu to sozinha, de novo as pessoas, não tenho com quem conversar, não tenho interlocutor.

Amanda Sindman: Nesse meio tempo, eu tinha uma amiga que trabalhava de secretaria no jornal. Essa parte é engraçada. Eu comentei com ela, solta meu currículo aí, né? Mandei para ela, ela imprimiu bonitinho e mandou para a editora. A editora pegou meu currículo, dobrou ele, e botou na mesa de rascunho sem ler.

Tá, eu não sabia disso na época, fiquei sabendo disso depois. Essa folha de rascunho, foram parar na mesa de pauta depois. E a redação tava mexendo, fazendo as pautas nas folhas, viraram a folha, “olha, tem um currículo aqui, vamos chamar esse cara”. Do nada. Eu lembro, eu tava entrando na aula de noite, me ligaram, “vem amanhã para o jornal, nós queremos fazer um teste contigo”. Jornal local. Eu fui, no outro dia, fiz o teste. Meu primeiro estágio na área propriamente, trabalhando como repórter. Fiquei um tempo lá. Aí eu e mais 3 colegas, nós saímos do jornal, e deu confusões internas, aquela coisa básica. E nós abrimos nosso próprio jornal.

Luciano Pires: Deixa eu perguntar uma coisa, antes de você partir para a sua experiência de empreendedorismo. Quando você chega no jornal para fazer sua avaliação, etc.  E tal, chegou um garoto? Chegou um gay?

Amanda Sindman: Chegou um garoto.

Luciano Pires: Que não demonstrava nada? Você não tinha nenhum tipo de característica…

Amanda Sindman: Não. Assim, essa imagem do gay estereotipado, eu nunca fui. Eu vou voltar nisso depois. Aí nós fizemos essa experiência do jornal. E aquela coisa, 4 jornalistas achando, vou fazer jornalismo, vai dar certo. Não deu certo. Risos.

Luciano Pires: Isso eu sempre repito aqui no programa. 3 artistas se juntam, alucinados com sua arte, achando a arte em si vai fazer acontecer, e esquece que tem que administrar o treco, tem contador, que tem um mondo por trás, onde a arte bem-feita, não é nem o principal. Você pode ser o melhor do mundo. Se não cuidar direito, vai desandar seu negócio.

Amanda Sindman: Nós conseguimos manter o jornal por 6 meses. Conseguimos quase fechar as contas, na hora de encerrar. Aí ficou R$ 400,00 reais de conta para pagar. Pelo menos, era pouca coisa. Não deu muito certo a experiência. Mas como experiência de vida, aprendi bastante.

Luciano Pires: Imagino. Era um jornal semanário?

Amanda Sindman: Quinzenal.

Luciano Pires: Em Passo Fundo?

Amanda Sindman: Em Passo Fundo.

Luciano Pires: Impresso, com tiragem?

Amanda Sindman: Impresso. Só que aquela coisa, tiragem, como a gente não tinha gráfica, tiragem de fora em outra gráfica. Tem tiragem mínima, tem que ver… eu não posso tirar exatamente o que eu preciso que vai ficar muito caro. Então sobrava pilhas e pilhas de jornal, que a gente saía distribuindo. Mas, a princípio, era para ser vendido.

Luciano Pires: Tá. E aí, continue.

Amanda Sindman: Isso foi final de 2007. Em 2008 eu continue, vamos dar um tempo nisso, vou focar na faculdade. Aí eu peguei estágio na rádio. Trabalhei alguns meses em uma rádio, saí para fazer meu TCC. Isso foi início de 2008, eu fazia produção de reportagem em rádio. Então, edição de áudio, essas coisas.

Luciano Pires: O fato de você estar trabalhando, resolveu uma parte da sua questão social, de grupos de pessoas. Você tinha amigos, você tinha grupos de…

Amanda Sindman: Eu tinha amigos. Mas aquela coisa. Armário. O armário só vai desabar depois. Aconteceu muita coisa antes.

Nessa época, eu queria adiantar minha faculdade, me formar logo. Então eu fazia aula segunda e sábado de manhã, segunda e sexta de noite, e trabalhava de tarde. Um semestre inteiro assim.

No final desse semestre, eu resolvi, eu tenho que fazer meu TCC, eu quero focar no TCC. Então no semestre seguinte, eu peguei o mínimo de cadeiras possível, larguei o estágio, e fui escrever. Aí nesse meio tempo, eu saí com uns amigos. Saí em uma noite, nós fomos em uma boate gay. Minha primeira vez. Nessa boate gay, eu tive minha primeira experiência homossexual. Isso eu tinha 24, 25 anos. Já veio que foi uma experiência tardia, né?

Luciano Pires: E os amigos que estavam com você?

Amanda Sindman: Eram outros amigos.

Luciano Pires: Gays?

Amanda Sindman: Gays.

Luciano Pires: Você sabia que eles eram gays?

Amanda Sindman: Sim.

Luciano Pires: Para eles, você estava no armário ainda, não?

Amanda Sindman: Para eles, eu era uma pessoa que topava tudo, mas nunca acontecia nada comigo. Então, foi minha primeira experiência homossexual. Depois dela, não foi grandes coisas, mas foi aquela coisa que a gente só lembra que foi a primeira. Aí eu passei uma semana com crise de identidade. O que que tá acontecendo comigo. Eu me olhava no espelho, beleza, eu sou gay. Mas, aquilo não me dava satisfação, não me dava. Eu vou ficar um gay mais estereotipado, não acontecia nada, continuei a mesma pessoa, em suma. Mas, aquilo me incomodava, porque tá, eu fiz algo que de certa forma, rompi uma barreira minha. Nada mudou. Eu to vendo que não vai mudar nada. Isso não é quem eu sou.

Beleza. O final daquele ano, eu peguei um trabalho de férias nos Estados Unidos, passei 3 meses no Alasca. Surgiu oportunidade, eu pensei, quando é que eu vou tão longe na vida, tão longe de casa, no caso. Vamos conhecer, não custa. Peguei aqueles dias que duravam 1 hora, amanhecia 10, anoitecia as 11. Aurora boreal, foi uma experiência incrível, tá? Juntei uma grana, essa grana pagou meu tratamento, 10 anos depois, então valeu a pena. 2010 eu me formei, e nessa época, eu comecei a namorar uma menina.

Luciano Pires: Uma menina?

Amanda Sindman: Isso era 2010, eu já tinha 26, 27 anos. Ela era do Rio.

Luciano Pires: Então nós estamos lidando agora com alguém que se acha bissexual?

Amanda Sindman: Sim. Não é necessariamente que se acha bissexual. É alguém que teve uma experiência homossexual só, e tá seguindo a vida. E eu fui morar com ela no Rio. Passei 3 anos morando com ela no Rio. Nosso namoro durou 5 anos, na verdade. Eu fiquei um tempo com ela, voltei para casa, e nesse meio tempo achei um emprego, naquela mesma rádio que eu trabalhei.

Luciano Pires: Pausa. Agora vou fazer minhas cutucadas aqui. Você estando com ela, para você era uma coisa… era bom? Era normal? Você gostava de estar com ela? Ao ter relações sexuais com ela, eram prazerosas, era uma coisa… você não estava se obrigando a nada?

Amanda Sindman: É meio difícil de explicar, porque não é necessariamente se obrigar, sabe? Eu estava com ela porque eu queria. Ninguém me obrigou.

Luciano Pires: Você gostava dela?

Amanda Sindman: gostava. Não é que eu não gostava. Não é gostar dela. Eu não gostava de mim. Sabe? Aquilo que eu te falei antes. As pessoas me olhavam e viam outra pessoa. Eu não podia me expressar, alguma coisa sempre estava trancada. Então, é nesse sentido. Até um dos problemas que eu tinha por causa disso, na época que eu comecei o jornalismo, eu não conseguia ligar para a fonte. Sabe, eu não conhecia a pessoa, eu ligava de boa. Mas se eu precisava falar com ela de novo, eu não conseguia ligar, não conseguia falar com aquela pessoa. Aquela coisa do medo da relação.

Luciano Pires:

Amanda Sindman: Insegurança.

Luciano Pires: Mas termina com a menina que você esteve lá. Durante 3 anos, você teve intimidade com ela, você chegou a ponto de se abrir com ela, comentar alguma coisa? Ou nunca?

Amanda Sindman: Não.

Luciano Pires: Você dividindo a casa com uma pessoa, que era sua namorada, você também não se abriu para ela?

Amanda Sindman: Não. Para ver como era… porque tinha essa questão da… volta para o trauma de abandono. Se as pessoas me conhecerem como eu sou, elas não vão mais me querer por perto. É toda essa ideia na cabeça, martelando, martelando, inconscientemente. Não tem…

Aí nesse meio tempo, eu consegui emprego na rádio em Passo Fundo. Onde me chamaram para montar toda estrutura de internet deles. Cuidar de site, administrar redes sociais, que na época era Facebook e Twitter, Foursquare, na época era grande. Hoje não tem mais. Na época não tinha Instagram também. Então eu montei toda estrutura deles, de redes. Eu tinha acesso graças a colegas, eu tinha acesso aos dados da concorrência. Nossos dados eram maior que o deles. Pelo menos isso. O nosso crescimento no Facebook era gigantesco. Eu queria fazer duas coisas, na época. Era transmissão de jogo, futebol por live chat, e transmissão da rádio via internet. Youtube, na época, só que essas coisas de novo. Voltamos para lá. Interior do Rio Grande do Sul, ninguém conhece isso, ninguém aposta. Hoje em dia, normal, uma rádio navega. Na época, eu queria fazer, não me deixaram. Eu submeti os planos para a diretoria, não queria. O site também tinha um problema enorme, porque ele foi feito sem propaganda. Então ele não rendia. Aí eu falava para eles, tem problema.

Luciano Pires: E você só era despesa.

Amanda Sindman: Porque não tinha como render. O meu emprego, foi feito para não render. O que que eu fiz? Comecei a pensar em coisa alternativa. Ajudava na produção, ajudava na locução. Pedi permissão para entrar na rádio como repórter. Fazia isso, sabe? Porque meu cargo não foi feito para lucrar.

Luciano Pires: Você precisava mostrar que tinha um valor.

Amanda Sindman: Não deu certo. A rádio passou por uma restruturação, algum tempo depois, e eles excluíram meu cargo. Foi tipo, no dia que eu saí de férias, basicamente. Aí tá, eu to sem emprego, tenho um pouco de grana. Perspectiva na cidade não tem, porque eu já tinha trabalhado nos dois jornais, naquela altura. Eu tenho uma namorada no Rio, vou para lá. Fui para o Rio, e lá eu conhecia um cara, ele escrevia para a Globo, me apresentou para o pessoal, e eu comecei a escrever para a Globo também, para o TechTudo, falando sobre tecnologia.

Luciano Pires: Você era freela?

Amanda Sindman: Freela.

Luciano Pires: Você tá fazendo freelancer.

Amanda Sindman: To fazendo freelancer no Rio, sem conhecer o Rio, sem conhecer ninguém no Rio. Eu passei os próximos 6 anos fazendo freelance. Tecnologia, celular, escrevendo sobre WhatsApp, esses grandes ataques de vírus que aconteceram no mundo, eu sabia de tudo sobre todos. E assim ia.

Luciano Pires: Assinando como João?

Amanda Sindman: Tudo como João. Na época, não existia nem Amanda. E assim foi. Até que no final de 2016, o meu namoro acabou, foi um negócio totalmente traumático. Porque nós dois sofria de depressão, nenhum dos dois estava se tratando na época.

Luciano Pires: E os dois sabiam?

Amanda Sindman: Os dois sabiam.

Luciano Pires: Nenhum dos dois se tratava?

Amanda Sindman: Nenhum se tratava. E a bomba foi se armando, e explodiu. Então quando eu vejo, eu to de volta em casa. A casa que eu tava montando, perdi ela completa. To sozinha, não tenho emprego bom em vista.

Luciano Pires: 33 anos.

Amanda Sindman: Não, isso foi 2016. 32. Não tenho perspectiva. Minha mãe, nessa época… eu morava com a minha mãe ates, né? Aí minha mãe estava morando com meu padrasto, não tinha lugar para eu ficar. Eu fiquei, comecei a morar com meus avós. Foi uma fase bem ruim. E aí que foi aquela coisa. O que que eu vou fazer da vida? E nessa, e agora? Vai entrar na história, um personagem totalmente inesperado. Olavo de Carvalho. O que acontece, nessa época, eu tava lendo Mínimo, foi uns 6 ou 8 meses depois que lançaram o Mínimo. Eu tinha…

Luciano Pires: O Mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, que é coletânea de artigos do Olavo de Carvalho, organizado pelo Felipe Moura Brasil, e que é um Best-seller gigantesco aí.

Amanda Sindman: Eu tava lendo o Mínimo. Num dos primeiros artigos do mínimo, o Olavo fala sobre o Viktor Frankl. Que ele escreveu Em busca do sentido. E ele dá uma resumida do que o Frankl fala, que é o seguinte. A vida é feita de descobrir sentido. E as pessoas que descobrem um sentido na vida, costumam ser mais felizes dos que as que não tem.

Eu fiquei com isso na cabeça. E eu queria ler o livro do Frankl, demorei 3 anos, no início desse ano só, mas, eu li. E fiquei com isso na cabeça. E agora? Eu não tenho nada, não tenho uma casa para chamar de minha, não tenho… malé mal tenho as roupas do corpo, que várias ficaram no Rio. O que que eu vou fazer da vida?

Então, eu tenho essa coisa gravada em mim. Eu não tenho nada mais para perder. Eu vou ser trans, vou sair do armário.

Luciano Pires: Espera aí. Vou sair do armário para ser gay, ou vou sair do armário para ser trans?

Amanda Sindman: Vou sair do armário apara ser trans.

Luciano Pires: Já tinha passado pela sua cabeça então. Porque agora há pouco, você falou, olha, tive a primeira experiência homossexual, entendi que aquilo não me bastava, aquilo não mudava nada em mim. Quando é que você começou a avaliar a possibilidade que é mais do que ser um homem e outro homem? Eu vou fazer mudança?

Amanda Sindman: Aquilo que eu te falei. Eu comecei a sentir que tinha algo estranho em mim na puberdade. E a festa de 15 anos era horrível. Olhava para as meninas, meu Deus, eu queria estar usando essa roupa. Sabe? Esse tipo de coisa. Então isso eu sempre tive. Até descobrir que ser gay e ser trans são duas coisas diferentes, demorou uns anos. Eu não vou saber precisar quantos. Eu lembro que teve uma matéria acho que foi de capa da Veja, isso há 20 anos atrás, não sei precisar quando, sobre comportamento, que entrevistava homens gays. E apareceu um cara lá, devia ter uns 30 e poucos anos na época, cabelo bem penteado, de terno, tu olhava para ele, dizia que era um homem. “Não, eu tenho namorado”. Daí perguntaram para ele. “Tu nunca quis ser mulher?”. “Olha, eu já pensei se era isso que estava acontecendo comigo. Mas cheguei à conclusão que não”. E aí começou a ter essa diferenciação. O que eu quero ser, e quem eu quero pegar, digamos assim.

Então, foi aí que começou. Quando eu tive minha primeira experiência, beleza, eu posso ser um gay. Foi o que eu pensei. Mas não, não deu certo. Tanto que eu tive uma outra experiência heterossexual, e tudo. Até eu conversei com uma prima minha há um tempo atrás, ela me perguntou justamente isso. Por que que tu namorou uma menina, se tu sabia que não era o que tu queria?

Luciano Pires: A próxima pergunta que eu faria, é essa.

Amanda Sindman: Eu vou te falar a mesma coisa que eu falei para ela. Eu tentei, sabe. Vamos ver, talvez eu só precise de uma experiência.

Sabe? Talvez, é só confusão.

Luciano Pires: Que eu acho que deve ser normal, com quase todo mundo.

Amanda Sindman: Hoje em dia, todo mundo. Hoje em dia, todo mundo experiência.

Luciano Pires: Deixa eu me dar uma chance de ver se muda alguma coisa.

Amanda Sindman: Sim. Hoje em dia, todo mundo experimenta alguma coisa nova. Só que as minhas demoraram mais tempo.

Então, eu to na casa dos meus avós, não sei o que fazer da vida, decido sair do armário como trans. O que que eu vou fazer? Primeira coisa que eu vou fazer, é ir atrás de terapia especifica. Fui atrás de um psiquiatra.

Luciano Pires: Em Passo Fundo?

Amanda Sindman: Passo Fundo.

Luciano Pires: Você tinha estudado alguma coisa sobre trans? Tinha conversado com alguém trans?

Amanda Sindman: Eu tinha conversado com esse meu melhor amigo já.

Luciano Pires: Que é gay, que não é trans.

Amanda Sindman: E ele é médico, então ele já tinha conhecimentos maiores sobre o assunto, porque ele estudou por ele também, estudou as próprias características. Então, a gente já tinha abertura para isso.

Luciano Pires: Você entendeu onde que você tava mexendo? Você sacou o tamanho da encrenca que viria pela frente?

Amanda Sindman: Mas é aquela coisa. Eu sei que não vai dar coisa boa, mas, eu já to numa posição que não tá dando coisa boa.

Luciano Pires: Você deu a título o que você falou, não tinha nada a perder.

Amanda Sindman: Vamos atrás. O pior que vai acontecer, é não dar certo. E se não der certo, ninguém vai ficar sabendo. Eu fui atrás de um psiquiatra, comecei a tomar remédio antidepressivo.

Luciano Pires: Lá em Passo Fundo. Então você foi ao psiquiatra para tratar depressão?

Amanda Sindman: Da depressão também.

Luciano Pires: Nada a ver com a questão da mudança?

Amanda Sindman: Não. Porque depressão, é uma coisa que eu já estava encarando há 10 anos. Desde que eu voltei de Porto Alegre.

Luciano Pires: homem, mulher, não importa.

Amanda Sindman: Aí eu peguei uma psicóloga que já tinha experiência nesses assuntos, de transsexualidade.

Luciano Pires: Em Passo Fundo.

Amanda Sindman: Os casos em Passo Fundo, em comparação, são bem poucos. Porque a estimativa, é que 0,06% da população seja transexual. Então passo fundo tem 180 mil habitantes, é 18 pessoas. Por aí. Tem um grupo de transexuais da cidade, dá umas 30, sabe? Então, deve ser por aí.

E aí, a primeira coisa que ela me fala, é, tudo bem, nós vamos tratar sua transsexualidade. Só que, antes de tu entrar em qualquer regime de hormônio, qualquer mudança física, a melhor coisa que tu tem a fazer, é tratar todos os seus problemas que tu tem pendentes. Porque, se o que tu tem não é disforia de gênero, é outra coisa, tratando disso, vai aliviar a disforia, e tu não vai fazer um tratamento que tu possa se arrepender depois.

E, se tu tiver disforia, e for para o tratamento, tratando disso antes, vai ser mais fácil que tratar depois.

Luciano Pires: Nós estamos em 2016. A disforia de gênero já estava estabelecida? Já se sabia, já tinha literatura a respeito, para você conversar? Você podia ir para a internet, e descobrir o que estava acontecendo.

Amanda Sindman: Sim, só que o problema é o seguinte. Disforia de gênero, tem muita literatura. Essa literatura não é conclusiva. E o que tem, ninguém sabe o que que é. Porque assim, uma das ideias que a gente tem, no imaginário popular, é que a pessoa acorda um dia e diz, vou ser mulher. A partir de agora, eu sou mulher, não quero que ninguém me trate, contrário que me tratar, é transfobia. Não funciona assim. O momento que tu entende o que tá acontecendo, é noite sem dormir, é choro sem saber porque, ver as coisas acontecerem diferente do que tu espera. Não é feliz. Não é uma coisa que tu sai correndo feliz, “eu sou trans, que bom”.

Eu vou voltar nosso depois, porque eu tinha 2 problemas nessa época, que eu tinha que tratar. Primeiro, era a relação com meu pai. Meus pais se separaram, em 2007, na época que eu estava em Porto Alegre, porque minha mãe pegou meu pai com outro homem na cama.

Luciano Pires: Seu pai adotivo?

Amanda Sindman: Meu pai adotivo.

Luciano Pires: Foi descobrir tardiamente, ou não, que gostava de… que era bi, alguma coisa assim.

Amanda Sindman: Aí eu ouvi historias assim, da minha mãe falando que o casamento dela foi forçado, agora ela entendia porque. Que a minha avó já falecida, descobriu, sabia disso e forçou meu pai a casar, para não dar problema para a família, esse tipo de coisa. Até onde isso é verdade, eu não sei, e também não estou aqui para julgar.

Luciano Pires: E também não teve nenhuma influência na sua educação? Nada do que você…

Amanda Sindman: Não sei, porque meu pai, o adotivo, ele era meio distante. Sabe? Para mim, criança, aquilo é normal. Pai é distante dos filhos, sabe? Minha mãe pegava muito no meu pé. Educação, essas coisas. Mães são assim. Eu não tinha essa experiência de outro pai, outra mãe.

Luciano Pires: Quer dizer, você derruba qualquer explicação de que houve um modelo que você seguiu, que te influenciou. Aquela história. Um casal gay educando uma criança, ela necessariamente vai virar gay. Tem uma conversa assim. Isso não é assim, não é assim que funciona, e você não teve ninguém te pressionando para te empurrar para qualquer direção?

Amanda Sindman: Não, até porque meu pai estava num armário maior do que o que eu estava, né? Só que ninguém sabia.

Então, a gente tinha brigado, nem foi por isso, foi por outros motivos. A gente brigou, a gente não se falou mais. Então minha psicóloga falou, se ajeita com seu pai. Não tem porque ficar…

E outra coisa, foi justamente essa questão da família. Vai atrás da sua família biológica. Porque talvez o seu grande problema, esteja escondido aí, nesse trauma de infância, e tu vai resolver, vai ser uma pessoa feliz, não vai precisar de tratamento. Eu fui. O nome da minha mãe biológica, não ficou registrado nos anais do hospital. Por sorte, meu pai anotou todos os dados que ele tinha, e me passou.

Aí nesse meio tempo, fui falar com ele, a gente se encontrou, tomamos um café e ficamos de boa.

Luciano Pires: Vocês tinham brigado por que?

Amanda Sindman: Questão de trabalho. Eu estava estressado no trabalho, sabe. E meu pai sempre foi impulsivo. E ele queria… um dia eu tive um surto depressivo. Meu pai queria me jogar no trabalho, eu tenho um ataque. Eu não quis. A gente parou de se falar. Em resumo.

Aí beleza, peguei o nome da minha mãe, peguei todas as informações, vamos atrás. Agora, hoje em dia tem internet. Tu joga o nome da pessoa, aparece.

Luciano Pires: No mínimo você vai achar um processo contra ela, alguma coisa na justiça, tem jeito de começar a procurar.

Amanda Sindman: Então, eu cheguei no Google, digitei o nome da minha mãe biológica, nada. E agora? Então vamos começar a lidar com as possibilidades. Primeiro, é um nome falso, não tem registro, tá incompleto, vamos ver. Fiquei 1 semana procurando isso, as anotações. Tinha nome do meu avô também, nada, tá. A cidade que tinha, ela tava registrada como sendo de Palmeira de Missões. Todos os dados, eram inconclusivos.

Bom, eu sou jornalista, né? Vamos fazer o que o jornalista faz de melhor. Abri o Facebook, digitei o sobrenome dela, Palmeira das Missões, aquela lista enorme de pessoas, abri uma por uma, e fui colando. Meu nome é tal, to fazendo tal coisa, to procurando fulano de tal, qualquer informação vai ser boa. Umas 50 pessoas. Nada. Vamos tentar outra coisa.

Nesse meio tempo, minha avó quebrou o braço. Ela tinha problema de equilíbrio, e ela quebrou o mesmo braço pela segunda vez, no mesmo lugar. Não tinha conserto. Tivemos que por uma prótese. A prótese dela infecionou, ela teve infecção generalizada, e morreu por causa disso. Isso tudo foi ao longo de 6 meses. Mas quando ela teve isso, parou tudo da vida de todo mundo. Eu, minha mãe, meu avô, todo mundo parou tudo para cuidar dela. Foi horrível, porque eu passava noites no hospital dormindo com ela. Ela não tinha controle, defecava de madrugada nas fraldas, tinha que chamar o enfermeiro. Não tinha cama para dormir, tinha que dormir nos sofás, e eu fazia isso, minha mãe fazia isso, a gente se alternando.

Depois ela entrou em coma permanente, e não voltou mais. Isso foi indo, 6 meses.

Nesse meio tempo, nada, não aconteceu nada em questão de família. Eu não fui atrás, minha vida praticamente parou. Eu ficava em casa, escrevia para a Globo e cuidava da minha avó. No dia que ela morreu, agora fez 2 anos, foi dia 22 de abril, era um sábado, eu estava no velório dela, recebo uma mensagem de uma das pessoas que eu tinha entrado em contato lá meses antes. “Olha, essa pessoa que tu procura eu não conheço, mas o nome do pai dela, é o nome do meu tio. Então, eu vou te passar um contato, que pode ser que seja quem tu tá procurando”. Esse contato depois eu fui descobrir, era da minha tia biológica. Eu dei sorte. Quando aconteceu aquilo eu não acreditei, tá sendo muito fácil. Eu pensei que ia passar meses procurando, seguindo pista. Não, dei sorte, e chegou ali.

Aí contei minha história para a minha tia. Na época eu não sabia. Ela não, eu vou ver. No outro dia… isso conversando tudo, demorou 2 meses. Dia 22 de julho 2017, minha tia chegou para mim, olha, eu conversei com a minha irmã, que é sua mãe, ela confirmou a história, e tu tem mais 7 irmãos. Então, da noite para o dia, caiu 7 irmãos, 1 avô, 2 avós, mais uns 4 tios e tias no meu colo, tem que lidar com toda essa gente.

Luciano Pires: Onde? Em Palmeiras?

Amanda Sindman: Meu avô mora em Três Passos, que é peto da fronteira com Santa Catarina e Argentina. A minha mãe morava em Porto Alegre. Eu tenho uma irmã, que mora em Capão da Canoa, que é praia. E ela morava perto de onde eu passava veraneio quando era criança. E o que mais me surpreendeu, eu tinha uma irmã, que ela mora em Ijuí hoje, e ela também foi abandonada. Ela tinha encontrado a família 6 meses antes?

Luciano Pires: Outar família?

Amanda Sindman: A mesma família que eu.

Luciano Pires: Então, essa irmã sua, foi adotada por aquele casal?

Amanda Sindman: Não, uma irmã biológica que também foi abandonada.

Luciano Pires: Pela mesma mãe que te abandonou?

Amanda Sindman: Mesma mãe que me abandonou.

Luciano Pires: Abandonou 2 filhos?

Amanda Sindman: Mais. Ela abandonou meu irmão mais velho, isso em Palmeiras das Missões mesmo. E deu a sorte de uma das enfermeiras, ser amiga da minha avó. Então ela conseguiu ligar para a minha avó ir lá, resgatar meu irmão. E foi minha avó, que criou meu irmão. É complicado.

Luciano Pires: E você vai lá e se apresenta para a família, aquela sua nova família. Aqui estou eu. Não sei bem se sou João.

Amanda Sindman: Não, não foi bem assim. Quando eu comecei isso, eu meio que parei com a disforia. Pô, tem 10, 20 pessoas novas para conhecer. Aí a disforia tá indo, tratamento tá indo. Mas eu tenho que me concentrar nessas pessoas agora. Eu fui conhecendo, tirei tempo para conhecer todos os meus irmãos. Desses 7 irmãos, eu conheci 6 nesses últimos 2 anos. O que falta, me bloqueou. Que é uma história bem complicada. A última pessoa que eu fiz questão de conhecer, foi minha mãe. Antes disso, eu conheci todos os irmãos que eu consegui. Uma vez eu fui para Porto Alegre só para conhecer um irmão meu. Não falei com a minha mãe, e cheguei lá de surpresa também. Porque ele ia avisar a mãe, ela ia lá me ver, eu não queria isso. Conheci minha irmã de Ijuí, a gente tem o mesmo trauma, e ela se tornou minha melhor amiga nesses últimos 2 anos. Tanto que, ela tava até hoje lá em casa. Eu vim viajar, deixei ela em casa. Que ela teve uns problemas com o sogro, ele estava internado. Não, tu vai ficar aqui em casa. A gente se aproximou muito.

Luciano Pires: Você estava buscando então quem sabe um gancho na família.

Amanda Sindman: É, deu sorte, sabe, porque eu tenho trauma. É um trauma difícil de explicar para as pessoas. Que tu fala uma coisa, e a pessoa vai te milhões de perguntas que tu não sabe responder, que vai contra o pensamento comum. Com a minha irmã, eu falo as coisas, ela entende, ela fala, eu entendo. Não tem que detalhar. E foi da mesma pessoa, isso era inesperado, sabe? Ninguém poderia esperar isso. Então a gente fechou muito, sabe? Tanto que não fui eu que fui ver ela. Foi ela que veio me ver. Acho que foi um dos dias mais felizes da minha vida, o dia que eu conheci minha irmã. Ela vai ouvir isso depois, vou morrer de vergonha.

Luciano Pires: Por que? É uma forma de você dizer a ela, o quanto você a ama.

Amanda Sindman: É que assim, aquilo que eu te falei. Por causa da disforia, eu sempre tive dificuldade até de me expressar. Isso é uma das coisas que o tratamento melhorou. Eu já to conseguindo falar isso para ti de boa. Mas assim, essa questão da disforia, eu contei para 2 pessoas só da família. Essa minha irmã, e outra irmã que depois chegou a me bloquear. Que ela também tinha os problemas dela com a família tudo, que é coisa dela, não me convém ficar falando. Foram só para essas duas.

O resto, só foi descobrir agora, início do ano, quando eu comecei a mexer com os documentos.

Então isso acontece metade de 2017. Quando tava chegando 2018, eu tive um problema com a minha terapeuta, eu troquei de terapeuta. E nesse meio tempo, tinha aberto um ambulatório de LGBT na cidade. E lá tinha tudo, tinha terapeuta especializado, psiquiatra especializado, o endocrinologista, que é importante. Sem isso, eu teria que ir para Porto Alegre uma vez por mês. Então eu fui lá, agendei consulta, enquanto eu estava esperando o (inint) [00:58:10.13] me bater. Será que isso mesmo que eu quero?

Luciano Pires: Então, você começou um processo de…

Amanda Sindman: Aí sim ia começar a terapia mesmo.

Luciano Pires: Para terapia de mudança de…

Amanda Sindman: Remédio.

Luciano Pires: Ok.

 

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Quando é que você decidiu que você ia por esse caminho? Porque eu tenho a impressão, de novo, no auto da minha ignorância, que esse caminho, é um caminho que não tem volta. Você entrou, ele não volta mais. Então por isso que se discute tanto, com que idade que deve se começar a pensar nisso. Quando foi que você… eu vou seguir a receita da sua terapeuta. Resolve teus problemas. Então você foi lá, resolveu, a família, se reatou com seu pai, etc. e tal. Depois de tudo isso feito, falou bom, fiz tudo isso aqui, e eu vou para o caminho da…

Amanda Sindman: O caminho eu já tinha decidido em 2016. Só que mesmo que tu devida pelo caminho, o pré-requisito é 2 anos de terapia, antes de começar. Então assim…

Luciano Pires: Tria que ter os dois anos de qualquer forma.

Amanda Sindman: Teria que ter de qualquer maneira. Não era só chegar lá, e me dá remédio.

Mas tava chegando a hora. Começou aquela, será que é isso? Sabe? E faltava o elemento principal. Faltava alguma coisa para mim, para eu ter certeza. Que depois eu descobri, era minha mãe, minha mãe biológica. Então, no início de 2018, eu fui para Porto Alegre conhecer ela. Então finalmente, depois de muito tempo, sentei cara a cara com a pessoa que tinha me abandonado. Eu não sei direito explicar como é que foi, sabe? Mas é muito estranho, porque é alguém que conscientemente não te quis. E tu vai atrás da pessoa.

Ela conversou comigo, contou a história de todo mundo, me contou uma parte da história dela. Não entrou no ponto do que aconteceu comigo.

Luciano Pires: Não pediu desculpa, não se justificou?

Amanda Sindman: Não.

Luciano Pires: Nada?

Amanda Sindman: Não. A única coisa que ela disse, que eu lembro agora, é, te vendo assim, eu sei que eu acertei quando eu te dei. Que de certa forma, não é bem assim.

Luciano Pires: A gente não sabe do que tá em volta, talvez até pode ser sua sorte isso ter acontecido.

Amanda Sindman: É difícil de contar a história que não aconteceu, né? Mas o que que é o célere da questão? É uma decisão que altera sua vida, que tu não escolhe. Sabe? Então talvez a minha vida, se ela tivesse me criado, teria sido mil vezes mais difícil, sabe?

Luciano Pires: Ou não.

Amanda Sindman: Ou não. Mas eu não teria esse trauma. Eu seria uma pessoa diferente. Então é fácil dizer não, tu foi criado por uma pessoa com mais poderes aquisitivos. Não, mas o preço disso que eu paguei. E é uma coisa, que minha irmã sofreu a mesma coisa.

Luciano Pires: você tem certeza se sua mãe tivesse criado você, você não teria a disforia?

Amanda Sindman: Não, não posso afirmar isso. O que eu digo, é algumas situações que aconteceram na minha vida, poderiam não ter acontecido. Ou análogas, sabe, por não ter acontecido mesmo. Da disforia, é difícil de dizer, porque não se sabe exatamente a origem da disforia. A suposição é que seja um pouco de fatores genéticos, e um pouco do fenótipo, do ambiente. Mas não se tem 100% certeza.

Então aí estamos em 2018, eu conheci minha mãe, a gente meio que… não vou dizer botou pratos limpos, mas, meio que organizou minha cabeça. Sai de lá, beleza, agora posso tomar remédio. Aí eu fui para o ambulatório, contei minha história, o que eu to fazendo aqui, e a medica me encaminhou para o endócrino, e eu comecei. Comecei dia 20 de março de 2018, faz 1 ano, 1 mês e alguns dias.

Luciano Pires: Você, para começar, você precisou assumir umas responsabilidades, precisou ter assinado algum papel? Deve ter…

Amanda Sindman: Sim, assina papel. Porque assim, não existe remédio para troca de sexo. O que existe, são remédios usados para tratamento de doenças que quando usados em conjunto, os efeitos colaterais deles, causam o efeito desejado de mudança de características secundárias. No caso, eu tomo 3 remédios, que é hormônio propriamente dito, que é uma injeção na bunda há cada 2 semanas. Eu tenho que tomar um redutor de testosterona, e tem que tomar um diurético, porque a combinação desses remédios, retém água.

Luciano Pires: A combinação retém agua. Eu imagino que esses remédios combinados devem ser uma bomba, e que deve ter efeitos colaterais, tira você do trilho.

Amanda Sindman: Eu to usando eles pelos efeitos colaterais. Porque o remédio que eu uso para reduzir testosterona, ele é usado em tratamento de homens com produção excessiva. Qual é o efeito colateral dele? Ele diminui o tamanho da genitália, acaba com o desejo sexual, a terapia essa, é semelhante ao usado na castração química. Esse remédio, a ciproterona que eu tomo, é o mesmo usado na castração química. Então, na pratica, eu to tomando um processo de castração química. Só que qual a diferença? A castração química é temporária. Parou de usar o remédio, volta. Só que eu to tomando estrogênio. O estrogênio causa, castra mesmo, causa… ele deixa a pessoa estéril. O estrogênio esteriliza. Uma vez que tu começa o tratamento, tu tem 4 meses para parar, sem efeitos colaterais. Como eu comecei muito tarde, depois dos 28, ele é mais lento. Então, tive uns meses a mais, mas já foi, já passou.

Eu não posso falar pelos outros, mas, para mim, foi a melhor coisa que eu fiz.

Luciano Pires: Vamos elaborar isso.

Amanda Sindman: Primeiro, efeito colateral.

Luciano Pires: Tem um armário para você sair. De um lado, você tá cuidando de se preparar, etc. e tal, mas, houve algum momento, vamos falar da parte social. Você teve que sair do armário para a sua família, para seus amigos, etc. e tal. Houve algum momento que isso aconteceu, você tomou a decisão de fazer isso em algum momento, como que foi?

Amanda Sindman: Alguns amigos sabiam, mas, eu mantive a informação bem poucas pessoas. No momento que eu peguei o primeiro remédio, eu já fui falando, um por um. “Tá acontecendo tal e tal coisa, tá acontecendo tal e tal coisa”. Beleza.

Luciano Pires: Vou virar mulher.

Amanda Sindman: Eu nunca usei esses termos.

Luciano Pires: Mas eu imagino o nível de cuidado que você tem que ter, para elaborar esse tipo de pensamento, sem que a pessoa te olhe na cara e fale, “esse cara está louco. Esse maluco enlouqueceu de vez. Interna esse sujeito, porque ele está completamente louco”.

Amanda Sindman: Aí, nesse momento que a gente descobre a essência das pessoas. Eu tive um amigo, amigo há 20 anos, eu tive junto quando ele conheceu a mulher dele, tive junto quando ele pediu ela em casamento, em namoro, noivado, tudo. E eu só fui conversar com a mulher dele, que é muito minha amiga também. E contei tudo que tava acontecendo. Ela tá, acabei de falar para o meu marido, e ele falou que é para tu vir aqui em casa comer estrogonofe. Sabe? Não tava nem aí.

A primeira vez que eu saí, já de mulher mesmo, foi ela que me arrumou, me ensinou maquiagem, tudo. Eu tava me trocando no quarto dela, o marido dela entra para falar comigo, esqueceu, e eu morrendo de vergonha, botando vestido, ele entra, começa a falar comigo como se nada tivesse acontecendo, tivesse normal.

Luciano Pires: O que para você deve ter sido sensacional.

Amanda Sindman: Nossa senhora, foi uma experiência incrível.

Luciano Pires: De novo, aquela pessoa solitária, que durante aquele tempo todo sofreu, agora tinha suporte de 1, 2, 3. Isso faz toda a diferença.

Amanda Sindman: Sim. Eu tive um amigo, quando eu contei para ele, ele falou tá, então a partir de hoje, ao invés de te chamar de retardado, eu vou te chamar de vagabunda. E continuou tirando sarro. Então, os teus amigos de verdade, não estão nem aí. Eles querem estar contigo por outro motivo. Claro, que nem tudo, é positivo.

Eu tive um caso, um outro conhecido meu, conhecia há 10 anos, nós estávamos em uma festa juntos, ele chegou para mim, olhou e disse, eu respeito duas decisões, mas eu não quero que tu de em cima de mim. Do nada, eu nem tinha conversado com ele. Eu tá, mas eu não dei em cima de ti. Acho bom, fica longe. E nisso a gente estava no carro voltando para casa, que a gente tinha conseguido carona. Eu olhei para ele, vou falar o que? Só que ele estava com uma cara agressiva para mim.

Luciano Pires: Você não é meu tipo.

Amanda Sindman: Eu olhei para ele, tu para de falar essas coisas para mim, porque se tu não parar, eu vou pôr a mão na sua coxa. E ele parou.

Luciano Pires: Deixa eu perguntar uma coisa aqui. Vamos voltar de novo na elaboração do aspecto social da coisa. Você se organiza, etc. e tal, começa o processo, e chega um momento em que você precisa demonstrar socialmente que você mudou. E aí bem aquela história, vou me arrumar pela primeira vez, botar uma maquiagem, vou sair na rua não mais de Joao, vou sair de Maria. E botei um vestido, e nunca saí na rua de vestido. Por mais que você falasse, é isso que eu queria. Mas tem… Como é que você processa isso? Eu imagino que deva ter alguns momentos que são chatos, sabe? Momento que eu falo para a família, momento que eu tomo a decisão, momento que eu assino um papel dizendo assim, Ok, entrei. São momentos-chave. E acho que esse momento de você se montar, porque montar… mas de você se vestir pela primeira vez com outro sexo, e sair na rua, mostro a vocês quem eu sou de verdade. Deve ser um momento de… eu não sei nem descrever. Como é isso?

Amanda Sindman: Quando eu saí da minha amiga, eu peguei… não era um Uber, mas um similar. O motorista entrou, não sei se ele não viu, ou fingiu que não viu, porque era noite. Mas ele me tratou como mulher, de boa, foi conversando. Eu, meu Deus, isso não tá acontecendo. Eu não to acreditando no que tá acontecendo.

Luciano Pires: Que alguém me chama de mulher.

Amanda Sindman: Tá me tratando como mulher. Então, foi maravilhoso. Eu queria repetir aquela experiência todo dia, depois daquilo. Mas foi saindo assim, foi aos poucos. Minha mãe tem um cachorro, e quando ela vai viajar, ela deixa o cachorro comigo. E uma das minhas tarefas, óbvio, é passear com o cachorro. Um dia, beleza, tem que sair com o cachorro, me maquiei, me arrumei, fiz o cabelo, saí com o cachorro. Eu tremia na rua de medo das pessoas. E não aconteceu nada, sabe, mas no início era assim.

Luciano Pires: O que que estão vendo quando olham para mim? Eu não sei. Você sabia o que você era, você se viu no espelho, mas não sabia o que o povo ia ver, né?

Amanda Sindman: Não. Não sabia. As primeiras vezes foi assim, sabe? Eu tenho uma amiga que mora em outra cidade, e ela teve um surto depressivo. Falei para ela, não, se tu tá mal, vou aí te ver. E fui passar um fim de semana com ela. A ente saiu jantar. Eu me arrumei para a gente sair. Saímos, fomos no restaurante, entrei no restaurante, quando eu piso no restaurante, pá, o restaurante inteiro se vira para me olhar. Cidade menor ainda. Eu, o que que eu vou fazer agora? Ergui a cabeça e fui caminhando normal.

Luciano Pires: Por que que o restaurante olhou para você?

Amanda Sindman: Eu estava de vestido.

Luciano Pires: Mas eles sabiam? Não faziam ideia de que aquela figura que entrou, ninguém conhecia.

Amanda Sindman: Ninguém conhecia, era outra cidade.

Luciano Pires: Tá. Mas, aquela figura, despertou o que? É um homem vestido de mulher?

Amanda Sindman: Isso faz alguns meses. Tipo, meu rosto hoje, já tá com mais traços femininos, porque eu não tinha tanto. Então talvez seja por isso. Mas, eu não sei o que as pessoas veem, quando me olham na rua. Antigamente eu me incomodava mais, ficava pensando. Hoje em dia, não me estresso tanto. Mas aconteceu aquilo. Eu tá, não poso fazer nada. Caminhei normal, pedimos as coisas. E uma coisa que eu notei. Restaurante, comércio, essas coisas, as pessoas te tratam bem, não tem problema. Nunca me estressei em restaurante, sabe, com…

Eu saí, fui em uma boate no início do ano. Eu não costumo fazer. E pediram minha identidade. Eu não tinha trocado naquela época. Eu fui alcançar para o segurança, antes de mostrar para ele, olha, eu vou te mostrar, mas é totalmente diferente. Ele começou a rir, não, não tem problema, viu, entra, não tem…

Luciano Pires: É, do jeito que tá hoje, é até bom para ele, entra, e vou contar para todo mundo que tá aqui. Deixa eu te perguntar uma outra coisa aqui. Nesse seu processo da transição, quer dizer, você começa com processo químico. Vai surgir em algum momento, a hora de você fazer a mudança do seu nome oficialmente. E para fazer, acho que tem alguns requisitos. Eu não posso chegar lá, e mudar, não quero ser Luciano, agora sou Maria, e porque eu quero, acontece. Não.

Amanda Sindman: Pode.

Luciano Pires: Eu posso fazer isso?

Amanda Sindman: Pode.

Luciano Pires: Inclusive, eu achei que podia mudar meu nome, de homem para homem. Mas, não de homem para mulher.

Amanda Sindman: Não, tu pode de homem para mulher, mas não pode de homem para homem. É pior ainda.

Luciano Pires: Eu não posso mudar de Luciano para Jorge, mas posso de Luciano para Maria?

Amanda Sindman: Pode.

Luciano Pires: Puta, como eu to muito ignorante nessa história toda.

Amanda Sindman: Mas isso é uma coisa que eu também fui descobrindo agora. Não faz muito. O que que acontece? Antigamente, tu tinha que entrar com processo judicial, provar que tu tava vivendo com outro sexo, provar que era importante para ti.

Luciano Pires: Eu me lembro disso tudo.

Amanda Sindman: Ano passado, não vou saber te precisar quando, baixou uma resolução do STF. Qualquer pessoa pode exigir a mudança, apenas declarando ser transexual. Não é necessário comprovação do tratamento hormonal. Aí que mora o problema. Então, se tu chegar lá no cartório hoje, eu quero mudar, eles vão mudar para ti.

Luciano Pires: De barba…

Amanda Sindman: Se tu chegar de barba, vestido de lenhador, com um machado nas costas, e dizer que sou Joana, eles vão trocar.

A única exigência que eles fazem, é mais burocrática no caso, é certidão para provar que tu tá com nome limpo. Tendo nome limpo, tu troca.

Luciano Pires: Bom, na sequência então, você trocou teu nome, você tem um documento hoje de mulher.

Amanda Sindman: Tenho.

Luciano Pires: E fala para mim com sorrisão no rosto. Vocês não tão vendo. Ah, to filmando, vai dar para ver o sorriso. Ela fala tenho, com sorriso no rosto. Isso para você, como foi aquele momento, que você pega um documento na mão, dizendo que finalmente eu sou quem eu achava que eu era. Tirei um peso, me encontrei. Aconteceu isso? Tua depressão desapareceu?

Amanda Sindman: Aconteceu isso. Não, porque aí é outra história, tá? Aí a depressão continua. Aí nós vamos entrar mais na ciência. Eu vou pedir licença, para começar a entrar na ciência. O que que acontece.

O que que é um home, o queque é uma mulher? Pergunta básica, que a gente não costuma se perguntar isso. O que que é um homem, o que que é uma mulher? Por que que existe sexo, gênero, por que que existe isso? Se eu parar para ver, a literatura médica comprova. Diforismo sexual, que é masculino e feminino, é especialização do corpo, para certas tarefas. Pega um caracol, caracol é hermafrodita, masculino e feminino ao mesmo tempo. Mas a vida de um caracol é mais simples que a de um mamífero. Agora, vamos voltar no tempo. Os primeiros homens, as primeiras organizações tribais. Como é que funcionava? Tem a mulher, e tem o homem. A tarefa do homem, é coletar comida, garantir sobrevivência da tribo. E como é que funciona sobrevivência? Reprodução. E a tarefa da mulher, é gerar vida. Então a gente fala cavalheirismo. De onde vem o cavalheirismo? O homem reconhece na mulher o papel importante, de criar a vida, e se prostra para receber os perigos. O homem sai caçar, que é perigoso, enquanto a mulher tá tranquila.

Isso bem lá de trás, essa especialização. Para que que serve sexo? Reprodução. A função do homem, reprodução, é dar material. Uma vez que ele dá material, ele tá livre para ir caçar de novo comida. A mulher não, uma vez que ela tá grávida, ela tem que receber cuidados. E daí que vem toda nossa organização tribal, que vai evoluir na civilização de hoje. E o que que acontece? A civilização no geral, vai ficando mais segura, mais segura. O papel da caça, enquanto caça, não é mais necessário do jeito que era antes. Então se antes de caçava comida, hoje eu caço dinheiro.

Como eu não preciso mais me preocupar hoje em sobreviver até de noite, antigamente eu precisava, eu posso me dar ao luxo de cogitar outras coisas. Como por exemplo, disforia de gênero. Disforia, que é o termo médico que a gente usa para transexualidade, não é uma coisa que aconteceu hoje. Não apareceu há 10 anos atrás. Ela sempre existiu. Só que, ela começou a ficar comum, ela começou a ficar mais vista na sociedade.

Luciano Pires: Quer dizer, quando você fala que ela fica comum. Ela começou a ficar mais familiar, porque eu não sei se aumentou o número de pessoas que tem a disforia. Talvez percentualmente, em relação a história da humanidade, seja… sempre foi igual. Agora, a sociedade reconhece, e começa a tratar isso.

Amanda Sindman: É que nem autismo. Autismo antes, existia, mas ninguém sabia o que que era.

Luciano Pires: Tinha qualquer nome. Se falava qualquer coisa.

Amanda Sindman: Qualquer coisa, menos autismo. Mesma coisa hoje, com disforia de gênero. Qual é o grande problema de disforia de gênero hoje? Politização.

Luciano Pires: Então, agora estamos chegando na parte que o bicho vai pegar. Deixa eu ver se eu esgoto o assunto. Então estamos aqui diante da… vou continuar usando Amanda, tá? Que é nome de…

Amanda Sindman: Que todo mundo conhece.

Luciano Pires: De Amanda. Então estamos aqui diante da Amanda, que tomou há 3 anos a decisão de fazer a mudança, tá feliz, foi a decisão acertada.

Amanda Sindman: Para mim sim.

Luciano Pires: Você está lidando bem com essa mudança. Seu entorno social, aceitou. Você não tá sofrendo preconceito, você não tá sofrendo nenhum tipo de problemas de retaliação por ter tomado essa decisão?

Amanda Sindman: Teve o caso que eu te contei, né? E teve outros parecidos. Mas assim, o preconceito, ele existe. Não vou dizer que não. Longe de mim. Só que, ele não é isso que muita gente alarda. Que qualquer coisa é preconceito, não sei o que, todo mundo transfóbico, não. Tu vai vendo as discussões, a pessoa falou transfóbico, tu sabe que não é para prestar atenção. É reducionismo.

Luciano Pires: Vira que nem fascista. Vira um carimbo, que serve para qualquer coisa.

Amanda Sindman: Discordo de ti, vou te chamar de transfóbico. Sabe? Mas, o que que acontece? O cérebro da pessoa, independente se homem ou mulher, quando ela conhece alguém, ela classifica como homem, ou como mulher. Quando tu conhece alguém, ou uma pessoa trans, o seu cérebro quer saber, onde eu coloco? E muita gente se ofende com isso.

Luciano Pires: Isso durante um bom tempo, foi utilizado como uma arma maravilhosa. Eu me lembro quando David Bowie surgiu, que ele assumiu uma atitude andrógena, durante um bom tempo ninguém sabia. E esse não saber, criava uma situação que tudo o que ele conseguia, é que ninguém ficasse indiferente. Ele entrou na sala, todo mundo parava, porque como é que eu classifico aquilo?

O Prince, surgiu o Prince, e você olha, o que que é aquilo? Homem ou mulher? Eu não sei.

Amanda Sindman: É neurológico, o cérebro precisar por.

Luciano Pires: E as pessoas usam isso como uma arma. Então, vou usar essa incomodação, para fazer meu marketing, e aí vou fazer a coisa acontecer. E no mundo das artes, isso é muito comum. Sempre se usou essa história do transvestido, o homem de mulher, a mulher de homem. E isso sempre foi uma arma, que quando você traz para o seu dia a dia, põe na sua frente, tá sentado conversando comigo aqui, começa a dar um nó na cabeça. Você chegou ali, vou te chamar de ele ou ela? Claro que é ela, né? Porque, já entendi sua decisão, você já assumiu, é ela.

Nós brincamos aqui no começo, só para vocês saberem. Quando eu comecei o programa, eu falei, o bichinho tá nervoso aqui. Eu não falei o bichinho no sentido masculino, eu falei o animalzinho. Você tava tremendo na minha frente, suando.

Amanda Sindman: O calor de São Paulo.

Luciano Pires: eu falei cara, ela tá apavorada. Quando eu falei, pô, bichinho não vai dar certo. Vão achar que eu chamei de bicho masculino. Aí eu alei, a bichinha. Que eu também não sei se vai dar certo.

Amanda Sindman: Aí é que tá. Tem uma diferença muito importante, entre a pessoa que erra sem querer, confundiu. E a pessoa que tá fazendo isso para te atingir.

Luciano Pires: Te ofender.

Amanda Sindman: Tem muita diferença. E tu sente.

Luciano Pires: Que é aquela história de, a diferença do preconceito, para a discriminação. Quer dizer, preconceito todo mundo tem um monte, não adianta, todo mundo tem um monte. E eu guardo na minha cabeça, e lido com eles. Algumas soltam o demônio, e vira discriminação, né? Eu vou usar esse meu preconceito, para te ofender, para te atacar, simplesmente pela decisão que você tomou, que não tem nada a ver com isso.

Amanda Sindman: E tem gente que força isso. Teve um caso de um vídeo, agora no início do ano, um vídeo que foi divulgado de uma transexual no Canadá, que ela tá numa loja, e o atendente trata ela pelo masculino.

Luciano Pires: E ela quebra a loja.

Amanda Sindman: E como é que você é respeitada assim? Não tem.

Luciano Pires: Então nós estamos batendo em um ponto, que a gente até passou por ele, no meio do caminho. Que é a questão do estereótipo, e daqueles que usam a caricatura. Quer dizer, eu uso o extremo oposto. Em um extremo, eu tenho o seguinte, eu tenho você, que é uma mulher prezando um corpo de home, vestida de homem, se comportando como homem, tomando maior cuidado para não deixar transparecer, porque sim você se protege, e vive a vida inteira assim.

No outro extremo, você tem aquele que é caricatura, que se pinta, se assume, faz a bagunça toda, que se é por motivos artísticos, eu até entendo. Tá fazendo a marca, tudo. Mas tem gente que não, que passou a usar isso aí, como forma de atacar a sociedade, né? E aí entra naquela coisa da política, da militância, e tudo mais.

Amanda Sindman: Entrou a militância, acabou.

Luciano Pires: Então, quando se cria uma situação que não há mais dialogo, é impossível ter dialogo, se você entra no esquema da militância não dá para sentar aqui, e dialogar. Entendeu? Porque eu vou ficar apavorado aqui, meu Deus, se eu falar alguma coisa errado, eu vou tomar porrada, porque tem um justiceiro social na minha frente aqui.

Amanda Sindman: Eu fui em uma palestra, que a gente é um grupo de apoio para pessoas trans, em Passo Fundo. E eu fui em uma palestra semana passada, uma das psicólogas do grupo, que ela deu uma aula para o pessoal da faculdade de psicologia, sobre como é atender as pessoas trans. E estava eu, e mais outras meninas lá. Uma coisa que dá para ver, é que as pessoas começam a medir palavras. E começa, como é que eu posso falar, e desculpa se eu te ofender. É a pior coisa. Tá, tudo errou comigo, continua, não precisa… Só que a pessoa fala, ele, desculpa, ele, desculpa, isso incomoda, porque tu vê que a pessoa, “não quero te ofender, não quero te ofender”, mas tu tá ali. Tá, eu sei que foi sem querer, eu não to te julgando errado, não to julgando uma pessoa ruim por causa disso. Não tem esse…

Luciano Pires: Eu imagino a doideira que é. Vamos voltar naquele ponto lá, então da politização. Tiffany, no vôlei, arregaçando. Para quem mora em Júpiter, e esteve em Júpiter nos últimos 2 anos, Tiffany era um jogador de vôlei, jogava vôlei profissionalmente, sem nenhuma grande repercussão, que se revela trans, muda para mulher, e passa a jogar vôlei feminino. E ao jogar vôlei feminino, vai parar na seleção brasileira, e tem números que são números fantásticos, quando comparado mulheres com mulheres. Aconteceu aqui no Brasil, a Tiffany que está jogando em Bauru, inclusive minha terra. Mas tem, isso tá acontecendo com a bicicleta, a campeã mundial de ciclismo que também é assim. Se não me engano aconteceu na natação agora. Tem acontecido no MMA, na luta, no UFC. Não sei se é UFC, mas, tem uma categoria em que tem um trans que entra para lutar com mulheres.

Amanda Sindman: Esporte escolar americano, tem acontecido muito.

Luciano Pires: Inclusive, eu ouvi que parece que na luta greco-romana, tem alguém que vai ser campeão mundial, que também é uma pessoa trans. E começou uma discussão muito grande agora, que é aquela história. Alguém que cresceu a vida inteira como homem, recebeu treinamento de homem, comida de homem, suporte de homem, porrada de homem, testosterona de homem, virou um adulto homem, e depois de transforma em trans, é possível brigar com uma mulher pau a pau?

Amanda Sindman: Tá, para começar isso, só quero dizer uma coisa. Não digam isso no Twitter, porque se vocês falarem isso no Twitter, vocês são banidos. Existem diferenças biológicas entre homens e mulheres. Básico, a gente tá falando demais aqui. A mulher, lembra, voltando para aquele aspecto tribal. A mulher não precisa de tanta força física quanto o homem. O homem precisa mais. Então, dado básico, os sexos vão se adaptando ao ambiente. Só que…

Luciano Pires: Deixa eu agregar uma coisinha com você aqui. Nós estamos falando de alguma coisa que tem milhões de anos. Que funciona com animal irracional, o seu macaco e a macaca. A macaca também cuida do filhote, enquanto o macaco está lá brigando com o tigre.

Amanda Sindman: Quero voltar nesse exemplo depois.

Luciano Pires: Isso, para não parecer que nós estamos querendo forçar uma… não, a gente tá falando da história da humanidade. Se isso vai mudar lá no futuro? Pode ser que mude. Mas, hoje, nós estamos contando uma história de…

Amanda Sindman: O cérebro humano hoje, funciona basicamente da mesma forma que aquela época. Então, nós pesamos como se tivesse uma sociedade tribal. Ponto, isso é fato. Então, o corpo, como é que funciona, a gente falando de diferenciação de sexo em termo de função. Mas como é que funciona isso no ponto biológico? A diferenciação. Eu vou dar uma diversa da, mas, eu volto para a Tiffany. Como é que funciona? O corpo, na concepção, ele é basicamente feminino. O que que vai fazer ele se tornar masculino, quando ele se torna masculino? O cromossomo Y. O cromossomo Y, tem um gene, que quando ele é presente, ele muda todo desenvolvimento do corpo, para se tornar corpo masculino. E aí vem a recepção da testosterona, tudo mais. Tanto que fazendo uma pausa, existem síndromes, que a pessoa é XX, mas é homem. Tu vê um homem. E tem síndromes, que a pessoa é XY, e é uma mulher. O que acontece, uma mutação do cromossomo X, que carrega esse gene. O gene do cromossomo Y, a pessoa se desenvolve como homem, sendo XX. Estéril, tudo isso aí é esterilidade.

Na mesma forma, o cromossomo Y, pode ter uma mutação que ele não tem esse gene. Então o corpo se desenvolve mulher. A testosterona, é responsável por todas essas mudanças, musculatura, e tudo mais. Quando a pessoa treina para um esporte, é obvio, ela está usando a testosterona, ela tá usando essa vantagem biológica. Assim, sobre Tiffany, eu não julgo experiência de ninguém. Se ela achou que devia mudar, beleza. A minha crítica com ela, é sobre a questão do vôlei. Qual que é o problema? O corpo masculino, ele não deixa de ser masculino simplesmente por baixar testosterona. O cromossomo Y, tá lá. Tu tá usando remédios para inibir. Só que o efeito tá lá.

A Ana Paula Henkel, postou que há 8, 10 anos, para os efeitos da testosterona sumirem completamente. E obvio, o corpo de um atleta profissional, é outra história.

Luciano Pires: Mas a testosterona, reduzir a testosterona, não diminui você de 1 metros e 80, para 1 metro e 60.

Amanda Sindman: E não diminui o efeito da testosterona nos músculos, por exemplo. Ela deu algumas diferenças. A rede, no esporte masculino, é mais alto. Porque o homem é mais alto. Na puberdade, a mulher para de crescer, antes. Então a rede é mais baixa.

É tanto exemplo, não tem nada que justifica, nada que não seja ideológico político. Não tem fator biológico.

Luciano Pires: Mas, se você falar a respeito, você é trucidado. Tá vendo o que aconteceu agora com Bernardinho, né? O Bernardinho foi obrigado a pedir desculpas por ter feito um comentário que só ele ouviu, mas que fizeram uma leitura labial, porque se ele falar, os patrocinadores vão para cima, e perde patrocínio, e vira uma loucura.

Amanda Sindman: E parece, eu não fui trás dessa história, mas parece que ele foi em outro evento depois, e falou a mesma coisa. Tem que ser discutido. Tem que ser mesmo. Porque é injusto. Qual que é o grande argumento? Que ela, por ser trans, tem o direito de jogar. Beleza. Mas, as outras mulheres, não tem o direito de ter um ambiente equilibrado? Eu pessoalmente, pelo que eu entendo, eu sou contra mulher trans no esporte.

Luciano Pires: Deve se criar uma liga especial. Que se crie uma liga trans.

Amanda Sindman: ou continue competindo no masculino. Se ela tiver…

Luciano Pires: Mas que não vai acontecer nunca, não vai poder fazer isso.

Amanda Sindman: Só que tu não pode reduzir o direito de várias pessoas, em nome de um direito de uma só. É aquilo que a gente tá falando de respeito e igualdade. Agora vou começar a citar livro. O Flavio Gordon, na Corrupção da Inteligência, ele comenta isso. Que uma das táticas de esquerda, táticas mentais deles, eles sempre se colocam na condição de vítima. Nem que seja mentalmente. Porque a vítima, pode tecnicamente fazer o que ela quiser, porque ela tá tentando escapar de uma coisa opressora. Então, aquela trans que a gente discutiu antes no Canadá, Tiffany, ela é sempre vítima, está sempre sendo oprimida. Ela pode falar o que quiser. Ela pode falar as bobagens que ela falou para Ana Paula. Como ela falou? Que não sabia quem era, que ela nem morava no Brasil para dar opinião, como se isso importasse. Mas assim, a Ana Paula tinha uma lista de argumentos, que até hoje permanecem sem resposta.

Então tem essa questão da vítima, que é muito forte. Ninguém quer ir do lado do opressor. Em suma é isso. Na minha opinião, não precisava ter, não pode. E aí a gente entra naquela coisa que bastear fala, na lei. No momento que tu pega uma sociedade, separa ela em grupos, e começa a dar privilégios para um grupo, todo o resto vai criar animosidade para esse grupo. Sem dúvida.

É o que acontece mais ou menos com os políticos hoje.

Luciano Pires: E isso acaba funcionando contra o que se busca, porque no discurso, queremos igualdade, tornando pessoas mais desiguais. Porque em nome de alguma recuperação, de escapara desse vitimismo, coisa e tal. Amanda, você tem encontrado muita gente, você se expos no Twitter, e você põe claramente lá, você escreve na sua guia do Twitter, jornalista, trans, conservadora, etc. e tal. Para piorar a história, trans conservadora.

Amanda Sindman: Aí que tá. É mais difícil, eu queria falar isso antes, mas perdi o timing, vou falar agora. É mais difícil sair do armário como conservador, do que como trans. É muito mais difícil. Eu saí com uma ex-colega minha de faculdade, porque outra coisa, de todas as pessoas que eu conheci na faculdade, perdi o contato com todo mundo. Ninguém mais quer falar comigo. E não é coisa de ser trans, porque isso foi antes.

Luciano Pires: Porque é conservadora.

Amanda Sindman: Então ela não sabia do Twitter, tudo mais, ela chegou, essa colega minha, a gente foi jantar. Fazia anos que a gente não se falava, e ela não sabia que eu era trans. Ela ficou sabendo na hora, vamos sentar e conversar. Aí conversando de boa, daí uma hora ela olhou, como assim você tem opiniões políticas diferentes das minhas? Com essas palavras, sabe? Então, é mais difícil sair como conservador. Porque assim, uma coisa que eu percebi. Esquerda e direita. Ninguém tem noção do que é esquerda, do que é direita. Eu lembro que eu aprendi no colégio a seguinte definição. A esquerda se preocupa com as pessoas, e a direita se preocupa com dinheiro. Como é que tu não vai ser de esquerda? Não tem como.

Luciano Pires: É impossível não ser.

Amanda Sindman: É impossível não ser de esquerda nisso.

Luciano Pires: E conservador é aquele sujeito que não quer mudança, que quer manter tudo como era, que sonho com um passado edílico, que quer de volta a revolução. Quer 64 de novo. Esse é o conservador.

Amanda Sindman: Que também não tem nada a ver. Qual movimento que tu vê hoje, que quer voltar para esse passado, para um passado mais tribal? Tá mais para o feminismo. O que que é o crescimento da civilização? Nós adquirimos conhecimento jurídico, filosófico, tudo mais. Nós temos capacidade de nos expressar com ideias, argumentos complexos, e o que que o feminismo faz? Vai lá e a mulher com as tetas de fora, pintados na rua.

Luciano Pires: Pedindo respeito.

Amanda Sindman: Sim, como se… Então, toda essa volta para uma barbárie, que não faz mais sentido. O que que tava acontecendo na Venezuela, há algum tempo atrás? Deve estar acontecendo ainda, porque a situação não melhorou. As pessoas estavam voltando a caçar para comer, porque não tinha comida.

Luciano Pires: Usando madeira para cozinhar.

Amanda Sindman: Voltamos a idade da pedra. O completamente o oposto da civilização. Que é isso que a gente vê. As pessoas falam, eu sou progressista, eu sei o que é bom para a sociedade. Tá querendo me dizer que a sua opinião vai dar mais certo que a sabedoria coletiva de todos os milhões de pessoas conservadores de todo o longo da história, que criaram a civilização até hoje? Sabe?

Luciano Pires: Rompe com tudo que veio atrás, e vamos começar de novo, como se houvesse essa postura mágica. Mas não tem. Isso dá um programa inteirinho. A gente já tá no nosso limite aqui. Ontem, saiu no jornal, eu não me lembro se aqui em São Paulo, onde foi, que os caras começaram um processo de atendimento ginecológico para pessoas trans. Um homem, que se transforma em mulher, visitando uma ginecologista. Qual é a lógica disso?

Amanda Sindman: Só para explicar, a gente tá falando do corpo ser feminino desde o início. O processo de transformação do homem para a mulher, ele vai do… ele tem toda essa mudança de testosterona, que tu tem que retirar, que demora. O processo da mulher para o homem, é muito mais fácil, porque tu só tá fazendo uma transformação que o corpo dela consegue receber de boa.

Luciano Pires: Você coloca a testosterona ali, você não tem que tirar, eliminar.

Amanda Sindman: Lembra, o corpo começa como mulher. Então para transformar ele homem, é muito fácil, relativamente. Então eu conheço homens trans que tem barba, tu olha na rua, tu não diz, mas quando ele abre a voz, a voz é fina.

A voz demora mais para engrossar. A minha voz, ela tá… eu não fiz tratamento de voz. Então as vezes eu perco o tom. Então dá para ver, mas sobe, desce, a voz hormônio não muda. Tem que fazer um tratamento. Mas também, não dá para ficar com essa voz estridente. Então, estamos levando.

O homem trans, ele continua fértil. Se ele fizer sexo com homem, ele engravida.

Luciano Pires: Não, vamos de novo, me deu um nó na cabeça. O homem trans, que é uma mulher que virou homem, uma mulher que virou homem se fizer sexo com outro homem, ela engravida?

Amanda Sindman: Engravida. Tem casos.

Luciano Pires: Porque o equipamento tá lá. Você não eliminou coisa nenhuma. Você pode ter inibido alguma coisa, mas você acabou de dizer, você não eliminou. Você tá na verdade, colocando outra característica. Mas, se fizer relação, vai engravidar.

Um homem, que virou mulher, ele se torna estéril. Ele tá estéril.

Amanda Sindman: Tá estéril, tem essa diferença.

Luciano Pires: Mesmo não fazendo uma cirurgia para tirar?

Amanda Sindman: Mesmo não fazendo. Então, para o homem trans, é necessário um gineco. O pessoal tava falando isso no nosso grupo de trans até hoje, mesmo.

Luciano Pires: O homem trans, é a mulher que virou homem, evidentemente ela tem… ela não vai visitar urologista. Ela vai no ginecologista, porque tem útero, tem ovário, tudo mais.

Amanda Sindman: Da mesma forma que eu vou precisar usar um urologista uma hora.

Luciano Pires: Sim.

Amanda Sindman: Isso não muda. Uma coisa só que eu queria deixar claro, que a gente tá falando de homem, mulher, homem, mulher. Até agora pouco, essencialmente, quando a gente falava homem, era uma coisa. Quando a gente falava mulher, era outra coisa. Mas era a mesma coisa. Hoje em dia, não é bem assim. Só que a realidade biológica continua a mesma. Eu sei que eu to fazendo mudanças no meu corpo, mas, eu não vou deixar de ser uma pessoa XY, não importa o que eu faça. Mesmo que eu faça uma cirurgia de alteração dos meus órgãos genitais, que também não é 100%, eu vou continuar sendo uma pessoa XY. O que que acontece, para se adequar a essa nova realidade, que tem que incluir trans, nós separamos o homem biológico, do homem como categoria social. Sabe? O homem biológico uma coisa, o homem social uma coisa. Mulher biológica, mulher social.

Luciano Pires: E é no social que o bicho pega.

Amanda Sindman: No social que pega.

Luciano Pires: Lá que a encrenca aparece.

Amanda Sindman: Eu sou uma mulher no conceito social da coisa. Mas não, no conceito biológico. Essa é uma distinção que eu faço, eu não vi… Mas em nenhum momento, me afirmei como mulher biológica.

Luciano Pires: Um plano de saúde, vai te categorizar como homem. Vai aparecer Amanda.

Amanda Sindman: Porque existem diferenças da forma como homens e mulheres agem a mesma doença. Sem falar em diferença de indivíduos, tudo mais. Existe essa diferença.

Luciano Pires: Que é absolutamente natural. Não tem nada de absurdo no que está sendo dito aqui.

Amanda Sindman: Se eu for internada por alguma coisa, Deus me livre, e as pessoas verem mulher, é capaz de elas me darem um tratamento totalmente ineficaz. Mas tem gente que acha que se tu fizer isso, vai ser preconceito. Acabou o debate, falou preconceito, acabou o debate.

Luciano Pires: Aí você não tem mais razão ali. Tá nos seus planos fazer uma cirurgia?

Amanda Sindman: Por enquanto não, porque os pré-requisitos para cirurgia, são amplos. Eu nem sei todos. Eu sei que um deles, é 2 anos de vida transformado. Eu não tenho um décimo disso. Então, eu não penso nisso por enquanto. Quando chegar a hora…

Luciano Pires: Vamos partir para os finalmentes aqui. Dá para a gente continuar aqui muito longe, mas, o programa não pode explodir o tamanho dele. É uma pergunta que deve estar na cabeça de muita gente. Você, te atrai homens. Você em um momento de… você tá fazendo uma paquera, você vai conhecer alguém, você tá no barzinho, e pintou um flerte, alguma coisa assim. Qual é o cuidado que você se vê obrigada a tomar, antes de avançar um pouco? Você tem alguma postura moral, algum questionamento, que você se vê obrigada a dizer?

Amanda Sindman: eu prefiro contar. Eu.

Luciano Pires: Sim, mas em que momento?

Amanda Sindman: Acho que conta no início.

Luciano Pires: Você sabe, eu não sei. Em que momento.

Amanda Sindman: Tem uma amiga minha que é trans também, e ela me contou que ela tava numa festa, o cara chegou nela, ela não falou nada, levou ele para cama, e foi aí que ele viu. E ele olhou, tá, vamos, não tem problema. Já estou aqui, vamos. Mas não dá para esperar isso de todo mundo. Porque uma coisa, isso a gente tava conversando no Twitter esses dias. Uma coisa é tu querer uma pessoa para uma relação. Tu conhece a pessoa, entende, eu gosto de ti mesmo assim, vamos. Outra coisa, é tu querer uma noitada com a pessoa. Na noitada, tu tá procurando satisfazer. Tu não quer necessariamente conhecer o novo. Então, tu vai chegar lá, o cara quer uma vagina, vai chegar lá, tem um pênis no lugar.

Quando a pessoa vê que o pretendente que ela escolhe não é do jeito que ela quer, é natural, não quero, porque eu saí de casa para ter experiência X. Não quero ter experiência Y.

Luciano Pires: Sim. E a pessoa pode ter uma reação violenta.

Amanda Sindman: Pode ter. Isso é excessivo. Tu não pode obrigar as pessoas a te quererem. O básico do básico, né? E qual a relação de sempre? Preconceito.

Luciano Pires: E aí não vai bater de novo. Vamos voltar no Joaozinho lá no começo. Joaozinho com 3 dias de nascimento. Essa repulsa que as pessoas podem deixar transparecer para você no momento em que você se diz, olha, espera um pouquinho, eu não to nem me referindo a eu to na cama com alguém. Não. No dia a dia. Venho conversar com você Amanda, e descobre que você é trans, como assim, olha minha cara, olha a cara que eu fiz. Isso bate em você, como é que você aceita ver… “ela fez uma cara de ué”, a pessoa fez uma cara de que ela tá muito desconfortável com a minha presença. Como é que você trata essa…

Amanda Sindman: Assim, eu nunca senti isso de desconhecidos. E aquilo que voltamos para a questão do cérebro. O que mais me aconteceu foi de amigos me tratando como homem ainda. Eu to assim, e estão me tratando como homem. Um amigo meu esses dias me falou, “olha, eu sei que eu to te tratando assim, mas, eu te conheci de outro jeito”. E essa troca da posição do cérebro é difícil, não é da noite para o dia. Não dá para… eu nunca cheguei para ninguém e disse, agora eu quero que tu me trate como mulher. Nunca falei. Só falei, tá acontecendo tal coisa.

Luciano Pires: Na cabeça dele é o João com uma roupa de mulher.

Amanda Sindman: Eu nunca pedi para as pessoas falarem isso. E vai com o tempo. Vai indo no tempo delas.

Luciano Pires: O que que vem pela frente, quais são seus planos? Você continua vivendo lá em…

Amanda Sindman: Sim. O que que aconteceu, que até a gente cortou. Quando minha avó morreu, meu avô caiu em depressão. E depressão leve, tudo mais, e eu comecei a trabalhar com ele na empresa da família, que é uma gráfica pequena. E eu passei um tempo ajudando, cuidando dele, tudo mais.

Agora, ele achou outra mulher, casou, eu já tava morando com ele, to morando sozinha faz 1 ano. To querendo mudar de emprego, porque eu parei de escrever, tudo. O máximo que eu faço, é escrever sobre guerra cultural na internet. To procurando outra coisa, vamos expandir.

Luciano Pires: Para qualquer lugar. Não importa que seja lá, pode ser aqui em São Paulo, Rio de Janeiro, onde aparecer.

Amanda Sindman: Rio não, que Rio é muito quente. Mas onde aparecer, eu to disposta a tentar algo novo.

Luciano Pires: Legal. Precisa fazer o blog da Amanda.

Amanda Sindman: Eu tenho blog que eu escrevo. Como eu tenho pouco tempo sobrando, eu tento escrever uma vez por semana.

Luciano Pires: Eu não sei que tamanho é sua armadura emocional, para suportar a porrada que você toma por ser conservadora, não por ser trans. Do jeito que tá hoje, trans é até vantajoso. Falar olha, eu sou aquela minoria que vai preencher uma pancada de espaços que a sociedade abriu. Eu sou parte dessa minoria. Isso pode ser até bom, de certa forma. Mas o conservador não, complicado. Quer dizer, você, não tem ninguém que eu me lembre, que eu saiba claramente, que é trans, e que defende o lado mais conservador do que você faz, estabelecida com blog, com coisa que eu possa recorrer para saber. Foi o que aconteceu comigo. Eu vi uma thread honesta, tratando a coisa com começo, meio e fim. Falei cara, finalmente. E fui ver quem era, era uma pessoa trans. Cara, onde tem mais? Não existe isso, o mercado não tem.

Eu não sei o que você pretende fazer com seu blog, mas ele podia ser um ponto de… um porto seguro, para quem quisesse buscar informações, sem ter…

Amanda Sindman: Eu sou mais ativa no Twitter, né? Uma coisa que aconteceu, conheci muita gente. Se eu to aqui hoje, eu não to aqui sozinha. Eu to aqui graças a várias pessoas que me incentivaram, me ajudaram. O pessoal que ficou sabendo que eu vinha para cá, vamos sair, vamos conhecer, sabe? Então eu tenho tudo a agradecer para essas pessoas. Geralmente são pessoas que não são trans. Nessa história toda, eu conheci algumas poucas, que tem uma visão política mais parecida com a minha. Eu fiz questão de fazer amizade com todas, sabe? Porque…

Luciano Pires: Você tem que tirar elas do armário agora.

Amanda Sindman: Já são. Depende, fora do armário como conservadora, parte mais difícil sabe? Então aquela coisa, não existe vazio em política. Por mim, eu ficava em casa jogando videogame o dia inteiro, e deixava isso de lado. Mas tinha esse vazio, sabe, e eu acabei ocupando. Então estamos aí. A quantidade de pessoas que vai me odiar depois dessa entrevista, vai aumentar.

Luciano Pires: eu não sei porque. Pelo lado da conservadora.

Amanda Sindman: Pelo lado da militância.

Luciano Pires: todos os progressistas estavam animados ouvindo a entrevista, porra.

Amanda Sindman: Uma amiga minha estava conversando no Twitter com outra menina trans, e ela comentou que não gosta, que não é para chamar de traveco, que todas as trans se ofendem. E essa amiga me perguntou o que que eu acho do contexto.eu não me importo que me chamem de traveco. A guria me bloqueou. Sem conversa, sem nada.

Luciano Pires: Porque você é um horror com esse discurso todo. Olha que bonito que eu vou falar agora. Presta atenção que eu vou falar com todas as cores aqui. Amanda, você não tá sozinha.

Amanda Sindman: Foi algo que eu tenho descoberto todo dia nos últimos anos, e foi maravilhoso. Teve pessoas que eu não tenho muito contato. E quando ficaram sabendo que eu tava vindo para São Paulo, mandaram deme no Twitter, no telefone. Vamos sair e conversar.

Luciano Pires: Legal, e a vida é assim, são encontros. Quem quiser te seguir, vamos lá, em que redes você está?

Amanda Sindman: eu sou mais ativa no Twitter. Meu nome é @asindman. Eu tenho perfil no Facebook com essa mesmo nome, só que eu não uso. Só está lá para manter. Então geralmente no Twitter. Quem quiser ler o blog, o endereço tá lá também, porque…

Luciano Pires: Tá no Twitter também, você pega lá.

Amanda Sindman: No Blog, eu não costumo tratar muito de transexualidade. Que apesar de tudo, eu acho um assunto chato, chato.

Luciano Pires: Mas se você olhar pelo ponto de vista de que eu vou jogar luz no assunto, ele ganha uma outra dimensão. É que nem Ana Paula fez. Ana Paula pegou o assunto e falou, espera um pouquinho, que eu vou jogar luz no assunto. E ele ganha uma dimensão.

Amanda Sindman: Eu tenho fazer isso. Pego assunto, explica. Até em texto, outras coisas. Vou dar um exemplo. Teve agora, final do ano passado, acho que março, que teve aquele caso de uma reportagem da folha, sobre uma pesquisa que descobriu que em áreas dominadas pelo tráfico, não lembro se era São Paulo ou Rio agora, existem menos crime, do que em comparação.

Luciano Pires: que é natural.

Amanda Sindman: Quando eu li essa manchete, eu não li a matéria. Quando eu li essa manchete, sim, isso é obvio. Segui em frente. E depois no resto do dia eu vi que estava em bá fá fá sobre aquilo, que que queria ver, o que que queria dizer. Não, mas isso é logico, sabe? Não tá falando nenhuma novidade. Vamos escrever sobre isso. Peguei, li a pesquisa inteira. A pesquisa era brasileira, para brasileiros, mas para fora. Li a pesquisa inteira em inglês, expliquei como que foi feito, coleta de dados, tudo. E fui para a teoria, né? Que aquela coisa, num sistema autoritário, se suprime liberdade. Se suprime liberdade, tem mais ordem, menos crime. É obvio.

Luciano Pires: Sim, vai roubar, rouba alguma coisa na China para você ver o que acontece com você. Já foi. Legal. Bom, olha aqui, é o que eu falei para você no começo. Não sei o que que vai dar nosso papo, eu não sei para onde ele vai, eu tinha e continuo tendo uma série de questões. Sou completamente ignorante no assunto, então, se em algum momento eu passei do ponto aqui, você me desculpe.

Amanda Sindman: Eu devo ter feito cara feia.

Luciano Pires: Eu nem sei, eu não vi cara feia. Eu vi você respondendo aí, mas, se eu passei do ponto em algum momento, você me desculpa. Mas, eu revelo minha ignorância, e eu queria trazer você aqui para entender, cara, Amanda é uma pessoa igual a qualquer um de nós, sabe, não tem nada de diferente aqui. Ela tem aparência igual a gente, ela fala igual a gente, ela tem conta para pagar, ela não tá aqui com purpurina, jogando, não botou a mão na minha coxa, não fez nada, é uma pessoa normal como qualquer outra. A única coisa, que ela tem uma diferença que está encoberta. Isso não é suficiente para a gente fazer um carnaval com esse assunto, pelo contrário. Se ela for competente. Eu falei para você, se tiver café no bule, manda currículo aqui que nós vamos encaminhar para um monte de gente. Tendo café no bule, é o que a gente precisa hoje em dia.

Amanda Sindman: Se alguém quiser me chamar para alguma coisa, meu e-mail tá no perfil. Tá lá tudo, to aberta a novas experiências.

Luciano Pires: Na área de comunicação, e mídias sociais, tudo mais.

Amanda Sindman: Tenho experiência em mídias sociais, tenho experiência em jornalismo. Publicidade fiz um pouco, então estamos aí.

Luciano Pires: Amanda, muito obrigado pela visita. Adorei o papo aqui. Podia ficar mais algumas horas aqui conversando, mas, a gente vai ter chance depois de voltar. Bem-vinda ao LíderCast, viu?

Amanda Sindman: Obrigada.

 

Muito bem, termina aqui mais um LíderCast. A transcrição deste programa, você encontra no LíderCast.com.br. O LíderCast nasceu da minha obsessão pelos temas liderança e empreendedorismo. É em torno dele, que eu construí minha carreira com mais de mil palestras, nas quais distribuo iscas intelectuais, para provocar equipes e indivíduos, ampliar seus repertórios, e suas capacidades de julgamento e tomada de decisão. Leve o fitness intelectual para a sua empresa. Acesse lucianopires.com.br, e conheça minhas palestras.

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