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Luciano Pires -
Download do Programa

Luciano: Muito bem, mais um LíderCast. Estou eu em fevereiro de 2018 em Baltimore, depois de participar de um grande evento lá em Baltimore, na hora de ir embora, eu estou com o carro na rua, me preparando para descer, eu ia dirigir até Washington e entrei nas mídias sociais e botei alguma coisa, não me lembro se foi no Twitter, se foi no Facebook que eu botei uma foto, alguma coisa assim, aí entra uma mensagem de um cara. “Luciano, pô, você ainda tá por aqui, vamos tomar um café.” Como assim, tomar um café? Aí eu olhei ali, deixa eu ver aonde é que ele está, aonde é que você está? Estou em tal lugar, me deu o endereço e a hora que eu botei o endereço ali no mapinha, eu vou falar com todas as letras, ficava na puta que o pariu o lugar que ele falou para mim, porque eu estava do outro lado de Baltimore. Eu estava na saída para Washington e ele estava do outro lado, ele estava no norte e eu estava no sul. Mas eu olhei, quer saber de uma coisa, esses negócios não são de graça, não “Eu estou indo aí.” Peguei, virei o carro e fui e acabei tendo uma surpresa genial, tomamos um café muito gostoso, a gente conversou bastante, e quando eu ouvi um pouquinho da história deles, falei, cara, na primeira chance que vocês forem para o Brasil, quero conversar com vocês. Então aqui estamos, quase um ano depois, onze meses depois eu tenho os dois na minha frente aqui. Vou fazer as perguntas tradicionais, vocês, por favor, caprichem na resposta. Um de cada vez, quero saber seu nome, sua idade e o que você faz. Começar com as damas.

Michelle: Meu nome é Michelle Kafica Cezila, eu tenho 34 anos e sou enfermeira.

Diógenes: Meu nome é Diógenes Cezila, eu tenho 36 anos e sou dono de uma pequena empresa de limpeza de escritórios e casas na região de Baltimore, Maryland.

Luciano: Nasceram aonde os dois?

Michelle: Eu nasci aqui em São Paulo.

Luciano: Paulista mesmo, da onde, que lugar?

Michelle: Santa Cecília.

Luciano: Santa Cecília? É o centrão ali. É bom.

Michelle: Mas fui criada no sul de Minas.

Luciano: Aonde?

Michelle: Em Camanducaia.

Luciano: Camanducaia, também não está muito longe daqui, não. É quase São Paulo.

Michelle: É, uma horinha e meia.

Luciano: Quase São Paulo. Diógenes nasceu aonde?

Diógenes: Eu nasci em Bragança Paulista e morei lá até os meus 13 anos de idade, e com 13 anos de idade eu mudei para Camanducaia, onde morei até os meus 21 e onde conheci…

Luciano: Ali se conheceram.

Diógenes: A querida.

Luciano: É um caso de amor de cidade do interior?

Michelle: É.

Diógenes: Exatamente.

Luciano: E você viram o meu sotaque? É um caso de “amôrr”, de cidade do “interiôrr”. Só quem é do interior sabe o que é um caso de amor do interior, dura, dura [riso]. Eu sei como é que é isso. Mas e aí, me contem um pouquinho da história de vocês. Vocês saíram do Brasil muito cedo.

Diógenes: É, eu saí quando eu tinha 21 e eu namorava com a Michelle, nessa época. Michelle tinha 19 anos, a gente começou a namorar quando eu tinha 19, ela 17. E com 21 eu fui para os Estados Unidos, eu fui convidado para ser músico de uma igreja lá.

Luciano: O que você fazia aqui antes de resolver ir para lá?

Diógenes: Eu, cara, fiz muita coisa antes de ir para lá. Comecei a trabalhar numa confeitaria que meu pai abriu. Com 13 anos de idade já fui confeiteiro. Quando eu falo isso, o povo dá risada, porque não sei fazer mais nada, hoje em dia. Com mais ou menos 18 anos eu fui trabalhar como técnico de informática, consertando computadores, dando aula de computação e depois trabalhando com rede de internet.

Luciano: Tudo como autodidata? Você não foi estudar nada disso?

Diógenes: Eu fiz um cursinho básico de manutenção de computadores. Era uma coisa bem pequeninha, no sul de Minas, meu patrão é que era craque para caramba em questão de redes. E naquela época era quando o dial up estava ficando obsoleto, só que no interior você não tem o cable, não tem cabo e não tem o VSL, aí ele teve que inventar e estava com uma tecnologia mais ou menos nova, que era o rádio e aí a gente começou a trabalhar, aprendendo a rede, aprendendo roteadores, essas coisas, para mandar a internet longe, sem fio.

Luciano: Na grande Camanducaia.

Diógenes: Na grande Camanducaia. Agora a cidade tem o trevo sul e o trevo norte. Assim que você passa no trevo sul, dá 30 segundos, você chega no trevo norte [riso].

Luciano: Como é que é, é aquela história, é uma cidade de primeira, se você botar em segunda, você sai da cidade [riso].

Diógenes: Exatamente, mas, cara, é um lugarzinho pequeno que a gente gosta demais, porque a Michelle cresceu lá por toda a infância dela e adolescência e para mim foi toda a adolescência. Então os amigos de adolescência, ir para a escola, colegial, está tudo lá. E mesmo depois de 15 anos morando fora eu gosto de voltar para lá.

Luciano: Quer dizer, você tem uma combinação que é fantástica, que é interior e Minas Gerais, sabe, Minas com interior, eu conheço bastante o interior de Minas e passei algumas temporadas lá, é maravilhoso, cara. E numa cidade pequena ainda, você junta culinária de Minas, aquele lance da música de Minas, os amigos de Minas, as minas de Minas, é tudo maravilhoso aquilo.

Diógenes: E o legal é que porque a cidade é tão pequena, a gente morou tanto tempo, a Michelle conhece muito mais gente que eu lá, mas você sai caminhando da casa de um parente para outro, que deveria levar aqui 10 minutos, acaba levando duas horas, porque você vai parando, encontra um ex-professor, encontra um amigo, encontra uma pessoa “Oh, você tá visitando?” Aí você para pra contar história, para tomar um café e aí vai duas horas até chegar na casa.

Luciano: Aí chega no terceiro vira churrasco [riso].

Michelle: É mais ou menos assim.

Luciano: Estamos em três, já virou churrasco, é isso aí. Isso é interior. E você, o que você fazia? Estava lá esperando chegar o príncipe, como é que é?

Michelle: Não, eu estava tocando minha vida. Estava correndo atrás da vida. Eu comecei a trabalhar muito cedo. Quando eu conto assim, o pessoal faz “pô”. Com nove anos eu era ajudante em loja.

Luciano: Nove anos? Loja da família?

Michelle: Não. Loja do pessoal da cidade, porque eu era muito magra e muito ágil, eles me contratavam, eu saía de férias, o pessoal já ia na minha casa falando assim, “Você não quer trabalhar para a gente no final de ano?” Porque antigamente eles tinham as prateleiras no final da loja de sapatos, então eu era aquela pessoa que subia e ia jogando a numeração para o pessoal. Então tinha várias famílias que tinham comércio na cidade que chegavam para a gente, “Você vai trabalhar para mim este ano, não é?” “Não, este ano eu não vou,” daí num período de escola eu não trabalhava, ajudava em casa, mas eu sempre mexi com vendas. Minha mãe é vendedora, com 11 anos… é até uma história legal, pode contar?

Luciano: Mas é para contar, por favor.

Michelle: Eu pedi dinheiro para a minha mãe. Eu não gostava de pedir dinheiro, porque eu achava que era humilhante.

Luciano: Com 11 anos?

Michelle: Não, com muito menos, porque esse negócio ficar pedindo, tendo que dar satisfação por que você quer um real e para comprar o que, eu falava, não, isso aí não é para mim. Então eu sempre fazia algumas coisinhas, tipo comprar pão na padaria para a vizinha, para receber um trocado, sempre nesse nível. Daí com mais ou menos 10, 11 anos, tinha um senhor que vendia banana na minha cidade e vendia para minha mãe e daí um dia eu falei assim, vou vender banana. Daí o cara falou assim, “mas você não tem dinheiro”, eu falei assim, “me vende duas dúzias de bananas,” “mas não tem o dinheiro,” eu falei “não, eu não tenho dinheiro, eu preciso de uma linha de crédito, eu pago o senhor semana que vem,” ele olhou para a minha mãe e minha mãe falou assim “eu não me responsabilizo, coisa dela é coisa dela”.

Luciano: Que idade você tinha?

Michelle: Dez anos.

Luciano: Dez anos?

Michelle: Daí eu peguei todas as moedinhas que eu tinha, falei assim “eu pago metade agora”, que é banana verde, então não sei os números, mas vamos pôr aqui a dúzia da banana era 0,20 centavos, na época. Eu pedi duas dúzias e falei “semana que vem eu pago o senhor”, daí ele “tá bom, vou acreditar”. Eu esperei amadurecer a banana, fui e vendi de porta em porta e paguei ele. Eu dei todo o dinheiro para ele, daí eu disse assim “agora eu quero quatro dúzias”. Ele falou assim, “mas você não vai nem gastar o dinheiro que você ganhou?” Eu falei “não, eu tenho que investir”. E aí eu fui, porque eu tinha um alvo, que era comprar um tênis, não, era comprar televisão. Eu só sei que eu comecei nisso daí, chegou uma época que eu estava movimentando, mais ou menos, umas quarenta dúzias de banana por semana.

Luciano: Comprando dele e revendendo?

Michelle: Comprando dele verde e revendendo. Daí eu juntei todo o dinheiro que eu precisava, daí falei assim, eu não vou mexer mais com isso. O dia que eu cheguei para o senhorzinho, falei assim, agora eu não vou mexer mais com banana, ele falou, “mas como? Você é a pessoa que mais compra de mim na cidade!” E isso eu era bem nova, então eu sempre vendi coisas.

Luciano: Da onde vem esse vírus? Você falou que sua mãe era vendedora.

Michelle: Minha mãe é vendedora. Eu tive uma escola muito boa com a minha mãe, porque ela divorciou do meu pai, separaram quando eu tinha três anos e minha mãe era uma pessoa muito tímida, do interior, mas para sobreviver aqui em São Paulo ela teve que meter a cara e fazer. Então, o que ela fez para comprar comida para mim e para ela foi ela vendeu alguma coisa que ela tinha para a vizinha, comprou alguns novelos de lã, tricotou uma blusa de lã e foi em algum lugar aqui em São Paulo que tinha umas boutiques e vendeu. Com o dinheiro ela comprou mais lã e começava a fazer essa virada.

Luciano: Pô, isso é uma história de empreendedorismo fantástica, cara. Começa com duas dúzias de bananas, outra começa com uma blusa de tricô.

Michelle: É, blusa de tricô, a gente usa os talentos que tem na mão.

Luciano: E aí vocês mudaram para Camanducaia por quê?

Michelle: Porque meu vô e minha vó moram lá, moravam lá, no caso, minha vó ainda continua lá. Daí porque na cidade do interior é mais fácil sobreviver. Então toda a minha história eu mexi com vendas. Vendi Avon, vendi Natura. Sempre criei coisa nova, mas antes de ir para os Estados Unidos eu estava trabalhando numa contabilidade, no departamento pessoal e dava aula à noite. Trabalhava das sete às cinco, aí dava aula à noite. Depois eu parei de dar aula para começar a fazer faculdade.

Luciano: E aí conheceu?…

Michelle: Não, o Diógenes eu já…

Diógenes: Já conhecia. Nessa época que a Michelle trabalhava à noite, eu já estava nos Estados Unidos.

Michelle: Já estava para lá.

Luciano: Então vamos voltar um pouquinho antes de você ir. Você falou que foi para lá convidado para ir tocar numa igreja.

Diógenes: Exatamente, eu fui como músico de uma igreja. Tinha muita imigração de brasileiro para lá.

Luciano: Mas então, antes disso, esse negócio da música, da onde vem isso aí? Você começou a tocar algum instrumento?

Diógenes: Bom, eu cresci na igreja, a minha família é cristã e meu pai é pastor. Acho que é lei federal que filho de pastor tem que tocar um instrumento. Então comecei a tocar na igreja, aprendi tocar violão, tocar baixo.

Luciano: Pastor de igreja o que, Batista?

Diógenes: O nome da igreja é Igreja de Deus Pentecostal. É uma igreja dos Estados Unidos que veio para cá, mandou missionários para cá. Eles fundaram a igreja, começando no interior de São Paulo, inclusive Bragança Paulista. E até os 13 anos, o meu pai era tipo assim um ajudante na igreja, ele trabalhava muito, ajudava muito na igreja e depois ele tinha vocação de ser pastor. Mudamos para Camanducaia, ele fez seminário e nessa época eu tinha 13 anos. Fui parar em Camanducaia, cara, que mudança, mesmo Bragança Paulista sendo 40 minutos de Camanducaia, a cultura muda completamente. Muda o jeito de falar, às vezes eu não entendia o que o povo falava.

Michelle: Deixa eu fazer um parêntese aqui. É porque quem é de Camanducaia conhece todo mundo, sabe. E quando chega, a gente chama um forasteiro, o jeito que eles andam, o jeito que eles falam é diferente.

Luciano: É, eu sei como é, eu sou de Bauru.

Michelle: É, então você sabe identificar.

Luciano: E apareciam uns paulistas de vez em quando lá em Bauru.

Michelle: Exatamente.

Luciano: Então hoje eu vejo a figura da minha filha chegando lá. Meus filhos chegam em Bauru e têm os primos lá e a hora que começa a conversar, cara, é assim, é água para o vinho, porque parece ET falando, que eles chegam lá com porta, porco, Fernando e aí a moçada de lá é “póirrta”, “pôrrco”, “Feirrnando”. A conversa é outra, a dinâmica é outra, o horário de almoço é outro, tudo muda. Culturalmente, a mudança é brutal.

Diógenes: E eu saio de Bragança Paulista, aonde tem um sotaque diferente. É tipo aquele tio, tia de paranaense, de influência italiana e eu vou para o sul de Minas, onde… também puxa o r no interior de São Paulo, mas vai para o sul de Minas que muda completamente, não tem mais esse t seco, mas fala-se muito rápido. Teve uma vez que eu cheguei e estava conversando com um barbeiro lá, ele era de São Paulo. Ele estava lá cortando o meu cabelo e passou uma pessoa assim na porta da barbearia e começou a falar umas coisas bem rápidas, ele falou assim “Você entendeu alguma coisa que aquela pessoa estava falando?” Eu falei “Não.” “Eu também não.” E gente local.

Luciano: É o dialeto.

Diógenes: Porque tem muita zona rural também. E, hoje em dia, na nossa casa, a gente fala português a maior parte do tempo, quando a gente não mistura tudo, a gente pega falando o que eu não entendia antes, entendeu? Fica, pega na gente.

Michelle: Muita influência da mulher.

Luciano: Eu imagino.

Michelle: Porque, como eu cresci ali, então eu conheço as coisas. Daí ele tem mania de falar para mim assim “você inventou essa palavra, é coisa da sua família,” falei “não, pesquisa, existe essa palavra,” daí ele vai no Google “é, uhum, é…” Mas no começo do namoro nosso, ele falava assim “você fala umas coisas que eu não entendo,” falei “mas como?”

Diógenes: Mas engraçado que era, claro com o sotaque da maneira de falar do sul de Minas, porém palavras que eu nunca ouvi na minha vida, mas que eram palavras mesmo, não somente dialeto.

Luciano: Vocês tiveram uma baita vantagem, porque quem mora no interior está pronto para falar inglês. O “póirrta” do interior, aquele r do interior, é o r do inglês, cara. Maravilhoso.

Diógenes: Sô, uai…

Michelle: Eu fui para os Estados Unidos com 21 sem falar nada de inglês, fui com a cara e a coragem. Falava oi, tchau e o resto eu fazia “joia” e dava um sorriso. Mas, por ser mineira, eu já cheguei questionando as coisas. Tipo, uai, sô! Por que então?! Então você já chega questionando tudo, revolucionando, why so!

Luciano: É, já está pronto. Mas aí, você começa a tocar o quê?

Diógenes: Violão é o que eu gosto de tocar e que sei fazer melhor. Na minha igreja hoje eu toco o baixo e violão, mas o violão para mim é mais fácil pela prática e também porque eu gosto mais.

Luciano: Que idade você tinha?

Diógenes: Eu tinha 21 anos quando eu fui para os Estados Unidos.

Luciano: 21 anos, você está sentadinho lá no culto, tocando seu violãozinho. Como é que pinta um convite para ir tocar?

Diógenes: Foi assim, um pastor amigo do meu pai, que eles fizeram seminário juntos, ele estava lá nos Estados Unidos. E ele veio visitar e tal, olhou para mim “e aí, você não quer ir lá, me ajudar?” Não sei, tipo, sempre gostei do inglês, mas nunca pensei. Eu pensava em ir para a Inglaterra, uma coisa assim, Estados Unidos nunca passou pela minha cabeça.

Luciano: Uai, sô!

Diógenes: Uai, sô! Aí amadureceu a ideia, a gente conversou e meio que foi assim, sabe, ele gosta muito da minha família e tipo, vou ajudar esse moleque, entendeu que está aqui num ovinho de cidade, e sei lá, o moleque tem vontade e eu vou trazer para cá. E aí foi assim, eu cheguei lá e ele era pastor de duas igrejas brasileiras e uma igreja americana, não sei como ele dava conta, mas dava.

Luciano: Aonde?

Diógenes: Na região de Baltimore. Não na cidade, mas ao redor de Baltimore.

Luciano: Tinha saído do Brasil já, você?

Diógenes: Não, primeira vez que eu entrei num avião na minha vida. Aliás, no Brasil eu não conheço quase nada. Eu conheço aqui alguma coisa do estado de São Paulo e conheço até Belo Horizonte ali, parou. Hoje em dia eu conheço muito mais estados nos Estados Unidos do que aqui no Brasil. Mas primeira vez que eu entrei num avião, cheguei lá e não tinha nem peso de homem, naquela época, tinha 53 quilos, cara, era muito magro.

Foi assim, cara, eu digo que os primeiros seis meses lá foram os piores seis meses da minha vida. Nunca tinha ficado longe de família, era um bom aluno na escola de inglês, mas entre uma escola pública ser bom em inglês e você chegar e falar no lugar é outra coisa. E eu não entendi quase nada, chegavam as pessoas, falavam para mim como é seu nome, eu sabia responder esse tipo de pergunta. Aí quando chegava e perguntava, faz quanto tempo você que você está aqui? Aí eu olhava para a cara da pessoa e fazia sinal de positivo, yes! [Riso] E a pessoa ficava assim, o carinha não entendeu nada, mas levou uns oito meses para eu ficar fluente.

Michelle: É terrível no começo.

Luciano: Eu imagino o que é. Mas me fala uma coisa, você foi para lá com que expectativa? Vou lá para tocar violão uns meses e volto?

Diógenes: A minha ideia era tipo isso, ficar um ou dois anos, aprender a língua, trabalhar um pouco lá e voltar para o Brasil. Ter aquela experiência internacional, sabe.

Luciano: E, pelo menos, você foi com casa, comida, foi com tudo garantido.

Diógenes: No começo o pastor me deu uma ajuda muito legal lá. Aí quando chegou uma hora que já tinha como me sustentar, ele começou a cobrar aluguel de um quarto, que eu fui para alugar um quarto na casa dele. Eu conheço muita gente que chegou, não tinha lugar para morar, mas não foi o meu caso, já tinha uma casa para ir, gente boa para me receber.

Luciano: Tem muito brasileiro lá na região que vocês estão?

Diógenes: Na região de Washington tem bastante. Washington é coisa de 45 minutos, tem bastante brasileiro lá. Na nossa região, em Baltimore tem, mas não é tão concentrado e é mais gente que vai para fazer pós-doutorado no Hopkins, au-pairs que vão lá para cuidar de crianças, que são as babás, querem ter uma experiência internacional e vão.

Luciano: Para quem nos ouviu e não sabe, Hopkins, ele está falando do John Hopkins, que é um complexo, não é um hospital, aquilo já mudou, é um complexo de saúde gigantesco que tem de tudo lá dentro e é mundialmente conhecido como um centro de excelência.

Diógenes: Em pesquisas, e universidade é uma das melhores do mundo, se não a melhor.

Luciano: Mas você foi ficando e aí, de repente, eu acho que isso aqui dá para ganhar dinheiro aqui, dá para viver aqui, dá para morar aqui. Quando foi que virou a chavinha?

Diógenes: Fazia mais ou menos um ano que eu estava lá.

Luciano: Qual é o chaveco que você mandava para ela te esperar?

Diógenes: Cara, a gente sempre foi muito sério quando a gente começou a namorar. Mesmo com 20 anos, por exemplo, a gente já falava em casamento. E aí eu fui com a ideia de ficar um ou dois anos, quando eu cheguei lá e vi, aqui as coisas são mais fáceis…

Luciano: Mas espera um pouquinho, quando você resolveu que ia para lá, você já estava namorando?

Michelle: Já.

Luciano: Há quanto tempo?

Diógenes: Fazia dois anos.

Luciano: Dois anos. Como é que foi a conversa sua com ela, para dizer estou indo?

Diógenes: É aquela coisa, cara, eu não tinha muita coisa para pegar o visto, não. A única coisa que eu tinha era uma igreja até grande lá me chamando para ir para lá, mas eu era um músico que aprendi sozinho, não falava inglês e não tinha nenhum curso teológico, na época. Então eu fui, tipo ignorance is a bless, eu não sabia de nada. Olhando hoje em dia, eu não tinha chance nenhuma de pegar o visto. Aí eu fui, se pegar o visto beleza, se não pegar…

Luciano: Mas a conversa para ela?

Diógenes: A conversa para ela? A conversa foi essa, vou tentar o visto, se der certo, eu vou, fico um ano, dois anos, depois eu volto. Essa era a conversa. E enquanto eu não tenho visto, você não se preocupa muito, então, tipo, a gente falava, falava e ficava aquele negócio. Na verdade, eu não penso muito na consequência ruim da coisa, eu fico olhando o lado bom. Eu falei que os seis primeiros meses foram os mais difíceis, claro, os meus pais, a minha irmã, de ficar longe da cultura, mas a parte mais difícil era ficar longe dela, porque a gente fazia tudo junto, a gente estava sempre engajado nas coisas da igreja juntos e a gente passava muito tempo juntos.

Luciano: E na tua cabeça, quando ele chegou para você, falou, vou te falar uma coisa, recebi um convite…

Michelle: Tipo, foi assim, a gente rolou uma conversa não sei o que de sair para estudar e para aprender. Falei, beleza, vamos tirar passaporte. Fomos, nós dois tiramos passaporte. Não tinha nada, sabe.

Diógenes: Antes até do convite.

Michelle: Não tinha convite, não tinha nada, mas eu sempre fui uma pessoa que eu penso steps ahead.

Luciano: Passos adiante, sim.

Michelle: Passos para a frente. Então, por exemplo, eu completei 18 anos, eu tinha todo o meu dinheiro para tirar carteira de carro e moto. Não tinha carro, não tinha moto, mas se caso eu precisasse, eu já teria. Então o passaporte foi a mesma coisa, eu tirei, porque caso acontecesse uma oportunidade, eu já tenho. Quando ele falou para mim da notícia, eu falei, beleza, não tem o visto ainda, está só na possibilidade. Quando ele pegou o visto, daí a casa caiu. Uau, agora ele vai mesmo. Mas também fica naquela coisa, eu estou namorando com ele, se eu falo ‘não vai’ e caso com esse rapaz, ele pode jogar a vida inteira na minha cara “eu tive a possibilidade de ir, não fui por causa de você”. Daí eu pensei assim, se eu falo para ele ir, também tem a possibilidade de ele não voltar. Então estou numa situação difícil.

Luciano: Que idade você tinha?

Michelle: 19. Eu pensei, bom, como a decisão é dele, eu vou incentivar a fazer o que ele quer. Se ele voltar, voltou, se não voltar, a gente caminha.

Diógenes: Foi engraçado, quando eu cheguei para a Michelle e falei “Michelle, peguei o visto.” Ela [suspirando] “que bom, né?”

Michelle: Mas eu desestabilizei por um bom tempo, emocionalmente. Foi muito difícil. Até que num ponto, tipo a casa caiu mesmo. Daí no segundo ano eu já estava voltando mais na ativa, sabe. Estava engrenando mais. Porque no primeiro ano eu falava não, eu tenho que ir também, eu quero ir também, corri atrás e ele falava, não, não é tempo ainda, vamos devagar e tal. Daí depois que eu, tipo, desliguei dessa ideia. Falei, está bom, e daí comecei a falar, quer saber de uma coisa, vou cuidar de mim. Eu tenho que estar bem comigo mesma, eu tenho que estar bem aonde eu estou. Quando eu comecei a curtir tudo o que eu tinha e estava vivendo intensamente, eu estava numa das melhores fases da minha vida, daí ele falou “por que você não tenta um visto?” Falei “está bom, tentar o visto,” pensei comigo se pegar, pegou, se não pegar também está ótimo, estou tocando minha vida aqui.

Diógenes: E daí era assim, “olha, se você pegar o visto, beleza, você vem para cá, a gente casa e aí você muda de status de visto,” porque o meu visto dava opção para ela ser dependente do meu visto, depois de casada.

Luciano: Você pegou o teu visto Greencard?

Diógenes: Não, é um visto chamado R, religioso, que depois de um certo tempo, você trabalhando nesse visto R, ele te dá a possibilidade de você pedir um Greencard.

Michelle: Daí a gente viu um jeito de, como eu estava na faculdade, eu fui como intercâmbio para lá. E justo na época que eu fui, era aquela época daquela novela América, não sei se você lembra, da Globo, que a menina passava o deserto e ficava para lá. Eu não assisti a novela, mas cidade de interior, você imagina a notícia, a filha da Roseli está inventando de ir embora para os Estados Unidos, atrás do filho do pastor.

Diógenes: E vai cruzar o México.

Michelle: E todo mundo falando para mim que eu ia ficar parada no deserto do México. E eu tentava explicar para as pessoas “não, eu vou de avião, eu tenho visto,” e o meu patrão mesmo, na época, ele falava assim “você não chega nos Estados Unidos, aquele lugar não é para você, não.” E eu avisava, falava, mas long story short, eu preparei toda a documentação para pegar o visto de intercâmbio, não tinha dinheiro para comprovar, não tinha nada, só o meu.

Diógenes: É por isso que foi visto de intercâmbio, para tirar visto de turista, você tem que comprovar uma certa renda.

Michelle: E eu peguei o meu tio de consideração como um backup financeiramente, caso eles pedissem. Como eu trabalhava em contabilidade, eu sou boa com papéis, fiz tipo uns dois ou três dedos de papel para provar que eu ia voltar, tal. Na fila do consulado, eu olho para a menina da frente, a menina gritando, cara, “meu pai é médico! Eu tenho dinheiro para ir!” Falei, poxa, se o pai dela que é médico, ela tem dinheiro para ir, acabou comigo. Daí chegou na minha vez, entreguei tudo no guichê, o cara fez duas perguntas para mim, o que eu estudava, falei Letras, e o que o meu pai fazia, falei motorista. Ele falou, paga o teu visto. Luciano, você acredita que eu olhei para o cara, falei assim pô, mas você não vai pedir nenhum papel? Eu preparei toda essa papelada aqui, você não vai pedir nada? Ele olhou para a minha cara, assim, no seu caso, não, você pode ir. Falei, poxa vida.

Luciano: E vai explicar por quê.

Michelle: Vai explicar, só Deus. E a menina do lado gritando, era o mesmo tipo de visto, mesma coisa. Daí eu falei assim, olha a inocência da pessoa, mas você tem certeza? Eu tenho os papéis aqui. Não, moça, vai pagar o teu visto lá. Daí saí e fui embora.

Luciano: Você pegou o visto de intercâmbio sem ter nada lá. Você encontrou uma escola lá, alguma coisa assim, ou não?

Michelle: Não. Esse intercâmbio foi até aqui em São Paulo que eu arrumei.

Luciano: Uma empresa de intercambista.

Michelle: É, aqui em São Paulo. O plano era para eu ir, passar três meses das minhas férias, dezembro, janeiro trabalhando num supermercado lá, mas não falava inglês. Daí tipo eles conectam você com o empregador e daí eu tive que passar por uma entrevista com o dono do supermercado, mas eu não falava patavinas.

Luciano: Lá?

Michelle: Não, aqui em São Paulo. Eu acho que é no Anhembi que eu fui, numa feira de empregador. Daí o cara olhava para mim, dizia assim, mas ela não fala. Daí eu olhei para a menina e falei assim, mas eu posso ficar junto com você, não é? Ela fala bem e ela fala português, a gente se entende, eu vou aprendendo. Falei, você pode traduzir isso daí para o cara. Ela traduziu, daí ele estava meio pensativo na outra menina, falou, ah, então leva as duas. E acabou que chegando lá não deu certo trabalhar com supermercado, eu acabei trabalhando com um McDonald’s da vida por algum tempo.

Luciano: E aí, cara, de repente, desce de um avião, sai o amor da sua vida e você que estava se virando lá sozinho. Sozinho eu me viro, se não tiver que tomar banho, eu não tomo, se não tiver comida, eu não como, eu me viro e, de repente, você não estava mais sozinho, cara, tinha uma puta de uma responsabilidade caída no seu colo, porque agora eram dois e você que a puxou para lá, não é?

Diógenes: Pois é, o primeiro passo foi a gente casar, para mudar o visto dela e a gente foi e casou no civil. Como se fosse no civil, ele vale por tudo, mas é como se fosse no civil e para mandar os papéis dela, para pegar o visto dela.

Luciano: E vocês casaram no civil lá?

Diógenes: A gente casou lá.

Luciano: Fez tudo lá.

Diógenes: Fizemos tudo lá e aí mandamos para a imigração, eles receberam a papelada lá, aprovaram a mudança de status do visto dela como dependente minha. Isso tudo antes dela sair do intercâmbio dela.

Luciano: Quer dizer, em três meses isso.

Diógenes: Porque ela não podia sair do intercâmbio dela. Tudo em três meses.

Michelle: Isso, ele morava em Baltimore e eu morava em Virgínia, outro estado, três horas de carro.

Diógenes: A cidade de Virgínia Beach, naquela época, eram cinco horas de carro.

Michelle: Oh, yeah, então ele me pegou no aeroporto e me levou para Virgínia Beach, eram cinco horas de distância, a gente não ficou junto no começo, porque eu tinha que cumprir a minha carga horária na [inint][00:32:29], senão eles cancelariam o meu visto. Então a gente passa uns perrengues no começo.

Luciano: O que mais tem é história de brasileiro passando perrengue. Eu lembro da minha mulher. Ela não se conformava, a gente lá em Orlando num mercado, nós fomos fazer compra lá e fomos comprar carne e a moça no balcão vendendo carne para nós era brasileira, que falava inglês muito mal. Ela estava lá uns cinco, seis, sete anos, chegou lá sem falar absolutamente nada e estava trabalhando lá. Minha mulher falava, mas como é que alguém sai com uma mão na frente, outra atrás, sem falar o idioma e está há cinco anos, trabalhando dentro de um mercado, quer dizer, não devia ser um ilegal evidente, devia ter algum esquema que ela montou lá e continuava sem falar a língua direito.

Michelle: Mas lá você não precisa falar inglês mesmo.

Luciano: Em Baltimore acho que sim, não é?

Michelle: Em Baltimore, sim, mas quando você vai para a Flórida você sobrevive. A gente foi para Fort Lauderdale, eu olhei, falei gente, isso aqui é Brasil. Todo mundo conversando na rua em português, com um monte de lugar de comida. Falei uau!

Diógenes: O engraçado é que quando a gente está lá na nossa região, a gente entra com conversa particular e está no meio de um monte de gente, é claro que a gente não faz perto de gente conhecido, que é falta de educação, mas a gente está numa loja, quer fazer um comentário só entre nós, a gente fala português e ninguém entende mesmo, então beleza, não precisa nem falar baixinho. A gente vai lá para o sul da Flórida, é qualquer lugar que você vai tem gente falando português, então essa tática não serve.

Luciano: Não dá para usar lá.

Diógenes: Não dá. E não precisa muito, porque tem restaurante brasileiro, tem lojas brasileiras, tem tudo brasileiro lá.

Luciano: Vocês casam então, mudou teu status de visto, vai vencer os teus três meses e aí, casaram morando cinco horas distantes um do outro, como é que vocês fizeram?

Diógenes: Não, enquanto estava rolando a papelada dela, a gente estava na distância, aí, quando saiu a papelada dela, ela já saiu imediatamente e foi para Baltimore.

Luciano: Que aí você não precisava mais cumprir horário, não tinha nada disso. Você se libertou da obrigação.

Diógenes: Ela só avisou lá e falou que o visto dela tinha mudado e vai para Baltimore. Já de cara a gente casou na igreja de novo e já fui buscar um apartamentozinho para a gente viver.

Luciano: Que você estava então vivendo no…

Diógenes: Alugando quarto.

Luciano: Vivendo no quarto lá do pastor e ganhando dinheiro com o quê?

Diógenes: Nessa época, eu estava na igreja e estava também…

Michelle: Mas a igreja é trabalho voluntário.

Diógenes: Então eu ajudava vendendo carros, trabalhava numa loja de carros que um brasileiro tinha lá e vendia carro, lavava carro, fazia tudo, era uma lojinha pequena. Hoje eles estão com loja grande, mas estava apenas começando. E fiz de tudo, cara, lavei louça.

Luciano: Que ano isso?

Diógenes: Cara, isso era 2006. Fazia de tudo, lavando carro, teve uma época que tive três trabalhos, isso antes da Michelle chegar. Eu fazia meu trabalho na igreja e eu ainda trabalhava numa empresa americana que fazia tipo um forro de salas, depois eu ia para um restaurante, trabalhava mais oito horas no restaurante, lavando louça e depois do restaurante, eu saía para limpar outro restaurante, à noite. Eu trabalhava tipo coisa de 19, 20 horas por dia, isso durante 8 meses. Eu quase morri, cara. E eu fazia isso por uma razão, a Michelle não estava aqui ainda, então eu tinha que dar um jeito de ocupar o meu tempo, porque era difícil longe de família e tudo. E outra porque eu tinha interação com gente. Antes de ir para lá, eu fui sempre muito acanhado, nunca começava uma conversa. Nesses primeiros seis meses eu aprendi o que era solidão, então você começa a falar com todo mundo que você vê na frente. E foi isso que ajudava o meu inglês e também me tornou uma pessoa diferente, uma pessoa mais comunicativa e uma pessoa que lida melhor com as pessoas, o que me ajudou no meu negócio depois.

Luciano: Você não tinha voltado para cá em momento algum?

Diógenes: Não.

Luciano: Aí quando você reencontrou com ele, vocês não se viam há quanto tempo?

Michelle: Dois anos. E não era a tecnologia de internet, WhatsApp, essas coisas assim, era ligação uma vez por semana, conversava.

Diógenes: Eu comprava um negócio chamado calling card, um cartãozinho, vinha com código, você chamava, ligava para o número, colocava o seu código e depois dizia agora você pode ligar para onde você quer, sabe como que é?

Luciano: Sei como é, usei muito isso aí. Muito bem, estamos os dois juntos, vai procurar uma casinha, um ‘apartamentinho’, uma coisa assim e na tua cabeça “tenho que me virar”.

Michelle: Não, na minha cabeça era o seguinte…

Luciano: Será que tem banana para vender aqui?

Michelle: Na minha cabeça assim, gente, estou aqui, boa. Daí eu tinha acabado de chegar e, como eu disse, no começo é muito ruim, ainda mais eu que não sabia inglês. Falei, poxa, o que que eu vou fazer? Ligava a televisão, tudo em inglês. Não tinha ninguém, porque eu acostumada no Brasil com cidade pequena, conheço todo mundo, converso com todo mundo, aquele jeito gostoso de interior… ninguém na rua, porque lá cada um é na sua. Fui uma vez, minha primeira vez que eu fui ao mercado, eu fui comprar três coisas, eu gastei quatro horas no supermercado e trouxe uma para casa, porque eu tinha que abrir o dicionário, para ver o que era. No Brasil, geralmente você tem a foto do produto na embalagem, nos Estados Unidos é só o nome. Então se você vai pela foto, você não acha. Eu lembro que eu fui comprar leite em pó, uma das coisas e não tinha. Eu revirei o lugar e depois que eu vim a saber que é difícil mesmo achar. Foi um período de adaptação muito difícil, eu ligava muito para o pessoal no Brasil.

Luciano: Chorava…

Michelle: Não, eu não chorava porque eu não podia passar insegurança para eles, que estavam aqui. Eu falava, não, estou com saudade, quero falar português. Mas tem aquele negócio, Estados Unidos é a terra que o filho chora e a mãe não vê. Você passa uns perrengues, mas você liga e fala assim não, tudo bem, estamos caminhando e tal. É a parte do crescimento como pessoa. Então eu ligava para minhas amigas, ligava para a minha mãe, para tia, todo mundo. Só que chegou um ponto que eu falei eu não posso viver assim. Ele saía para trabalhar oito da manhã, voltava praticamente oito da noite, eu passava o dia inteirinho sozinha. Falei não posso viver aqui, ou eu vivo nos Estados Unidos, ou eu vivo no Brasil. Se for para viver no Brasil, vamos fechar a casa, vamos embora. Se é para viver aqui, vamos adaptar. Eu lembro que eu levantei, olhei no espelho, falei assim, estou nos Estados Unidos, vamos viver igualzinho americano, a partir de hoje eu vou aprender essa língua, vou comer o que eles comem, vou vestir o que eles vestem. Porque na minha cabeça é que essa comida não presta, que a comida do Brasil é melhor, porque o sapato do Brasil é mais confortável, a roupa é melhor. Sabe aquela comparação?

Luciano: Sei.

Michelle: Daí eu fechei a casa, eu andei por volta de 45 minutos a pé até chegar no supermercado, porque nos Estados Unidos a parte residencial geralmente não fica perto da comercial. Cheguei, fui ao mercado e comprei um pacote de mac’n’cheese, que é a comida tradicional do americano, macarrão com queijo. Cheguei em casa falei, é isso que a gente tem para janta hoje, se eu estou aqui, vamos viver igualzinho americano. Horrível a comida, não era boa, mas foi um ponto, foi um marco na minha vida e já procurei escola de inglês e comecei a fazer e comecei a correr atrás da vida. Daí eu trabalhei com algumas brasileiras de ajudante de limpeza, fui algumas vezes, trabalhava o dia inteiro para ganhar tipo 20 dólares por dia.

Luciano: Então, tem um mito aqui no Brasil que o filho fala pai, vou para os Estados Unidos. Vai fazer o que lá, vai lavar prato, vai lavar roupa, vai lavar privada dos outros e não sei o que. Então tem um certo mito de que o que sobra para brasileiro imigrante fazer lá é exatamente isso, essas funções que ninguém quer fazer e que, de certa forma, são trabalhos humilhantes quando você pensa aqui no Brasil. Pô, eu não criei meu filho para limpar a casa dos outros, então existe esse mito aqui. Quando você está lá, a coisa muda de figura, porque de repente é o seguinte, cara, eu tenho que sobreviver e se para sobreviver eu tenho que lavar prato, eu vou lavar prato e agora a questão é como é que eu encaro isso que eu vou fazer. Eu posso encarar aquilo como estou lavador de prato a caminho de uma coisa muito melhor, daqui a pouco eu vou deixar isso aí, isso aqui é um instrumento para eu passar por esse perrengue, portanto, eu não vou me sentir humilhado, não vou me sentir rebaixado, nada disso, eu vou encarar e vou para cima. Como é que vocês trabalharam isso na cabeça?

Michelle: Tipo, no meu caso, eu comecei limpando com uma mulher, 20 dólares pelo dia todo. E o interessante é que eu não conseguia falar inglês, mas eu entendia e um dia eu percebi ela, brasileira, falando para a dona da casa algumas coisas sobre mim “ah, essa daí chegou e tal e não sabe falar inglês, não entende nada, então eu trouxe ela aqui”. Eu ralando de trabalhar. E um dia cancelava, outro dia não cancelava. Um dia eu cheguei para o Diógenes, falei assim, chega, não vou trabalhar para ajudar ninguém, não. Vou arrumar minhas próprias casas e eu vou limpar. Eu sou de uma família de princípios muito fortes, sabe. Qualquer trabalho é trabalho. É honesto, é honesto, não interessa se é limpando casa, se é no banco, todo mundo é igual. Essa foi a minha criação. Não interessa o que a pessoa faz. Minha mãe sempre me ensinou que a pessoa que está limpando o chão é do mesmo nível que a pessoa que está de gravata, todo mundo é igual. Então, para mim é um serviço. Daí, como eu não sabia falar inglês, na época era Mapquest, não sei se tinha aqui no Brasil.

Diógenes: Não tinha navegadores, não tinha GPS.

Michelle: Então, o Diógenes trabalhando, o que eu fazia, eu entrava na internet, peguei uma área, ele foi levar um carro uma vez numa área, falou assim “essa área parece legal, Michelle,” daí eu imprimi a área, o mapa da área, fiz alguns panfletos e estudava o mapa no dia anterior, de como chegar lá dirigindo, porque não tinha nada no celular.

Diógenes: Não tinha smartphone.

Luciano: Não tinha nem o Az, não tinha nada naquele tempo.

Michelle: Não tinha nada. Eu ia com a cara e com a coragem, tremendo, dirigindo assim tremendo, daí eu parava o carro, colocava um X no mapa de onde eu estava, andava de porta em porta colocando panfleto. Cheguei a colocar 4.500 panfletos naquela região.

Luciano: Housekeeping.

Michelle: Oferecendo serviço. E daí tivemos duas ligações.

Diógenes: E a Michelle fazia essa parte e eu atendia o telefone e falava com a pessoa e a gente, à noite ia dar os orçamentos na casa. E foi assim, a Michelle chegou e eu falei “Michelle, eu posso arrumar um trabalho para você fazer o que eu estava fazendo,” o que eu comecei fazendo, lavando louça, porque meu ex-patrão ainda era meu patrão também na loja de carro. Falei “posso arrumar para você lavar louça, mas o pessoal ganha muito mais aí limpando casa. Enquanto lavando louça vai fazer aí coisa de 7 dólares por hora, você pode limpar casa fazendo 25.” Aí foi no-brainer, aí que a gente partiu para esse lado, ela foi aprender como se fazia, que a limpeza é totalmente diferente nos Estados Unidos como aqui no Brasil. Aqui a gente joga água, pega a mangueira e passa o rodo no piso.

Luciano: Para começo de conversa, lá não tem ralo.

Michelle: Não, não tem ralo, a não ser na ducha, mas as casas são todas de madeira e é tudo gesso na parede, então não tem como ficar jogando água. Mas foi assim que a gente começou, a gente fazia os panfletos e a Michelle começou colocando os panfletos sozinha e limpando sozinha, porque eu sustentava de um lado, como vendedor de carro. Até que chegou um ponto que eu vi que era hora de sair de lá, falei não aguento mais ficar aqui. Assim, eu gostava muito do negócio de vender carro, mas era carro usado. O dono da loja era gente boa, gente honesta, mas você está vendendo carro velho, o carro vai quebrar, um ou outro vai quebrar, a gente fazia inspeção e dirigia para ver se estava bem e tal para vender, mas dava problema. Eu odiava quando chegava gente “Pô, você me vendeu um carro ruim do caramba!” e tal. E chegou um ponto que não deu mais. Aí eu falei “Michelle, como é que a gente está aí financeiramente?” A gente tinha um dinheirinho guardado. “Você acha que se a gente correr atrás, conseguir mais cliente, a gente consegue cobrir nossas contas?” A Michelle falou assim “Vamos.” Aí eu saí de lá, no dia seguinte eu comecei a limpar uma casa com ela, cara. Foi horrível.

Michelle: Ai, aquele dia!

Diógenes: Horrível, não o trabalho em si, mas é você, é coisa de ego e a Michelle, “Não, você faz assim, faz aquilo lá, faz desse jeito.” “Putzgrilo, a gente vai durar um dia aqui, Michelle, vai quebrar o pau,” ou a gente vai separar ou eu vou parar de trabalhar com ela. Mas foi o primeiro dia só, depois tipo vai aprendendo o trabalho e vai começando, botando mais panfletos em mais áreas e aí eram os dois, então a gente podia dobrar a questão do…

Luciano: Quer dizer, não era uma empresa, vocês não tinham uma empresa, vocês não tinham nada, eram dois imigrantes fazendo, não tinha recibo, não tinha coisa nenhuma.

Diógenes: Não tinha nada.

Michelle: Eles olhavam para a gente, achavam a gente muito… “Vocês são muito novos, vocês são irmãos?” “Não, a gente é casado.” “Ah, tá, mas vocês estão limpando casa por quê?” A gente começou limpando casa para ter mais flexibilidade para estudar. A gente trabalhava das 7h às 5h. Às 5h45 a gente começava faculdade, até às 10h30 da noite. Às 10h30 da noite a gente voltava, daí que eu ia fazer janta, a gente jantava, depois que a gente ia estudar, fazer os deveres de casa. No outro dia a mesma coisa, a mesma rotina. Isso daí a gente levou por volta de uns nove anos assim, não é Di?

Diógenes: É, para a Michelle durou um pouco mais, porque ela teve que fazer muita aula de inglês.

Luciano: Fala uma coisa, vocês nesse momento que estavam os dois se virando lá, o que era a visão, onde é que eu vou estar daqui a dez anos? Tipo assim, eu não sei, vamos tentar estabilizar aqui. Vocês tinham uma visão de que estavam começando a montar um negócio?

Diógenes: Eu pensava, eu não via como negócio ainda, eu via como a gente está limpando casa para a gente pagar nossa faculdade e depois que formar na faculdade, a gente vai fazer no que a gente formar. Essa era a minha ideia.

Luciano: Você estava fazendo faculdade do quê?

Diógenes: Eu estava fazendo administração.

Luciano: E você?

Michelle: Eu comecei para ser professora. Depois, através de uma mulher que eu estava limpando a casa dela, ela falou para mim assim “Michelle, você está fazendo faculdade para quê?” “Professora.” Porque, na minha cabeça, eu gosto de ensinar, eu amo ensinar. Daí ela disse assim “Você daria uma ótima enfermeira, porque o jeito que você organiza os produtos de limpeza antes de começar a limpar minha casa e quando você deixa a minha casa limpa, você seria uma excelente enfermeira.” Ela era enfermeira, o marido dela é médico. Eu falei, “Mas o preço é muito caro.” Eu sempre quis trabalhar na área de saúde, mas eu não conseguia pagar aqui no Brasil. Ela falou “Não, Michelle, aqui tudo é o mesmo preço.” Falei “Não, não acredito.” Ela falou “É.” Daí eu comecei a fazer enfermagem, depois conversei com ela.

Luciano: Por uma dica.

Diógenes: E tem pessoas assim que aparecem na nossa vida. Por isso que eu gosto de chamar as pessoas para tomar café, não foi só com você, não, aquele dia. Assim, gente da minha igreja, ou alguns amigos que eu chego assim “vamos tomar um café,” porque tem gente assim, é um contato que você faz, uma pessoa que você conhece que de repente abre um universo grande para você. E foi assim com a Michelle. Eu fiz business, fiz administração, porque é aquela coisa, você não sabe o que você faz, você faz administração, porque depois, mais para a frente, se quiser mudar, você faz uma pós.

Luciano: Serve para tudo.

Diógenes: Serve para tudo.

Luciano: Deixe eu pegar um insight que você deu aí, que eu acho que eu já usei aqui no programa, mas é sempre bom a gente bater nessa tecla aí, que a vida da gente é feita de encontros. É aquilo que você falou, eu vou tomar um café com alguém que por acaso passou e nessa tomada de café nasce uma ideia e dessa ideia nasce um negócio, nasce um casamento, nasce sei lá o que e a tua vida muda a partir do encontro. O que significa que quanto mais você se expuser a encontros, mais chance você tem de achar coisas legais. Então, se eu escolhi passar minha vida jogando videogame, trancado dentro de casa e saio de casa vou trabalhar e fico trancado na minha sala de trabalho, eu estou evitando encontros. O que significa que eu reduzo barbaramente a minha chance de encontrar coisas legais para acontecer. Então, você vê, você encontrou um amigo do seu pai que te convidou para os Estados Unidos, você encontrou uma mulher que te deu uma dica de fazer enfermagem e a partir desses pequenos encontros, então é essa a ideia, exponha-se a encontros, que dali é que podem nascer as grandes oportunidades.

Diógenes: E tem aquela coisa também, se você não perguntar, se você pensar que vai levar um não, você já levou um não sem perguntar, entendeu? Então, na questão de chamar alguém para trocar uma ideia e perguntar, eu faço isso muito com pessoas com mais experiência que eu. Tem uns caras na igreja que estão se dando muito bem com negócios, eu “posso te pagar café um dia? Eu quero aprender com você.” E muita gente fica com vergonha de fazer isso. O que o cara vai falar e tal. Na verdade, o pessoal gosta de fazer isso, de você chegar para uma pessoa e falar “posso aprender com você?”

Michelle: Acho que o princípio todo é você ter uma mente e um coração voltado tipo o que eu posso aprender com essa pessoa? Porque eu já vi muita gente que chega na conversa, ela monopoliza a conversa, porque ela quer tanto se expor, quer tanto se vender, se promover, que não deixa ninguém mais falar.

Luciano: E não escuta.

Michelle: Não escuta. Então, eu acho que uma conversa legal é um fala, outro escuta então todo mundo aprende, em vez de ficar aquele negócio maçante. Eu acho que talvez a gente tem essa mania de sempre conversar com pessoas mais velhas e a gente fala assim “e aí, qual é o seu ponto de vista? O que você acha dessa situação?” Eu lembro que no começo, como a gente trabalhava junto, as casas que a gente limpava a gente falava assim, se você tivesse que dar um conselho para a gente, o que você falaria? Não era? Lembra? A gente sempre pedia.

Diógenes: É, porque a gente era novo mas sabia que não precisava passar por coisas que podia aprender através de outros. E esses encontros, esses papos que a gente teve, a gente conhece tanta gente legal que acabou mudando a vida da gente. Um bom exemplo aqui, eu te chamei um dia para tomar café, eu sou fanzaço do Café Brasil e naquele dia eu chamei você e hoje a gente está aqui conversando contigo.

Michelle: Exatamente.

Diógenes: Se eu tivesse tipo, sei lá, Luciano de repente pode ser chato para caramba e se eu mando mensagem para ele, ele vai ignorar. Se eu não mandasse aquela mensagem, a gente não estava conversando aqui hoje, não estava gastando esse tempo legal aqui.

Michelle: Só um parêntese, você que é companheiro de muitas limpezas com a gente, viu [riso]?

Diógenes: Luciano, a gente ouviu todos os Café Brasil até hoje, todos.

Luciano: Limpando casa, ouvindo Café Brasil. Que beleza, cara.

Diógenes: A gente ficou tão viciado em podcast que a gente ouvia coisa de 40 por semana.

Michelle: 48 podcasts.

Diógenes: Assim, a maioria em inglês mas ajudava o tempo a passar muito rápido e como é um trabalho mecânico, você pode ficar com a mente ocupada com outra coisa, aprendendo outra coisa.

Michelle: Isso que é o legal, a gente estava na faxina fisicamente, mas a nossa mente estava sempre trabalhando, sempre aprendendo. Às vezes eu chegava para ele, falava assim “o que você está escutando?” Ele tinha o Ipod.

Diógenes: Fazia downloading do computador para o Ipod.

Michelle: É e a gente tinha os mesmos, só que eu escutava um, eu escutava outro, daí eu falava assim “O que você vai escutar hoje?” “Ah, hoje eu vou escutar Café Brasil.” “Ah, já escutei ontem.”

Diógenes: E a gente compartilhava, a gente ouvia muita pregação também, compartilhava o que a gente aprendeu e falava dos insights que a gente pegava e no final acabava virando, cada um ia para o seu canto, ouvindo seu podcast, mas no final a gente conversava no caminho de uma casa para outra, ou no caminho para casa e gerava até conversa, para quem ficava o dia inteiro junto. Imagine só, geralmente o esposo vai trabalhar de um lado, a esposa vai para o outro e no final do dia eles se reúnem. Só que oito horas ficaram longe, mas oito eles estão dormindo, então eles ficam ali oito horas talvez juntos, quando não tem trânsito. A gente era o dia todo, o tempo todo, cara, a única hora que a gente não estava junto era quando a gente estava na faculdade, que era aí por quatro horas, o resto era tudo junto, então haja assunto para falar, para não ficar enjoado um com o outro. E esses podcasts foram excelentes nesse sentido.

Luciano: Fala uma coisa para mim, em algum momento começou a se desenhar que aquilo que vocês estavam fazendo podia se transformar num negócio, que aquilo podia ser “eu tenho um negócio aqui que pode dar grana”?

Diógenes: Cara, a gente trabalhando junto, em um ano a gente estava com a nossa semana toda cheia, o calendário completamente cheio.

Luciano: Por quê? Vou melhorar a pergunta aqui. Por quê? Porque tem uma puta carência de mão de obra para fazer esse tipo de trabalho lá, ou porque o trabalho de vocês era?…

Michelle: Eu sou muito chata, então tudo que eu faço eu gosto de fazer muito bem feito. Então a gente desenvolveu tipo técnicas e eu gosto de sistemas. Então eu desenvolvi sistemas para a gente limpar bem uma casa num tempo aceitável e com um preço bom. Então você vende o conjunto, você apresenta o conjunto para a pessoa. E o que aconteceu é que como o trabalho é bom…

Minha mãe é uma pessoa muito influente na minha vida, ela sempre falou assim, ou você faz bem feito, ou você não faz. Então a gente toca assim, sabe. E começou uma amiga fala para outra: eles limpam bem, é gente de confiança.

Diógenes: É aquela coisa, você vende uma história também. A gente era um casal novo, nessa época, eu estava com 24 anos, ela com 22. O pessoal olhava, bonitinho o casalzinho trabalhando duro para estudar. Então a história vende também. E a gente fazia realmente um trabalho excelente. A gente pegava muito cliente que falava “O pessoal que está vindo aqui não está fazendo um bom trabalho e minha amiga falou que vocês fazem um bom trabalho.” A gente chegava e encontrava uma casa horrível, essa casa parece que não foi limpa há seis meses e foi limpa semana passada, entendeu? E foi assim, durante um ano não tinha mais ninguém para entrar no nosso calendário.

Michelle: Teve uma vez que a gente foi visitar um amigo na Califórnia e a gente chegou no apartamento dele, estava todo zoneado.

Diógenes: Dois solteiros morando juntos.

Michelle: Então eles saíram para trabalhar e eu olhei para o Diógenes, falei assim, vamos dar uma ajuda para eles? A gente foi,  deu uma limpada lá, uma catada. E o cara, ele chegou do serviço, ele abriu a porta do apartamento dele, olhou, fechou, tipo não é o meu apartamento [riso].

Diógenes: Foi. Então, mas é aquela coisa, para mim, é bom senso. Você ir e fazer um trabalho bem feito. Eu acho que na questão de serviços também você tem que ser muito previsível, a pessoa tem que saber a hora que você vai chegar e a hora que você vai sair e que você não vai faltar.

Luciano: E na tua cabeça a tua medida de sucesso é essa pessoa te chamar de novo. Eu preciso de repetição, eu quero um cliente que esteja comigo, não quero vir e fazer uma cagada e esse cara nunca mais me chamar.

Diógenes: Exatamente, é o que interessa para a gente. E funciona assim, a pessoa geralmente tem a casa limpa toda semana, ou cada duas semanas ou uma vez por mês, a cada quatro semanas. É assim que funciona. E esses são os melhores clientes porque você faz um baita de um trabalho na primeira vez e depois a segunda em diante fica mais fácil.

Luciano: Dá uma ideia para nós que estamos ouvindo aqui, que a gente não tem a menor ideia, quanto custa isso? Porque a gente tem uma ideia de quanto custa uma diarista no Brasil, como é que funciona no Brasil, acho que aquilo é outra realidade. Então o cara que vai chamar vocês uma vez por semana, é isso?

Diógenes: A maioria pede a cada quinze dias.

Michelle: Depende muito do tamanho da casa. Tem algumas variáveis, é um average.

Luciano: Então, entre a cada quinze dias, quando vocês não estão lá eles estão se virando na casa, eles estão dando uma meia boca, a pessoa que mora lá, ou não está nem aí?

Diógenes: Geralmente, não limpam banheiro, dá um tapa na cozinha, mas geralmente não fazem nada. E uma casa, vamos dizer, dois banheiros, três banheiros, quatro quartos, mais ou menos, que a pessoa gasta mais ou menos umas duas horas e meia limpando, custa, o que a gente cobra, mais ou menos é 140 dólares. Duas pessoas, duas horas e meia, cinco horas de trabalho, 140 dólares.

Luciano: 140 dólares, significa que são 280 dólares/mês a pessoa vai gastar para limpar, vezes quatro dá 1.200 reais/mês.

Diógenes: Exato.

Luciano: 1.200 reais mês para ter uma limpeza a cada quinze dias. Cara, é outra realidade, é outro mundo.

Diógenes: É outro esquema. E não é aquela limpeza que você taca água em tudo. Tipo, a gente limpava bem, mas tem coisa que você não pode fazer, tipo jogar muita água não pode porque vai varar tudo. Então é rápido também.

Luciano: E vocês quando chegam lá, chegam com tudo debaixo do braço, ou a pessoa tem que comprar?

Diógenes: No começo, a gente pedia para as pessoas comprar do gosto delas, depois como ficou mais profissionalizado, anos adiante eu falei não se preocupe com nada, a não ser que você queira que use alguma coisa que você tenha especial, que seja, sei lá, um cheirinho especial, aí a gente vai trazer tudo, não precisa se preocupar com nada.

Luciano: E como você falou, teve uma hora que a gente estava com a agenda completamente tomada, não dava para crescer mais.

Diógenes: Aí veio o crash, 2008, 2009, a gente perde metade dos nossos clientes.

Luciano: Qual foi a alternativa dos caras? Se eu não chamo vocês para limpar, eu chamo o quê?

Diógenes: Ninguém, eles ficam com a casa nojenta, ou se a pessoa resolve limpar, tem gente que limpa, que faz um bom trabalho eles mesmos, só empregam a gente porque eles não querem fazer. Mas teve uma cliente uma vez que chegou chorando para a gente “Olha, eu não posso mais ter vocês limpando minha casa porque só no dia de hoje meu marido perdeu 70 mil dólares na aposentadoria dele.”

Luciano: Que coisa.

Diógenes: Aí o que você fala, sinto muito e tal, espero que recupere logo e a gente está aqui, quando você precisar, a gente volta. E ela voltou depois, mas levou anos. A gente perdeu metade dos nossos clientes. Ainda bem que a gente trabalhava num orçamento bem baixo, a gente gastava pouco, a gente sempre tentou guardar bastante dinheiro, então metade dos clientes ainda pagava nossas contas e a faculdade.

Luciano: E ainda eram só vocês dois?

Diógenes: Só nos dois.

Luciano: A mão de obra eram vocês. Eu quero saber quando é que vem a decisão de que vocês precisam expandir a empresa. Aliás, desculpe, eu acho que a primeira decisão é a seguinte, eu vou ter que fazer uma empresa, não dá mais ficar pessoa física, isso aqui tem que virar pessoa jurídica.

Diógenes: Mas lá é diferente, que você pode trabalhar desse jeito, como se fosse autônomo, você faz os impostos normal, a única diferença é que a gente não tinha um seguro, não tinha uma empresa aberta, mas lá é tão fácil começar seu negócio que você não imediatamente precisa abrir uma empresa de cara.

Michelle: Não é tão burocrático quanto.

Diógenes: Então tem essa facilidade. Quando eu fazia o nosso imposto de renda, a gente falava assim, de onde que vinha o nosso dinheiro: limpeza. E é totalmente aceitável, mas a questão de quando a gente resolveu tratar isso como negócio, até certo ponto a gente era dono do nosso trabalho, o que era muito melhor do que ser empregado. Eu vejo assim, tem gente que fica com medo de arriscar e abrir o próprio negócio dele porque fala, não, é muito risco e tal, vamos falhar. Eu vejo de uma maneira diferente, eu vejo se você tem um patrão só, você tem um cliente só a servir. Se você tem vários clientes, você perde um, beleza, bola para a frente, conseguir outro, eu acho que o risco é muito menor para quem tem vários patrões do que quem tem um só.

Luciano: É, tem prós e contras. É aquela velha história, tem risco nas duas pontas e é uma questão de você se adaptar. Tem gente que não tem jeito, não vai conseguir jamais encarar a ‘responsa’ de ter o próprio negócio, de contratar gente, cuidar de toda a parte burocrática e tudo, que aqui no Brasil, isso aqui é um perrengue desgraçado. Eu imagino que lá é muito mais simples.

Michelle: E outra, também tem a parte acho que a pessoa ter o próprio negócio é fácil, ter vida fácil e não é, você tem que dedicar, tem que trabalhar. Tudo na vida você tem que correr atrás, então no caso você trabalha, tem que fazer contato com o cliente, tem toda uma dinâmica atrás e tem muita gente que não pensa nesses detalhes por trás dos bastidores, ele só olha que faz isso de grana, mas não vê o quanto trabalho que é envolvido para fazer isso daí de grana.

Luciano: Quando veio a decisão de que preciso expandir, preciso transformar isso aqui num negócio? Vem antes ou depois de você se formar em enfermaria?

Michelle: Foi um pouco antes.

Diógenes: Na verdade, aconteceu. Porque a gente estava planejando a Michelle ficar grávida da nossa primeira criança, uns seis meses depois de quando ela exatamente ficou, porque ela estava na escola ainda. Então a Michelle ia para a escola de barrigão e tal, chegou num ponto que ela estava grávida, eu falei, Michelle, não dá mais para continuar.

Luciano: Limpando casa?

Michelle: Eu trabalhei limpando casa até os sete meses.

Diógenes: Aí eu falei assim, foi até engraçado, e o medo dela sair era será que alguém vai fazer o mesmo trabalho que a gente faz? Tem um nome, a gente pode perder cliente se não fizer um bom trabalho. Ela falou não vou sair. Vai sair, sim. Não vou sair, não. Então eu vou mandar você embora, vou despedir você. Aí ela pegou e falou vou despedir você também [riso]. E chegou num ponto que teve que contratar alguém, foi que a gente contratou a primeira pessoa que foi minha ajudante nesse caso, enquanto Michelle estava estudando para caramba e ainda grávida aí, tipo acho que você estava com uns cinco, seis meses, quando você parou definitivamente.

Michelle: Eu trabalhei até os sete.

Luciano: Você já tinha uma empresa? Se eu quisesse, eu ligava para onde? Eu ligava para Diógenes e Michelle?

Diógenes: Era isso. Exatamente isso. Aí nesse ponto, quando você começa a empregar gente, aí eu falei, não, preciso me proteger, preciso dar uma garantia a mais para os meus clientes. E foi mais ou menos na época em que eu estava me formando lá na universidade. Michelle estava grávida de seis meses quando eu graduei. E foi assim, eu mudei de administração para uma coisa chamada international business, tipo comércio exterior, uma coisa assim, falei, cara, eu tenho graduação em international business, eu falo três línguas, eu estou limpando banheiro. Não que limpar banheiro era ruim, mas tipo acho que posso conseguir uma coisa melhor. Foi aí que eu pensei, eu estudei administração de empresas e eu tenho uma empresa. Acho que foi aí que caiu a ficha para mim. Pensei eu vou tratar esse negócio como um negócio e não somente como um ganha-pão, até porque também agora eu tenho empregados e tenho que ter uma certa segurança, eu posso levar processo por alguma coisa, pode acontecer alguma coisa errada no trabalho, então foi aí que eu abri uma empresa, que foi muito rápido.

Eu estava conversando com uns amigos meus que leva o que, cento e quarenta e poucos dias para abrir uma empresa aqui? Eu abri num dia, isso porque na época eu fiz e tive que ir lá no escritório, no departamento do governo. E departamento de governo é ruim em qualquer canto, cara. Lá qualquer coisa que é de governo é demorado, você é maltratado, mas foi um dia, resolvi. Esses dias uns amigos meus, estávamos abrindo um negócio, a gente está começando uma parceria lá, eu e mais três, está começando agora, a gente não tem nenhum cliente ainda, mas o plano é bom, a gente falou vamos abrir a nossa empresa, fomos na internet, abrimos a empresa com o estado, abrimos a empresa com o governo federal, nos levou 40 minutos.

Luciano: Pela internet?

Diógenes: Pela internet.

Luciano: Você não precisou sair de casa para ir no cartório carimbar porra nenhuma!

Diógenes: Aí, cara, eu fui e falei para eles, escuta, isso aqui que a gente fez agora, nesses 40 minutos aqui nessa reunião, levaria para a gente no Brasil cento e cacetada dias para fazer. É exatamente isso.

Michelle: E a burocracia quando é para fechar, então, Nossa!

Luciano: Não me conta isso, eu tive que fechar uma empresa e levou seis anos. Seis anos para eu conseguir fechar. Trocou assim de contador quatro, cinco vezes porque… foi um inferno.

Michelle: E vai surgindo imposto que você não pagou. Coisinhas que você não pagou.

Luciano: Não, e a cada dia é um negócio diferente. Vamos ver isso aqui, você tem uma dívida aqui. Como assim, cara, eu nem sabia que existia isso?

Michelle: Mas eu paguei tudo! Não, você não pagou.

Diógenes: Então, tipo ajuda muito.

Luciano: Mas aí virou uma empresa com empregados?

Diógenes: Virou uma empresa com empregados.

Luciano: E aí você teve que cuidar do outro lado, que você não tinha preocupação até então, que era quem é que eu vou achar, vou ter que selecionar, vou ter que pegar. Você foi buscar o que, brasileiros na mesma situação?

Diógenes: A primeira que apareceu foi uma mexicana para trabalhar com a gente. Muito gente boa, muito trabalhadora. E é engraçado quando você contrata uma pessoa. Eu acho que negócio é muito bom senso, você quer pessoas boas, você tem que pagar um pouco melhor e você tem que tratar a pessoa bem. Então um espalha para o outro. Já fala assim, quando você precisar de alguém, eu já tenho a certa pessoa para você. Então todos os meus funcionários hoje são latinos, centro-americanos.

Luciano: Naquela época, que visto era? Ainda era o R?

Diógenes: Não, nessa época a gente já estava de Greencard.

Luciano: E o Greencard veio a partir do visto R.

Diógenes: Do visto R, exatamente. Aí depois de cinco anos que você tem o seu Greencard, você pode virar cidadão americano também.

Luciano: E quando o bebê nasceu, já era o Greencard, já tinha?

Diógenes: Já era o Greencard, já tinha. A gente já estava há bastante tempo.

Luciano: Não foi uma coisa complicada então?

Michelle: O que, o processo do Greencard?

Luciano: Não foi um negócio para vocês?…

Diógenes: Foi o processo de juntar todos os papéis.

Luciano: Mas eu digo assim, esse processo de vistos. Você me falou aqui, o dia que você foi tirar o visto, você tomou um susto, o cara olhou para você e falou toma o visto aí. Eu ouço histórias de visto que são pavorosas, cara. Cara que tem que sair de lá, que tem que voltar para cá cada três meses tem que vir embora, depois não sabe se vai voltar.

Diógenes: Depende muito do visto. Se eu viesse para cá, eu teria que tirar outro visto, então eu não voltei, eu fiquei lá o tempo suficiente, até a gente pegar o Greencard.

Michelle: A gente ficou cinco anos sem vir.

Diógenes: Cinco anos sem vir para cá.

Michelle: O negócio do americano é que tudo é muito quadradinho para eles e para nós brasileiros é tudo dá um jeitinho. Com eles não tem jeitinho, se pedir o papel A, B e C, você coloca na ordem A, B e C e manda e daí as coisas funcionam. Agora, se você pensa assim, pediu A, B, C, provavelmente vai pular o D que não vai prestar atenção, eles mandam todo o processo para você de volta, para você rever e você tem que dar uma entrada de novo. Então no nosso caso, a gente precisou coletar vários proofs, vários comprovantes.

Diógenes: Cartas.

Michelle: A gente montou o processo e mandamos. Contratamos uma advogada.

Diógenes: Que ela cobrou da gente, na época 5 mil dólares e ela simplesmente assinou o papel, cara. Ela falou assim, você traz isso, isso e isso para mim.

Michelle: Ela só assinou.

Diógenes: Ela só assinou um formulário que a secretária fez na frente e ela cobrou 5 mil dólares na hora. Falei, caceta, mano, 5 mil dólares.

Michelle: Você já tinha arrumado todos os papéis. O que ela precisava arrumar, já tinha feito.

Diógenes: Mas tipo assim, a gente fez pelo cagaço mesmo. Tipo e se eu fizer por mim mesmo e não dá certo, eu vou ficar com peso na consciência de que eu fui mão de vaca, não quis pagar advogado.

Michelle: Mas agora está mais.

Diógenes: Hoje em dia está mais complicado, principalmente esse visto religioso. Engraçado que por fazer praticamente todo o meu processo e dar para a advogada assinar, nesse período que a gente ficou, perdeu bastante cliente, eu tinha horas vagas no meu calendário, o escritório regional da igreja me pediu para ir lá trabalhar. Eu fui como um cara de comunicação tipo blog e newsletter, essas coisas e acabou que tinha muito pastor lá que precisava de ajuda para preencher, não queria pagar advogado e precisa de ajuda com o visto R1 deles.

Luciano: Você virou especialista?

Diógenes: Eu virei especialista em R1. Até hoje ajudei, se for colocar entre pastores e família, mais de 30 Greencards que eu já ajudei. Engraçado que é uma coisa que para advogado não dá dinheiro. Em vez de pegar um processo que vai te dar 5 mil dólares, ele vai pegar um processo que vai dar 10 mil, 15 mil, então não tem especialista nisso. Aí eu acabei me especializando nisso e sempre quando tem alguém que está precisando… Última vez foi uma menina da minha igreja, uma sul africana que contrataram advogado, o advogado fez uma cagada tão grande no processo e foi negado o processo dela, me chamaram eu falei, olha, está tudo errado, tem que começar tudo de novo. Fizeram o processo de novo, aí ela pegou o visto dela.

Michelle: E todo mundo acha na igreja que ele é advogado.

Diógenes: Acham que eu sou advogado, eu fazia uma grana lá, meu. Um advogado que fez o meu contrato de terceirização para os meus funcionários, a hora dele é 450 dólares por hora. Ele foi camarada comigo que ele me cobrou por duas horas só para bater um contrato.

Luciano: É, advogado é um business nos Estados Unidos, uma coisa doida lá. Aqui também é, mas não é a cultura que existe, porque lá é advogado para qualquer coisa. Escorregou numa casca de banana na rua, tem quatro advogados na tua porta no dia seguinte, vamos ganhar um milhão aí.

Diógenes: Exato. E as famosas histórias que a pessoa vai no McDonald’s pega o copo de café, coloca na boca, queimou na boca e processou o McDonald’s e ganhou, mas tipo café quente.

Luciano: Mas vamos lá, vamos voltar no teu negócio. Você então monta a empresa, ela está se preparando para ter o bebê, você bota uma ajudante, a empresa começa a crescer e foi nesse ponto, você já tinha decidido que esse seria o teu business? Tipo assim, aqui eu vou fazer, vou fazer o negócio crescer, isso aqui vai ser o meu business?

Diógenes: Já.

Luciano: Sozinho, sem sócio, ela sua sócia?

Diógenes: A Michelle é tipo assim, é uma parada boa para ela, porque ela não põe muito tempo na empresa, mas ela recebe os dividendos, que é 50/50, tipo mulher esperta e ela trabalha [riso]…

Michelle: Com licença. Vamos reformular.

Luciano: Vai sair faísca aqui.

Michelle: Não, é que no momento eu estou cuidando de outro departamento. Nós estamos terceirizando as coisas. Ele está cuidando da área da empresa e eu estou cuidando das crianças, tudo está dentro da casa.

Luciano: Que já são quantas?

Michelle: Três. Então, teve um investimento de começo. Então você investe e depois você tem a colheita no futuro.

Diógenes: Engraçado que, sabe, na assinatura do e-mail dela, ela colocou COO of Happy Cezila’s Kids.

Michelle: Agora traduz o que é COO.

Diógenes: COO é chief operation officer, chefe de operação.

Luciano: Da felicidade das crianças em casa.

Diógenes: Exatamente. Todo e-mail que chega dela está lá embaixo assim Michelle Cezila COO of Happy Cezila’s Kids.

Michelle: That’s my job.

Diógenes: Mas foi assim, chegou num ponto que a empresa começou a crescer legal, tipo eu começo a separar o orçamento para marketing. Até então a gente não tinha, era boca a boca. E diferentes áreas de marketing que a gente ia fazer, esquematizei legal e tinha, por certo tempo, pessoas trabalhando por hora para mim. E é aquela coisa, quando você paga por hora, é que lá é mais ou menos como funciona trabalho braçal, por hora tem aquela coisa, eu quero que a pessoa faça o máximo possível num mínimo de tempo, e a pessoa quer fazer o mínimo possível no máximo de tempo. E a gente ficou trabalhando por hora e o maior estresse, acho que por um ano e pouco, até que eu cheguei para todo mundo e falei o seguinte “Tenho uma ideia, vou terceirizar todo mundo. Vocês, em vez de trabalhar por hora, eu vou pagar uma porcentagem e através dessa porcentagem para mim não importa em quanto tempo você faz, se você fizer um trabalho bem feito, se você for agradável com os clientes.” Aí a pessoa falava, não, não sei. Até que eu falei “Vamos fazer um teste de um mês?” Aí eles começaram a trabalhar, aí os meus funcionários se tornaram o que a gente era antes. A única diferença é que a gente era o único provedor de trabalho deles. Passou um mês, Luciano, eu falei “Vocês querem voltar ao modelo antigo?” Eles “Está louco que eu quero voltar para o modelo antigo.” Porque lá eles tinham skin in the game, tinham alguma coisa a perder se eles não fizessem o trabalho bem feito.

Luciano: A mudança que vocês fizeram. Anteriormente, se eu me matar ou se eu fizer corpo mole, o dinheiro vem igual, eu vou ganhar por uma hora de trabalho. Então, você se mata e ganha igual a mim e eu sou um bunda mole e ganho igual a você, então não há nenhum estímulo para que nada seja melhor. Na segunda, você bota o seguinte, quanto mais você ‘performar’, mais você ganha.

Diógenes: Mais você ganha e para mim não importa em quanto tempo você faz. Se você quer trabalhar rápido, tem gente que é rápida, trabalha muito rápido, outros são mais devagar. Se tem uma casa que agora vocês fazem em três horas, se vocês quiserem fazer em duas horas, duas horas e meia e fizer um trabalho bem feito e nunca receber reclamação, eu checar o teu trabalho e está bem feito, para mim não importa, você pode limpar até um cliente a mais no dia, você vai ganhar muito mais dinheiro. O pessoal não quis voltar de jeito nenhum. Então com a terceirização, de repente, se fosse colocar no papel, no final de tudo que eles estavam ganhando aí doze dólares por hora, no final de tudo você estava ganhando aí dezessete, dezoito, às vezes dezenove, vinte por hora de trabalho. E outra coisa, as leis para você fazer o seu imposto de renda lá favorecem muito quem é o empreendedor. Os descontos que eu posso ter como empreendedor são muito maiores do que como empregado. Na hora que eu vou lá, coloco o valor que eu recebi e vai deduzindo, para quem é o empreendedor, tem o seu próprio negocinho, você pode deduzir tanta coisa. Até o ano passado, agora este ano não pode mais, você saiu para conversar, para jantar e lá vocês falaram de negócio, você poderia deduzir aquela janta. E é muita coisa, tipo toda gasolina gasta, gasto com o carro. Então no final de tudo, o pessoal hoje em dia paga menos imposto, ganha mais dinheiro do que quando era empregado e também para mim, mesma maneira. Da maneira que é feito o esquema de imposto de renda nos Estados Unidos.

Luciano: É um cenário de sonho, porque para nós aqui é exatamente o oposto. Aqui o empreendedor, você se penaliza de uma forma brutal aqui, porque é um sócio insano que nós temos aqui.

E aí você tirou o diploma e decidiu que vai ser enfermeira?

Michelle: Yeah.

Luciano: Aonde?

Michelle: Eu apliquei. Vou voltar um pouquinho. Assim quando eu cheguei, que eu decidi pegar as classes de inglês, eu pegava alguns ônibus até chegar na escola. E um desses ônibus passava na frente do hospital chamado John Hopkins. Daí eu olhava naquele hospital falava nossa, quem sabe um dia eu venho trabalhar nesse lugar. Mas eu achava que eu ia trabalhar como tradutora, que eu falei, eu aprendo inglês e se algum paciente brasileiro vier, eu posso traduzir, ajudar no tratamento, porque tem vários artistas que vão para lá. Daí eu lembro que Deus falou para mim, sabe, vou te trazer aqui, mas de outra forma. E passou. Isso daí foi há alguns anos, vou dizer, há uns nove anos. Daí assim que eu formei, é um curso muito difícil nos Estados Unidos, eu era a única na minha sala que não falava inglês, já tem mais um pouquinho de marcação em cima de você, porque eles conseguiam ler 20 páginas e eu estava lendo 5, 6 páginas. É devagar o processo. E terminei a faculdade, graças a Deus, mandei uma aplicação no Hopkins, eles me chamaram.

Diógenes: Deixa eu gabar um pouquinho dela aqui. Ela se formou, ela era a única estudante internacional e se formou com honras, com o GPA, que faz uma média de todas as suas notas, ela se formou com honras e coisa que numa turma em que… quantos começaram?

Michelle: 60.

Diógenes: Somente seis conseguiram e ela conseguiu entrar para uma sociedade de honra.

Luciano: Com a barreira da língua. Com a barreira do idioma.

Michelle: Na minha formatura foi tão engraçado, que eles estavam dando esses negócios de honraria. Eu não sabia de nada, eu só fui indo, fui tocando o barco e daí no dia da formatura chamaram o meu nome e me deram o reconhecimento. Eu recebi superassustada, depois que terminou tudo eu cheguei para o professor falei “Isso aqui não é para mim, acho que vocês erraram,” ela falou “Não, você pegou o reconhecimento, as honrarias da casa,” eu falei “Eu não peguei,” “Michelle, você pegou, é que você não sabe. Você não trabalhou para pegar os requisitos para ter honra?” Eu falei “Não, eu não sabia de nada.” “Então você só foi estudando todos esses anos e não sabia de nada disso?” Eu falei “Não.” “Ah, tá!” E eu fiquei com isso, daí mandei para o Hopkins a aplicação, fiz a entrevista com a primeira pessoa. Depois eu perguntei para ela “Quanto tempo que demora para eu ouvir de vocês?” Ela falou “De duas a três semanas. Agora você tem que fazer com a gerente da sua unidade.” Daí eu perguntei para ela “Quanto tempo demora para eu ouvir de você?” “Duas ou três semanas.” Aí ela falou “Por quê?” Eu falei “Olha, falar bem a verdade para você, eu não tenho esse tempo para esperar. Eu tenho que saber, se você gostou de mim, eu gostei da tua unidade e se a gente vai rolar alguma coisa, porque senão eu vou tocar a bola para frente.” Ela falou assim, “Mas o departamento pessoal sempre pede para mim duas semanas.” Eu falei “Olha, se aparecer outra entrevista e eu gostar de outra entrevista, eu vou para lá, eu não vou esperar.” O tempo que eu dirigi do hospital até a minha casa é 40 minutos.” Eles ligaram na minha casa, falaram que me deram o serviço.

Luciano: Daí você virou…

Michelle: Eu virei enfermeira no Hopkins, no departamento de medicina geral.

Luciano: E você perdeu uma puta mão de obra.

Diógenes: Nessa época a Michelle já tinha a nossa filha. Ela já estava aí com quase dois anos. Aí na parte da empresa eu tive que tomar uma decisão, porque eu estava no dia a dia das operações ainda e eu tive que pensar bem. A gente não queria terceirizar as nossas crianças. Aí o que eu fiz, eu empreguei uma pessoa a mais e fui ficar em casa com a minha filha, que ela trabalhava três dias de doze horas, mais ou menos, aí nos três dias que ela trabalhava, eu ficava em casa. E nesse ponto meu trabalho era mais por telefone já. Então eu fico em casa com a minha filha, cara, que foi uma das melhores decisões que eu fiz, que mesmo eu saindo fora da empresa eu pude colocar o meu tempo no que era realmente importante para mim, onde eu seria mais efetivo, que teria mais eficácia e fui cuidar de criança, cara, enquanto a Michelle estava trabalhando. E foi uma delícia, eu curti com a minha primeira filha todo esse tempo. E também quando nasceu o segundo, já foi aí três anos para a frente, eu continuei cuidando das crianças enquanto a Michelle ia trabalhar. Só quando chegou o terceiro, falei, agora o terceiro não dá para tocar o negócio e ficar cuidando de três crianças.

Luciano: Porque o negócio vai crescendo. Como é que chama a empresa hoje?

Diogenes: Chama Top Clean Inc.

Luciano: Você tem quantas pessoas envolvidas hoje lá?

Diógenes: Eu tenho grupos. Geralmente são grupos de marido e esposa que trabalham juntos. Tipo a gente quis replicar exatamente o que a gente teve, que deu certo para a gente. A gente tem agora, está com o quarto grupo agora de pessoas trabalhando.

Luciano: E Baltimore, é isso? Região de Baltimore.

Michelle: E eu continuo trabalhando de final de semana.

Luciano: Ah, você pega também no batente lá?

Michelle: Não, como enfermeira.

Luciano: Eu entendi que você…

Diógenes: Não, ela parou, não está integral.

Michelle: Por isso que eu dei uma chavinha aqui, que deu a entender que eu estou somente em casa, mas não.

Luciano: Então no fim de semana você é enfermeira no Hopkins?

Michelle: No Hopkins.

Diógenes: É uma coisa meio tempo parcial, também não dá, não tinha condições.

Luciano: As crianças estão com que idade?

Michelle: Cinco, dois e três meses e um ano e três meses.

Luciano: Um ano e três meses? É bem…

Diógenes: A gente teve dois filhos em dois anos, então os últimos anos está corrido. Então o pessoal sempre perguntava para a gente, você não vem para o Brasil e tal, o que aconteceu que você não mais apareceu aqui? Eu falei, cara, são duas coisas, ou você vem para o Brasil todo ano, ou você tem filho todo ano e a gente teve dois filhos em dois anos, então não dá para vir.

Luciano: Que legal, cara, que baita história. A gente ouve cada história, como eu falei, cada história de horror dos caras que saem do Brasil. Tipo assim, eu estou de saco cheio disso aqui e vou me enfiar noutro lugar, para ver se dá certo lá. E muita gente com aquela história do não gostei, não deu certo, toma decisões em cima do momento. Estou incomodado aqui, não gostei, não deu certo, vou voltar, não quero mais. Então tem muita história e algumas histórias dão certo. Essa de vocês é fantástica, até porque vocês não arrumaram emprego em dois lugares, vocês montaram business, montaram negócio lá em cima daquilo que é, como eu falei com vocês, a gente tem aquela ideia que o cara foi para lá para limpar banheiro, mas que, vou fazer disso um business, vou fazer disso um negócio e esse negócio cresce e é sustentável.

Diógenes: É sustentável e é aquela coisa, a questão de história de horror, geralmente quando eu escuto história de horror da pessoa que ah, nunca mais eu volto para aquele lugar e tal, é gente que não aprendeu a cultura, que não quis aprender o jeito americano. Eu estou muito acostumado já, para mim, quinze anos lá, o jeito de lá para mim é mais fácil que o daqui até. Mas é a pessoa que ficou lá um tempo, não ficou tempo suficiente para aprender a maneira que é. Como eu falei, os meus primeiros seis meses foram horríveis, cara. Mas depois, quando você começa a conhecer gente, começa a aprender o jeito que se faz, a organização do lugar e a cultura, você começa a conhecer gente boa.

Michelle: É, o americano é muito cheio de regras, então você tem que se adaptar às regras.

Luciano: E tem uma coisa lá com eles que eu acho que é fundamental, que lá você entende o valor do negócio chamado confiança. Olha, eu tenho um processo e eu confio no processo. Eu tenho uma lei, eu confio na lei. Eu fiz um compromisso, eu confio que você vai estar lá no dia, eu confio que você vai entregar. Eu compro, eu confio que vai chegar. Então tem um lance de uma sociedade da confiança que aqui no Brasil a gente não tem. A gente monta aqui as coisas com… eu tenho um travesseiro aqui, eu tenho um colchão, eu confio, mas eu não sei se vai dar. Eu não sei se ele vai estar lá, eu não sei se vai chegar, eu comprei na internet, eu não sei se vem. Então todo mundo com a pulga atrás da orelha, isso tem um custo ‘burral’. O custo em termos de produtividade, que não dá nem para medir e o custo em termos de cola social, do tecido social. Ele se rompe, quando você não tem a sociedade da confiança, é isso. Tem lei, mas não acredito na lei. Elejo um cara, mas não acredito no cara. Então vou fazer um negócio com você, vamos assinar aqui mil papéis, tudo carimbado porque eu não acredito em você.

Diógenes: E a produtividade também vai muito para baixo, porque na época que eu estava estudando ainda, eu estava vendo lá a questão de produtividade, pegaram os Estados Unidos como um benchmarking, os Estados Unidos eram 100 de produtividade. Alguns países eram mais produtivos, alguns asiáticos e tal, como o Japão, mas se você pegasse e visse o Brasil. Eu falei deixa ver como é que está o Brasil. O Brasil estava em 18. Eu não sei como é que está agora, já faz um tempo que eu meu formei, mas putzgrila, cara, como é que você faz negócio num país desse? E a questão da burocracia toda e as leis trabalhistas aqui do Brasil. Cara, é muito difícil. Conheci um cara que faz basicamente o que eu faço lá, ele faz em Ribeirão Preto. Eu falei, cara, você é um herói, porque eu não conseguiria fazer o que você faz aqui, por causa das leis e red tape que tem e a dificuldade que é, é muito difícil. Lá a questão é o governo não se intromete na sua vida. Se intromete um pouco no meu estado, porque o meu estado é um pouco mais complicado do que os outros, mas mesmo assim não tem como comparar.

Luciano: Até morar lá você não entende o que é uma democracia, o que é liberalismo, o que é capitalismo. Tem que viver lá um pouquinho.

Diógenes: Eu falo para os meus amigos socialistas, escuta, amigo, eu não vou discutir contigo, vem cá, passa 15 dias comigo e você ver como funciona o negócio aqui.

Luciano: Dá uma voltinha e vamos ver aqui como funciona.

Diógenes: Exatamente.

Luciano: Muito legal. Deixe eu só ver como nós estamos de time. Já estouramos o nosso tempo aqui. Vamos caminhar para o fechamento. Vocês fazem parte de uma comunidade interessante nos Estados Unidos, que é a comunidade de imigrantes. No momento em que imigração só se fala nisso, só se fala do muro no México, só se fala daquela discussão dos imigrantes etc. e tal. E uma coisa que eu olho com curiosidade, olhando daqui, é que eu vejo que todas as discussões que eu vejo acontecer aqui, principalmente na mídia brasileira contando o que está acontecendo lá, a palavra ilegal desaparece, então eles falam do imigrante, não tem mais ilegal. E o Trump vira lá, fala, eu estou falando de ilegal, tem o legal, não tem problema nenhum, está no processo, é bem-vindo, a gente quer mais que esteja aqui e tem o ilegal, que é um problema. E aqui o pessoal tira o ilegal e fica imigrante e trata como se fosse alguma coisa. Vocês notaram algum tipo de mudança cultural nos Estados Unidos, veio algum tipo de pressão? Na comunidade em que vocês vivem houve algum impacto?

Diógenes: Nenhuma. Interessante como eles caem matando o Trump, tanto lá quanto aqui e a maioria das coisas que ele fala Obama já falou, só que nunca ninguém caiu em cima dele, e o Bush e o Clinton falaram a mesma coisa, mas porque é o Trump o pessoal cai matando em cima.

Michelle: Até a região de Washington você ouvia muito mais falar de deportação, lembra?

Diógenes: Nos governos anteriores.

Michelle: Nos governos anteriores que agora. Eu diria há uns oito anos, eles chegavam, batiam num lugar que tinha bastante imigrante, que geralmente eles querem morar tudo junto e ali eles abaixavam no prédio e levavam todo mundo. E o comentário era a deportação está baixando, não abre a porta. Mas o Trump a gente quase não ouve.

Diógenes: O que acontece é o seguinte, nenhum presidente deportou mais que Obama, em números e eu estava ouvindo um discurso do Trump esses dias, que eles estavam negociando o orçamento do ano, que está tudo parado, entre aspas, porque tudo funciona, eles pararam 25% do governo que não são necessários. Eu penso assim, se não são necessários, para que tem então?

Luciano: E você olha aqui no Brasil, é o shutdown. O Trump teve que comprar hambúrguer na esquina, porque não tinha comida para dar para os caras que estavam lá, ele comprou do bolso dele hambúrguer etc. e tal, então olhando daqui é tudo amplificado, tudo mais complicado.

Diógenes: Pois é, e o discurso dele, ele falou assim, o imigrante legal vai ser sempre bem-vindo, a gente vai resolver a situação, fazer uma reforma imigratória porque precisa fazer, mas a gente precisa parar o influxo de pessoas que estão ilegais, não somente o problema da pessoa que vai trabalhar, que a maioria é honesta, mas também pegam gente entrando de países que são failed states, países que o governo não tem controle nenhum, cruzando a fronteira também, sem contar a droga.

É claro que você sempre tem o coração por aquela pessoa que quer batalhar e quer correr atrás, mas os Estados Unidos são um país bom do jeito que são porque são um país de lei e se você deixar a lei de lado por causa do sentimento, vai destruindo a sociedade. Como mais ou menos é Baltimore. Baltimore é uma coisa triste a cidade de Baltimore nas áreas mais pobres, 75% das casas não têm a figura masculina e Baltimore é a capital da heroína e é a segunda cidade com mais número de homicídios no país. E o que o governo fez? Claro, eu penso que numa boa intenção de ajudar a mãe que não tem o pai na casa. O que aconteceu é que foi perpetuando e um ato do governo para ajudar acabou tendo uma consequência horrível, que tornou Baltimore uma cidade mais violenta do país. Não tem a figura do pai presente, às vezes o pai vai preso, acaba morrendo.

Luciano: Tem um Café Brasil chamado Father Hunger.

Diógenes: Cara, você acredita que eu chorei naquele episódio? Eu chorei naquele episódio, foi muito bom. E parece meio esquisito falar hoje em dia, mas a presença do homem, do pai, é muito importante.

Luciano: E não é porque é melhor que a mulher, maior que a mulher. Nada disso, ele tem um lado que ele tem que cumprir ali, tem uma função. Eu tenho o maior orgulho de dizer, cara, eu estou aqui para proteger minhas mulheres, e é isso que é a minha função. Entendeu, eu quero proteger minha mulher, proteger minha filha e vou morrer com isso na cabeça, que a minha função é essa, eu estou aqui para isso. Viking, bicho, eu sou viking, eu vim para proteger minhas mulheres, vou executar essa função. Se alguém tentar me convencer de que ela é igual a mim, que ela não precisa de proteção, eu vou quebrar o pau, porque ela não é igual a mim, ela é minha mulher, entendeu. E eu tenho uma consciência de que nós dois juntos formamos um todo, eu tenho um papel a cumprir, ela tem o dela também. Os dois juntos formamos um todo, é o caso de vocês aí.

Diógenes: No caso de Boston, você vê isso em dados, a falta que faz um homem na casa, a violência que vem através disso. Ainda que igrejas, a minha igreja se envolve muito com mentoria de meninos e tal, dá um impacto na sociedade. E principalmente quando ainda o homem na casa se faz dispensável, porque o governo assumiu o papel dele e o governo nunca vai fazer o papel que um homem na casa faz, não porque o homem é melhor, mas porque cada um tem o seu papel para fazer, extremamente importante.

Luciano: Maravilha. Legal. Adorei a historinha de vocês, uma história de sucesso. Sejam bem-vindos ao Brasil. Voltem mais, viu, venham mais. Imagino que os avós devem estar babando com a molecada.

Diógenes: Eles estão tacando terror lá hoje, com certeza.

Luciano: E eles falam português perfeitamente, os três.

Diógenes: O pequeninho não fala. O segundo não fala nem um e nem outro. E a minha filha mais velha, de cinco anos e meio, ela fala com ‘sotacão’, mas fala.

Luciano: Que legal. Bem-vindos, viu. Se eu quiser, eu moro em Baltimore, quero os serviços da empresa. Por favor, me dê um…

Diógenes: Pode achar a Top Clean MD no Facebook, ou Top Clean MD.com, ou você pode olhar nossas referências no Google, nossos reviews no Google, que são as melhores da região.

Luciano: Que legal. Sejam bem-vindos. Obrigado pela visita de vocês. Obrigado por aquele café, lugar maravilhoso aquele dia lá, muito legal, cara.

Diógenes: Você viu que era um lugar antigo, que eles refizeram.

Luciano: Muito legal e estava do jeito que eu adoro, cara, que é um pouquinho de neve, um pouquinho de frio, dia de sol, papo fantástico. Ainda bem que você me mandou aquela mensagem e eu topei a ideia de cruzar Baltimore de cabo a rabo, que aquilo é longe. Bem-vindos ao LíderCast. Obrigado. Beijão.

Fim da gravação.

 

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