Lidercast
O Guia do Anunciante em Podcasts
O Guia do Anunciante em Podcasts
O Guia do Anunciante em Podcasts traz informações ...

Ver mais

Bandidos Na TV
Bandidos Na TV
Assisti Bandidos Na Tv, nova série na NetFlix, que ...

Ver mais

1964 – O Brasil entre armas e livros
1964 – O Brasil entre armas e livros
Um documentário para ser visto como outro ângulo pelo ...

Ver mais

Os Podcasts Café Brasil Musicais
Os Podcasts Café Brasil Musicais
Música é uma de nossas grandes paixões, por isso de ...

Ver mais

674 – Balde de Caranguejos
674 – Balde de Caranguejos
O termo “mentalidade de caranguejo” é utilizado em ...

Ver mais

673 – LíderCast 12
673 – LíderCast 12
Mais uma temporada do LíderCast, agora é a 12. Mais um ...

Ver mais

672 – A mão invisível do mercado
672 – A mão invisível do mercado
Você certamente já ouviu falar de livre mercado, aquele ...

Ver mais

Café Brasil 671 – Antifrágil
Café Brasil 671 – Antifrágil
Um dos livros sumarizados no Café Brasil Premium foi o ...

Ver mais

LíderCast 161 – Murilo Gun
LíderCast 161 – Murilo Gun
Criador, inovador, pensador, provocador. Uma figura ...

Ver mais

LíderCast 160 – Parker Treacy
LíderCast 160 – Parker Treacy
Norte americano do setor automotivo ­financeiro, ...

Ver mais

LíderCast 159 – Paulo Ganime
LíderCast 159 – Paulo Ganime
Jovem deputado federal pelo partido Novo, engenheiro e ...

Ver mais

LíderCast 158 – Georgios Frangulis
LíderCast 158 – Georgios Frangulis
Fundador e CEO da Oakberry Açaí Bows, que está ...

Ver mais

Cafezinho Live – Como será o Brasil com Bolsonaro
Cafezinho Live – Como será o Brasil com Bolsonaro
Um bate papo entre Adalberto Piotto, Carlos Nepomuceno ...

Ver mais

046 – Para quem vai anular o voto
046 – Para quem vai anular o voto
Fiz um vídeo desenhando claramente o que acontece com ...

Ver mais

Confraria Café Brasil
Confraria Café Brasil
A Confraria Café Brasil nasceu para conectar pessoas ...

Ver mais

Videocast Nakata T02 10
Videocast Nakata T02 10
Videocast Nakata Temporada 02 Episódio 10 - Hábitos ...

Ver mais

Por que a autenticidade radical do Bolsonaro faz tanto sucesso hoje em dia…
Carlos Nepomuceno
https://web.facebook.com/carlos.nepomuceno/videos/10157497430623631

Ver mais

TRIVIUM: CAPITULO 2 – CONCLUSÃO – LINGUAGEM (parte 12)
Alexandre Gomes
Chegamos ao final deste segundo capítulo do TRIVIUM! O que tentei apresentar para você foram as minhas impressões do material original. Tem muito mais no livro, que não consegui trazer para estas ...

Ver mais

Entre Tabata e Ciro
Fernando Lopes
Iscas Politicrônicas
Tabata Amaral é deputada federal por São Paulo, filiada ao PDT, partido de esquerda que já abrigou, entre outros, Leonel Brizola e Dilma Rousseff, só para mencionar a que ponto baixo pode chegar ...

Ver mais

Resumos das aulas do COF e temas diversos
Eduardo Ferrari
Resumos de aulas do COF
Bom dia, Boa Tarde, Boa noite! Vida longa ao Café Brasil e à Confraria! Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao Luciano Pires pelo espaço e a oportunidade de publicar alguns dos meus resumos. ...

Ver mais

Cafezinho 196 – O sequestro do belo
Cafezinho 196 – O sequestro do belo
Reduzir tudo isso à uma questão de simpatia por ...

Ver mais

Cafezinho 195 – No mundo da lua
Cafezinho 195 – No mundo da lua
Colocar o homem na lua custou mais de 20 bilhões de ...

Ver mais

Cafezinho 194 – O banco
Cafezinho 194 – O banco
E aquele monte de dinheiro à minha disposição? Esqueça. ...

Ver mais

Cafezinho 193 – A zona do equilíbrio
Cafezinho 193 – A zona do equilíbrio
Quer saber? Antes de ser do meretrício, as zonas eram ...

Ver mais

LíderCast 151 – Irineu Toledo

LíderCast 151 – Irineu Toledo

Luciano Pires -
Download do Programa

Luciano: Muito bem, mais um LíderCast, este aqui é daqueles. Tem pessoas que a gente encontra na vida e que vira irmão, a gente não sabe por que, a gente encontra a pessoa assim e de repente as coisas batem, aquela coisa de pele, sabe como é que é, bate, a gente acaba virando irmão. E este que está aqui hoje é desses, é mano, sabe. A gente não se vê com tanta frequência quanto deveria, mas a gente se fala bastante e quando se vê é uma curtição. E tem aquele lance de, como é que eu vou dizer, saber que ele está lá já me basta para curtir essa amizade. Eu sei que ele está lá e isso já basta. A gente, quando se encontra então é muito bom e eu ensaiei trazê-lo para cá várias vezes, a gente ficou naquela correria toda. É aquela história do carioca que mora no Rio de Janeiro há 40 anos e não subiu no Pão de Açúcar, está tão perto, que a gente acaba não fazendo. Mas hoje deu, aproveitamos aqui este começo de ano. Três perguntas fundamentais, as únicas que você não pode chutar, o resto eu sei que você vai chutar de montão, estas três não pode: seu nome, sua idade e o que você faz.

Irineu: Irineu Toledo, nasci no ano do Nosso Senhor de 1958, um ano que nunca deveria ter acabado. E minha profissão, eu sou radialista e como detalhe eu estudei comunicação na terra desta figura aqui, em Bauru, a terra branca.

Luciano: Vocês estão vendo com essa voz aí, o que aconteceu com a minha aqui, virei um cocô, bicho. Os caras quando vêm, os “profissa”, o amador tem que se recolher aqui, mas vamos lá. Irineu, você nasceu aonde?

Irineu: Eu nasci na Rua Euclides Pacheco, no Tatuapé, em São Paulo, de parteira.

Luciano: Nasceu de parteira?

Irineu: Nasci de parteira, a Dona Eulália ainda tinha aquela opção de parteira e ela preferia a parteira, na simplicidade dela, preferia do que ir para o hospital. Eu fui o último filho de parteira da Dona Eulália.

Luciano: Você tem irmãos?

Irineu: Somos em sete.

Luciano: Sete? Você está aonde na escada?

Irineu: Sou o quarto.

Luciano: Depois de você teve três, no hospital, bonitinho, com médico e tudo certinho?

Irineu: É, aí teve três meninas no hospital, direitinho.

Luciano: O que sua mãe e seu pai faziam?

Irineu: Eu sou filho de operário. Seu João foi um tecelão, atividade importante. Viveu praticamente dentro de uma única empresa, Lanifícios Fileppo, também no Tatuapé. Minha mãe é dona de casa, Seu João muito sábio, Dona Eulália também muito simples fizeram o curso primário e aquela aventura de criar um bando de filhos.

Luciano: Como era o teu apelido na infância?

Irineu: Olha, eu não deixei pegar muito, não, mas o bullying era em cima do cabeção.

Luciano: Cabeção?

Irineu: É, eu já era cabeção. E eu costumava brincar “olha, mas não é só a cabeça que é grande, não, dá uma olhada aqui,” aí eu mostrava o meu pé.

Luciano: Está certo. O que o cabeção queria ser quando crescesse?

Irineu: Olha, eu quis ser algumas coisas, não fui nenhuma das que eu imaginei que seria. Mas num primeiro momento, numa condição bastante simples, eu me dei conta da realidade simples, eu entendia que o sujeito tinha que trabalhar. Então eu comecei a trabalhar muito cedo, ainda na segunda infância, falei não quero nem estudar, vou trabalhar para ajudar em casa. Mas, é claro, sou de uma geração privilegiada, em pouco tempo nasceu em mim todo aquele furor da adolescência, no final dos anos 60, que começava a fervilhar na cabeça do garoto de 10, 11 anos. Comecei a me interessar por muitas coisas, uma delas foi a leitura, música, claro. Talvez a primeira coisa que eu quis ser, assim logo no começo da adolescência, eu achava que eu queria ser escritor. Vou escrever, achava muito legal isso. Comecei a colecionar frases e mais frases. Até porque eu precisava de assunto, então precisava de frases, eu precisava me situar no mundo, daí achava legal. Sabe essas coisas que tem uns caras que fazem no rádio usando frases?

Luciano: É, mal sabia você que lá na frente isso aí seria uma ferramentaça. Quando é que a voz começou a distoar da molecada?

Irineu: Minha voz mudou rápido, entre 12, 13 anos em questão de meses eu fiquei com um baita vozeirão, com carinha de garoto. Então chamava muito a atenção quando eu abria boca e aí eu não tinha nada para falar e era um problema. Porque quando você levanta a mão na classe ou em algum lugar todo mundo olha para você, você fala e agora, o que eu falo? Daí falava merda, contava piada, fazia coisas assim, começava a falar aquilo que eu bem não entendia, uma prática que eu adotei para o resto da vida também.

Luciano: Isso é uma coisa interessante, tem gente que nasce bonita, tem gente que nasce com uma beleza excepcional, tem gente que nasce com uma inteligência excepcional, tem gente que nasce capaz de correr 100 metros em menos de 9 segundos e assim vai. E tem gente que nasce com a voz como essa que você tem aí, que é alguma coisa que vem não sei de onde, mas que surge. E você tem um lance interessante, que é o seguinte, como a voz cria essa expectativa de que, cara, estou ouvindo uma voz e atrás dela, essa voz é tão impactante, que deve vir algo importante, preciso prestar atenção, porque vem algo importante. E de repente você se toca que, ôpa, eu tenho que pôr conteúdo nessa voz aqui, porque só ela não vai me levar a lugar nenhum. Como é que isso aí surgiu na tua?…

Irineu: É isso, responsabilidade nunca é bom, criar expectativa nunca é bom, é legal surpreender. Eu não gostava, num primeiro momento, eu não achava que esse era um caminho, não imaginava, em absoluto, o rádio, isso para mim era coisa de artista, não era coisa de filho de operário, eu não tinha nenhuma visão disso, a não ser contar piadas.

Luciano: Não tinha uns tios que vinham falar, esse moleque tem que ir na rádio, leva o moleque na rádio?

Irineu: Então, mas eu fui ver isso depois. Para um garoto que nasce na periferia de São Paulo está distante a rádio, está distante qualquer mundo artístico. E isso nós tínhamos uma consciência muito forte, a gente, que é da periferia de São Paulo. Periferia de São Paulo, nos anos 60 é como a sua Bauru nos anos 60. Periferia de São Paulo era quase o interior, era rua de terra, a gente tinha a chácara do lado.

Luciano: É que você, quando você fala em Tatuapé hoje, Tatuapé está integrada na Grande São Paulo, não é mais periferia. Só que você está falando da Tatuapé dos anos 60.

Irineu: Jardim Anália Franco era um matagal, era um morro, não tinha valor nenhum, hoje é uma das áreas mais nobres de São Paulo. Aliás, o maior PIB da capital é a zona leste. Mas, enfim, a gente, filho de operário, morava em periferia, era ônibus, brincava na rua, tinha chácaras do lado, era isso. Mas enfim perdi o que a gente estava falando… Bom, não queria ser artista, não tinha nenhum tio que falasse. Tirando a ilusão de falar na frente, cantar música. A música sempre foi um caminho na escola estadual, as professoras “vai cantar, vai ler, leia em voz alta”. Então eu sempre tive uma leitura fluente, desde que eu me alfabetizei, eu era um dos leitores da classe, eu sempre fui muito representante, então tinha essa coisa de, por algum motivo, mesmo antes da voz, eu aparecia.

Luciano: Cara, se você tivesse nascido um pouco mais para a esquerda, você seria um sindicalista, hoje estaria talvez preso, que nem o outro lá.

Irineu: Você sabe que eu fiz algumas escolhas erradas na vida. Eu vou te confessar aqui uma coisa que você não sabe. Eu sou metalúrgico, meu primeiro registro em carteira é de metalúrgico. Eu, com muito orgulho para o Seu João, passei num teste para o Senai, patrocinado pela Ford, fui um dos primeiros colocados e para um garoto de periferia, você não imagina o que é trabalhar numa multinacional, você ganhar um salário para estudar.

Luciano: Você trabalhou na?…

Irineu: Eu trabalhei na Ford. Eu já trabalhava antes, em atividade como comerciário, como vendedor, na área de transporte, na área de reciclagem foi desde os seis, sete anos, mas emprego formal, assim com carteira registrada, com salário, meu primeiro registro é Ford Brasil.

Luciano: Com que idade?

Irineu: Eu estava com 15 anos, que era quando se aceitava. Mas eu entrei para estudar no Senai, então isso era de uma nobreza, esse garoto tem futuro. Só que eu entrei na Ford, no Senai e aí eu vi que aquele negócio não era para mim, mesmo tendo ido bem, passei por aquele processo de vários psicólogos, aquele baita cabelão, daí eu já tinha mudado, eu era um maloqueiro bacana. O chefe dos psicólogos é que me entrevistava, que ele achava eu muito, um jeitão muito malandro, muito cheio de conversa, “Cláudio Fontana, vem falar comigo aqui.”

E depois de seis meses eu voltei lá para falar com ele e falei assim “olha, isso aqui não é para mim,” para desespero do Seu João. Eu ganhava um salário de maior, sabe um salário de maior para estudar e eu vou lá e falo, não é para mim, acho que eu estou atrapalhando os garotos, acho que eu já estava contando piada, no primeiro semestre eu fiz isso.  Eu achei também que metalúrgico não tinha futuro, mal sabia eu que eu podia continuar lá e ter, quem sabe, essa proximidade que você tem. Mas enfim, eu fiz escolhas erradas, aí eu abandonei, deixei de ser metalúrgico para ser uma coisa que foi fantástica na minha vida, ser office boy. Aí office boy, fui ganhar menos, mas eu pegava um buzão, rodei São Paulo, conheci São Paulo, encontrava gente, andava pela Avenida Paulista, para um garoto do interior da própria capital de São Paulo era fascinante.

Luciano: Quer dizer, você fez isso com 15, 16 anos?

Irineu: Com 15, 16 anos.

Luciano: Então dá para compreender a decisão de que, cara, isso aqui não é para mim, vou largar e parto para outra. Quer dizer, você não se preocupou, deixa eu achar outro negócio tão legal quanto ou melhor antes de sair. Com 15 anos você chuta tudo, não quero mais, encheu o saco e vou cuidar e vou ser office boy. Mas a expectativa de o que eu vou ser quando crescer, você estava de olho numa universidade, vou me formar em alguma coisa?

Irineu: Não, nessa fase eu já tinha definido, eu quero humanas, que eu queria escrever, que eu queria comunicação. E aí eu falei, eletrotécnica não é para mim, eu não quero mexer nisso. E brigava com os professores, claro, da área técnica, na área de eletrotécnica e me dava muito bem com o professor de português, o professor de história eu substituía professor quando não ia, entendeu? Olha, vai ter um problema, você podia fazer alguma coisa? Então eu lembro de ter feito isso no Senai. Eu lembro uma vez a professora de português teve lá um problema, será que você podia fazer? Aí eu virava uma estrela, era legal.

E com os meus amigos eu tinha um bom relacionamento, mas eu entendi que eu estava atrapalhando, depois de tomar umas duas broncas, falei estou virando um cara desagradável, todo mundo precisando trabalhar e eu querendo outra coisa. E aí eu já fui para a rua, na rua foi legal. Saí dessa atividade, depois eu voltei para o comércio, porque antes disso eu comandava uma pequena loja de distribuição de cutelaria, plásticos. O cara tinha uma distribuidora e eu fui o primeiro funcionário dele e virei o gerentão dele, só tinha eu lá, então eu cuidava de todo o negócio, ele vendia. Eu voltei lá, porque ele pediu para eu voltar. Eu estava lá comerciário, pensando o que eu fazia, fazendo o colegial, querendo fazer jornalismo, fazer comunicação. Mas nisso apareceu oportunidade de ir para Botucatu, por causa de um grande amigo meu, que ficou meu sócio o pai dele tinha uma loja em Botucatu, sabia que eu era de negócio também, era de comércio, que eu gostava disso, enfim, tomava conta das coisas.

Luciano: Você foi para Botucatu para trabalhar numa loja?

Irineu: Não, eu comprei uma loja. Comprei a loja do pai desse meu amigo, compramos, ficamos sócios.

Luciano: Lá em Botucatu?

Irineu: Em Botucatu.

Luciano: Uma loja de quê?

Irineu: Uma loja de roupas infantis, de mulheres, roupa para gente simples, roupas populares.

Luciano: Que idade você tinha?

Irineu: Eu estava com 16. Aí eu fiz lá o acerto com a empresa, peguei férias, décimo-terceiro, peguei aquele dinheiro, junto com meu sócio, o filho do dono da loja, demos lá um dinheiro para ele e ficamos pagando a loja por mês. Ele era pastor protestante da Igreja Assembleia de Deus. Ele foi embora e queria que eu ficasse com o filho dele tomando conta da lojinha. E aí eu fui para Botucatu e aí foi meu intercâmbio cultural, quando eu fui para Botucatu [riso].

Luciano: Eu fico imaginando o seu business plan, você discutindo o seu business plan com o seu amigo, com 16 anos de idade sobre o grande negócio que vocês iam ter em Botucatu, cara!

Irineu: Pois é, cara, eu fui para ser comerciante, achava legal o contato com as pessoas, aquilo me deu uma visão interessante também de administração, que eu nunca fui bem, mesmo naquela época, mas a gente tinha muita vontade. Aquilo ali dava dinheiro, o meu amigo, meu irmão praticamente até hoje, a família dele também me adotou.

Luciano: Você chegou para morar lá com ele, foi morar com ele?

Irineu: Não, nós fomos para uma república lá. Aí ele foi embora, ficamos eu, ele e o irmão dele, que estudava lá.

Luciano: E os seus pais, cara?

Irineu: Então, eu cheguei nesse dia para Dona Eulália, família muito grande, eu fui o primeiro a sair de casa. Família grande perde um pouquinho às vezes o contato. Eu cheguei, resolvi tudo com a empresa que eu ia sair, resolvi tudo que eu ia embora e a última pessoa que eu avisei foi a minha mãe. Daí eu cheguei, falei assim, olha, eu resolvi que eu vou para Botucatu, pegar a loja do seu Natalino, com o Tico, já pedi a conta, já fiz o acerto na empresa, botei as minhas roupas num saco e estou indo embora daqui a uma semana. E enfim, aquela família com sete filhos não sabe o que dizer, não sabe como segurar um menino, eu tinha um apetite, acho que eu tinha uma boa reputação em casa, que desde muito cedinho eu pegava para trabalhar.

Luciano: Seu pai não te puxou num canto para saber o que está acontecendo?

Irineu: Não, cara, ele teve um comportamento assim silencioso, de incerteza, de insegurança, mas também de impotência. E assim, intimamente falando, eu também já tinha tomado algumas consciências que para mudar a realidade deles o melhor jeito era sair de lá, porque eu entendi que a gente muda as coisas às vezes estando fora das coisas, mesmo dentro de um ambiente familiar. Eu tinha isso muito claro muito cedo, pensadorzinho assim. Eu sabia que eu ia sair de casa, eu só estava esperando o momento, quando apareceu o negócio, eu falei, é isso. Fui lá, saí da escola, do colegial, no meio, perdi aquele ano e me inscrevi na escola em Botucatu no IE, aonde eu acabei concluindo o colegial, fui tomar conta de lojinha, fui vender roupa na feira, fui vender roupa na zona.

Luciano: Então, com 16 anos de idade, você fica morando sozinho numa cidade do interior, estudando, sem pai nem mãe para te cobrar nada.

Irineu: Lavando, passando e cozinhando.

Luciano: Então, e que grau de maturidade é esse, cara, naquela época era assim?

Irineu: Então, você sabe o que levou mesmo? A gente não sabia o que ia acontecer.

Luciano: O que ia acontecer, vou me jogar.

Luciano: A gente tinha o ímpeto, a gente é de uma geração estradeira, ou pega e vai correr mundo, vai correr perigo, dizia o Caetano já. Então, eu tenho que sair, tenho que ir, o interior era algo que me interessava também. E ao ir para lá foi uma coisa muito interessante. A gente, em São Paulo, não existe, era uma noção que eu tinha também. São Paulo é tão grande, tanta gente, que dá até para citar Caetano mesmo, “Narciso acha feio o que não é espelho”. Eu não era ninguém, eu sabia que filho de operário ia ser operário, ou saía dali, ou saía desse mundo para criar um outro mundo. E quando eu fui para Botucatu, que tinha 80 mil habitantes, eu passei a existir, porque eu cheguei, era um garoto novo.

Luciano: Um paulista.

Irineu: É, um paulista.

Luciano: Atenção, uma pausa aqui. Quem está falando aqui é um Bauruense que morava lá do lado de Botucatu e a gente sabe o que acontecia quando chegavam os paulistas, vinha um povo com um sotaque muito particular. Eu tinha primos daqui que iam para lá, então chegavam os paulistas e era um acontecimento quando vinham os paulistas, porque tinha uma áurea, era uma gente diferente.

Irineu: É. Então, cheguei em Botucatu, tem uma cidade universitária de jovens para caramba, inteligência, aquele ambiente político também, que eu já estava dentro dessa mentalidade. Cheguei para estudar, cheguei para ter um negócio, estou na idade de conhecer meninas, fazer amigos. Ficou mais fácil fazer amigas do que amigos nesse início, por causa disso, os caras ficam p da vida com o paulista, porque as meninas ficam se engraçando, porque a gente é novidade, lá com 16, 17 anos. Bom, cheguei ali, me achei porque eu me tornei o Irineu, as pessoas falavam de mim, eu era alguém. Olha só, aqui qualquer coisa que eu faço… Bom, na escola as pessoas queriam me conhecer. Também eu era um cara que me comunicava bem.

Luciano: Olha que insight interessante que você está colocando, quer dizer, você sai de um universo tão grande, tão competitivo, tão imenso e você está tão deslocado do centro de poder, porque você está na periferia, sem ter alcance e ali não tem o que acontecer. Você muda de universo e vai para um universo muito menor, mais compacto, mais entre aspas humilde. Porque eu estou no interior, a cidade do interior e a humildade que eu estou falando aqui é a humildade do caipira, que para mim isso é um tremendo de um elogio, é uma tremenda de uma qualidade, cara. A humildade do caipira é um negócio que ainda bem que eu vim de lá. E ao deslocar esses dois universos, você cresce de tamanho. Então você, que era um micro micróbio, virou alguma coisa um pouco maior, porque chegou acontecendo, chegou fazendo acontecer pela simples decisão de mudar de universo.

Eu estou querendo bater nessa tecla desse insight, eu fiz uma palestra agora no Epicentro e eu falava lá o seguinte, você não pode querer ser nada menos do que o melhor do mundo, jamais, se você não vai ser o melhor do mundo, desista, caia fora. Aí todo mundo, ôpa, espera um pouquinho, de que mundo eu estou falando? Bom, se o teu mundo, se o teu negócio é vender comida orgânica em Bauru, esse é o teu mundo, é ali que você tem que ser o melhor do mundo. Se o teu negócio é vender pastel na feira, ali, vendendo pastel na feira, aquele é o teu mundo e você tem que ser o melhor do mundo ali, esse é o teu mundo. O dia que você for o melhor do mundo, você pode pensar em expandir esse mundo. Ôpa, agora eu vou ser o melhor vendedor de pastel, não da minha feira, mas do bairro. Agora eu vou ser o melhor vendedor de pastel da cidade e assim vai. E às vezes fazer a mudança que você fez e sair de um mundo gigante para um mundo muito menor torna muito mais fácil você começar essa escalada.

Irineu: É, eu ali posso dizer que eu entendi o mundo. Eu entendi a superioridade do interior e do caipira sobre o garoto da periferia. Porque o cara da periferia, e eu sofri isso depois, quando tinha república ali e as vergonhas que eu passei com os meus amigos que se achavam os tais, quando vinham visitar a gente aquela turma daqui e quando você começa a passar vergonha, porque você já tem vínculos, já tem amizades e você vê o cara que não está com nada posando de superior. Eu falei, eu não queria me ver daquele jeito.

Luciano: Isso aqui, no grande centro?

Irineu: É, eu não queria me ver daquele jeito. Então, mas ali eu tive essa compreensão de cidade, realmente de mundo, em uma cidade pequena. Seja para os meus relacionamentos, para olhar minha família também com mais distanciamento, para olhar para a minha perspectiva também, aquilo que eu podia fazer.

Luciano: Você está falando de 1977?

Irineu: 76 eu fui para lá.

Luciano: 76, 77.

Irineu: É isso aí. No ano seguinte, quer dizer, eu estava ali, estava tudo bem, estava indo tudo certo, mas ainda não tinha a química. Quando eu me tornei botucatuense de verdade foi que eu tive que me alistar. Daí eu fui fazer o tiro de guerra. Tentei sair fora, porque é claro, a minha geração odiava o exército. Ia me imaginar com uma farda? A essa altura, a gente já estava lendo aquela cartilha toda da esquerda.

Luciano: Você vê que interessante, você tem quantos anos a menos que eu?

Irineu: Eu tenho um ano, um ano e meio. Eu fiz 60 agora.

Luciano: Então, você fez 60, eu estou com 62, eu sou de Bauru. E em Bauru, cara, na minha época, que é 2, 3 anos antes de você, cara, a molecada ia fazer o exército na boa, era uma tremenda curtição. Eu lamento não ter feito exército. Primeiro que eu usava um óculos que era um fundo de garrafa e deu excesso de contingente, então me tiraram.

Irineu: Essa frase era fantástica.

Luciano: Mas meus amigos todos ficaram e as histórias que eles contam, a curtição que foi para eles, a aula de vida que foi para eles fazer o tiro de guerra foi um negócio que eu não consegui acompanhar, até porque aos 18 anos eu fui embora, eu vim para São Paulo, eles ficaram lá.

Irineu: Então, foi o que eu descobri, porque primeiro quando eu fui me alistar, eu fui falar com o sargento. Aquela história toda, aquele chaveco todo “olha, eu sou de certa forma arrimo de família, sou de uma família muito pobre, eu vim para cá para ganhar a vida. Eu tenho um negócio aqui que exige de mim, eu ainda tenho o colegial para fazer, eu não posso fazer o tiro de guerra,” e ele, que era safo, sargento japonês, bateu no meu ombro assim “garoto, você é um dos melhores homens que já me apareceram aqui. Eu não posso ficar sem você.” E eu fiquei muito p da vida, eu queria matá-lo naquela hora.

Bom, o que eu tive que fazer, eu saí dali com o meu amigo e sócio Tito e o irmão dele Samuel, que me acompanharam para rir, para mijar de rir, foram comigo até o barbeiro. Quando o cara pegou aquela máquina zero, pegou aquela cabeleira, eu também tive barba cedo, aquela barba, eu estava com aquele shape trotskista, estava orgulhoso daquele estilão todo. E aí, quando aquela máquina começou a subir, começou a aparecer o meu orelhão de novo. Eu deixei de ser aquele cara bacana, cabeludo. O cabelo, eu era o Sansão, o cabelo tinha me ancorado a vida depois dos 13 anos. E os meus amigos rolando de rir, porque eu tinha certeza, fui lá cheio de convicção que eu não ia servir, mas foi a melhor coisa que aconteceu, porque depois eu falei bom, eu tenho uma dificuldade de hierarquia. Eu sou aquele tipo de besta que não serve para general e nem para soldado, que não sabe obedecer direito, mas também não sabe mandar, então eu tenho esse defeito. Mas eu falei, pegar um desses moleques bestas para mandar, então eu tinha qualificação, por escolaridade e tal, de ser cabo. Então fui treinar num concurso ali, fui escolhido para fazer curso de cabo, eu fui cabo Toledo, fiz amigos maravilhosos.

Luciano: Quanto tempo você ficou lá?

Irineu: Fiquei quatro anos em Botucatu.

Luciano: Não. No tiro de guerra.

Irineu: No tiro de guerra foram só seis meses.

Luciano: Foi o período normal.

Irineu: E foi o suficiente para eu me integrar à comunidade masculina, porque eu conhecia mais as meninas. Os caras me detestavam, daí eu comecei a ficar amigo, daí neguinho chegava assim, cabo Toledo, vou te contar uma coisa aqui, a gente ia pegar você de pau, você começou a namorar uma menina lá, o outro era apaixonado. Enfim, aí fiz uns amigos, aí a partir do tiro de guerra eu me tornei botucatuense. Foi muito bacana isso, então para muita gente eu sou de Botucatu e eu gosto de ostentar isso.

Luciano: Eu não vou perder a chance aqui de fazer umas provocações. Você é um esquerdista dentro do armário. Você ainda não saiu do armário. Agora deve estar com vergonha de sair, agora que você não sai mais.

Irineu: Não, eu continuo social-democrata, continuo nesse modelo aí, sem problemas.

Luciano: É um esquerdista no armário. E viveu, durante seis meses, dentro do exército. Você estava lá, você conheceu a hierarquia do exército, você viu a cartilha. Você, de certa maneira, se moldou durante seis meses ali dentro. Fazer o tiro de guerra e ficar seis meses dentro do exército em 1977, quando o Brasil estava num período dos anos de chumbo etc. e tal. Mudou a tua visão, que você tinha do exército de fora ou você lá dentro comprovou que?…

Irineu: Não, mudou sim. Foi importante ter a disciplina do exército e o companheirismo do exército, ver que ali existem pessoas, além de entender o papel do exército, que eu não tinha tido tempo de perceber o papel do exército para o país, eu só conhecia os ditadores, só conhecia aquela visão mais politizada, porque nós estávamos dentro de uma ditadura e ponto. Eu cresci nisso, eu tive um pai que sofreu até com isso, de uma maneira inocente, por causa de…

Luciano: Amizades?

Irineu: É de uma lei de segurança, uma lei antigreve que tinha lá nos anos 60 e uma greve, o Seu João não foi trabalhar alguns dias e, como ele era uma pessoa muito antiga na empresa e já tinha mudado a geração dos diretores da empresa, era familiar. Então, era importante que ele saísse da empresa, aquele operário que deu a vida à empresa. Mas na realidade ele não foi trabalhar porque ele teve um tempo bravo de alcoolismo e depois teve o sindicato, um grande advogado que ajudou. Então eu acabei ficando junto da raiva daquele empresário, eu, garoto, cultivei isso e o Seu João também, vítima de uma lei de segurança lá na época, uma lei antigreve na minha adolescência e a dificuldade do Seu João, maravilhoso como sempre foi. Então e depois aquele caldo todo que a gente tinha de pobreza e de tudo, e de situações que a gente mesmo viu na periferia nessa fase. Então tinha isso. Em Botucatu também tive contato com uma cidade de estudante e tinha uma repressão brava ali. Aquele tempo que a gente ia no porão da igreja para cantar Geraldo Vandré, para falar das coisas. Então, Botucatu tinha esse caldo, era uma cidade estudantil.

Luciano: 77 era quando começou a bagunça toda, porque dois anos depois estava todo mundo na rua aqui em São Paulo, pela volta do irmão do Henfil, pela liberdade, pela abertura etc. e tal.

Irineu: 78 começa a trajetória Lula, sindical.

Luciano: É isso aí, mas o que eu quero pegar é aquela história interessante, que de repente você descobre que dentro daquela farda tem um cara que é igualzinho a você. É tão povo quanto eu e tem as dificuldades que eu tenho como brasileiro, a mãe dele parece com a minha, o pai dele parece com o meu, o irmão dele é igual ao meu e é gente que nem a gente.

Irineu: E o legal também do exército é que como é obrigatório no Brasil, você encontra diferentes classes sociais ali também. Você encontra o cara filho do bacana, filho do pobre, filho de todo mundo e a gente cria uma irmandade, aquilo ali é muito legal. Seis meses serviu para mudar essa visão. Separa qualquer governante ou qualquer ideologia dos sonhos da gente.

Luciano: E é lá que o rádio surge na tua vida?

Irineu: Então, o rádio surgiu ali porque como eu fui ali para acabar com a minha timidez, eu fui orador da minha turma de ginásio, então eu fui ao microfone, mas eu achava que isso era coisa de artista. E lá, como eu contava piada, subia na mesa, fazia discurso nos intervalos, fui presidente de centro acadêmico, ganhei uma eleição lá. Ganhei uma eleição já na vida, ganhei eleição em três dias, foi uma coisa interessante, uma eleição brava ali no colegial. E aí a rádio estava abrindo para teste, a Rádio Municipalista de Botucatu. As meninas, claro, eu era novo, vinham, “Toledo, vai lá, vai lá na rádio.” Eu vou dar bola a mulher falando, está paparicando. Um amigo meu que era o maior contador de piada, um cara muito interessante, o Miro, ele chegou, Irineu… Eu, não, isso é coisa para artista, eu sou filho de operário, não tenho essas ilusões, não. “Irineu, você vai lá, você tem que ir! Você vai, porque você vai, vai lá fazer esse teste.” Eu fui e fiquei. Tinha lá uma fila de 42 pessoas fazendo teste, era uma escadaria. Eu sempre deixei todo mundo ir na frente, daí fui o último. Nisso, passou o meu professor de português do colégio e ficou com uma das vagas, ruim para caramba no microfone, já era um professor chato, no microfone então.

Luciano: Estava lá fazendo teste na rádio?

Irineu: É, fez o teste. O diretor da rádio era professor do próprio colégio. O diretor era também vereador, presidente da Câmara e tal. Mas eu fiz o teste e ali um amigo, que tinha a minha idade, não era meu amigo ainda, gostou do teste porque eu falei bem, o inglês era razoável para anunciar as músicas e ele veio, se identificou comigo, “pô, foi legal o seu teste.” Mas aí não tinha mais a vaga, porque o professor assumiu um dos horários que tinha aberto e o locutor, que estava saindo para ir trabalhar num emprego mais estável, foi trabalhar no banco, resolveu que dava para encaixar em outro horário, então não tinha mais a vaga. Aí entrou o Irineu um pouquinho o vendedor. Eu fui, falei assim “olha, eu gostei desse negócio aqui, eu tenho a lojinha tal, eu estou disposto a vir fazer um horário aqui, para aprender esse negócio, quero fazer um estágio aqui.”

Luciano: Você não tinha feito nada de rádio até então?

Irineu: Não.

Luciano: A tua voz no microfone tinha sido lá falar na…

Irineu: Só aos 15 anos, na minha formatura do ginásio. E aí esse professor, o José Maria Leonel disse “é, às vezes falta gente aqui,” e foi lá com o Mário Pascucci, que era o vereador e era o presidente da Câmara e diretor da rádio, disse “o menino fez o teste lá, é bom, a gente podia deixar ele aí, ele está disposto a fazer, fazer algum horário, você já vai pegando embocadura, uma hora que a gente precisa, a gente não fica nesse sufoco.” Aí eu fui lá no Domingão, aprender com os ouvintes.

Luciano: E a tua vida mudou.

Irineu: Aí, mal sabia eu que ali eu fui fazer um programa, imagina, eu cheguei em Botucatu com aquela humildade de quem ouvia rádio em São Paulo, assim, agora eu vou ensinar esses caras como se faz rádio. Eu não sabia nada, de repente, vou fazer domingo do meio-dia às quatro, Balanço Municipalista. Comecei com o prefixo do Led Zeppelin, Immigrant Song [música]. É isso aí, porque isso aí também era prefixo de um programa aqui da Excelsior, em São Paulo. Aí comecei, bom, a primeira hora é de rock raiz, a segunda hora é progressivo, a terceira hora é…

Luciano: Espera aí, como é que chamava o programa?

Irineu: Balanço Municipalista, para a época era…

Luciano: Balanço Municipalista e você tocando rock.

Irineu: É, a gente não tinha ainda o esquema de… é que foi um nome que foi arranjado ali, não tinha ainda o esquema, balanço ainda não era a música black, na época. Bom, aí, claro que o programa foi uma caca. No dia seguinte, um dos locutores falou, “Olha, isso aí pode até ser, se você quiser ficar fazendo isso aí, não vai dar jeito, não. Programa assim não dá certo, não.” Falei, mas o cara não sabe de nada, eu fui lá, fiz uma baita programação, fantástica. Fiquei com raiva, mas, tudo bem. No domingo seguinte…

Luciano: Você não foi estudar para fazer isso?

Irineu: Não, não fui estudar.

Luciano: Jogaram você no ar e falaram se vira.

Irineu: Eu ouvia a Excelsior, aqueles caras lá do Rio, da Rádio Mundial, aqueles caras que a gente ouvia. Bom, eu peguei, no domingo seguinte, então eu vou deixar tocar o telefone, o que pedir, tocou. Aí, cara, Perla, Sidney Magal, Paulo Mendes.

Luciano: Você é apresentado para o gosto popular.

Irineu: Pois é. Só que teve uma coisa fantástica que aconteceu. O telefone não parou de tocar. Aí eu falei, cara, é isso aí, o ouvinte me ensinando o que eu tinha que fazer para ele.

Luciano: Então, vamos explorar essa coisa aí. Por que o telefone não parou de tocar?

Irineu: Porque eu comecei a tocar aquilo que agradava as pessoas, que elas estavam acostumadas a ouvir, enfim, o que estava dentro do universo delas, da percepção delas.

Luciano: Você que está ouvindo a gente aqui e ainda está de fralda, não vai lembrar, mas naquela época, anos 70, as pessoas ligavam para a rádio para pedir músicas, as pessoas se abasteciam de músicas no rádio, era lá que você ia. Inclusive, tinha aqueles concursos de pergunta e resposta, você ganhava, ia lá e buscava o disco e ganhava o disco, e em uma cidade pequena aquilo era um acontecimento. Então havia todo esse processo de eu quero ligar para a rádio, para pedir uma música. E aquilo movimentava, era um processo interessante. Não tinha ainda, não era época do jabá, não tinha neguinho pagando para tocar, aquilo foi começar um pouco depois.

Irineu: É.

Luciano: Então havia meio que uma troca de você aprendendo com o gosto popular, e o gosto popular aprendendo com você, devagarinho. Mas você é apresentado para isso de repente. Você chega lá o rei da cocada, vou tocar o que eu quero e não é bem assim, cara.

Irineu: É. E tocando aquelas músicas italianas, melosas e tal. Mas aí eu comecei a pensar na estratégia, falei, bom, uma é dele, outra é minha. Aí você começa a criar um molho ali, a gente estava na fase da MPB também, música internacional bacana também, aí eu comecei a equilibrar um pouquinho isso aí.

Interessante, outro dia eu fui fazer uma palestra para gente de rádio, contando só as besteiras que eu já fiz na rádio. Graças a Deus, os mestres que eu tive, os principais mestres foram os ouvintes, seja em relação à ética, seja em relação a tudo o que eu tenho que fazer, em relação ao respeito que você tem que ter com quem ouve, o quanto eu não sou superior a ninguém com o meu gosto, com o meu estilo, com o meu jeito, com as minhas opiniões. Então você começa a equalizar e entender que ao expressar a sua opinião, o seu gosto, você precisa achar um jeito de não ser ofensivo em relação a quem está ouvindo, porque grande parte das vezes o maior ignorante era eu. Então aprendi e tenho que agradecer as pessoas que tiveram a pecha de ligar para a rádio, reclamar de mim, porque muitas delas não reclamaram, mas foram embora e nunca mais voltaram. Essas eu não sei, mas as pessoas que ligaram para dar uma bronca e me deixaram magoado, chateado e com raiva, “não sabe nada,” mas me ensinaram a respeitá-las ao sentido todo que a gente tem que ter para tratar com comunicação.

Luciano: Ali você então começou a entender o que era esse processo de falar ao microfone para quem você não está vendo. Estou falando para um aparelho que não tem vida, que é inerte e não estou vendo nada do outro lado, nada, só sei que estou falando. Isso é meio louco, mesmo eu fazendo podcast isso é muito louco, porque eu estou falando aqui e eu só vou descobrir o que aconteceu quando alguém entra em contato aqui e fala cara, eu estava na situação. Ele descreve a situação e aí você imagina quem é essa pessoa que está me ouvindo, numa situação X e que foi capturado por uma expressão, por uma pausa, por uma música e me liga emocionado porque aquilo o impactou.

Você fala, cara, é muito louco, porque, como é que eu vou dizer para você, não é uma coisa padronizada, que eu tenho uma formulazinha que eu coloco no ar e ela serve para um milhão de pessoas. Não, cara. Cada um recebe aquilo de um jeito, por um ângulo, então bate de um jeito, uma coisa que um cara acha que é uma merda, o outro fica emocionado, o outro liga chorando, enquanto o outro fala que bobagem, da mesma coisa que você falou naquele momento.

Falar para essa multiplicidade é uma coisa interessante, que me leva até para uma coisa que eu chamo da síndrome do Faustão. O Faustão tem que dar 35 pontos de audiência para 40, 50 milhões de pessoas. É impossível você agradar 50 milhões de pessoas, a menos que você jogue para 50 milhões de pessoas. Então eu não posso ir fundo demais, eu não posso ser opiniático demais, eu não posso ser incisivo demais, eu não posso ser erudito demais, eu não posso ser nada demais, eu tenho que ser sempre aquela mediazinha, fica aquela puta coisa pasteurizada, chata para cacete, que dá 35 pontos de audiência. E aí você tem que se anular, ou aproveitar os momentos em que me dá uma chance e ali eu ponho o meu… que é o que o Faustão faz de vez em quando, ele perde a estribeira e solta os bichos, aí ele volta. Então você vê é um programa que fica domesticado quase que o programa inteirinho e tem alguns picos em que ele vira o Faustão, até um cara querendo botar opinião, mas ele não pode ir muito além, porque senão ele vai perder os 35 de audiência.

Irineu: Isso, para mim, foi o seguinte, acho que moldou até o meu jeito de ser na vida profissional. Eu trabalhei em várias emissoras, atendendo o perfil das emissoras naturalmente, e quando tem a oportunidade de ser comunicador, que sempre foi a minha opção, ir além do texto, não ter texto, me comunicar com a alma da outra pessoa, essa fase terminou que eu descobri assim, eu quero ser alguém positivo no rádio, eu quero ter uma palavra boa no rádio. Isso não foi anular, não, nem faço isso, mas eu preciso ter um jeito de falar de humanidade diferente, porque eu entendi que a necessidade das pessoas é sempre a mesma. A visão daquilo que elas precisam é que pode ser diferente. Por exemplo, hoje que a gente vive essa separação, é direita, é esquerda, é fascismo, é comunismo, ou é petralha, ou é não sei o que, na verdade, não existe nada disso, todo mundo entende as mesmas necessidades, ninguém é fascista, ninguém é comunista, todo mundo quer a coisa certa. Todo mundo quer bem-estar, todo mundo quer resolver problema da criminalidade, todo mundo quer resolver problema da corrupção. Ninguém, absolutamente ninguém defende a corrupção, mesmo sendo isso que chamam de petralha. E ninguém quer sair metralhando todo mundo, mesmo sendo fascista, isso que chamam de fascista. Nós temos uma mesma necessidade, queremos viver num país bem-humorado, num país legal. Ou seja, as pessoas têm as mesmas necessidades. Como é que eu, comunicador, consigo desenvolver uma comunicação que fale com um garoto de 10 anos, como eu, que ouvia a rádio da cidade, e que fale com um homem de 60, que fale com alguém que estudou e alguém que não estudou, ao mesmo tempo alcançando todos eles? Esse é o objetivo de qualquer comunicador.

E se você acompanhar, eu acompanho, por causa desse interesse já há algumas décadas essa filosofia, não vou chamar de filosofia budista, porque não é, mas essa sabedoria oriental. Se você pega Confúcio, alcança todas as pessoas. Quando você pega alguém indiano fazendo palestra, eu acompanho bastante a organização Brahma Kumaris em São Paulo, tenho proximidade com eles, são pessoas que ocupam cargos na ONU, cargos na Unesco, cargos na educação, gente da área da educação na Inglaterra, na França e é tudo muito simples o que eles falam. Você tem uma palestra que tem gente executivo, tem presidente de empresa, sai todo mundo feliz, abastecido, enriquecido com uma palestra e tudo a partir de uma grande simplicidade.

Luciano: Mais espiritual, não tem aquele movimento político, ideológico etc. e tal.

Irineu: É, eles chamam de ego, porque as nossas opiniões e a razão é o nosso ego, que é importante para a nossa energia e tal, mas eles trabalham que tira o ego para aflorar a sabedoria que alcança todas as pessoas. Mas enfim, a gente, que é comunicador tem essa preocupação, porque eu quero ser amado. Eu não gosto realmente, eu sei que gera uma grande relevância quando a gente cria polêmica, mas você fala assim, poxa, deixa eu ficar aqui no meio, ver se eu consigo conciliar isso. O meu esforço na vida sempre foi de conciliação, até por causa da profissão que eu tenho, porque ligaram pessoas, eu te falei, me criticando.

Você sabe de uma coisa terrível que eu fiz, sabe, daquelas de ter vergonha de falar no microfone? Eu fui um desses locutores dos anos 80 e a gente inaugurou essa coisa alegrinha, animadinha, fazer piada com tudo. Nos anos 80 você começa uma FM e estava começando uma coisa terrível para a humanidade, que a nossa geração pegou de primeira assim, que é a AIDS. E todo mundo sabe que a AIDS, no início era carregada, transferida só por homossexual. E eu ali na Manchete FM, uma fase em primeiro lugar de audiência, essas coisas, acordava, falava um monte de coisas legais e tal, mas no meio fazia piadinhas com os números da AIDS assim, “eu falo para eles, parem com isso!” Acabei fazendo um bordãozinho de mau gosto, uma piadinha escrota de minha parte.

Um belo dia, felizmente, eu recebo uma carta muito bem escrita, a pessoa se dizendo executiva, “moro no Jardim das Américas” e tal e falou que era meu fã, que me respeitava, mas que, no entanto, e falou de todos os tipos de doença que tinha, que aquilo que eu estava falando e… Cara, sabe quando você quer ser atirar de um prédio, porque a pessoa tem toda a razão, que você se reconhece como um verdadeiro idiota insensível, fazendo piada? Falei, e agora, o que eu faço com isso? Se eu falasse para o meu diretor, ele ia falar, ignora, não fala nada, escreve para o cara. Falei, mas não é honesto. Daí eu peguei às seis e meia da manhã, num horário assim que era bem legal, falei, gente, vou ter que pedir uma licença aqui. Eu tomei uma bronca e eu quero com isso pedir desculpas. Eu li a carta do cara me destruindo, no ar.

Luciano: Isso aqui em São Paulo?

Irineu: Em São Paulo.

Luciano: Que rádio era?

Irineu: Na Manchete FM, isso foi em 83, 84. Aí eu falei, bom, o mínimo que eu posso fazer, eu tenho microfone, o cara não tem e aí eu pedi desculpas. Eu falei, ainda bem que você me corrigiu. Eu, na minha insensibilidade, no meu esforço de fazer humor de manhã não me toquei, não imaginei, na minha ignorância, na minha estupidez. Mas li a carta do cara, falei era o único direito de resposta que eu tinha para me desculpar para tantas pessoas. Foi um mestre para mim, me orientou em relação à ética. Porque eu trabalhei com 22, 23 anos achando que eu estou com tudo, entendeu? Eu não estou com nada. Então, acho que ouvir o ouvinte é interessante e também tira da gente essa prepotenciazinha que vem quando você está no microfone, você está fazendo humor, você está emitindo a sua opinião, você está achando não sei o que lá. Agora não é bem assim, mas na época era unilateral, não é?

Luciano: Ainda é, o que você está falando é um negócio importante, que é o seguinte, é a carga de responsabilidade que você tem que ter quando tem diante de você esse microfone ou uma camerazinha. E não importa se é um canalzinho no YouTube ou é a câmera da Rede Globo de Televisão. A única diferença lá é o volume de gente que vai te ver, mas a responsabilidade que você tem que ter a hora que abre a boca para falar no microfone é uma coisa que devia ser sagrada.

Tema número um, eu vou me transformar em influenciador digital. Eu vou escrever para influenciar as pessoas, eu vou falar, eu vou fazer um vídeo etc. e tal. O tema número um devia ser o seguinte, cara, a partir do momento em que você apertar uma tecla para gravar o que você vai dizer, para publicar o que você escreveu, tem uma carga de responsabilidade ali. Você está passando alguma coisa que não é simplesmente a tua opinião falando com o teu vizinho, tem um monte de gente recebendo aquilo lá e você não sabe como é que as pessoas vão receber. E você vai estar influenciando as pessoas na direção do mal ou na direção do bem. E se você não tiver essa consciência e responsabilidade, nós vamos ver o que está acontecendo hoje em dia aí, cara.

Eu não aguento mais, hoje eu botei, vai sair um post agora, daqui a pouco, um post que eu vou botar aqui, que eu botei um comentário que o Josué, que participa da nossa Confraria Café Brasil, ele botou um post lá agora há pouco dizendo o seguinte. “Cara, eu estou assistindo o que está acontecendo aí. Cara, um monte de ministro novo, chegando, falando um puta monte de coisa que vão provocar mudanças fabulosas no Brasil e nego discutindo se é azul ou cor de rosa. Puta discussão se é azul ou cor de rosa, que saco! E o que importa não está sendo discutido.” Eu pego isso, boto lá e falo, cara, Humberto Eco tinha razão quando falou que as mídias sociais abrindo a porta para imbecil. Eu falei, ele tinha razão e eu não sei o que estou fazendo aqui. Eu boto isso no Facebook, falo e eu não sei o que estou fazendo aqui, porque está impossível. Está impossível entrar no Twitter, está impossível entrar no Facebook, que aquilo virou uma terra de selvageria, de jogo de ego. Qualquer animal abre a boca lá e ninguém tem consciência nenhuma da responsabilidade que tem. Então, guardando a proporção, o Irineu falando no microfone para três milhões de pessoas, tem o Zé botando um post para 40 amigos. Se você guardar agora a proporção, é a mesma coisa, cara. É alguém expressando sua opinião e, de alguma forma influenciando as pessoas.

Você vai dizer, o cara é um idiota, deixa ele publicar à vontade. Não, cara, ele vai estar batendo em você, ele está me incomodando. E quando ele coloca aquela ideia que você fala, cara, não é possível que tenha gente que pense assim, não é possível que essas pessoas estejam tomando decisões, não é possível que essa pessoa seja líder em uma empresa, não é possível que esse pensamento possa andar. Isso acaba que contamina todo mundo. Então, você está colocando um ponto fundamental, que é essa consciência da responsabilidade.

Irineu: Hoje todo mundo é mídia.

Luciano: E eu vou levar isso ao cúmulo, isso que me faz respeitar. Você imagina um William Bonner. Vamos ao cúmulo, vamos ao máximo. É William Bonner.

Irineu: É a maior audiência do Brasil.

Luciano: É William Bonner. Então, quando o pessoal fala, parece um robô, ele sabe que uma piscada dele explode no dia seguinte, um sorrisinho dele explode no dia seguinte. Quer dizer, tem gente que não tem consciência disso e sai por aí e hoje com esses YouTubers então, virou um inferno.

Irineu: Agora é uma liberdade total para a ignorância. A gente era mais vigiado até pelas estruturas de comunicação, as emissoras de rádio aonde a gente trabalhava. Quer dizer, tinha toda uma responsabilidade. Eu fui trabalhar lá na Eldorado, que tinha toda essa preocupação, Estadão. Eu estava querendo, eu estava mudando o meu posicionamento, saí da Manchete, estava na TV Cultura já fazia um tempo e para entrar no ambiente publicitário. A Manchete, com todas essas loucuras aí, eu falei aqui não dá mais. Daí a Eldorado já era uma rádio de tradição de vozes e também a linha editorial do Estadão. Daí eu fui e nos primeiros dez dias, duas semanas eu estava ali comportado como locutor, mas eu estava acostumado a falar. Comecei a falar, adaptar a coisa ali no noticiário, fazer uma tiradinha ou outra. A avaliação do primeiro mês me chamou, Aluízio Falcão, até escrevia no Pasquim, ele uma pessoa muito interessante, apaixonado por rádio, que me levou para lá. Disse “Irineu, o nosso noticiário é algo sagrado, é intocável, não se pode mexer nisso. Você falou isso, eu confesso que ri muito, mas não se faz isso aqui nesta emissora. Nós temos que ler o que o jornalista escreveu e não colocar tinta alguma,” porque mesmo com o texto certinho, você pega uma frase ou outra, você muda o jeito.

Luciano: E é o molho, cara.

Irineu: Você imagina, quando você lê os seus textos com essa ironia toda.

Luciano: É claro, mas aí é que está o molho. Então é por isso que quando você está vendo os robôs da Globo falando, os dois, quando de repente a menina, a Renata Vasconcelos dá uma notícia, ela fica tão indignada que o olho dela enche de lágrima, aquilo traz um toque de humano, muda tudo. Falo cara, é isso que eu quero ver, eu não quero ver robô, quero ver um ser humano se expressando ali. Só que tem um componente político ali que é fundamental, ela não pode expressar o que ela está pensando ali, porque naquele momento são as duas éticas do Max Weber, tem a ética do cidadão comum, que é aquela do eu falando o que eu quero e a ética do cidadão político. No momento em que eu botei a minha camisa da Rede Globo, eu não sou mais William Bonner que gosta de churrasco ou faz uma piadinha, com aquela camisa ele é uma outra coisa, ele é uma entidade, então ele não pode mais se comportar…

Guardando a proporção, eu dividi meus sites em Luciano Pires.com.br e Portal Café Brasil. No Facebook eu tenho a minha página do Luciano e a página do Café Brasil. Elas são diferentes, eu não faço na página do Café Brasil o que eu faço na página do Luciano. A página do Luciano eu detono, agora no Café Brasil, não. Tanto que a do Luciano tem 200 mil seguidores e do Café Brasil tem 30 mil. Por quê? Porque uma gira polêmica e é aquilo que a gente quer ver. A outra, não, a outra é uma entidade. E eu sei que ali eu tenho que tomar um certo cuidado, que como Luciano Pires, eu não vou dizer que eu não tomo cuidado, mas a responsabilidade do Luciano Pires é diferente da responsabilidade do cara que está à frente do Café Brasil.

Irineu: Café Brasil é um portal hoje importante, tem que ter uma curadoria.

Luciano: E você sentado na frente do microfone, você é aquele logotipo da rádio que está acima de você, então você tem que seguir ali.

Irineu: E aí no Brasil, no caso do William Bonner, tem a abrangência pelo alcance da Rede Globo, é um grupo de poder importante, então não pode ser o poder do apresentador. Como a gente já questiona o poder da própria emissora como grupo de pressão, de interesses, quer dizer, imagina dentro dali várias pessoas defendendo cada um uma bandeira, vira um caos.

Luciano: Interessante e, de repente, do lado, numa rede de televisão de importância bem menor, como a Bandeirantes, ou o SBT, não me lembro se foi Bandeirantes, aparece o Boris Casoy, que não é um apresentador de televisão, é um jornalista que entra dando opinião, “Isso é uma vergonha! Isso é um absurdo!” E aquilo explode de sucesso, porque tem uma carência por aquilo, tem gente que quer, mas ali tinha um chefe atrás dizendo o seguinte: pode mandar ver.

Irineu: É, a responsabilidade, eu acho que a gente está caminhando para isso, até por causa da pressão das redes sociais, coisa mais natural, ou mais autêntica e preservando isso aí, separando o indivíduo.

Luciano: Azar seu, porque a voz foi para o saco.

Irineu: É, mas não tem, eu nunca tive esse… embora eu seja uma voz profissional, embora eu goste de falar do comunicador, porque o comunicador é o Irineu, o que eu penso, o que eu sinto, e o locutor técnico, eu estou a serviço do texto, a serviço da agência, da campanha, mas eu não sou assim preso à voz. Enfim, eu não acho que eu sou um cara que força a barra. O bacana de tudo não é que a voz grave deixou de ser importante para a mídia, a tecnologia permitiu que todas as vozes sejam importantes. As vozes predominantemente graves e volumosas persistiram enquanto a tecnologia, você tinha o diafragma dos microfones, precisava de uma potência que ajudasse na emissão. Como eram os teatros antigamente, você precisava de potência. Agora, não, você precisa de naturalidade. Então um locutor de muito volume e sem humanidade, sem sensibilidade, ele perde nesse sentido, se ele não tiver uma técnica para voltar a ser natural, se ele projetar, dançou. Então acho que o cara que está verdadeiro, está natural, não fabrica uma voz fictícia, uma voz que não é dele, se ele consegue ter essa mesma voz falando com criança, falando com velho, falando no microfone, ele está natural. Aquele cara fabricado dançou.

Luciano: Se for falso, dançou mas olha nós dois conversando aqui. Eu, a minha voz é de um merda [riso].

Irineu: Não, mas a minha também.

Luciano: Irineu, fica aí que eu vou à merda, está bom? Então está bom [riso].

Olha aqui, a gente vai partir para os finalmentes aqui. Você não é aquele modelo do locutor que é contratado por uma rádio e ganha um salário para falar na rádio, não é isso. Desde que eu te conheço, em 2004, você já tinha um modelo de business que era uma outra história.

Quando eu te conheci era Rádio Nova Brasil, você tinha um programa que era líder em audiência de manhã. Aliás, para quem não sabe, o bordão “Posso entrar?” Do Café Brasil é do Irineu Toledo. Eu peguei, ele falava de manhã, “Com licença, posso entrar?” Alguma coisa assim, não é?

Irineu: É.

Luciano: Eu fui buscar esse posso entrar e incorporei. O Café Brasil tem hoje o posso entrar, que é uma marca, um pedido, eu estou pedindo ao ouvinte para que me deixe.

Então, quando eu te conheci, em 2004, era um modelo interessante porque você tinha um horário grande na programação, eram três horas, coisa assim?

Irineu: É, porque eu aproveitei que eu fui diretor da rádio e uma vez que eu estava bem em outras áreas e como sempre gostei de microfones de rádio, falei, uma vez que eu estou bem, eu quero estar em rádio se for para fazer aquilo que eu acredito, ou próximo daquilo que eu acredito. Eu também estava cansado das rádios engessadas, então ali foi uma oportunidade.

E quando eu recebi o convite para fazer a mudança da rádio, era uma mudança de targeting importante, era uma rádio jovem, não estava indo bem, estava patinando e aí ia mudar para AB. E eu estava bem, eu falei, eu topo se não tiver salário e se tiver pesquisa. Até para não ficar no achismo, “eu defendo isso,” em rádio e agora em tudo, você vê, agora a mídia do jeito que está, todo mundo entende de tudo, daí você põe uma ideia, você precisa de um tempo para ter resposta, para saber se está dando certo. E às vezes você coloca uma ideia, um diretor não gosta, o outro diz “a secretária falou não sei o que,” você já para, você não tem tempo de testar. Agora ainda com a tecnologia, a gente tem um tempo de testes mais rápido. Eu falei, não dá para ficar em achismo, eu também sou forte nas minhas convicções, mas já que estou nessa, vamos esperar seis meses, pelo menos já dá uma curva, você olha, isso realmente tem a ver, aí você vai corrigindo. Aí foi assim que eu criei esse modelo de envolvimento que não é salário, é de resultado.

Luciano: Então, isso que é uma coisa interessante. Agora eu quero discutir um pouco de business com você, do negócio em si.

Então o Irineu não vai ser o cara que vai ganhar um salário para fazer um programa e ter uma participação nas propagandas que aparecerem. Não é isso, o departamento comercial vendendo propaganda e te pagando o teu salário e uma participação, o que é o normal, o que acontece por aí.

Você chegou e falou o seguinte, eu não quero salário, eu quero uma participação nas coisas que vão acontecer aqui. Então se promover um evento, eu vou ganhar pelo evento. Eu vou usar a plataforma da rádio para promover uma série de ações que se acontecerem e derem muito certo, eu vou ganhar dinheiro.

Irineu: É, mas no começo eu nem tinha essa ideia. É claro, eu queria dizer o seguinte, eu sou apaixonado por rádio, se você me der uma rádio hoje, eu tenho um nicho ali esperando. Só que nunca ninguém vai fazer isso, eu fico esperando. Então na época foi isso também, se é para fazer algo que eu acredito para o rádio, como eu gosto do rádio, para aquilo que eu acho que é legal, daí eu fui por essa. Agora, a empresa estava mudando, não tinha grana, eu disse, olha, eu não preciso de grana. Eu vou pegar do zero, mas aí eu fico com X, em função do êxito da rádio.

Luciano: Então, por que isso aconteceu? O pessoal da rádio, o dono da rádio achou que não tinha mais nada a perder, chamou um maluco, que era o Irineu e falou “Irineu, pega esse horário aqui e faça essa coisa dar certo. Como eu não tenho nada a perder e você não quer que eu te pague, se der certo deu,” foi isso que aconteceu?

Irineu: Exatamente.

Luciano: Foi uma situação como essa?

Irineu: Exato.

Luciano: Você não apareceu lá para eles, bateu na porta com um projeto na mão e falou gente, eu quero implementar esse projeto aqui? Você não foi cavar isso, havia uma necessidade anterior?

Irineu: Não. Eu defendia um outro horário, eu sou um cara de falar de rádio, de estratégias de rádio, então eu sou verborrágico nesse sentido, porque eu gosto de pensar a rádio. Então eu falava com alguns amigos. E o pessoal que assumiu a rádio nessa transição, eles tinham me levado numa tentativa de reformulação da Manchete FM em 92, eu tinha voltado novamente, eu tinha saído de rádio, voltei em 92, mas durou pouco tempo, teve aquela questão de legislação, Grupo IBF comprou. Enfim, daí a gente estava começando a embicar um projeto para uma nova Manchete FM, daí perdeu-se a concessão, virou lá um… então saiu. Aí quando eles voltaram, o Irineu falava aquelas coisas, estamos aqui com esse desafio e aí eu falei deixa comigo.

Luciano: Qual era a ideia naquela época lá? Quando você chegou lá falou “muito bem, o que eu estou formatando é o seguinte…” Que ideia foi essa que você formatou, me dá o plot, me convence a botar esse teu programa no ar.

Irineu: Na verdade, eu pensei no seguinte, na época o tripé era o seguinte, nós precisamos de uma rádio solta, meu negócio é o seguinte, tem que ser jovem sem ser babaca e adulto sem ser careta, era o meu bordão. Então vamos ser natural? Porque é uma rádio AB, não precisa ficar com erudição. Eu sempre disse o seguinte, anos 60 o pessoal cheirou, fumou, sentou, quebrou tudo e agora a gente vai fazer uma rádio e ficar falando para as pessoas como se fosse aquela Eldorado antiga, ou aquela Gazeta antiga. Fala naturalmente, vamos contar, vamos tocar música boa, diversificada.

Luciano: Quer dizer, você teve uma ascendência sobre a programação musical?

Irineu: Sim, na época, no início, sim.

Luciano: O que era uma característica fundamental. Quem conhece a rádio, nós estamos nos referindo aqui a uma rádio que se caracterizou por música brasileira de belíssima qualidade.

Irineu: É, foi em uma das fases que eu comecei, no início não era só brasileira. Outra coisa era a seguinte, era São Paulo, vamos trabalhar com cultura, informação. Então, eu falei assim, o locutor não tem que ter texto fechado, para não ficar parado. Tem 30 peças de teatro, vamos elencar característica dessas peças, cada locutor pega aquilo que se sente à vontade para fazer, tal. Tem não sei quantos filmes passando em São Paulo, faz cartelas para dizer o que é que tem. Se o cara quer começar o assunto falando do ator, ou falando da trilha, ou falando não sei do que, para ver se os locutores se diferenciavam, esse era o meu mote, o que na verdade não andou bem, porque aí você tem que preparar pessoas para isso. Então, vamos desenvolver uma linguagem que respeita a identidade de cada um, mas que seja dentro da linha mestre de uma rádio. A gente tem que ter um direcionamento, nós estamos buscando tal público, mas que permita que cada um coloque aquilo que sabe, a gente abastecia de informações.

E a outra parte era de notícia, mas de um jeito de jornalismo de repercussão mesmo, o que as agências estão falando, o que há de importante, na época era uma rádio musical, sem entrar pesado nisso. E a parte que me interessava, que eu já estava trabalhando muito os eventos de empresa, anos 90 foram anos de mudança, globalização, reengenharia. Eu estava andando com vários palestrantes e vendo aquilo e falei olha, na verdade, a gente tem que falar com quem trabalha, falar com quem está dentro da mudança, nós temos que passar a ter outro assunto.

Luciano: Até porque o teu horário era o horário que a turma está se deslocando para o trabalho.

Irineu: Isso. É, e o jornalismo brasileiro ainda despreza esse tempo. A gente está, você vê, num ambiente de muita informação e informação importante. Você é palestrante, você vive em empresa, as pessoas não sabem o que é disruptura. Essa quarta revolução que está mexendo com todo mundo, a gente não está mastigando isso em nenhum veículo de comunicação direito. Aliás, você vê, na campanha política as pessoas falam em desemprego, mas não falam que o desemprego não vai acabar simplesmente com políticas de governo, porque está tendo uma mudança estrutural muito grande no mundo e nós não temos comunicadores ainda preparados para isso. Os anos 90 tinha isso também, tinha aquela reacomodação, as fusões, eu como mestre de cerimônias ou mediador mesmo em eventos estive em várias fusões das empresas químicas, enfim, aquela fase de acomodação, mudanças de cultura dentro das empresas, falei, essa é a dor das pessoas.

Luciano: E você trouxe isso para dentro?…

Irineu: Eu acho que, modéstia às favas, fui pioneiro. Mesmo hoje ainda é tratado com distância. Quem fala de negócio, quem fala de dinheiro, quem fala de sucesso dentro de ambientes de jornalismo parece que está falando coisa chapa branca, parece que não é a realidade das pessoas. Tanto que um bordão que eu usava sempre foi “mais importante do que a notícia é como você vai enfrentar a realidade”. Foi aí que depois, eu lendo texto, foi aí que eu conheci você, primeiro pelo seu texto. Preciso trazer gente que está no ambiente corporativo, gente que produz conteúdo também, porque essas pessoas ficam dentro da empresa o dia inteiro e têm que lidar com isso.

Luciano: É a realidade pelos olhos de quem está lá, está vivendo aquele momento. Deixe eu contar aqui, para a gente deixar registrado para ficar para a história a forma como eu conheci o Irineu. Eu fiz o meu livro O Meu Everest, lancei o livro O Meu Everest e eu ia trabalhar de manhã ouvindo a rádio do Irineu. E era legal, porque tocava umas músicas legais, eu ia ouvindo o programa dele de manhã. E ali ele falava muito de um livro, olha o Insight, o livro do Daniel Carvalho Luz etc. e tal. E aí eu falei, esse cara fala de livro, que legal. Será que ele não poderia, talvez se eu falar com ele promover o livro do Everest?

Eu liguei, um belo dia eu pego o telefone e ligo para a rádio e atende o Irineu, cara, aquele vozeirão, “Alô, Irineu,” “Irineu, aqui é Luciano Pires,” “Pois não,” “É o seguinte, cara, eu fiz um livro aqui chamado O Meu Everest.” Ele, “como é teu nome mesmo?” “É Luciano Pires”. “Renata, como é o nome daquele cara que nós vamos ler o texto aqui hoje?” E ela “É Luciano Pires.” E ele estava com um texto meu, porque naquela época toda semana eu publicava um texto por e-mail, que viralizava, naquela época e naquele dia o Irineu tinha programado um texto meu para ser lido pelo Pelegi, que era o outro apresentador com ele, e o Pelegi ia ler um texto meu no programa. E na hora que eu telefonei, quando o Irineu falou isso, meu, não vai dar, aí já marquei, já fui conhecer. A gente sentou para conversar e ali nasceu uma amizade que ficou. E acho que a hora que ele leu aquele texto, falou esse cara traz um conteúdo diferenciado, porque não é um jornalista.

Irineu: Eu lembro do texto até hoje, que foi um texto em que você estava falando da criatividade do brasileiro. Você estava comparando o McDonald’s do Brasil e o dos Estados Unidos.

Luciano: Que quebrou a máquina.

Irineu: Exato. Então, você estava falando muito de cultura de empresa.

Luciano: Era uma história interessante, foi uma pessoa que me escreveu para dizer que a filha dela trabalhava numa loja do McDonald’s nos Estados Unidos e quebrou a máquina de picar cebola e todo o restaurante parou, porque a máquina estava quebrada. E o que a filha dela fez, foi lá, pegou uma faca e começou a cortar cebola na mão e ficou todo mundo pasmo, como assim? E aí eu estava conversando sobre essa… cara, não deu para ir por aqui, vamos por ali, dá um jeito, se vira.

Irineu: Tinha um texto seu ainda anterior a isso, ou dessa fase, não sei se foi antes ou depois. Você voltou a esse tema muitas vezes, até você bota em palestra, quando começou o desmonte da indústria americana, quando todo mundo foi querer comprar barato da China. E você estava apontando, olha isso daqui, a inquietação que também você estava vivendo ali. Aliás, você era da empresa automotiva também, você tinha essa visão. Mas você dizendo, olha o que está acontecendo, o que vai acontecer eu não sei. Era alguma coisa assim, mas nós estamos deixando, os Estados Unidos estão deixando de produzir. Quanto tempo vai levar para sucatear a indústria americana? O que é uma realidade que nós temos hoje. E que agora as relações Estados Unidos e China parece que vão bem, até porque não adianta brigar, é um rigor de coexistência que vale a pena para os dois.

Luciano: Sim, a hora que bate na bunda a água, o pessoal repensa.

Irineu: A economia, o dinheiro não tem ideologia.

Luciano: Mas vamos voltar ali. E aquele teu programa vira um puta sucesso, virou um tremendo sucesso. Eu não sei, chegou a ser campeão de audiência?

Irineu: Sim.

Luciano: Ele era campeão de audiência de manhã?

Irineu: A gente tinha liderança. A gente disputava com programas de jornalismo que são importantes. Na época era CBN, eram as rádios de jornalismo, a gente se posicionava bem ali perto.

Luciano: E era uma coisa interessante, porque você saía de casa, em vez de ficar ouvindo notícia de jornal, que hoje em dia é quase que insuportável. Cara, você vai ouvindo é aquela coisa, é alguém esfregando na tua cara a bosta do país em que você vive, o fracasso que você é como brasileiro, por não conseguir fazer nada melhor do que isso que está aí e te botando na cabeça todo o dia o seguinte, bicho, conforme-se, isso que está aí é o melhor que você pode fazer, é o melhor que você consegue fazer. E a gente toma essa porrada todo dia e chega em casa à noite, liga a televisão, continua na televisão te esfregando na tua cara a porcaria do país que é, é o cara que matou, é um horror aquilo lá. E, de repente, no programa do Irineu não era assim, porque você entrava lá não estava aquele show de horrores, estava o quê? Estava falando de coisas que têm a ver com o dia a dia, convidou uma série de palestrantes que iam lá e traziam insights interessantes sobre postura, comportamento no trabalho etc. e tal. E ali ele criou um ambiente que era uma música legal, um papo gostoso e aquilo criou um ambiente que explodiu aquele negócio da audiência. Até o dia que alguém falou mal do Quércia [riso]. Ai, meu Deus! Bom, no meio do caminho, nós fizemos, o que o Irineu fez…

Irineu: Ele é uma pedra no meio do caminho…

Luciano: …ele me convidou, eu passei a mandar os textos para a rádio.

Irineu: Isso.

Luciano: E eu não tinha preocupação nenhuma com texto de rádio, eram textos grandes para serem lidos na internet e não eram para ser falados na locução. E aí os textos foram indo e eu acabo me interessando e a gente lança os Brasileiros Pocotó, que nós lançamos juntos.

Irineu: Isso.

Luciano: Foi um projeto feito pela editora da rádio, que nunca tinha feito um livro, não é?

Irineu: A Frente e Verso, na época, que era a produtora que a gente tinha.

Luciano: Exatamente. E a gente faz e lança o Brasileiros Pocotó, foi um puta sucesso naquela época e logo em seguida o Irineu me convida para que eu mande o texto na minha voz. E aí eu começo a mandar textos menores na minha voz. E aquilo foi o embrião de tudo o que aconteceu, quer dizer, se hoje eu estou aqui fazendo o Café Brasil, LíderCast etc. e tal, foi pelo impulso que o Irineu deu lá em 2004, 2005, que eu comecei então a ouvir minha voz na rádio. Falei, cara, como é que é isso aí, puta, que horror, a leitura é uma bosta, tem que melhorar essa leitura, que aí eu fui tentar me esforçar para fazer com que aquilo ficasse uma coisa mais natural, mas nasceu lá, o embrião do Café Brasil foram os textos que eu colocava no teu programa lá. Muito obrigado, viu, Irineu.

Irineu: Olha, eu, de minha parte, eu sou muito orgulhoso disso também. Não orgulho por paternidade, porque eu não tenho essa… a maravilha da vida é a gente identificar pessoas com quem a gente vê algo nutritivo, como a gente praticamente começou a usar o nutritivo juntos dentro das nossas conversas, eu utilizo muito o nutritivo e você fez até uma palestra nutritiva, porque é aquela conveniência boa dos encontros. Você fala eu estou procurando isso, a gente não tem absolutamente tudo aquilo o que é necessário, especialmente a gente que produz conteúdo. A gente precisa ter a humildade de aproximar pessoas e reconhecer o talento das pessoas que são diferentes da gente, que trazem algo que eu não tenho. Eu acho, sempre achei, eu tenho amigos por conveniência, porque eles são tudo o que eu não sou. Eu falo assim, caramba, que legal que eu tenho um amigo que faz isso. Então e eu tenho sempre orgulho de falar, também eu conto essa história, o Luciano chegou lá, não que eu fale por paternidade, mais uma vez dizendo, o Luciano começou a gravar lá, mas é um puta cara, porque ele produzir, é um cavalo para produzir. Ele já era da área, já era jornalista, era um executivo também, eu acho que você estava executivo.

Luciano: Estava.

Irineu: Era um cara que fez a trajetória profissional maravilhosa. Mas enfim, eu sou muito orgulhoso, primeiro da nossa amizade, da nossa identificação também, que foi rápida. Acho que todas as coisas que a gente fez foram boas. A gente embarcou em projetos juntos.

Luciano: Só não ganhamos dinheiro, Irineu, mas isso é bobagem, isso é detalhe aqui.

Irineu: É, só não ganhamos dinheiro. Eu sempre que posso te explorar eu exploro, sempre que eu te convido para ir a um evento, não pago nem a água, nem o Uber, não pago nada. “Luciano, tal data!” Daí ele cancela a palestra que ele tem com uma empresa. Fala assim, não, tudo bem, Irineu falou, eu vou lá, mas enfim.

Luciano: Você já me fez ir de helicóptero para um evento, mas deixa para lá, vem cá…

Irineu: Mas enfim, eu sou muito grato, na verdade, por você ter se aproximado, ter chegado e ficado e a nossa amizade que vale mais do que…

Luciano: Pela conveniência, por a gente ser… nós somos gente boa, vai.

Irineu, o tempo de ouro da rádio passou. Isso que eu estou fazendo aqui é uma afirmação, misturada com uma pergunta. A era de ouro da rádio passou, o que vem pela frente a gente não sabe direito o que é. Então, os podcasts estão surgindo. Hoje de manhã eu recebi a notícia de que a Globo, o Zorra Total já está lançando podcast, a Globo mostrando lá, ouça o podcast da Globo. Eu botei um outro post aqui, que é uma analista de política nos Estados Unidos, aí mundial, sendo perguntada como é que se pode fazer, a imprensa tem que fazer para lidar com Bolsonaro, para lidar com Trump, que esses caras estão quebrando tudo e ela fala tem que encontrar outros caminhos e o pessoal pergunta já existe algum caminho? Ela fala assim, sim, o New York Times lançou uma série de podcasts diários e ali no podcast ela pode ampliar a abordagem, ela pode sair da pauta etc. e tal, usando o podcast, que nada mais é do que a velha postura de um cara atrás de um microfone, criando conteúdo e repassando para as pessoas e o rádio está embutido aqui até o último fio de cabelo. O rádio como negócio já era?

Irineu: Eu acho que não. Eu acho que o rádio tem futuro, até por causa desse caos que é o ambiente de internet, essa infinidade de produtores e a qualidade questionável e a falta de origem e de assinatura. Mas eu entendo também que os veículos ainda não conseguiram mudar a chave internamente para ver como é que eles fazem isso. A Globo está fazendo isso de uma maneira acelerada e eu nem vejo esse caos para a Rede Globo, não, mesmo cortando as verbas, que ela sempre dependeu de verba pública, seja a verba oficial, verba de comunicação, esses acordos que tem entre veículos de comunicação, não é só no Brasil e está na nossa história também desde Getúlio, especialmente com veículos de rádio e TV.

Mas vai depender dessa curadoria e também não adianta, se determinada faixa de público quer assistir usando esses formatos todos, quer montar sua própria playlist e ficar ouvindo na própria rádio o aplicativo que tem, está ok. Está ok! Essa é frase do [riso]… mas o comportamento que a gente vê das pessoas, da maior parte delas é passivo. Então, uma vez que a gente tenha estruturas organizadas de conteúdo, bem estruturadas, atendendo nichos, ou atendendo grandes públicos, estando ali como streaming, porque o meio de transmissão pode mudar, mas os grandes produtores de podcast têm um grande expertise comercial, têm uma capacidade de se aliar às agências de comunicação, às agências de propagandas e aos produtores de conteúdo e à inteligência e se revitalizar e se diferenciar em relação aos outros.

Como prefixo, não vai deixar de existir. E aí é que eu aponto para o futuro, que não tem como acabar, por causa da raridade. Não tem como ter tantos veículos de comunicação, como televisão e rádio oficial por transmissão tradicional, e é importante que elas existam por uma questão nacional, é um veículo de comunicação importante para qualquer nação, então eles vão existir. E um lugar aonde a gente tem chance de ter melhor curadoria é se estiver embasado ou ancorado nos veículos tradicionais. Mas os veículos tradicionais têm que deixar de ter a cabeça na lógica, não pode olhar do mesmo jeito que sempre fez.

Luciano: E tem que voltar a investir… e, para mim, um dos modelos que eu tenho seguido muito de perto é o modelo da Jovem Pan aqui em São Paulo. A Pan explodiu de audiência, nos últimos anos ela cresceu barbaramente na audiência, porque ela encontrou um caminho ali, ela pegou, abraçou o caminho do jornalismo, abraçou uma linha de pensamento, ela tem alguma coisa da multiplicidade ali, mas majoritariamente é uma rádio voltada para uma visão mais liberal, mais conservadora, trocou jornalistas e botou analistas ali no lugar.

Então o jornalista que dá notícia também analisa e tem análise de todo tipo, tem gente que você odeia, que você ama e está um do lado do outro e os dois estão se pegando ali. Então, aquilo traz um brilho na informação que você não encontra mais. Então eu quero ver a posse do Bolsonaro, eu boto na televisão e tiro o som e boto na rádio e boto o som da rádio. Assisto a televisão com o som da rádio, porque a análise está vindo da rádio, ou seja, tem uma visão de conteúdo ali que isso não tem como barrar. O resto é tecnologia, o resto é só tecnologia. Se eu vou ouvir no celular, se eu vou ouvir no rádio do carro, isso é bobagem, é tecnologia. O que importa é o seguinte, eu vou ouvir o quê? E a rádio tem toda estrutura do mundo, cara. A CBN resolveu fazer podcast agora, a CBN arrebenta com podcast, o cara tem estrutura, tem pesquisador, tem tudo lá dentro, é só fazer e botar no ar.

Irineu: Então, mas você falou um exemplo bom, ali tem uma tradição de estética, de linguagem, de pesquisa. Quando um veículo já estruturado consegue entender o novo mundo, usar toda a tecnologia e sabe preservar a linguagem, a estética, os formatos, grande parte das pessoas precisa desse tipo de embalagem e vai continuar precisando, porque nós somos adeptos da estética. Alguém que tem outro formato, que tem um outro jeito consegue ficar, por exemplo, ouvindo essas duas horas de podcast aqui porque está com tempo e curte esse papo, mas é um nicho, ele vai ouvir 15 minutos em um dia, 20 minutos no outro, tudo bem. Tem pessoas que, não, eu quero abrir o canal e que cardápio ele tem? Ele confia naquele produtor de conteúdo, na Jovem Pan ou na Rede Globo. Então, agora, se a pessoa, ah, não deu para ouvir o programa, aí é uma coisa que não tinha antes, deixa eu ouvir lá o Café Brasil, o boletim do Café Brasil que entrou na Transamérica com Luciano Pires, vai lá, está lá encaixotado nas minhas coisas.

Luciano: E acho que tem um outro ponto, Irineu. O público amadureceu, está mais maduro, as pessoas estão mais conscientes, existe maturidade política que o Brasil não tinha dez anos atrás, hoje é outro país, é outra coisa e, bicho, eu não quero ouvir gente que me trata como um idiota, eu não quero ouvir conversa de gente que acha que o público é idiota e aí continua tendo um monte de gente assim e alguns, não. Alguns estão falando o seguinte, em primeiro lugar eu vou respeitar quem está me ouvindo, eu respeito a inteligência de quem me ouve na palestra, no rádio, no podcast e eu respeito a inteligência de quem está me ouvindo. Eu serei transparente, eu não vou querer dar um balão, eu não quero enganar ninguém, eu não vou vir aqui com subterfúgios, falando não querendo dizer sim, entendeu? Eu vou chegar aqui e vou falar claramente com a pessoa, porque eu sei que do outro lado tem alguém que pensa, como eu e esse alguém que pensa merece todo o meu respeito. E eu acho que é isso que está acontecendo, quem fizer assim vai arrebentar de ter audiência. Eu vou um pouquinho mais longe, vai ter a audiência que importa. Não é a audiência do milhão, não é a audiência de sete milhões de caras para ver o YouTuber comendo uma barata, essa audiência não me interessa.

Irineu: Não, isso não é relevância.

Luciano: Interessa a audiência de sete mil carinhas que se importam, que me escrevem, que me cutucam, que reclamam, que me obrigam a estar antenado o tempo todo e que fazem com que eu cresça junto com eles. Eu acho que aí está feito um ciclo e se eu conseguir transformar esses sete mil num business, ou seja, será que dá para fazer um negócio com só sete mil pessoas? Ou só é negócio se tiver sete milhões de pessoas? E é isso que eu acho que é o grande lance que está pintando agora.

Irineu: É, acho que nós vamos conviver com todos esses formatos. A gente vai ter canais aí com grande audiência, personalidades, comunicadores com uma grande capacidade de atração, de apelo para o público, por causa de talento mesmo, como é em todas as áreas.

Luciano: E vão subir e vão implodir e depois vai nascer. Eu vou chegar no final aqui, nós estamos chegando no final aqui. O que está acontecendo é o seguinte, cara, os dinossauros gigantescos estão sendo substituídos por velociraptores, que são dinossauros menores, mais ágeis, mais adaptáveis e esses caras estão ganhando. Só que é o seguinte, cara, esses dinossauros velociraptor já estão perdendo para umas bactérias que estão vindo aí e as bactérias são muito menores, são muito mais adaptáveis ao ambiente, se alimentam de qualquer coisa e têm vida curta. E esses milhões de bactérias vão ganhar desses velociraptores também. Eu sou uma bactéria. O que eu estou fazendo aqui é um trabalho de bactéria, pequenininho, no meu nicho, agitando e fazendo acontecer e talvez daqui a pouco o que nós vamos ter é dez mil bactérias fazendo o que eu estou fazendo aqui hoje e atendendo pequenos nichos. E se alguém conseguir, lá em cima, olhar isso aí e falar, cara, se eu juntar essas bactérias, será que eu consigo ter algo? Sabe, alguém que tenha a visão e aí eu vou voar um pouquinho mais, uma grande rádio que tenha um grande alcance nacional olhar para essas bactérias e falar, cara, tem conteúdo nessas bactérias, deixa eu trazer para cá e alinhar isso aqui e oferecer para um mercado que não conhece esses caras conteúdo de primeira linha, feito por gente independente e com responsabilidade.

Irineu: Eu não chamaria de bactérias, eu até tenho usado essa analogia nas conversas que eu tenho, nos diálogos ou palestras que eu tenho sobre futurabilidade, que eu gosto do princípio ativo, essa ideia do princípio ativo e tudo é isso. Na verdade, o mundo hoje permite esse contágio, o que você está fazendo, como tem princípio, como tem valor, você é uma pessoa que desenvolve um conteúdo com seriedade, não importa que hoje o formato é diferente, que os grandes players ainda não atentaram para essas novas linguagens, mas existe público. Tanto é que esse público maravilhoso que te acompanha há tanto tempo é por causa do princípio ativo que você tem e isso se propaga, está sendo propagado. Então não tem como voltar para trás, em algum momento ele ganha força, desde que seja um princípio ativo positivo.

Vamos dizer o seguinte, os vírus também trabalham a partir do princípio ativo, então você está sempre lidando com forças do mal e do bem. Mas, enfim, são os desafios que tem em qualquer tipo de sistema. Então o nosso sistema é esse, hoje eu falo alguma coisa, como você viu acontecer com você, você colocou um texto no tempo do e-mail, o Irineu está numa rádio aberta que estava falando com cinco capitais, então aquilo tinha um princípio ativo, tinha um valor, então eu propaguei aquilo. Daqui a um tempo surgem as redes sociais, você propagava o seu texto, de repente, as pessoas leem o seu texto, não é o Irineu lendo o texto. Então, quer dizer, está havendo uma grande propagação, desde que exista um princípio ativo positivo, a coisa se propaga. Aonde é que vai parar é que a gente não sabe. Não vão deixar de existir os outros, mas se tem valor…

Luciano: E também não vai deixar de existir o microfone, uma cabeça pensante e falante e milhares de cabeças ouvintes do outro lado.

Irineu: É, mas se tiver uma cabeça ouvindo… eu sempre, você lembra talvez do primeiro evento que eu fiz no Tom Brasil, a gente já começou ali por cima. Eu costumo usar aquela frase do Orson Welles “Eu comecei lá em cima, dei um duro danado para chegar aqui embaixo.” Mas eu também entrei ali com essa preocupação de falar com pessoas diversas, falei assim, olha, as pessoas dizem que a gente tem um público AB, um público qualificado aqui, mas para mim o que interessa é gente que tenha o aparelho auditivo funcionando, que seja ouvinte. Eu não quero saber se a pessoa é empresário, se ele é jovem, se é mulher, se é negro, se é gay, quem é. O aparelho auditivo está funcionando, é ouvinte, é com você que eu estou falando. Se tiver um, se tiver dez, se tiver mil, se tiver três milhões, é esse mesmo microfoninho aqui que a gente usa.

Luciano: Deixa eu aproveitar, já estouramos o tempo um pouquinho, mas eu vou deixar mais uma coisa registrada para a história aqui. Quando eu estava publicando os textos lá com o Irineu, lancei o livro etc. tal, eu já fazia pequenas palestras lá pela empresa e tudo o mais e comecei a fazer palestras um pouco mais fora do ambiente, e um belo dia o Irineu me convida para esse evento no Tom Brasil. Não, não foi no Tom Brasil, era na outra casa, maior, três mil pessoas.

Irineu: Uma vez nós fizemos lá no Via Funchal.

Luciano: Foi no Via Funchal, um evento gigantesco no Via Funchal, com oito palestrantes e tinha Shinyashiki, tinha toda a nata.

Irineu: Max Gehringer, Luís Marins e eu coloquei a minha turma, a conciliação, coloquei você, o Daniel Luz e mais alguém que eu não lembro agora, que era da turminha ali do programa.

Luciano: Era uma coisa gigantesca, três mil pessoas, eu nunca tinha feito uma palestra em um evento como esse e foi a primeira vez que eu fui fazer uma palestra e termina não me lembro quem foi antes de mim, aí me chamam e eu faço a palestra Brasileiros Pocotó pela primeira vez. Quando eu termino a palestra as pessoas estão aplaudindo em pé e eu vou sair do palco e vem entrando o Marins para fazer a palestra dele e o Marins cruza comigo e fala assim “Muito bem, rapaz”. E aí quando eu ouvi o Marins falar para mim muito bem, rapaz e eu estava escutando o povo aplaudindo em pé lá atrás foi que acendeu uma luzinha, eu falei, cara, eu acho que eu posso viver com isso, eu acho que eu sou bom nesse negócio aí, eu acho que eu posso fazer palestra e dali para a frente eu deslanchei e fui fazendo. Então você também é culpado por mais uma, vai.

Irineu: Não, mas quem tem talento.

Luciano: Qual é a rádio que você está?

Irineu: Transamérica FM 100,1 das 5h às 8h da manhã, mas é mais fácil em qualquer lugar que você estiver acessar o positive-se.com.br que a gente está agora apontando tudo para essa plataforma. A gente transmite online essa programação, depois fica lá 24 horas. Lá tem o Café Brasil também, lá tem Luciano Pires em pílulas e também tem o programa.

Luciano: Esse positive-se tem um hífen no meio do caminho?

Irineu: Tem.

Luciano: Positive hífen se. Positive-se.com.br.

Irineu: Isso.

Luciano: Legal. Meu caro, muito obrigado pela tua disponibilidade de vir aqui, conversar com a gente. Dá para a gente conversar sobre milhares de coisas. Aliás, bota dois faladores aqui, esse negócio não termina mais. Mas eu quero te agradecer então publicamente aqui. Então, se você está me ouvindo em podcast, gosta de podcast, parte da culpa é desse cara que está na minha frente aqui. Se você que viu as palestras e gosta das palestras, parte da culpa é desse cara que está aqui. E se gosta dos meus livros, também tem o dedo dele porque um dos grandes sucessos que eu lancei foi por causa da editora dele, pela disponibilidade dele fazer a coisa acontecer.

Irineu: Agora vamos falar a verdade. Na verdade, o microfone ele não sabe disso, nunca atribuiu isso, mas o Seu Luciano era de rádio quando eu o conheci o seu pai, ele falou assim, eu também trabalhei na Rádio Clube, que foi a rádio onde eu fui trabalhar em Bauru, quando eu fui estudar lá na fundação.

Luciano: Exatamente.

Irineu: Então na verdade o rádio já estava em você, só você é que não sabia! Encontrar comigo foi só uma coincidência para conciliar essa vontade astral.

Luciano: Isso aí. Grande Irineu!

Irineu: Fico muito feliz. Obrigado. Sempre feliz de estar perto de você. Sempre feliz em participar do que você promove, seja tomar um chope quando você está com a gente em eventos é sempre um sucesso, a sua participação no programa sempre enriquece e a sua vida enriqueceu a minha sobremaneira, também quero te dizer um muito obrigado. Eu gosto das pessoas que chegam e ficam comigo para a vida.

Luciano: Rasgação de seda a nível hard, volume um. Um abraço, cara.

Irineu: E é sincero, hein!

O LíderCast mantém parceira com a WeWork, um ambiente fantástico com espaços de trabalho privados ou compartilhados, que ajudam a criar um mundo onde você pode ter uma vida e não apenas um trabalho. A WeWork é um lugar onde você entra como um indivíduo, ‘eu’, mas se torna parte de um grande ‘nós’ – www.weworkbr.com