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Luciano Pires -
Download do Programa

Luciano Pires: Muito bem, mais um LíderCast. Como já é de praxe. Como que esta pessoa veio parar aqui? É um contato em comum. Uma leitora, uma ouvinte dos podcasts, uma leitora dos meus textos, que postou uma matéria sobre ela. Encaminhou para mim e falou: olha que pessoa interessante de você conversar. Me dá o contato. Bom, não durou uma semana, já estamos frente a frente aqui. Ela já ouviu o programa, já entende mais ou menos o que é. Já sabe que são três perguntas fundamentais e as únicas que são obrigatórias no programa. Aliás, quando vem mulher aqui, a do meio, você não precisa responder se não quiser. Então é: qual é seu nome, a sua idade e o que você faz?

Ana Letícia Maciel: Eu sou Ana Letícia Maciel, 41 anos. E hoje eu sou gestora de uma ONG.

Luciano Pires: Gestora de uma ONG? Nasceu onde Letícia? Como é que eu te chamo? Letícia?

Ana Letícia Maciel: Pode escolher.

Luciano Pires: Pode escolher. Tá bom. Você nasceu onde?

Ana Letícia Maciel: Na cidade de Nova Friburgo, que fica na região serrana do estado do Rio.

Luciano Pires: Linda. Muito legal lá. Muito legal. O que o seu pai, sua mãe faziam, fazem? Qual era a deles?

Ana Letícia Maciel: Então, os dois aposentados. O meu pai, ele trabalhou em muitos ramos. Mas no final, ele estava na Receita Federal como auditor. E a minha mãe sempre foi enfermeira.

Luciano Pires: Enfermeira. Tem irmãos?

Ana Letícia Maciel: Tenho uma irmã mais velha.

Luciano Pires: Qual era o seu apelido quando você era menininha?

Ana Letícia Maciel: Tiça.

Luciano Pires: Tista?

Ana Letícia Maciel: Tiça.

Luciano Pires: Tiça? Tiça? O que a Tiça queria ser quando crescesse, lá em Nova Friburgo?

Ana Letícia Maciel: Então, engraçado isso. Eu sempre tive a sensação de que eu queria ser psicóloga. Porque eu realmente escolhi isso num certo momento e fiquei com isso na cabeça.

Luciano Pires: Tua mãe tem alguma coisa a ver com isso?

Ana Letícia Maciel: Nada, nada.

Luciano Pires: Ver a mãe lidando com… nada?

Ana Letícia Maciel: Nada na verdade. Assim, era um interesse pelo ser humano. Assim, pela forma de pensar e de se comportar. Mas eu estive pensando recentemente sobre isso. Esse ano eu fiz uma retrospectiva. E bem lá atrás, eu queria ser professora. Eu lembro que eu brincava muito disso. Inclusive, o coitado do meu pai, uma vez eu insisti muito para que ele fizesse em casa. Porque ele gostava de fazer, construir coisas com as mãos. E ele fez um mimeógrafo para eu poder fazer as provinhas para os meus amigos brincarem comigo.

Luciano Pires: Muito bem, então você que está nos ouvindo aí, que nasceu anteontem, que é da geração floco de neve e tudo mais. Vá até o Google. Aliás, Google não. Vá até o Youtube, ponha lá: mimeógrafo. Você vai ver uma traquitana esquisitíssima, que funciona a base de álcool, que, meu Deus do céu. Com uma manivela você girava. Era uma impressora, cara.

Ana Letícia Maciel: Uma copiadora.

Luciano Pires: Aliás, era uma copiadora. Mas também era uma impressora. Porque você botava o teu material, que você produzia. E tirava cópia. E aquilo virava uma apostila. Aquilo era fantástico, cara. Como eu usei esse negócio. Você me fala o nome, me vem o cheiro de álcool agora aqui, na coisa aqui. Mas aí você… cara, criança tem como modelo, sempre tem um professor. Eu olho para o professor, achei ele legal. Talvez, toda criança pensa: é muito legal estar lá na frente, comandando a sala toda. Mas aí você cresceu. Você começou a crescer e resolveu buscar um caminho para a vida. Você ficou em Friburgo? Cresceu em Friburgo?

Ana Letícia Maciel: Até a necessidade de sair para estudar. Fazer faculdade.

Luciano Pires: Foi a faculdade. E você escolheu a faculdade de?

Ana Letícia Maciel: Informática. Aconteceu o seguinte: aos 15 anos, naquela época se fazia datilografia. Então eu acho importante explicar o que é isso.

Luciano Pires: Você tem o diploma de datilógrafa?

Ana Letícia Maciel: Tenho.

Luciano Pires: Tem? Quantas palavras por minuto?

Ana Letícia Maciel: 120, uma loucura. E aí a gente, no curso de datilografia, no mesmo lugar onde a gente tinha o curso, que eu estava terminando, eu estava indo para fazer máquina elétrica. E aí estava escrito do lado assim: aula de informática. Era uma total novidade naquela época. Eu achei que era uma digitação no computador. E eu me lembro claramente – como se fosse hoje – a primeira aula, eu me apaixonei loucamente pela informática. E não larguei mais. É realmente uma área que eu gosto muito. O que eu entendi ao longo do tempo é que ela seria a minha ferramenta, não seria o meu fim. Mas eu fiquei mais de 20 anos na área.

Luciano Pires: Mas você chegou lá, você ligou aquela tela preta com cezinho e tampa aqui em cima. Eu fiz isso na minha casa. Eu comprei um computador sem nunca ter usado. Levei na minha casa. Não sabia o que fazer com aquilo. Liguei na minha casa, apertei um botão. Entrou uma tela preta com um cezinho. E dali não saiu nada. Nunca consegui fazer coisa nenhuma. Depois virou um instrumento lá na frente. Mas eu não mergulhei no assunto lá. E engraçado que a maioria das pessoas que eu converso, que eu falo de informática e tudo, elas entram por videogame, pelos games, que é o caminho de entrada. Você entrou direto…

Ana Letícia Maciel: Programação.

Luciano Pires: Programação?

Ana Letícia Maciel: A primeira aula na verdade, era um editor de texto. Só que naquela época não era Word, era o Word123, que você chamava, que você tinha que dar comandos para poder escrever.

Luciano Pires: Não era o Lótus123?

Ana Letícia Maciel: Lótus123 era planilha.

Luciano Pires: Isso aí.

Ana Letícia Maciel: Word123 era o editor de texto. E aí, por exemplo, para você botar uma letra maiúscula você tinha que dar um comando. Botar um negrito tinha que dar um comando. Então o texto ficava horroroso. Dava um trabalho. Mas eu achava lindo aquilo, os comandos. Aí o professor falou: bom, tem um pouco além, tem uma coisa chamada Basic, que é uma linguagem de programação. Ele me convidou, eu fiz a aula. E aí me apaixonei pela programação. Aquilo que você constrói e vê funcionando. É muito bom.

Luciano Pires: E você bateu na cabeça que você ia se transformar numa profissional de… na época não era TI? Uma profissional de TI? E resolveu a ponto de fazer uma faculdade fora?

Ana Letícia Maciel: É. Eu não tinha mais dúvidas.

Luciano Pires: Você foi para o Rio? A cidade do Rio de Janeiro?

Ana Letícia Maciel: Fui morar em Niterói para estudar no Rio.

Luciano Pires: Que idade?

Ana Letícia Maciel: Com 17.

Luciano Pires: 17 anos. Você tinha parentes em Niterói?

Ana Letícia Maciel: Em Niterói não. O meu pai morava no Rio na época. Os meus pais eram separados e ele morava no Rio. Ele dava um suporte. Mas eu fui morar num pensionato.

Luciano Pires: Pensionato?

Ana Letícia Maciel: É outra coisa…

Luciano Pires: 17 anos de idade. Vamos lá, vamos explorar isso um pouquinho. Porque essas coisas são bem legais. Que esse programa aqui é sobre empreendedorismo, liderança. E eu gosto muito de fuçar essa tomada de decisão das pessoas. Então eu fico imaginando uma menina, com 17 anos. Numa cidade do interior, que vai mudar para uma grande cidade. Niterói não é a capital, mas é uma grande cidade, gigantesca lá, para morar num pensionato. Onde não tem mamãe lavando a roupa, não tem ninguém fazendo a sua comida. Como que é?

Ana Letícia Maciel: E você ainda tem que encarar essa realidade de morar, com 17 mulheres dentro de um apartamento. Então, a sua comida que você se esforçou para fazer não está mais lá quando você volta.

Luciano Pires: Mas me fala da decisão, quando você fala o seguinte: olha, eu quero fazer o curso. E o preço para fazer o curso é sair da minha casa, onde eu estou tão confortável aqui. Podia ficar aqui, na boa e vou sair do ninho. Como é que foi essa sua… como que foi esse processo?

Ana Letícia Maciel: Foi bem louco. Bem louco. Porque na verdade, com 16 anos eu tinha um namorado, que a gente era praticamente noivos. Era muito certo de que eu ficaria em Friburgo para ter a minha família com ele. E aí foi me dando essa ansiedade. Porque eu fui vendo que eu ia passar no vestibular. Eu fui vendo que não tinha universidade ali. E aquele ponto de decisão. Fico para constituir família? Fico na cidade e vou trabalhar em outra coisa? Ou saio para estudar? Foi uma decisão assim, consistente. A ponto de eu decidir terminar o relacionamento para estudar. Foi muito louco. Muito louco. Mas eu não me arrependo em momento algum. Mas foi tenso decidir. E aí terminei o relacionamento e logo em seguida, realmente passei no vestibular e fui.

Luciano Pires: Todo mundo dizendo para você: louca, por quê?

Ana Letícia Maciel: Principalmente as amigas, que viveram a vida inteira o mesmo padrão de colégio, a mesma idade. Elas não viam motivo para isso. Foi uma coisa bem louca mesmo. Mas eu tinha um suporte, não só do meu pai, que já morava no Rio, e ele sempre incentivou muito essa questão do estudo e da independência financeira. Ele achava que isso era muito importante. Como a minha irmã, por ser a mais velha, já estava lá, no mesmo pensionato. A gente não ficava no mesmo quarto, mas ficava no mesmo apartamento. Isso dá um suporte emocional.

Luciano Pires: Sim, sim. Interessante. Sabe o que aconteceu comigo? Eu morava em Bauru, estudava em Bauru, me formei em Bauru. E na hora que eu me formei no colégio, eu ia para a faculdade. Passei lá em Bauru em Engenharia Elétrica. E vim para São Paulo e fiz um vestibular aqui para Comunicação Visual no Mackenzie, porque eu gostava de desenhar e tudo mais. E cheguei na hora da decisão – que nem você – parei, o meu pai virou para mim e falou o seguinte – eu tinha namorada lá em Bauru, que é a minha esposa, já namorava naquela época – o meu pai falou: se você ficar aqui eu te dou um carro. Você fica aqui na boa, tranquilo, com a gente e com a namorada. E eu não sei te explicar de onde, até hoje, veio aquela luz que disse o seguinte: não cara, você vai embora. Escolha o caminho mais difícil. Que era o rompimento. Com 18 anos de idade, deixar a família para ir morar – não num pensionato – num quarto alugado numa casa de família aqui em São Paulo. Até hoje eu não entendi de onde veio essa decisão e por que dessa decisão. Mas também não me arrependo. Até porque eu não sei trabalhar com: e se? E se eu não tivesse? Sei lá e se? Eu não sei o que é. Mas eu tomei a decisão e valeu. Muito bem, você vem para Niterói e tira um diploma de… o que era? Técnica em informática? Engenheira?

Ana Letícia Maciel: Era bacharel.

Luciano Pires: Era bacharel? Estava trabalhando já também ou não?

Ana Letícia Maciel: Já.

Luciano Pires: Já?

Ana Letícia Maciel: Desde o 1º período. Na verdade, eu já fazia estágio em Nova Friburgo, com esse professor, que ele tinha uma empresa, uma consultoria. Então, eu já estagiava com ele, já fazia programinhas. Então, já tinha uma certa experiência. E logo no 1º período eu já me inscrevi para estágio. Então assim, trabalhei o tempo todo.

Luciano Pires: E aí? Tem o diploma na mão? Pai está aqui o certificado. Agora eu vou?

Ana Letícia Maciel: Não, na verdade assim, a minha mãe também sempre me estimulava muito a fazer o que eu gostasse. E o meu pai me estimulava muito a ser independente. Então assim, eu sentia um apoio muito grande o tempo todo. Mas a faculdade na verdade, ela me capacitava em nada. Na verdade, o que me capacitava era a prática. Como eu já trabalhava há algum tempo, eu sempre vi essa questão. Pouca coisa a faculdade me acrescentou. Tanto é que num determinado momento, eu estava na URJ e eu falava: gente, isso aqui está impossível. Eu ia de Niterói para o Fundão todos os dias e ainda trabalhando. Então eu fiz um outro vestibular e fui para a UFF. Continuei a estudar na UFF.

Luciano Pires: Mesma coisa?

Ana Letícia Maciel: Mesma coisa. E aí na UFF já ficava mais perto de casa, já tinha toda uma facilidade. Mas eu continuava com essa sensação: não estou aprendendo nada de verdade. Então eu fiz um outro vestibular e fui para uma faculdade particular, com o objetivo de aprender. Eu fui buscar o currículo, eu fui buscar os professores que estavam trabalhando na época na universidade. E ali realmente eu aprendi alguma coisa. Então eu só fui concluir…

Luciano Pires: E foi pagar por isso?

Ana Letícia Maciel: E fui pagar por isso.

Luciano Pires: E foi pagar por isso tudo?

Ana Letícia Maciel: E fui fazer à noite, porque eu já estava trabalhando horário integral. As universidades tinham essa dificuldade: ou era de manhã ou era à tarde. Então só podia ser estágio. E aí eu estava contratada. Eu falei: como que vai ser? Então assim, coincidiu com essa necessidade e com a minha vontade de aprender. E realmente, nessa faculdade eu aprendi algumas coisas. Tive contato com professores que estavam no mercado. Outra história. E aí sim eu concluí. Ou seja, eu já estava trabalhando há uns sete anos, quando eu concluí a universidade.

Luciano Pires: Uma moça numa sala com 40 ursos peludos.

Ana Letícia Maciel: Exatamente. E no trabalho também.

Luciano Pires: Claro, na área que você estava, aquela era a área do nerds, dos ursos peludos. E aí, como que é uma mulher nesse meio? Nessa…

Ana Letícia Maciel: Curioso isso.

Luciano Pires: Novinha. Nova. Crescendo ali com a experiência, ganhando no meio desse monte de homem. Como que é isso?

Ana Letícia Maciel: Bem lembrado. Porque assim, na minha casa era só eu, minha mãe e minha irmã. Eram três mulheres. O meu pai é separado e morava em outra cidade. Então, eu não tive convivência com o masculino dentro de casa. Então, tanto a universidade quanto o trabalho, o tempo todo. Agora, recentemente é que a informática tem mais mulheres. Me capacitaram por esse lado, assim, na verdade, eu sempre me senti muito à vontade. Porque assim, quando você é a única menina nesse grupo, eles tendem a te proteger.

Luciano Pires: Eles te adotam. Você é a mascote.

Ana Letícia Maciel: Então assim, era muito bom por esse lado. Eu também aprendi muito do lado masculino, observando os comentários, as reações nas situações e tal. Então hoje eu tenho habilidade de lidar bem com o masculino em função disso. De compreender como é que eles funcionam; independente se eu concordo ou não. Eu consigo compreender como é que se pensa e como é que se age. Então foi muito interessante. Mas assim, sempre foi para mim, mais fácil lidar com os homens do que com as mulheres no ambiente de trabalho.

Luciano Pires: Você não é a primeira e única que diz isso. Eu vou me abster a falar aqui, porque senão me acusam de machista e tudo mais. Eu, a vida inteira eu trabalhei com mulheres, eu contrato mulheres, eu quero mulheres na minha equipe. Eu corro o risco de dizer para você: se tiver um homem e uma mulher, eu acabo escolhendo a mulher. Porque eu tenho aquela impressão de que tudo elas se dedicam com mais afinco. Elas têm mais capricho. Elas têm um jeito de lidar. É menos bruto do que é com homem. Mas mulher com mulher dá cada rolo, cara.

Ana Letícia Maciel: É relacionamento. Engraçado isso. Mas você está certíssimo, quanto à qualidade do trabalho, a dedicação não tem o que falar. Mas relacionamento…

Luciano Pires: Muito bem, você pega o seu diploma na mão, de bacharel em informática? É isso? Era isso? E vai fazer o que da vida?

Ana Letícia Maciel: Então, aí eu continuo. Já estava no mercado de trabalho. Na verdade, eu só emendei na pós-graduação. Isso aí foi assim, paralelo. Nunca fez a diferença.

Luciano Pires: Aliás, um mercado que estava crescendo. A demanda era muito grande para ele, não é? Seu mercado nunca teve crise?

Ana Letícia Maciel: Nunca, nunca. Nunca. Eu acho que assim, você tem muitos ramos dentro da informática. Então assim, eu comecei com programação, aí fui para análise de sistemas, aí depois vai para banco de dados, aí vai para a coordenação. Então assim, com 23 anos eu já estava liderando equipe. Então assim, é um negócio que se você se mantiver atualizado, pesquisando, não tem crise.

Luciano Pires: Então você, com 23 anos estava numa empresa de quê? O que era a empresa? Era um software house? O que era?

Ana Letícia Maciel: Então, a maioria das empresas que eu trabalhei eram consultorias de informática. Prestam serviço para grandes empresas.

Luciano Pires: Você já tinha nessa época botado uma avenida na tua frente, falado: muito bem, eu já defini onde eu quero chegar, eu quero estar lá. Ou, deixa a vida me levar? Como que era?

Ana Letícia Maciel: É, na verdade assim, é um caminho um pouco natural. Ou você se especializa na parte técnica e se aprofunda, é o caminho Y. Ou você tende para gerência. Então, o meu objetivo era esse assim, eu tinha mais traquejo com as pessoas do que com as máquinas, vamos dizer assim. Então assim, gosto muito de programar. Mas deu. Chegou uma hora que deu. Então, eu comecei a seguir mais para o ramo de gerenciar pessoas de informática.

Luciano Pires: Daí você começou a sentir o gostinho de lidar com gente?

Ana Letícia Maciel: É.

Luciano Pires: E aí?

Ana Letícia Maciel: E aí que foi uma loucura. Porque quando você lida com homens, que são “fáceis de lidar” e com máquinas, lidar com pessoas, principalmente clientes, pessoas difíceis, em situação de pressão e tal. Nossa. Eu batia muito a cabeça. Passei por situações de todo tipo.

Luciano Pires: Sem ter um treinamento para isso?

Ana Letícia Maciel: Não.

Luciano Pires: Você foi treinada para assumir liderança de alguma coisa? Você teve algum treinamento para isso?

Ana Letícia Maciel: Não. Não, o treinamento é: vai lá e faz.

Luciano Pires: Vai lá e faz. Vai e faz?

Ana Letícia Maciel: É. Vamos dizer que isso tudo assim, nesse momento de capacitação nessa área, aconteceu numa empresa que foi a empresa que eu mais gostei de trabalhar. Porque eles tinham – tem até hoje – uma área de capital humano muito forte. Então eu me sentia apoiada. Quando eu achava que: olha, a pressão está muita. Ou: eu preciso de algum apoio. Eles ofereciam. Mas foi assim, exatamente assim, eu entrei como analista e surgiu a oportunidade. Perguntaram se eu tinha interesse. Vamos embora. Sem muita explicação. Mas assim, você… se você tem esse interesse você vê o seu superior e começa a aprender na prática. Foi acontecendo. Mas o trato com pessoas não é só a técnica, ou seja, os documentos que você tem que gerar. O tipo de procedimento que você tem que fazer. É como olhar para a pessoa e entender o que ela está falando.

Luciano Pires: Deixa eu cutucar um pouquinho você aqui agora, que é um negócio que… a gente vai dar um desvio agora. Isso aqui acontece de montão na nossa história.

Ana Letícia Maciel: Tá bom.

Luciano Pires: Eu gravei aqui um programa outro dia que entrou na temporada 10 aqui, agora, com um empreendedor que eu conheci num evento, onde ele começou a falar e eu me vi nele. Ele deu risada de mim de montão. Porque o que ele falava, a plateia urrava junto com ele. Porque ele é vítima dos profissionais de TI. Ele é uma vítima. Então, o que ele falou? Cara, o meu negócio vive do meu portal. Eu preciso do portal, cara. E para mim, essa turma de TI são os pedreiros do século 21. Porque as dores de cabeça que eu tinha com pedreiro… que foi o seguinte: eu chamo o cara. O cara vem, ele mostra as credenciais. É muito legal. Eu contrato. É lindo. A primeira semana é uma maravilha, a coisa vai andando, vai andando. Você chega a pensar que eles vão entregar antes do prazo. E de repente, começa a não aparecer. E um dia, o cara some. E um dia, o cara some. Eu fico na mão. Eu não posso continuar, porque está tudo na mão dele. E é total desespero. Eu falei: meu caro, aqui dura sete anos. Ele falando. E a plateia urrava junto com ele.

Ana Letícia Maciel: Nossa…

Luciano Pires: Porque todo mundo tinha passado por um problema desse tipo. Eu estou passando agora por esse problema, pela terceira ou quarta vez.

Ana Letícia Maciel: Nossa…

Luciano Pires: O que acontece? Outro dia eu tive uma discussão. Não é uma discussão. Uma troca de ideias no grupo que a gente participa lá. Eu estava dizendo o seguinte: olha, para mim, não é um problema técnico isso. Não é questão de incapacidade técnica não isso. Isso é uma absoluta incapacidade de gerir o negócio. Os caras prometem mais do que podem entregar. Os caras não têm condições de gerenciar o processo e dão nó na cabeça, se enrolam e implodem. O que acontece com os caras de TI? Falta essa habilidade de gestão? Você que estava lá?

Ana Letícia Maciel: São muitos fatores. Existe sim – defendendo um pouquinho o profissional de TI – aquela situação em que o cliente acha que sabe o que quer, mas não sabe. Então, ao longo do caminho ele vai mudando de ideia ou o técnico está fazendo exatamente o que ele pediu. Mas o que ele pediu não era o que estava na cabeça dele. Então essa interpretação, essa tradução do que está na cabeça do cliente para a prática é a chave do negócio. Acontece que tem cliente que já vem com a coisa pronta para você. Ele acha que ele sabe o que ele quer. Ele já escreve para você. Então você se baseia naquilo. O grande erro do profissional de TI é parar aí e prosseguir baseado no que o cliente escreveu. Então assim, existe essa análise do sistema. É o papel primordial. Hoje inclusive, existem funções que foram criadas recentemente chamadas customer success.

Luciano Pires: É isso que eu ia te perguntar. Para mim isso é tão fundamental, que eu achava interessante ter alguém… aliás, eu tinha uma briga gigantesca no tempo que eu trabalhei na indústria. Que eu chamava os caras de TI e falava: cara, eu te chamei. Eu não quero trabalhar para o computador. Eu quero que ele trabalhe para mim. Então me diga. Agora, você tem que ter a visão da minha… eu sou business, eu não sou TI. Não me ouça com olhos de TI, me ouça com ouvidos de business. Entenda a complexidade do negócio para poder traduzir aquilo que eu estou pedindo para você. E você vai me definir até onde eu consigo ir ou não. E aí eu vou olhar para você: será que não tem um profissional que entra no meio ali e faz essa ponte?

Ana Letícia Maciel: Deveria ser desde o começo, o analista de sistemas. Só que no geral, o analista de sistemas é o cara que era o programador. Então ele continua com aquele olhar técnico. Então hoje vem essa função, customer success, que no geral, vem de outro ramo. É aquele cara que sabe falar com o cliente. Nem entende tanto da tecnologia. Ele tem que entender o básico para saber até onde pode ir. É basicamente isso. Então, ele faz esse meio de campo. Então hoje, eu acho que já estão pensando melhor nisso daí.

Luciano Pires: Era um atendimento das agências de publicidade odiado dentro da agência. Odiado pelo pessoal que produz. E toma porrada do cliente lá na ponta, porque ele é o leva e traz. Vai, toma porrada do cliente. Volta, porrada dentro de casa. Ô raça.

Ana Letícia Maciel: Mas quando o cara, ele realmente alinha-se com o cliente, o resto tende a ir bem. Agora, uma coisa que o técnico da informática erra muito, é aquela história: ele sabe do que a ferramenta é capaz. Ele é um bom profissional, então ele já fez coisas muito complexas. Às vezes, o cliente chega pedindo algo simples e ele quer fazer o complexo. Ele quer oferecer mais do que o cliente queria. Então existe uma disparidade aí. E aí o cliente nunca está satisfeito. E aí você perde um tempão, porque o cliente acha que é simples, mas você quer fazer melhor. É complicado. Então, o customer success, ele tende a olhar para isso e falar: não, não é isso que o cliente quer. Antes de chegar no cliente.

Luciano Pires: Sim, ótimo. Demos uma pausa interessante aqui. Customer success. Vou procurar fornecedores que tenham essa função lá dentro. Mas me conta a história. Então, você estava lá na empresa. Eu sei que vai haver um momento de virada na tua vida. Vai ter um momento que a tua vida dá uma curva. Eu estou tentando chegar ali. Como que é isso? Você vai crescendo, 23 anos de idade, liderando a equipe. Quero mais, quero mais. E daí?

Ana Letícia Maciel: Então, chega uma hora mais ou menos entre os 25 e os 26 anos, que cheguei aí. Estava gerenciando. Estava numa empresa muito boa.

Luciano Pires: No Rio?

Ana Letícia Maciel: No Rio. Eu nunca trabalhei em Niterói, sempre foi no Rio, apesar de sempre ficar morando em Niterói. Eu não voltei para Nova Friburgo também. E financeiramente estava indo bem. Eu já tinha a minha casa, já estava com uma certa estabilidade financeira. E aí você fica, começa a se questionar. Foi nesse momento que assim, eu senti a necessidade de parar. E de repente, casar. De repente, quem sabe, olhar para o lado familiar. Que até então, não me preocupava com isso. E foi quando eu constituí família. Foi aí que… eu não me casei, nunca fui adepta do casamento. Mas morei junto com o meu ex-marido. E nós tivemos simplesmente três filhos.

Luciano Pires: Três filhos?

Ana Letícia Maciel: Uma sequência. Não vou te dizer que foi exatamente planejado. Mas foram todos muito bem-vindos. E nessa época eu estava numa função de gerente. E na informática acontece muito isso – eu não sei se é só na informática – o gerente, ele tem que estar lá o tempo todo. Ele tem que estar lá no horário que o cliente está. Tem que estar lá no horário que o primeiro funcionário chega, no horário que o último sai. Então, eu trabalhava muito, muito, muito. Mas eu achava que eu estava fazendo muito bem. Eu achava que aquilo ali era o melhor que eu podia fazer pelos meus filhos. O casamento não deu certo. Mas assim, até hoje eu tenho um bom relacionamento com meu ex-marido em função das crianças. A gente se fala bem.

Luciano Pires: Pausa. Levou três filhos para descobrir que não deu certo o casamento?

Ana Letícia Maciel: É. Não é bem assim, mas…

Luciano Pires: É. Eu sei que não é. Eu estou especulando com você, porque toda vez que acontece um causo assim, eu também dou uma especulada aqui. Levou três filhos para ver que não dava certo? Ou acontece em algum… eu não vou perguntar o que é. Mas acontece algum fato que… o que foi? Você foi enchendo o balde e falou um dia: cara, não vai dar. Não é por aí. Ou acontece um fato e você… porque eu vi: você tomou uma decisão lá atrás, lá atrás, complicada. Eu larguei tudo e vou embora para lá. E eu imagino que tomar a decisão de interromper um casamento com três filhos, meu Deus do céu. Deve ser um peso gigantesco. Elabora um pouco para mim. Você não precisa entrar em detalhes, nada. Eu só quero saber da tomada de decisão. Como que é?

Ana Letícia Maciel: É. Foi mais ou menos assim, um processo, de tentativa, de continuar tentando, continuar tentando e chegar uma hora que eu me senti na escolha de, em termos até de energia, de tempo e de saúde, ou os meus filhos ou meu marido, na época. E eu abri para ele nesse sentido. Eu falei: olha, não consigo. Não consigo. Esse problema que a gente tem me consome de tal maneira, que me prejudica na minha capacidade de estar melhor para os meus filhos. Então, a prioridade são eles.

Luciano Pires: E aí você uma gerentona, trabalhando e com três filhos.

Ana Letícia Maciel: E com babá.

Luciano Pires: E com babá.

Ana Letícia Maciel: Tinha que ter babá para tudo. Babá de dia, babá de noite.

Luciano Pires: Quanto tempo faz isso? Quinze anos?

Ana Letícia Maciel: Isso.

Luciano Pires: Quinze anos atrás.

Ana Letícia Maciel: Quando eu me separei foi há 12 anos atrás.

Luciano Pires: Desvio. Outro desvio. Olhando para trás hoje, você 15 anos mais madura e tudo mais. Você olha para aquele teu processo, antes de você casar, se juntar e ter os três filhos, a tua separação. Você faria tudo de novo?

Ana Letícia Maciel: Igualzinho. Igualzinho. Assim, na verdade, eu não era tão madura, com certeza. Talvez as palavras não tivessem sido tão duras. Talvez alguma diferença. Mas assim, o processo em si, eu realmente dei o meu melhor, sabe? Em tudo assim, eu procuro ser assim. É claro que a gente falha. Mas assim, se eu tenho um lema na vida: já que é para fazer, a gente faz direito. Então eu sei que…

Luciano Pires: Não, legal. Legal. Você é uma… normalmente as pessoas: eu mudaria tudo. Eu não faria assim. Eu não teria juntado, pa-pa-pa. Mas legal você ter essa consciência de que: eu estou bem comigo. Eu dei o meu melhor.

Ana Letícia Maciel: Sim. E continuo dando.

Luciano Pires: E se? Não cabe de novo.

Ana Letícia Maciel: Exatamente.

Luciano Pires: Não cabe outra vez.

Ana Letícia Maciel: Exatamente. Eu sempre faço aquilo que eu acho que eu tenho que fazer. Então assim, me relaciono bem com ele. O que foi uma coisa construída. Porque o motivo da separação se arrastou por um tempo na relação. E chegou uma hora que eu falei: não, já foi. Já deu. Agora a gente consegue se relacionar bem. Bem mesmo. E as crianças. Foi o melhor realmente que eu fiz para eles. E assim, faço um esforço da minha parte e o pai também faz, para ser presente. Então para eles foi o melhor.

Luciano Pires: Sim. Então, estamos aqui agora mãe solteira, com três crianças, um emprego que demanda, a babá. Para onde vai a sua vida?

Ana Letícia Maciel: Então, aí foi assim por algum tempo, até assim, eu entrei num formato de trabalho que eu comecei a viajar muito. Era um sistema, que eu tinha sido a gerente do projeto. Era uma grande empresa. E quando ele foi entregue, foi implantado, demandava o que a gente chamava de ativação, na época. Que é a divulgação do sistema. Você explicar como que ele é, como que ele funciona. E fazê-lo funcionar nas áreas e garantir que eles estão funcionando. Porque aconteceu realmente, chegava uma área: caramba tem uma coisa aqui que precisa mudar, para nessa área ele funcionar. Então esse trabalho foi no Brasil inteiro. Viajava muito, que eram as filiais da empresa. Então, além do excesso de trabalho, o over de horas de trabalho, ainda tinha o desgaste das viagens. Que é mala para cima, mala para baixo, notebook para cá, notebook para lá. Posição horrível de avião. Posição de mochila e carrinho e tal. Pronto. Estourei a coluna. Então, na verdade assim, era uma hérnia que começou com postura de amamentação, de gravidez e tal. E que se transformou em quatro hérnias, que eu fui arrastando com fisioterapia por um tempo. Mas chegou um dia que ela simplesmente me travou.

Luciano Pires: L4, L5?

Ana Letícia Maciel: Aqui em cima. Cervical.

Luciano Pires: Cervical?

Ana Letícia Maciel: Aí assim, eu sentia dores, tinha medicação e tal. Mas naquele dia, eu falei: tem algo errado aí. E aí não bastou uma análise comum. Quando fomos ver na ressonância, a protusão, então a hérnia estava tocando a medula. Estava um negócio assim, que a dor era um troço de morfina não resolver.

Luciano Pires: Você está falando com alguém que fez uma cirurgia de hérnia de disco. Então eu sei exatamente…

Ana Letícia Maciel: Sab bem o que eu estou falando.

Luciano Pires: Sim, sim.

Ana Letícia Maciel: E é difícil você explicar. Porque é de uma hora para outra, na verdade. Mas assim, é a tal da gota d’água. E aí o médico falou: é uma escolha sua operar ou não. Se não operar é simplesmente o que você já tem feito. Fisioterapia e medicação. Se operar tem todos os riscos, ainda mais cervical; ainda mais tão próximo da medula, como está. Aquela coisa. Aí você tem que tomar aquela decisão. A decisão não foi nem em função da dor. Foi em função da perda de movimento. Porque você começa a deixar copo cair. Começa a não sentir, se queimar. Eu falei: gente, não, aí não dá. Pois bem, decidi fazer a cirurgia e isso foi em 2011. E entrei de licença, fiz a cirurgia. Foi um sucesso. Tanto é que eu nem lembro.

Luciano Pires: Foi aquela agressiva, de botar pino, placa e tudo. Foi? Você colocou tudo isso aí? Bom, eu tive sorte. A minha só desbastou a hérnia. Não botei nada.

Ana Letícia Maciel: Eu tive que substituir dois discos por artificiais, botar duas placas, oito parafusos. Aquela maluquice toda. Mas foi ótimo assim, no dia seguinte eu já estava tomando banho sozinha. Assim, consegui realmente retomar a vida. Foi acertada a decisão. Mas requer um tempo de recuperação, que você tem que ficar realmente de repouso, na posição horizontal por muito tempo para depois começar a sentar. Então, inicialmente foram quatro meses direto em casa. Eu não aguentava mais. Quem não está acostumado.

Luciano Pires: Eu imagino.

Ana Letícia Maciel: Mas foram quatro meses onde eu não podia fazer nenhum tipo de esforço, só tomar banho, comer e dormir. Eu falei…

Luciano Pires: Você teve que fazer aquela coisa, que as pessoas desacostumaram de fazer, que é pensar.

Ana Letícia Maciel: Pensar. Pensar e ler. Eu fui ler muita coisa que eu não tinha tempo para ler e pesquisar assuntos que me interessavam. Nossa, pensei muito. Então, aquela sensaçãozinha que eu tive quando eu decidi constituir família, ou seja, está faltando alguma coisa. Ela veio de novo e veio com toda força do: tem algo errado. Tem algo errado aí. E eu não sabia dizer o que era. Porque assim, na verdade, financeiramente não tinha problema. A minha família era linda, meus filhos. Eu só tinha elogios de escola, de tudo. Onde é que está o problema? Estava dentro de mim. Eu sentia dentro de mim. Naqueles quatro meses eu tomei contato com isso. Na verdade, a gente já sabe. Só que a gente finge que não percebe. Que eu não estou aqui para isso. Para ganhar dinheiro e pagar as contas. Que meus filhos estavam crescendo e eu não estava vendo. Eu não vi o primeiro passinho, o primeiro dentinho. Eu não vi nada. Em compensação, eu achava que estava compensando as coisas com as viagens, com os brinquedos que tinham, com as festas de aniversário, que era o que eu podia oferecer. E eu fiquei realmente com essa ansiedade. Qual é a mudança? É largar tudo? É o quê?

Luciano Pires: 2011 você falou?

Ana Letícia Maciel: 2011 foi a cirurgia. Foi quando eu comecei a pensar.

Luciano Pires: Quer dizer, nós estamos falando de seis anos atrás. Sete anos atrás. Você está com quarenta e?

Ana Letícia Maciel: Um.

Luciano Pires: Um? Então você tinha 33 para 34 anos. É. Era uma garota.

Ana Letícia Maciel: E aí… mas assim, não é fácil. Ainda mais quando você é respeitada, você tem um nome no mercado. Voltei ao trabalho. E eu já não me encaixava mais. Resisti por muito tempo, na verdade. Voltei ao mesmo trabalho. As mesmas viagens. Fiquei um mês ou dois. Saí de novo. Porque comecei a sentir dores. Eu não posso mais, em função da coluna, fazer esse tipo de coisa. Era essa a desculpa. Então vou fazer outra função. Aí a própria empresa me colocou numa outra função, onde eu trabalhava de casa, home office. Eu gerenciava uma equipe América Latina, em função da alocação. Então os clientes internos tinham as demandas. As áreas tinham os consultores. Eu fazia esse chega para lá, chega para cá para manter as pessoas ativas, em funcionamento e para atender os clientes, as demandas. E aí eu tive assim, trabalhava bastante também. Até porque a equipe era América Latina, tinha a questão de horário diferente. Eu tinha um chefe nos Estados Unidos e tal. Eu não conseguia mais. Eu não conseguia. Chegavam, por exemplo, decisões de demissão. Eu já não via mais as coisas da mesma maneira. Tudo o que eu tinha lido, tudo que eu tinha pensado, pesquisado já me fazia olhar para as coisas de outra maneira. Ou seja, o meu trabalho tinha que ter um propósito. Esse propósito não podia ser para o mal, para mandar alguém embora da empresa. Uma pessoa que tem família. Então, um monte de coisas que eu precisava fazer eu não queria mais fazer. E aí a empresa me desalocou. Me demitiu. Então isso foi em 2012. Aí sim começou o processo de decisão. Eu confesso que eu tentei me realocar. Tentei. Fui para uma outra empresa. Peguei um projeto temporário. Consegui até fazer. Mas me sentia muito mal. Um projeto que era só para o lucro da empresa. Não fazia bem a nenhum ser humano diretamente. Aí num determinado momento acabou esse projeto. Eu poderia me alocar em outra empresa, mas seria um cargo estático. Eu falei: não vou. Peguei o dinheiro da decisão, daí comprei um carrinho de pipoca e fui vender pipoca na escola das crianças. Falei com a diretora, expliquei tudo para ela. Ela falou: mas como? Eu falei: eu quero tentar. Eu quero…

Luciano Pires: Você foi para a base do empreendedorismo, lá embaixo, vou começar a vender pipoca.

Ana Letícia Maciel: Eu falei: eu quero ver sorrisos. Porque eu via. Eu buscava os meus filhos, eu via o sorriso das crianças com o doce que vendia na porta. Eu falei: eu quero isso para mim. Eu quero trazer alguma coisa que eu sinta na pele estar fazendo algo de bom. Aí comprei o carrinho de pipoca, daí fiquei vendendo lá na escola das crianças. Foi a melhor coisa que eu fiz. A melhor coisa que eu fiz. Primeiro que a pipoca nos sustentou. Realmente a pipoca deu um lucro incrível. Eu me mantive ativa. Eu tinha que fazer as coisas, comprar os insumos e levar e limpar o carrinho e fazer… eu me mantinha ocupada. E estava super perto dos meus filhos.

Luciano Pires: Você fez isso com tesão? Ou fez isso imaginando que era um ritual de passagem? Como é que foi isso?

Ana Letícia Maciel: Eu não tinha noção. Foi um ritual de passagem. Exatamente. Descreveu muito bem. Mas eu não tinha noção. Eu me entreguei àquilo dali. Você tenta imaginar o que eu não escutei das pessoas.

Luciano Pires: Imagina. A executiva, com aquele cabedal de TI na mão, vai vender pipoca. Ficou louca.

Ana Letícia Maciel: Exatamente.

Luciano Pires: Ficou louca. Seu pai, sua mãe, não foram lá te visitar? O que está acontecendo com você, minha filha? Senta aqui, minha filha, o que houve? O que foi que houve?

Ana Letícia Maciel: Impressionante.

Luciano Pires: É um personagem em busca de um propósito. E aí? Vamos lá.

Ana Letícia Maciel: Aí isso foi uma experiência que durou quase um ano. Foram longos meses. E nesse tempo também eu comecei a fazer efetivamente a minha transição. Comecei a olhar para a minha alimentação. Comecei a olhar para as coisas que eu fazia para mim. Aonde eu ia? Com quem eu estava?

Luciano Pires: Que idade tinham os seus filhos na época da pipoca?

Ana Letícia Maciel: Tem que fazer as contas. Isso foi em 2013. 2013, quatro anos, cinco anos atrás. O meu mais novo estava com sete.

Luciano Pires: Sete?

Ana Letícia Maciel: Oito.

Luciano Pires: Oito?

Ana Letícia Maciel: E dez.

Luciano Pires: Os filhos da pipoqueira? Você ainda foi vender na escola deles?

Ana Letícia Maciel: Na escola.

Luciano Pires: Como que você explicou para eles o que estava acontecendo?

Ana Letícia Maciel: Assim, conversei muito. Na verdade, assim, tudo sempre foi muito conversado com os meus filhos. Eles me apoiaram muito. Eles tinham orgulho da mãe pipoqueira, eles levavam clientes para mim.

Luciano Pires: Que legal.

Ana Letícia Maciel: Faziam propaganda da pipoca. E lógico, sobrava uma pipoquinha para eles. Eles adoravam.

Luciano Pires: Imagino.

Ana Letícia Maciel: Eles foram me estimulando inclusive a fazer pipoca doce, que eu não tinha pensado em fazer, com leite condensado e por aí vai. Foi incrível. Incrível. Uma proximidade com as crianças da escola e com os meus. Nossa. Não tem preço aquela fase. Mas foi realmente um ritual de passagem. E foi o tempo que eu precisei para eu me centrar. Quem eu sou? Aí sim foi a primeira vez que eu falei: onde eu quero chegar de verdade? Comecei a estudar muitas coisas de autoconhecimento, de percepção da realidade, de física quântica, de tudo. De tudo, tudo. Para eu entender o que estava acontecendo comigo e com o mundo.

Luciano Pires: Você não chegou… o lado espiritual não te levou para alguma religião, alguma coisa assim?

Ana Letícia Maciel: Então, na verdade, me afastou da religião que eu estava.

Luciano Pires: Que era?

Ana Letícia Maciel: Era o Kardecismo. Assim, eu tenho ainda contato com o Kardecismo em função das coisas que ainda fazem sentido para mim, que são as leituras.

Luciano Pires: Para você que está nos ouvindo aí, que não tem acesso ao Google agora. O Kardecismo vem de Allan Kardec e popularmente podemos chamar de Espiritismo.

Ana Letícia Maciel: Isso. É uma das religiões espíritas. Eu fiquei muitos anos no Kardecismo. Até o meu pai sempre foi kardecista. Mas eu só fui frequentar o Kardecismo muito tempo depois de ele ter me levado algumas vezes. Eu nunca tive exatamente uma religião. Eu estudei em colégio católico e tal. Mas eu nunca me vi católica. O Kardecismo me atendeu muito tempo. Nessa época eu comecei a questionar coisas. Eu falei: bom, aí eu já preciso procurar outra coisa. Mantive ajudando e participando na parte de caridade. Mas parei de frequentar um pouco. Então na verdade assim, hoje eu não tenho uma religião específica. Hoje eu tenho um conteúdo meu. Que passou pelo Budismo, que passou pelo Taoísmo. Por um monte de outras fontes e hoje compõem o que eu acredito; que é a realidade, que são as coisas. E foi exatamente nessa época de 2013 para 2014.

Luciano Pires: Estamos no Rio de Janeiro ainda?

Ana Letícia Maciel: É. Lá em Niterói na verdade.

Luciano Pires: Niterói.

Ana Letícia Maciel: A escola dos meus filhos, Niterói. Eu já tinha tido a experiência de trabalhar no home office em casa. Agora eu estava tendo a experiência de trabalhar ali na escola. Fiquei muito presente na vida dos meus filhos. Eu estava realmente dentro de casa. Porque quando eu estava no home office, no horário que eles estavam, às vezes eu estava em reunião. Agora com a pipoca não. Eu ia com eles, voltava com eles. Era uma participação muito grande. E eu posso dizer que foi ali que eu conheci os meus filhos. Foi ali que eu olhei para eles, sabe? Eu falei: nossa, eu não sabia. Não tinha percebido isso. Como eles eram fantásticos. Quanta coisa eles tinham para me ensinar e para me mostrar, sabe? E fui dividindo tudo com eles. Inclusive a não recolocação no mercado, eu conversei com eles. Eu falei: olha, o nosso padrão vai ser outro. Vocês estão nessa comigo? Eu lembro do meu filho, pequenininho falando assim: não, tudo bem mãe. Porque quando a gente viajava e tal, você não estava lá mesmo. Você estava sempre no computador, no celular, então tudo bem. Eu prefiro você aqui. Foi um apoio assim, enorme. Bom, e aí comecei a pesquisar uma escola que fosse mais aderente a tudo isso que eu estava ensinando para os meus filhos agora. Eu estava tendo uma forma de lidar com eles mais democrática, mais parceira. Uma forma de educação que eu já fazia um pouco. Mas agora estava mais efetiva, de não impor as coisas.

Luciano Pires: Quando você fala de pesquisar uma escola, era para quê? Para matricular teus filhos lá ou para vender pipoca lá?

Ana Letícia Maciel: As duas coisas. As duas coisas.

Luciano Pires: Sim. Você queria levar eles então, para um ambiente que fosse mais próximo daquilo que você estava vivendo. E que você sacou que o ensino tradicional não dava?

Ana Letícia Maciel: Isso. Não era mais compatível. É claro que eu ensinei eles a viver na realidade que se apresentava. Mas se tivesse condição de a escola ser coerente com o que eu fazia dentro de casa, seria bem melhor. E naquela época eu encontrei a Escola da Ponte. Eu estava sinceramente pensando em ir para Portugal.

Luciano Pires: Você leu o livro do Rubem Alves?

Ana Letícia Maciel: Exatamente. E por aí foi, Zé Pacheco para tudo quanto é lado.

Luciano Pires: Como que chama o livro? A Escola dos Meus Sonhos. É isso?

Ana Letícia Maciel: É.

Luciano Pires: A Escola dos Meus Sonhos. É isso? É. Para quem não sabe aí, vamos lá, o pessoal do Google. Rubem Alves, escritor, etc. e tal, pa-pa-pa. Ele recebe um comunicado de Portugal, alguém dizendo para ele que leu um livro dele e que falou: olha, eu acho que a gente tem aqui em Portugal alguma coisa que você sonha em um belo dia ter. E ele vai para Portugal e vai conhecer uma escola, a tal da Escola da Ponte. E ele fica tão impressionado com aquilo, que ele volta e ele escreve um livro, chamado A Escola dos Meus Sonhos. E ali ele descreve um ambiente de escola que é impensável, uma escola onde você não tem divisão por classe, idade. Onde o aluno mais velho ensina o mais novo. Onde quando o cara vai visitar a escola é um aluno que pega ele pela mão e leva pela escola inteira. Onde as matérias da escola vêm da pressão que a sociedade está. E vamos falar daquilo que está acontecendo. Não é uma coisa quadradinha. Então é um negócio absolutamente revolucionário. Que quando chegou no Brasil, o livro foi escrito aqui, causou. Uau. Todo mundo ficou maluco. Depois aquilo foi bastante combatido. Acusaram o cara da escola de um monte de bobajada. Foi uma confusão sem tamanho. Mas esse nome, Escola da Ponte, isso virou uma marca. Quando você fala Escola da Ponte, quem conhece essa questão da educação, já: tem coisa diferente vindo aí. Muito bem. Você olha para aquilo e fala: eu quero ir lá olhar.

Ana Letícia Maciel: É. Eu estava bem tentada a ir lá ver de perto. Porque eu já tinha lido, já tinha visto os vídeos. Mas eu queria sentir. E comecei a questionar mesmo: será? Uma mudança desse porte? Será que eu vendo pipoca lá? Até que o meu filho mais novo, que já vinha há alguns anos sendo convidado a se retirar das escolas. Sendo suspenso por “n” questões. Houve mais uma reunião de suspensão. E nessa reunião a professora, depois da reunião me chamou num canto e falou: olha, você sabe que o problema não está com ele. Você sabe que a escola é que não está pronta para alguma coisa fora do padrão, diferente. Aí ela falando: o meu coração fica apertado de ver essa situação, ele passar por isso. E ele não tem problema. Eu falei: eu sei. Por isso que eu não sei o que fazer. Se houvesse um problema era mais fácil. A gente resolveria. E ela falou: então, tem uma escola lá em Cotia. Foi ela que me falou do Projeto Âncora. Porque você não encontra com facilidade o Projeto Âncora, porque ele não se vende. Ele não é uma escola comercial. Então assim, nas pesquisas todas que eu fiz ele não tinha aparecido. E isso foi em 2015. Eu falei: interessante. Eu vou pesquisar. Ela me deu as informações e aí eu fui à Cotia pesquisar. E era exatamente aquilo.

Luciano Pires: Pausa. Seu filho estuda numa sala de aula onde tem 35 moleques. São 36 com o seu filho. 35 se encaixam e o seu filho não. Tem um problema. Quando você disse para mim que o seu filho não tem um problema, alguma coisa está acontecendo. Então os outros 34 têm. O que é que não encaixava? É o déficit de atenção? É ultradinâmico? Hiperatividade? O que é? Como é que… o que é que você encontrou ali? É importante eu te perguntar isso, porque eu quero ver como você vai encaixar isso lá em Cotia.

Ana Letícia Maciel: As escolas na verdade, não sabem. Na verdade, os diagnósticos desse tipo de transtorno que eles chamam, é muito difícil de ser feito. Porque ele é altamente psicológico e num serzinho que não sabe se expressar ainda com clareza. Então não é um exame físico que vai te dizer. O fato é que desde o jardim de infância eu lembro de eu ser chamada para dizer que eram necessárias quatro profissionais para dar comida para o meu filho. Então não tinha condição dele permanecer na escola.

Luciano Pires: Hiperatividade?

Ana Letícia Maciel: Não. Eles diziam que existia uma dificuldade de se encaixar nos padrões. Assim, eles não afirmavam que era hiperatividade. Algumas simplesmente falavam: olha, não dá para ele ficar aqui. Outras falavam: você precisa fazer um diagnóstico. Só que a neuropediatra que a gente consulta, ela faz uns exames físicos, ela faz outros de sangue e uns testes psicológicos. E nunca deu nada. Então você fica meio sem ação. Mas as indicações possíveis eram ou déficit de atenção ou hiperatividade ou as duas coisas, que é o TDHA, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, tudo junto. E não era nem uma coisa nem outra. Então você fica… e assim, em casa, eu não presenciava esse tipo de situação. Era uma criança alegre, feliz e ativa. Mas eu não via o problema. Eu não precisava de quatro pessoas para alimentar o meu filho. Então, não conseguia perceber como resolver.

Luciano Pires: Mas que grande sacada daquela professora que te chamou de lado para falar: o problema não é ele.

Ana Letícia Maciel: Fantástica. Eu tenho uma gratidão gigante pela Patrícia. Cito ela em todo momento. Porque eu acho que ela faz isso, sempre que ela acha que é necessário. Entenda, tem quem sem encaixa e tem quem não se encaixa, realmente. Assim, não é certo nem errado. É simplesmente diferente, incompatível. E nesse mesmo momento, a minha filha mais velha também estava começando a ter outros tipos de problema. Uma pessoa que já está entrando na adolescência, que está começando a olhar o mundo e está querendo dar a sua opinião, está querendo se colocar e também não é bem-vinda. E outra: a forma de educação que eu dava para eles em casa. Então, eu vou dar um exemplo. Um exemplo que eu acho que resume tudo. Eu sempre falei para eles nunca dedurarem ninguém. Não se colocarem nessa posição e não aceitarem serem colocados. Aí um dia a minha filha do meio chega: mãe, hoje eu tive que fazer um negócio lá na sala que eu acho que não foi legal. Eu falei: o quê? A professora, quando sai de sala, ela escolhe um aluno para ficar tomando conta dos outros. E quando ela volta, ela pergunta o que os outros fizeram. E ela tinha sido a escolhida. Aquilo mexe demais comigo. Aí eu fui lá falar com a coordenadora e falei: olha, você pode fazer isso com quem você quiser. Mas por favor, não coloca meus filhos nessa situação de dedo-duro. Pelo amor de Deus. Então é isso, assim. Eles podem achar muito certo. Algumas famílias podem achar isso muito certo. Mas começou a gerar esse tipo de problema, a educação que eu dava, já. Não dava para evoluir muito. Então quando ela falou no Projeto Âncora e eu vim visitar, se encaixou nisso tudo. Entendeu? Se encaixou na questão do meu filho ser uma criança que não conseguia ficar sentada por muito tempo. Porque o conteúdo que estava sendo passado, ele adquiria com mais rapidez, terminava a atividade mais cedo e não sentia vontade de ficar sentado. E acontecia com frequência também, principalmente nas séries mais novinhas, quando ele era bem pequeno, de ele não ficar nem dentro da sala, querer ficar fora. No entanto, quando o conteúdo era cobrado, ele sabia. Ou seja, ele via que aquilo dali era um assunto que ele já sabia, então ele saía. Entende? E aí isso está errado?

Luciano Pires: Eu tive um convidado que esteve aqui, ele falou. Ele tinha essa mesma característica. Ele falou: cara, eu terminava tudo na frente e aí eu ficava enchendo o saco dos alunos. E eu era expulso da escola. Porque eu sabia tudo que tinha lá e ficava enchendo o saco. Eu virava o pentelho. Eu enchia o saco de todo mundo, até que me expulsavam da sala de aula. Porque ele tinha essa velocidade.

Ana Letícia Maciel: Isso.

Luciano Pires: Interessante.

Ana Letícia Maciel: Ele nunca teve problema de nota nas provas. Ele só começou a ter nota baixa, quando a nota tinha comportamento acrescentado à nota. Aí era reduzido, ele ficava com uma nota menor. Mas ainda assim, nunca foi abaixo da média. Então assim, você fica sem argumento de onde é que está o problema.

Luciano Pires: Mas você botou na cabeça que você vinha. Cara, eu vou sair de Niterói para vir para Cotia, cara? Você fala para mim: eu vou sair de Niterói para ir para o Rio de Janeiro. Vou sair de Niterói para ir para a cidade de São Paulo. Você ia sair de Niterói para ir para Cotia. E outra: por causa de um filho, você estava disposta a mudar a tua vida. Porque você sair do lugar onde você nasceu, cresceu e teus filhos também. Por uma mudança. Como que é isso?

Ana Letícia Maciel: Na verdade, é mais do que isso. Porque assim, vamos lá, a história que se sucedeu daí. Porque de 2015 a 2017, quando efetivamente viemos, muita coisa aconteceu. Então, em 2015 eu inscrevi meus filhos na lista de espera do Projeto Âncora. Que é uma lista de espera de duas mil crianças. Ou seja, eu não sabia quando ou se seríamos chamados. Mas sentei para conversar com os três. Expliquei o que era, por que. E fui trabalhando isso com eles. Eu sabia que não ia ser naquele momento. Então a gente foi conversando aos poucos. Conforme as coisas aconteciam, essas questões comportamentais na escola aconteciam, eu relembrava o assunto: olha, é hora de pensar se vocês querem assumir essa mudança. Porque essa mudança envolve se afastar do pai, também. Então assim, as visitas que eram de quinze em quinze dias seriam inviáveis. Os avós, os primos e tudo mais. Os amigos da escola. Eu achei que a minha filha mais velha ia ser o maior problema. Na verdade, como eu te disse, ela estava começando a enfrentar problemas na escola          . Ela falou assim: eu prefiro. Hoje em dia a gente tem internet, tem WhatsApp, isso aí eu resolvo com os meus amigos. Ela foi uma das que quis ir. A minha filha do meio que a gente acompanhou um pouco mais. Apesar de ela ter concordado eu sentia que para ela estava bem. Ela era uma das que se encaixavam. O que a gente foi trabalhando nela, eu fui trabalhando com ela foi o seguinte: você se encaixar, você ter uma nota boa é suficiente? É isso realmente que você quer? Ou você quer aprender de verdade? Aprender da sua própria motivação? E não só a partir de uma lista         de conteúdos predefinidos, que você vai mostrar para os outros que você adquiriu. Será que… eu fui trabalhando isso com ela ao longo desses dois anos, até a vaga se efetivar.

Luciano Pires: Faculdade gratuita, para ir para uma outra, para aprender, porque a outra tinha conteúdo. É de se esperar.

Ana Letícia Maciel: Faz sentido.

Luciano Pires: Então vamos para a nossa pausa à continuidade aqui. Você está citando já, a turma também deve estar ouriçada aqui. O que é Projeto Âncora? O que você achou quando você foi lá em Cotia?

Ana Letícia Maciel: Então, naquele momento, o que eu achei foi o seguinte: é uma escola onde a criança aprende a partir da sua vontade. Ela escolhe o que ela quer estudar. O que ela quer aprender. E ela não vai aprender para fazer uma prova. Porque não tem prova. Ela também não vai aprender na hora que o professor está disponível. Ela vai aprender na hora em que ela tem o interesse de aprender. E a partir dessa vontade dela, ela vai desenvolver outras habilidades. Então eu falei assim: é isso. Porque é o que eu faço dentro de casa. Quando eles dentro de casa, tinham interesse, por exemplo, de comer alguma coisa, então é hora de a gente ensinar a cozinhar. É a hora de ensinar a lavar a louça, é a hora de ensinar quanto é que custa. E vamos associar o aprendizado de tudo que está associado a isso ao interesse da demanda que chega. Então eu falei: está totalmente compatível com o que eu já faço. Isso é muito bom, porque é um aprendizado para o resto da vida. Não é aquele para a prova e acabou. E, além disso, não tem aula. Então eu falei: fantástico. Porque assim, a criança vai se colocar conforme a sua demanda, no tempo que ela achar que ela tem condição de ficar naquele assunto. Então, eu vou acabar com esse problema da criança não ficar sentada. Não tem nem carteira uma atrás da outra. Tem as carteiras para você usar como você achar que deve. Bom, nesse momento o que eu vi foi isso. Uma escola que respeita a criança para aprender no seu tempo.

Luciano Pires: É uma escola que não tem sala de aula. É uma escola que não tem matéria, não tem currículo escolar. É uma escola que não tem as carteiras. É uma escola que… tem professor?

Ana Letícia Maciel: Tem educador.

Luciano Pires: Tem educadores. Cara, é demais para a minha cabeça. Eu acho que eu tenho que ir lá ver isso aí. Mas vamos continuar. Muito bem. Você achou o ambiente que você entendeu que seria legal. E viu que tinha uma fila de espera. Botou na fila de espera e ficou no Rio de Janeiro, esperando. Se um dia alguém chamasse, você iria com seu carrinho de pipoca para lá.

Ana Letícia Maciel: E aí nesse ínterim aconteceram muitas coisas. Duas delas que me motivaram muito quando saíram as vagas, foi uma. O meu pai nessa época já estava morando comigo. Porque ele adquiriu Alzheimer. Daí precisou de cuidados. E aí chegou a um ponto que a gente precisou internar. Não teve solução, questão de saúde mesmo, de segurança até dele. Ele se perdeu na rua, aquelas coisas. E a minha irmã encontrou uma clínica muito boa que é do presidente da Associação Brasileira de Alzheimer, que fica em Sorocaba. Então naquela época nós colocamos o meu pai nessa clínica em Sorocaba. Então as visitas estavam mais espaçadas por causa da distância. O fato de ir para Cotia, que fica perto de Sorocaba era um grande facilitador. E um segundo facilitador foi que uma empresa me procurou. Eu fazia alguns freelancers de informática de vez em quando. E essa empresa me encontrou, nesse portal de serviços freelancers. E me fez uma proposta de fazer um trabalho em home office, que seria um trabalho muito legal. Que seria o customer success. Eu faria o contato com os clientes que já tinham passado pela área de vendas, ou seja, o cliente já tinha comprado a ideia da solução. Eu ia entender o que eles queriam e garantir que os técnicos desenvolvessem. E era algo que eu acreditava que era para o bem. Tem muito envolvimento com mídias sociais, era para a gente levantar umas informações interessantes. Então, eu comecei a ganhar um pouco mais de dinheiro. Já poderia me sustentar, independente da pipoca, caso saísse a vaga.

Luciano Pires: E trabalhando em home office?

Ana Letícia Maciel: Em qualquer lugar.

Luciano Pires: Pausa. A gente já falou várias vezes do customer success. Lá atrás você falou um pouquinho uma maneira de resolver essa questão do pessoal da TI e tudo mais. E agora você colocou um outro modelo aí, que eu só quero fazer um comentário aqui. Tem muita gente começando a discutir demais essa questão do customer success, que hoje em dia significa o seguinte: cara, eu tenho um produto, eu tenho um serviço. Eu tenho alguma coisa que você compra de mim. E eu não vou parar no momento em que você compra de mim. E eu não vou parar e simplesmente dar uma assistência técnica. Eu vou produzir ao máximo daquilo. E que você dê muito certo com a solução que eu te vendi. Portanto, eu vou querer estar junto com você e te ensinar a fazer dar certo. Eu tenho muito contato com o Rodrigo Dantas, que é da Vindi, que é a plataforma que eu compro o serviço dele para todo o processo de processamento de assinaturas. Eu tenho um projeto de assinatura recorrente, que eu vendo aí. E ele me falou outro dia. Ele falou: cara, eu tenho uma área aqui de customer success, eu vou botar os caras para conversar com você. Porque a gente quer que você dê muito certo. Então se o meu cliente for muito bem-sucedido usando a minha solução, cara, primeiro que ele vai falar para todo mundo. Segundo, que a hora que eu der upgrade ele vai vir atrás e eu estou só expandindo a coisa. Então essa é a função hoje do tal do customer success. Você tem que dar muito certo com a solução que eu te ofereço. Mas aí você então está com tudo certinho. Papai está lá, você tem o teu trabalho. Eu vou mudar.

Ana Letícia Maciel: A coisa foi me levando, na verdade. E aí um belo dia me ligaram dizendo que tinham as vagas para dois dos meus filhos. Porque aí eles tinham lá uma opção para determinadas idades. Conversei com os três novamente. Levei-os para conhecerem a escola. Realmente concordaram que queriam ir. Mas a minha mais velha não tinha vaga. E aí a nossa decisão era ou ela ficava no Rio, morando com o pai em Niterói na verdade. E a gente ia, até que a vaga dela saísse. Ou ela ia com a gente e ficava em outra escola também, até que a vaga saísse. Ela falou assim: não mãe, vocês vão. Porque a minha vaga vai sair logo. E esse vai ser o tempo que eu preciso para me despedir melhor dos meus amigos. Porque realmente, nessa faixa de idade, ela já estava com 13 para 14. E foi exatamente o que aconteceu. A gente foi para Cotia, só os meus dois mais novos. Um mês depois já tinha a vaga dela.

Luciano Pires: Um mês depois. Quando é para ser…

Ana Letícia Maciel: Deu tudo muito certo. É claro que a vaga dela só saiu porque eu levei isso para a assembleia. E todo mundo falou: nossa, não faz sentido isso. Vamos abrir a vaga. E aí foi o tempo que ela teve. Se despediu bem dos amigos e veio. Então, isso aconteceu no ano passado. Eu vim em maio com os dois primeiros, em junho ela veio.

Luciano Pires: Quem inventou essa escola, esse Projeto Âncora? De onde veio isso?

Ana Letícia Maciel: Nossa. A história é bonita. O Walter Steurer, que já é falecido agora, ele trabalhou sempre na área de turismo lá em Cotia. A família dele veio para o Brasil, alemães, vieram para o Brasil com uma mão na frente e outra atrás, fugidos de guerra. E sempre foram muito agradecidos por todas as oportunidades que tiveram no Brasil. E ele construiu um verdadeiro império. E quando ele se aposentou, ele falou: agora eu quero devolver para o país o que a minha família recebeu. E nessa época ele fazia serviços, ele ajudava financeiramente algumas igrejas católicas e conheceu a Regina, que depois veio a se casar com ele, como arquiteta de uma igreja que ele estava colaborando. E ele conversando com ela, explicou qual era o plano dele. E ela falou: olha, se você quer efetivamente devolver a longo prazo, é educação. E aí ela foi ajudando ele nesse sonho. Se casaram logo depois.

Luciano Pires: Foram fazer uma escola.

Ana Letícia Maciel: É. Assim, não uma escola, na verdade. Alguma coisa na área de educação. Então o que eles pensaram? Começaram com contra turno. Mas na verdade, o lugar ali, ele foi criado em torno de um sítio. Eles entenderam que era uma forma interessante de trabalhar com a criança. Tinha quadra esportiva, tinha um monte de oficinas que aconteciam. Mas assim, com um contexto pedagógico já sendo aplicado. Apesar de não ser uma escola, havia uma forma de lidar com a criança, com a família, com a comunidade, mais democrática. Uma forma assim, de desenvolver a autonomia da criança. Assim, já existia ali um fundo pedagógico, inclusive se você…

Luciano Pires: Não substituía uma escola tradicional…

Ana Letícia Maciel: Não.

Luciano Pires: Mas complementava. Ao invés da criança ficar em casa ou na rua, ia lá fazer as atividades ali.

Ana Letícia Maciel: Isso. E as famílias também, os pais. Tinham serviços profissionalizantes, cursos profissionalizantes. Inclusive tinha alfabetização de adultos. Tinha um monte de coisas para a comunidade toda. O grande objetivo dessa ONG que foi criada, chamada Projeto Âncora, em 1995 era promover a cidadania naquela região. Pois bem…

Luciano Pires: 95?

Ana Letícia Maciel: 95.

Luciano Pires: Caramba.

Ana Letícia Maciel: E aí esse contra turno, ele ficou tão fantástico que as escolas onde essas crianças estudavam começaram a ter problemas. Porque a criança…

Luciano Pires: Era muito mais legal ficar lá do que na sala de aula.

Ana Letícia Maciel: A criança já não conseguia mais ser quadradinha. Ela questionava, ela era autônoma. Então a escola não estava pronta para isso. Então nesse momento o Âncora começou a pensar: acho que a gente precisa ter uma escola aqui. Eles começaram a sonhar isso, procuraram na época o Zé Pacheco, por causa da Escola da Ponte. Ele na época não pode, tinha outros compromissos. Eles continuaram pedindo autorização de funcionamento, continuaram pensando nessa pedagogia. E em 2011 o Walter faleceu. Ele teve câncer e faleceu. Mas um mês antes de ele falecer, o Pacheco se descompromissou lá e falou: agora eu posso. Então logo em seguida ele veio e a escola foi sendo formada. Durante um ano ele veio capacitando, orientando. Até a questão da documentação. Porque assim, o MEC, ele requer em princípio certos critérios, que você precisa apresentar. Então se você não tem aula e não tem prova, como que você vai apresentar?

Luciano Pires: Essa era a pergunta que eu ia fazer para você. Como é que você encaixou? Como é que essa coisa se encaixou dentro de um modelo que é: você pega um negócio redondo para encaixar numa forma quadrada. E não ia. Ou você corta as arestas ou não… e aí você perdia essa visão. Como que eles fizeram para esse encaixe?

Ana Letícia Maciel: Ele colaborou muito nesse sentido. A escola pode abrir em 2012 com o Pacheco.

Luciano Pires: O Pacheco que era o homem da Escola da Ponte, lá de Portugal?

Ana Letícia Maciel: Isso.

Luciano Pires: Ele veio para cá e ficou no Brasil fazendo esse processo?

Ana Letícia Maciel: Isso. Foi um ano, até a escola abrir. Então eu posso dizer assim: existem muitas questões burocráticas, que eu nem respondo por todas. Mas uma coisa que eu perguntei – que eu sei – é o seguinte, então vamos pegar um exemplo dos meus filhos. Na primeira semana na escola, eles estavam completamente perdidos. Olharam para a parede e viram uma mandala. E perguntaram para a educadora o que era aquilo. Ela falou: isso aqui é uma mandala. Você gostaria de estudar o que é uma mandala? Tá. Vamos estudar a mandala. Então, a educadora providenciou junto com eles o roteiro do estudo da mandala. Então vai estudar o que é a mandala, onde ela existe…

Luciano Pires: Aí tem um método.

Ana Letícia Maciel: Um método.

Luciano Pires: Aí tem um método. A professora, a orientadora, eu não sei que nome é. A educadora, ela tem um método então?

Ana Letícia Maciel: Isso.

Luciano Pires: Capturou o interesse da criança, ela aplica o método ali.

Ana Letícia Maciel: Isso. E assim, a criança depois vai aprendendo a fazer isso sozinha. Então quem chegou é orientado. Então onde tem mandala? Por quê? Qual é a finalidade da mandala? Quais as religiões relacionadas que usam a mandala? Quais os tipos de mandala que existem? Materiais usados para confecção de mandala? Estuda todo esse contexto. Então ela já traz um pouco ali de história, de geografia e tal. Vai trabalhando aquilo. E no final, para encerrar o processo, eles escolheram fazer uma mandala. Escolheram a de areia, que eles acharam muito bonita. Só que não é simplesmente comprar e fazer. É fazer. Então eles foram pegar a areia do chão da escola. Foram tingir a areia. Tem que pesquisar como que tinge a areia? Como que ela seca? E depois, aquele funilzinho para você entornar a areia para construir. E eu achei a coisa mais linda quando eles chegaram em casa assim, correndo, correndo: mãe, mãe, como que calcula o centro da circunferência? Por quê? Porque tem que começar a construir a mandala numa mesa redonda, do centro. Então vai na geometria e tal. Então a educadora vai trazendo tudo isso. Eles pesquisam, trazem o resultado. E aí construíram a mandala e ainda tem o princípio da impermanência da mandala de areia, que você tem que destruir. E aí cada um deles participando da sua maneira. Assim, um sofrendo um pouco: vou destruir o trabalho que fiz. O outro: já pode? Já pode destruir? Cada um vivenciando da sua maneira. E encerrou, faz uma autoavaliação. Essa é a prova, vamos dizer assim, a criança se avaliar.

Luciano Pires: Presta conta a si mesma?

Ana Letícia Maciel: A si mesma. Se ela poderia ter dado o melhor de si. Se ela acha que aquilo foi produtivo? Se ela acha que ela podia ter aprofundado mais certo assunto. Sei lá. Ela se avalia ali.

Luciano Pires: Essa autoavaliação tem um método? Existe um método ali?

Ana Letícia Maciel: Tudo faz parte de um método. E aí acabou esse roteiro com todo esse conteúdo. A educadora vai pegar o conteúdo adquirido e vai checar no currículo do MEC, item por item. Então aquele item, por exemplo, de geometria, o centro da circunferência, ela aproveitou para trabalhar raio, diâmetro, perímetro e tal. Então, pegou isso e checou lá como conteúdo adquirido.

Luciano Pires: Genial isso. Você está falando, eu estou me lembrando de todos os textos do Rubem Alves que eu já li até hoje. Ele comentando isso, ele falando, ele dando um exemplo de como que uma criança aprende apanhando uma uva. Vai apanhar uma uva e vai aprender. Ele descreve aquilo. É genial. É genial aquilo lá. Mas você foi um pouco além, você não se tornou só uma mãe que bota as crianças na escola. O que aconteceu ali?

Ana Letícia Maciel: Aconteceu que eu cheguei, não fazia ideia de que o projeto era mais do que uma escola. Quando eu estava em Niterói, eu já tinha começado a fazer trabalho voluntário. Eu escolhi uma ONG que cuidava de pessoas com HIV. E foi uma coisa fantástica. O quanto você se expande como ser humano fazendo trabalho voluntário, seja ele qual for, desde que você faça integralmente. E aí eu falei: aqui em Cotia eu preciso achar um lugar para fazer um trabalho voluntário. Quando eu cheguei e descobri que era uma ONG, que tinha outras coisas que não a escola, eu falei: então vou ajudar no administrativo, alguma coisa que eu tenha um background. E comecei a me envolver não só como mãe. Porque esse tipo de escola democrática, ela demanda que os pais sejam participativos. Então eu já estava lá dentro pelas reuniões, assembleias e tal. Mas também comecei a me colocar nas coisas que eu podia ajudar. E aí eu fui descobrir que tem muito mais do que isso. O contra turno, por exemplo, apesar de hoje ele não atender a todas as crianças, assim, por questões financeiras, precisou num certo momento, restringir o contra turno para determinadas crianças. Existe um contra turno, existem atividades que estão acontecendo, existem atividades culturais que acontecem no circo. Tem toda uma gama de coisas lá, a fazer ali dentro.

Luciano Pires: O circo está lá, continua lá?

Ana Letícia Maciel: Está lá. As crianças têm aula de circo. Então, as crianças, elas escolhem as oficinas que elas querem. Então os meus filhos logo de cara escolheram o circo. Mas pode querer outra atividade, uma questão da vontade. E aí eu comecei a me embrenhar no projeto, de tal maneira que eu vi que a parte financeira é uma questão. Toda a ONG eu acho que tem essa questão, o Projeto Âncora não cobra mensalidade. É uma ONG que se sustenta sozinha, a partir de doações. Então está sempre assim, naquela corda bamba.

Luciano Pires: Continua não substituindo a escola normal?

Ana Letícia Maciel: Não. Desde 2012 ela começou com ensino fundamental nesse formato que eu estou falando. O conteúdo é adquirido. Ele é comprovado através dos projetos e roteiros.

Luciano Pires: E você sai de lá com o certificado de que terminou o 1º grau, o 2º grau?

Ana Letícia Maciel: Sai.

Luciano Pires: Que legal.

Ana Letícia Maciel: Chega no 9º ano, por exemplo, existe uma revisão dos conteúdos adquiridos. E aqueles que faltam são propostos para a criança poder concluir. E aí já tem o 2º grau agora também, o ensino médio.

Luciano Pires: Começou em 95. 95 para 2018 são 23 anos.

Ana Letícia Maciel: Mas a escola mesmo começou só em 2012.

Luciano Pires: São 23 anos.

Ana Letícia Maciel: De Projeto. É.

Luciano Pires: Deve ter formado um monte de moleque já. Um monte de gente. Têm muitos que são adultos hoje que se formaram naquela escola lá. Você tem contato com esse pessoal?

Ana Letícia Maciel: Eles estão quase todos lá. O circo tem uma atividade semanal que é só para ex-alunos. Eles saem do trabalho e vão para lá treinar. Existem apresentações de circo dos ex-alunos. E a gente tem hoje um ex-aluno na diretoria.

Luciano Pires: É mesmo? E essa molecada no mercado de trabalho, em geral? Vocês monitoram isso? Sabe? Eu estou tentando buscar a consequência desse modelo. Ele é comprovado lá fora? A sociedade olhou para isso e falou: cara, tem gente que sai daí. Tem gente especial. Como que é?

Ana Letícia Maciel: É. Como ONG não existe uma profissionalização da gestão e tal. Então não preocupo-me tanto com isso. A gente tem casos de todos os tipos. Têm pessoas que foram fazer mestrado, doutorado. Tiveram pessoas que seguiram essa área mais artística. Tem de tudo. O fato é que a criança sai feliz. Ela sai trabalhando naquilo que gosta. Seja o que for. Mas é fato que saem muitos empreendedores. Muitos. São poucos assim, os que querem se encaixar nesse mercado de trabalho como ele está. Mas não houve um acompanhamento nesse sentido. Eu cheguei trazendo justamente essa visão. Eu entrei na gestão na verdade, no início desse ano. Foi em maio.

Luciano Pires: O que significa entrar na gestão?

Ana Letícia Maciel: Houve eleição para a diretoria da ONG, que são todos voluntários, por ser uma associação. Então existe um cargo de presidência e quatro diretores. Eu assumi a presidência e tem quatro diretores comigo.

Luciano Pires: Quando é que você chegou com as crianças aqui?

Ana Letícia Maciel: 2017, em maio.

Luciano Pires: Quer dizer, em um ano?

Ana Letícia Maciel: Em um ano.

Luciano Pires: Você assumiu a presidência da ONG?

Ana Letícia Maciel: É.

Luciano Pires: Você não fazia ideia disso?

Ana Letícia Maciel: Não. A mínima.

Luciano Pires: Porque eu estou imaginando, eu estava equacionando o impacto na sua vida: vou mudar de cidade, mas eu estou trabalhando em casa, não tem problema nenhum. E de repente, parte do teu tempo, que hoje deve ser uma parte considerável do teu tempo, é como presidente de uma ONG. Coisa que não passava pela tua cabeça há um ano atrás?

Ana Letícia Maciel: Nunca, nunca. Mas é uma felicidade que assim, eu não sei nem descrever. Porque é um trabalho voluntário, que já me dá muito prazer, uma escola que atende aos meus filhos, o que me dá mais prazer ainda, estar lá com eles, pertinho. E o quanto eu vejo de oportunidade de colaborar com esse projeto. Mas assim, um exemplo, do eu você perguntou sobre o resultado desse tipo de educação é o que está acontecendo agora e que eu estou assim, muito engajada em colaborar. Que é um sonho de uns educandos do projeto, que por acaso, um deles é a minha filha mais velha, mas tem outros educandos junto. Que estão chegando no ensino médio e que estão começando a pensar: e depois? E aí começaram a pesquisar as universidades, começaram a avaliar o que vão fazer. E começaram a ter problemas nessa avaliação. Eu vou dar o exemplo da minha filha. Ela quer ser escritora. Aí ela pensou: bom, ou é Literatura ou é Letras. Ali vai ter muita matéria que não a interessa. Ela entendeu que não vão ter as formas de estudo, por exemplo, do conteúdo para escrever um livro. Você vai escrever um livro sobre ficção científica, você tem que estudar física. Não tem. E não tem nada sobre o mercado editorial, sobre como publicar um livro. Ela falou: isso não vai me preparar para ser escritora. E eu aqui no Âncora, eu sei fazer um roteiro. Então, eu vou fazer o roteiro da minha profissão. Tudo que eu preciso aprender para no final, eu poder ser uma escritora. Conversar com escritores, conhecer as editoras, tudo, tudo que eu achar que eu preciso para isso. Mas aí ela parou e falou: bom, eu posso fazer isso. Mas e os outros que não sabem? E aí eles começaram a sonhar juntos uma universidade livre. Pesquisaram, pesquisaram. Descobriram que em São Paulo tem uma que se chama Multiversidade. Conheceram o Alex Bretas, que eu acho que é dessa instituição. Foram se inspirando e agora estão fazendo isso. Neste exato momento, essa semana, eles estão lá na Índia, num congresso de universidades livres do mundo todo, são 60 universidades livres do mundo. Estão reunidas para conversar sobre isso, essa nova forma de se capacitar para a vida, para o trabalho.

Luciano Pires: E a sociedade está pedindo desesperadamente por isso. Porque a hora que você descobrir que existe essa oportunidade, o que vai ter de gente correndo para ela… porque está todo mundo cansado. Todo mundo não. Quem tem dois neurônios está cansado. Mas já viu que é pouco, é limitante, é velho, ultrapassado. Mas eu vou para onde? Não tem para onde ir. O MEC não me deixa fazer nada. Então não consigo dar um salto adiante. Por que esse modelo não está replicado por 150 Projetos Âncoras por todo o Brasil afora. Porque não tem uma franquia?

Ana Letícia Maciel: Então, pedagogicamente não vou te esclarecer muito. Mas o que eu posso dizer é o seguinte: a experiência do Âncora não é replicável. O que acontece ali só acontece ali. Porque são com aquelas pessoas, naquele lugar, daquele jeito. Não existe uma fórmula. Agora, existe uma forma de pensar que sim, essa é replicável. Tanto é que o Projeto Âncora, ele faz consultoria, ele oferece vivências para quem quer construir alguma coisa parecida, vivenciar o que é o Projeto Âncora. Mas entenda, igualzinho não vai sair. Então, as consultorias do Projeto acompanham por um tempo, mantém contato, ficam à disposição. Mas geralmente sai uma outra coisa. Porque depende muito de quem vai estar lá.

Luciano Pires: Vamos lá. Eu consigo replicar um templo budista onde eu quiser. Eu consigo enfiar um monge lá dentro. Eu consigo pegar toda aquela cosmologia da visão budista e boto ali. Boto e começa a funcionar onde eu quiser. Vai acontecer. E replico isso com uma porrada de outras atividades que nós conseguimos fazer por aí. Por que o Âncora não consegue fazer isso? Eu não vou te responder. Mas eu vou dar um chute aqui. Bom, por que eu consigo fazer com o budismo? Porque ele já tem tudo planilhado, tudo escrito. Tem um livro básico. O cara segue. Faça isso mais isso, dá um resultado “x”. Então aquilo, de certa maneira, embora a proposta seja a visão do mundo. Aquilo é tudo amarradinho. Está tudo quadradinho. Está tudo montadinho. Se eu replicar aquilo tudo eu tenho o meu McDonald’s da fé no lugar que eu quiser. No caso de vocês – pelo que você está contando aí – se eu amarrar, eu destruo a base. Essa base que você falou, dessa liberdade total. No entanto, você tem processos que são absolutamente… viu o que eu estava te perguntando? Tem método? Onde estão os métodos? Têm métodos de fazer tudo. Digamos o seguinte: você não põe uma tampa. Você não tem tampa. Não existe uma tampa. A tampa está aberta. Mas existe uma forma de você… o quanto vai colocar de cada ingrediente. Tem uma maneira de você fazer. Nem isso é replicável?

Ana Letícia Maciel: Sim. Eu acho que sim. Estou chegando agora. Mas a minha visão é exatamente essa. Eu acho que assim: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Eu não posso dizer a você, por exemplo, que as ferramentas pedagógicas mesmo que a gente usa hoje como, por exemplo, assembleia, as rodas de conversa, os grupos de responsabilidade. Tem um monte de ferramentas. Eu não posso te dizer que vai continuar assim. Porque todas elas são decididas pelas pessoas que estão ali e são passiveis de serem extintas, de serem alteradas e ok. Então, as ferramentas pedagógicas eu acho que a gente não tem como passar adiante. A gente pode dizer como estamos fazendo agora.

Luciano Pires: Até porque você tem 23 anos de tentativa e erro.

Ana Letícia Maciel: Isso. Foi mudando, foi mudando e tal. Agora assim, isso que você está dizendo, ou seja, os princípios não mudam, com certeza. Isso é possível de ser replicado de alguma maneira. A gente não tem braço hoje, mas eu estou olhando para isso de uma outra maneira, talvez com parceiros e tal.

Luciano Pires: Você já viu iniciativas parecidas, de gente que veio, conheceu e implantou em outros lugares?

Ana Letícia Maciel: Sim, sim.

Luciano Pires: Já tem? Vários lugares têm? Há opções acontecendo pelo Brasil?

Ana Letícia Maciel: Tem sim. Tanto é que assim, o Projeto Âncora, ele ganhou muitos prêmios, nacionais e internacionais, justamente por causa dessa pedagogia. Então chegam escolas ou já existentes, que querem se adaptar ou escolas totalmente novas que se espelharam, sim. Tem muitos casos.

Luciano Pires: Então, um recado aqui, meus amigos do Mato Grosso que estão me ouvindo. Não me pergunte por quê. Mas enquanto ela fala comigo aqui eu estou vendo aquele circuito, a Pró-Soja que eu fiz. A cidade que eu visitei do interior do Mato Grosso, onde está ali acontecendo o agronegócio. Eu acho que é lá que cabe isso, cara. Então, mato-grossenses aí, vocês que estão sentados em cima da grana, cara. Pega um avião, vem aqui conhecer esse projeto aqui e implementa. Porque se fizer uma revolução desse tipo aí onde vocês estão vivendo, meu Deus do céu; vira de ponta cabeça aquele estado e depois vai pelo país. Cara, que história. Está feliz?

Ana Letícia Maciel: Muito, muito.

Luciano Pires: Saudade da pipoca? E da TI?

Ana Letícia Maciel: Eu faço em casa.

Luciano Pires: Você continua na TI?

Ana Letícia Maciel: Então, quase nada. Quase nada. O Projeto me demanda tanto.

Luciano Pires: Se o Projeto é voluntário, você ganha dinheiro com quê?

Ana Letícia Maciel: Com quase nada de TI, que eu faço.

Luciano Pires: É?

Ana Letícia Maciel: E muito feliz. Muito feliz.

Luciano Pires: E as crianças?

Ana Letícia Maciel: Estão pintos no lixo. Não querem outra coisa.

Luciano Pires: É? Que história interessante. Mas não é à toa que o pessoal me recomendou conversar com você. Agora eu fiquei curiosíssimo para entender um pouco. Eu acho que eu vou lá te fazer uma visita. Posso?

Ana Letícia Maciel: Com certeza. Muito bem-vindo.

Luciano Pires: Eu vou lá querer conhecer e olha, fazer uma força para essa coisa… e foi muito legal você falar que vocês mostram. Mostram que existe para quem quiser fazer na sequência. Quem quiser conhecer, vamos lá. Qual é o caminho? Primeiro eu vou num site, eu vou num Facebook? O que é que existe?

Ana Letícia Maciel: Site: www.projetoancora.org.br.

Luciano Pires: Ok. Está nas mídias sociais também?

Ana Letícia Maciel: Também, Projeto Âncora.

Luciano Pires: E se eu quiser botar o meu filho lá, qual é o tamanho da fila? Duas mil? É isso? Qual é a capacidade? Quantas crianças ele atende hoje?

Ana Letícia Maciel: 170.

Luciano Pires: 170? Cara, é tão pouca. É muito pouca gente.

Ana Letícia Maciel: É.

Luciano Pires: E como é que esse projeto se financia?

Ana Letícia Maciel: Só com doação.

Luciano Pires: Doação dos voluntários que estão lá, entidades, empresas? Você tem um pessoal capitão?

Ana Letícia Maciel: Voluntário.

Luciano Pires: Voluntários que vão captar. Alguém que nos ouviu aqui e fala: cara, eu quero ajudar esse projeto, através do site? Como que entra em contato com vocês, pelo site?

Ana Letícia Maciel: Pelo site. O meu contato está lá no site também, pode procurar. Quem somos nós. Eu estou lá. E eu posso deixar meu telefone aqui.

Luciano Pires: Telefone não. Deixa o e-mail que é legal.

Ana Letícia Maciel: E-mail: [email protected]

Luciano Pires: [email protected], parabéns viu? Adorei essa história toda. Ficou faltando um lado. Eu quero ir ver isso ao vivo lá. Mas eu gostei bem de saber essa história aí e saber que existem esses núcleos acontecendo. E achei interessantíssimo porque ninguém sabe. Eu não sabia. Eu não fazia ideia do que era. Você falou, ele é muito low profile. Talvez a gente pudesse fazer um barulhinho. Eu acho que isso já vai fazer barulho. Você nesse podcast aqui já vai ter um barulhinho acontecendo lá. Mas eu acho que cases como o seu tem que ser contados. O seu não, o de vocês. Esse case fabuloso tem que ser contado para todo mundo. Porque dá para ver que existem maneiras de fazer as coisas funcionarem, rompendo uma porrada de paradigmas aí. Eu continuo com dificuldade de entender. Porque minha cabeça, 60 anos feita daquela maneira. Mas eu vou querer conhecer lá e conversar com essa molecada que está lá. Tá bom?

Ana Letícia Maciel: Venha sim.

Luciano Pires: Obrigado pela visita.

Ana Letícia Maciel: Eu que agradeço.

Luciano Pires: Espero que você tenha curtido aí.

Ana Letícia Maciel: Gostei muito.

Luciano Pires: Tá bom? Beijo.

Ana Letícia Maciel: Obrigada.

Luciano Pires: Muito bem, termina aqui mais um LíderCast, a transcrição deste programa, você encontra no LíderCast.com.br. Para ter acesso a esta temporada completa assine o cafebrasilpremium.com.br e receba imediatamente todos os arquivos. Além de ter acesso ao grupo Café Brasil no Telegram, que reúne ouvintes dos podcasts Café Brasil e LíderCast, que discutem em alto nível, temas importantes, compartilhando ideias e recebendo conteúdos exclusivos. Lembre-se: cafebrasilpremium.com.br. Essa temporada chega a você com o apoio da Nakata, que é líder em componentes de suspensão. Cuide bem de seu carro com as dicas do blog.nakata.com.br.

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