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Luciano Pires -
Download do Programa

Luciano: Muito bem, começando de uma forma diferente, isso que você está ouvindo aí no fundo é um blues delicioso, que eu ganhei de presente do nosso convidado de hoje, há um tempo. Faz mais de um ano, acho que já faz mais de ano que, de repente, chega para mim assim com um presentão, a gente acabou adotando, adotou o instrumental desse áudio dentro do programa, como a vinheta de um dos momentos do programa. Mas eu sempre ensaiei trazê-lo aqui e agora a gente trocou uma ideia outro dia, eu falei, cara, vamos lá, vamos trocar uma ideia. Você ouve o LíderCast, já sabe que são três perguntas fundamentais, as primeiras que você não pode errar e o resto é para onde a vida levar a gente.

Então, antes de tudo, eu quero começar agradecendo. Muito obrigado, puta presente que você me deu, viu cara, muito legal, está guardado aqui no coração da gente. Nome, idade e o que você faz?

Sherlock: Meu nome é Paulo Roberto Gomes de Souza, o apelido é Sherlock. A minha idade é 48, num corpinho de 40 e eu sou professor e músico a vida toda, 30 anos de profissão.

Luciano: Da onde vem esse Sherlock? É Sherlock Gomes, não é?

Sherlock: É. Por causa do Paulo Gomes, aí virou esse trocadilho. Eu queria até um motivo mais bonitinho: o cara é superinteligente, decifra dos mistérios da música. Mas, na verdade, teve um filme do Spielberg que era o Enigma da Pirâmide, que tinha o Sherlock jovenzinho e, na época, eu tocava com o Nill, que era ex-Dominó e o filme bombou de um jeito e eu era a cara do ator. Então, começou “Olha o Sherlock!” E o motivo é assim, trivial, mas pegou, ficou.

Luciano: Ficou Sherlock. Muito bom. Você nasceu aonde?

Sherlock: Eu nasci em São Paulo mesmo.

Luciano: Capital?

Sherlock: É.

Luciano: Não foi ali no ABC?

Sherlock: Não.

Luciano: Foi na capital mesmo. Família com quantos filhos?

Sherlock: Eu tenho uma filha do meu primeiro casamento…

Luciano: Vamos voltar atrás. Eu perguntei errado. É família com quantos irmãos. A sua família, seu pai, sua mãe e quantos irmãos?

Sherlock: Olha, Luciano, irmãos é um enigma, porque são muitos. Meu pai era um homem de famílias.

Luciano: É mesmo, cara?

Sherlock: Sim, então, a minha é a segunda dessas famílias. E meu pai assim muito cedo, ele era sócio da Bordon Frigorífico, lidava com isso, ele foi um homem muito rico, muito poderoso quando eu era bebê. Então, quando ele acaba separando da minha mãe, eu era muito jovenzinho. Então, que eu saiba, assim tem uns dez irmãos. Que eu saiba, mas pode ser que tenha mais por aí. Mas essa fase eu lembro muito pouco, dele morando com a minha mãe mesmo. Logo ele foi embora e toda aquela vida que a minha mãe teve, de uma dona de casa que tinha uma bela de uma casa, com chofer, babá, eu tinha duas babás, olha só, que mimado. Só que uma dessas babád ganhou o meu pai, literalmente. E aí foi ser a terceira família dele.

Luciano: Terceira já? A sua mãe era a segunda?

Sherlock: Era a segunda. E nessa, Luciano, a vida da minha mãe virou do avesso.

Luciano: Com você bebezinho?

Sherlock: Eu assim não tão bebê, tinha mais dois mais novos que eu. Então eu devia ter uns quatro anos.

Luciano: E o pai saiu de casa.

Sherlock: É, mas aí largou a minha mãe sem assistência nenhuma. A gente foi morar num lugarzinho assim que era, sabe, várias casas, cortiço, chamava na época.

Luciano: Como assim? Larga e se vira com os filhos e tudo?

Sherlock: Foi.

Luciano: Mas que filho da puta, cara!

Sherlock: [riso] Olha, Luciano, eu vou te falar uma coisa, eu fui vendo que na vida às vezes no momento que a gente fica irritado com alguma coisa, que a gente vê que o negócio é ruim, depois você vê como foi bom. Então, na verdade, meu amigo, tudo o que aconteceu a partir daí também fez mudanças na minha vida ultranecessárias, que eu só sou grato. Então, nem consigo ter ressentimento.

Luciano: É que você está processando isso aí intelectualmente, psicologicamente, para botar no trilho legal, porque você está usando o “se”. E se ele tivesse ficado e você tivesse mantido a mesma grana que tinha e tal, será que hoje você não estaria numa situação melhor? Como é “se”, não dá para pensar no “se”.

Sherlock: Eu nem acho que é “se”. Eu acho que é uma certeza, Luciano.

Luciano: Será, cara?

Sherlock: Eu acho que a situação melhor que eu podia estar é a que eu estou hoje.

Luciano: Bom, se você consegue ter essa certeza é porque você está no melhor dos mundos, cara. Você conseguiu acertar, não ter uma carência de olhar para trás e falar, aquele desgraçado me largou, fiquei mal, odeio. Se você conseguiu processar isso, parabéns, não é todo mundo que consegue, não.

Sherlock: Você vai ver que na minha vida várias mudanças aconteceram e é isso que eu te falo, às vezes, durante a mudança a gente não entende.

Luciano: Ele está vivo ainda, seu pai?

Sherlock: Não. Está morto.

Luciano: Então posso dizer, é um filho da puta, está bom? Com todo o carinho que eu possa ter pela sua avó, ele é um filho da puta. Quanto tempo faz isso? Isso foi quarenta e tantos anos atrás, ou seja, anos 70, ele larga a tua mãe. A sua mãe trabalhava?

Sherlock: Felizmente, minha mãe não largou o emprego dela, que era no Ipesp. Ela tinha um cargo lá, ganhava um pouquinho e isso fez ela manter depois a casa.

Luciano: Com três filhos pequenos.

Sherlock: É. Então ela dormia assim numa casinha, dessas de cortiço, com colchão no chão, a gente via rato passando assim. E aí minha mãe era viúva. Quando conheceu meu pai, ela já tinha um filho. E esse meu irmão, Carlos, aí ele vira meu outro pai, porque vendo aquela situação, ele me pega para ir morar com ele. Ele bem mais velho, mas era muito apegado comigo. Eu tive essa sorte, Luciano, eu era aquele menino bonzinho, que não xingava, que todo mundo vinha apertar a bochechinha, algo que veio comigo, nunca falei um palavrão na frente dos meus pais. Eu fico estarrecido, hoje em dia, quando eu vejo um jovem mandando a mãe tomar naquele lugar, sabe? Falando mais alto do que o pai, aonde já se viu a voz do filho ser mais alta que a do pai? Mas assim, felizmente, eu trouxe isso comigo assim de uma forma que, vamos dizer, fosse fácil gostar do Paulinho. Então, meu irmão era um homem já muito instruído, meu pai tinha ajudado muito ele, inclusive, ele já tinha viajado o mundo. Então, ele me tira daquela situação e me leva para morar com ele.

Luciano: E sua mãe fica com os seus dois irmãos menores?

Sherlock: Fica.

Luciano: E você vai morar com o seu irmão.

Sherlock: Com esse meu irmão, Carlos. E aí eu tenho a chance de ir para escolas boas, de morar num bairro bom. Então saí daquele lugarzinho e fui para Higienópolis, para viver outra vida.

Luciano: Seu irmão é casado?

Luciano: Meu irmão, na verdade, ele vivia com outro cara, ele era homossexual, o que, na época, eu não sabia, porque ele não dava pinta, não demonstrava nada, E eu só o admirava, porque ele era, sabe, aquele irmão que você pergunta de tudo, ele sabe de tudo, ele viajou o mundo, ele era superlegal aos meus olhos mesmo, era herói assim, fotógrafo também e tal.

Luciano: Está vivo ainda?

Sherlock: Não, meu irmão morreu de AIDS. Ele teve aquela fase terrível, quando a AIDS chegou.

Luciano: E ninguém sabia direito.

Sherlock: Puxa, cara, foi terrível aquilo.

Luciano: Olha que interessante, por isso que o LíderCast é fantástico, cara. Quando você senta aqui na minha frente, eu não tenho ideia do que tem nesse background e surgem coisas que a gente não tem a menor… Então, quando me pedem para apresentar o programa, eu sempre comento, para mim, a grande sacada do programa é eu entrar no programa sem conhecer a pessoa e ir descobrindo conforme nós estamos conversando. Então vão surgindo coisas que não estão na pauta. Você chega aqui como professor de música, senta na minha frente e olha para onde é que nós estamos indo agora.

Então você me dá um insight agora que é uma coisa fabulosa, olha só, um casal gay, um casal homossexual que resgata um garoto que está numa situação complicada e traz esse garoto para viver com esse casal e bota esse garoto numa situação que ele não teria se tivesse ficado com a mãe dele, naquela situação tão pobre. Você consegue uma educação melhor, um colégio melhor, não sei, carinho eu não diria mais, porque de mãe não se substitui, mas você tem essa segurança toda, dada por um casal gay. E nós estamos discutindo hoje em dia se deve permitir um casal gay adotar uma criança ou não deve adotar uma criança. Tem uma discussão na sociedade: deixa adotar, ou não deixa adotar. Não deixa, porque senão a criança vai virar gay também.

Sherlock: Ah, não, pelo contrário. Admiro demais e gosto demais de mulher mesmo.

Luciano: Pois é, você não virou gay pelo fato de estar sendo educado por um casal gay, não é? Quanto tempo você morou com eles?

Sherlock: Morei bastante tempo. Eu fui para lá, acho que ele me pegou com seis, sete assim e aí eu fiquei bastante, até uns quatorze anos.

Luciano: Você chegou a descobrir que ele era gay enquanto você estava lá com ele?

Sherlock: Luciano, realmente, ninguém diria que ele era gay, mas os amigos dele, sim, eram mais alegres, vamos dizer, mas gente muito legal. O que é triste nessa época da AIDS é que era muito estigmatizado. Então hoje eu penso no sofrimento do meu irmão, de ver amigos queridos morrendo um a um. Isso foi muito duro, porque tinha gente muito querida, que frequentava a casa, mas era coisa assim, altos papos, era muito legal, porque o ambiente, hoje em dia ainda tem muito disso de, falou em gay, você já pensa que está na gaiola das loucas lá do filme. Não, cara, eu era um menino que andava só de social, sapatinho, camisa, sabe. Era o moleque cdf da escola. Em casa só se ouvia ópera, só se ouvia concertos. Então, aí começa esse benefício de eu ter ido morar com ele, porque a cultura já ali, eu menino, vira uma coisa espantosa. Esse amigo do meu irmão era italiano e gostava muito de colocar as óperas e traduzir em tempo real, então ficava aquela coisa, era muito legal. Tenho muita saudade da experiência da época, das conversas. Eu, criancinha ouvindo aqueles papos de adulto assim, mas não tinha nada de baixaria, nada. Tanto que na época eu nem me ligava de nada. Depois que você se toca, quando você está mais jovem, pô, todo mundo morreu de AIDS, meu irmão morreu de AIDS, todos os amigos dele eram mais assumidamente. Mas problema nenhum com isso, porque eu posso falar hoje que o homem que eu mais admiro na vida, que mais me ajudou, era um gay, era negro. Negro que venceu muito na vida, não tinha mi-mi-mi, se você falasse com o meu irmão de injustiça, era capaz que você ia ver, primeiro que era altão, muito seguro de si, muito realizado, se fez, sabe, batalhou, estudou, viajou, tinha realmente conteúdo, então não tem problema se começou pobre, se era negro, se era gay. Tudo que você puser de minoria, o que é que tem, se o cara foi e passou por cima disso assim de uma maneira exemplar, cara.

É um cara que eu gostaria muito que estivesse vivo, porque ele teve a chance de me ver tocar ao vivo uma vez e aí que eu vi meu irmão chorando, emocionado. Gostaria de poder ter orgulhado mais a ele. Esse meu irmão, quando eu fiz dez anos, ele vem com uma pergunta crucial “Você quer um violão de presente?” Ele era muito rígido, com o estudo, meu irmão era um cara assim, na escola, se você tirar nove você não tinha parabéns, não, igual hoje em dia, sabe, o filho tirou seis, ah, tá bom, ainda bem que não foi… [riso]. Se você não tirasse dez, via que… já ficava esperto. Então meu irmão falou, você quer um violão? A primeira coisa que uma criança de dez anos pensa, eu vou ganhar um brinquedo. “Quero, quero.” “Então eu vou te dar um violão.”

Luciano: Sorte sua, cara, que não tinha celular naquela época lá ou Ipad. Senão seria, você quer um violão ou quer um Ipad? Toda a molecada vai no Ipad.

Sherlock: E sorte minha também de não ter essas coisas na época, até avançando um pouco, aí eu já volto lá, é que graças a não ter nada dessa tecnologia, meu ouvido se formou de uma forma, Luciano, que hoje a galera não sabe muito o que é. Ter que tirar a música ali na fitinha, parando, o pedacinho que você não ouviu, você volta, você não tem o vídeo do músico mesmo tocando, para você ver os dedos dele, sempre imaginando como que faz, então é outro mundo, mas isso te torna um músico mais preparado, eu acho, do que hoje tudo na mãozinha.

Luciano: Quer dizer, ele te ofereceu um violão e você entendeu aquilo como um brinquedo, vou ganhar um brinquedo?

Sherlock: Sim, mas aí ele deixou claro logo em seguida que isso não vai ser um brinquedo, não, eu vou te dar o violão, o professor e ai de você se você não estudar direito isso aqui. Me deu até medo, porque, apesar que eu nunca levei uma surra na vida, mas eu sabia que ele era capaz [riso].

Luciano: Bastava a ameaça. Como era o nome dele?

Sherlock: Carlos.

Luciano: Carlos. Então fica aqui nossa homenagem ao Carlos, que legal.

Sherlock: E aí com dez anos eu ganhei o violão, ganhei o professor e ganho o Carlos no meu pé toda semana. Isso me faz ver como o fator disciplina é importante. Às vezes, eu tenho aluno que o filho está pequeno, “Ai, mas e se ele não gostar da música,” não é? Aí você vê no YouTube os filhos desses chinesinhos, desses orientais, praticamente acho que na barriga da mãe já tinha um instrumentinho lá, não é possível que toca tanto assim, mas aquilo é disciplina, é incorporar no dia a dia da criança algo que a criança não vai julgar, não vai escolher.

Luciano: Você sabe que hoje em dia, depois de todo o tempo que eu estou passando aí de vida, de consultoria, de palestra, conheci um monte de gente, o trabalho que eu faço grande em cima de liderança e tudo o mais, se você perguntar para mim qual é o primeiro atributo que eu acho que alguém tem que ter para ser um profissional bem-sucedido, é disciplina. Profissional, não, para você ser bem-sucedido em qualquer área de atuação na sua vida, para mim, o número um é disciplina, o resto é tudo perfumaria, entendeu? Você, com disciplina resolve cem por cento das questões, inclusive psicológico. Botou disciplina na frente e esse eu estou vendo que é o problema que eu enxergo por aí, sempre que você bate, é falta de disciplina. Fez mal feito, indisciplina. Não conseguiu, indisciplina. Eu estou fora do peso por quê? Por falta de disciplina. Não é não tenho vontade. Não, cara, eu não tenho é disciplina, se eu tiver disciplina, eu consigo vencer esses parâmetros todos.

Então para mim é base isso, o Brasil está em crise por falta de disciplina. Falta de disciplina até para eleger os políticos, nós não temos nem disciplina para eleger o político, que dirá o político que está lá, tomando decisões de forma indisciplinada também. Estamos agora vendo esse rolo do STF e tudo o mais, o que que está acontecendo? Pô, juiz indisciplinado, cara, se seguisse a disciplina não faria o que faz. Então, eu acho que esse é um atributo que você levanta aí que é fundamental. Disciplina que o Carlão soube te dar.

Sherlock: Soube, soube me dar. Eu agradeço sempre por cada pegação no pé, viu, do meu irmão chato e querido.

Luciano: Mas aí você está aprendendo a tocar violão com dez anos de idade, é isso?

Sherlock: Isso.

Luciano: Você já tinha ideia do que queria ser quando crescesse?

Sherlock: Não, mas foi um encontro, porque assim eu vi que com o violão eu tinha até mais pressa do que o professor. Enquanto ele estava arrumando minha mão direita no dedilhado e sem nota nenhuma na mão esquerda para apertar, eu ficava impaciente com aquilo, eu já queria ir além. Você toca um pouco, não é?

Luciano: Pouquinha coisa, eu já toquei mais, mas eu parei uma época grande e acabei perdendo a…

Sherlock: Eu fiz uma dedução meio burra, na época, que eu achei que a casa um era dó, a casa dois era ré, depois era mi, era fá, então eu tocava a casa 1-2-3-4, fazendo dó-ré-mi-fá, mas não era [risos], mas é que eu queria já ir para a frente e o professor, não, mão direita e as cordas soltas, nada para a mão esquerda durante uns quatro meses. Eu já estava empapuçado e, de novo, estava empapuçado, mas isso fez a minha mão direita ser muito mais preparada. Então essa ansiedade de querer tudo assim na hora.

Luciano: Quando você sentou a primeira vez lá e botou o violão, não quando você ganhou o violão e pegou ele na mão, quando você sentou na frente de um professor e ele falou é assim que você senta, é assim que você põe e que você pegou o violão do jeito que se pega o violão, você sentiu que aquilo era alguma outra, que tinha algo, começou uma relação ali com aquele instrumento? Era um objeto só que você estava manipulando, ou pintou aquele negócio sagrado, quando você pegou falou cara, algo está acontecendo aqui, aconteceu isso?

Sherlock: Aconteceu.

Luciano: Como é que foi, cara?

Sherlock: Aconteceu e, como eu te disse, eu queria tirar música do instrumento, sem nem saber ainda os fundamentos para isso. Então eu já queria inventar acorde, já queria achar que a nota era tal. Era desse professor de conservatório bem rígido, então você nem podia perguntar o que vinha depois que “Não, mão direita aí, faz o seu dedilhadinho.” E eu, querendo ir na frente dele e acabou que eu comecei a ir para a frente dele, sim.

Luciano: Você tinha teoria musical também, tinha solfejo, aquela coisa toda lá? Cara, isso é um inferno para um moleque de dez anos, bicho.

Sherlock: Necessário, muitos infernos são necessários.

Luciano: Eu sei que é necessário, porque eu fiz também, no comecinho também foi assim. Que coisa, hoje eu lamento profundamente não ter mergulhado na teoria, porque na minha cabeça é o seguinte, se eu quiser tocar bem um instrumento, eu deveria antes pegar a teoria musical. E não importa o instrumento que eu vou tocar depois, antes eu deveria ter entrado na teoria e entender como é que funciona a matemática da música, como é que funciona essa matemática, e a aí eu vou para o instrumento. Então se eu conseguir traduzir essa matemática para o instrumento, acho que eu ganho muito e fica muito mais fácil, porque aí é questão de desenvolvimento de habilidades, mas pelo menos a lógica, o que vem depois do que, por que é que vem, você pega na parte da teoria. E eu não fui na teoria, cara, eu fiz um pedacinho da teoria, depois larguei e com essa pressa desgraçada, tinha que sair a música, aí a música não sai, você se frustra e acaba que larga.

Sherlock: Mas vou te dizer, conheci uma professora de piano que era show de bola. Ela punha uma partitura na frente, coisa difícil, tocava, arrasava mesmo. Eu dei aula um tempo num conservatório que tinha no Brooklin e eu ficava besta com essa pianista, muito chique, muito bonita, elegante, tocava demais. Eu falava, nossa, é muito atributo numa pessoa só e realmente, tocava muito, muito. E um dia eu estava sentado, tinha um banquinho desses de praça na frente da escola, e ela tocando, ela terminou, só que eu estava com o violão na mão, eu fiz uma finalização de blues do que ela tinha acabado de tocar. Ela parou tudo e veio falar comigo, assim “Ai, como eu gostaria de saber ter essa espontaneidade musical e fazer esse finalzinho que você fez, porque tudo o que eu toco…” depois ela me explicou, “…é lendo, é algo que alguém pôs no papel.” E quando ela não toca lendo, é porque ela memorizou, mas ela está sempre…

Luciano: Não consegue se colocar, colocar ela mesma ali.

Sherlock: Uhum. Então tem muito músico assim, é como se fosse um excelente leitor, que consome vários livros, pode até decorá-los e falar de cabeça, mas nunca escreveu uma redaçãozinha. Então o meu trabalho é puxar esse músico que tem dentro da pessoa. Eu não sou tão chato com essa coisa, se o meu aluno não quer aprender partitura, ele não aprende, mas é porque o que eu estou puxando dele é outra coisa. Uma porque a maioria que me procura já toca, sempre já tem alguma experiência, já ouviu falar. E às vezes o cara já faz uma graça, mas, por exemplo, um guitarrista, às vezes ele faz uns ritmos de guitarra famosos, que ele viu ali no livro e pegou um vídeo e copiou até fazer e ele tem exatamente essa frustração dessa professora de piano.

Luciano: De não conseguir fazer o dele.

Sherlock: Ele fala, eu não faço nada meu, eu só toco cover.

Luciano: Você sabe que o Ricardo, meu amigo Ricardo Jordão Magalhães, a gente fez agora, chegamos do Epicentro aqui agora, chegamos lá e no meio da palestra dele, ele batia numa tecla que falava o seguinte, “Vocês sabem quem é Paul MacCartney?” “Sim.” “Paul MacCartney não sabe ler uma partitura até hoje.” Cara, ele tem setenta e tantos anos de idade, fez algumas das músicas mais emblemáticas da história da humanidade, para mim, ele está no patamar de Tchaikovsky, de Brahms, cada um na sua época marca a humanidade como esses caras marcaram e esse cara não lê partitura. Então o que é aquilo, cara, está dentro dele a música e ela sai, com quatro acordes o cara faz um Hey Jude, sei lá, que fica para o resto da vida, para a história. Estamos voando já, vamos voltar atrás. Você ganha o violão e começa a aprender a tocar violão e aí eu volto para aquela pergunta…

Sherlock: Só um complementozinho. Muita gente vem, às vezes, lotado de teoria. Hoje em dia a teoria está fácil de você ter acesso. Então chega aquele cara que conhece tudo o que é escala, faz para cima e para baixo e não sabe é aplicar. Ele não tem como tirar música dali, é uma mão robótica e é aí que eu gosto de entrar.

Luciano: Mas você então, quando ganha o violão e começa a ter aula de violão, você não tinha em mente ainda o que eu vou ser quando crescer, que diploma eu vou tirar? Você já tinha um caminho traçado, eu quero estudar Letras, quero… você já sabia o que queria fazer?

Sherlock: Eu sempre gostei muito de escrever, gosto muito de poesia, tanto que meu livro está para sair e era o que eu mais assim… O pessoal falava, tão novinho e já escreve. Eu lembro que eu fazia cartinha do dia das mães que a família chorava e eu adorava aquilo, sabe.

Luciano: Mas você sabe, vou para Letras, vou para Jornalismo, pintou alguma coisa assim na tua cabeça, ou não? Ou você não chegou a pensar nisso?

Sherlock: É que o violão me pegou de um jeito, mas nessa fase era tudo ainda música erudita. Já no ambiente daquele apartamento só se ouvia, como eu falei, consertos, músicas de óperas e tal. Quando meu irmão estava muito assim querendo mudar um pouquinho, ele punha Pink Floyd, só que era Pink Floyd que na minha cabeça aquela viagem toda, eu entrava numa onda ali ouvindo, então nem fazia muita diferença se fosse um disco de Tchaikovsky ou se fosse o Pink Floyd. Eu gostava de ouvir as músicas compridas.

Luciano: Era como integrar na música.

Sherlock: E os discos do Pink Floyd têm faixas que hoje não tocariam nunca. Aliás, hoje o pessoal pega uma música para ouvir, dá dez segundos, troca para a próxima.

Luciano: Está ficando assim cada vez mais.

Sherlock: E quando, com 14 anos eu já estava tocando, mas tudo naquela linha formal, erudita do violão. E meu pai resolve me pegar para ir morar com ele, porque meu pai nunca me abandonou, Luciano, meu pai sempre vinha me visitar. Eu era o filhinho dele, sabe, que ele vinha, me pegava para passear, aí depois devolvia, me levava para viajar com ele.

Luciano: Ah, então eu tenho que suspender aquele filho da puta lá detrás?

Sherlock: Sim. Amor não me faltou, nem de mãe, nem de pai, nossa, muito legal isso. Então meu pai sempre estava me buscando, e para mim era uma alegria, o pai veio me ver e tal. E graças a isso, eu sou o único dessa gente toda de irmãos que conheço todo mundo, todas as famílias, me dou bem com todos, porque meu pai me pegava pela mão e vamos visitar a casa um, vamos visitar a casa três. Então eu conheci todo mundo.

Luciano: Cara, se você falar isso hoje em dia é uma doideira. Veio aqui fazer um LíderCast, uma das pessoas que esteve aqui, ele tem tipo dez irmãos na família, oito, sete irmãos, não me lembro, era um monte de irmão e aí ele casa, ele tem um filho. Eu falei, cara, você foi criado a vida inteira com um monte de irmão e agora que você casou você tem um filho, por que um filho só? Pô, cara, não dá para cuidar de mais de um, não dá para criar, hoje em dia está complicado, não tem mais grana para criar tanta gente assim. E teu pai, cara, foi botando família. Se bem que se ele largasse a família para trás é complicado.

Sherlock: Hoje eu sei que meu pai tinha uma coisa de antigamente também, que quem podia às vezes, se tinha alguém em complicação assim, sei lá, a pessoa teve um filho e não pode criar, ele pegava para ele criar.

Luciano: Mas largou tua mãe com vocês três, cara.

Sherlock: É. É estranho, não é?

Luciano: O problema era com ela? Era ele e ela?

Sherlock: É, pode ser. Eu nunca vou ter algumas respostas, Luciano, não sei. De toda forma, assim ele me pegava para passear e nessa ele falou “Vem morar com o pai um tempo.” E aí eu conheci mais a fundo um outro mundo.

Luciano: Você foi morar com ele, seu irmão estava vivo ainda?

Sherlock: Estava. Fui com uns 14 anos.

Luciano: E muda o ambiente completamente.

Sherlock: Totalmente. Aí eu saí, fui morar na Vila Jaguara, que é perto dos Remédios, não sei se você conhece, já caminho de Osasco, numa casa muito festiva, mas de outra forma.

Luciano: Aí o pagode entrou na sua vida [riso].

Sherlock: Não, o pagode, não. A música sertaneja. Meus tios do coração.

Luciano: Tios, então era o sertanejo de raiz. Maravilhoso.

Sherlock: De raiz. Aí eu vi aquela mão de ritmo de polca, de guarânia. Rapaz, eu falei, tudo isso que eu toco aqui é nada agora de novo, poxa.

Luciano: Diante de uma violinha caipira.

Sherlock: Caramba, Luciano, que legal. E o pessoal ali frequentava uma igrejinha evangélica dessas bem tradicionais, Assembleia de Deus quando ainda a mulherada não cortava o cabelo e nem punha calça comprida.

Luciano: Os crentes.

Sherlock: É. E isso também foi legal, porque aí você está lá, está acompanhando, você vai um dia no culto, aí toca a guitarra. Quer dizer, aí é que eu fui ter acesso à guitarra. E aí comecei a tocar, rapidinho estava ali já tocando.

Luciano: Fala dessa tua sensação, quando você deixa o violão de lado e pega uma guitarra pela primeira vez e vai dedilhar aquela coisa estranha que parece um violão, mas não é um violão, o peso é diferente do violão, a pegada é magrinha. Como é que foi isso aí, quando você pegou aquele bicho e deixa eu ver o que sai daqui? Você tinha interesse em guitarra, na época?

Sherlock: Eu tinha interesse, assim eu toco violão, guitarra e baixo, me dou muito bem com instrumentos de corda. Mas eu não tive toda essa experiência de quem cresceu ouvindo rock, os clássicos do rock. Com 14 anos eu não conhecia Led Zeppelin, não conhecia Black Sabbath, Iron Maiden, nada disso.

Luciano: Mas ouvia a guitarra do Pink Floyd.

Sherlock: Sim, mas aquela suavidade gostosa, viajante. Então tive acesso à guitarra porque nessa igrejinha tinha uma guitarra. E aí eu peguei a guitarra, gostei, mais macia, tal e ficava lá também. Mas a experiência foi muito boa porque naquela época você chegava, aí o pastor falava para aquela irmãzinha “Vem dar o seu testemunho, irmã Maria”, ela chegava lá “Saúdo aos irmãos, a paz do Senhor, eu vou cantar o hino 93” e abria a boca e começava a cantar.

Luciano: Aí você tem que ir atrás.

Sherlock: Cara, você tem que achar a tonalidade, mudar os acordes de acordo com o que ela está cantando. Então cair nessa…

Luciano: Improvisação.

Sherlock: É, um desafio é a palavra que eu queria. Um desafio de ter que dar conta desse recado e muito rápido, porque fica muito mico você estar lá na frente buscando os acordes, a mulher acaba de cantar e você ah, é lá maior, agora eu peguei.

Luciano: Essa é a vantagem que o baterista leva. Se você estiver na bateria, abre a boca aí que a bateria não tem fora do tom, acorde errado ali.

Sherlock: Então foi muito bom, porque desenvolveu um outro lado meu. Felizmente, porque me tirou da coisa regrada da música erudita e me leva para esse mundo, dá conta aí de uma coisa muito espontânea, vamos começar a cantar, você tem que ir atrás. E a outra irmã vai cantar outra música, em outro tom, não tem pastinha, que nem hoje as igrejas têm, tudo ensaiadinho. Hoje em dia, acho que nem vai gente pedir hino e tal.

Luciano: Que idade você tinha?

Sherlock: Eu tinha 14.

Luciano: Que é uma época interessante, porque você é um buraco negro, você está aprendendo. Você vinha vindo regradinho, como é que é, nas óperas, na música clássica e tudo o mais, cai de repente no hino gospel, em casa ouvindo o sertanejo, imagina esse universo alimentando, que legal.

Sherlock: E aí eu vejo o baixista da igreja também, falo ôpa, tem menos corda, mas o som disso aí é legal também. Aí já falei, vou tocar isso aí também, vou dar um jeito de tocar isso aí também. O que é que acontece, eu fui morar com o meu pai também porque meu irmão viajou, ele foi para a Itália um tempo. Com 16, ele volta, todo animado dessa estadia lá e fala “Você precisa ir estudar agora na Itália.” Você vai para lá e de novo meu irmão assume esse papel de pai e me concede essa benção de ir estudar fora, de ir morar em Milão. Aí a cabeça deu uma explosão, Luciano.

Luciano: Com que idade?

Sherlock: 16 anos.

Luciano: 16 nos, você vai para morar em Milão.

Sherlock: Tem o Conservatório Giuseppe Verdi, tem o Teatro Scala, é muito bonito. Na Itália falar que é bonito, é igual falar que a comida de lá é boa.

Luciano: Mas você foi para estudar música.

Sherlock: É, no Conservatório Giuseppe Verdi. E até assim para a minha idade, mais velhinho do que a criançada. E eu já fui assim vou tocar uma composição minha aqui. Mas o que era legal mesmo, assim na praça ali tinha muita música rolando, muito show de banda conhecida. Fora que na época aqui, a televisão daqui era aquela coisa, canais que você contava no dedo e eu chego lá tinha tanto canal de música, os programas de auditório com uma qualidade musical. Tem a música italiana que a gente poderia até chamar meio breguinha assim, mas o legal é que eles não abrem mão da música deles, como aqui a coisa fica datada.

Luciano: Um dos Cafés Brasil que eu mais gosto de assistir, se falar da lista dos cinco mais que eu fiz, foi um Verdi, foi quando eu fiz um programa dedicado a opera, onde eu imaginei o seguinte, cara, como é que eu consigo fazer um programa de ópera para um público que, não necessariamente, além de não gostar, odeia ópera? Essa mulher gritando, esse gordo gritando, que é um negócio que é um saco. Como é que eu faço um programa que tenha a ver? E aí eu montei um programa que nasce a partir da composição do Verdi, colocada num contexto. Você lembra dele, não é?

Sherlock: Sim, sim, me fez chorar.

Luciano: Cara, aquilo foi tão impactante para mim, sabe, que quando eu terminei de fazer o programa, que eu parei, olhei, se eu tinha alguma dúvida se eu gostaria de ver ópera, porque até então eu não curtia, foi a partir daquele programa que eu falei, cara, agora eu vou de cabeça. E a partir dele eu começo a mergulhar num mundo que é um negócio impressionante, porque quando você não tem contexto, você ouve um cara gritando e aquilo é um saco. A hora que você contextualiza as coisas, vira outra coisa e você começa a trazer a genialidade dos caras que estão por trás daquilo, do cara que compôs. Você pega um Verdi, o que o cara faz é inacreditável. O cara que canta aquilo, a mulher que canta aquilo, quem toca aquela música, é um conjunto de gênios, que aí começa a ter uma beleza que sem contexto você não consegue apreciar, você olha aquilo e só vê gritaria.

Sherlock: Esses compositores, Luciano, não dá nem para comparar quando você ouve aqui uma musiquinha, voz e violão que é refrão repetidamente, que a musiquinha dura três minutos, senão a rádio não toca e é só aquela harmonia no violão. Tem que imaginar que o Mozart, Verdi mesmo, as camadas. Então a música erudita, o gostoso é você descobrir como ouvir, porque você não ouve só quem está cantando, se você começar a desmembrar, você começa assim, o que os metais estão fazendo, o que as cordas estão fazendo? Você vai vendo música se entrelaçando de uma maneira, melodia se entrelaçando. Bach era gênio nisso, Bach num piano parecia dois, três pianistas ao mesmo tempo ali tocando junto.

Luciano: Deixe eu só dar uma dica, que quem não conhece vai estar perguntando, é o Café Brasil 457, Va Pensiero.

Sherlock: Então, eu estava aonde? Lá na igrejinha. Aí eu fui para a Itália e aí eu descubro, aí sim, a guitarra bem tocada. Eu já caio assim num cara que chamava Malmsteen estourando ali e quem conhece do mundo da guitarra sabe que esse cara foi um divisor de águas entre tocar de um jeito e… E como eu gostava muito de música erudita, porque o Malmsteen era o que, era uma expressão de Paganini na guitarra, vamos dizer. Ele usa as mesmas frases, as mesmas escalas, só que está distorcido, mas é quase “chopinhado”, mas foi a escola dele, é tudo o que nutriu ele, então ele pôs na música dele e criou essa novidade toda, que ele ganhou o mundo.

Luciano: Como que era o primeiro nome, Yngwie?

Sherlock: É.

Luciano: Yngwie Malmsteen.

Sherlock: Isso. E aí eu falo gente, dá para unir esses mundos, dá para guitarra fazer isso? Fiquei louco, aí comecei a descobrir tudo o que era guitarrista também. E depois o Malmsteen traz um monte de gente querendo ser também como ele.

Luciano: Vamos dar uma pausa aqui, vamos botar um pouquinho dele aqui, para a turma saber do que nós estamos falando, espere aí. [música].

Sherlock: Pode perceber que parece uma coisa de violino mesmo, só que está na guitarra. Aí eu falei, quero uma guitarra já. E o legal na Itália é que você trabalha de qualquer… acho que qualquer… eu tenho um aluno no Canadá, por exemplo, que trabalha de levantar drywall e tem os melhores instrumentos que ele pode sonhar, porque você ganha mesmo num serviço mais… eu fui ser garçom, para ter minha guitarra. Não tenho vergonha nenhuma disso, porque, nossa, entrei naquela loja enorme assim e falei é essa, com alavanca, tudo. E aí eu fico fascinado com isso e consigo ter uma guitarra boa, porque até aqui na igreja eu já tinha uma, mas o que se achava aqui no Brasil era muito ruinzinho, não vou falar ar marcas, mas aí eu descobri que todo mundo…

Luciano: Mas fala da marca boa que você comprou. Qual foi que você comprou?

Sherlock: Olha, ela não é muito conhecida, mas para o meu mundo ela foi demais, é uma guitarra Weston, não sei nem se se fabrica mais. Essa foi a primeira, então foi muito amada, mas era uma coisa que eu nunca tinha visto aqui.

Luciano: E até então você não estava ganhando a vida com isso, ainda não era ganha-pão? Ou você já tinha uma perspectiva de que isso será minha profissão, vou, quero trabalhar com isso para o resto da vida, quero ganhar dinheiro com isso?

Sherlock: Já.

Luciano: Já tinha essa ideia.

Sherlock: Porque assim, quando eu estava tocando na igreja aqui, com o meu pai, eu um pouco destacava por já ter uma mão que fazia as melodias e tal, então o pessoal começava, você dá aula, não sei o que. Então já começa aquela coisa de ser professor. Então quando eu volto para cá, 18 anos eu tive que voltar, aí meu irmão estava realmente doente e quando eu cheguei eu fui conhecer uma escola de música aqui e o dono me conheceu lá em Santana e falou “Vem trabalhar comigo, eu quero você aqui dando aula.” Então, nesse momento, começa a minha profissão, com 18.

Luciano: Pausa, vamos na nossa narrativa paralela. Esse é o momento em que o seu irmão se descobre doente. E ele soube logo de cara que era AIDS ou como é que foi? Como é que essa notícia chegou, como é que isso foi assimilado por vocês? Ou não se falou no assunto, como é que foi?

Sherlock: Olha, naquela época, Luciano, a AIDS destruía a pessoa mesmo. Teve um amigo dele, muito querido, que ficou de um jeito que até foi perdendo os dentes, ficou cadavérico. Ele acompanhou tudo isso. Não tinha tratamento bom, então quando ele começa a ficar doente assim, por ter perdido tantos amigos para a doença, ele sabia o que tinha. Até se demorasse mais um pouquinho, já ia estar lançando…

Luciano: Os coquetéis.

Sherlock: É, mas enfim, aí minha mãe cuidou dele nessa fase final. E mesmo assim é muito gradual, sabe, a doença não te derruba de uma vez, mas eu vi ele num estado bem delicado. Eu tenho um grande arrependimento na vida, entre outros, mas esse me toca muito, se eu pudesse voltar no tempo, do meu irmão, um dia que eu fui visitá-lo, ele falou “Você pode fazer minha barba? Estou sem força para fazer a barba.” Que estava uns pelinhos assim e, cara, eu não sei se inconscientemente, fui falar com a minha mãe e tal assim e fui embora. E depois falei, puxa, nem fiz a barba do meu irmão. Luciano, como eu queria voltar no tempo e ter feito aquela barba, rapaz, sabe. Porque alguém me deu tanto, sabe, que investiu tanto em mim, nunca pediu nada, pediu uma vez, ‘faz a minha barba’ e eu fui embora, achei que era uma coisa boba, “Ah, amanhã ele faz, ou eu volto aí outro dia, ele faz.” Não tem outro dia, quando um momento assim se apresenta é ali e agora. Você não sabe, você nem precisa estar doente, um pedido bobinho, mas amanhã a pessoa tropeça, bate a cabeça na quina, acabou e você não pode fazer aquilo e vive o mesmo arrependimento. Então eu tenho isso quando eu lembro dele nessa fase final.

Luciano: Tem um lance a respeito disso aí interessante num dos livros do Amyr Klink, que ele conta uma passagem que é uma delícia, que ele está no alto oceano, está lá sozinho no barco dele, de repente, ele olha em volta à noite e começa a brilhar a água em volta do barco, tudo brilhando, começa a brilhar de noite, fica aceso como se fossem luzes ali, eu não me lembro o que era, se eram plânctons, o que era, alguma coisa que tinha lá que iluminava e deixava aquela coisa maravilhosa e ele olha aquilo tudo “Que fantástico, vou fotografar, mas agora não dá. Amanhã eu fotografo.” E nunca mais aquilo apareceu durante a viagem dele inteirinha. Ele falou, cara, se eu não tivesse tido a preguiça de pegar a máquina naquele momento, eu teria imagens que nunca mais tive, porque eu achei que ah, daqui a pouco dá para fazer, e deixou passar o momento. Traz isso para essa tua história aí, cara, é a mesma dimensão. É uma bobagem, não fiz e para ele talvez significasse tanto e você não guardaria isso para o resto da vida como algo que eu deixei de fazer.

Sherlock: E aí, dando aula nessa escola em Santana, aí teve aquela apresentação de final de ano que foi feita numa casa de shows mesmo e eu tive a sorte de meu irmão ir assistir.

Luciano: Ele te viu então.

Sherlock: Então ali ele percebeu, ele ficou orgulhoso mesmo. Nossa, depois ele saía falando para tudo que era amigo. E o Nill, que era ex-Dominó foi meu aluno e logo me chamou para tocar com ele. Aí eu tive a chance de ir nos programas de TV, acompanhando o Nill e meu irmão também viu aquilo. Então você tinha que ver como ele ficava babão, coisa de pai mesmo, mas era muito legal. Então essa alegria dele assim compensou muita coisa. Meu pai também morreu logo, de diabetes. Mas eu chegando aqui no Brasil, o impacto da Itália foi tão grande…

Luciano: Quanto tempo você ficou lá?

Sherlock: Uns dois anos e pouco.

Luciano: Pensei que era meses, cara, dois anos.

Sherlock: O impacto foi tanto que eu voltei com outra cabeça, Luciano. Eu cheguei aqui, falei, quero já ir morar sozinho, vou alugar meu apartamento.

Luciano: Então você volta formado em alguma coisa ou não?

Sherlock: Não, não deu tempo.

Luciano: Por que você voltou?

Sherlock: Eu voltei para estar aqui hoje com você, entre outras coisas, Luciano. Não tem um motivo certo e que por um tempo eu pensei, por que eu voltei? E hoje, que bom que eu voltei.

Luciano: Quer dizer, não houve uma razão. Chegou uma hora você falou, cara…

Sherlock: Era coisa assim familiar, muita saudade da minha mãe, meu pai.

Luciano: Então esse foi o motivo, você não teve lá um problema, um coração partido, uma briga, acabou teu visto, te mandaram embora. Não teve nada, foi uma decisão sua, de estar na hora de começar outra fase.

Sherlock: Não. Eu tinha amigos muito queridos também, uma turma da igreja que eu gostava muito. Depois a gente fez uma banda também, chamada Banda Essência, quem é do meio gospel deve ter ouvido falar. E aí me deu muita saudade dessa turma toda. Eu voltei porque o meu irmão às vezes ficava meio mal assim e tal. Sabe, vem para cá, vem visitar, não é? Mas aí começo a trabalhar, já alugo o meu espaço.

Luciano: Isso, você voltou com essa consciência da independência, vou me virar.

Sherlock: Nossa, sim. E eu fui, aluguei lá em Pirituba, do lado do shopping Pirituba tem uns prediozinhos, aluguei ali. Eu fui morar ali, Luciano, com o meu tesourinho, que era minha caixinha de LP, o aparelhinho de som e um colchão de dobrar.

Luciano: E o violão.

Sherlock: É. Sim, e o violão. E então de noite, para dormir, desenrolava o colchãozinho e o que não podia faltar era música. E aí já dando aula nessa escola eu fiz amizade com professores. Então, olha, eu posso te dizer que as noites mais felizes, de passar a noite rindo, com amigo, que os problemas, mas que problema, não é? Foi nessa fase, eu morando nesse apê, que não tinha TV, que não tinha nada, sabe.

Luciano: Que idade você estava?

Sherlock: Eu estava com quase 19. Nossa, como foi divertido, como foi legal.

Luciano: Sabe que eu escrevi um texto, acho que até fiz um programa um tempo atrás, onde eu comentava essa coisa de você precisar do dinheiro para ser feliz. E eu provocava o ouvinte falando o seguinte, cara, volta para trás na tua vida e lembra dos momentos mais fantásticos da sua vida e tenta imaginar se aquilo aconteceu por causa do dinheiro. E a maioria absoluta falava não, cara, nenhum desses momentos tinha dinheiro envolvido. Não é que aconteceu só porque eu tinha grana, aconteceu porque eu estava num ambiente muito legal, onde o dinheiro não era o principal. Quer dizer, eu estava morando num lugarzinho ruim, ganhava uma graninha minúscula, não tinha grana para nada.

Sherlock: Na época, essa escola pagava tipo 20% para quem dava aula. Depois teve um aumento, aí passamos a ganhar 25%.

Luciano: E não era isso que fez a tua felicidade naquele momento.

Sherlock: Não, acontecia de ter que rachar almoço com outro professor, sabe.

Luciano: Eu rachei hambúrguer, eu rachei cheeseburguer [riso].

Sherlock: É e aí assim já começo a ter sonhos assim de banda. O dono da escola, eu não sei se você já ouviu falar numa banda chamada Platina, que antigamente aqui no rock nacional se destacava, naquela época da Chave do Sol, de outras bandas assim, que tinha a banda Taffo.

Luciano: Platina eu não me lembro. Tem no YouTube alguma coisa?

Sherlock: Deve ter.

Luciano: Se tiver, eu vou achar e vou tocar aqui.

Sherlock: Uma formação do Platina tinha acabado e o guitarrista, o Dario me chamou para ser o novo baixista. Aí eu peguei o contrabaixo para valer, já tocava, mas aí eu queria tocar bem. Uma porque o Dario também é exigente, é muito bom, ele faz tudo com aquela…

Luciano: Excelência.

Sherlock: É e aí o baixista dele tinha que ser assim também. E eu falei beleza, vou ser o baixista do Platina então. O Platina novo nunca virou, mas teve ensaios muito legais [riso]. E aliás as amizades que me trouxe é que são os reais tesouros disso. Então eu estava nessa coisa já da aventura do contrabaixo também. E repito, naquela época, você tinha que tirar as coisinhas ouvindo direitinho, você não tinha o visual, você só tinha o áudio. E eu já interessado como um baita músico, então como que faz isso. Um baixista que foi minha raiz se chama Stuart Hamm. Ele fez baixo para o Satriani, por exemplo. Geralmente, você vê um show do Satriani, ele é que está lá. Aí eu falo, caramba, como que faz isso? Porque era um som muito estranho, porque ele fazia com as duas mãos, como se fosse um piano no braço. E eu tirando aquilo de ouvido e fui e isso foi desenvolvendo a minha técnica de tapping também. O que acabou, com a outra banda que eu tinha, gospel, nos shows parava tudo, “E agora o solo do Sherlock” e eu fazia os tappings lá e gostava muito dessa coisa meio de… E aí estava completado o ciclo da guitarra, baixo e violão. Desde essa época não tem mais a resposta para a pergunta, “Mas você prefere o quê? Você gosta mais do quê?” Não tem, cara. Tem dia que eu acordo assim, eu sou baixista, tem dia que eu acordo, sou guitarrista e o violão também às vezes me pega. E o ukulele que eu dei para a minha namorada também, que ela não toca, toco eu.

Luciano: Fascina, não é. O que me fascina no ukulele é a simplicidade. Você olha assim, tem menos corda e os acordes são mais simples, é tudo simples e da simplicidade saem coisas fantásticas. Tem uma gravação que eu botei do Bohemian Rhapsody no Café Brasil 275, do menino lá, esqueci o nome dele agora aqui… Jake Shimabukuru, ele toca o Bohemian Rhapsody inteirinho no ukulele, é maravilhoso, cara. E você olha para aquela coisinha, fala não é possível que tanta música saia de um instrumento tão simples.

Sherlock: Aí, como eu falei, eu tenho contato com o Nill, a gente fica amigo também, acabo gravando com ele e viro guitarrista dele.

Luciano: Então você tinha duas frentes, estava dando aula de um lado e estava se aventurando no show business de outro, não é isso?

Sherlock: É.

Luciano: Mas pintou na tua cabeça de que vou investir nesse lugar, vou montar um plano para que minha carreira vá para um canto ou para outro, ou você, vou vendo onde é que vai, deixa a vida levar, como é que foi isso?

Sherlock: Luciano, eu sou assim grato muito ao Dario, que foi esse amigo que me deu oportunidade de começar a dar aula. Quando eu me descubro professor, qualquer coisa era além de professor.

Luciano: Então primeiro professor?

Sherlock: Primeiro professor. Até hoje, se alguém me chama para alguma “ah, vem fazer parte disso”, eu já tive ofertas assim de larga tudo e vem para a música, eu banco aí os seus alunos. Eu falo não, meus alunos eu remanejo, vamos fazer a agenda de um jeito que dê, mas ensinar, trazer a luz para o aluno, que é sem luz, cara, é demais porque o brilho no olho quando ele entende uma coisa, ainda mais às vezes quando ele entende algo que ele está há anos ali, estava obscuro e você veio com a didática que servia para ele. Nossa, não tem, eu falo, minha aula não tem preço, assim no sentido, você paga meu tempo, mas a aula em si, se eu fosse cobrar, não dá para pôr na… [riso].

Luciano: Como é que você desenvolveu isso? Eu sei o seguinte, sei que tem várias técnicas para ensinar instrumento musical, tem algumas que matam a gente no mínimo, quer dizer, a molecada fica de saco cheio com aquele negócio pentelho, eu passei por várias coisas desse tipo aí. E tem algumas outras que já vão mais, o cara fala, eu quero que o aluno comece a tocar imediatamente, para ele ter o prazer de alguma coisa sair dessa criação dele. E eu andei sondando um tempo atrás que eu queria aprender a tocar piano. Imagina, não consegui nem o violão, mas queria o piano, por falta de disciplina e aí andei procurando e vi que tem várias técnicas, várias formas de você aprender a tocar piano, algumas que te dão prazer de você, já na primeira ou segunda aula fazer algum barulhinho que tenha sentido e outras que são exclusivamente vai lá, olha a mão e não acontece nada, só esse barulho aqui. Você chegou a desenvolver um método próprio seu, como é que você foi tateando isso?

Sherlock: Sim, foi realmente, tanto que depois eu quis ter a minha própria escola, porque eu não queria ficar preso à nenhuma metodologia. Eu não conseguia ser fiel ao método lá da escola que eu estava dando aula e começava a desobedecer, a cabeça era outra. E eu sempre digo assim para os alunos que para ganhar sobremesa, coma verdura, tem que comer a verdurinha primeiro. Tem exercício que é chato mesmo, não vou negar, mas a sobremesa vem depois e é gostosa, viu, você vai gostar, mas a verdura faz bem, deixa forte, então não deixe ela de lado, não. Então é muito pensando nisso, o meu jeito de dar aula talvez não seja a forma de quem pensa assim mais na grana. Eu tenho amigos que, por exemplo, atendem em turma, porque aí naquela hora já meia dúzia, dez caras pagando mensalidade numa hora só. Eu não consigo, Luciano, a minha aula tem que ser feita para você. Se eu for te ensinar violão, é o violão que você precisa aprender que você vai aprender.

Luciano: O que significa que você tem uma avaliação…

Sherlock: Individual.

Luciano: Você tem que estar o tempo todo se adaptando, como professor, ao que aquele… quer dizer, você tem que aprender a avaliar as limitações, o talento dessa pessoa aonde vai.

Sherlock: E quando você pergunta da onde que eu tiro isso, é o amor de ensinar mesmo. É a questão de você se realizar no aluno aprendendo, porque tem professor que se realiza recebendo a mensalidade só, ou no elogio que o aluno faz. Quanta gente aí tem aula com gente de nome, que só fica ali o aluno babando por meses, anos, aí fala, caramba e eu, não estou aprendendo, mas o meu professor toca para caramba!

Cara, quem ensina tem que se realizar no aluno aprendendo, se ele não estiver aprendendo, tem algo errado aí, não está chegando o que tinha que chegar. E eu tive experiências dando aula que foram muito gratificantes. Eu tive desde aluno ex-detento que tinha uma guitarra ruim, daquelas que o botãozinho de luz interruptor parecia que era o botão da guitarra dele. Ele vinha de muito longe, chegava para mim e falava, assim você via que ele estava meio… “Que é que foi?” “Ah, professor, hoje eu não tomei o café da manhã em casa, a gente não comprou, senão não tinha dinheiro para a condução para vir ter aula.” Essas coisas assim eu falava, gente, esse cara merece tocar.

Luciano: O que é que move esse cara, não é?

Sherlock: Eu tive alunos que se dedicavam dez horas por dia, era normal para o cara de dedicação. Ele está treinando exercícios que eu passei, ele de olho fechado ali, entrou já num estado ali, quando ele olha para a mão, está sangrando o dedo. Então eu falo, isso aí é fazer a verdura gostosa também. Você precisa comer a verdura, mas não precisa ser malfeita, se cozinhar bem, tudo fica gostoso. E aí esse gosto de querer ver a pessoa sentindo que agora vai. Pode ser que se fosse em outra área, já que eu tenho esse gosto por ser professor, então puxa, destravei alguém para matemática, eu sou um professor de matemática dedicado e me realizo do aluno estar… mas no caso é na música.

Luciano: Você tem predileção por ensinar criança, jovem ou adulto ou para você é indiferente?

Sherlock: É indiferente. A criança hoje está muito mais dispersa, o desafio é manter atenta e o adulto está mais mimado que a criança.

Luciano: Mimado?

Sherlock: Mimado. Ah, isso eu não gosto. Ah, eu não estudei essa semana porque… Aí você ouve motivos assim que você fala caramba [riso]. Ao mesmo tempo, você tem esse evento desse cara que eu falei, esses ex-detento que ficava sem comer para vir fazer aula, que tinha um instrumento, cara, de dar dó. Então aparecia esse lado muito gratificante, sabe. Eu dava aula em São Paulo, na Praça da Árvore e vinha gente do Rio de Janeiro, vinha gente de Minas Gerais. O cara fazer uma viagem dessa para ter aula comigo e voltar, pegar aquele ônibus demorado, eu falei, eu estou fazendo certo. E se esse cara veio uma vez, já é difícil vir Minas Gerais para ter uma aula, mas ele voltou, puxa vida. Então dar aula sempre foi a prioridade, é o que ganhou o meu coração de um jeito que não tinha concorrência.

Então a experiência, por exemplo, do Platina, aquele sonho da banda estourar, eu não parei de dar aula para embarcar no sonho. A experiência de tocar com o Nill. Com o Nill eu toquei, sabe aquelas coisas de a cidade parar assim, ter segurança, você sair da van com as meninas quase derrubando a van, cara, querendo arrancar um pedaço da gente. Você é o guitarrista, se deixar, estraçalha a sua roupa ali. Tive chance de tocar com banda gospel muito grande, toquei com Atos 2, eles eram meus alunos, o pessoal da banda e me colocaram no CD novo, eu fui fazer show em ginásio. Coisa assim muito que eu poderia falar vou largar a aula, vou para isso aqui, mas não consigo largar a aula, Luciano.

Luciano: Eu quero ser seu aluno, eu vou lá, vou ter que chegar diante de você e falar pretendo tocar violão. Qual é a investigação que você faz comigo antes de me aceitar para ser seu aluno ou não? O que é que é? Como é que é o teu caminho, ou pagou e tem aula? Como é que é isso?

Sherlock: Olha, não tem nenhuma linha de corte, não, assim de você não será meu aluno. Porque, inclusive, eu espero que você saia mais animado ainda para começar a aula. Existe uma conversa inicial, sempre e aí, dessa conversa já sai com horário marcado.

Luciano: A aula dura quanto tempo?

Sherlock: Uma hora.

Luciano: Uma hora dura cada aula. E quantas vezes por semana?

Sherlock: Uma vez por semana eu te entrego lá a pedra bruta e você vai lapidar, durante a semana você tem aquela carga de liçãozinha para fazer.

Luciano: E com uma hora de aula uma vez por semana, eu sendo um cara disciplinado, que quando chegar em casa eu vou dedicar mais uma hora por dia para treinar, é possível você tocar de forma satisfatória para mim, não para me apresentar em público, nada disso, para mim, para chegar numa festinha, pegar um violão, vamos brincar com aquilo ali, quanto tempo eu levo?

Sherlock: Luciano, adorei a pergunta, porque você entrou numa coisa assim que pouca gente pensa. Para mim, então, cara, você já é o aluno perfeito que eu gosto de pegar, por quê? Tocar para mim primeiro. Você tem que pegar seu instrumento e tirar dele algo que te faça bem. Se a tua música, que está saindo do instrumento, só faz os outros fecharem a porta, a mãe passa, fecha ali, abaixa, não vai parar nunca com esse tem-tem-tem. Quando começam a parar e ouvir, é porque dentro de você já está fervilhando algo diferente. Então você tem que tocar para você mesmo, isso não é egoísmo. Quando você se satisfaz, você entrega, é como se fosse, sei lá, um prato de alimento que você fez com amor, você sabe que ficou bom e vai oferecer para a pessoa que você ama assim sabendo que ali está gostoso, que tem de você. Então, cara, a primeira coisa é essa.

Eu não posso garantir para nenhum aluno que ter aula comigo vai fazer dele famoso, rico, vai entrar para uma baita banda, vai fazer turnê no exterior. Isso eu não tenho essa bola de cristal, vai depender das escolhas dele, das estratégias dele, dos contatos dele, mas o que eu quero é que ele chegou cansado, está estressadão, ele olhe para o violão, o violão olhe para ele, pegue um pouquinho, aquele estresse some, cara. Isso se chama sublimar e hoje em dia, essa turma tão estressada, tão raivosa, eu acho que essas eleições deixaram todo mundo com sapo engolido, todo mundo está com umas coisas mal atravessadas, um ranço, brigou com tanta gente, parece que todo mundo está pavio curto demais. Mas eu falo cara, as emoções estão aí para ser vividas, você está triste, o que você não pode fazer com a sua tristeza é jogar em alguém e deixar o outro triste também.

Luciano: Transforma num blues [riso].

Sherlock: Exatamente. Está triste, faça um blues, você ouve assim… depois você pede para colocar aí um blues que eu ouvi hoje cedo, pensando em vir para cá. Porque você consegue colocar aquela tristeza ali. Você está com raiva, liga a distorção e faz um bam-bam, sabe e solta as bruxas ali mesmo. Põe na música, não põe no trânsito. Quando o cara demorou dois segundos para acelerar na sua frente, você já xinga, já desce de punho cerrado para dar uma na cara, porque você está… não é? Então a música é muito legal por causa disso, ela te leva para extravasar de uma forma dentro da arte. E isso, quando você joga essa verdade, aí você está fazendo…

Luciano: Essa é a mágica, mas você não respondeu à pergunta que eu fiz lá atrás.

Sherlock: Desculpe, vamos.

Luciano: Quanto tempo eu acho que eu levaria para falar, cara, eu estou curtindo, está começando a acontecer alguma coisa aqui? Nós estamos falando em meses, em anos? Eu sei que cada um desenvolve de uma forma, quanto mais eu me dedicar ao treinamento, a coisa vai mais rápido ou mais devagar, mas há um padrão que você fala se você chegar aqui cru e começar a ter aula, daqui a seis meses você vai conseguir tocar o Parabéns a Você no violão?

Sherlock: Em quanto tempo Parabéns a Você?

Luciano: Eu falei seis meses [riso].

Sherlock: Eu garanto que é, Luciano. Olha, aí é que está, muita gente que toca há anos, chega numa festinha, se alguém jogar um instrumento na mão, acompanha o Parabéns a Você, a pessoa “Cadê a cifra? Não sei.” Não faça isso, não faz sentido, você toca um instrumento e você não se diverte com ele? Desconfie de todo professor que te respondesse isso enfaticamente um ano, dois anos comigo, em três meses você estará… Porque é cada um mesmo. Cada pessoa tem um nível de coordenação motora diferente, já parte daí. Tem gente que não consegue rodar a mão para um lado, a outra para o outro, que se embanana todo, outro já faz brincando. Então aonde está a trava de cada um? Eu tenho que saber destravar isso. A sua trava pode não ser coordenação motora, pode ser o entendimento dos por quês, você é mais na informação, então esses alunos de TI, que trabalham com TI também, tudo focado, gostam de escrever, tudo o que eu falo criam uma fórmula bonita, tal, assim. Cara, tem que tocar, põe isso no instrumento. Então muda bastante. Olha, mas as experiências, por exemplo, eu tenho uma aluna que tem problema auditivo, ela é surda e está fazendo aula de violão. Isso é demais de lindo.

Luciano: Totalmente surda?

Sherlock: Totalmente não, porque ela tem aqueles implantes, então tudo o que ela ouve é muito metalizado, quando ela liga. Ela fala assim “Quando eu quero ficar sozinha, eu desligo isso aqui que zera tudo.” E quando ela estuda em casa, ela tira, para zerar tudo. Ela põe o violão no peito…

Luciano: É pela vibração.

Sherlock: Isso. E olha como ela está feliz de estar fazendo algo bom para ela. Eu sou só o acaso, cruzei o caminho dela porque ela viu o meu nome em algum lugar, mas ela achou aquilo que poderia fazer a diferença.

Luciano: Deixe eu te perguntar uma coisa, você sabe que esse programa aqui é liderança e empreendedorismo. Como é que é o negócio de ser professor de música como um business? Você dá aula independente, você não montou uma escola com quatro, cinco professores.

Sherlock: Já fiz isso, Luciano.

Luciano: E hoje você está, é você sozinho.

Sherlock: Isso.

Luciano: Então você é um profissional independente, você dá as aulas…

Sherlock: Por escolha.

Luciano: Por escolha.

Sherlock: Quando eu tinha escola grande, baita investimento, outros funcionários, não consigo lidar com a dor de cabeça da pessoa que não fez direito. Porque aula é sagrado, cara. Sabe, se eu te contratei para ser o professor de piano, não faz feio ali não, então não bagunça. Aquela coisa, você chega outro dia, cadê o piano? Ah, o cara achou que podia levar para tocar na noite aí, não trouxe de volta. Ah, não, sei lá, atrasa com aluno, essas coisas. E sozinho eu me dava melhor. Então tive convites, oportunidades de dar aula também em escolas, mas aí ia me aprisionar de novo em outras metodologias e numa aula que eu não acredito. Então, como eu te falei, eu sei que isso não multiplica o rendimento. Só que o ganho real está muito nessas experiências que eu tenho. Com essa aluna, por exemplo, porque ela não entraria num grupo de alunos para ter aula. Então, tive experiências muito legais assim.

Luciano: Não é só pelo dinheiro, não é? Não é pela grana.

Sherlock: Não pode ser.

Luciano: Como é que é aquela história? Eu não vivo por dinheiro, mas eu não vivo sem dinheiro. Não é por ele que eu vivo, mas sem ele eu não vivo. Então eu penso como é que eu posso escalonar, praticar a minha arte com o prazer que eu tenho de fazê-la e ao mesmo tempo fazendo que isso seja o meu ganha-pão.

Sherlock: É que são tantos valores assim. Eu tive a chance, por exemplo, de passar uma semana com Stanley Jordan, que é um dos melhores músicos do mundo e, de novo, eu estava ali disponível, fui buscá-lo o aeroporto, eu mesmo dei carona, Stanley Jordan sentou ali [riso]. Levava ele para jantar, levava ele para fazer comprinha, tal.

Luciano: Tocou com ele?

Sherlock: Toquei com ele no Bourbon Street. Toquei com Stanley Jordan sem ensaio algum, porque o produtor da empresa que eu gravei meus DVDs de aula queria fazer um com o Stanley também e ele é amigo do dono do Bourbon, está com o Stanley aqui no Brasil, vem fazer uma canja aqui também. E como eu estava acompanhando o Stanley, ele falou “Você é baixista, não é?” Falei “Cara, é sério? Vamos lá.” E nem preciso te falar que ao espalhar que o Stanley Jordan ia dar uma canja aquela noite no Bourbon Street. O que pintou de baixista “Eu, eu! Põe eu na fita aqui!” Aí o Stanley falou assim “É você que eu quero.” Mas uma confiança.

Luciano: Sem ter visto você tocar?

Sherlock: Sem ter visto eu tocar. Essa coisa que é subliminar, pelo olho ele falou é você que eu quero. E o Stanley é muito assim mesmo, ele é muito sentimento. Ele me deu uma das grandes lições que eu tenho na vida. E tocamos, sem ensaio algum. Na noite, lá no Bourbon estava o Menescal.

Luciano: Roberto Menescal.

Sherlock: Roberto Menescal, ele falou “Também quero fazer uma música,” e tal. Então, no camarim foi o Menescal mostrar a música dele para o Stanley, porque é impressionante, Stanley expressa o que está na cabeça dele na hora, então Menescal falou “Ah, faz essa aqui também,” ouviu uma vez, cara, e aí eu estava nessa fogueira. Você vê, aquela coisa da fogueirinha da igreja lá atrás e a irmã começa a cantar, você tem que ir atrás, você tem que saber, isso já tinha me moldado um pouco, sabe, Luciano. Era um nível diferente, mas eu também tinha evoluído para conseguir. E aí, assim, fomos para cima do palco e toquei com Stanley Jordan, cara. Ele virou para mim “Vai, sola aí,” foi muito legal.

Luciano: Se você que está ouvindo a gente aí não faz ideia do que a gente está falando, escuta uma palhinha aqui do Stanley Jordan. Olha o que é que ele faz [música].

Sherlock: Infelizmente, o áudio que eu tenho, o vídeo disso foi capturado da câmera mesmo, está muito precário. Tem no YouTube, mas está aquele sonzinho mixo assim, imagem ruinzinha, mas ainda bem que prova, não é? É só um trechinho, mas está ali a comprovação assim. O Stanley tinha um desejo secreto meio secreto dele, que por eu ter passado a semana com ele, ele chegou e me falou assim “Onde tem um hospital? Que eu gosto, no país que eu chego, eu gosto de tocar.”

Luciano: Para os doentes do hospital?

Sherlock: É, ele gosta de tocar para as crianças internadas, até para as mulheres que estão para dar à luz, ele vai e toca. Então imagina um músico desse, com a fama que tem, ele quer isso sem mídia, sabe. É em off mesmo. Ele fala para quem trouxe ele assim, ele deve fazer isso em todo o lugar.

Luciano: Vocês foram?

Sherlock: Eu não fui com ele. Eu soube dessa atitude dele. E aí eu falo, gente. Graças a essa lição dele, que mexeu muito comigo e como eu te falei, a música é para fazer o bem, a música você tem que retribuir dessa forma mesmo. Tem um asilo, um lugar de idosos abandonados perto de casa, que eu falei, vou seguir o exemplo do Stanley e fui lá com o meu violãozinho, tocar lá para o pessoal, na hora do café deles assim, um bom tempo ali. Não estou falando isso para me gabar, sabe, Luciano, estou falando para incentivar outras pessoas a que fazer o bem, você não precisa também pôr a mão no bolso, gastar de dinheiro, se for o caso, não pode ser desculpa. Você pega o que você tem, se vocês são desenhistas, vocês podem fazer o bem para alguém hoje. Então teve momentos ali quando você faz algo pelo outro o retorno é imediato, muito bonito, são coisas que eu não esqueço jamais. Então, apesar de ter tocado em estádio, multidão, luz em cima, não sei o que, eu cheguei para uma senhorinha, perguntei “Por que não desce todo mundo?” E ali é lugar de velhinho abandonado mesmo.

Luciano: Aonde é isso?

Sherlock: Na São Judas.

Luciano: O que é São Judas?

Sherlock: Metrô São Judas. Pertinho do Metrô São Judas tem um lugar só de idosos.

Luciano: É um asilo, como se fosse um asilo.

Sherlock: Mas não desses que o bacana põe o pai lá, com luxo, não. Gente que às vezes não tem família mais nenhuma, que estava na rua. Então eles não têm visita, nada. Então é outro sabor que eles dão para aquilo.

Luciano: E você foi lá tocar?

Sherlock: Fui tocar e apesar de não fazer parte do repertório, tocar para eles, não é tocar para eu me exibir, porque o que eles querem ouvir é Roberto Carlos, é Fábio Junior antigo.

Luciano: Músicas que fazem sentido para a vida deles, que marcaram momentos da vida deles.

Sherlock: E aí eu perguntei “Por que não desce todo mundo?” É porque tem uns que não saem do quarto, ou porque estão deprimidos, ou tem gente que teve um AVC, alguma coisa. Falei “Deixe eu tocar para alguém que está nessa condição, se ele não pode descer, eu vou até lá.” Aí eu fui levado no leito de uma senhorinha que tinha tido, ela estava em coma, praticamente ninguém sabia se ela ouvia, ela estava meio sem ter condições de demonstrar nada, inerte. Eu falei com a enfermeira “O que ela gostava antes dela ter tido derrame aqui recente?” “Nossa, vivia cantando musiquinha antiga de igreja.”

Luciano: Tua raiz, não é?

Sherlock: Baita escola também. Aí peguei aquele hino bonito, que eu achei que ela gostaria, comecei a tocar. E realmente aquela face que estava sem expressão nenhuma, eu tenho certeza que ela ouviu, porque escorreu uma lágrima, aquele sorriso meio Mona Lisa assim, mas, cara, isso não tem preço, de novo.

Luciano: Isso é música, não é, cara?

Sherlock: Então, se eu, que não sou nada fiz, se um Stanley Jordan, que é o melhor do mundo faz, por que quem está aí não pode fazer com o que tem? Como eu estava falando da experiência de alunos, tive alunos pobres de marré de si e tive alunos que o cara tem um arsenal de equipamentos, de tudo assim, sabe, mas esse não estuda, falta aula, não está nem aí, não sei o que lá e o outro, que não tem guitarra, que está assim…

Luciano: Se agarra nisso e sabe que ali…

Sherlock: E dá um jeito, cara. Então não é fator de se o aluno não pode pagar bem, você tem que dar um jeito. Porque existe em tudo uma lei de compensação. Já tive aluno que de tão bem assim de grana que gostava de dar caixinha, então a mensalidade era X, ele falava “Toma mais aí trezentão para você,” porque ele estava feliz, sabe. Então é gostoso, é muita experiência assim muito legal.

Luciano: E dá para ver que te faz bem, porque você conta isso com a tua serenidade de quem se está lá, “estou de saco cheio, espera um pouquinho que eu vou … que delícia, deixa eu tocar alguma coisa,” que delícia, a música realmente é tudo isso. Cara, você está me dando vontade de aprender violão de novo.

Sherlock: Eu sempre digo, Luciano, mesmo se não for comigo, essa vontade aí, se eu estou fazendo ela renascer, siga a sua intuição, vá em frente.

Luciano: Você dá aula hoje aonde?

Sherlock: Como eu falei, eu já tive escolas e tal e aí aconteceu o advento da internet, da coisa da aula online começar a ser viável. Internet já tinha há um bom tempo, mas não tinha a banda larga que tem hoje. Então eu comecei a atender online também. E São Paulo está uma loucura, tem gente que às vezes para ter uma hora de aula, gasta duas no congestionamento.

Luciano: É verdade.

Sherlock: Agora eu brinco assim, eu não vou te ver na cadeira aqui na sala, na minha frente, mas eu vou te ver na TV, na minha frente.

Luciano: É por Skype?

Sherlock: Eu gosto do Zoom, que é um aplicativo muito mais legal, sem querer fazer a propaganda, já tendo feito, mas é que eu acho que o Skype ali trava um pouquinho, o Zoom é uma imagem maravilhosa, ou o Facetime mesmo, mas é essa turma. Webcam, internet e mais aula em tempo real, não é aula de internet que você leva o módulo.

Luciano: Sim, uma gravação que está lá. Você está interagindo com o aluno ali durante uma hora, durante um ano, você e o aluno.

Sherlock: Sim, porque a relação mestre e discípulo, vamos dizer, que está tão meio esquecida, mas é tão necessária, porque essa relação cria confiança, é o estímulo que você dá ao aluno.

Luciano: Tem um cara do Amazonas, um cara na China pode ter aula com você?

Sherlock: Sim, tenho aluno no Canadá, tenho aluno no Uruguai.

Luciano: Quanto custa uma aula?

Sherlock: É assim, você quer preço?

Luciano: Não, claro, o cara que está me ouvindo, ele está preocupado, como é que eu faço, porque eu vou te perguntar como faz, onde faz, quanto custa.

Sherlock: Ah, quanto custa ele pode ver direto comigo, então, Luciano. Até porque ele vai saber como vai ser a economia, de repente alguém fala “Eu ouvi tanto no programa,” mas a inflação voltou de um jeito que o cara, “ué?!”

Luciano: Como é que a pessoa entra em contato com você? Como é que ela te acha, se quiser começar, se quiser saber quanto custa, como é que ela te acha [riso]?

Sherlock: Ela pode saber pelo meu site www.Sherlockgomes.com.br.

Luciano: Esse Sherlock é meio chato de escrever.

Sherlock: S-H-E-R-L-O-C-K.

Luciano: S-H-E-R-L-O-C-K, Sherlockgomes.com.br.

Sherlock: Isso, acabei adotando o apelido, ele ficou feito um fantasminha que não sai da cola.

Luciano: E rede social. Você está no Facebook?

Sherlock: No Facebook.

Luciano: Tudo como Sherlock Gomes?

Sherlock: Eu tenho muitos DVDs, eu fui um dos músicos que teve mais DVDs assim, os mais vendidos no Brasil de aula de guitarra, baixo, violão. Porque o que acontece, muita videoaula tinha aquela coisa, o cara é famoso, toca para caramba, mas a aula tinha pouco conteúdo de didática. Então o cara acabou vendo que “aqui tem uma aula com começo, meio e fim. Grava mais uma, grava de novo.” Eu tenho uma dezena de DVDs que venderam muito bem, para o gosto do dono da empresa, lógico, não para quem recebe o direito autoral.

Luciano: É sempre assim, o aluno ganha aprendendo, o cara que produziu ganha vendendo e o cara que deu o conteúdo todo, é que nem livro, cara, o autor fica com 10% do preço de capa, os outros 90% ficam no sistema lá.

Sherlock: Mas graças a isso esses dias um motoqueiro deu uma cortada assim no ônibus correndo assim, parou na minha frente, eu indo pela avenida, gosto de caminhar muito ali pelo bairro “Sherlock! Cara, seu DVD foi muito importante para mim. Tira uma foto aqui,” sabe. Então isso aí é melhor do que todo o direito autoral que eu recebi e aquele que eu não recebi.

Luciano: Meu caro, parabéns por essa paixão, parabéns por essa missão de continuar levando a música assim adiante, porque eu acho que é isso aí que carrega a gente, isso é que dá serenidade, você chegar no final do dia falar, sabe, eu estou no caminho certo, as pessoas estão crescendo a partir daquilo que eu posso oferecer para elas. De certa forma, é isso que eu costumo fazer, eu quero fazer isso no meu trabalho, que é muito parecido. A tua vocação na música é a minha vocação aqui com conteúdo e tudo o mais.

Sherlock: Isso, vocação, seguir o dharma.

Luciano: E a gente expressa o tesão de fazer isso aí através de microfone, através da aula, através da sua paixão por ver a pessoa aprendendo, que acho que o impacto que existe em você é o mesmo impacto que eu tenho quando eu recebo um e-mail e alguém para dizer cara, aquilo que você falou naquele programa me deu uma luz, me ajudou, sei lá, provocou em mim algum tipo de reação. E no fim é isso o que a gente está buscando. Se isso aí também der uma graninha, puta, que maravilha, mas, de novo, não é pela grana que está sendo feito, é por alguma coisa muito maior, tem a ver com você olhar para trás e falar fiz minha parte.

Sherlock: Sim, grana é importante, houve momentos de grana, vamos dizer, mas os momentos inesquecíveis, não teve grana. É aquilo que a gente falou no começo, foi tocar para aquela velhinha, sabe. Uma das coisas que mais me emocionaram não foi show para milhares de pessoas que eu fiz parte, foi tocar, fazer uma visita num presídio feminino e enquanto você toca, vêm aquelas presas, agarram na grade, começam a chorar enquanto você está tocando. E por um tempinho elas saem daquele inferno que elas vivem. Muitas delas estão ali porque o namorado lá falou segura isso aí, põe na sua bolsa, e elas é que dançam, não é, Luciano. Cara, então, esses momentos de você ver a sua música tocando alguém, é muito lindo. É essa música que eu gosto de fazer. Eu gosto de fazer a minha namorada, por exemplo, se apaixonar mais por mim cada vez que eu toco uma música para ela [riso].

Luciano: É isso aí, cara. Eu vou terminar o programa aqui com uma música sua. Eu abri com o blues do Café Brasil e aí eu quero, você vai mandar para mim uma música, eu vou fechar com a música que você quiser, manda ela para mim depois, eu vou colocar aqui. Aliás, se você tiver na cabeça agora, me diz qual é, que eu já digo agora o nome da música e na sequência a gente encerra o programa.

Sherlock: Olha, eu vou citar A Gentileza, tudo o que tem mais a ver com o nosso papo de hoje.

Luciano: A Gentileza, perfeito. Então, você ouviu Sherlock Gomes. Muito obrigado por ter vindo aqui, cara, valeu muito a tua presença aqui.

Sherlock: Luciano, obrigado a você pela confiança.

Luciano: E fiquem vocês com Gentileza.

Luciano Pires: Muito bem, termina aqui mais um LíderCast, a transcrição deste programa, você encontra no LíderCast.com.br. para ter acesso a esta temporada completa assine o cafebrasilpremium.com.br e receba imediatamente todos os arquivos. Além de ter acesso ao grupo cafebrasil no Telegram, que reúne ouvintes dos podcasts Café Brasil e LíderCast, que discutem em alto nível, temas importantes, compartilhando ideias e recebendo conteúdos exclusivos.

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O Sherlock teve a gentileza de enviar as referências às músicas e artistas que ele citou durante o programa. Lá vai:

*Exemplos de Óperas que ouvia quando menino:

A Ópera La traviata, de Verdi, tava sempre no toca-disco. Veja a beleza da Aria “Un di felice”:

https://youtu.be/_1EI3yYrPC0

 

Ou, de Mozart, a imponente “Don Giovanni”, aqui tem a abertura com o grande maestro Herbert Von Karajan:

https://youtu.be/iu1HuC5aViQ

*Um exemplo de Pink Floyd, som viajante que meu irmão Carlos punha alto quando queria uma pausa entre tanta música erudita:

“Pigs” do album Animals:

https://youtu.be/LldtyaqMI5w

Que “viagem no tempo” boa, Luciano!

*Dois exemplos de Blues, quando falamos sobre sublimar a tristeza na música:

https://youtu.be/J4YPMiFaPWo

Mighty Sam McClain – When the hurt is over

Outra sugestão é o B.B. Coleman com “The sky is crying”:

https://youtu.be/71Gt46aX9Z4

*Para um exemplo do Yngwie Malmsteen:

https://youtu.be/p3–TU82dlY

*Um exemplo do Stanley Jordan, tocando Eleanor Rigby:

https://youtu.be/llhcGewbXUk

*O vídeo que registra nosso show no Bourbon, com o Menescal:

https://youtu.be/SdSGrZXS5Dw

Mas como eu disse, o áudio e a imagem estão bem precários, infelizmente.

*A banda Platina, que integrei ao volar pro Brasil:

https://youtu.be/W5MPzKi1i5E

*Stuart Hamm, baixista que me influenciou (música Count zero):

https://youtu.be/tQuZrJtXLa0

Ou aqui tem ele tocando a dificílima “Dr. Gradus ed parnasum”:

https://youtu.be/yBw5lzZNHjY

*Minha música escolhida, ao final da conversa:

Gentileza:

https://youtu.be/z-lxVucKxdw

 

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