Lidercast
Bandidos Na TV
Bandidos Na TV
Assisti Bandidos Na Tv, nova série na NetFlix, que ...

Ver mais

1964 – O Brasil entre armas e livros
1964 – O Brasil entre armas e livros
Um documentário para ser visto como outro ângulo pelo ...

Ver mais

Os Podcasts Café Brasil Musicais
Os Podcasts Café Brasil Musicais
Música é uma de nossas grandes paixões, por isso de ...

Ver mais

#DicaNetFlix Trotsky
#DicaNetFlix Trotsky
É uma série de terror. Tem assassinos em série, ...

Ver mais

670 – A nova Previdência
670 – A nova Previdência
No dia 12 de Junho fomos à Brasília e, no Ministério da ...

Ver mais

669 – Fora da Caixa 2
669 – Fora da Caixa 2
Você não precisa inventar a lâmpada para ser original. ...

Ver mais

668 – Fora da caixa
668 – Fora da caixa
Não é fácil hoje em dia ter uma ideia original, ...

Ver mais

667 – Ajuda, por favor
667 – Ajuda, por favor
Toda mudança implica em incomodação. Se não incomoda, ...

Ver mais

LíderCast 157 – Marcel Van Hattem
LíderCast 157 – Marcel Van Hattem
Marcel Van Hattem é um jovem Deputado Federal pelo ...

Ver mais

LíderCast 156 – Karina Oliani e Carlos Morey
LíderCast 156 – Karina Oliani e Carlos Morey
Aproveitando que o Everest está sendo discutido na ...

Ver mais

LíderCast Temporada 12
LíderCast Temporada 12
Vem aí a Temporada 12 do LíderCast, que será lançada na ...

Ver mais

LíderCast 155 – Emilio Dantas Costa
LíderCast 155 – Emilio Dantas Costa
Servidor público de carreira, que a partir das ...

Ver mais

Cafezinho Live – Como será o Brasil com Bolsonaro
Cafezinho Live – Como será o Brasil com Bolsonaro
Um bate papo entre Adalberto Piotto, Carlos Nepomuceno ...

Ver mais

046 – Para quem vai anular o voto
046 – Para quem vai anular o voto
Fiz um vídeo desenhando claramente o que acontece com ...

Ver mais

Confraria Café Brasil
Confraria Café Brasil
A Confraria Café Brasil nasceu para conectar pessoas ...

Ver mais

Videocast Nakata T02 10
Videocast Nakata T02 10
Videocast Nakata Temporada 02 Episódio 10 - Hábitos ...

Ver mais

Por que você afirmar que é de direita ajuda a esquerda?
Carlos Nepomuceno
RESUMO DA LIVE: LIVE COMPLETA.

Ver mais

TRIVIUM: CAPITULO 2 – AMBIGUIDADE DA LINGUAGEM (parte 10)
Alexandre Gomes
Já que uma PALAVRA é um SÍMBOLO, um SIGNO ARBITRÁRIO ao qual é imposto um significado por convenção, é natural que esteja sujeita (a palavra) à AMBIGUIDADE. E isso pode surgir de alguns pontos: ...

Ver mais

O salário do professor brasileiro é um dos mais baixos do mundo
Gustavo Bertoche
É preciso lançar pontes.
Matéria de ontem no jornal O Globo nos lembra um fato que é amplamente reconhecido: os professores brasileiros estão entre os que recebem os menores salários no mundo inteiro. Em relação aos ...

Ver mais

As cigarras, as formigas e o tal do viés ideológico
Carlos Nepomuceno
RESUMO DA LIVE: LIVE COMPLETA.

Ver mais

Cafezinho 188 – O coeficiente de trouxidão
Cafezinho 188 – O coeficiente de trouxidão
É seu coeficiente de trouxidão, com a suspensão ...

Ver mais

Cafezinho 187 – Quem merece seu tempo de vida
Cafezinho 187 – Quem merece seu tempo de vida
Meu tempo de vida está sendo enriquecido ou só desperdiçado?

Ver mais

Cafezinho 186 – A disciplina intelectual
Cafezinho 186 – A disciplina intelectual
Na definição dos dicionários, disciplina é o conjunto ...

Ver mais

Cafezinho 185 – O princípio Eisenhower
Cafezinho 185 – O princípio Eisenhower
Dê uma olhada nas pautas em discussão nas mídias. Veja ...

Ver mais

LíderCast 145 – Ana Paula Andrade

LíderCast 145 – Ana Paula Andrade

Luciano Pires -
Download do Programa

Luciano Pires: Muito bem, mais um LíderCast. Explicando como nós temos essa convidada aqui hoje. Eu estou… ali do outro lado do vidro tem uma moça chamada Natália, que é de uma empresa chamada Groth Comunicação. Eles fazem um trabalho de comunicação para uma série de pessoas, como assessoria de imprensa, de comunicação, na verdade. Já trouxe convidados aqui e eu dei a dica para ela: se tiver mais gente interessante, me avisa. E foi assim que nós fomos fazer essa entrevista aqui hoje. É bom para eles, que são agência de comunicação, que podem oferecer um canal de comunicação ao cliente. É bom ao cliente. E é bom para mim, que conheço pessoas que eu não teria acesso se não fosse por eles. Então, se você que está me ouvindo aí também tem uma agência de comunicação e trabalha com gente legal, aproveita o embalo e dá a dica aqui, que se tiver café no bule a gente quer conversar. Três perguntas fundamentais, as únicas que você não pode chutar são essas. A do meio, se você não quiser dizer, eu até abro mão. Mas vamos lá, eu quero saber seu nome, sua idade e o que você faz?

Ana Paula de Andrade: Meu nome é Ana Paula de Andrade. Eu entrei agora nos 40, acabei de fazer 40. E hoje eu sou head de uma empresa de trade marketing, uma multinacional que está há 25 anos no mercado aqui no Brasil e em toda a América Latina e eu sou líder aqui do Brasil.

Luciano Pires: Como chama a empresa?

Ana Paula de Andrade: Marco Marketing Brasil.

Luciano Pires: Marco Marketing Brasil?

Ana Paula de Andrade: Isso.

Luciano Pires: Você nasceu onde?

Ana Paula de Andrade: Eu nasci em Curitiba.

Luciano Pires: O Paraná tem dado ao Brasil algumas das coisas mais fabulosas nos últimos anos, que vai de um extremo onde tem Requião a outro extremo onde tem Sérgio Moro. Quer dizer, aquilo é um caldeirão.

Ana Paula de Andrade: É. Mas eu sou uma curitibana meio fajuta. Porque eu saí de lá bem pequena, depois eu morei em Minas, em Porto Alegre, em Belém do Pará, em tudo quanto é lugar. Mas já estou em São Paulo, já faz bastante tempo.

Luciano Pires: O que seu pai, sua mãe, faziam e fazem?

Ana Paula de Andrade: O meu pai, já falecido. Ele era engenheiro civil. Então, ele trabalhava com construção de fábricas de cerveja. Então a gente ficava dois anos, dois anos atrás dele. E a minha mãe era mãe. Mãe nesse trabalho árduo de ser mãe.

Luciano Pires: Você tem irmãos?

Ana Paula de Andrade: Tenho um irmão mais velho.

Luciano Pires: Um irmão mais velho?

Ana Paula de Andrade: Sim.

Luciano Pires: Legal. Eu conheço um monte de gente que tem uma história parecida com a sua, que vai atrás do pai. O pai é transferido, lá vamos nós mudando. Eu tenho um cunhado que é assim. A vida dele, ele trabalhava na Shell. E a vida deles foi assim. Fica num lugar ali, num período. Os filhos fazem amigos, monta a estrutura. A hora que está tudo pronto, estão ali três, quatro anos.

Ana Paula de Andrade: Sai de novo.

Luciano Pires: E vai para outro lugar. E faz um núcleo em outro lugar. E aí eu nem sei como que é isso. A minha vida nunca foi assim. Mas deve ser…

Ana Paula de Andrade: E de um lugar completamente diferente um do outro. Porque você imagina Porto Alegre e Belém. Completamente diferentes.

Luciano Pires: Eu imagino você, criança se adaptando de novo, com outra cultura. Bom, mas te enriqueceu muito, com certeza que sim.

Ana Paula de Andrade: Sim. Super. Sim, sim.

Luciano Pires: Qual era o seu apelido quando era criança?

Ana Paula de Andrade: Paulinha.

Luciano Pires: Paulinha. O que a Paulinha queria ser quando crescesse?

Ana Paula de Andrade: Olha, você que eu, antes de começar, quando eu estava no ginásio, assim, meu sonho era ser dançarina. Eu fiz dança muitos anos. Cheguei a ser professora de sapateado. Então eu acho que dos 14, 15 mais ou menos, eu já ensaiava um pouco ser professora. Eu queria muito isso.

Luciano Pires: Onde você estava?

Ana Paula de Andrade: Isso eu já estava em São Paulo.

Luciano Pires: Já estava aqui?

Ana Paula de Andrade: Já estava aqui. Eu cheguei com 10, 11 anos. Então eu já estava aqui. E aí tinha uma academia, Elza Prado, ali na Vila Madalena, que era minha vida. A minha vida era dançar. Era esse o meu sonho. Eu sempre falei de publicidade, mas eu acho que sem muito conhecimento do que era. Naquela época, assim, falar de publicidade ou comunicação tinha a ver sempre com propaganda. Com propaganda, com mídia, com revista. Isso já sempre me instigava. Mas eu não tinha ideia de onde eu ia parar depois. No fim, a minha carreira foi para um lado completamente diferente.

Luciano Pires: 15 anos de idade, na Vila Madalena, dançarina…

Ana Paula de Andrade: De sapateado.

Luciano Pires: Em 1997, 98, por aí.

Ana Paula de Andrade: É. 96, 97, por aí.

Luciano Pires: Por aí. E aí você olhou para isso aí e falou: cara, eu acho que dá para seguir adiante na dança? Ou não?

Ana Paula de Andrade: É. Na verdade foi uma decisão meio assim, de repente. Porque nessa época, quando eu tinha 14, 15 anos, o meu pai teve um infarto e ele era supernovo, 40 anos. E ele teve um insight que ele falou: bom, se eu tivesse morrido agora, meus filhos iam ser dois… a gente não era uma família super rica, etc., a gente tinha uma vida ok, de classe média. Mas eu dançava e o meu irmão tocava. O meu irmão é músico até hoje. Vive de música. E eu dançava. Então ele falou: ferrou. Se eu tivesse morrido… a minha mãe era dona de casa e os dois… então ele falou: eu vou fazer com que eles aprendam na marra. E aí logo depois que ele se recuperou eu ia prestar vestibular. E ele chegou para a gente numa semana de novembro e falou: olha, eu estou indo embora com a sua mãe de novo. E dessa vez vocês não têm opção. Cada um por si, vocês vão ficar aqui. Então daqui a um mês é cada um por si e Deus por todos. Não tem mais um real para ninguém.

Luciano Pires: Que idade você tinha?

Ana Paula de Andrade: Eu tinha acabado de fazer 16. É. Eu tinha acabado de fazer 16. Eu estava prestando vestibular. Eu sempre fui um ano adiantada. E aí foi aquele susto. A gente falou: bom, e agora o que eu vou fazer? Porque eu só sei dançar. Só sei sapatear.

Luciano Pires: Como assim: eu vou embora, eu e sua mãe e larga os dois? Sua mãe também concordou? Vou deixar meus dois filhos? Minha mãe, tadinha, a minha mãe ficou assim: entre a cruz e a espada?

Ana Paula de Andrade: Entre a cruz e a espada. Foi um período difícil, porque a gente tinha acabado de passar pelo infarto dele, que foi um momento ali, meio dramático na família. Ele só não morreu porque realmente Deus não quis. Enfim, e aí ele chegou e falou: olha, vocês vão agora aprender na marra. Então… eu lembro que eu ia prestar vestibular e ele ainda falava para mim: e você, se não passar na USP, você já vê o que você vai fazer. Porque se você não mostrar que você vai poder fazer a faculdade, melhor você nem prestar. Foi.

Luciano Pires: Caramba.

Ana Paula de Andrade: Foi. Foi aquele susto. E eu morava perto do Shopping Eldorado, ali meio Pinheiros, Madalena, mas ali perto. E aí no primeiro dia eu chorei, chorei, chorei. E no dia seguinte eu falei: bom, o que eu vou fazer? Porque realmente, dar aula de sapateado não é o que vai fazer eu me garantir. Eu falei: eu vou tentar ser vendedora de loja. Está chegando o final do ano, tem Natal e etc. fiz o meu currículo mal e porcamente, porque eu nem sabia como fazer. Nessa época, eu nunca tinha passado um e-mail na vida. Nem e-mail eu não tinha. E aí eu fui para o shopping e fui dando currículo.

Luciano Pires: No Eldorado?

Ana Paula de Andrade: No Eldorado.

Luciano Pires: Visitando loja no Eldorado?

Ana Paula de Andrade: Visitando loja. De loja em loja, dando o meu currículo. E aí, eu acho que uma semana depois me chamaram na Benetton. E aí fui contratada para ser temporária para o Natal. E aí depois, acabei ficando. E aí eu tinha uma prima, que é mais nova do que eu, que morava em Santos – que a família do meu pai é de Santos – que vinha para São Paulo para estudar aqui também. Só que ela bancada pelo pai. E a gente falou: bom, vamos juntar então eu, minha prima e meu irmão e a gente tenta ficar por aqui, vamos ver o que acontece. E aí a gente alugou um apartamento. Pensa numa quitinete micro.

Luciano Pires: Cara, o teu pai e a tua mãe largaram mesmo?

Ana Paula de Andrade: Largaram.

Luciano Pires: Eu achei que vocês tinham algum parente aqui? Que ia ficar com o tio, com a tia?

Ana Paula de Andrade: Não. Desde então foi…

Luciano Pires: Caramba.

Ana Paula de Andrade: E foi nesse timing assim, sabe? Foi: agora, tudo ou nada.

Luciano Pires: Vamos elaborar isso aí, que essa coisa é interessante. Evidentemente seu pai e sua mãe amavam vocês dois?

Ana Paula de Andrade: Sim. Com certeza.

Luciano Pires: Os dois filhos?

Ana Paula de Andrade: Sim, sim.

Luciano Pires: Ele não fez isso por sacanagem?

Ana Paula de Andrade: Não.

Luciano Pires: Ele fez isso porque ele estava preocupado com amadurecer vocês rapidamente e tudo mais. Eles foram para onde?

Ana Paula de Andrade: Eles foram para Santos na época.

Luciano Pires: Não estava tão longe assim.

Ana Paula de Andrade: Não estava tão longe. Aí logo depois, eu acho que nem um ano, eles foram para Belém de novo, porque aí ele foi fazer um trabalho lá.

Luciano Pires: Mas ele perguntou para vocês se vocês queriam ir junto ou ele falou assim: nós vamos e vocês vão ficar?

Ana Paula de Andrade: Nós vamos e vocês vão ficar.

Luciano Pires: Meu pai do céu.

Ana Paula de Andrade: Você sabe que foi muito louca essa história. Porque eu lembro assim… eu acho que… eu fiquei tão assim, que eu acho que as minhas amigas ficaram mais p. da vida com o meu pai do que eu.

Luciano Pires: Claro.

Ana Paula de Andrade: Eu entrei meio num piloto automático naquela época assim. Porque eu sempre fui super CDF na escola, sempre passava, no 3º bimestre eu já tinha passado, etc. Meu pai falava que eu era mestre em tirar 10 na prova. Então eu estava naquela pressão de vestibular. Eu tinha um namorado na época que era mais velho do que eu, que era quase uns nove anos mais velho do que eu. Eu lembro que foi importante também nessa época. Então eu estava nesse agito assim. Quando você tem 16 anos você acha que você já tem 30, você acha que você já é dona do mundo. Então…

Luciano Pires: Seu irmão, que idade tinha?

Ana Paula de Andrade: Meu irmão é um ano e meio mais velho do que eu.

Luciano Pires: Vocês conversaram os dois? Mano, e agora?

Ana Paula de Andrade: Foi uma fase difícil. E o meu irmão é músico. Tem uma vida completamente diferente da minha. Então, a gente teve muito conflito nessa época, porque ele também queria tocar, queria ir para uma vida completamente diferente. E eu já entrei nessa de: não, eu preciso trabalhar, eu preciso me sustentar. Então a gente teve algumas histórias também, assim, de família.

Luciano Pires: Eu estou insistindo com você, pelo seguinte: essa tua história aí não é incomum. Mas normalmente ela acontece por causa de alguma tragédia. Se separaram o pai e a mãe. Morreu o pai. Morreu mãe. Sei lá, a pessoa perdeu e de repente se viu sozinha. Falou: agora eu tenho que me virar. No teu caso não foi assim, porque os dois estavam ali ao alcance. Você pega um carro, eu estou ali do lado.

Ana Paula de Andrade: O que ficou para mim, principalmente depois que eu fui mãe. Eu acho que o momento que eu fui mãe foi muito importante para eu digerir tudo isso. A gente nunca sabe se a gente está fazendo o certo, o errado. É um baita pepino essa coisa de encaminhar as crianças. Eu acho assim, se tiver… a minha sensação, ele, se tivesse dado alguma coisa ruim realmente, se eu tivesse passado por alguma situação… que poderia ter passado.  Hoje o meu filho tem 13 anos. Quando eu penso, eu falo: nossa, daqui a três anos quase, seria o que eu vivi. Eu jamais teria coragem de colocar ele assim. Mas eu acho que se eu tivesse passado por uma situação realmente crítica, eles teriam assim, me acolhido. Eu teria ido para lá. Graças a Deus, isso não aconteceu. Eu passei por um monte de coisa. Mas não alguma coisa assim, tão drástica.

Luciano Pires: Esse insight é importante. Deixa eu te dar… isso aqui é um bate-papo. Não é entrevista. Eu tenho 62 anos de idade. E meu pai e minha mãe estão vivos. O meu pai tem 93, 94, minha mãe tem oitenta e poucos. Eu saí de casa com 18 anos, vim para São Paulo, nunca mais voltei. Então eu moro aqui, constituí família. A minha vida ficou toda aqui. E eu fiz questão de, assim que eu pude, ter minha independência. Independência financeira. Então eu estou aqui e a vida deles está lá. Mas o simples fato de eles estarem lá…

Ana Paula de Andrade: Estarem…

Luciano Pires: E eu saber o seguinte: cara, a hora que der tudo errado, que não der mais nada…

Ana Paula de Andrade: Eu tenho onde ir.

Luciano Pires: Eu tenho a casa dos meus pais para voltar para lá. Aos 62 anos de idade isso aqui ainda existe. E aí às vezes bate: daqui a pouco eu vou perde-los. E como que vai ser minha vida quando não tiver mais aquela âncora lá? Então, esse insight é legal, sabe? Isso te dá uma segurança de saber, cara, tem um mínimo à minha espera. Se der tudo errado. Eu fico imaginando as pessoas que não têm isso. Como que você faz quando você fala: se der tudo errado, eu não tenho o que fazer. Eu não tenho a quem recorrer.

Ana Paula de Andrade: Exatamente. É, por um lado, foi um pouco do que eu vivi depois e até hoje assim, porque aí eles foram, a gente ficou – eu, meu irmão e minha prima – a gente morava numa quitinete. Era água Minalba, porque não tinha geladeira, não tinha nada. Eu peguei uma arara emprestada da loja para fazer de guarda-roupa, tipo, aquelas coisas. E depois de um ano mais ou menos, aí o meu irmão – a gente se separou – o meu irmão já estava nessa onda da música e etc. e a gente começou a ter alguns conflitos assim, dessa coisa: não, preciso ter alguém aqui que também ajude a dividir as despesas. Porque era tudo. Aí logo depois, o meu irmão saiu, veio uma amiga, enfim. Aí eu fiquei dividindo apartamento durante um tempo. Meu pai faleceu 10 anos depois, quando ele tinha 53. Teve um outro infarto fulminante. Nesses 10 anos, assim, para todo mundo ele falava: não, minha filha é o máximo, que isso, que aquilo, conseguiu isso e aquilo, tal, tal, tal. Tem uma carreira, está deslanchando. Mas para mim era: pai, vou comprar o meu primeiro carro. Imagina, você não vai conseguir. Tem certeza? Você não está dando um passo maior que a perna? Não, você não vai conseguir. Não pai, vou. Vou trabalhar numa empresa assim, assim, assado. Não, tem certeza? Eu acho que você não vai conseguir. Então era assim. Foi uma fase desafiadora. E aí quando eu engravidei do meu filho, do meu primeiro, eu acho que foi quando a gente se reconectou, assim. Apesar de eu ter tomado mil broncas no dia que eu falei que eu estava grávida.

Luciano Pires: Você estava casada?

Ana Paula de Andrade: Não. Eu casei grávida. Mas nessa época, eu já tinha assim, isso quase 10 anos depois, eu já achava… imagina: eu tinha começado com 16, com 24 eu já me achava dona do mundo. Imatura também, de achar que naquela idade eu já tinha conquistado um monte de coisa. Mas era o meu pensamento. Então, eu achava que eu podia tudo. Eu achava que eu queria ser mãe, eu vou ser mãe e vamos lá. Não foi um susto, assim, eu ter engravidado. Eu queria muito. Então, quando ele faleceu, depois, 10 anos foi onde eu processei tudo isso, sabe? Eu acho que foi o jeito. Eu não tenho a menor dúvida do amor incondicional. E se tivesse acontecido alguma coisa, ele estava lá. E isso, ser pai e mãe hoje, eu vejo que é uma…

Luciano Pires: Um dia você precisa investigar para ver se o pai dele não fez isso com ele também, sabe? Provavelmente o pai dele fez a mesma coisa e ele repetiu com você. Mas aí você vai trabalhar como vendedora em loja de shopping center.

Ana Paula de Andrade: Aí eu fui trabalhar como vendedora, fui para o shopping. E fiquei no shopping eu acho que uns dois anos. Os dois primeiros anos da faculdade. Depois eu fui para a Oscar Freire, que lá era…

Luciano Pires: A meca…

Ana Paula de Andrade: A promoção para quem trabalhava em loja. Nessa época não tinha tanto. Estava começando as lojas importadas aqui no Brasil. Eu fui trabalhar numa loja que chama Lita Mortari, que ainda existe. Mas naquela época era bem mais forte do que era hoje.

Luciano Pires: Isso era ano 2000?

Ana Paula de Andrade: Menos. Eu me formei em 2000, então era 98, 99. E aí fui trabalhar na Lita que era uma loja, super butique e tal, que eu comecei a ganhar mais, etc. Até tem uma história engraçada. Porque nessa época, eu fui morar num apartamento que era bem na frente ali da Oscar Freire. Era num predinho que existe até hoje. E era um prédio de tipo, quitinetes. E eu fui morar lá na maior inocência. Eu falei: mas gente, como pode um aluguel tão barato na Oscar Freire? E eu morava super perto da loja. E aí tinha um monte de gente bonita e tal. Eu falava: nossa, eu moro num prédio superlegal, porque as pessoas são todas lindas e tal. Um ano depois, um amigo meu gay, um superamigo das antigas foi me levar em casa. Ele falou: Paulinha, eu não acredito que você mora nesse prédio. Eu falei: mas por quê? Qual o problema desse prédio? Ele falou: esse prédio é o prédio das garotas de programa da Oscar Freire. E eu nem imaginava o que era. Há pouco tempo teve uma série no GNT que falava de uma menina e tal. E o nome era Oscar Freire 263, que era exatamente o endereço.

Luciano Pires: O prédio que você morava?

Ana Paula de Andrade: Que eu morava. Exatamente.

Luciano Pires: E aí você entendeu por que todo mundo olhava você quando você chegava e saía? Todo mundo olhando?

Ana Paula de Andrade: Ele falou: você mora nesse prédio? Eu falava: claro, mas é tão legal. E aí eu fazia faculdade. Aí eu fui fazer Comunicação Social, nessa de publicidade.

Luciano Pires: Vamos… deixa eu pegar um pouquinho isso aqui. Como é que você sai? Legal. Você concluiu que a dança não ia dar. Você pegou essa história da dança e falou: esqueça?

Ana Paula de Andrade: Esquece.

Luciano Pires: Vou deixar? Ou: vou trabalhar por enquanto, para logo mais à frente retomar a dança?

Ana Paula de Andrade: Eu queria. Eu queria muito retomar a dança logo. Mas aí, o dia a dia, começou a ficar impossível. E aí eu tinha essa coisa da publicidade. Se eu te falar assim, que eu tinha um sonho de carreira é mentira. Eu tinha essa ideia da publicidade, essa coisa da comunicação me encantava. Mas até hoje assim, eu não me sinto uma pessoa super criativa. Tanto que eu não fui para a área de advertising, de criação e etc., eu fui mais para a área de negócio. E nessa época mesmo, era novembro quando aconteceu isso com o meu pai. Em janeiro eu estava prestando vestibular. E aí meu psicológico já estava para as cucuias, então, não passei na USP, não passei em nenhuma federal, não passava em quase nada. O último vestibular que saiu era da Anhembi Morumbi, que eu fui fazer já meio desenganada. Eu falei: não vou conseguir. Aí no fim consegui, passei e fui fazer Anhembi. E era um curso de Comunicação Social na época, que no meio você tinha que decidir publicidade ou marketing. Eu fui para marketing. A área que eu trabalho hoje, que eu comecei até, nem era disciplina da faculdade. A faculdade era muito orientada mesmo para a publicidade tradicional. Mas eu tinha alguns amigos e nessa época eu já estava trabalhando em loja, não podia estagiar. Então, todo mundo fazia estágio, eu não fazia.

Luciano Pires: Por causa do horário da loja?

Ana Paula de Andrade: Por causa do horário, por causa do dinheiro também. Porque eu não tinha como ter um estágio não remunerado, pagando faculdade, apartamento, tudo isso. A faculdade eu acho que eu fui terminar de pagar sei lá quantos anos depois. E aí a gente tinha que fazer o TCC e o grupo que eu estava, um dos caras que era do grupo, trabalhava numa agência que chamava Site Momento, que era uma agência da Makan na época, tinha acabado de ser comprada. E ele trabalhava lá, fazia um estágio de produção. Ele falou: vamos fazer um projeto do meu diretor, que é um projeto que chama Promo Info, que é um site de marketing promocional, etc., vamos fazer esse trabalho. E a gente juntou um grupo para fazer. E a gente ia, sei lá, “x” vezes a gente foi na agência para falar com esse cara para entender esse trabalho todo. E eu parecia uma criança quando eu entrava na agência. De ver aquele ambiente, ver tudo isso. Eu falava: eu quero isso para mim. Eu quero isso para mim. Mas eu não sabia como fazer para entrar. E a gente terminou o trabalho. No dia da apresentação, esse cara foi assistir. E aí quando acabou a apresentação ele chegou para mim e falou: vai amanhã lá na agência, que eu quero falar com você. Eu falei: está bom. Aí fui lá no dia seguinte e ele falou: olha, eu tenho alguns projetos aqui na agência. A gente tem uns clientes que trabalham fixo e que a gente tem o que a gente chama de Central, que são grupos fixos para atender determinados clientes. E eu tenho aqui o cliente Unibanco, que a gente faz toda a parte de produção de material de merchandising, envio para todas as agências do Brasil, etc. É uma equipe de umas seis pessoas e a head dessa equipe está indo para uma outra área da agência. Eu preciso de alguém para o lugar dela. Aí eu olhei para um lado, olhei para o outro e falei: e aí?

Luciano Pires: Sou eu?

Ana Paula de Andrade: Eu falei: você quer que eu vá lá servir café para alguém? Ele falou: não, eu quero que você assuma essa área. Que você venha para liderar esse time. E aí na hora, foi uma conversa tão bizarra. Porque eu falei: pelo amor de Deus. Eu falei: como assim? Eu trabalho em loja. Você sabe que eu não tenho experiência nenhuma, que eu nunca trabalhei em agência, etc., eu não fiz estágio, eu não fiz nada. E aí ele falou: olha, tem alguma coisa no seu olho. Alguma coisa que eu acho que você tem um super potencial e eu quero… você topa? Ele falou: eu sou um diretor aqui, eu não vou conseguir te ensinar. Se você… se der besteira, se der ruim, a responsabilidade vai ser sua e se der certo, o mérito vai ser seu. Você vai ter que ter muito mais banca do que qualquer outra coisa nesse começo. Porque você vai dirigir pessoas que sabem muito mais do que você. Você não vai poder falar nunca tão abertamente que você nunca fez absolutamente nada, porque senão você vai ser completamente rechaçada aqui dentro. Enfim, é teu. Se você quiser, vamos nessa. Se você não quiser, ou dá ou desce. Aí eu fui, como todo o frio da barriga do mundo. Eram madrugadas e madrugadas. Eu lembro que eu ia para o banheiro, chorava, voltava, tinha dor de barriga, não sei o quê. Era uma loucura. Eu fiz um monte de besteira.

Luciano Pires: O que ele viu em você?

Ana Paula de Andrade: Olha, assim, eu lembro desses contatos que a gente tinha antes de eu ir para a agência. E eu era muito fascinada por aquilo, assim. Então, eu não parava de perguntar. E tentava colocar em cima do trabalho. E se a gente fizer isso? Se a gente fizer aquilo? Eu não sei te dizer exatamente assim, o que foi. Mas eu acho que eu sempre fui muito metida assim, para fazer aquilo que eu não sabia. Metida no sentido de: deixa eu ver aqui.

Luciano Pires: No sentido de enfiar as caras?

Ana Paula de Andrade: É. Deixa eu ver o que tem aqui. E aí eu acho que foi um pouco por aí. E ele foi um grande anjo da guarda na minha vida. Eu sempre falo isso, assim, tudo que aconteceu com o meu pai, dessa história tão brusca. Depois eu acho que a vida colocou umas pessoas certas assim, para mim, sem dúvida. E ele – a gente é muito próximo até hoje – durante anos eu falava: eu te devo tanto, eu te devo tanto. Ele falava: você não me deve nada. Porque depois você que fez, sozinha. Eu só te abri essa porta. Ele falou: você acha que você me deve alguma coisa? Faz isso por alguém. Ou por quantas pessoas você conseguir fazer.

Luciano Pires: Que legal.

Ana Paula de Andrade: Porque às vezes, o currículo acadêmico, isso não quer dizer nada. Se a pessoa não tem esse sangue no olho, se a pessoa não tem essa atitude não adianta chegar aqui com… e a gente vive muito isso agora. Essa geração…

Luciano Pires: Como que é o nome dele?

Ana Paula de Andrade: Kito Mansano.

Luciano Pires: Você vai me dar o contato. Eu preciso trazer ele aqui.

Ana Paula de Andrade: Pois é, ele…

Luciano Pires: Isso dá um programa maravilhoso.

Ana Paula de Andrade: Ele é uma pessoa para você falar.

Luciano Pires: Que daí eu vou perguntar para ele: o que você viu no olho? Quero saber. Vou trazer ele aqui. Vou trazer ele aqui.

Ana Paula de Andrade: É. Exatamente. Ele tem uma história incrível.

Luciano Pires: Legal.

Ana Paula de Andrade: E aí a agência que ele trabalhava era uma agência de marketing promocional, que era site, que na época a gente chamava de BTL, Below The Line. Então tinha advertising Above The Line e o Below. E eu nunca tinha ouvido.

Luciano Pires: Que hoje eu chamo de undervertising. É o advertising e o undervertising.

Ana Paula de Andrade: É. Pois é, se o Below já é criticado, você imagina o Under. E eu nunca tinha ouvido falar dessa disciplina. Porque eu acho assim, que até hoje. Hoje já avançou essa parte acadêmica. Mas na época ninguém falava sobre isso, era muito en passant. Então eu não sabia realmente do que eu estava falando. Eu não sabia o que era merchandising. Eu não tinha ideia de produção, etc.

Luciano Pires: E você é chamada para comandar essa?

Ana Paula de Andrade: Chamada para comandar essa área.

Luciano Pires: Então vamos lá. Você tinha que idade?

Ana Paula de Andrade: Eu tinha… 2000? Eu sou de 78.

Luciano Pires: 18 menos 40? 22. 22 anos de idade. É uma menina. 22 anos de idade é uma menina, sem experiência, porque a tua experiência era de vendas. E chega num lugar, o cara te apresenta, 4, 5, 6, não sei quantas pessoas?

Ana Paula de Andrade: Eram seis pessoas.

Luciano Pires: A partir de hoje, Ana, você comanda essa turma aí. Você nunca tinha feito nada?

Ana Paula de Andrade: É. Nada.

Luciano Pires: Liderança, nada disso?

Ana Paula de Andrade: Nada, nada.

Luciano Pires: Não tinha nada, nada. Como que é? Bom dia, gente, eu sou a Ana. Vamos começar? Como que é?

Ana Paula de Andrade: Foi uma loucura. Eu acho que assim…

Luciano Pires: Além do choro no banheiro? O que mais tem? Me conta o que tem?

Ana Paula de Andrade: O choro no banheiro. É. Assim, eu trago isso até hoje, mesmo na posição que eu tenho hoje, que é admitir o que eu não sei. Então eu nunca fingi saber uma coisa que eu não sabia. Eu acho que eu levei esse conselho dele, da imagem, da pose. Mas eu não interpretei isso de uma forma: eu preciso ser arrogante ou mandona ou conquistar o meu espaço na marra. Eu coloquei: eu tenho que ter uma imagem de exemplo para as pessoas, de que, se você não sabe, você tem que admitir. Mas você tem que mostrar a sua pressuposição de entender e de saber. Então, até hoje eu lido muito assim no dia a dia. E eu acho que eu conquistei muito a relação com os clientes depois, nisso. Então hoje eu vejo muito ainda as pessoas querendo dizer sempre amém, sempre sim, sempre sim. E você ganha o respeito quando você fala o não. Quando você fala o não: eu não vou fazer por isso, ou eu não vou fazer porque eu não sei. Eu não vou fazer porque não dá. Então, eu fui assim desde o começo, eu acho que sem pensar muito. Foi um pouco sem pensar. Eu lembro que na equipe eu tive duas pessoas que foram assim, mais abertas, de: ok, vamos construir.

Luciano Pires: Isso que eu ia te perguntar: você tinha 12 olhos.

Ana Paula de Andrade: É. As outras não. Imagina, eu acho que eram quase todas mulheres. Eu acho que tinha um homem. Então você imagina: mulher pior ainda. Vamos combinar.

Luciano Pires: Nossa senhora. Eu falei assim: nossa senhora, não é todas as feministas. Está vendo? Machista. Não. Trabalhar com mulher é complicado. Mulher com mulher sai faísca mesmo.

Ana Paula de Andrade: Sim, sim. Por quê? Quem é essa que está aqui? Então foi difícil. E aí a gente…

Luciano Pires: Que é uma coisa que homem não faz: olha o cabelo dele, olha a roupa dele, olha o andar dele. Olha o jeito. Homem não fala isso. Homem fala: esse idiota, esse trouxa. Mulher tem tudo para…

Ana Paula de Andrade: E mulher fala por trás. Eu acho, mais assim. Eu sou super feminista, estou em várias causas. Mas eu acho que a gente tem também que admitir. A minha filha hoje, de 11 anos, é um absurdo assim, a diferença como ela conduz as amizades. Um dia é a melhor amiga. Outro dia é a pior amiga. É uma coisa que vem. Vem. A gente tem que…

Luciano Pires: A minha filha, a melhor amiga da vida dela sumiu. Cadê? Não tem mais.

Ana Paula de Andrade: Exatamente.

Luciano Pires: Briguei, não quero mais saber. Desfaz.

Ana Paula de Andrade: É. Exatamente. Então eu acho que isso veio desde aquela época. Mas eu tive duas pessoas que foram também dois anjinhos assim também, que me abriram mais o caminho. E eu lembro que eu me apoiei muito nessa época nos parceiros, assim, nos fornecedores chave daquela época. Porque se eu ficasse também só tentando entender do lado da agência, como a coisa funcionava, eu ficava muito também à mercê de quantas pessoas estavam dispostas a me ajudar ou não. E os fornecedores daquela época também tinham interesse de que a coisa virasse. Quanto mais eu montasse o negócio e desse negócio para eles, para eles também era vantagem. Então, eu consegui montar esse ecossistema assim, com os fornecedores chave para entender. Então eu ia para galpão de logística para entender como funcionava e etc., ia visitar fornecedor para tentar costurar essa história. Mas eu lembro assim, muitas vezes, quando eu chegava no Kito para dizer depois: olha, fiz assim, assim, assim. Aí depois ele falava: nossa, mas você fez tudo isso? Mas era só você ter feito isso. Aí eu queria matar ele. Eu falava: você nunca me falou que eu poderia ter feito assim, mais fácil. Ele falava: mas você não ia aprender se eu tivesse te dito. Então, foi um pouco como a história começou. E aí essa área, ela respondia para uma outra área dentro da agência. Não respondia. Mas quem tinha o vínculo mesmo com o cliente, era a área de atendimento na época. E aí eu comecei assim, a querer entrar muito na frente do cliente. Então, ao invés de eu falar para você e você ir falar, deixa que eu falo direto, para a gente se comunicar melhor.

Luciano Pires: Você tinha um atendimento ali?

Ana Paula de Andrade: Tinha um atendimento ali. Que drivava trabalho para essa área. E aí assim, logo…

Luciano Pires: Atenção, atenção: drivar é um termo, entendeu, que não é muito comum. Porque você está fora dessa área. Mas é quem traz e conduz.  Traz o trabalho para cá, leva para lá. Apanha do cliente e apanha de vocês? Esse é o atendimento.

Ana Paula de Andrade: É. Exato. Exatamente. E aí eu lembro que nessa época eu era muito briguenta. E aí eu falava: não, porque você não vai defender, isso e aquilo, deixa que eu vou. Deixa eu ir junto. Deixa eu ir junto. E eu atropelava um pouco assim, o atendimento, para colocar realmente como as coisas eram. E aí acho que um ano e meio depois, mais ou menos, eu cheguei para o Kito e falei: Kito, a minha praia é estar na frente do cliente. Assim, me dá uma agonia isso de eu estar aqui. Eu acho que é superimportante esse trabalho. Mas eu sinto que muita coisa você perde e tal. Eu quero estar na frente. E aí ele virou para mim e falou: olha, então sinto muito, mas você vai ter que procurar um outro lugar. Porque numa agência, ainda mais na tua idade, com a pouca experiência que você tem é muito difícil esse trânsito entre um departamento e outro. Se você é um cara de criação, para você ir em outro… você vai sofrer um outro preconceito se você tentar mudar agora. Então assim, coloca a sua cara no mercado. Eu vou te apresentar algumas pessoas e vamos tentar arrumar outra coisa para você. Na época ele falou: fico super frustrado. Porque eu fiz tudo isso para você ser do meu time. Mas vamos embora. E aí ele me apresentou umas pessoas e aí eu fui fazer uma entrevista na Rocha Azevedo, que era uma agência também já de muitos anos, do Geraldo. E eu lembro que na entrevista era a Lúcia Haddad, irmã do nosso digníssimo…

Luciano Pires: Ex-prefeito.

Ana Paula de Andrade: Sim. Ex-prefeito. E ela falava: o que você já fez? Você já fez campanha de incentivo? Eu: já. Você já fez evento assim, assim? Eu: já. Você já fez programa de relacionamento? Já. E eu não tinha feito.

Luciano Pires: Bote banca. Bote banca.

Ana Paula de Andrade: Bote banca.

Luciano Pires: Bote banca.

Ana Paula de Andrade: Exatamente. E eu assumi um pouco assim, a experiência que a Site tinha de projetos de clientes e etc. e coloquei aquilo para mim, como se fosse uma experiência minha. Mas eu estava ali restrita ao projeto do Unibanco. E aí eu fui para a Rocha. Quando eu fui para a Rocha foi de novo essa experiência. Eu acho que todas as coisas da minha vida foram assim, de ir fazer uma coisa que eu nunca tinha feito.

Luciano Pires: E dessa vez com uma responsabilidade brutal…

Ana Paula de Andrade: Maior ainda.

Luciano Pires: Que você está na cara do cliente. Você foi para ser atendimento?

Ana Paula de Andrade: Exatamente. Fui para ser atendimento. É. E aí na época eu fui atender Electrolux e Pernod Ricard, que eram as duas grandes contas que a gente tinha lá. E aí assim, a Rocha, no meio, eles foram comprados pela Marketing Store, que era uma multinacional que tinha uma operação vinculada com o McDonald’s, com produção de brindes e etc. Então, eu participei desse momento de mudança toda da empresa. E lá eu acho que foi o meu maior aprendizado, na porrada mesmo. Porque eu brigava com todo mundo. Brigava com produção, brigava com diretor de arte, brigava, brigava, brigava.

Luciano Pires: Para dentro de casa?

Ana Paula de Andrade: Para dentro de casa. E com o cliente também. Assim, eu nunca fui muito… eu acho que eu tive o respeito durante muito tempo, até hoje, mas por isso assim, de também falar não, de também falar não vou fazer. Também, você está louco aqui. E também: mas por que não fazer?

Luciano Pires: Nesse momento que você chegou lá e que recebeu essa responsabilidade de atender cliente e tudo mais. Você resgatou a menina vendedora da loja?

Ana Paula de Andrade: Com certeza. Sim.

Luciano Pires: A tua escola na venda, tudo, ela te ajudou?

Ana Paula de Andrade: Sim, sim. Com certeza. Eu lembro assim, que de todos os treinamentos que eu tinha na loja, o que eles mais, mais, mais faziam era habilidade de escutar. Porque eu acho que publicitário no geral tem um pouco um ego, de achar que você sabe mais do que quem você está atendendo.

Luciano Pires: Você está sendo bastante delicada. Não é pouco não. É muito.

Ana Paula de Andrade: Exato. Então, a gente quer tanto vender aquilo. A gente acredita tanto naquilo, que você deixa de escutar.

Luciano Pires: A minha ideia é tão genial, o meu trabalho é tão genial, é tão legal que você não pode não querer.

Ana Paula de Andrade: É. E eu acho que no meio da comunicação assim, o mercado é tão fragmentado. Você tem a publicidade de um lado, o marketing promocional, o trade, agora o digital, que fica aí um pouco assim, onde entrar? Que cada um quer enxergar um lado só e pegar todo o budget para esse lado e justificar por A mais B que você tem que estar nesse lado. E não necessariamente é isso. Porque o cara que está te brifando, ele tem uma problemática muito maior do que aquela só que você enxerga. Então o escutar, o entender do business do cara, assim, é primordial para que esse trabalho aconteça. E eu tinha uma chefe nessa época, que foi a Alessandra Duarte, que também é uma figura conhecida no marketing promocional, que eu lembro que ela falava para mim, ela falava… aí nessa época eu já era Ana P. não era mais a Paulinha; porque o Kito inventou esse Ana P. para mim, que me acompanha até hoje.

Luciano Pires: Ana P. ficou sendo?

Ana Paula de Andrade: Ana P. então, eu sou conhecida no mercado como Ana P.

Luciano Pires: Ana P.

Ana Paula de Andrade: Eu odiava esse Ana P. no começo. Mas no fim até que foi bom, porque o meu nome é tão comum, então ajudou. E aí ela falava para mim: Ana P., eu duvido que você faça isso, você não consegue. Então eu atendia a Pernod, na época eu atendia Natu Nobilis. Fazia um monte de ação para a Natu Nobilis. Aí na Natu Nobilis eu peguei Passport, depois eu peguei Chivas. E fui indo. Uma marca, uma marca, uma marca. Aí ela falou: não, a gente tinha que entrar em vinhos agora, neles. Mas você não consegue. Duvido que você consiga. E aí esse duvido, para mim me matava. Eu falava: imagina, duvida? Não fala duvida para mim, que eu vou. E aí…

Luciano Pires: Era sempre o trabalho de merchandising? Era promoção? Não era propaganda? Não tinha nada de veiculação?

Ana Paula de Andrade: Não, não era propaganda. Não, não tinha nada com mídia.

Luciano Pires: Que é um trabalho intensivo de mão de obra? Sempre mão de obra, as equipes?

Ana Paula de Andrade: Na verdade, nesse período não. Agora o co-trade é mais. Mas nessa época tinha muita campanha de incentivo, eventos. Muito ainda material de merchandising. Tinha parte de mão de obra na questão de ativação. Então a gente fazia, sei lá, eu lembro que a gente com Orloff fez um caminhão itinerante que era uma coqueteleira. As pessoas entravam dentro da coqueteleira para dançar e tal. Ia de bar em bar. Então nesse caso, a gente tinha que contratar pessoas para movimentar a ação. Mas eram coisas sazonais, esporádicas. Era bem menos a questão de equipe.

Luciano Pires: Deixa eu perguntar outra coisa para você, que sempre me fascinou. Você atuando como a linha de frente, no cliente lá. Você sai da empresa para o cliente, você bota o chapéu da empresa. Então eu entro na frente do meu cliente, eu estou com o chapéu da minha empresa. Quando eu volto da empresa, eu tiro o chapéu da empresa e ponho o do cliente. E aí eu represento o cliente para a minha equipe. É uma briga com todo mundo, porque eu tenho que defender o interesse do meu cliente. E quando eu viro ao contrário, agora eu defendo o interesse da agência. Como que é essa chavinha, esse liga e desliga?

Ana Paula de Andrade: É uma loucura. É uma loucura. E eu acho que assim, eu acho que é uma judiação. Porque realmente, os profissionais de atendimento ainda levam uma chancela de: é a pessoa leva e traz. Na minha época falavam: é o motoboy de luxo. Porque você vai lá, pega a informação. Vai, volta. Mas quem faz o trabalho realmente é a criação, planejamento, a produção. E não é assim. Se você não tem alguém na linha de frente que realmente entenda o negócio do cliente e entenda o que a agência precisa, as coisas não acontecem. Então, eu acho que é uma função… e assim, para você ser um bom atendimento, você tem que entender de produção, você tem que entender de criação, você tem que entender de tudo. Porque senão você vira realmente um tonto na frente dos caras.

Luciano Pires: Eu comparo ao trabalho de um corretor. Para mim, o atendimento é o corretor. Imagina o seguinte: tem um plano de saúde. E tem eu que sou o cliente do plano de saúde. Se eu não tiver no meio um corretor que me defenda no plano e defenda o plano para mim, eu nem sei o que eu posso aproveitar.

Ana Paula de Andrade: Exatamente. É.

Luciano Pires: Ele conhece as coisas. Eu não sei nem o que eu posso fazer. Eu tenho que ligar: Zé, o que eu faço? Espera aí que eu vou te dar a dica: é assim, assim, assim. Mas ele é o elemento. Ele não é nem o cliente e ele não é… ele está no meio do caminho, destrinchando as duas pontas.

Ana Paula de Andrade: Exatamente. E tem uma coisa também do business, da posição de atendimento, que é: o teu interlocutor do outro lado, ele não é só o cara do business. Ele não está lá só defendendo que ele tem que vender mais ou que ele tem que ter mais presença de marketing, etc. Ele tem os interesses dele. Ele quer ser promovido. Ele não pode queimar o filme com alguém. Ele tem que reportar bonito. Ele tem que fazer com que o trabalho dele apareça. Então, é o atendimento que decifra tudo isso: que momento que esse cara está? Qual que é o interesse dele? Porque você pode estar atendendo alguém hoje que está se submetendo para uma vaga nova. E que daqui a seis meses ele já não quer mais estar naquela cadeira. Então, se você não estiver articulado, de saber quem vai entrar, de saber exatamente como que você desenha tudo isso, você pode colocar tudo a perder.

Luciano Pires: Você interpreta o que é valor para aquela pessoa.

Ana Paula de Andrade: É.

Luciano Pires: Talvez para ela, o valor aqui não é a criatividade de uma equipe de criação, que fez um logotipo maravilhoso.

Ana Paula de Andrade: Exatamente.

Luciano Pires: Porque isso não significa nada. Ele quer saber o seguinte: vem cá o meu interesse no momento é ganhar uma corrida que tem aqui dentro da empresa. Eu tenho que mostrar que eu sou o cara que consegue reduzir custos. Então, não é mais a criatividade, mas é a capacidade de você interpretar isso.

Ana Paula de Andrade: Exatamente.

Luciano Pires: Olha como é importante essa posição. Ela é fundamental.

Ana Paula de Andrade: Exatamente. Então a Rocha, que depois virou Marketing Store, foi eu acho que, para mim, eu fiquei acho que uns três anos lá. Foi meu maior aprendizado mesmo da posição e do business e tal. Aí eu tinha duas… atendi muita gente lá. Mas eu acho que Electrolux e Pernod foram os meus maiores. E Pernod, quando eu fiz três anos, eu já estava com o portfólio inteiro, praticamente, da Pernod na minha mão.

Luciano Pires: Desculpe. Pernod é?

Ana Paula de Andrade: Pernod Ricard, que era de bebidas. Então era Chivas, Natu Nobillis. Tinha vinho. Tinha uma porção de bebidas. E aí a agência, logo depois da fusão que teve com a Marketing Store, veio uma decisão de cima para baixo, que a gente tinha que atender Diageo, que era o principal concorrente. E a gente tinha que abrir mão da conta da Pernod para atender Diageo e alinhar internacionalmente. Aí foi um drama. Eu sofri tanto quanto o cliente. Porque eu falei: como assim? A gente construiu tudo isso. E realmente assim, a gente… eles faziam muito pouco investimento em advertising, quase o budget inteiro dele estava com a gente. Então ia ser super traumático de fazer essa mudança para outra agência. E aí a gente foi conversar com o Gustavo na época, que era o head lá da Pernod. E aí logo depois da reunião, ele me ligou. Ele falou: Ana, não sei por onde começar. Porque realmente, assim, eu confio tanto em vocês, que eu dei toda a minha estratégia. Está tudo hoje na mão de vocês. Eu não sei por onde começar. Vamos abrir uma conversa com o Geraldo, na época, que era o CEO lá. E vamos comigo. Você escolhe uma agência onde seja bom para você também e onde você acha que tenha a cara da marca e etc., a nossa cara e vamos para outro lugar. Porque eu não sei como vou fazer.

Luciano Pires: Quer dizer, você cria uma relação de confiança tão forte com o cliente…

Ana Paula de Andrade: Tão grande. É.

Luciano Pires: Que a hora que o cliente precisa, ele vai recorrer a você? Vem comigo?

Ana Paula de Andrade: Vem comigo.

Luciano Pires: Tira você da agência.

Ana Paula de Andrade: Exatamente.

Luciano Pires: Para você ser…

Ana Paula de Andrade: Para eu ser a pessoa de contato e ajudar ele nessa transição. E foi uma conversa super transparente. A gente conversou com o pessoal da agência. Então a gente não fez nada embaixo dos panos e tal. Eles também entenderam. Eu lembro que o Martins Vieira, que era um dos sócios, ele era o head de criação, ele falava para mim, ele falava: Ana, você tem uma carreira brilhante pela frente. Eu acho que você tem que aproveitar essa chance. Mas aproveita essa chance também, para parar de conseguir as coisas no grito. Porque até então, eu era tão briguenta dentro da Rocha, que acho que também… acho não, com certeza, também pela falta de experiência, etc. então isso, de briga com a criação, briga com a produção, briga, briga, briga. Chega uma hora que isso é muito desgastante. Então ele falou: aproveita essa chance também para você centrar mais.

Luciano Pires: Slowdown.

Ana Paula de Andrade: Slowdown. Exatamente. Da mesma forma que você fala não para um lado, fala não para o outro, você tem que dar esse passo. Vai ser importante para você. E aí eu fui para a Power 4 na época. Existe uma agência, que é uma agência bem conhecida até hoje que é a Bullet. E alguns sócios tinham saído, tinham feito uma divisão. E esses ex-sócios da Bullet abriram essa agência, que também não tinha muito tempo. E eu fui para lá, trazendo o cliente para a gente fazer.

Luciano Pires: Levando a conta?

Ana Paula de Andrade: Levando a conta.

Luciano Pires: Você é que nem piloto de Fórmula 1. Eu tenho os patrocinadores, eu tenho dinheiro. Posso dirigir o teu carro? Seja bem-vinda.

Ana Paula de Andrade: E eu vou te falar, da Pernod eu tenho pelo menos – tem uma turma enorme – eu tenho pelo menos assim, umas 4 ou 5 pessoas. O próprio Gustavo, que fazem super parte da minha vida até hoje, que se tornaram grandes, grandes amigos assim. E aí eu fui para a Power continuando nesse mesmo business. Depois, enfim, a Pernod era um dos clientes, depois entraram outras marcas enormes.

Luciano Pires: Que ano nós estamos?

Ana Paula de Andrade: Eu acho que isso era 2004 para 2005.

Luciano Pires: O Brasil à milhão. Governo Lula. O Brasil à milhão.

Ana Paula de Andrade: É. Foi. Mas a gente fez muitos projetos legais. Foi muito legal. Mas era aquela loucura de agência. Você trabalhava final de semana, trabalhava à noite. Era uma loucura. Aí eu conheci um nadador.

Luciano Pires: Nadador?

Ana Paula de Andrade: É. Que era da seleção olímpica, da seleção brasileira de natação, tinha sido da seleção francesa e tal. E aí, eu no meio daquela loucura, trabalhando noite e dia, dia e noite. Que nessa época você acha que é o máximo você trabalhar desse jeito. Assim, quanto mais você fica sem férias, sem feriado e etc., você acha que é o máximo quando você tem essa idade.

Luciano Pires: Aos vinte e poucos, 30 anos.

Ana Paula de Andrade: É. Eu tinha menos.

Luciano Pires: É o máximo. É o máximo.

Ana Paula de Andrade: Exatamente, era o máximo. Mas eu acho que era hora também de ralar assim. Nisso, eu já tinha saído do apartamento das meninas de programa, já estava em outro lugar. E aí eu conheci ele, que tinha uma vida completamente diferente da minha, que tinha que dormir “x” horas por dia, porque tinha que treinar no dia seguinte, que não bebia, que não saía à noite e tal. Que foi um negócio completamente diferente para mim. Aí a gente namorou um ano, mais ou menos. Eu acho que depois de seis meses de namoro eu falei: olha, eu acho que o meu relógio está batendo. Imagina, eu acho que eu tinha 25 anos, sei lá, 26. E eu falava: eu quero ser mãe. Então, vamos ver o que vai acontecer. Mas a gente namorava ainda. E ele não me dava bola nesse assunto. Ele falava: imagina, que vai ser mãe? Que não sei o quê? Vamos nadar e trabalhar que está tudo certo. E aí foi quando eu engravidei do meu primeiro filho. Eu estava na Power. E aí ele nasceu, o Téo. Depois, quando ele tinha 3 meses – ele foi um bebê bem difícil no começo – quando ele tinha 3 meses o meu pai faleceu. Que aí ele estava com 53 anos na época. Então eu já estava assim, 10, quase 11 anos sem morar perto dos meus pais. Eles estavam em Belém, depois voltaram para Santos. Eu já tinha uma vida bem longe deles. E aí o Téo nasceu. Quando eu vi, eu estava trazendo a minha mãe para morar em São Paulo, para morar perto de mim, recém-casada, casando grávida, agência, periquito, papagaio. Eu tive aquela primeira – que u acho que é comum, assim das mulheres quando têm o primeiro filho – que dá aquela: o que eu faço agora? Quero ficar em casa com as crianças, com ele. Mas também não podia e tal. E ele também era nadador, estava terminando a carreira. Estava nessa decisão de encerrar a carreira ou não. E aí eu voltei para a Power depois da licença e aí eu comecei já a sentir que aquele ritmo já estava pegando bastante na minha vida pessoal, assim. O que eu faço com essa informação? Eu cresci pra caramba aqui, mas…

Luciano Pires: As pessoas que estão nos ouvindo aqui estão desesperadas para saber se esse nadador a gente conhece ou não? Se ele é conhecido ou não? Você falou que ele era da seleção e tudo mais. E eu sei que vai estar todo mundo quando terminar o programa: por que você não falou? Então, eu preciso perguntar se é alguém que a gente conhece ou não?

Ana Paula de Andrade: Ele é conhecido como Francês.

Luciano Pires: Francês.

Ana Paula de Andrade: É. Ele nadou com Gustavo Borges, o Xuxa, todo esse pessoal. Enfim, agora já pendurou a sunga. E aí a gente casou. Quando eu voltei da licença, que eu estava um pouco nesse período: o que eu faço? Continuo na agência, não continuo? Eu estava um pouco nessa questão. Eu conheci uma pessoa na Samsung que vinha também da Pernod. Era uma pessoa que eu tinha atendido muito tempo na Pernod, que estava ali na Samsung. E ela veio me falar da Marco. E ela me falou: Ana, eu sou head de trade aqui. Eu preciso fazer uma concorrência de trade na Samsung. E me indicaram a Marco, que essa é uma empresa assim, assim, assado, tal. Mas eu queria que fosse com você.

Luciano Pires: Explica rapidamente o que é trade. Porque tem um monte de gente ouvindo aqui que não sabe o que é trade.

Ana Paula de Andrade: E nessa época eu não sabia nada o que era trade. Então assim, as agências de trade – a Marco tem uma história um pouco diferente – a maioria das agências de trade vêm de uma história de agências de contratação de mão de obra. Então basicamente são times de promotores dedicados para alguma marca. E aí pode ser um promotor de venda, pode ser um promotor de merchandising, um representante comercial. E a gente contrata todas as pessoas para representar a marca no ponto de venda. Então quando você vai numa fastshop comprar um computador e você vê lá uma pessoa uniformizada com essa marca, que vai te falar tudo sobre, que é um especialista da marca, que vai te dar todo esse atendimento, para vender alguma coisa, esse é um promotor contratado por uma agência, que terceiriza esse serviço para a indústria. Isso é uma partezinha do iceberg, assim. Tem uma coisa muito mais estratégica por trás. E eu não sabia absolutamente nada disso. A minha experiência de contratação de promotores, de equipes, era a que eu te falei: que era de ações promocionais. Eu não fazia ideia do que era o mercado de trade. E aí essa pessoa me falou. Ela falou: não, eu vou entrar nessa concorrência com a Marco. Mas se a Marco ganhar, eu quero que você vá para lá. Eu falei: vamos ver. E Marco assim, por também, coincidências do destino – que eu não acredito muito em coincidência – o cara que era do meu grupo da faculdade e que trouxe a ideia de fazer o trabalho do grupo, do Kito, na época, estava na Marco. E estava na frente da área de marketing dentro da Marco. E ele conduziu parte desse processo da Samsung. Junto com esse processo, ele recebeu uma proposta para ir para a Microsoft, que a gente atende… a Marco praticamente nasceu com a Microsoft. Então, tudo foi um pouco a hora certa no lugar certo. Ela já estava dando as minhas credenciais, porque queria que eu fosse para lá. O Maurício era um grande amigo, de muitos anos e tal, também precisava de alguém para ir para lá. E aí fui para a entrevista na Marco.

Luciano Pires: A Microsoft tirando o cara da agência?

Ana Paula de Andrade: Tirando o cara da agência.

Luciano Pires: Que nem aconteceu com você ali atrás?

Ana Paula de Andrade: E ele hoje é CMO da Microsoft da América Latina, está superbem lá. Está há 13 anos lá também.

Luciano Pires: Deixa eu marcar muito isso. Porque o insight aqui é o seguinte: tem gente te olhando o tempo todo.

Ana Paula de Andrade: Sim, com certeza. Com certeza.

Luciano Pires: Está todo mundo te olhando. Se eu sou cliente – e eu fiz muito isso no tempo que eu era de empresa e tudo mais – eu trouxe dois ou três caras que me atendiam na agência. A hora que eu precisei montar uma área e tudo mais, foi automático. Eu falei: o cara é tão bom. Então vem cá, vem trabalhar comigo.

Ana Paula de Andrade: Ele sabe tanto do teu negócio.

Luciano Pires: As pessoas estão te olhando e vão te puxar para essa posição.

Ana Paula de Andrade: Sim. Exatamente. E aí eu fui para a entrevista na Marco. A entrevista na Marco foi outra igual, na mesma situação. Você já trabalhou com trade? Você sabe o que é um reporte de Sell-out? Eu nem falava. Eu acho que nessa época eu já estava mais sincera, falando: não, nunca fiz. E eu lembro até que o pessoal tirava sarro. Porque a Marco teve uma história muito grande em tecnologia. A empresa nasceu com Intel e Microsoft, na América Latina toda. E nessa época, quase todos os clientes que a gente tinha era de tecnologia. E eu não sabia a diferença. Você falava em desk, em note e tal, eu era completamente leiga do mundo de tecnologia. Servidor e etc. não fazia uma ideia. E aí eu acabei indo para lá. Só que eu fui primeiro para liderar a área de marketing dentro… que é uma coisa que não existe na maioria das agências de trade. Normalmente as agências de trade são muito focadas na parte de equipe e hoje em dia, de business intelligence, que é toda a parte de gestão de informação. Mas a gente tem uma área de marketing importante lá. Então eu fui para criar essa área. O Maurício tinha acabado de estruturar e eu fui para liderar essa área junto com a Samsung, que estava entrando. E aí fui para lá. E aí foi um mundo completamente diferente para mim. Completamente diferente. Porque eu estava acostumada, por exemplo, relatórios, relatórios de projetos que a gente fazia. Era relatório fotográfico. Quantas abordagens você tinha feito, quantos materiais você tinha distribuído, quantos impactos e etc. E lá a gente tem uma conversa com os clientes semana a semana com os reportes que a gente entrega de o que vendeu, por que vendeu, por que não vendeu, quem está vendendo mais, por que não está?

Luciano Pires: Quantitativo de um lado. Agora era qualitativo?

Ana Paula de Andrade: Agora era extremamente estratégico. A gente entrava num nível de informação dos clientes, que eu jamais tive acesso. Então aquilo para mim era encantador e assustador ao mesmo tempo. Porque eu falava: gente, agora eles vão descobrir que eu sou uma farsa. Porque eu vou ficar na frente do cliente e eu não vou saber falar disso. Então, de novo, eu acho que eu tive essa postura de: quem são as pessoas chave aqui, que eu vou ficar perto e vou sentar do lado e vou ver fazendo e vou escutar? Para eu tentar decifrar aqui esse ecossistema, que eu não sabia nada. A minha sorte é que eu fui para lá também na área de marketing, que era a minha área que eu tinha mais o que aportar e etc. Mas o business mesmo da empresa estava 80% do outro lado. Então, se eu não fosse para esse outro lado, não ia ter muita chance lá. E foi aí que a gente começou, que eu comecei a ter essa experiência maior com trade e veio junto a questão do multinacional. Porque a Marco é da Argentina. A empresa nasceu na Argentina há 25 anos atrás, a gente está em 7 países. Então tinha uma agenda, que é uma agenda que não é normal para as agências do Brasil. A grande maioria das agências são locais. Então, ter que falar outra língua muito rápido. Ter que fazer todas essas visitas, etc. foi uma coisa muito nova para mim. Mas que me encanta até hoje, isso dessa troca entre países e esses desafios assim.

Luciano Pires: Quando foi que você entrou lá?

Ana Paula de Andrade: Eu entrei em 2005, 2006 e estou lá até hoje. Então eu fiquei um tempo na área de marketing, depois… eu acho que eu fiquei um ano mais ou menos, depois a Samsung entrou, a gente fez milhares de coisas com a Samsung, foi muito superlegal.

Luciano Pires: Deixa eu dar uma provocada em você aqui, que eu não resisto. Eu não resisto. Aconteceu comigo. Vamos ver se aconteceu com você? Quando você encampa uma área nova, entra numa área nova, como essa que você acabou de falar. Onde você deixa de trabalhar com aqueles relatórios de quantidade para trabalhar com relatórios de qualidade e começar a entender o porquê que as coisas acontecem. Um belo dia não bate em você uma luz e você fala: cara, agora eu estou entendendo como eu não sabia nada.

Ana Paula de Andrade: É. Como eu era pangaré.

Luciano Pires: Como eu brigava pelas coisas. Como tinha razão o cara que brigava comigo.

Ana Paula de Andrade: É. Exatamente.

Luciano Pires: Como? Meu Deus do céu. Eu estava defendendo com unhas e dentes. E aconteceu comigo isso. Depois, quando eu virei empresário, eu passei a ser o cliente dos caras, que pega diante de mim um diretor de arte para ele insistir comigo, que a letra serifada… eu já mando o cara à merda. E eu fazia isso na época dele. Porque eu já estou entendendo as minhas carências. Quer dizer, isso acontece com você?

Ana Paula de Andrade: Sim.

Luciano Pires: Com você também?

Ana Paula de Andrade: Sim. Completamente. Eu acho que até hoje é um desafio isso que a gente falou a pouco tempo atrás. Cada agência está brigando por uma fatia. Mas as fatias, elas são interligadas. Então hoje assim, esse trabalho de marketing da Marco era justamente para tentar suprir essa carência. Porque a gente tinha tanta informação do que acontecia no ponto de venda, tanta informação sobre o varejo. Então assim, não adianta você fazer uma campanha para o Carrefour, a mesma campanha para o Ponto Frio. Não adianta. Porque os públicos são diferentes, a dinâmica da loja é diferente, o mix de produtos é diferente. É diferente. Então, se você junta uma coisa com outras, assim, se a gente tiver um pouco menos de ego e trabalhar mais. A gente está falando tanto de economia colaborativa. Eu acho que o colaborativo está aí. Como você junta uma disciplina na outra para ter um melhor resultado lá na frente. Você pode ter um budget menor, talvez, por um tempo. Só que você tem uma coisa mais contínua. Porque você está defendendo e está tendo resultado naquilo que você está falando. E aí veio a onda das agências 360, do full service e etc. e eu acho isso uma grande besteira. Porque você não consegue manter uma estrutura. Você não consegue ter especialista para todas as direções. Você tem que juntar o que você sabe de melhor com outro que sabe de melhor e trabalhar junto. É muito como eu penso. Então, eu estava nessa área de marketing e aí a gente participou de uma concorrência da Dell, que estava – que veio – a Dell estava entrando no varejo. Eles eram já mundialmente muito fortes na parte corporativa B2B com a venda via site, via telefone, mas não tinham nada no varejo. E eu ainda nessa, sem entender muito bem de computador e as coisas mais… eu acabei pegando a conta da Dell. Saí da área de marketing e fui para a conta da Dell. E a gente fez esse ano, em junho desse ano, a gente completou 10 anos junto com eles.

Luciano Pires: Com a Dell?

Ana Paula de Andrade: Com a Dell. E que é assim, é muito difícil isso acontecer no mercado. Muito difícil. A rotatividade de um projeto de trade é não mais do que três anos. Três anos você já está num sucesso de relação. Muito por conta de compras, de complience, etc. É muito difícil ter um relacionamento tão duradouro. Mas a gente fez a entrada da Dell em todo o varejo. Então, a Dell para mim foi – eu falo para eles – eles são um case para mim, assim. Porque a gente foi discutir que varejo que entrava, com que mix de produto, com que política de preço? Como você defendia eles, sendo concorrentes deles mesmos? Por que…

Luciano Pires: Quer dizer, você teve a chance de começar um projeto do zero? Você não pegou um projeto andando. Eles não chegaram lá: troquei de agência, continua? Não?

Ana Paula de Andrade: Não. Foi super do zero.

Luciano Pires: Você pegou do zero. Nós vamos entrar. E a gente não sabe direito como é que funciona.

Ana Paula de Andrade: Não sabe direito como funciona.

Luciano Pires: Legal.

Ana Paula de Andrade: Eles estavam competindo com eles mesmos. Porque eles eram muito fortes no ponto com. Então, você falava para um Walmart: vou vender esse produto a 1.500. E o cara falava: está bom. Mas você vende no seu site a 1.300. Como é que você quer que eu faça? Tipo, teve uma resistência muito grande. Então é um projeto que a gente construiu do zero e que tem muita inteligência por trás, tem muita informação, etc. Isso foi muito construído no dia a dia, assim, com eles, com a equipe. Então para mim, isso foi um aprendizado muito, muito grande. Eles queriam replicar o projeto em outros países. Então, o projeto que a gente fazia aqui, a gente levou para o Chile, para a Argentina, para a Colômbia, para o México. E aí eu liderei esse projeto durante bastante tempo. Então, a gente tinha toda a estratégia que ia para fora. E aí eu comecei a colocar as minhas asas para fora, assim, de me meter em todos os lados da agência. Então eu era comercial, mas eu ia lá, brigava com o meu chefe, porque a área de reporte eu achava que tinha que fazer isso. Porque a área de operações eu achava que tinha que fazer aquilo, etc., ia me metendo aqui, me metendo ali e tal.

Luciano Pires: Lá vem a Ana P.

Ana Paula de Andrade: Lá vem a Ana P. É.

Luciano Pires: Meu Deus do céu.

Ana Paula de Andrade: Nessa época eu fiz um coaching que foi um divisor de águas para mim, que eu acho que finalmente eu parei de ser briguenta, nessa época. Porque eu também assumi que eu não ia conseguir fazer 100% das coisas, que isso…

Luciano Pires: Que ano era isso?

Ana Paula de Andrade: Isso já era 2010.

Luciano Pires: 2010, 8 anos atrás.

Ana Paula de Andrade: É.

Luciano Pires: Você tem 32 anos de idade?

Ana Paula de Andrade: Isso. Eu já estava assim, ganhando um pouco mais de maturidade nesse sentido de: ok, não vai ser tudo 100%. E as pessoas são diferentes. E você não pode… a liderança, eu acho que esse é o maior desafio. É meio clichê, mas é verdade. Você tem pessoas diferentes uma da outra, que estão em momentos pessoais completamente diferente do outro. E essa orquestra é o mais difícil.

Luciano Pires: E essa percepção, ela chega com tempo de vida.

Ana Paula de Andrade: Não tem jeito.

Luciano Pires: Não adianta querer…

Ana Paula de Andrade: Exatamente.

Luciano Pires: Ter essa percepção com 22 anos de idade.

Ana Paula de Andrade: Não tem.

Luciano Pires: Com 22 anos você quer arrebentar tudo. Aliás, você é imortal, você é infalível.

Ana Paula de Andrade: Sim, exatamente.

Luciano Pires: Ninguém pode com você, você é o super-homem.

Ana Paula de Andrade: Sim.

Luciano Pires: Aos trinta e tantos já começa a cair a ficha. Espera um pouquinho, cara, já não é tão assim.

Ana Paula de Andrade: Exatamente. E hoje em dia…

Luciano Pires: Agora que você está nos 40, então seja bem-vinda. Porque aos 40 vai começar uma outra… depois eu falo um pouquinho mais para você.

Ana Paula de Andrade: É. E hoje em dia, os de 22 já falam três línguas, já tem MBA; MBA fora do Brasil. Então pior, se acham donos da galáxia.

Luciano Pires: Já voa. Eu sei: eu posso voar. Eu posso voar.

Ana Paula de Andrade: É. Exatamente. E aí enfim, aí em 2000…

Luciano Pires: Como é que foi esse lance? Desculpe. Como é que foi esse lance do coaching? Me fala um pouquinho assim. Você percebeu que você precisava de uma ajuda? Você foi buscar um coaching? Alguém te indicou um coaching? Como é que isso aconteceu?

Ana Paula de Andrade: É. Eu acho que foi muita conversa minha com o meu chefe, na época, que era um grande amigo, assim, que a gente ficou muito, muito amigo. E tudo caminhava para que se… eu era a número 2 na época. Então, eu decidi fazer o MBA nessa época, porque eu achava que tinha muita coisa, especialmente de finanças, de administração, que eu não tinha essa experiência. Então, eu precisava também entrar nesses assuntos. Eu era muito intuitiva nisso de números. Eu sempre gostei muito de números. Mas eu fui um pouco daquela escola do Kito, que é: sai fazendo. Sai fazendo e o que você fala faz sentido. Mas vamos aí. Mas sem muita técnica. E aí chegou uma hora que eu percebi que a técnica também faltava. Que eu tinha muito senso crítico, mas faltava técnica. Então eu fui também. Voltei a estudar para ir atrás desse lado. E aí o coaching veio muito nessas conversas assim, porque eu já estava amadurecendo, mas eu ainda tinha esse sofrimento, assim, de sofrer muito pelas coisas. E aí eu fui fazer. Fiz com o Peter, do EcoSocial, que foi fantástico assim, foi muito legal. Eu fiz um ano.

Luciano Pires: Deixa eu explorar um pouquinho mais do seu coaching aí. Esse coaching surge a partir de um feedback que você tem, de alguém que você admirava?

Ana Paula de Andrade: Eu acho que foi mais o meu pedido.

Luciano Pires: Foi você que falou?

Ana Paula de Andrade: É.

Luciano Pires: Eu tenho um buraco aqui, eu preciso preencher?

Ana Paula de Andrade: É. Eu não estou me contentando.

Luciano Pires: O que eu faço?

Ana Paula de Andrade: É. Eu acho que foi mais… fui eu que coloquei assim: que eu queria. Até porque na Marco, a gente sempre teve uma gestão muito… a gente não tem um formato que é um formato top down. Assim, os países no geral têm muita liberdade no negócio. E chegou uma hora que eu achei que essa liberdade estava caminhando para uma crise de identidade. Porque a gente queria fazer tudo. E essa minha crítica da agência 360, a gente passou por isso também. Então, o cliente: eu conheço tanto do seu negócio, que eu posso fazer qualquer coisa para você. E eu não acreditava nisso. Eu falava: eu não acho que eu posso fazer qualquer coisa. Porque o negócio não se sustenta dessa forma. Você não consegue ter escala, você não consegue ser eficiente se você vai para esse lado. Então, dessas discussões saiu essa história de querer um coaching. E como eu também tinha passado por muita coisa na minha vida pessoal também. Aí já tinha nascido a minha segunda filha, que eu tive já na Marco. E logo depois eu me separei. Então, eu fiquei sozinha com os dois muito pequenos. A minha filha ia fazer dois anos quando eu me separei. Aí o nadador foi nadar. Brincadeira. Ele é, nós somos, superfamília. E aí então, eu acho que juntou um pouco tudo. Porque eu não acredito que a gente separa completamente profissional de pessoal, até nas minhas relações. Tanto é assim que eu tenho um monte de clientes que viraram meus amigos e o pessoal que trabalhou comigo. Eu acho que é impossível você separar uma coisa da outra. Então o coaching, eu fiz durante um ano. E foi muito bom para eu tratar todas essas coisas. Assim, no meio da sessão, ele falava: nossa, você tem tantos temas, Ana P.

Luciano Pires: Então, deixa eu te perguntar um negócio do coaching aí, que é legal, que está na ordem do dia, a coisa do coaching. Eu sou fodão. Eu sou fodão. Estou aqui fazendo acontecer. Mando e desmando. Sou o rei da cocada preta. Eu sou tão bom, que eu acho que eu preciso de ajuda em alguns pontos, que eu resolvi que eu preciso de ajuda. E vou sentar na frente de alguém que eu não conheço e que eu vou ter que aprender a conhecer, respeitar, acreditar nessa pessoa. Eu estou te passando experiência própria. Que você senta na frente da pessoa, abre a boca. E você fala: esse Mané é menos que eu, logo, ele não vai ter nada para me dar e eu vou atropelar esse cara e não vai acontecer nada. Porque eu vou passar por cima dele que nem um trator. A menos que ele seja mais foda que eu. Por isso que é tão complicado você falar: cara, para que coaching eu vou entregar essa minha intimidade?

Ana Paula de Andrade: Sim.

Luciano Pires: Como é que você chega num coaching? Como é que você chegou num coaching que serviu para você?

Ana Paula de Andrade: Sim. Assim, o chegar nele foi meio padrão. O RH trouxe para mim uma sugestão. Eu lembro que eu conversei com um ou dois. Eu acho que com dois na época. Mas o santo bateu com o Peter, assim. Eu lembro de ele falar para mim: o nosso santo tem que bater. E se não bater, eu vou te trazer outras pessoas, porque senão, não vai dar certo.

Luciano Pires: Perfeito.

Ana Paula de Andrade: Então eu acho que essa é a primeira coisa. E ele me irritava profundamente o Peter. Porque eu tinha eu acho que, um pouco, essa arrogância de: como é que um cara que não é do meu mercado, que não sabe do meu business, que não sabe… era muito aquela coisa assim: só eu sofro, só eu tenho esse desafio, só eu, só eu. E ele ria da minha cara. E aí ele me fazia um monte de coisas assim, por exemplo, para mim, um papel em branco é assustador. Isso até hoje, um pouco eu sou assim. Eu tenho muito senso crítico depois que uma coisa começou. O pessoal que trabalha comigo sempre fala: você faz aquelas perguntas que ninguém faz. Depois que a gente virou três noites, achou que esgotou tudo, você vem com uma pergunta que a gente não pensou. Isso eu acho que sempre foi meu, assim, sempre de ser um pouco advogada do diabo todo o tempo, assim, para tentar esgotar um pouco as coisas. E aí o Peter chegava para mim, ele falava: tem um papel em branco aqui. Desenha onde você quer estar daqui a 10 anos. Isso para mim sempre foi assustador. Porque as coisas sempre foram tão atropeladas. Sempre foi tanto fazer uma coisa que eu não conhecia e tal. Eu nunca soube fazer isso. Então, uma coisa que foi muito legal no coaching foi assim: ouvir o que as pessoas pensavam. Como as pessoas me enxergavam. Porque isso fazia parte do processo também. Então, era um processo meu. Mas muita gente que trabalhava comigo e não, participou, dando…

Luciano Pires: Ele conversava com as pessoas?

Ana Paula de Andrade: Ele conversava com muita gente.

Luciano Pires: Você fez um 360. É o feedback 360.

Ana Paula de Andrade: É. É. Então isso para mim foi revelador assim, ver como as pessoas me enxergavam. Então uma coisa que eu falava: poxa, mas eu tenho tanto esse lado. As pessoas não me enxergam assim. E outras coisas do que eles enxergavam eu não enxergava. E como assim até essa história de como eu comecei lá atrás, que foi: você vai dirigir pessoas que sabem mais do que você, então você tem que ter imagem. Eu acho que eu trouxe isso por muitos anos emocionalmente, de achar que: um dia eles vão saber que eu não sou nada disso. Um dia eles vão saber que eles sabem muito mais que eu.

Luciano Pires: Eu sou grande embuste.

Ana Paula de Andrade: Eu sou uma farsa

Luciano Pires: Eu sou uma farsa. Eu sei exatamente o que é.

Ana Paula de Andrade: E o coaching me fez enxergar isso. Ele falou. Foi muito a conclusão que a gente chegou. Foi um trabalho longo, mas foi muito essa minha percepção de que assim, o líder, você tem que ter pessoas que sabem muito mais do que você tecnicamente e até comportamentalmente. Então assim, eu tinha uma cobrança comigo muito grande. Quando eu via a minha equipe, quando eu via pares eu falava: mas esse cara sabe muito mais disso que eu. Mas esse cara sabe muito mais disso que eu. E eu achava isso um problema. Eu achava que isso me diminuía. E o coaching me fez perceber que não. Que assim, que eu tinha uma habilidade realmente, de triangular por tudo isso e de ver o melhor de cada um e como juntar o melhor de cada um. E hoje eu vejo isso. Eu vejo pessoas brilhantes no meu time, que têm uma ansiedade enorme para fazer certas coisas. Mas se ela não estiver combinada com a outra, no momento certo, e aquilo não fizer… não vai dar. Então eu acho que hoje, o meu maior desafio é isso, assim.

Luciano Pires: Nós estamos tendo um laboratório, Ana, esse ano aqui, que é o laboratório, que eu achei que talvez ele seja único na história desse país aqui. Porque isso tudo que você está falando está acontecendo agora. O Bolsonaro foi eleito e a gente olha para ele e fala: esse cara não tem os atributos para ser o cara. Aí ele vai: eu vou trazer o ministro da economia que é fodão. Eu vou trazer um da justiça que é fodão. Aí você fala: cara, ele está se rodeando de pessoas que são muito melhores que ele.

Ana Paula de Andrade: Sim, exato.

Luciano Pires: Ele vai ser atropelado por esses caras ou ele vai se revelar o cara que, embora não conheça tecnicamente nada disso, ele tem a habilidade de puxar as cordinhas. Eu vi uma entrevista dele recentemente, que o pessoal lá fazia a pergunta: se o teu Posto Ipiranga morrer? Se morrer o Paulo Guedes, o que vai acontecer? Ele falou: olha, eu conversei um monte… aliás, a pergunta foi a seguinte: você era cheio de ideias que não tem nada a ver com a ideia do Paulo Guedes. Como é que vocês vão se dar bem? Ele falou: a gente conversou um monte. Eu convenci ele de uma pancada de coisa na área política e ele me convenceu de um monte de coisa na área da economia. E a gente… ele quer 10, eu quero 0. Nós vamos chegar num 5, no meio caminho. Aí você olha e fala: é um laboratório fabuloso para a gente observar isso agora. Quem estiver interessado em pesquisar questão de liderança. O que vai acontecer com isso? Nós estamos assistindo de camarote.

Ana Paula de Andrade: Exatamente.

Luciano Pires: Está nascendo agora, aquilo. Mas tem tudo a ver com o que você falou aí.

Ana Paula de Andrade: Exatamente.

Luciano Pires: A habilidade de você se rodear de gente que conhece mais que você e que te empurra para cima.

Ana Paula de Andrade: É. Exato. Então eu acho que o coaching foi esse divisor assim, para mim, que foi quando eu me toquei que isso é uma grande habilidade. Que eu não precisava… óbvio que você tem que estar sempre estudando, sempre gerando conhecimento. Mas essa habilidade eu acho que poucas pessoas têm e isso não é ser melhor nem pior. O cara extremamente técnico também é extremamente importante, senão esse cara também não funciona. E aí eu acho que eu acalmei. Aí foi onde eu parei de ser briguenta. Eu acho que foi, também, depois de dois filhos e tal, eu acho que também veio: está bom, então é isso e vamos tentar tirar o melhor de todo mundo. E aí também, logo depois, veio o aprendizado, que tudo que você planeja sai completamente diferente. Em um ano, você planeja o ano, todo o ano, quando você chega no final, que você vai fazer o balanço, foi tudo diferente do que você tinha planejado. Porque tem muita coisa que sai do seu controle. A gente lida com muita coisa em volta.

Luciano Pires: A vida é assim. A vida é assim.

Ana Paula de Andrade: Exato. Então, isso me trouxe uma calma e me ajudou a ter mais visão de até onde eu posso ir em cada lugar e com cada pessoa.

Luciano Pires: Você consegue avaliar essa questão da tua liderança? Eu sou líder por que eu sou temido? Eu sou líder por que sou amado? Você consegue ver? Existe uma linha na tua carreira, que você olha? Todo mundo… eu era temida, porque quebrava o pau. Eu era temida.

Ana Paula de Andrade: Sim. Eu quebrava o pau. É.

Luciano Pires: E a partir daquele momento eu passei a me interessar mais por ser… amada é um pouco demais. Por ser respeitada, por ser querida. Sabe, as pessoas me querem, me usam como exemplo. Gostam de mim. E aí eu assumo uma liderança pelo amor e não pelo terror.

Ana Paula de Andrade: Não, sem dúvida. Você tem muito mais resultado. Porque você começa a construir um time, realmente. Que é superimportante. Quando eu tinha essa fase ainda da briguenta pra caramba, eu sempre me preocupei muito em ter argumento nas coisas. Então, eu ganhava a maioria das brigas. E eu lembro de as pessoas terem essa sensação, falarem: eu tenho ódio de você. Porque você está certa. Mas era aquele certa, tipo: eu vou fazer porque você está certa. Mas com aquele sentimento de…

Luciano Pires: Na primeira chance eu puxo seu tapete.

Ana Paula de Andrade: É. Exatamente.

Luciano Pires: Vai ter troco.

Ana Paula de Andrade: E não é legal.

Luciano Pires: Vai ter troco. Vai ter troco.

Ana Paula de Andrade: É. Exatamente. Exatamente. Isso é um desgaste muito grande. Então eu assumi a posição de head do país dentro da Marco. Eu cresci lá. Eu acho que vai ser diferente para mim se um dia eu assumir, chegando já como CEO, com uma posição, numa empresa que eu não tive essa história. Então…

Luciano Pires: A tua posição hoje qual é? Você hoje é?

Ana Paula de Andrade: Hoje eu sou CEO do Brasil.

Luciano Pires: CEO do Brasil, não da marca. CEO?

Ana Paula de Andrade: Da Marco.

Luciano Pires: Da Marco, ok.

Ana Paula de Andrade: Exatamente.

Luciano Pires: De toda a Marco.

Ana Paula de Andrade: Aqui no Brasil.

Luciano Pires: Têm quantos funcionários vocês?

Ana Paula de Andrade: A gente tem no escritório 110, mais ou menos. E no campo, milhares. Então a gente… espera aí, me perdi um pouco. Só que é engraçada essa coisa do chefe carrasco. Assim, sem dúvida a minha gestão foi para um outro lado. Mas eu acho que todo mundo precisa de um chefe carrasco uma vez na vida. Eu acho.

Luciano Pires: Até para saber como não ser.

Ana Paula de Andrade: Eu acho. Até para você dar valor quando você tem um ambiente diferente.

Luciano Pires: Exatamente, sim, sim. Deixa eu voltar de novo ao exemplo que eu acabei de dar para você aqui, falando o negócio do Bolsonaro. O que está acontecendo com o Bolsonaro? Por que esse cara ganha a eleição? Porque há uma carência por autoridade cara, isso aqui virou uma bagunça. Virou uma zona. Todo mundo faz o que quer, a hora que quer. Precisa de autoridade. Então eu vou querer alguém com autoridade. O que é esse chamado por autoridade? Não é porque eu quero botar para cima de mim um militar para voltar com a ditadura. Espera um pouquinho. Eu quero que as pessoas aprendam a respeitar o limite uma da outra, sabe? Vamos fazer. E nesse ponto, um chefe que chega lá e bate na mesa: agora… o que o cara não pode ser? Não pode ser um cavalo, não pode ser um bruto.

Ana Paula de Andrade: Sim, exatamente.

Luciano Pires: Não pode ser um sujeito que…

Ana Paula de Andrade: Desrespeita…

Luciano Pires: Que agride as pessoas. Que desrespeita. Agora, autoridade – que é diferente de autoritarismo, não tem nada a ver – eu estou falando de autoridade, sabe? Que você, cara, alguém vai ter que dizer: é para lá que nós vamos.

Ana Paula de Andrade: Sim.

Luciano Pires: Vamos todo mundo junto. Senão, cada um vai para um lado.

Ana Paula de Andrade: Sim.

Luciano Pires: Então nesse ponto eu acho que é importante, você tem que ter autoridade. Agora, essa consciência da maturidade, sabe, de que eu vou construir essa autoridade porque as pessoas me admiram, porque sabem que eu tenho experiência, porque eu estou certo e porque eu sou educado e as trato bem é o modelo genial. Esse é o modelo.

Ana Paula de Andrade: Isso aí, genial. Exatamente, concordo 100%. E chamando as pessoas também para… tem aquele nível que você tem que compartilhar a decisão. Alguns têm que ser. Daí, se você tem, sei lá, duas ou três opções ali, a palavra final tem que ser sua. E você tem que estar ali, munido de informação. Mas é importante também você trazer o time para decidir junto. Porque o comprometimento depois não tem nem comparação.

Luciano Pires: Você é a única mulher nessa posição?

Ana Paula de Andrade: Eu sou.

Luciano Pires: Quantos são?

Ana Paula de Andrade: Essa foi uma parte também. São seis.

Luciano Pires: São seis heads de países, é isso?

Ana Paula de Andrade: Sim.

Luciano Pires: Cada um num país?

Ana Paula de Andrade: Sim.

Luciano Pires: E você é a única mulher?

Ana Paula de Andrade: Eu sou a única mulher.

Luciano Pires: E aí?

Ana Paula de Andrade: E aí que essa foi outra parte interessante também. Porque eram só homens e só argentinos. Então, se você acha que brasileiro é machista, põe um argentino, põe um portenho aí para você entender o que é. E hoje, óbvio, pelo movimento todo e pela minha história, eu estou mais envolvida nesses temas. Mas quando você vive essa situação você não se dá conta exatamente. Mas enquanto eu era a número 2 no Brasil, e eu era… assim, se eu pegar os meus primeiros dois anos como general manager do Brasil, o meu último ano sem ser, eu era muito mais respeitada do que os primeiros dois anos que eu fui a head. Então assim…

Luciano Pires: Porque você não era ameaça para nenhum.

Ana Paula de Andrade: É. Pode ser.

Luciano Pires: Você não ameaçava ninguém. Não ameaçava ninguém. Aí a hora que você assume, eu vou bater até você ocupar o teu espaço.

Ana Paula de Andrade: É. E quando eu assumi a frente do Brasil, também foi assim, o GM que estava na posição na época, teve um problema pessoal e aí ele ficou afastado durante um ano. E foi num momento que a gente perdeu uma das maiores contas que a gente tinha. Então eu lembro que assim, na véspera da festa de final de ano, véspera de Natal, a gente teve que demitir 130 pessoas.

Luciano Pires: Nossa.

Ana Paula de Andrade: E na véspera disso acontecer ele, enfim, estava com algumas situações, ele falou: Ana, eu não vou conseguir lidar com essa situação. Assume essa situação. Então, eu tive que liderar a demissão das pessoas, a festa de final de ano, num clima, assim, terrível. A virada do ano, o plano do ano seguinte, numa cadeira que eu não tinha, numa coisa que não era minha. Como que chama quando você fica num cargo, eu sempre me esqueço.

Luciano Pires: Interino.

Ana Paula de Andrade: Interina. Exatamente. Eu estava interina, a posição não era minha. E o pessoal de fora, assim, o Brasil sempre teve uma autonomia muito grande, sempre foi uma das maiores operações da Marco. Então, assim, com uma falta de conhecimento mesmo, de envolvimento até do board com o Brasil. Então o pepino estava na minha mão. Eu não tinha a cadeira, o cara não estava mais. Então foi um pouco dessa situação toda e a gente entrou – esse ano que eu fiquei interina – a gente entrou o ano no vermelho. Então naquele ano, o objetivo era dar o breakeven, no mínimo, para recuperar. E aí eu lembro que um pouco na conversa, que o desafio era, o teu desafio esse ano é: não podemos perder dinheiro. A gente tem que colocar o negócio nos eixos. Mas eu também não podia contratar ninguém para fazer o que eu fazia. Então foi aquela coisa, fazer tudo ao mesmo tempo.

Luciano Pires: Acumular as funções.

Ana Paula de Andrade: É. Quando eu tive o meu primeiro ano mesmo de GM, que aí eu assumi mesmo a liderança, foi quando eu senti isso, dessa provação muito maior do que se fosse, talvez, um homem, do que se fosse, talvez, um argentino, do que se fosse, talvez, alguém que tivesse mais essa… que fizesse já mais parte do board, assim. Então assim, era uma justificativa três vezes mais. Era: não, prova por A mais B e tal. E aí foi chegando no final do primeiro ano, a gente bateu 230% da meta do meu primeiro ano. E eu lembro setembro eu mandava os números e a resposta era: não, esse número está errado.

Luciano Pires: Não é possível.

Ana Paula de Andrade: Esse número está errado. Não, tem alguma coisa que você não está contabilizando.

Luciano Pires: Que ano é?

Ana Paula de Andrade: 2013? É, 2013.

Luciano Pires: Já é crise.

Ana Paula de Andrade: Isso.

Luciano Pires: Já é crise. É a primeira, Dilma. Primeiro governo Dilma. É.

Ana Paula de Andrade: E foi o melhor ano da história nossa, dos últimos anos, assim. E eles não acreditavam no resultado. Então esse resultado está errado. Você não está mandando esse resultado. E eu falei: está bom. Então vamos esperar. Você quer que eu diminua o número aqui, eu vou diminuir e quando fechar a gente vê. E aí quando a gente fechou, o número tinha sido realmente 230 mais. E aí a reação foi: não, mas o que você fez? Mas o que aconteceu? Eu falei: não, a gente está tentando colocar as coisas nos trilhos. Assim, tem foco. Essa autoridade, que é uma autoridade de decisão, de: vai para cá, não faz isso. De saber o que não fazer. Porque eu acho que essa é uma das coisas também que as empresas e os líderes… o decidir o que não fazer, às vezes, é mais importante do que o fazer. Porque na ânsia do resultado, na ânsia de gerar, você fala: está bom. Vou fazer isso. E quando você vê você desfocou tudo de uma maneira…

Luciano Pires: É o que os americanos dizem do let it go. Deixa para lá. Desapegue-se. Deixa para lá. Isso é legal. É fantástico. Tudo. Mas deixa para lá. Isso é muito difícil de fazer.

Ana Paula de Andrade: É. Exatamente.

Luciano Pires: Deixa eu te perguntar uma coisa. Paulinha? Estou falando com a Paulinha agora. Paulinha, é verdade que você, por ser mulher você tem que fazer o dobro do que os homens fazem para ser considerada igual a eles?

Ana Paula de Andrade: É verdade. Eu acho que é verdade. Infelizmente, eu acho que é. E eu acho que hoje, eu acho que a gente está num momento diferente hoje, que as pessoas estão mais conscientes, estão mais abertas para falar. Mas eu ainda vejo assim, muitos empresários lidando com isso mais de uma proforma do que realmente colocando as coisas na mesa abertamente. Eu lembro que quando eu fiquei grávida da minha segunda filha, que eu já estava na Marco. Tinha um GM na época. E a conversa sobre a minha gravidez foi, ele falou: mas como assim você vai ficar 4 meses fora? Se você ficar 4 meses fora é sinal que a gente não precisa mais de você. Então assim, muitas situações dessas acontecem. E eu acho que foi super light até. Não é que eu super sofri um preconceito, etc. Mas eu senti muito, assim. A minha ascensão ao cargo que eu tenho hoje, essas fases de gravidez, de separação, etc. e tal, foram fases que eu tive que…

Luciano Pires: Se desdobrar…

Ana Paula de Andrade: E aí é aquela coisa: a mulher que se destaca acaba tendo um lado muito masculino. Por que o lado masculino, ele é o reconhecido como o eficiente ou o que divide a vida pessoal com o profissional? Por que isso é uma característica do masculino? Não faz muito sentido. Fala então, da característica, mas não de ser como um homem. Então eu acho sim, que ainda tem. Eu acho que do lado das agências, eu acho… e eu sou head do Comitê de Trade da AMPRO também. Fui head durante alguns anos, hoje eu faço parte do Comitê. Mas a gente trabalha muito também essa questão de pesquisa, de conscientização das agências e tal. Nas agências do marketing promocional, por exemplo, isso é muito mais balanceado, a liderança feminina. Muito por conta de: atendimento é um departamento muito feminino. Que foi o que aconteceu comigo, quando você tem uma visão comercial, o fato de você ter oportunidade para crescer, eu acho que é mais fácil do que quando você vai, talvez, pela criação, talvez para alguma outra área. No trade quase não existe liderança feminina. Assim, eu trabalho com uma mesa de 10 concorrentes, que a gente trabalha muito junto na AMPRO. Eu acho que eu sou a única mulher. Talvez mais uma. Então, é um mercado muito masculino. E eu acho assim, que ainda tem esse viés. Infelizmente.

Luciano Pires: Legal. É história. A gente está devagarinho ultrapassando isso tudo. E eu acho que essa tendência é irreversível, a tendência. As mulheres vão ocupar o espaço. Talvez não esteja acontecendo na velocidade como tinha que ser, mas não há como reconhecer que não está acontecendo. Está acontecendo. Estão cada vez mais assumindo o seu espaço. E fica mais clara aquela história de que eu não contrato sexo, eu contrato cérebro. Então, se o teu cérebro funciona bem, eu quero você comigo aqui, independente se é homem, se é mulher, seja o que for. E a sociedade muda. E está mudando nesse caminho que vai para lá também.

Ana Paula de Andrade: Sim.

Luciano Pires: E agora, o que vem pela frente?

Ana Paula de Andrade: Olha, agora, eu tenho assim, buscado uma briga já há alguns anos. Briga no bom sentido, de evolução. Que eu acho que a gente está num momento do mercado, muito especial aqui no Brasil. Especial, eu digo, desafiante. Eu acho que o mercado de trade foi para um caminho muito commodity, muito, muito commodity. A relação com compras é uma relação muito difícil. E a gente tem um mercado muito fragmentado. Então eu acho que a gente está num momento de uma decisão de consolidação por um lado, de diminuir, talvez, o número de empresas que fazem esse tipo de trabalho e ir para uma estratégia de volume. Então, tem empresas hoje que têm uma folha de trabalho de 10 mil, de 20 mil funcionários. Você consegue ter uma escala diferente.

Luciano Pires: Essa mudança na legislação, da terceirização?

Ana Paula de Andrade: Da lei da reforma?

Luciano Pires: Da lei da reforma e tudo mais. Isso aí não ajuda vocês?

Ana Paula de Andrade: Ajuda muito. Ajuda muito em termos de ofertas de negócios, de possibilidades, de flexibilidade. Sem dúvida foi um super feito. Mas do lado das empresas é um negócio ainda muito arriscado, você depender de contratação de pessoas. Você tem um passivo trabalhista muito grande, apesar de a reforma ter ajudado. Você tem hoje os departamentos de compras das empresas que tem impõem 90 dias de pagamento ou 120 dias de pagamento. Então você imagina, você com projetos de mil, duas mil pessoas, tendo que financiar 90, 120 dias uma folha dessa. É muito dinheiro envolvido. Então, as empresas de trade estão sendo encaradas muito mais como uma parte financeira do que exatamente da entrega. Então, existe hoje um desencontro do que as empresas exigem, do que compras coloca na mesa, do que as agências estão submetendo para fazer. E, por outro lado, que é um caminho que eu tenho seguido mais. Eu acho que a gente está num momento de uma mudança do hábito de consumo radical. A gente sempre teve horas o varejo como decisor, aí a indústria como decisor. E agora a gente tem o consumidor. Ponto. O cara está com o celular na mão.

Luciano Pires: Meteu a mão no celular, está feito.

Ana Paula de Andrade: Aí ele entra na loja, ele já sabe tudo sobre o produto. Ele já sabe todos os preços, ele já sabe onde tem, onde não tem, etc. Então, isso tem provocado uma mudança muito grande nas empresas como a minha. E a gente tem que se reinventar. Ponto. Assim, não tem outra saída. Então eu, há cinco, seis anos, mais ou menos, eu comecei a ir todos os anos para Nova Iorque, que tem um evento agora em janeiro, que é NRF, que é um dos grandes de tendência. Aí isso começou a me aguçar muito. Depois eu fui para o Vale do Silício. Eu fui para vários lugares, para estudar um pouco o que está acontecendo lá fora. É impressionante o que tem de brasileiro. É impressionante. Todos esses eventos internacionais, a maior delegação é o brasileiro. E eu acho que depois, quando ele passa na imigração, de volta, ele volta para o estado operante de não fazer nada. Então, informação não falta. A gente tem muita informação para fazer acontecer. Mas tem ainda, muito pela política, muito pela crise, muito por conta disso, assim. O cara que é o sponsor do lado da indústria, ele quer fazer. Mas ele não quer perder o emprego. A gente passou esses últimos dois anos nessa aflição. Eu faço alguma coisa ou eu seguro o meu emprego? Então eu vou segurar o meu emprego.

Luciano Pires: Você tem que ser um agente de ruptura. E ninguém gosta do agente de ruptura. É aquela história do: vamos inovar, inovar, inovar. Tudo muito lindo. Até aparecer o inovador. E eu quero matar esse desgraçado. Porque esse cara veio para quebrar aquilo tudo que me dá segurança. E não é todo mundo que tem essa…

Ana Paula de Andrade: Exatamente. Então você vê assim, a evolução das startups, do modelo da startup. Assim, eu estive no Vale do Silício esse ano e é impressionante. Assim, a taxa de não dar certo das startups é mais de 90%. E aí eu lembro que assim, uma das últimas conclusões que eu saí do Vale foi assim: qual a maior diferença do Vale? É que as pessoas não têm medo de perder dinheiro. Não tem medo de falhar. Porque o falhar faz parte. E a gente vive aqui uma prisão disso de não arriscar. E a gente está sendo engolido por um monte de negócios totalmente inovadores, que estão pegando o lugar dos negócios tradicionais. Então assim, a gente na Marco, já está tentando sair na frente. A gente está abrindo uma startup agora, estamos tentando fazer uma spin-off. Porque você fazer também essa disrupção dentro do PNL é muito difícil. Então faz isso fora. Assume que você tem que fazer isso fora.

Luciano Pires: Você falou: startup, spin-off, PNL? E drive não sei o que lá. Tem um linguajar aí, que você pisa no acelerador aí, o negócio atropela tudo. Mas tudo bem. Faz parte do…

Ana Paula de Andrade: É. Mas basicamente, se você quer transformar a sua empresa, você tem que ter uma estrutura paralela fazendo isso.

Luciano Pires: Perfeito. E eu já vi inclusive empresas aproveitando esse nicho. Você leva, bate lá no Itaú e fala no Itaú: eu sou o cara da inovação. Então me chama, que eu vou criar essa loucura toda. Se ela der certo, você implanta. Entendeu? Eu não vou querer que você faça dentro da tua estrutura. Porque a tua estrutura não vai aceitar.

Ana Paula de Andrade: Não vai aceitar.

Luciano Pires: Vai atropelar isso. Então eu faço separado. A hora que estiver pronto eu venho e implemento aqui. Que eu acho que é fantástico. É por aí que a coisa vai. Eu fiz essa semana uma palestra na Mercedes Benz. E no final da palestra abriu para pergunta e resposta e tudo mais. E aí um garotão me fez uma pergunta lá. E eu sabia que no meio, tinha de tudo lá, desde operador de máquina, todo tipo de gente e os garotões lá. E eu saquei que o garotão tinha umas startups, que eles estão incentivando ali. E tinha toda a pinta de ser um menino de startup. Ele fez uma pergunta: olha, você acabou de falar, etc. e tal. Eu queria saber como que a gente faz, o que faz dar certo ou dar errado? Sabe, eu tenho essa ideia maravilhosa que nós estamos trabalhando aqui. O que pode fazer essa ideia aqui dar certo? E eu falei para ele o seguinte, eu falei: olha, o que pode fazer dar certo é você botar energia no lado sujo da história. Porque o lado brilhante, lindo, que é a tua ideia, você está na felicidade. Agora, cara, você vai ter que pagar conta, você vai ter que falar com o contador. Você vai ter que pagar aluguel. Você vai ter que pagar imposto. Você vai ter que lidar com fornecedor, com RH. Você vai ter um cara na tua frente chorando porque ele não tem dinheiro para pagar o dentista. E nada disso você contempla pensando só na tua ideia, cara. Por isso é que startup arrebenta. O cara, ideia maravilhosa. Mas cara, isso tem que ser efetivado. Então, tem um mundo sujo em volta de mim, que alguém vai ter que fazer essa parte. E eu não quero me envolver com isso, porque eu sou artista. E a hora que você vai botar o negócio para andar, aí esquece. E esse lado toma 90% do teu tempo.

Ana Paula de Andrade: Exatamente.

Luciano Pires: Eu não tenho uma estrutura do seu tamanho. Eu não tenho 150 pessoas trabalhando comigo. Eu não tenho um departamento pessoal. Eu sou eu. E aí como que eu faço?

Ana Paula de Andrade: Exatamente.

Luciano Pires: Então, essa condição, eu acho que aí que o digital vem para arrebentar isso tudo, entendeu?

Ana Paula de Andrade: Você tem escala.

Luciano Pires: E o digital vem, porque ele começa… hoje eu consigo ter, na minha disposição, todo um trabalho, que eu precisava de um escritório de advocacia, numa tecla. Tem um contador noutra tecla. Tem alguém. Tem o fornecedor, etc. Então, isso vai rebentar tudo. Vai, nossa, vai desmontar tudo. Mas legal saber que vocês estão de olho aí.

Ana Paula de Andrade: Então, o meu próprio step eu acho que é esse assim, tentar ir para um negócio assim, ajudar a Marco a transformar o negócio mesmo. Porque eu acho que o mercado de trade, daqui a 10 anos vai estar completamente diferente. Ele não se sustenta mais como é hoje.

Luciano Pires: Sim. Vai ser diferente. Se você quiser saber como vai ser diferente, vai lá. Ontem eu fui ver uma peça de teatro lá no Eva Hurst, lá na Cultura. Chega domingo à noite, na Cultura lá do Conjunto Nacional. Eu entro, aquilo abarrotado de gente. Mas assim, gente para todo lado, dentro de uma livraria. Muito legal. A cafeteria entupida de gente. Aquilo é muito cult. Bah, que maravilha. Eu subo para ir no teatro e atravesso a área de DVD e CD e não tem ninguém. Vazio. Escarrado na minha cara aquela coisa do: olha a tecnologia mudando. Olha a mudança que aconteceu aqui, essa área vazia. Não tem porque pagar aluguel por aquilo ali, ocupar espaço. E não tem ninguém lá dentro. Ou seja, mudou tudo. E aí agora, ninguém mais compra CD, ninguém mais compra DVD. Eu compro um streaming.

Ana Paula de Andrade: Sim, completamente.

Luciano Pires: Um streaming. Como é que isso vai impactar? Você, que tinha que ter espaço para guardar as coisas, para manter. Não tem mais.

Ana Paula de Andrade: Exatamente. Exatamente.

Luciano Pires: O que você faz com um streaming?

Ana Paula de Andrade: E a gente já sente assim, muito, essa integração de canais. Da falta de integração de canais. Porque a gente trabalha muito com marca de tecnologia. Então a gente tem muitas equipes desse perfil, mais do que de reposição, o que a gente fala que é o promotor de Danoninho, que tem que garantir que o Danoninho está lá. Na gôndola, a gente trabalha com especialistas mesmo, que apoiam na venda e tal. Se eu estou lá para vender o computador da Dell e o cara chega disposto a compra Lenovo e eu convenço ele de comprar, eu faço o meu trabalho e eu converto a compra para a minha marca. Mas por algum motivo, ele comprou no ponto com daquele varejista. Aquele resultado já não entra mais para mim.

Luciano Pires: Ou seja, o convencimento foi teu…

Ana Paula de Andrade: Exato.

Luciano Pires: Mas a compra…

Ana Paula de Andrade: A compra foi lá. Então assim, quando eu vou reportar depois, no final do mês, o resultado da minha equipe, aquilo já não aparece mais. Então: acho que esse projeto já não está mais dando certo. Não, ele está. Ele tem fundamento. Mas a forma com que ele está sendo medido, os keep eyes para siglas. Se isso não for revisto você vai achar que está tudo uma droga. E na verdade não está. Na verdade, você tem que conversar uma coisa com a outra. Então esse é o…

Luciano Pires: Vem uma revolução de indicadores aí. Nós vamos ter que repensar isso tudo aí.

Ana Paula de Andrade: Então essa é minha pauta ultimamente.

Luciano Pires: Grande história, grande. Vem aí um blog? Vem aí um livro? O que vem pela frente?

Ana Paula de Andrade: Pois é, livro eu já pensei. Eu já pensei na do livro. Pode ser.

Luciano Pires: Começa com o blog. Faz o seu bloguezinho lá, bota o blog lá, põe o seu diariozinho lá. É assim que faz. Não deixa de registrar as coisas legais. Aquilo que você fazia no diário quando tinha 16 anos? Põe no blog. Daqui um ano você tem um livro.

Ana Paula de Andrade: É verdade.

Luciano Pires: Normal.

Ana Paula de Andrade: É verdade.

Luciano Pires: Muito legal.

Ana Paula de Andrade: Joia.

Luciano Pires: Se a gente quiser conhecer o trabalho de vocês lá, como que faz? www?

Ana Paula de Andrade: marcomkt.com.

Luciano Pires: marcomkt.com.

Ana Paula de Andrade: Isso.

Luciano Pires: Maravilha. Obrigado por você ter visitado aqui. Eu acho que valeu. Um papo legal.

Ana Paula de Andrade: Não, foi ótimo. Foi ótimo. Eu que agradeço.

Luciano Pires: Boa sorte Paulinha aí, arrebenta lá.

Ana Paula de Andrade: Quanto tempo. Agora eu sinto os 40. Eu estava vendo quanta coisa que…

Luciano Pires: O insight que eu queria te dar. Deixa eu te dar um insight que eu falei lá atrás. Agora eu vou te dar. Um fenômeno que vai acontecer com você agora que você passa pelos 40 anos de idade. Com mulheres eu não sei como que é. Homem eu sei como que é. O homem é o seguinte: a partir dos 40, ele perde a elasticidade da bolsa escrotal. Ele não tem mais saco, entendeu? Então, você começa a não ter mais paciência para ouvir o idiota falando. Você começa a ficar de saco cheio e não tem mais saco. E daqui a pouco você começa a ficar impaciente. Começa a manifestar essa tua impaciência. E aos pouquinhos, o sistema vai tratar você como uma pessoa mal-humorada…

Ana Paula de Andrade: Ranzinza…

Luciano Pires: Ranzinza. Porque não tem mais saco para ouvir abobrinha. Então, chega aquele moleque de 22 anos que é o rei da cocada preta, que sabe tudo, com as ideias que você já viu que não funcionaram, que não vão dar certo, porque não é assim. Mas você não consegue parar aquele ímpeto. Você não tem mais saco para ver aquilo lá. E aí eles vão falar: não chama para a reunião não, porque isso aí…

Ana Paula de Andrade: Sim.

Luciano Pires: Sorte sua que você é a head. Então você… mas vai encarando, que você vai começar a ficar de saco cheio com essa história toda. Ana, obrigado pela visita, espero que você tenha gostado.

Ana Paula de Andrade: Obrigada. Adorei, foi ótimo.

Luciano Pires: Vou acessar o site lá, ver como que é o trabalho de vocês.

Ana Paula de Andrade: Está bom.

Luciano Pires: Está bom? Obrigado, viu?

Ana Paula de Andrade: Obrigada.

Luciano Pires: Muito bem, termina aqui mais um LíderCast, a transcrição deste programa, você encontra no LíderCast.com.br. para ter acesso a esta temporada completa assine o cafebrasilpremium.com.br e receba imediatamente todos os arquivos. Além de ter acesso ao grupo cafebrasil no Telegram, que reúne ouvintes dos podcasts Café Brasil e LíderCast, que discutem em alto nível, temas importantes, compartilhando ideias e recebendo conteúdos exclusivos.

Lembre-se: cafebrasilpremium.com.br.

O LíderCast mantém parceira com a WeWork, um ambiente fantástico com espaços de trabalho privados ou compartilhados, que ajudam a criar um mundo onde você pode ter uma vida e não apenas um trabalho. A WeWork é um lugar onde você entra como um indivíduo, ‘eu’, mas se torna parte de um grande ‘nós’ – www.weworkbr.com

Assine o LíderCast pelos feeds http://www.portalcafebrasil.com.br/todos/LíderCast/feed/

http://bit.ly/LíderCastNoAndroid