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Luciano Pires -
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Narrador: Bem-vindo ao LiderCast, o podcast para quem quer saber mais sobre liderança. Apresentação, Luciano Pires.

Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LiderCast, um podcast que trata de liderança e empreendedorismo, com gente que faz acontecer. No programa de hoje temos Alessandro Loiola. Médico, escritor, um intelectual inquieto, capaz de teorizar sobre os mais diversos temas, sempre com uma visão alternativa, as modinhas que encontramos por aí. Este não é um programa de entrevistas, não tem perguntas programadas, nem roteiro definido. É um bate-papo informal com gente que faz acontecer, que vai para lugares onde nem eu, nem meu convidado imaginamos. Por isso, eu não me limito a fazer perguntas, mas dou meus pitacos também. Você está entendendo? Não é uma entrevista. É um bate-papo. O LiderCast é lançado por temporadas. Os assinantes da Confraria Café Brasil e do Café Brasil Premium tem acesso imediato à temporada completa, assim que ela é lançada. São mais de 24 horas de conteúdo de uma vez só, cara. Os não assinantes receberão os programas gratuitamente, um por semana. Para assinar acesse cafebrasilpremium.com.br. Esta 10ª temporada do LiderCast chega até você com o apoio da Nakata, que é líder em componentes de suspensão. Cuide bem de seu carro com as dicas do blog.nakata.com br. Muito bem, mais um LiderCast. Começando esse aqui. Chegou para mim… quem foi que convidou mesmo?

Alessandro Loiola: Do Robson Abreu. Mandar um abraço para ele.

Luciano Pires: Robson Abreu então. Que escuta, gosta do que ouve e de repente, manda um e-mail falando: bicho, você tem que falar com um cara que é assim, assim, assim. Está escrevendo um livro. Eu falei: vamos chamar ele aí. e aqui eu já encerro as informações. É aquilo que eu gosto de fazer. É curiosidade genuína. Três perguntas fundamentais, as únicas que você não pode chutar, não pode errar, tá?

Alessandro Loiola: Ok.

Luciano Pires: Eu quero saber seu nome, sua idade e o que é que você faz?

Alessandro Loiola: É Alessandro Loiola. Eu sou médico e 47 anos de idade.

Luciano Pires: Mora?

Alessandro Loiola: Atualmente em Caraguatatuba.

Luciano Pires: Caraguatatuba? Eu pensei que a turma não morava lá, só ia lá para a praia.

Alessandro Loiola: Litoral norte de São Paulo. Rapaz, eu sou natural do Espírito Santo, Vitória. Mas eu já… uma das vantagens que a Medicina dá para a gente é isso: você pode botar a mochila nas costas e escolher a cidade que você vai querer morar. Aí nessa aí, eu já morei num monte de canto. São José dos Campos, BH. Um dos lugares mais curiosos que eu já morei foi Santa Maria de Jetibá, que é o segundo maior… a segunda maior concentração de imigrantes pomeranos no Brasil. Se eu não me engano, eu acho que só perde para Pomerode, Santa Catarina.

Luciano Pires: Santa Catarina

Alessandro Loiola: Mas Santa Maria de Jetibá, interior do Espírito Santo.

Luciano Pires: Ah, do Espírito Santo?

Alessandro Loiola: Espírito Santo. Sim. Cara, ser médico lá foi uma das coisas mais surreais. Porque a gente ia para uns grotões do município que o pessoal…

Luciano Pires: Não falava português?

Alessandro Loiola: Não falava. Só pomerano. E pomerano não tem livro. É um idioma, é um derivativo aí do alemão com inglês, umas palavras misturadas. E eu acabei pegando um caderninho e eu ia escrevendo a onomatopeia do negócio, para poder conseguir me comunicar com os caras. Mas é um povo trabalhador pra caramba.

Luciano Pires: Até hoje é assim. Até hoje é assim. Até hoje funciona assim. O que seu pai, sua mãe, faziam?

Alessandro Loiola: Meu pai foi pediatra. Já falecido. E minha mãe é engenheira civil. É cara.

Luciano Pires: Pô, um médico com uma engenheira? Você tem irmãos?

Alessandro Loiola: Tenho duas irmãs. Uma, a Giovana, mais nova, que é dentista. E a do meio, Fabiana, que é engenheira civil também. Mas caminhou para a área de geotecnia, foi fazer mestrado. E dá aula hoje em dia.

Luciano Pires: Quer dizer, mas então você era balizado em casa, por dois caminhos totalmente diferentes, uma engenheira e um médico.

Alessandro Loiola: Isso.

Luciano Pires: O seu pai era médico independente ou era médico… ele tinha o consultório dele?

Alessandro Loiola: Consultório, aquela época, década de 70. Aí a maior parte da renda era consultório mesmo.

Luciano Pires: Legal. E como é que é o teu apelido quando era moleque?

Alessandro Loiola: Cara, depende da fase. Bem moleque meu tio me chamava de Peninha. Porque eu era bem leve. Eu tenho saudade daquele peso. Infelizmente…

Luciano Pires: Eu me refiro a isso: 40 quilos atrás. Eu tinha cabelo. Eu tinha tudo, né? Você, o que o Peninha queria ser quando crescesse?

Alessandro Loiola: Cara, eu pensei em ser de tudo: jornalista, astronauta, bombeiro. E eu meio que acabei indo para Medicina pelo motivo mais fútil do mundo. É até ridículo falar isso. No segundo grau tinha uma menina, eu estudava no Salesiano, colégio católico lá em Vitória. E tinha uma menina bonita lá. Eu passei… agora chama ensino médio, né? Na época chamava 2º grau. Eu passei o 2º grau inteiro querendo chegar nela. Mas eu era tímido pra caramba. E quando chegou a época do cursinho, a gente tinha que escolher a área que a gente ia. E essa menina foi para a área de biomédicas no final. Eu falei: não, eu vou para a área de biomédicas, eu vou sentar do lado dela na sala e vou chegar nela. Eu passei o ano do cursinho sem conseguir chegar na menina, acabei passando para Direito, não passei para Medicina. Mas eu fiquei mordido. Eu falei: porra, como que eu não passei para Medicina? Aí no outro ano eu fiz Direito e fazia cursinho de manhã e por fim acabei, passei para Medicina. Mais por pirraça do que por vocação.

Luciano Pires: E a mina?

Alessandro Loiola: Nunca mais vi. Não lembro nem o nome, cara. Pode ser Alzheimer também.

Luciano Pires: Ai, cara. Eu fiz um programa, um Café Brasil há um tempo atrás, sobre homens e mulheres, que eu sacaneei as meninas. Eu trouxe duas meninas para falar. E eu falei uma frase para elas, que elas me encheram o saco, um monte de gente comentando, me enchendo o saco. Quando eu falava o seguinte, eu falei: o que move o mundo é a rola. Ou sobra ou falta. Eu sei que por sobra ou por falta tem conflito, tem guerra, tem o diabo e tem a motivação. Eu vou atrás de buscar o meu prazer ou vou atrás de evitar o excesso. E o interessante é isso, quer dizer, você vê, é a coisa mais prosaica do mundo. Eu vou atrás da menina bonita. E isso acaba impactando no meu futuro, cara.

Alessandro Loiola: Eu já li um bocado. A minha memória de vez em quando não é tão boa assim. Mas dos vários autores que eu li e durante o curso de Medicina, você acaba entendendo que existem duas – na minha cabeça – eu vou um pouco ou antes ou além ou paralelamente à rola. Eu entendi que existem duas grandes forças motrizes no mundo. Na verdade, são forças hidro motrizes, que é a lágrima feminina e o hormônio feminino. A gente faz tudo para poder conseguir o hormônio e não ver a mulher chorando. O mundo é movido por essas forças hidro motrizes.

Luciano Pires: É o mesmo que eu disse, só que mais bonito.

Alessandro Loiola: Mas é o Yin-yang, né? A força hidro motriz está…

Luciano Pires: É o mesmo que eu falei. Só que mais bonito. Você é poético. Ninguém vai pegar no seu pé. As mulheres vão ficar emocionadas: ai, que lindo. Mas é a mesma coisa que eu disse, cara. A mesma coisa.

Alessandro Loiola: Porra, mas a gente vive assim. O mundo é tocado por isso. Você não quer a Ferrari pela Ferrari.

Luciano Pires: Você volta lá para Troia, cara. Troia só dá aquele rolo todo por causa de um cara correndo atrás de uma mulher. E você traz a história da humanidade, é sempre assim. Está sobrando ou está faltando. Mas não é essa a história aqui. O papo nosso não é esse aqui.

Alessandro Loiola: Aí Troia, mais ou menos, dá para resumir assim: uma rola sequestra uma força hidro motriz, que depois é resgatada por outra rola.

Luciano Pires: Exatamente.

Alessandro Loiola: Pronto. Você entendeu Troia.

Luciano Pires: Mas no caminho, um monte de rola.

Alessandro Loiola: Até o cavalo.

Luciano Pires: Mas aí então, você foi fazer… quer dizer, você chegou na Medicina sem ter muita certeza se ia gostar daquilo, se aquilo era tua praia. Embora você visse teu pai fazendo aquilo. Mas não é que você: pô, adoro o que o meu pai faz. Eu vou seguir a praia dele. Foi isso?

Alessandro Loiola: Conscientemente talvez não, né? Mas o inconsciente é uma praga. E eu sempre fui louco por leitura. Leitor, leitor. Na minha semana ruim eu leio dois livros.

Luciano Pires: Por semana?

Alessandro Loiola: Por semana. Eu já faço isso tem um bom tempo.

Luciano Pires: Puta inveja, cara.

Alessandro Loiola: Para você ter uma ideia de como que era…

Luciano Pires: Então para. Dá um break. Break.

Alessandro Loiola: Sim.

Luciano Pires: Break. Break. Me conta a técnica, o método. Como é que você faz? A disciplina para você ler dois livros por semana? Vamos dizer que cada livro tenha 200, 300 páginas, uma coisa assim. Demanda um tempo e você precisa ter uma disciplina para isso. Como é que você faz? Me dá o seu dia. Como é o teu dia, para você manter isso?

Alessandro Loiola: Eu trabalho no Posto. Saio do Posto cinco horas da tarde. Vou para casa, leio uma hora e meia, duas horas e depois eu escrevo até a madrugada, para desespero da minha namorada, que fica querendo saber se eu estou vivo, se eu comi. Por falar nisso, Gisele, um abraço.

Luciano Pires: Você chega em casa, então e é tarefa diária ler o livro?

Alessandro Loiola: Vira um vício, Luciano.

Luciano Pires: Vira um hábito?

Alessandro Loiola: Vira um hábito, uma rotina, um vício. Mas eu vejo que isso vem lá de quando eu era moleque. Que uma das pirraças que eu tinha. Pirraça não, vai. Uma das implicâncias que eu adorava. A minha mãe era muito certa com o negócio do almoço. Ela queria que todo mundo almoçasse junto. Aí na hora do almoço era a hora que eu mais interagia com os meus pais. E eu ficava enchendo o saco do meu pai, fazendo perguntas para ele lá, de coisas que eu tinha lido na biblioteca que eles montaram em casa. Naquela época não tinha internet, não tinha Wikipedia, não tinha nada. Eu acho que para deixar a gente mais sossegado, eles montaram. Tinha Delta Universal, tinha Barsa, vários livros de autores diferentes. Eu li aquela porcalhada toda. O Rio Duran. Enfim. Esse povo todo aí. E aí, na hora do almoço eu ficava enchendo o meu pai. Eu falava: pai, você sabe? É verdade que todo rio corre para o mar? Ele: é Sandro. É verdade. Eu dizia: não, não é verdade. Os rios temporários do outback da Austrália não correm para o mar. Pai, você sabe o que quer dizer DC, de Washington? Não Sandro, eu não sei. É District of Columbia. Come, Sandro.

Luciano Pires: Puta moleque chato.

Alessandro Loiola: Moleque chato. Cara, nerd desde os cinco anos de idade. Mas enchia o saco. Eu ficava perguntando. E nessa aí de ficar perguntando, eu lia pra caramba. Sem sacanagem. Eu acho que eu li aquelas porcarias daquelas enciclopédias lá quase todas. E é um hábito que vai se mantendo. Na época da Medicina, o curso é um pouco puxado. Então, você acaba focando muito só em livro médico. Mas terminada a Medicina, eu voltei cara, filosofia, romance, sociologia, antropologia.

Luciano Pires: Eu estou numa fase da minha vida, que eu diria para você, que eu nunca li tanto quanto eu leio hoje em dia. E eu nunca li tão poucos livros quanto eu leio hoje em dia. Porque o meu consumo de textos é internet, é pesquisa. É o dia inteiro buscando. E até alguns livros que eu preciso estão lá na internet. Eu estou lendo por lá. Mas isso é uma mudança cultural brutal. Ontem… essa noite. Hoje de manhã. Eu acordei. Fui falar com a minha filha. A minha filha tem 27 anos, mora com a gente em casa. Ela vira para mim e fala: pai eu fiquei até cinco horas da manhã assistindo televisão. Bolsonaro. Porque eu ouvi tanta coisa dos amigos dele, que eu fui querer descobrir o que era. Eu comecei meia noite a ver os vídeos no Youtube.

Alessandro Loiola: E foi…

Luciano Pires: E não parei até cinco horas da manhã, tentando entender o que acontece. Tentando entender o que é esse cara aí. Quer dizer, aquilo que para a gente era a pesquisa no livro, na biblioteca, você vai atrás. Ela hoje, ela bate uma tecla e vê na TV, na smart TV dela os vídeos, com o autor falando. Como cara falando, né?

Alessandro Loiola: Mas eu vejo que existe um problema grande nesse pós-modernismo, extremamente audiovisual. Porque quando você lê, você ativa partes diferentes do seu cérebro. A leitura é um tipo de aprendizado, de aquisição de conhecimento muito mais ativo do que só o audiovisual. O audiovisual você fica passivo. Você pode entrar num estado zumbi. O audiovisual vai passando. O livro exige que você mexa com o seu cérebro. Inclusive eu sempre brinco que você não consegue – um bom livro, um bom livro – você nunca termina ele. Nunca termina. Porque o cara que começou o livro não é o mesmo cara que terminou o livro. O cara que terminou o livro é outro.

Luciano Pires: E se você decidir ler o livro dali a 10 anos…

Alessandro Loiola: Sim, a história do rio. Do homem que vai se banhar no rio. O rio passou e o homem também passou.

Luciano Pires: Mas você sabe que essa coisa tem os prós e os contras. Essa semana eu estava, eu fui… onde é que eu fui? Eu estava num evento, cara. Eu não vou me lembrar onde foi. Eu faço tanta palestra aí, assisto tanta palestra, que é uma loucura. Mas a gente estava lá conversando e o cara mostrou uma foto de um corredor… ah, já sei. Era no Assinaturas Day. Ele mostrou o corredor de uma locadora de vídeos. Ele estava falando sobre essas mudanças todas. E mostrou a locadora e falou: quem tem saudade disso? De entrar numa locadora de vídeo, de DVD? Eu falei: porra, eu tenho. Cara, como assim? Eu falei: eu tenho, cara. Eu tenho a saudade de entrar e de estar na expectativa de: o que será que chegou de novo? E aí pegar a caixinha e virar a caixinha e olhar o texto atrás. E aí eu quero e não tem. Eu vou deixar meu nome aqui, para o cara me avisar quando chega. Então, tem uma interação com o produto ali, que sumiu. Agora eu vou no Netflix, aperto o botão, passo a assistir. É muito mais rápido. Eu tenho muito mais opções, perco muito menos tempo. Porém, toda aquela interação, que é até física, chega a ser física, né? Acabou, não tem mais. Ela não rola mais. Então tem prós e têm contras. Que nem aquela discussão: você lê livro de papel ou lê e-book?

Alessandro Loiola: Os dois.

Luciano Pires: Porra, e-book em dois segundos. Agora, virar a pagininha, sentir o cheirinho do papel, pegar o livro na mão. Olhar a capa, virar. Sentir o cheiro subindo, tem…

Alessandro Loiola: É. Mas essa é uma implicância que eu tenho com essa geração pós-moderna. Porque o cara vira e diz que: pô, eu não gosto muito de ler. Eu sempre falo: bicho, compra, tem… não sei se pode fazer merchandising aqui.

Luciano Pires: Pode falar à vontade.

Alessandro Loiola: Tem uma porrada de livrarias online, tem Estante Virtual. Tem sebos na sua cidade. Esses dias eu entrei lá, comprei três livros do Rosseau, Deus que me perdoe, Odim que me perdoe. Mas porra, Rosseau. Tudo bem. Mas três livros do Rosseau por R$5,00 cara, R$5,00. A cultura hoje em dia está muito barata. Mesmo se você não quiser, você pode baixar um aplicativo no seu celular, de leitura. Eu uso o UB Reader. E tem uma porrada de sites na internet, que você consegue baixar os livros em formato e-pub, PDF.

Luciano Pires: De graça, né?

Alessandro Loiola: E lê no celular.

Luciano Pires: De graça.

Alessandro Loiola: Mas aí o cabeção vira para mim e fala assim: pô, mas eu não gosto de ler no celular. Eu falei: bicho, você ouve o Facebook? Sério. Você ouve WhatsApp? Você passa o dia inteiro escrevendo e lendo. Mas na hora que é para poder ler um livro, aí você tem um bloqueio. Eu não leio no celular. É muito simples. A cultura está acessível hoje em dia. E têm livros fantásticos, cara. Fantásticos. Jared Diamond. Eu estou com a sequência, terminei o segundo dele agora. Eu estava com três livros.

Luciano Pires: Fala o nome devagar, para a turma pegar aqui.

Alessandro Loiola: Jared Diamond.

Luciano Pires: Jared Diamond?

Alessandro Loiola:Diamond. É um médico americano. A história dele é bem curiosa. A mãe dele era – se eu não me engano – a mãe dele era professora de Letras, linguista. E o pai era médico. E meio que dá para entender que o pai fez uma pressão para ele fazer Medicina. Falou: porra, você vai fazer línguas, você vai passar fome aí, pô. Faz Medicina. O cara foi lá e fez Medicina. Só que ele viu que sangue não era muito para ele. Aí dentro da Medicina, ele caiu para fisiologia. Mais área de pesquisa universitária. E dentro da fisiologia ele foi mexer com? A fala. Línguas. Ele deu um Tomé no pai dele, ele deu uma curva grande e voltou a mexer com línguas. E ele fez várias viagens para Papua, Nova Guiné. Ele já escreveu uma sequência de livros. E têm três deles que eu acho mandatórios. O primeiro é Armas, Germes e Aço. É fabuloso. Fabuloso. Na sequência, O Terceiro Chimpanzé, que é o que eu estou terminando agora. Também muito bom. E o último, que é o Colapso. Mas têm outros livros dele. Mas esses três aí eu indicaria.

Luciano Pires: O que é? É linguística, a fala, o que é?

Alessandro Loiola: Na verdade, ele pega a partir do estudo das línguas, ele traça um… a evolução de nós como animais. Como que nós nos espalhamos. Como que o homo sapiens se espalhou pelo mundo. Os saltos que a gente deu. Como que ocorreram os avanços tecnológicos e por aí vai. Eu gosto muito de ler o Jared Diamond junto com o Yuval Noah Harari, Homo Deus e Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, que são dois livraços. Mas quem gosta de filosofia – se alguém gosta de filosofia – o primeiro livro que o cara tem que ler é Rolf Dobelli, A Arte de Pensar Claramente, esse é um livraço. Esse é um livraço. É como se fosse abrir sua pupila, assim, bah, aí você entende dos vieses que você tem para poder enxergar o mundo. Que a gente enxerga o mundo cheio de viés, né?

Luciano Pires: Eu vou tentar botar os links aqui, de todas essas dicas, aqui no roteiro desse programa.

Alessandro Loiola: Cara, se eu for falar de livro eu não paro mais.

Luciano Pires: Mas vamos lá. Você vai fazer Medicina e já tem em mente que quando crescer, você vai ganhar a vida sendo médico? É isso? Ou aquilo era: vou ver o que acontece? O que era?

Alessandro Loiola: As três grandes perguntas que uma pessoa tem que responder é: quem você é? O que você quer? E o que você é capaz de fazer para conseguir o que você quer? O que eu vejo hoje em dia é que as pessoas falam que são capazes de qualquer coisa. Elas começam a responder isso de baixo para cima. A sequência é essa, é 1, 2 e 3. Quem você é? O que você quer? O que você é capaz. Mas elas já começam de baixo para cima. Normalmente elas já começam do 2 para baixo. Elas esquecem a primeira pergunta. Eu vou te falar, para responder a primeira pergunta você leva umas décadas aí. Leva umas décadas. Aí dentro da Medicina, eu entendi depois de alguns anos, depois de algumas décadas que o meu propósito é escrever. O meu propósito é escrever. Talvez, pegar o viés de visão médica do mundo. Que a gente tem a mania de ficar procurando causa/consequência, Platão né, tudo tem uma causa. Procurar causa/consequência e dar um diagnóstico. E é um tipo de metodologia de raciocínio que você pode usar para qualquer coisa, política, sociologia, relacionamentos interpessoais, enfim, para qualquer coisa. Cria um método, né? Cria um método. Aí eu pensei: pô, eu vou usar a Medicina para eu poder – esse tipo de raciocínio – para eu poder interpretar o mundo à minha maneira, com toda a arrogância que é possível. Todo escritor é arrogante. Todo escritor é arrogante. Eu falei: pô, vou pegar meu…

Luciano Pires: Claro que é. Você é um deus, cara, você consegue criar mundos…

Alessandro Loiola: Não é?

Luciano Pires: Você cria pessoas, você cria personagens. Você é um deus, meu.

Alessandro Loiola: Um brinde à Tolkien.

Luciano Pires: Você foi para que área da Medicina?

Alessandro Loiola: Eu fui fazer cirurgia geral. Mas eu já trabalhei com tudo. O meu impulso meio nômade, assim, de ir mudando de lugar para lugar. E aí eu fui trabalhar com saúde da família, eu já trabalhei com UTI, emergencista, SAMU.

Luciano Pires: Essa tua ideia de que: eu serei um escritor. Só apareceu bem mais tarde? Porque é o seguinte, bicho, ninguém investe sete anos da vida estudando Medicina…

Alessandro Loiola: Não. Sim, sim…

Luciano Pires: Para chegar lá na ponta e falar: bom, agora não sou mais. Agora eu vou ser outra coisa, né? Porque lá no meio do caminho você já…

Alessandro Loiola: A gente vai se enganando…

Luciano Pires: Já muda…

Alessandro Loiola: A gente vai se enganando com quem você acha que você é. Até que, por fim, quem você é bate à nossa porta. O tempo vai passando. E quem você é toca a campainha e fala: oi bicho, legal? Bacana? Você fez isso tudo. Mas eu sou quem você nasceu para ser. E aí? Vai me assumir? Como é que vai ficar? E boa parte das frustrações, das angústias que existem hoje em dia são as pessoas fugindo da primeira pergunta. Elas continuam atrás do que elas querem. Se você não souber quem você é, o que você vai conseguir não satisfaz a pessoa que você é. Satisfaz uma ilusão que você criou.

Luciano Pires: Até porque, quando você se predispõe a fazer essa introspecção para descobrir quem você é, você tem que estar disposto a ouvir coisas desagradáveis que você vai dizer para você mesmo.

Alessandro Loiola: Certo também, Luciano. É o encontro mais doloroso do mundo.

Luciano Pires: Porque você pode enganar quem você quiser, cara. Você não se engana, entendeu? A mim mesmo eu não consigo me enganar. Então por mais que eu: eu sou fodão. Eu sei que lá no fundo você não é nada disso, cara. Puta mentira. Então é uma luta constante. Eu falo que eu sou obrigado a ter consciência das minhas fraquezas, no que eu ou ruim. E será que eu consigo conviver com isso?

Alessandro Loiola: E sabe como que você foge de descobrir quem você é? Você foca na vida das outras pessoas. É assim que funciona. Ah, eu tive que cuidar da minha família, eu tive que cuidar do meu filho, eu tive que cuidar da minha filha. Eu tive que cuidar da casa, da empresa. Até que ponto que isso é investimento, até que ponto isso é fuga? Porque o encontro consigo mesmo é doloroso. É um parto. E para a gente que é homem, o parto vai pela uretra. Não é brincadeira. Dói pra caramba. Mas é libertador. É libertador. E aí você vê que na sociedade de hoje, na sociedade de hoje, as pessoas, por causa desse encontro doloroso, as pessoas começaram a culpar o ego. O que eu acho que é um equívoco sem tamanho. Sem tamanho.

Luciano Pires: É. Você… você transfere para uma entidade inimputável, intangível. A culpa é do ego, não é minha. Foi o ego.

Alessandro Loiola: É. Só que o ego… pois é. Entendeu? Mas não é o ego. Se você pegar os trabalhos de Freud lá em 1929, essa estrutura tripartite que ele colocou, da mente, ela… tudo bem que id, ego e superego, anatomicamente não existem. Mas ele criou esquema. Igual o esquema do átomo, igual o esquema do DNA. Ele criou um esquema que facilita você entender a sua cabeça. Então id, ego e superego facilitam. Eles não existem como entidades físicas, mas como aplicativos funcionais, eles existem. É mais ou menos como a mente da gente funciona. Então quando você nasce, você é completamente id. O id é só vontade. O id é desejo. O id quer, quer, quer, quer. Só que aí, de repente, o id vê que ele não está conseguindo obter o que ele quer do mundo. Ele não consegue. Porque o id, ele não consegue atingir o mundo físico. Então, ele amadurece um pedacinho dele e esse pedacinho vira o ego. O ego é o negociador, o id é vontade. O ego é o negociador. O ego é que vai lá no mundo pegar as coisas que o id quer. Então o id fala para você assim: porra, olha lá que mulher gostosa. Passa a mão na bunda dela. Aí o ego: opa, sim, sem problema. E ele vai lá e passa a mão na bunda da menina. A menina senta-lhe um tapa. Pa. O ego volta para o id todo magoado e fala: pô, tomei um tapa. Problema seu. A próxima vez que o ego vê uma menina passando, o id fala assim: e aí? Outra. No que o ego está indo lá, ele vê uma salinha chamado superego. E o superego são as moralidades que o mundo, sua mãe, sua religião, plantou na sua cabeça. É uma biblioteca de moral e ética. Aí o ego passa lá na sala do superego e fala: pô, o id falou para eu poder passar lá e passar a mão na bunda da menina, cara. O superego fala para ele: isso não é correto. Ele: pois é, porra. O que eu faço? Vai lá e elogia ela. Elogia os olhos dela. Aí o ego vai lá. Beleza. Olha como você tem olhos bonitos. A menina: ah, obrigado. O ego volta, passa pelo superego e faz um sinal de joinha e vai lá na sala do id e fala: fui lá com aquela menina. E aí, passou a mão na bunda dela? Ele fala: não, mas elogiei os olhos dela. Id ilha para o ego e fala assim: você é um bosta. Você é um bosta. O ego nunca é o culpado. O culpado é o id. O lance está no id. São essas vontades malucas.

Luciano Pires: Eu trato como. Tem duas tratativas. Ou é o lagarto ou é a outra posição do elefante e do ginete. O elefante, aquele bicho gigantesco, que tem as vontades dele, que quer fazer o que quer e ninguém segura. E o ginete é um cara magrinho, pequenininho que comanda o elefante. Ele é pequenininho. Se o elefante decidir que vai sair para a direita, ele sai e ninguém segura. Mas aí, esse magrinho chega lá com um bastãozinho na mão, bate na tromba do elefante…

Alessandro Loiola: Direciona…

Luciano Pires: E o elefante é direcionado. Só que toda vez que o elefante quiser alguma coisa, não tem quem segure. Mas o ginete, pequenininho, conduz ele para lá.

Alessandro Loiola: Mas quando a gente aceita uma sociedade que combate o ego, essa sociedade, ou ela vai pender para um lado hiper moralista, que é o superego, ou ela vai pender para um lado hedonista, que é o id. As pessoas nomearam o ego como o grande vilão da história. Mas ele não é o vilão. Ele é o super-herói. Você, com o ego fortalecido, você consegue equilibrar bem id e superego. Mas a sociedade maluca nossa aí, fala que o ego é o problema. Você tem que jogar o seu ego fora. A filosofia toda do Budismo é isso. Para falar a verdade, essas filosofias são todas meio malucas. Porque o Budismo prega o desapego. Já viu isso? Eu acho isso interessantíssimo. Eles pregam o desapego. Mas vem cá, quando você está apegado ao desapego, isso não é uma forma de apego? Ué? Então onde é que fica o desapego?

Luciano Pires: Se for buscar lá, tem mil explicações para você, né? Deixa eu voltar para a tua trilha.

Alessandro Loiola: Vamos lá.

Luciano Pires: Você, um belo dia se forma então, pega o teu diploma, chega lá: pai, também sou médico.

Alessandro Loiola: Isso. Eu vou sair por aí.

Luciano Pires: Está vivo ainda o seu pai?

Alessandro Loiola: Está. Eu vou sair por aí para enterrar a minha ignorância.

Luciano Pires: Muito bem. Agora eu sou médico e eu vou fazer o quê?

Alessandro Loiola: Eu fui fazer uma pós-graduação de cirurgia geral, trabalhei algum tempo com isso. Mas…

Luciano Pires: Cara, você fez os sete anos de Medicina?

Alessandro Loiola: Seis. Na época eram seis.

Luciano Pires: Seis. E mais uma pós?

Alessandro Loiola: E fui fazer uma pós. Mas eu acabei trabalhando com várias outras coisas. Como eu te disse: eu ia migrando. Eu tenho um pouco de espírito nômade. Eu acho que é a porcaria da genética que vem lá do paleolítico.

Luciano Pires: Mas sempre na Medicina?

Alessandro Loiola: Sempre na área da Medicina.

Luciano Pires: Você estava clinicando mesmo, botando a mão no paciente?

Alessandro Loiola: Sim, sim, sempre fiz isso.

Luciano Pires: Cheirando o bafo do paciente?

Alessandro Loiola: Sim, sim. Fiz isso a minha vida inteira. Minha vida inteira não, porque não acabou ainda. Mas até aqui. Eu gosto da lida com o paciente. É um universo fantástico. Cada pessoa que chega perto de você é uma galáxia inteira. Fala sério, tem 300 galáxias ali dentro. Então tem muita coisa para poder explorar. A Medicina é um jeito fantástico de você enxergar o mundo. Fantástico. Os meus dois filhos acabaram indo fazer isso aí. A minha filha forma agora, no final do ano, Rebeca. E o Lucas entrou agora para Medicina.

Luciano Pires: Para Medicina?

Alessandro Loiola: É.

Luciano Pires: Todo mundo Medicina?

Alessandro Loiola: É a maldição. Parece uma coisa de lobisomem, né? Vai passando assim, de…

Luciano Pires: Eu acho fascinante, cara. É um negócio fascinante. Você… eu estou passando por uma fase agora, complicada. A minha esposa está com problema de saúde bem complicado aí. A gente nunca na vida, nós tivemos tanto… eu só me lembro de ter estado na mão dos médicos, quando meus filhos foram nascer. Que está naquele momento de nascer. Agora vai, que é o médico. Vai que o médico termina o processo. E conduz o processo e termina. E agora nós estamos igual. Estamos vivendo com médico a toda hora. E é fascinante. Porque, cara, tirou o jaleco, é um cara igual a mim. A mesma coisa. Sofre como eu, sente como eu. Botou o jaleco, é uma figura que detém um conhecimento, que detém uma habilidade de pegar a minha ignorância e falar: olha, é por este caminho que vocês vão. E de repente ele consegue um resultado lá na frente que…

Alessandro Loiola: Mas a relação…

Luciano Pires: Deixa só eu complementar para você. A gente passou por alguns perrengues. Do tipo assim: ela está no hospital, hospitalizada, tudo cuidadinho. Aí recebe alta e vai para casa. Em casa a gente tem que repetir algumas rotinas do hospital. E na hora de repetir a rotina, você descobre que você, nem o aparelhinho de medir a pressão, você consegue usar.

Alessandro Loiola: Nem sabe colocar direito.

Luciano Pires: Cara, eu estou absolutamente perdido. Tosse aqui.

Alessandro Loiola: Qual o significado?

Luciano Pires: Não tenho a menor ideia. Daí aquela ignorância baixa e você fala: cara, eu não tenho a menor ideia do que fazer aqui. De repente liga para a doutora. Doutora, ela… a doutora: espera um pouquinho, é assim, assim, assim, assado. Então você…

Alessandro Loiola: Sistematiza.

Luciano Pires: É fascinante você enxergar o conhecimento sendo aplicado de uma forma tão direta, tão rápida, na tua frente, sabe?

Alessandro Loiola: Você vê o resultado.

Luciano Pires: Na hora, né? Na hora. Não é tosse. É assim. Bota aqui. E eu não sei se tem outra atividade humana que te dê essa dimensão de, sabe, de resolução do problema aqui, agora, imediato.

Alessandro Loiola: E por isso…

Luciano Pires: Se eu pegar um engenheiro, pô, ele vai fazer os cálculos, ele vai construir um prédio. Eu vou ver o resultado da ação do engenheiro daqui a algum tempo. Não é ali, agora. Acabou, tirei a febre. Passou a tosse.

Alessandro Loiola: Tirou o apêndice.

Luciano Pires: É cara. É.

Alessandro Loiola: Por isso que a relação com o médico é amor e ódio. Os pacientes têm uma relação de amor e ódio. Você ama pela esperança que o médico representa. E você odeia ele, porque ele é a única saída da sua vulnerabilidade. Você está numa situação que você está completamente fragilizado e que você não detém o conhecimento para poder sair dela. Você não tem como levantar um peso, empurrar uma pedra. Você precisa de um conhecimento que ele está aquém de você. E aí esse é o problema que eu vejo do paciente. A relação amor e ódio. E o que eu vejo problema dentro da Medicina é que falta à Medicina a filosofia de onde ela veio. Virou muito técnico. E falta filosofia. Para mim é o grande lance. Filosofia.

Luciano Pires: Eu fiz alguns LiderCasts aqui, que depois você vai ter a chance de ouvir, com médicos. Com médicos de todos os níveis. Desde o cara que ele é médico numa cidadezinha lá onde o Mato Grosso encontra com o Pará, em Matupá minúscula cidadezinha, ele é o cara lá. Até o cara que é chefe de uma área grande aqui no Einstein em São Paulo. Sentaram aí para conversar. E quando você estimula a conversa, no final ela sempre termina nisso que você falou agora, sabe? Há uma parte humana, que se bobear, ela acaba desaparecendo do processo. E que é o psicólogo, é o sociólogo, é o psicanalista. É o cara que consegue lidar com a questão da mente e não com a doença em si. O problema não é o seu sangue que está contaminado. Tem um lance na cabeça, que se você não combina os dois, aí você tem aquela relação: pô, fui lá, o cara não olhou na minha cara. O médico não me deixou falar, em 30 segundos diz que eu estou com virose e me deu… entendeu? Não era isso que eu queria. Eu queria perceber que alguém está me ouvindo e acreditando no que eu estou dizendo e se importando comigo. Mesmo que de olhar para o meu olho ele já saiba o diagnóstico, entendeu? Ele me deu a chance de eu interagir.

Alessandro Loiola: O cientificismo, que vem lá do positivismo de Augusto Comte. Esse cientificismo colocou muita eficiência técnica na Medicina. Mas parece que aos custos dessa filosofia mais humanista. Tudo bem. É a velha história: você quer um médico que tem pena de você e não resolve ou você quer um médico que é arrogante e resolve? Qual dos dois? Adivinha qual dos dois ganha mais? É simplesmente uma dinâmica de seleção natural. Não tem jeito. Não tem. O mercado vai premiar o cara que resolve. Independente da índole dele do caráter dele. Se o cara é gente boa ou não é. Ele resolve. Pô, tem até um seriado disso, né? House.

Luciano Pires: Sim, sim, sim. Que é sensacional. Ele é sensacional. Mas e aí, vamos lá. Você está viajando pelo Brasil. Morando aqui, morando ali? Tocando a sua vida e que acontece com você? Você está amadurecendo, cara. Aí você olha um dia, olha e fala: é pouco, não basta? Quero ampliar? Quero me tornar outra coisa? Como é que é? Como é que funciona isso?

Alessandro Loiola: Um dos… a gente sempre tem vários divisores de água. A gente sempre passa por essas bifurcações. É horrível pensar a vida como binaria. Mas na Medicina a gente tem que aprender que a vida é binaria. Ou você está viro ou você está morto. Têm algumas variações pequenas entre esses dois polos.

Luciano Pires: É. Hoje em dia tem um monte de morto-vivo, né?

Alessandro Loiola: É. Sim. Mas assim, vamos considerar, é binário. Ou você está com saúde ou você não está. Ou você enxerga ou você é cego. Existem pequenas variações. Mas de um modo geral, a vida é binária. Então a gente tem essas bifurcações. Uma das minhas bifurcações tem mais ou menos um ano e meio, por aí. Eu fui fazer uma viagem. Eu era doido para poder ter moto. Bah, sonhava com moto a minha vida inteira. Aí, quando eu terminei o meu último casamento – eu casei quatro vezes – quando eu terminei o meu último casamento, eu falei: pô, agora é a hora. Vou ter a moto. Aí fui lá, fiz aula, tirei carteira, tudo bonitinho. E comprei uma moto. E resolvi tirar férias para poder fazer uma viagem de moto.

Luciano Pires: Você resolve comprar uma moto depois de tirar a habilitação?

Alessandro Loiola: Sim. Fui lá, fiz as aulas, tirei habilitação.

Luciano Pires: Eu fiz o contrário. Depois eu te conto.

Alessandro Loiola: Fui lá e fiz um roteiro maluco. Eu queria conhecer o Jalapão. Então eu fiz um roteiro de moto de Caraguatatuba até Palmas, passando por Uberlândia, Goiânia, Brasília.

Luciano Pires: Você comprou um motão então? Uma estradeira legal.

Alessandro Loiola: Boulevard M800. Que está parada em casa, criando poeira, por causa do que aconteceu lá em Palmas. Andei 2.380 e tantos quilômetros, 2.400 quilômetros, não aconteceu nada, Luciano. Nada. Na véspera de eu ir fazer a trilha no Jalapão, eu ia deixar a moto na pousada, ia pegar a Van e fazer umas trilhas no Jalapão. Na véspera disso, conversando com o cara do hotel, o cara me deu uma dica de umas cachoeiras que tinha ali por perto. E eu tinha até feito amizade com alguns motociclistas no caminho, que estavam em Palmas também. E a gente marcou de fazer um passeio. Eu liguei para os caras e falei: pô, me falaram de umas cachoeiras aqui perto e tal. Vamos? Vamos. Só que os caras tinham essas motos de velocidade e tomaram a dianteira e sumiram na estrada. Rapaz, eu estou lá há uns 60 por hora, de boa. Peguei um cascalhinho na saída de uma curva. A moto derrapou para o lado, tentei botar ela de volta. Não consegui. O pneu da frente foi tuf, no guardrail. Não sei se você já viu. Mas borracha com metal para na hora. Para na hora. Aí…

Luciano Pires: Sim. E o cara que está em cima não para.

Alessandro Loiola: É. E isso – Newton – isso são as leis de Newton. Um corpo que está em movimento, tende a permanecer em movimento, até que o asfalto pare. Aí nessa do asfalto, eu quebrei clavícula, quebrei escapula, luxei o braço esquerdo, fraturei sete costelas, perfurou meu pulmão. O meu pulmão esquerdo foi esmagado.

Luciano Pires: Puta, que caída, cara.

Alessandro Loiola: Fiquei largado no asfalto lá, durante uma hora, igual um gamba atropelado, pensando: ou alguém…

Luciano Pires: Não passava carro, não passava nada?

Alessandro Loiola: Muito isolado o lugar. E os caras tinham sumido. Os dois colegas que eu tinha ido, eles deram linha. A estrada tranquila, cara. Uma estrada besta. Eu peguei buraco, eu peguei chuva. Não tive nada. Na estrada mais idiota do mundo, eu quase morri. Consegui um atendimento bom lá no postinho de saúde. Os colegas… 100% o meu atendimento pelo SUS. Fiquei uns quatro ou cinco dias internado. Uma tia minha foi lá me ajudar pra caramba. Ganhei um dreno de tórax, fiquei três dias com o dreno. Eu batizei ele de Jéferson. Eu falei: não é possível. O troço está dentro do meu corpo. A gente tem que ter uma relação de intimidade. Aí eu andando com o Jéferson lá, para todo lado. E quando eu finalmente consegui recuperar disso. Eu recuperei…

Luciano Pires: Você podia ter chamado de… para, para; eu não vou… deixa lá. Continua, vamos lá.

Alessandro Loiola: Mas esse foi um divisor de águas. Daí eu pensei: qual é o propósito? Qual é o propósito? Tá. O meu propósito é escrever. É escrever. Quando o meu pai morreu eu tive outra epifania dessa. Eu larguei uma empresa que eu tinha. Terminei um relacionamento que eu estava. Peguei um dinheiro que eu tinha guardado e fiquei seis meses viajando. Aí fui conhecendo gente maluca de tudo quanto é tipo. Fui fazer curso de GPS, navegação por estrela, por mapa. Conheci um monte de gente. Guilherme Cavallari…

Luciano Pires: Grande Gui. Grande Gui Cavallari…

Alessandro Loiola: Em Gonçalves. Fui lá fazer o curso com ele e lá eu conheci…

Luciano Pires: Preciso trazer ele aqui. Preciso trazer o Gui aqui, cara.

Alessandro Loiola: Putz…

Luciano Pires: Eu preciso fazer um LiderCast com ele.

Alessandro Loiola: No dia que ele vier, me avisa. Eu venho cá dar um abraço nele.

Luciano Pires: Aviso.

Alessandro Loiola: Aí, a gente dentro do Refúgio Kalapalo com ele, a gente acabou conhecendo outras pessoas e veio a ideia de juntar todo mundo. Ele estava oferecendo alguns roteiros lá para o Chile. Eu falei: cara, tô dentro. Fomos lá para a Patagônia.

Luciano Pires: Patagônia?

Alessandro Loiola: Fomos lá para a Patagônia.

Luciano Pires: Você foi com ele?

Alessandro Loiola: Com ele, Hendrik Fendel, Antônio Ribeiro. Foi sensacional, cara. Foram uns 11, 12 dias, mais ou menos.

Luciano Pires: Você fez o quê? Um circuito?

Alessandro Loiola: A gente saiu da Reserva…

Luciano Pires: Torres Del Paine e tudo mais ou não?

Alessandro Loiola: Não. A gente foi completamente offline assim. Completamente offroad. Piso bruto mesmo. Não tinha nada. A gente foi de uma reserva a outra. Da Reserva Tamango até a Reserva Jenimene. Na verdade, saindo de Chile Chico, bem no sul do Chile. Saindo de Chile Chico. Faz a trilha, pa-pa e chega em Coyhaique. E, cara, sensacional.

Luciano Pires: Mochilão nas costas?

Alessandro Loiola: Mochila, 22 quilos. Perdi sete quilos e meio.

Luciano Pires: Que legal, cara.

Alessandro Loiola: E foi assim, sensacional.

Luciano Pires: Com altitude ou sem altitude?

Alessandro Loiola: Tem alguns desníveis. A gente fez uma parada numa laguna para poder explorar um pouco o vale. Fomos até o fundo lá que tinha uma geleira. A gente fez um totem, colocou lá um marcador, para a galera que mexe com GPS encontrar. Subimos uma montanha. Foi a primeira vez que eu vi neve. Fiquei todo besta. Aí comi neve, escorreguei na neve. E na volta para o acampamento quase tive hipotermia. Vai, vai brincar com neve. Menos 10 graus era. Menos 10 graus. De manhã você acordava, a meia estava dura, igual um pedaço de pedra. E tinha que vestir aquele negócio lá. Aí a brincadeira era a seguinte: quem é que… porque eram poucas barracas. Então a gente tinha que, cada noite, desfaziam-se os casais e faziam outros. Para as barracas. E eu consegui levar um sabãozinho de coco assim. E tomava banho nos rios, cara. Aí eu sei que de 14 dias de trilha, eu consegui tomar 11 banhos. Teve três dias que não rolou não.

Luciano Pires: Mas muito bom banho. Porque eu fiquei 15 dias na trilha do Everest e meu banho era com lencinho umedecido para bebês, cara. Não tinha essa de água não.

Alessandro Loiola: Que você descobre o valor do lencinho descobre.

Luciano Pires: Era lencinho umedecido, cara. Não tinha essa de banho não. O banho era um horror. Quando tinha era um horror. Era um horror. Sofria de montão.

Alessandro Loiola: Mas eu acho que esse retorno a essa vida, na transição do paleolítico, neolítico, quando você faz o mochilão, você está ali na transição. Você está um pouquinho antes da revolução agrícola. Se você parar pensar, a nossa espécie nesse planeta, ela tem mais ou menos, o que, uns 300 mil anos? Vamos fazer uma conta redonda.

Luciano Pires: Se for isso, né?

Alessandro Loiola: Mais ou menos uns 300 mil, por registro fóssil, mais ou menos uns 300 mil. A gente adotou esse estilo de vida que a gente tem hoje, a sua propriedade, o seu cercadinho, o seu carro, as suas coisas, os seus bens. A gente adotou isso a partir da hora que a gente ficou sedentário. Revolução agrícola, 10, 12 mil anos atrás. Isso significa que durante 290 mil anos a gente levou uma vida que era bem diferente dessa. Os nossos genes, o seu corpo, o meu corpo, ele não está preparado para essa civilização que a gente construiu. Essa civilização tem só 10 mil anos. Seu corpo foi formatado geneticamente, fisicamente, mentalmente, 96% da época da nossa… do tempo de existência da nossa espécie aqui nesse planeta, 96% do tempo, o seu corpo foi preparado para um mundo que não existe mais.

Luciano Pires: O meu já está adaptado.

Alessandro Loiola: Estamos. Estamos.

Luciano Pires: Que barato…

Alessandro Loiola: E quando você tem essas trilhas, vai fazer tracking, vai fazer mochilão…

Luciano Pires: Fascinante, cara. Quem já fez sabe o que é. O cara fala: meu, você foi lá para subir uma montanha? Que graça tem isso? Bicho, suba. Que quando você chegar lá em cima, você me liga para dizer o que aconteceu com você. Que é inexplicável. O cara se matar, se ferrar. A hora que você chega lá no alto, você fala: cara, cheguei. Eu estou aqui. Eu olho em volta. Aquela natureza… eu escrevi um livro sobre a viagem do Everest. E chega um momento que eu falo isso. Eu falo: cara, aquilo era tão exuberante que chegava a ser opressivo. Eu me sentia oprimido por aquilo que eu estava vendo. Eu estava sentado num lugar. Só eu. Ninguém. Não tinha ninguém. O pessoal que estava, estava muito longe.

Alessandro Loiola: Fantástico

Luciano Pires: Era o Himalaia, o Everest na minha frente. Eu sentado em cima de um lugar, sozinho, aquele frio. E eu olhava aquilo tudo. Eu falo: cara, isso é tão maravilhoso que me oprime. Sabe? Me oprimia. Eu falei: eu estou me sentindo aqui, eu tenho uma angústia, que dá vontade de sair do corpo. Eu quero sair do corpo para… isso não tem como explicar, cara. É impossível explicar essa sensação. Eu senti isso de novo, de uma outra forma, quando eu fui para o Polo Norte.

Alessandro Loiola: Caramba, bicho, pô…

Luciano Pires: Eu fui para o Polo Norte…

Alessandro Loiola: Pô, Luciano, tenho que começar a seguir você.

Luciano Pires: Você vai entender a história. Eu chego no Polo Norte. A gente parou, era um quebra-gelo nuclear russo, que chega lá, 90 graus norte, bem no Polo Norte. Ele para. O gelo vem, cobre. Fecha a lateral do navio. E aí você espera algumas horas. Descem três russos do pessoal do navio, armados. Eles vão lá, fazem uma olhada. Fazem um perímetro. Então, fazem um triângulo do navio. E dentro desse perímetro o pessoal desce, monta as mesas e faz um churrasco. A coisa mais engraçada, que o churrasco você tem que comer em 15 segundos, porque se esperar, a carne congela. E eles deram uma ordem, falaram: vocês vão descer para o churrasco. Está vendo o perímetro? Vocês não podem passar dali do perímetro e fugir do ângulo de visão dos caras. Porque esses caras estão armados. Se você sair e o urso vier, ele te pega.

Alessandro Loiola: Se sair, já era. Já era.

Luciano Pires: O urso te pega. E a gente sabe que pega, porque a gente vê urso. O urso estava lá, cara, a gente passou pelo urso.

Alessandro Loiola: Mas é fácil você se proteger do urso. É só olhar para o sul.

Luciano Pires: Ah, olhar para o outro lado. Deixar que…

Alessandro Loiola: Olha para o sul. Todos os lados são o sul.

Luciano Pires: Aí a gente… eu fui até a lateral. Eu falei: deixa eu ver até onde… eu fui até o limite. Cheguei até o limite onde… quando eu cheguei o russo começou a abanar. Bah, não passa daí. E ali eu falei: bom, aqui eu paro. Estava eu parado aqui, no limite. Um russo lá adiante. O outro do outro lado, atrás de mim, lá longe o navio. E eu parado. E diante de mim, o nada. Branco. O céu branco, o gelo branco. Aquilo tudo branco. Aquele silêncio, só um ventinho. Eu olhava aquilo tudo e falava: cara, eu sei que tem urso ali. Eu sei que tem urso ali. E eu sei que se ele resolver vir na minha direção, eu não estou enxergando. Ele vai chegar e vai me pegar. E não há russo que consiga parar esse bicho. O russo tinha que ser… ele está muito longe, né? E é nesse momento que cai a ficha, que você fala: bicho, olha onde eu estou? Diante de uma situação sobre a qual eu não tenho nenhum controle. Não é um ônibus que vem vindo te atropelar. Não são as coisas que eu estou acostumado a lidar. É algo absolutamente inesperado. Um animal no ambiente dele, onde eu não tenho o que fazer. Porque se eu quiser correr eu não consigo correr. Porque eu estou na neve. E aí cai a dimensão. Eu me lembrei do que aconteceu comigo no Everest. Aquela… essa sensação de que você é nada, cara. Eu não sou… eu sou um intruso enfiado aqui. E se a natureza decidir que ela vai acabar comigo, ela faz assim e eu acabei e não sobra nada para a história. Então eu acho que isso é esse tesão, sabe? Dessa coisa de você se voltar para a natureza e se atirar. E falar: cara, é o caos. Eu estou no meio do caos. E esse caos é maravilhoso. Porque a gente aqui quase que acabou com ele, né?

Alessandro Loiola: Você consegue perceber que nesses dois momentos da sua vida, você entrou em contato com 96% de quem você é.

Luciano Pires: Deu medo, cara.

Alessandro Loiola: Nessa hora, você entrou em contato com 96% de quem você é. Do bicho que nós somos. Do animal que nós somos. Independente de alguma pessoa que acredita em algum transcendentalismo ou mundo metafísico, independente disso, bicho, a gente é um bicho. Nós somos um animal. Nós somos um animal. Como vários outros animais desse planeta. E o corpo que a gente é, o corpo que a gente é, você consegue encontrar ele nessa situação. É aí que você encontra. E é meio avassalador, né?

Luciano Pires: É. Por que, que recurso eu tenho? Vou ligar para quem?

Alessandro Loiola: Sair correndo? O bicho corre a 50 quilômetros por hora.

Luciano Pires: Pai, mãe?

Alessandro Loiola: Vou correr para onde?

Luciano Pires: 190? Exit? Brigada de Incêndio? Não tem nada, cara. Você está. É você e você. E isso é maravilhoso. Ao mesmo tempo que te dá aquela sensação de que: cara, dá um pavor, que eu não sou nada. É maravilhoso. Porque você se sente integrado àquilo tudo. Dá vontade… cara, dá vontade de tirar a roupa. Sabe? Vou ficar pelado e vou me misturar com isso aqui. É aquilo que eu falei: de sair do corpo e se misturar. E não tem como explicar isso, cara. Você tem que ir. Você não tem como contar. Eu posso mostrar foto. Eu posso te contar, posso ficar entusiasmado, subir na parede. Tudo que eu passar para você é uma pálida ideia daquilo que aconteceu enquanto eu estava lá. Por isso que as pessoas vêm falar comigo, eu falo: bicho, eu não vou te explicar por que eu fui na montanha. Não tem como dizer o que é. Vá. Quando você voltar, você me conta o que é.

Alessandro Loiola: Talvez uma palhinha disso, aí de novo, sem querer fazer merchand mas já fazendo. Eu recomendo galera, entrem em contato com o Guilherme Cavallari. Vai lá no Refúgio Kalapalo. Faz um treinamentozinho básico. Básico de tracking, acampamento. Você fazer necessidade no mato. Você…

Luciano Pires: Eu estou devendo essa para ele, cara. Eu já falei com ele várias vezes. Ele mandou as fotos. Vem para cá. Eu vou, eu vou, eu vou. Acabei que eu não… acabei que eu não fui.

Alessandro Loiola: Cara, ele e a Adriana são duas pessoas assim, sensacionais. Sensacionais. O Guilherme tem os lados meio difíceis dele.

Luciano Pires: Eu vou trazer ele aqui. Eu vou fazer. Bem lembrado. Eu vou produzir.

Alessandro Loiola: Mas é um cara assim, fantástico, bicho. E a experiência que ele te proporciona, que é o contato com esses 96% do animal que a gente é.

Luciano Pires: Caiu da moto. Se ferrou. Aí falou: cara, eu vou escrever.

Alessandro Loiola: Isso.

Luciano Pires: E aí, cara? Você tem uma vida profissional, que é aquela que te sustenta, etc. e tal e pa-pa-pa e resolve começar a trabalhar num outro lado. Que eu não sei se é o teu objetivo: eu quero escrever e um belo dia, viver da escrita? Ou não? Vou continuar a minha vida aqui e vou escrever como meu hobby? Como que é?

Alessandro Loiola: Amo Medicina. Amo Medicina. Amo. Amo. Eu não me vejo… eu não me enxergo fazendo alguma outra coisa. Como profissional. Mas assim, dá para ir além. Sabe, dá para ir além. Então, o ir além é escrever. Aí eu comecei uma fanpage no Facebook, como todo mundo, né?

Luciano Pires: Como chama?

Alessandro Loiola: Manhood Brasil.

Luciano Pires: Manhood Brasil?

Alessandro Loiola: Manhood Brasil. E comecei a publicar textos lá. Alguns textos pequenos, outros um pouco maiores, que eu escrevia. Mas eu sentia falta de um site que eu pudesse referendar. Aí eu fui abrir um site chamado manhoodbrasil.com.br, que é onde eu coloco os textos, mais ou menos como você no podcast. Você faz o programa na rádio, você perde. Não, pera aí. eu vou abrir uma página e vou hospedar os podcasts lá. Eu falei: eu vou abrir uma página e vou hospedar os textos lá. E é onde eu mais escrevo. Um belo dia, eu estou escrevendo um texto lá para o Manhood Brasil e me deparei com um tema pequenininho. Sabe aqueles tropeçõezinhos que você dá assim, puf? Que eu fui escrever sobre moralidade. Fui escrever um texto bobo sobre moral. Luciano, aquilo abriu um portal para outro mundo. Para outro mundo. E aí eu estou até sendo um pouco negligente com a fanpage no Facebook. Tem uns seguidores muito legais lá, são oito mil e pouquinho. Não é muita gente. Mas putz, já dá para poder interagir com pessoas que têm ideias bem interessantes. A proposta da fanpage é troca de ideias. E aí eu fiquei em dívida, porque eu abandonei um pouco a fanpage, abandonei um pouco o site, porque eu estou desenvolvendo um livro só sobre moralidade. Eu achei o assunto fantástico. Por meio da luneta, do microscópio, da lupa, da lente da moralidade, dá para entender a nossa espécie todinha. Ela faz sentido.  É como se ela se encaixasse e você entende passado, presente e futuro. Você consegue enxergar tudo. Os ciclos que a gente passa. Até tem uma passagem – se eu não me engano – eu acho que é Paulo que fala: vaidade, tudo é vaidade. Não, não, é moralidade. Tudo é moralidade. Tudo. O tempo inteiro. Na hora que você fala assim: ah, mas a gente não devia julgar os outros. Isso é um julgamento moral. Você já está julgando. Essa cultura relativista que a gente vive hoje em dia, que as pessoas falam: porque o mundo antigamente… deixa eu te explicar: o antigamente seu era de quando você tinha noções realistas. Você tinha um realismo moral sobre o mundo. Joaquim Barbosa: minha mãe me ensinou o que é certo. E errado é errado. Independente de quem diga o que é certo e de quem diga… isso é um tipo de realismo moral. O relativismo jogou isso tudo, tudo, tudo, na bancada e falou assim: olha, está certo para todo lado. O cara que está errado está certo, ao modo dele. Você é árbitro dos seus próprios juízos. É você que diz o que é certo, o que é errado. O lema desse relativismo pós-moderno é: o importante é ser feliz. Você já ouviu isso?

Luciano Pires: Já.

Alessandro Loiola: O que eu acho um absurdo sem tamanho. A gente fala: o importante é ser feliz. Hitler mandou um monte de gente para a câmara de gás, achando que aquilo era certo. Porque ele era feliz fazendo aquilo. O importante não é ser feliz. O importante é você ser uma boa pessoa. Isso é o importante. A gente estava conversando um pouco antes. O importante é: volta lá atrás. Você falou um negócio que eu achei fantástico. Cara, não tem nada nesse mundo que um grego já não disse. Volta para Aristóteles. Um livro fantástico de Aristóteles, Ética a Nicômaco. Fantástico. E Aristóteles prega um negócio que ele chamava de eudaimonia. É triste, porque a gente traduziu daimon, que é espírito. O espírito que te influencia. A gente acabou traduzindo isso como demônio. Não. É um espírito que te influencia. E eu é um prefixo em grego que significa bom. Eugenia. O bom nascer. Eutanásia, o bem morrer. O bom morrer. Morrer do jeito certo.

Luciano Pires: E a gente inverteu o sinal, né?

Alessandro Loiola: É.

Luciano Pires: Se você falar em eugenia, em eutanásia. É o contrário.

Alessandro Loiola: É. Vamos agradecer a todo século 20 que…

Luciano Pires: Sim, sim.

Alessandro Loiola: E aí, o que o Aristóteles propôs através da eudaimonia é que você se deixe influenciar por espírito que promova o bem. É o bom espírito que te influencia. É o bom caráter que te influencia. É o florescimento do bom caráter do homem. Esse é o eudaemonia de Aristóteles. E ela é completamente o inverso, é diametralmente oposta a esse: o importante é ser feliz. Bicho, o importante é ser feliz, justifica as maiores atrocidades.

Luciano Pires: Quando você bate nessa questão da moralidade, você tem razão. Isso é uma isca. Ela te fisga de tal forma. Eu fui mexer também. Eu fui… eu não me lembro como é que eu cheguei nisso. Mas eu fui mexer. Cara, acabou virando uma palestra minha chamada Tudo Bem se Me Convém. É o nome da palestra.

Alessandro Loiola: Fantástico.

Luciano Pires: Onde eu defino que o Brasil é assim. Eu quero tirar o Ordem e Progresso da bandeira e botar: Tudo Bem se Me Convém.

Alessandro Loiola: Sai o Positivismo de Augusto Comte e entra o relativismo.

Luciano Pires: Eu sei que está errado. Eu sei que vai sacanear os outros. Eu sei que é ilegal. Mas bicho, tudo bem. Me convém. Ninguém viu. Deixa eu fazer. Eu falo: isso explica o Brasil que está aí hoje.

Alessandro Loiola: Você pode criar o Ministério das Relações Interiores e nomear o Karnal para ele.

Luciano Pires: O Leandro Karnal. E aí o que eu fiz? Esse negócio é tão rico que eu falei: cara, eu acabei criando uma palestra. Tem um livro engatilhado. Onde eu quero tratar essa questão toda da moral e ética. Porém, do ponto de vista de: cara, como é que eu aplico isso no meu dia a dia? Então, eu não quero botar filósofos filosofando. Eu quero falar o seguinte: muito bem. Eu entendi o conceito. Agora…

Alessandro Loiola: Abraça, abraça…

Luciano Pires: Eu e o meu vizinho. Como que é? E na palestra eu trago os acontecimentos. Eu falo aqui: o pai levou o filho no zoológico. O moleque pulou a cerca, foi lá e deu ossinho para o leão. O leão não reagiu. Ele ficou de saco cheio, foi mexer com o tigre. O tigre pegou o braço do moleque e arrancou o braço fora do moleque. E isso foi uma grande tragédia. Quando você olha para isso aí, o que vem na tua cabeça? Cadê esse pai? Que pai é esse que deixou o moleque fazer isso? Eu falo: a questão não é essa. A questão é o seguinte: vocês viram os vídeos que eu mostrei aqui, do moleque naquele momento? Tinha adultos filmando. E os adultos que filmavam sabiam que aquilo estava errado, que não se fazia. E ninguém fez nada. Ficam filmando o moleque ser pego pelo tigre. Eu falei: então, a discussão da moralidade não é o idiota do pai que deixou fazer. São os outros que estão em volta, vê o que está errado, sabe que está errado e não fazer nada a respeito.

Alessandro Loiola: Tem duas teorias psicológicas excelentes que explicam esse contexto, de novo, dentro da moralidade. A primeira é uma teoria que chama – o nome dela chama – Teoria da Díade Moral. Tem gente que tem essa mania… tem um livro fantástico do António Damásio, chama E o Cérebro Criou o Homem, que ele explica como que o nosso cérebro ama padrões. Na verdade, foi conseguir determinar padrões que garantiu a nossa sobrevivência. A tribo que entendia o padrão das estações, poupou para o inverno. A tribo que não entendia se ferrou no inverno e passou fome e morreu. Então, o nosso cérebro é especialista em encontrar padrões. E a gente sempre procura esse negócio da causa/efeito. Causa/consequência. Se você vê uma situação, a Teoria da Díade Moral diz que você tem que procurar a vítima da situação daquele contexto e quem foi o perpetrador. O negócio é que a gente está sempre procurando. Se a criança foi a vítima do tigre, existe um perpetrador. Não existe?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Loiola: Quem é ele?

Luciano Pires: Bom, o tigre que não é. Porque o tigre fez o papel dele.

Alessandro Loiola: Isso. O tigre agiu como tigre. Mas você entende que a gente cria isso. Na hora. A Teoria da Díade Moral força você. Você vê uma situação que alguém foi atropelado, quem atropelou? Você vê uma situação de quem deu o tiro, não interessa se o cara que tomou o tiro é bandido. Mas alguém deu um tiro nele. Quem é esse cara? Esse cara é o vilão da história. Essa é a primeira parte. E a segunda parte é a Teoria da Impressão do Personagem. Que no momento em que você cria que o menino é a vítima e que o pai é o vilão, não interessa mais em qual contexto os dois se envolvam. Você tende a identificar sempre o menino como vítima e sempre o pai como vilão. A gente impregna essas duas figuras, esses dois personagens, desses dois juízos morais e depois não adianta o pai falar a verdade. Você vai achar que ele é sempre o vilão.

Luciano Pires: Sim. Foi exatamente assim que eu expliquei o Bolsonaro para a minha filha. Tá? Porque ela perguntou para mim. Ela falou: pai, eu assisti, eu vi ele falando. Eu vi o vídeo do acontecimento. Eu entendi o contexto. E aquilo que aconteceu não é o que estão falando para mim. Estão acusando de uma coisa. Eu assisti tudo e eu concluí que aquilo que eu vi não é o que foi falado para mim. Eu falei para ela. Eu falei: esqueça. O Bolsonaro já tem um rótulo nele. Qualquer coisa que ele disser já vem com um rótulo embutido. Se o Lula disser a mesma coisa que ele não vai acontecer nada.

Alessandro Loiola: Exato.

Luciano Pires: Ele pode falar a mesma coisa. Com o Lula não acontece nada. Com outra pessoa não aconteceria nada. Quando é o Bolsonaro, não é mais ele. É um símbolo, que se abriu a boca vai ser merda. Então, não importa o que ele diga. É mentiroso, não é assim. Eu falei: então já criaram o rótulo que você não consegue mais. Pouquíssima gente vai se afastar o suficiente para falar: pera aí, pera um pouquinho. Eu vou tirar a emoção. Deixa eu analisar o fato em si. Quando você faz isso, você descobre que tem um contexto, que tem um acontecimento, que tem uma provocação e tem uma reação. Se eu estivesse no lugar dele, talvez eu fizesse igual. Como eu não sou ele, ia passar batido. Agora, sendo ele…

Alessandro Loiola: Pega o acontecimento recente daquela… da Mariele e da policial, Juliana, se eu não me engano, o nome dela.

Luciano Pires: Sim, Juliana.

Alessandro Loiola: Da policial que foi executada. Criou-se no consciente coletivo, dentro da Teoria da Díade Moral e da Teoria da Impressão do Personagem, que toda pessoa que faz algum trabalho de cunho social ou que defende minorias é boa. E que toda pessoa militar, qualquer policial militar é ditador, fascista, é ruim. É difícil de a gente desvincular a díade moral e a impressão do personagem desse contexto. Porque aí você coloca uma delas de um lado… as duas mortes são trágicas e completamente injustificáveis. Injustificáveis. A gente acaba dividindo isso binariamente. Você coloca uma de um lado bom, positivo, bacana. Porque a nossa Teoria da Impressão do Personagem falou que toda pessoa envolvida com trabalho de cunho social e minoria é uma boa pessoa. E a nossa Teoria da Díade Moral e impressão do personagem fala que toda pessoa que tem uma farda é um perigo. É ditadura militar.

Luciano Pires: Você passa a qualificar o crime pelo defunto.

Alessandro Loiola: Isso.

Luciano Pires: Então o cara vai no fundo, olha o defunto e aí você repensa o crime.

Alessandro Loiola: Não, as duas estão do mesmo lado. As duas são vítimas do mesmo jeito.

Luciano Pires: Isso não é acidente. Isso é uma construção…

Alessandro Loiola: Sim. Gramsci…

Luciano Pires: Lógica. Ela foi feita intencionalmente para ser assim. E se você não estiver preparado, cara, você recebe isso e passa… é normal. Essa é a norma. Essa é a norma. Então, eu não vou ficar fora da norma. Até porque, ai de mim, se defender policial no meu grupo. Eu vou abrir a boca e vou começar a tomar porrada na mesma hora. Falei para ela, falei para a minha filha hoje, falei: você não se atreva a chegar no teu grupo e abrir a boca e falar isso que você está dizendo para mim. Vai com cuidado. Porque a maioria das pessoas não está preparada para isso e vão te atacar. Em dois minutos você vai receber um rótulo e vai ser expulsa. Isso tem que ser feito com inteligência e devagar, mostrando. Agora, no grito não vai. E você vai dar dois argumentos. O terceiro vai ser grito. O terceiro você vai ouvir grito, entendeu? Você vai, um, dois, é grito. Porrada. E aí acabou. Não tem mais conversa.

Alessandro Loiola: E o pensamento de manada, do século 20 para cá, século 20, 21. Eu não lembro de quem eu li isso. Mas esse escritor falou: sabe por que todo mundo pensa parecido? Porque quase ninguém pensa.

Luciano Pires: Isso deve ter sido Umberto Eco. Pelo jeito. Pelo jeitão, deve ser Umberto Eco, cara.

Alessandro Loiola: Igual uma outra frase também, que eu acho que se aplica perfeitamente a essa cultura auto vitimista. E isso não é só no Brasil, hein Luciano?

Luciano Pires: Não.

Alessandro Loiola: Isso é no mundo. No mundo. Qualquer lugar que você entra, Canadá, Finlândia, Suécia, Austrália, que você começa a ler blogs ou autores. Todo mundo se queixa da mesma coisa. Da cultura auto vitimista. Se eu não estou enganado – aí os ouvintes aí que me corrijam se eu estiver errado – Sartre falou um negócio que é fabuloso, ele disse que – e olha que isso é lá no começo do século 20 – que tudo que um ser humano precisa para ser genuinamente feliz é de alguém que tenha pena dele. Esse é o século 20, 21. Esse é o século 20, 21. Na hora que você oferece um abrigo para o discurso auto vitimista, que você externaliza a responsabilidade… porque a cultura que está prevalente nesse mundo que a gente vive hoje, relativista, pós-moderna. A cultura que prevalece hoje em dia é o seguinte: ninguém quer assumir a responsabilidade pelas consequências das próprias escolhas. Esse é o nosso mundo agora. Ninguém quer essa responsabilidade. Então, se você puder externalizar ela em alguma coisa, o sistema, o patriarcado. Muito se fala em feminicídio, por exemplo, que o Brasil é o país que mais mata mulheres. O Brasil matou 63 mil pessoas. Qualquer grupo que você pesquisar, provavelmente a gente é recordista mundial. Qual o país que matou mais crianças? Qual o país que matou mais gente careca? Qual o país que matou mais gordo? Cara, nós. 63 mil assassinatos. Pensa, com 8% de elucidação. E eu desafio você a pesquisar sobre o perfil do perpetrador do crime. Você consegue encontrar das vítimas.

Luciano Pires: Isso eu cansei de falar. Os caras vêm me falar o seguinte: o Brasil mata jovens negros entre 17 e 23 anos.

Alessandro Loiola: Quem mata os jovens?

Luciano Pires: Perfeito. Me dá agora quem matou. E vai ser jovens negros entre 17 e 23 anos. O assassino é da cor da vítima. Então, quando você mostra isso, desmonta o discurso inteirinho.

Alessandro Loiola: O argumento todo.

Luciano Pires: Acaba tudo. Fala: mas pera aí, é o mesmo cara que está perpetrando. Então… só que isso não interessa. Não interessa para ninguém. Vamos voltar à minha filha de novo. E ela perguntou: pai, por que é assim? Eu falei: porque não interessa você ter a elucidação do caso. Interessa… tem todo um discurso, uma narrativa montada que está a favor de um projeto de poder, de uma visão de sociedade. Qualquer coisa que seja fora dela não interessa. Então você apaga aquilo.

Alessandro Loiola: Você pega a bacia das evidencias e faz cherry picking…

Luciano Pires: Isso aí…

Alessandro Loiola: Com ela. Quais evidências suportam minha meta narrativa?

Luciano Pires: É isso aí.

Alessandro Loiola: E não é nem narrativa, hein? Eu falo que é uma meta narrativa. Porque ela não é uma narrativa do mundo. Ela é uma construção dos fatos que serve ao seu propósito.

Luciano Pires: Sim. E você está no meio disso. Você está jogado nesse meio. Então, por isso que a gente fala que é importante, cara. Por que é tão importante você descobrir que o Brasil – eu não me lembro o percentual que é; é um percentual altíssimo – 60, 70% dos brasileiros são analfabetos funcionais.

Alessandro Loiola: É mais. A pesquisa da…

Luciano Pires: Deu o quê?

Alessandro Loiola: Foi publicada na… tem uma pesquisa que eu acho fantástica. Que foi publicada no UOL Escola. Eu não sei se é da Fundação Abramo. Eu tenho esse link no meu site.

Luciano Pires: Se for Abramo, cuidado.

Alessandro Loiola: Não…

Luciano Pires: Cuidado…

Alessandro Loiola: Não, os caras pegaram e pesquisaram. Foram 2002 pessoas em várias cidades do Brasil e fizeram testes de alfabetização funcional. E basicamente o que eles perceberam é que no entendimento do português, no uso do português escrito ou no entendimento do português falado ou do português lido, dessas 2002 pessoas pesquisadas, só 8% possui fluência no idioma nativo; 92% dos brasileiros…

Luciano Pires: Tem dificuldade?

Alessandro Loiola: Muita.

Luciano Pires: E quando a gente fala de analfabetismo não é… o cara sabe ler. Ele sabe ler e ele sabe escrever. O problema é que quando você junta as palavras, para dar um sentido. Ele não consegue entender o sentido. Ele olha aquilo e não consegue entender o sentido. Ele não entende uma vírgula. Ironia então… você bota uma ironia, o cara não vai entender nunca uma ironia.

Alessandro Loiola: Primeiro, o brasileiro não é alfabetizado. Segundo problema, o que é alfabetizado não lê. Terceiro problema, o que lê não entende. Quarto problema, o que entende não interpreta. Esse é o tamanho do buraco. E aí, eu acho muito engraçado quando as pessoas falam assim: porque na Finlândia, porque a educação, porque o sistema da educação da Finlândia, porque o sistema de saúde da França. Eu vou te explicar um negócio: o sistema é bacana. Mas eu vou te explicar um negócio sobre o usuário desse sistema: o Instituto Livro fez uma pesquisa para poder saber quantos livros o brasileiro lê em média. E aí eles chegaram à conclusão que a princípio parece que o brasileiro lê quatro livros por ano, em média. Mas eles ficaram preocupados assim: tá, pera aí. Livros não acadêmicos. Porque, de repente, a sua faculdade, a sua escola, a sua pós-graduação, seu MBA te obriga a ler. Então, quantos livros não acadêmicos o brasileiro lê em média, por ano? Aí o dado já baixou para dois. Alguém fez uma pergunta mais interessante. Falou assim: pera aí. Eles começam a ler dois livros por ano. Mas quantos eles terminam? No final das contas, quantos livros não acadêmicos, o brasileiro começa e termina, voluntariamente, por ano? Você tem ideia? 0.7.

Luciano Pires: 0.7.

Alessandro Loiola: 0,7. Esse é o usuário do nosso sistema de educação, do nosso sistema de ensino. Quando eles falam da Finlândia, você sabe quantos livros um finlandês, voluntariamente, não acadêmicos, ele procura, ele vai lá, ele começa a ler e ele termina? Em torno de 12. O francês, 16 a 20. E a cultura está disponível para todo mundo. Como eu te falei: você compra… eu fui dar… eu fui num sebo com a minha namorada. A gente almoçou e fomos dar uma voltinha. Tem um sebo maravilhoso lá em Caraguatatuba. E a gente foi no sebo. Eu não posso entrar em livraria, cara. Eu acho que eu em livraria, é igual mulher em loja de sapato. Sabe? Eu fico… eu tenho que sair dali com alguma coisa. Sempre tem alguma coisa. Sempre tem um tesouro. Cara, eu achei o Sapiens, Uma Breve História da Humanidade, do Yuval Harari, por R$20,00. Estava lá num cantinho. Até com um pouco de poeira em cima. E aí eu fui lá conversar com a menina do caixa e falar: é sério, esse livro está a 20 contos aqui, o livro? Ela: é. Eu falei: porra, você sabe que livro é esse? Você já folheou esse livro? Não, eu comecei a ler, mas ele é muito grande, né? Cara, a menina trabalha num sebo, que deve atender seis pessoas do dia inteiro.

Luciano Pires: Você gostou dessa história? Deixa eu te contar uma boa então. Deixa eu te contar uma deliciosa.

Alessandro Loiola: Nossa, lá vem.

Luciano Pires: Antes de eu ganhar de um amigo meu a coleção completa do Pasquim…

Alessandro Loiola: Eu vi ali…

Luciano Pires: Todinha. Eu estava alucinado porque eu queria. Eu comprei no sebo um pouquinho aqui, um pouquinho ali. E aí um belo dia, os caras anunciam que tinha lançado uma edição chamada O Melhor do Pasquim, que é um livrão, com reprodução do Pasquim. Eu falei, puta, eu fiquei enlouquecido, cara. Saio e corro na livraria. Chego lá – não me lembro se era Cultura ou era Saraiva – eu entro na livraria e vem o garoto me atender, com aventalzinho, com cabelinho, daquele cabelinho, sabe?

Alessandro Loiola: Pós-moderno.

Luciano Pires: Não, bicho, é que eu queria, eu estou procurando um livro aqui, O Melhor do Pasquim. A cara que o moleque fez para mim, você olha e fala, aquela cara: meu Deus do céu. É como se eu tivesse perguntando para ele: qual é o sentido da vida? E ele: Pasquim? Ta-ta-ta. E eu lendo na pergunta que ele me faz, que ele está se referindo a Marcos Pasquim, que é o ator da Globo. Que é o único Pasquim do qual ele tem referência na vida dele.

Alessandro Loiola: Uma revista iconoclasta, bicho. Uma revista iconoclasta.

Luciano Pires: Bom, digamos que seja assim, porque o garoto é novo, etc. e tal. Mas ele é um garoto novo, que trabalha dando atendimento numa livraria, onde o livro que eu estou perguntando é um dos dez mais. Que estava acabando de ser lançado, estava uma gritaria toda. O cara é incapaz de estudar aquilo que ele está trabalhando para poder entender o que eu estou vendendo, cara. E aí quando você vê e olha o abismo que separa, você fala: meu…

Alessandro Loiola: Intransponível.

Luciano Pires: Mas não vai, não passa. É por isso que você fala, embora esteja disponível toda essa cultura, tem que haver uma pré-disposição, sabe? uma… deixa eu voltar para a minha filha de novo?

Alessandro Loiola: Sim. Opa.

Luciano Pires: Para mim foi uma puta surpresa ela se dispor. Porque ela estava… o que ela faz? Ela assiste Friends. Ela assiste Netflix

Alessandro Loiola: Sex and the City. Que para ela é um clássico, né?

Luciano Pires: Ela vê aquilo. E de repente, ela dedicou a madrugada dela para assistir vídeos para tentar resolver um nó que estava na cabeça dela. Por que é assim, né? Então essa… eu virei para ela e falei: pô, parabéns, cara.

Alessandro Loiola: Parabéns, cara, parabéns.

Luciano Pires: Pela disposição. Eu não quero nem discutir se está certo ou errado. Não me interessa o final. A disposição de ficar acordada. Eu olhei para aquela coisa: o que você está assistindo? Roda Viva. Como assim, Roda Viva, cara? Vendo os caras bater papo com o sujeito. Porque acho que surgiu uma curiosidade tão genuína nela, que ela falou: eu vou buscar por minha própria conta. Não vou perguntar para ninguém. Eu quero assistir o que está acontecendo. Falta essa pré-disposição, né, nessa molecada toda. Está todo mundo com pressa, bicho. Todo mundo com pressa. Todo mundo cheio de pressa.

Alessandro Loiola: E na pressa você vira um eco.

Luciano Pires: Que tamanho é o texto? Que texto é esse? Textão, cara. Não enche o saco, bicho. Isso é muito grande.

Alessandro Loiola: Duas páginas.

Luciano Pires: Quando virar Twitter eu vou ler.

Alessandro Loiola: Se virar filme, vale a pena. Eu assisto.

Luciano Pires: Então, deixa eu voltar atrás então. Porque tem gente que está ouvindo aqui e está horrorizada. Eu vou receber comentário. Vai ter nego que vai escrever para mim. Vão falar nas costas. Um absurdo, porque nós somos elitistas, estamos aqui detonando as coisas. Mas qual é o problema disso tudo? Quando você não está disposto a se entregar para essa questão do crescimento cultural. Quando você não está disposto a procurar, a exercer essa tua curiosidade genuína, a ir atrás dos livros que nós estamos indicando. A investir o teu tempo buscando isso tudo, você não vai construir o repertorio que vai te ajudar a tomar decisões, cara. Você vai bater o olho na coisa e falar: puta, isso é complexo demais. O que estão escolhendo aí? Eu vou atrás. Entendeu? E você vai virar mais um joguete na mão de quem quer fazer, pintar e bordar. O mundo é feito de vendedor, cara. E esses vendedores são bons pra cacete. Vai chegar uma hora que você vai olhar para trás e falar: porra, eu como o que querem que eu coma, eu leio o que querem que eu leia, eu visto o que querem que eu vista, eu escolho o candidato que querem que eu escolha. A minha vida é vivida de acordo com o querer de outros. Eu não tenho escolha nenhuma.

Alessandro Loiola: Mas vive-se a ilusão do livre arbítrio.

Luciano Pires: Sim, sim.

Alessandro Loiola: Você quer entender Psicologia? Leia Montaigne. Montaigne, fabuloso. Quer entender política? Leia Thomas Hobbes. Quer entender a natureza humana, David Hume. E esses livros estão aí. E eles não são caros.

Luciano Pires: Por isso que é importante o que nós estamos fazendo aqui, sabe? Há hoje um universo de trânsito de conteúdo pela internet, que é um negócio que nunca houve na história da humanidade. Quer dizer, eu posso pegar um cara que é um incomodado, como você, que monta uma página que tem 8 mil pessoas, onde você vai discutir coisas que aqueles 8 mil, talvez não tivessem visto se você não tivesse ido lá e descoberto o livro lá do… como é que você falou logo no começo, aqui? Que você está lendo, os três livros lá?

Alessandro Loiola: Ah, o Jared Diamond?

Luciano Pires: Eu não ouvi. Eu não li nada desse cara aí, então… e jamais teria ido atrás se você não tivesse falado aqui. Provavelmente agora eu vou atrás. Então, esse livre circuito, que é o que está na internet é um negócio fabuloso. E as pessoas continuam gastando o tempo delas assistindo Youtuber de cabelo verde, que come minhoca viva. E durante 15 minutos, eles vão ver um vídeo com um cara comendo minhocas. Vão dar risada de montão, vão dar 7 milhões de views para aquele cara. E vão – quando terminar aquilo – fechar o computador. E deixaram 15 minutos da vida delas no nada. No nada, né? Quando ao lado tem outros caras fazendo, que têm 3, 4. 5, 10, 300 views. E ali tem um conteúdo gigantesco, que vai alimentar esse teu repertorio. Então aí tem uma escolha. Isso tem um livre-arbítrio.

Alessandro Loiola: Sim.

Luciano Pires: Eu posso escolher onde é que eu vou botar meu tempo de vida, cara.

Alessandro Loiola: E mesmo dentro do Youtubers e desse universo de Youtube, existem excelentes vídeos.

Luciano Pires: Sim senhor.

Alessandro Loiola: Cara, Carl Sagan, Sam Harris, Ben Shapiro, Roger Scruton. Têm vários vídeos bacanas, de gente que vai colocar a sua cabeça… e eu já fui criticado por ler Olavo de Carvalho, por exemplo. Bah, já me jogaram pedra pra caramba. Sim. Mas eu li Bakunin, Deus e o Estado.

Luciano Pires: Eu, sabe o que eu fiz?

Alessandro Loiola: Eu li Marx…

Luciano Pires: Sabe o que eu fiz? Eu fui para os Estados Unidos entrevistar o Olavo. Eu fui lá, cara, ver a cara do cara, botar a mão, dar a mão para ele…

Alessandro Loiola: Cara, que inveja de você, bicho.

Luciano Pires: Dei a mão para ele, sentei, fiz uma entrevista de duas horas com ele, onde eu falo o seguinte – e boto as caricaturas de lado – eu quero falar com esse ser humano. Quero ver ele, quero ver a família dele, tudo. E volto com a impressão que é minha, cara. Que não é a caricatura que o pessoal faz aí. Que é o que fode, bicho. Fode. Se você falar Olavo de Carvalho, vem 20 manés para tocar o astrólogo, não sei o que lá. E o conteúdo fantástico do cara ali…

Alessandro Loiola: Nós vamos falar da pessoa ou falar das ideias?

Luciano Pires: O conteúdo é esquecido, porque botam um rótulo em cima. Fazem aquela coisa do personagem, que você falou aí, da…

Alessandro Loiola: A impressão do personagem.

Luciano Pires: Nunca me lembro do nome. A impressão do personagem, aí você…

Alessandro Loiola: Primeiro: teoria da díade moral. O Olavo de Carvalho é imbecil. Beleza. Colei o rótulo do imbecil. Teoria da impressão do personagem: qualquer coisa que ele fale vai ser uma imbecilidade. Pô, bicho, eu considero Rosseau um paranoico. Um paranoico. Rosseau era suíço, fugiu da França. Fugiu da Suíça para a França, achando que ele era ameaçado de morte. Fugiu da França para poder ir morar com David Hume na Inglaterra, achando que estava sendo ameaçado de morte na Inglaterra. Adivinha o que ele fez com o Hume na Inglaterra? Ele saiu da Suíça, foi para a França. Saiu da Suíça, foi para a Inglaterra. Rapidinho ele arrumou uma confusão com o David Hume, achando que o pessoal em volta de Hume queria mata-lo e voltou para a França. Paranoico. Paranoico. Essa é a impressão do personagem. Tudo bem. Deixe o personagem de lado, vai dar uma lida no Contrato Social. Fantástico. Tudo bem, têm umas passagens do Contrato Social que são só a base de cogumelo alucinógeno ou fumando maconha. É completamente surreal o que ele propõe ali. Mas ali dentro têm ideias boas. Você pode falar o que você quiser de Marx. O que você quiser. Ah, viveu às custas da mulher. Assim, mas foi o primeiro cara que entendeu o capitalismo. O entendimento dele – tudo bem, o que ele fez depois desse entendimento, falando que o capitalismo era luta de classes, que ia ser a opressão do trabalhador, essa parte aí você deleta – o entendimento dele da dinâmica do capitalismo, para a época em que ele escreveu, foi extraordinário. Só que depois dele, a gente teve Friedman, a gente teve Reiki, Soel, vamos além. Vamos além. Mas o primeiro entendimento dele ali foi fantástico. O primeiro entendimento de Aristóteles, de como que o mundo funcionava foi fantástico. Mas Aristóteles achava que o cérebro servia só para esfriar o sangue.

Luciano Pires: Você está escrevendo um livro, então?

Alessandro Loiola: Estou. Estou.

Luciano Pires: Você já tinha o título do livro? Já sabe? O que é?

Alessandro Loiola: Sobre a Natureza e a Crise da Moralidade.

Luciano Pires: É o seu primeiro livro?

Alessandro Loiola: Eu já escrevi cinco, quatro publicados. Nenhum desses quatro vale muito a pena. É tudo bobagem. Livros de Medicina para leigo. Assim, de repente alguém pode até achar útil, entendeu? Mas eu considero… eu escrevi um romance. Eu tinha um tesão de querer saber se eu conseguia escrever um romance. Luciano, eu vou te falar: eu escrevi um romance. Difícil pra caramba, bicho. É difícil.

Luciano Pires: Eu imagino.

Alessandro Loiola: Porque qualquer coisa da linha sociológica, técnica ou autobiográfica, você tem os dados na sua mão. Mas você criar um universo e criar um diálogo. Uma mulher conversando com outra mulher. Esse diálogo vai existir no seu livro. Cara, a gente é homem. Eu não tenho dois X. Como é que eu vou conseguir entender. É bem… bem complicado. Então eu bato palma para os caras que conseguem – homens e mulheres – que escrevem romances. Porque os caras são geniais. E aí esse romance ficou engavetado.

Luciano Pires: E esse teu livro, você está fazendo por conta. É uma editora que pediu? Como que é?

Alessandro Loiola: Não, não, não. É meu. É meu.

Luciano Pires: Você vai fazer?

Alessandro Loiola: Até a nota…

Luciano Pires: Como que é o nome dele?

Alessandro Loiola: Sobre a Natureza e a Crise da Moralidade. Explica de onde que a moralidade vem, como é que ela se desenvolveu na gente. E tem insights fantásticos. E como que se instalou a crise nessa moralidade. Que para mim, a crise que a gente vive, ela é cíclica. A gente sempre passa. A gente vive um realismo moral. Esse realismo é martelado com ceticismo. Porque ele começa a incomodar. Ele fica muito restrito. Então a gente quebra as paredes dele como ceticismo. Na sequência assim, enfim, entra num período, numa fase de relativismo. Que você fala assim: não, nem o realismo está certo ou errado, nem o ceticismo está certo e errado. Vamos fazer o seguinte, galera? Vamos sentar todo mundo aqui, vamos assar uma carne? Eu levo a cerveja. Esse é o período de relativismo. Fatalmente o relativismo vai se travestir, ele vai acabar se solidificando numa outra forma de realismo, que vai tomar martelada de ceticismo. Nietzsche martelou o realismo iluminista com tanta força, batendo na cabeça dele, que ele morreu em 1900 com demência. De tanto martelar com o ceticismo. Mas produziu, rompeu aquele realismo. E através do ceticismo de Nietzsche, a gente pariu esse relativismo de Derrida, do próprio Karnall, esse relativismo novo, Focault, esse relativismo que a gente está vivendo. Mas ele vai se solidificar de novo. Essa é parte da crise que a gente está vivendo. E da parte da natureza da moral, cara, tem umas coisas que são fantásticas. Você vê como que dentro do reino animal existe moralidade. E é uma moralidade extraordinária. Um entomologista – aí no livro eu cito as fontes direitinho – ele foi… o cara foi lá analisar direitinho as formigas, para poder entender como é que funciona a comunidade de formiga. E ele viu que duas formigas, mais ou menos da mesma faixa etária, se elas saem para cortar folhas, se uma formiga vê a outra tendo muita dificuldade para cortar a folha, ela não se detém muito tempo ali. Porém, quando essa formiga vê outra formiga mais jovem com dificuldade para cortar a folha, ela para e ajuda. Ela tem mais paciência para ensinar a formiga novinha, do que ela tem para ensinar a formiga mais velha. É um tipo de comportamento moral isso. Tudo bem. É rudimentar. Mas ele é moral.

Luciano Pires: É. Sobrevivência da espécie, né? Ela está preocupada com isso, né?

Alessandro Loiola: Isso. Você pode colocar um pouco do consequencialismo de Bentham. Você pode colocar o utilitarismo de John Stuart Mill. Mas assim, se a gente for começar a se desfazer disso, a mesma dinâmica que você usa para poder desfazer a moralidade da formiga, você vai ter que ter a honestidade de aplicar à nossa espécie. E por aí vai. O cachorro sabe que ele fez alguma coisa errada. Quando ele fez alguma coisa errada…

Luciano Pires: Como sabe…

Alessandro Loiola: Ele sabe. Ele sabe. Talvez, ele não saiba exatamente o motivo. Mas ele fala assim: nossa, eu fiz alguma coisa que eu não devia ter feito aqui. E quando você aparece, ele te olha com aquele ar de apreensão. Aí você pode falar assim: pô, mas o cachorro não está apreensivo porque ele fez alguma coisa de errado. Ele está apreensivo, porque ele sabe que vai ser punido. Ele não entende direito porquê. Mas ele está apreensivo, porque ele vai ser punido. Me diz uma coisa: não é o mesmo olhar que uma criança dá? Ela não tem noção exatamente se o que ela fez foi errado. Mas ela entende, pela sua linguagem corporal, que ela vai ser punida por aquilo, de igual maneira.

Luciano Pires: Mas ela aprende né, na próxima vez ela já sabe. Ela vai aprendendo. Que essa é a diferença, né?

Alessandro Loiola: Assim como o cachorro aprende. Mas as pessoas…

Luciano Pires: Em termos. Em termos. O meu continua mijando onde não deve. É que as mães. A mãe, a filha, que são as donas do cachorro, não brigam com o cachorro. Falam assim: ai, tadinho, fez xixi onde não devia. O bicho mija onde quiser. Eu já dava um bicudo no cachorro.

Alessandro Loiola: Não…

Luciano Pires: Lá vou eu… já vão me rifar, cara. Já vão me escrever…

Alessandro Loiola: Grandes pensadores…

Luciano Pires: Ai meu Deus…

Alessandro Loiola: Grandes pensadores ao longo da história tentaram remover da gente esse antropogeocentrismo: o homem como medida de todas as coisas e o planeta Terra como centro do universo. Galileu Galilei, Kepler, Copérnico, o próprio Hubble tentaram. Carl Sagan, enfim. Tentaram remover da gente essa ideia. Que a gente não tem, perante o resto do universo, perante uma montanha do Himalaia ou perante um urso polar que está te fitando lá no Polo Norte, a gente não tem… não aparece nenhuma preferência sobre o resto. A gente é só um bicho como todos os outros. Algumas peculiaridades, mas assim, se você falar que o mundo foi feito para os humanos e que… bom, isso é baseado em livros escritos por quem? Cetáceos? A ideia de que nós somos uma espécie diferente, esse esepeciezismo, ele não é baseado em um tratado escrito por bonobos ou por uma série de documentários feitos por golfinhos. Isso é baseado num livro que nós mesmos escrevemos. E se você pensar que o planeta foi feito para a gente, bom, um golfinho tem uma visão diferente. Você vai ver que 2/3 do planeta é coberto de água. Vai falar assim: não, o planeta foi feito para os cetáceos. Não foi feito para os humanos.

Luciano Pires: Você leu Jordan Peterson já?

Alessandro Loiola: Já vi algumas entrevistas dele. Li alguns textos dele. Mas não li o livro dos 12.

Luciano Pires: Ele começa explicando, usando a sociedade das lagostas para explicar…

Alessandro Loiola: O sistema nervoso…

Luciano Pires: Para explicar o sistema, a organização hierárquica do ser humano. Então, ele vai lá na lagosta. Então tira tudo… eu vou buscar uma espécie que tem 12 milhões de anos e vou mostrar o que acontece. Dali ele nasce a explicação para mostrar que… cara, e aí vem essa razão. De que deve haver uma espécie de moralidade, alguma coisa naquela lagosta de 12 milhões de anos, que explica a organização dela e que a gente acaba rebatendo aqui, né?

Alessandro Loiola: Ainda que seja moralidade inata. A gente nasce com uma programação rudimentar dessa moralidade. Uma criança, já fizeram testes com bebês, por exemplo. Se você colocar dois fantoches na frente de um bebê, numa fase em que a criança consiga interagir. Eles vêm um fantoche bem agarrado e o outro está tendo dificuldade de subir uma parede ou está deslizando. Ele tenta ajudar o que está em dificuldade. Ele sempre tenta. Então as crianças têm, desde que nascem, antes que a sociedade enfie na cabeça delas essa moralidade, elas já nascem com o rudimento. Vai ser sofisticado depois. Mas elas nascem com dois rudimentos de moralidade. Primeiro: ajudar quem está em dificuldade. Isso já vem com a gente. E o segundo é: nós contra eles. Esse princípio da tribalização também está junto com a criança. Se você forma dois grupos, esse grupo de crianças compartilha os brinquedos entre elas. O outro grupo de crianças compartilha entre eles. Mas elas meio que reagem de um modo um pouco agressivo quando aquele grupo vem tentar pegar brinquedos desse. E vice-versa. É o nós contra eles. Isso já está na criança.

Luciano Pires: Isso explica o Brasil de hoje, né? O meu penúltimo livro chama-se Me Engana que Eu Gosto, Dois Meio Brasis Jamais Formarão um Brasil Inteiro. Que eu falo exatamente dessa divisão, dessa coisa que foi construída ao longo dos últimos anos e que botou a gente nessa posição de hoje. Você é de direita, eu sou de esquerda. Nada do que você disser tem valor para mim, porque você já tem o seu rótulo de direita. Não tem… eu vou cuidar da minha tribo. Vou ler minha tribo. Vou frequentar minha tribo e vou elogiar minha tribo. A outra tribo não tem nada que preste.

Alessandro Loiola: Mas eu vejo que tem um viés de vira-lata. Lembra o nosso complexo de vira-lata?

Luciano Pires: Pois é, mas não é só no Brasil isso, cara, essa coisa está no mundo.

Alessandro Loiola: Mas nós somos brasileiros. A gente vive esse complexo de vira-lata. Um desses complexos…

Luciano Pires: Cuidado, que teve um general que falou isso agora aí e está um horror.

Alessandro Loiola: Não, mas eu acho que… mas faz parte da sociedade fabiana, do gramscismo que foi vendido. Eu não acho que a gente tem nada de complexo de vira-lata. Todas as sociedades que existem no mundo têm sim a parte ruim e tem a parte boa. Mas eu vou te dar um exemplo simples do nosso complexo de vira-lata. Você foi ensinado na escola que índio – até foi falado isso agora, o general também falou…

Luciano Pires: É isso que eu estou falando.

Alessandro Loiola: Que o índio é indolente. Eu discordo profundamente. Discordo profundamente. Se você pegar lá a história do Brasil, 1554, Confederação dos Tamoios. Tinha um governador geral do Brasil, chamado Duarte da Costa. E ele veio para cá com o filho dele, Álvaro da Costa. Álvaro da Costa era simplesmente um psicopata. Psicopata. Arrumou uma confusão desgraçada aqui, superviolento com os índios, queria escravizar os índios inteiros, inclusive os índios que tinham sido catequizados, inclusive esses. O Sardinha, o então bispo Sardinha se indispôs com Álvaro da Costa, porque: não, você não pode escravizar. Escraviza os outros. Mas os índios catequizados não. Eles já receberam uma alma cristã. Você não pode escraviza-los. Mas o Álvaro da Costa não se deteve. Por fim, Sardinha ter com o rei em Portugal. O navio naufragou lá na costa do Alagoas, ele foi cozido junto com outros companheiros, lá por uma tribo de caetés. Álvaro da Costa e Duarte da Costa começaram… continuaram tocando terror no Brasil e foram levados de volta à Portugal. E como aqui estava… aí, por causa, provavelmente, dos desmandos do filho, o Duarte da Costa foi substituído. Veio o Mem de Sá para cá, com o Estácio de Sá. Porque por causa dos desmandos da família Costa, dos abusos, da sociopatia deles, os índios de Bertioga até o litoral sul do Rio de Janeiro se organizaram, formando uma Confederação. Você já andou, você fez algumas trilhas? Um tempo atrás eu fiz uma trilha, subindo a Serra do Massaguaçu em Caraguatatuba e descendo numa região chamada Três Águas e dando a volta. A gente ficou quatro dias na mata, fazendo trilha por Mata Atlântica. Trilha não, né? Abrindo caminho no cipó. Cara, andar por dentro da Mata Atlântica é foda. É difícil. É difícil, você se lanha, é cipó, é fechado. É como se o mato falasse assim: volta. Não entra aqui. Aqui não é para você. Pensa que os caras conseguiram organizar uma confederação, unindo tribos rivais. Dá para você imaginar a dificuldade, a logística, a diplomacia que envolveu pegar essas tribos de “selvagens”?  E os caras formaram. Nós somos inimigos um do outro. Mas a gente tem um inimigo em comum, pior do que nós. Pior do que nós dois. Pior do que as nossas tribos. Pelo menos, por enquanto, vamos fazer uma trégua e vamos combate-los. E eles conseguiram chegar a um acordo, cara. Você consegue imaginar o que é a Confederação dos Tamoios? Você acha que um povo indolente faz isso? Eles estavam lá no comecinho do neolítico. Mal e mal fazendo a transição para a revolução da agricultura. Os portugueses já estavam aqui na Idade do Ferro, do Bronze, do Aço. Dando tiro, com colete, com tudo. Por causa disso Mem de Sá veio para o Brasil e Estácio de Sá conseguiu negociar essa paz. Onde que nós somos um povo indolente? Se você vai ver os filmes da Guerra Civil Americana, da conquista do oeste, você vê um povo bravo pra caramba. Bravo, admirável. Admirável. A resiliência física, mental, moral, psicológica dos caras era louvável. Não foi diferente aqui. Por que essa história do Brasil não é contada? Dom Pedro II foi fantástico. Só para fazer um último gancho. Essa história do Sardinha, do Álvaro da Costa e do Estácio de Sá, elas explicam bem uma coisa que eu abordo no livro que eu estou escrevendo, Sobre a Natureza e a Crise da Moralidade, que é a falácia do mundo justo. Você já ouviu falar isso?

Luciano Pires: Não.

Alessandro Loiola: Tudo acontece por um motivo. Sabe? A vontade de Deus tarda, mas não falha. As coisas acontecem por um propósito. Tudo que você planta, você colhe. O mal aqui se faz, o mal aqui se paga. Isso é um tipo de falácia. É uma construção que tenta dar um equilíbrio para as coisas. É uma construção completamente fantasiosa.

Luciano Pires: Que transfere a responsabilidade para outra…

Alessandro Loiola: Não. Ela não existe.

Luciano Pires: Ela transfere a responsabilidade, cara.

Alessandro Loiola: Você pega essa falácia do mundo justo e aplica ela à situação do Álvaro da Costa, do Sardinha e do Estácio de Sá. Se o mundo fosse justo, Álvaro da Costa deveria ter sido comido por índios canibais. Não, ele não foi comido. Ele voltou para Portugal e levou uma vida boa. O Sardinha tentou defender alguns índios da sociopatia do Álvaro da Costa. Sabe como que o mundo justo operou com o Sardinha? Fez ele naufragar e ser comido por caetés. O Estácio de Sá veio para cá para poder colocar paz e parar com a confusão. Acabar com a Confederação dos Tamoios e tentar, dentro de certos termos, restabelecer a paz entre portugueses e índios. Tudo bem, era uma paz meio maluca. Mas pelo menos era alguma paz. Adivinha como que a falácia do mundo justo brindou Estácio de Sá, o cara que fundou a cidade do Rio de Janeiro? A falácia do mundo justo diz que por ele ter restabelecido a paz ele morreu com uma flechada no olho. Tomou uma flechada em janeiro, 30 dias depois morreu de septicemia. Então sim, coisas horríveis acontecem. Não tem jeito. E o mal nem sempre paga o preço.

Luciano Pires: Quando é que esse teu livro vai… você já tem ideia? Você já pensou nisso? Como é que você vai editar esse livro? Vai para uma editora, vai fazer por sua conta?

Alessandro Loiola: Ah, na minha cabeça, eu vou abrir a minha própria editora. Mas eu tenho que terminar o trabalho do livro. São 15 capítulos, eu estou fechando o capítulo 8 essa semana. E ainda vão aí entre construção do livro. É muita pesquisa. Eu acredito que vai uns – e até publicar – pelo menos, mais um ano de trabalho. Aí se Odin nos abençoar, estaremos aqui quando o livro for lançado, para te entregar um exemplar. Foi uma grande honra.

Luciano Pires: Isso é a falácia do mundo justo. Odin o cacete, vai dar um trabalho desgraçado. Mas depois eu te dou umas dicas aí, cara. Vamos lá, quem quiser te encontrar para saber mais desse seu trabalho e tudo mais, então vamos lá, você tem aquela página que chama-se?

Alessandro Loiola: manhoodbrasil.

Luciano Pires: manhoodbrasil. Que é M-A-N-H-O-O-D?

Alessandro Loiola: Brasil.

Luciano Pires: Brasil?

Alessandro Loiola: Ponto com, ponto br. Ou colocar o próprio manhoodbrasil dentro do Facebook, vai encontrar lá a fanpage. Ou a minha própria página pessoal Alessandro, com dois S, Loiola, com I.

Luciano Pires: Direto de Caraguatatuba.

Alessandro Loiola: Caraguatatuba.

Luciano Pires: Para o LiderCast.

Alessandro Loiola: Uma grande honra, Luciano.

Luciano Pires: Grande, bicho, que bom. Valeu.

Alessandro Loiola: Fico honrado.

Luciano Pires: Esse papo aqui dá para ir muito mais longe. Mas a gente tem ali, meio que uma média no LiderCast que eu tento manter aqui, né? Cara, bem-vindo.

Alessandro Loiola: Muito obrigado.

Luciano Pires: Cara, espero que o teu livro – não só ele, cara – espero que tudo frutifique aí e que você curta bastante essa ideia de ser escritor, especialmente distribuir esse material todo. Depois a gente senta ali, eu te dou umas dicas sobre distribuição, sobre publicação de livro. Porque isso aí eu já sou macaco bem velho, cara.

Alessandro Loiola: Mais uma vez, agradecer ao Robson Abreu, que nos colocou em contato.

Luciano Pires: Isso. E mostrar como é que funciona. O Robson curte o LiderCast. É tão fã, que conhece essa figura aqui e falou: ele tem que conversar com o Luciano. Está aí. Fez um programa aqui, graças a um ouvinte. Então, se você que ouve o LiderCast e conhece gente que vale a pena conversar e sabe qual é a pegada aqui, o LiderCast conversa com gente que faz acontecer. Não me interessa se o cara é milionário, se o cara é fodão. Eu quero saber o seguinte: você sai de manhã, com tesão de fazer alguma coisa acontecer, eu quero conversar com você. E é isso aí que tá. Bem-vindo. Muito obrigado pela visita, cara.

Alessandro Loiola: Obrigado, Luciano, eu que agradeço, cara. Uma honra.

Luciano Pires: Um abraço. Muito bem, termina aqui mais um LiderCast, a transcrição deste programa, você encontra no lidercast.com.br. para ter acesso a esta temporada completa assine o cafebrasilpremium.com.br e receba imediatamente todos os arquivos. Além de ter acesso ao grupo cafebrasil no Telegram, que reúne ouvintes dos podcasts Café Brasil e LiderCast, que discutem em alto nível, temas importantes, compartilhando ideias e recebendo conteúdos exclusivos. Lembre-se: cafebrasilpremium.com.br. Essa temporada chega a você com o apoio da Nakata, que é líder em componentes de suspensão. Cuide bem de seu carro com as dicas do blog.nakata.com.br.

 

Narrador: Você ouviu LiderCast, com Luciano Pires. Mais uma isca intelectual do Café Brasil. Acompanhe os programas pelo portal cafebrasil.com.br.

 

 

Você leu a transcrição do episódio 132 do LíderCast, que tem duração de 1 hora, 31 minutos e 05 segundos e pode ser ouvido/baixado de www.lidercast.com.br

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