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Luciano Pires -
Download do Programa

Narrador: Bem-vindo ao LiderCast, o podcast para quem quer saber mais sobre liderança. Apresentação, Luciano Pires.

Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LiderCast, um podcast que trata de liderança e empreendedorismo, com gente que faz acontecer. Hoje trazemos Katia Carvalho, mudadora de vidas. Alguém que ao invés de apenas lamentar a falta de sorte de seus semelhantes, arregaçou as mangas e começou a mudar as vidas das crianças de sua comunidade. Este não é um programa de entrevistas, não tem perguntas programadas, nem roteiro definido. É um bate-papo informal com gente que faz acontecer, que vai para lugares onde nem eu, nem meu convidado imaginamos. Por isso, eu não me limito a fazer perguntas, mas dou meus pitacos também. Você está entendendo? Não é uma entrevista. É um bate-papo. O LiderCast é lançado por temporadas. Os assinantes da Confraria Café Brasil e do Café Brasil Premium tem acesso imediato à temporada completa, assim que ela é lançada. São mais de 24 horas de conteúdo de uma vez só, cara. Os não assinantes receberão os programas gratuitamente, um por semana. Para assinar acesse cafebrasilpremium.com.br. Esta 10ª temporada do LiderCast chega até você com o apoio da Nakata, que é líder em componentes de suspensão. Cuide bem de seu carro com as dicas do blog.nakata.com br. Muito bem, mais um LiderCast. Esse aqui é daqueles que um convidado leva a outro, que leva a outro, que leva a outro. E é assim que a gente vai vivendo. Uma pessoa vem aqui, experimenta a gravação do LiderCast e logo lembra: pô, eu tenho outra pessoa que é legal para você conversar. E assim a gente vai montando uma rede que é fantástica. E é assim que nasceu o programa de hoje. Aliás, não demorou nada não. Porque é uma semana depois da outra gravação que eu fiz com os meninos. Três perguntas fundamentais, as únicas três que você não pode chutar, não pode errar, preste atenção: seu nome, sua idade e o que você faz?

Katia Carvalho: Meu nome é Katia Carvalho. Eu tenho 51 anos. Eu sou professora particular de inglês e fundadora da Casa do Jardim.

Luciano Pires: Casa do Jardim?

Katia Carvalho: É.

Luciano Pires: O que é? Trabalha com plantação? Coisa…

Katia Carvalho: Não. A gente cuida de 90 crianças carentes.

Luciano Pires: Ótimo. Calma. Vamos lá para a nossa continuação. Você nasceu onde?

Katia Carvalho: Santo André.

Luciano Pires: Santo André? Você é nascida em Santo André?

Katia Carvalho: Isso.

Luciano Pires: Pô, que beleza, uma paulista.

Katia Carvalho: É. Eles falam que é interior, né?

Luciano Pires: Quem nasce em Santo André é paulista. Quem nasce na cidade de São Paulo é paulistano.

Katia Carvalho: É. Paulistano. É.

Luciano Pires: Quem nasce em Santo André é paulista. Isso aí. E tem irmãos?

Katia Carvalho: Tenho. Um mais novo e uma mais nova.

Luciano Pires: O que seu pai e sua mãe faziam ou fazem da vida?

Katia Carvalho: A minha mãe era dona de casa, né? Trabalha comigo, mineira misturada com turca. Ela que vê toda a alimentação lá da Casa do Jardim. E meu pai é farmacêutico.

Luciano Pires: Farmacêutico? Você nasceu numa família, então, em que o pai trabalhava…

Katia Carvalho: É. Desde os seis anos. O meu pai, ele conta que ele deu injeção no Tancredo Neves.

Luciano Pires: Ô louco.

Katia Carvalho: Ele, os tios, os irmãos do meu pai eram farmacêuticos. Ele é de São Tomé de Aquino, em Minas. E com seis anos ele foi trabalhar na farmácia. Ele se aposentou eu acho, que há uns 15 anos.

Luciano Pires: Com seis anos de idade, ele foi trabalhar.

Katia Carvalho: Com seis anos, o meu pai foi trabalhar. Ele nunca parou de trabalhar.

Luciano Pires: Hoje, se você bota uma criança de seis anos para trabalhar, você vai presa.

Katia Carvalho: Você vai preso. Você vai preso.

Luciano Pires: E pergunta para o seu pai se ele se arrepende de ter começado aos seis anos?

Katia Carvalho: Não. E eu ficava… quando eu bagunçava muito eu ficava de castigo. Então, eu vivia na farmácia, assim, férias, né? Eu bagunçava e ficava de castigo trabalhando com ele.

Luciano Pires: Como é que era o teu apelido quando era criança?

Katia Carvalho: Batatinha.

Luciano Pires: Batatinha?

Katia Carvalho: Eu só comia batata.

Luciano Pires: É mesmo?

Katia Carvalho: É.

Luciano Pires: Batatinha. O que a Batatinha queria ser quando crescesse?

Katia Carvalho: Ah… eu estava pensando esses dias. É até meio ridículo. Mas eu queria ser caminhoneira, para viajar. Eu achava o máximo. Quando eu ia para Minas, visitar os primos, eu achava o máximo o caminhoneiro sair sem destino, né? Aí… mas eu sempre aprontei muito. Eu falo que hoje eu não tenho joelho. Eu andava de skate, surf, bateria.

Luciano Pires: Se arrebentava. Era um moleque?

Katia Carvalho: Era um moleque. Caía. Eu só não voei. Na época, também, 51 anos. Na época estava começando a asa delta.

Luciano Pires: Mas tem tempo ainda, dá para dar umas voadas boas ainda.

Katia Carvalho: Tem que emagrecer primeiro.

Luciano Pires: E aí você foi ser… bom, tá certo, caminhoneira não foi o caminho.

Katia Carvalho: É. Não deu certo.

Luciano Pires: O que aconteceu?

Katia Carvalho: E eu gostava. Sempre gostei de criança. Então eu sempre falava que eu ia ter um monte de filho. Aí eu tive um que não dormia. O meu filho foi dormir com quatro anos e duas semanas. Eu falei: o plano de ter um monte de filhos…

Luciano Pires: Como é que é? O moleque ficava acordado 24 horas?

Katia Carvalho: É. Ele dormia um pouquinho quando chegava da escola, mas assim, era acordado, ligado. Na dele. Assim, mas não chorava. Nada. Super gente boa. Mas não gostava de dormir. E eu tinha que dar aula das sete às dez da noite, nove da noite.

Luciano Pires: Que hora você dormia?

Katia Carvalho: Não dormia. Aí eu falei: cara, o plano de ter um monte de filho já era. E eu sempre gostei de criança. A minha mãe conta que eu dava as minhas coisas. Dava blusa. Eu sempre gostei. Eu sempre vivi no meio de criança. Mas sempre pensava: vamos ficar ricos. Vou me casar com homem rico. Quando eu casar com um homem rico ou quando eu ficar rica, aí eu vou abrir um lugar para cuidar de criança. Eu acho que é meio preguiça. Você fala: ah não, lá na frente. Eu gosto. Mas lá na frente.

Luciano Pires: Quer dizer, já vinha de cedo isso, essa tua…

Katia Carvalho: Isso.

Luciano Pires: Já vinha de cedo?

Katia Carvalho: Cedo. Eu sempre gostei. Que é muito divertido você ficar com criança. Eles falam cada coisa, assim.

Luciano Pires: É. Tem, tem. A gente vai falar bastante disso aqui, né? Você chegou a fazer faculdade?

Katia Carvalho: Eu fiz Psicologia. No último ano, eu fui convidada para mudar de curso. Eu já dava aula de inglês.

Luciano Pires: Por quê?

Katia Carvalho: Como nós somos em três irmãos, o meu pai que bancava para a gente ir para a balada. Aí ele: vou bancar um dia. Os outros vocês se viram. Então eu falei: vou dar aula de inglês. Comecei inglês muito cedo. Aí eu falei: vou dar aula de inglês, porque eu tenho minha grana.

Luciano Pires: Você estudou fora?

Katia Carvalho: Não. Eu sempre viajei. Mas eu não… eu sou muito família. Eu gosto de…

Luciano Pires: Você é uma professora de inglês, que aprendeu inglês aqui no Brasil?

Katia Carvalho: É. Aí eu ia. Em férias, eu saía. Mas eu gosto da minha casa. Eu gosto daqui. Alguma coisa que prende. Eu já recebi propostas para viajar com pessoas, mas é legal ficar aqui. Eu gosto de ficar aqui. Aí eu viajava, voltava. E assim, eu dava aula das sete, oito da manhã, até oito, às vezes, dez da noite. Aí tinha grana, aí eu saía. Ia para a balada. Aí comecei a trabalhar muito cedo. Aí eu achei bobeira fazer faculdade de Letras. Aí eu falei: vou fazer Psicologia. Na intenção de trabalhar com criança. Mas não é… assim, não era o meu perfil. Eu tinha muito aquilo, você pegar o caso de mãe que é espancada. Aí você tem que fazer a mãe entender que ela não pode ser espancada. Eu falei: ah, não dá não.

Luciano Pires: Você foi convidada a trocar de curso?

Katia Carvalho: É. Então, porque na época – isso faz muito tempo, eu espero que o meu filho não ouça essa história, né? Mas eu acho que ele sabe – na época, a gente – eu acho que no último ano – você ia tipo, para um atendimento de clínica, meio treinando com o professor. E numa das últimas… o professor sempre me falava: olha, você não leva jeito para Psicologia. Você é muito elétrica. Você fala mais que o rabo da cobra. Não é. Não é por aí. Mas eu falava: ai, vamos, eu gosto de criança. Trabalhar com criança. Legal. Aí numa das últimas provas. Era uma sala, tinha um espelho atrás. E eu era a primeira. Então, a gente ia fazer um atendimento. Ele falou que era um atendimento com pessoas mesmo, que precisavam de um atendimento psicológico. Entrou uma…

Luciano Pires: Não era estudo. Era pra valer?

Katia Carvalho: É.

Luciano Pires: Era pra valer?

Katia Carvalho: Para ver se a gente tinha aprendido, né? Aí entrou uma senhora toda machucada, braço quebrado, olho roxo. Aí a minha orelha começou a esquentar. Quando a minha orelha esquenta. Aí ela sentou. Aí tinha uns procedimentos, que você vai perguntando. Aí eu sei que – para resumir – ela começou a falar que ela apanhava muito do marido. Mas agora ele era de Jesus. Mas ele estava melhor. E que ele bateu nela há pouco tempo e não sei o que.  E eu: cara, isso não vai dar certo. Aí, num pedaço da história, ela falou assim: não, mas agora ele é de Jesus. Tanto que a nossa filha, que ele bateu, que ele espancou, já saiu do hospital. Está boa. Ele está até aí fora, me esperando. A minha orelha esquentou num ponto. Eu falei: cara, você tem cinco minutos para mandar teu marido vazar daqui. Porque eu vou dar um cacete nele, cara. Como assim? Você apanha. Você não vai fazer nada? Você deixa ele bater na tua filha? Não é por aí, né? Aí eu escutei risadas, né? Aí a mulher começou a rir. Eu fiquei mais brava ainda. Era estudante de Artes Cênicas.

Luciano Pires: Fazendo um teste com você?

Katia Carvalho: Foi. Aí o professor bateu no vidro e falou: olha, não é.

Luciano Pires: Não serve.

Katia Carvalho: Vai para outra área. Aí eu falei: eu vou fazer Letras.

Luciano Pires: Eles fazem essa pegadinha, é?

Katia Carvalho: Isso há 35 anos, eu acho. Eu tinha 18… não, tinha mais, eu devia ter uns 22, 21. Mas foi legal. Porque é difícil. Assim, na minha cabeça, eles estão certos. Os psicólogos têm que fazer isso mesmo, né? Demora um tempo o tratamento e tudo. Mas quando você vê uma situação, você quer resolver.

Luciano Pires: É. Você não pode se envolver emocionalmente com o teu paciente?

Katia Carvalho: Não.

Luciano Pires: Aliás, em nada.

Katia Carvalho: Em nada.

Luciano Pires: Nenhuma ação que você é profissional, você pode se envolver emocionalmente. Que aí até o teu julgamento fica todo prejudicado.

Katia Carvalho: E faz tudo errado. Aí fui para Administração, aí mudei para Letras. Aí deu certo.

Luciano Pires: Aí se formou em Letras e foi ser professora?

Katia Carvalho: É. Eu já dava aula. Aí era mais para ter diploma, né? Uma segurança.

Luciano Pires: Muito bem. E aí, como professora, você estava lá dando aula, e no fundo, aquilo não era a sua praia?

Katia Carvalho: Não.

Luciano Pires: Não é isso que eu quero fazer?

Katia Carvalho: É. Eu ficava muito presa. Então, era aula particular. Eu dava aula no apartamento da minha mãe. Ainda era solteira. Aí entra aluno e sai aluno. Então eu tenho muitos amigos, eu conheço muita gente, assim. Santo André eles falam que é interior. Eu conheço muita gente. Também ajudou a montar o começo da Casa do Jardim, com doações, com encaminhamentos. Aí, nos intervalos eu ficava na janela. Tipo, algum aluno faltou. Você fica preso numa sala. Aí você vai para a janela. Aí eu via… teve um dia que eu vi… eu não sabia o que era. Estava pulando no meio do lixo. Era um casal – eu conseguia ver de longe – uma carroça e alguma coisa pulava no meio do lixo. Aí, quando chegou mais perto, eu vi que era uma menina, de uns cinco anos. Aí eu fiquei chocada. Que eu sempre tive o plano: ah, um dia eu vou ficar rica, vou casar com um homem rico, vou ganhar na Loto. Aí eu abro alguma coisa. Aí você fala: não dá para esperar. Como assim? Essa menina não vai esperar 20 anos você ficar rica. Você não vai ficar rica. Aí eu sei que eles foram embora. Eu fiquei olhando. Aí eu interfonei para o porteiro do prédio. Aí perguntei se ele já tinha visto. Ele falou: não, esses carroceiros, eles têm o mesmo roteiro. Então, eles têm os dias da semana, que eles mexem, eles abrem os sacos, eles pegam o material reciclável, levam para vender e voltam para casa. Aí eu pedi para ele, eu falei: a próxima vez que essa… e ele conhecia esse casal, ele já tinha visto várias vezes, quando passar, em interfona. Aí, alguns dias depois, eles passaram e eu desci. Eu estava grávida, eu acho. Aí eu desci para conversar com o casal. Eles acharam meio estranho. Que ninguém… essas pessoas, eles são invisíveis. É igual às nossas crianças, eles são invisíveis. Você doa no Natal, faz uma doação. Mas assim, beleza, né? Mas a criança está lá. Se você não encaminhar ela, o ano que vem você vai ter que doar de novo. Aí eu fui conversar com eles.

Luciano Pires: A madame desceu para falar com eles.

Katia Carvalho: E era uma senhora, uma graça, com o marido dela. O marido tinha trabalhado em empresa, perdeu tudo e pegava reciclável. Eles tinham a menina de cinco anos e tinham um filho com paralisia cerebral. Aí eu falei: olha, eu não sei muito o que a gente vai fazer. Eu falei: eu moro aqui. Não. Eu já tinha casado. Eu falei: eu dou aula aqui no apartamento da minha mãe. Daqui a 15 dias, passa, me encontra na esquina, que eu vou ver se eu arrecado alguma coisa. Aí eu peguei o endereço deles. Aí ela falou que a situação era difícil. Então, você imagina aquela casinha do interior, simples. A hora que você entra. Você fala…

Luciano Pires: Você foi lá?

Katia Carvalho: Fui.

Luciano Pires: Você foi lá.

Katia Carvalho: Eu fui escondido. Porque eu tinha medo de marcar e a pessoa não mostrar o que era. Tipo: arrumar a casa. Para você ver se cuidava bem do filho. Naquela época, a minha preocupação era se o casal cuidava bem da menina. Mas depois que eles colocaram na carroça, eles colocaram a menina em cima. Tinha essa preocupação com eles, de ajudar, sendo um casal que não cuidasse.

Luciano Pires: Você já estava numa missão? Já era uma missão para você aquilo ou você estava: deixa eu ver o que acontece aqui? O que é isso?

Katia Carvalho: No começo, eu queria ver assim, eu achei legal. Eu falei assim: cara, eu conheço muita gente. Eu acho que… você não tem noção do que… eu falo que a gente… é como se eu entrasse num twister, num… é, num twister. Você não tem mais controle. Aí eu fui, eu conheci. Eu achei que eu não fosse gostar, que eu fosse… têm pessoas que não vão na comunidade. Aí eu falei: gente, há 15, 20 minutos de Santo André, olha isso.

Luciano Pires: O que era? Era uma comunidade pobre, era um bairro, uma favela, o que era?

Katia Carvalho: Era uma comunidade. Então, até um lado dessa comunidade já foi destruído. Fizeram umas casas um pouquinho melhores. Mas mesmo assim, na época, eram casas de madeira. A janela era amarrada com corda. Era chão de terra. Aí eu fui andando, na inocência, que você tem que ter permissão para você entrar. Você não vai entrando em comunidade sem conhecer ninguém. Aí uma pessoa me parou. Eu falei: eu vim falar com a mãe de tal criança. Ah, é tal barraco. Viela nova, aí desci, fui lá. Aí: ah, eu vim te visitar, não sei o que. Eu falei: eu queria vim…

Luciano Pires: Você foi de surpresa?

Katia Carvalho: Eu fui de surpresa.

Luciano Pires: Você chegou lá sem ninguém saber?

Katia Carvalho: Eu sempre vou de surpresa. Eu sempre aviso algumas mães – que a gente confia muito – que eu vou visitar. Para não maquiar nada. Para você chegar, ver como que eles tratam. Ver se o que você doou está lá. Aí ela me mostrou toda a casa.

Luciano Pires: Você chegou lá em casa, antes disso, e falou para o seu marido?

Katia Carvalho: Não. Eu conto depois.

Luciano Pires: Como que é o nome do seu marido?

Katia Carvalho: Jack.

Luciano Pires: Jack?

Katia Carvalho: É Adílson. Eu chamo ele de Jack.

Luciano Pires: Jack, eu estou indo.

Katia Carvalho: Não.

Luciano Pires: Ele perguntou para você: que merda você está fazendo? Você ficou quieta. Você foi na sua?

Katia Carvalho: É. Porque às vezes, eu falei: vai que não dá certo. E ele tem muito medo de que eu me machuque. Que assim, é um mundo diferente.

Luciano Pires: Claro.

Katia Carvalho: Aí eu voltei, eu contei. Ele falou: você é louca? Eu falei: não. Aí conheci vários… nessa visita eu já saí com umas 60 crianças em lista de espera. Que não era lista de espera. Na outra quinta…

Luciano Pires: Pera aí. Pera aí. Você já está lá na frente. Você vai lá, visita aquele pessoal. Entra na casa dela. Toma um choque de ver a realidade que você imaginava, ali, ao vivo.

Katia Carvalho: Comi bolo de fubá, café.

Luciano Pires: E que te serviram, etc. e tal e você conhece a família. Verifica que é uma família – que na medida do possível – que está estruturada, tratam bem as crianças, etc. e tal. E você decide que vai ajudar essa família, de alguma forma?

Katia Carvalho: É.

Luciano Pires: Você é uma… se fosse homem, eu diria: você é um mané. Você é uma manezinha. Você é uma mané. E aquela família é uma família no meio de milhões de famílias. E você acha que você, com uma gotinha. Essa história do passarinho com uma gotinha?

Katia Carvalho: Eu achei…

Luciano Pires: O que passou pela tua cabeça ali?

Katia Carvalho: Eu não penso muito. Eu sou mais de fazer. Então, aí eu já saí de lá, aí eu já fui em vários… a mãe dessa menina me levou em vários lugares.

Luciano Pires: Mas eles sabiam o que você queria?

Katia Carvalho: Não.

Luciano Pires: Você se apresentou como o quê?

Katia Carvalho: Era alguém que ia ajudar.

Luciano Pires: Eu vim aqui para te ajudar?

Katia Carvalho: É. Como eu ia dali há 15 dias entregar o que eu consegui arrecadar ali na esquina, aí eu falei: ah, eu queria ver né, eu estava por perto. Aí ela falou: ah, vamos conhecer não sei quem, não sei o que lá.

Luciano Pires: Você entregou? Você arrecadou alguma coisa?

Katia Carvalho: Não, eles…

Luciano Pires: Eu estou interessado o seguinte: como é que você construiu a confiança dessa família? Que você não é uma louca que vai lá para roubar a menina? Entendeu? É um pedófilo, que vai lá para se aproveitar? Como é que você construiu essa relação de confiança, se eles não te conheciam?

Katia Carvalho: Eu não sei. Ei sei que… eu não sei. Eles confiaram. Eu acho que ou eles estavam numa situação tão assim: olha, eu não consigo atendimento para o menino que tem paralisia.

Luciano Pires: Não tinha alternativa?

Katia Carvalho: Eu não tenho alternativa.

Luciano Pires: Você não podia ser pior do que nada do que estava lá?

Katia Carvalho: Eu não podia ser pior. É. E também, depois que eu fiquei pensando um pouco: ele sabia onde eu morava. Então, o risco era deles e meu. A maior preocupação do meu marido na época, ele ficava assim: daqui a pouco, você vai ter 50 pessoas na porta e não vai ter comida. Mas é uma coisa que você não consegue ouvir. Então ao invés de ouvir: vamos com calma. Que o meu marido ele é todo: tem que fazer isso, vamos devagar. Eu já estava assim: olha, dá para pedir doação para esse, para aquele. Dá para encaminhar o menino para não sei aonde, para atendimento. Eu já posso pedir ajuda para não sei quem. Aí já comecei…

Luciano Pires: Você voltou para casa depois que você visitou aquela família, que te apresentaram outras pessoas. Você viu que havia ali um núcleo que você podia ajudar de alguma forma. Voltou para casa e falou: vou contar para o Jack?

Katia Carvalho: É.

Luciano Pires: Jack, eu estou com uma ideia.

Katia Carvalho: Ele falou: você é louca.

Luciano Pires: E aí, foi assim?

Katia Carvalho: Foi.

Luciano Pires: E aí?

Katia Carvalho: O meu filho, o Luigi, devia ter uns três anos, eu acho. Eu não tenho muita noção de tempo. Eu acho que faz… eu não tenho muita noção de tempo. Mas ele era pequenininho. Ele falou: você é louca. Eles sabem o teu endereço. Daqui a pouco um vai trazer o outro. Como é que você vai ficar nessa esquina? Eu falei: ah, não sei. Mas eu acho que ele estava tipo assim: ah, esse negócio, ela vai esquecer. Se bem que ele, o Jack sempre foi parceiro. Ele não aguenta, por exemplo, ele arruma todos os computadores da Casa do Jardim. Encaminha gente para um monte de coisa. Ajuda com a Carmem Lúcia, que é a nossa cachorra lá na Casa. Então… mas ele não é assim. Ele gosta de máquina. Ele é analista de sistema. Ele mexe com segurança, esses negócios. Ele gosta de máquina. Ele não gosta de pessoas. Então, quando ele vai na Casa do Jardim, aí sempre vem alguma criança perto. A última vez que ele foi, ele estava arrumando o computador. Uma das pequenas, assim, que é apaixonante, tem nove anos, ela sentou para conversar com ele. E eles falam. Quando eu digo que a molecada, eles são muito mais evoluídos que a gente. Ela sentou do lado dele e falou: e aí, beleza? Como que você está? Ela falou: é. Hoje eu estou meio chateada, porque o Sem Futuro está embaixo do viaduto. Aí o meu marido ouviu e falou: que Sem Futuro? O que é isso? É meu pai. Ele está embaixo do viaduto. Aí foi aquele choque nele. Ele falou assim: cara, ela está vendo em mim, uma figura masculina, que não deu atenção, por “n” motivos. Eu não julgo, cada um tem que estar onde está.

Luciano Pires: Uma menina de nove anos está tendo o pai como sem futuro?

Katia Carvalho: Como sem futuro. Então, o Jack me dá todo esse apoio. Ele disse: precisa isso, não sei o que lá. Esses dias eu fui lá buscar um tatame, taquei no carro dele. Então, ele entra nas minhas frias.

Luciano Pires: Mas você então, naquela época, quando você definiu que você ia fazer alguma coisa, você já tinha ideia de estruturar alguma coisa? Você está sozinha. Você fala: bom, para poder atender esse povo todo, não vou ser eu pedindo doação para três caras, botando no meu carro e levando lá. Eu vou ter que estruturar de alguma forma. Você já tinha uma visão de que…

Katia Carvalho: Não.

Luciano Pires: Do empreendedorismo. Que eu vou empreender alguma coisa ou não? Vou usar o meu tempo aqui para ajudar essas pessoas, como der?

Katia Carvalho: Não. Na época, eu já tinha muito aluno. Eu sempre tive muito aluno. Como era particular, de hora em hora, assim, por ano, eu devia ter uns 40 a 50 alunos. Então, eu comecei a fazer campanha. Pedia doação. Tanto que eu lotava o meu apartamento. No primeiro dia, eu tive que pegar da despensa da minha mãe. O primeiro dia, que esse casal estava lá embaixo, eu falei: não vou descer à toa. Aí já peguei leite da minha mãe, catei. A minha mãe só viu eu descer e falou: surtou. Está indo aonde? Eu disse: eu já volto. Aí eu catei da despensa da minha mãe para doar. Aí que eles viram: ah, então ela vai doar mesmo. Por isso que eu acho que eu era uma tábua para eles. Pior que está não fica. Aí eu comecei a divulgar entre alunos. Eles: ah não, é legal. Mas imagina, você não tem sede. Você não tem dinheiro. Porque a gente sempre foi duro, assim: vende o almoço para comprar a janta. Pessoas normais. Você não tem herança. Você não tem nada. Eu falei: ah, vamos doando. Então, eu acho que do dia que eu fui visitar, então eu já voltei no ônibus, com um monte de ideia. Vamos fazer negócio de apadrinhar. A pessoa pode doar alguma coisa. Pedir roupa. Pedir não sei o que. Eu guardo na minha casa e levo. Aí, dali a uns 60 dias, eu tinha 136 crianças na esquina.

Luciano Pires: Esperando por doação?

Katia Carvalho: É. Porque aí…

Luciano Pires: Como? Elas foram lá?

Katia Carvalho: Foram. Porque eu tinha… no dia que eu fui a primeira vez, que eu conversei com essa mãe, ela me apresentou mais um monte. Arranjaram caderno. Eu fui colocando mais criança. Eu falei: eu não sei o que eu arrecado. Não sei como vocês vão para lá. Então, eu tinha umas 60 crianças junto com essa mãe. Aí vieram mais. O que eu achei mais legal, que aí eu fiquei segura. Eu tinha um pouco de comida. Eu tinha roupa. Eu sabia que vinham, pelo menos, 60 crianças. Muitas crianças não vieram, veio a mãe com uma delas só. Tinha mãe que veio da Represa. Do Centro de Santo André para a Represa deve dar mais ou menos uma hora, uns 40 minutos. Andando, deve dar pelo menos, meio dia. A mãe veio a pé para pegar doação. Aí quando… aí essa mãe foi me apresentando: ela não está na lista, mas ela precisava de uma ajuda. Aí eles começam a contar a história: ah, meu marido foi embora. Eu faço faxina, ela vai comigo. Eu deixo ela sozinha em casa, ela tem quatro anos. Eu tenho hoje, criança de oito anos, que cozinha melhor que eu. Então, aí eu falei: vai ser mais fácil para mim conseguir doação, do que para eles virem de lá para cá. Então, se ele está tendo todo aquele esforço de sair da Represa, na garoa para vim buscar um litro de leite. Eu pedir para dois ou três alunos vir buscar no prédio, buscar nos vizinhos é fácil. Aí foi. Aí depois, foram uns 60, 70 dias, 136 crianças na esquina.

Luciano Pires: Paradinhas na esquina.

Katia Carvalho: Paradinhas na esquina. Sentadas.

Luciano Pires: Você está criando um problema social ali, né? Naquele momento, você está criando uma encrenca?

Katia Carvalho: É.

Luciano Pires: Porque 136 crianças ali. Tem que ir no banheiro. Tem que tomar água, tem que fazer xixi. E aquilo é um caos num lugar que não está acostumado com isso. Ou não está nem preparado para isso.

Katia Carvalho: E lembra que é um lugar de classe alta. Porque era uma rua do lado da prefeitura.

Luciano Pires: Sim.

Katia Carvalho: Então a gente foi expulso três vezes, de três esquinas.

Luciano Pires: Então…

Katia Carvalho: Isso porque a molecada, eles chegavam, então eu sempre conversava com as mães.

Luciano Pires: Você marcava horário? Quarta-feira, tal hora, estejam lá, que eu vou descer com as doações?

Katia Carvalho: É. Horário de almoço. Aí, é, meu filho já devia ter uns cinco anos. Porque eu descia pendurada com ele. Aí ele descia junto, ele sentava. Eu falava: as crianças vão sentar, por causa de atropelamento, confusão. Aí eu ficava conversando com as mães. E o que eu achei o máximo. Era para as mães virem tudo em cima: olha, eu preciso, eu quero… não. Tem um vídeo, que eu achei há pouco tempo na internet, de um dia. Eu tinha uma fita do Médico Sem Fronteiras. Tinha muita criança abaixo do peso. Então eu media. Eu tinha uma lista, eu via se elas tinham engordado, para prestar conta para quem tinha doado. Eu adoro uma tabela. Eu adoro uma lista. Toda essa parte de cadastro e lista é comigo. Então, eu tinha o nome da criança, a documentação dela, RG, autorização da mãe. Isso na esquina. E eu ia pesando, a cada quatro, cinco meses, para ver se ela tinha engordado. Porque aí entra esse lado. Aí eu tinha um aluno: olha, eu preciso leite, eu tenho tantas crianças. Eu tinha foto de cada um deles, com autorização de imagem. Eu tenho esse menino. Ele precisa de leite, ele não cresce. Esse aqui tem paralisia cerebral, não sei o que. Ele entrou, ele tinha, sei lá, 10 quilos, hoje ele já está com 14. Em três meses que a gente conseguiu lata de leite Ninho. Aí começou mais aluno a trazer. E lota. E brinquedo e roupa. E eu ficava mandando mensagem para todo mundo. Carta, e-mail, eu mandava para todo mundo. Um dia, eu mandei para um cabeleireiro de Santo André, que ele ia fazer uma ação social e que ele estava procurando uma entidade. Eu falei: lascou. Eu não tenho documento. Eu estou perto deles, é uma descida, ele estava numa praça lá em cima. Eu falei: ele não me conhece. Eu falei: mas eu vou tentar. Eu mandei um e-mail para ele, eu falei: eu atendo 136 crianças, eu não tenho documento. Aí eu já tinha sido expulsa da segunda esquina, não por bagunça de criança. Aí eles tinham… eles achavam que podia ter roubo ali. Mas as crianças nunca roubaram nada. Eu acho que a criança, não é porque ela é pobre que ela vai roubar. Eu acho que se ela não tem oportunidade, se está uma situação muito grave, mesmo assim ela não vai te roubar dinheiro. Ela vai roubar o que ela vai comer. Eu acho que rico rouba muito mais do que… as minhas nunca mexeram com nada, nunca roubaram nada. Aí esse cara veio falar comigo. Aí ele me ligou, ele falou: vem aqui no salão. Vamos fazer a ação na tua esquina. Eu falei: nossa. O meu marido falou: agora… imagina, uma esquina quase do outro lado da minha casa, do meu apartamento. Eu levava doação para a esquina num carrinho que eu tinha, do Luigi. Aí eu ia com ele pendurado. Gruda no carrinho, para a gente ficar levando. Então, eu já tinha nessa época, quase 100 quilos de arroz no meu apartamento. Então tinha dia que o meu marido… sacolinha de Natal, o meu marido achava um caminho para passar em casa. Ele: cara, daqui a pouco a gente não vai ter como entrar. Aí a gente atravessava a rua e levava a comida para o outro lado. Ninguém mexia. Aí a gente ia, mãe tal. Todas ganhavam igual. Aí esse cara veio cortar o cabelo. Ele falou: tal dia eu vou dar cobertor, salgadinho e refrigerante. Eu falei: beleza.

Luciano Pires: Ele cortou o cabelo da moçada?

Katia Carvalho: Cortar o cabelo. Aí avisei as mães. E assim, imagina, aquela época não tinha WhatsApp. Aí eu mandava mensagem para uma das mães, que eu ficava na janela, o porteiro ficava de olho, se passava uma das minhas, das nossas mães. Eu falava: espera. Eu corria. Ela avisava as comunidades. E só vinham as nossas, cadastradas. Não vinha assim, aquele monte. Não era bagunça. As crianças já sentavam, faziam perninha de índio encostadas no muro. Aí esse cabeleireiro veio ele. As meninas colocaram bancos, começaram a cortar o cabelo. Aí parou um marronzinho. Aí eu olhei para o meu filho e falei: agora a mãe vai presa. Eu falei: você atravessa a rua, dá a mão para alguém e chama o porteiro. Parou um marronzinho: o que vocês estão fazendo? Eu falei: ah… aí esse cabeleireiro: é uma ação social. Ela não tem sede, a gente está cortado o cabelo aqui. Aí ele falou assim: eu vou ajudar. Eu falei: beleza. Aí ele não fechou a rua, nada. Mas ele ficou não deixando que viesse muita gente. Aí desceu gente de prédio, já apareceu jornal.

Luciano Pires: Para entender o que está acontecendo aqui?

Katia Carvalho: O que está acontecendo. Aí eu falei: ou agora vai ser uma coisa legal, mais gente vai ajudar ou vai acontecer…

Luciano Pires: Isso foi final de semana, foi o quê?

Katia Carvalho: Não, durante a semana. Uma segunda-feira.

Luciano Pires: Um dia de semana? Um dia normal de trabalho?

Katia Carvalho: Uma segunda-feira. Aí a gente já foi para o jornal. Aí eu prestei conta com o cabeleireiro. Eu falei: doou isso, essas são as crianças. Tinha autorização de imagem. Aí virou meio a sensação, mais gente ajudando. Só que a gente não tem sede e não adianta…

Luciano Pires: Isso que eu ia perguntar a você: organização nenhuma para isso?

Katia Carvalho: Não.

Luciano Pires: Organização era o teu caderninho?

Katia Carvalho: É.

Luciano Pires: Era você e o seu caderninho?

Katia Carvalho: Eu e o meu caderno.

Luciano Pires: Evidentemente você ia precisar de mais ajuda. Precisar de mais gente, etc. e tal.

Katia Carvalho: É. Aí eu já fiquei família.

Luciano Pires: Quando é que você olhou para essa coisa e percebeu que estava tomando uma dimensão que talvez fosse influenciar a tua vida definitivamente?

Katia Carvalho: No dia que foi cortar o cabelo. No dia que eles cortaram o cabelo. Aí eu falei… porque começou a chegar muita gente para ajudar. Imagina, eu não tenho estrutura nenhuma, eu não sou assistente social. Eu não gosto disso, eu não trabalho com isso. A gente tenta ajudar. Mas a criança, tem que querer ajudar. E tem que pedir ajuda.

Luciano Pires: A pessoa chegava para você…

Katia Carvalho: Eu quero te ajudar. O que você está fazendo? Tanto que o primeiro vídeo, chegou esse voluntário. Hoje ele é nosso voluntário. Ele chegou e falou: o que vocês estão fazendo? Daí ele falou: cortando cabelo? Ele começou a filmar. É um dos vídeos mais legais que a gente tem, assim.

Luciano Pires: Está no Youtube?

Katia Carvalho: Está.

Luciano Pires: Aí você me dá o link.

 

Katia Carvalho: Eu te dou.

Luciano Pires: Eu botar no roteiro do programa para o pessoal ver.

Katia Carvalho: E ficou lindo assim, então tem o meu filho pequeno. Eu medindo. Aí já estava o repórter do Diário. Aí a gente contando. Eu falei: a gente não tem estrutura, a gente não tem sede, não tem nada. Mas dá para fazer. É isso que a gente fala muito. Na época eu não tinha estrutura. Não adianta eu só dar comida, porque ele vai criar aquele assistencialismo. Então, ele ganhou comida agora, ganhou amanhã, ele fez 17 anos, ele quer continuar ganhando. Então, mas eu não tinha para onde correr. Aí teve uma das… aí eu senti que o negócio ia crescer muito. E a gente tinha que tentar. Então eu tentei o prefeito da época: que ah, não tem nada, não tem terreno, não tem nada. Eu falei: ah, tá bom. Aí, numa das entregas na esquina – até estava chovendo – a roda do carrinho do meu filho quebrou no meio da rua, que eu levava comida. Passou um carro preto abaixou o vidro. Quando ele abaixou o vidro, eu falei: azedou. Aí ele falou: o que vocês estão fazendo? Eu falei: ah, a gente entrega comida a cada 15 dias. Eu já achei que ele morasse por ali, que era, né? Que ia achar que era bagunça. Pedir para a gente ir para outro lugar. A gente tinha sido expulso três vezes, de três lugares. Aí ele tirou um cartão, ele falou assim: você não tem ajuda nenhuma? Eu falei: é sempre a sociedade. Eu nunca sei quem ajuda. Eu tenho alunos, eu moro aqui – eu morava do lado – eu moro aqui. A cada 15 dias eu visito cada criança, eu cadastro, eu conheço cada família. Aí ele tirou o cartão e ele falou: me procura. Aí a hora que eu li, assim, eu falei: o que é isso? É agora. Ele não gosta de aparecer, né?

Luciano Pires: O que ele era?

Katia Carvalho: Ele é um empresário grande de Santo André. Aí eu falei assim… ele falou assim: leva teu projeto para mim. Eu falei: cara, eu não tenho um projeto. Aí meu marido: Katia, escreve o que você faz. Tem tantas crianças a cada 15 dias, eu atendo tantas, são tantos irmãos. Faz o que você gosta, uma tabela. Eu adoro uma tabela. Aí fui montando, são tantas crianças, não sei o quê. Aí eu liguei, eu marquei e fui. Ele falou assim: olha, eu vou pagar um aluguel para você. O que você precisa? Comida? Eu falei: não, eu consigo. Eu tenho que sair da rua. Porque até aquele momento, eu nunca tinha pensado: imagina se uma criança é atropelada ali? Eu estou ferrada. Assim, fora, eu ia morrer de… assim, a criança morreu por minha causa. Mas aí ele falou. Aí eu falei: eu preciso de uma sede, qualquer garagem, qualquer lugar. Porque no dia que ele veio eu estava na chuva. Todo mundo molhado, na chuva. As crianças na chuva. Assim, a gente lembra hoje e fala: cara, como era difícil. Na época eu não achava difícil. Eu achava fácil. Vamos. Aí também tem a esperança que daqui a 20 anos, falar: nossa, como era difícil em 2008. Aí ele meu deu, eu fui, aí eu montei um projeto supersimples. Ele falou assim: eu vou pedir para a minha advogada fazer teu estatuto, tua ata. Você precisa ter uma diretoria. Você não pode trabalhar na ilegalidade, senão você não vai conseguir doação de ninguém. Eu falei: mas eu não sei nem o que é uma ata. Ata do quê? Ele falou: não, a doutora vai trabalhar com você, marca e eu você procure uma sede. Você gaste…

Luciano Pires: Você tem que fundar uma entidade?

Katia Carvalho: Você tem que fundar.

Luciano Pires: Fundar uma entidade. E aí sim, você pode existir legalmente?

Katia Carvalho: Legalmente. Tanto que eu fico muito no pé para isso. Tudo a gente dá recibo. Doou, a criança está aqui. Isso que a gente acaba meio arrumando confusão com quem não é dessa maneira. Porque você doou um negócio para mim. Eu presto conta para você.  E eu vou entregar para aquela criança. Se a mãe jogou no lixo, se a criança não quer. Mas eu entreguei, eu prestei conta. Você viu que foi entregue. O que muitas vezes não acontece por aí. Aí a gente fez tudo legalmente, deu um super trabalho, que a gente não sabia. E achar gente para vim trabalhar com você. Ninguém quer, ninguém é maluco. Quem vai querer entrar? Porque você tem que ter Conselho Fiscal, presidente, secretário, tesoureiro. Quem vai querer entrar com alguém que é professora de inglês, tem filho pequeno. Pobre. Pobre assim, não tem… ah não, ela tem herança para bancar. Dinheiro para bancar. Quem vai entrar? Aí eu peguei aqueles voluntários que eram ponta firme, que estavam sempre e a gente fez a primeira eleição.

Luciano Pires: Você já tinha ideia do que você queria fazer? Se ia ser uma ONG? Se ia ser uma…

Katia Carvalho: Eu sempre tive medo de ONG. Eu nunca gostei do nome ONG. Então eu sempre quis instituto. Aí, qual era o sonho? Era que a criança não ficasse onde ela estava. Todas têm que ir para a escola. Então, desde… a gente começou na rua em 2002; 2001. 2002. Em 2007 para 2008 a gente foi para a sede, com toda a documentação.

Luciano Pires: Então, nesse momento da criação do Instituto, eu queria saber, que isso é interessante. Você acabou criando o Instituto do zero. Evidentemente que esse empresário que chegou, ele te deu o caminho das pedras. Está aqui a minha advogada. Ela vai te ajudar. Mas aí, você tinha que tirar do zero a criação do Instituto. E a gente sempre imagina que o Instituto tem que estar conectado com alguma entidade. É o instituto fulano. Não, você saiu com o Instituto que não estava ligado a nada?

Katia Carvalho: Nada. Nada religioso…

Luciano Pires: Como é que chamava o Instituto?

Katia Carvalho: Casa do Jardim.

Luciano Pires: Por quê?

Katia Carvalho: Um amigo deu esse nome. Aí ele sempre fala: ou ele vai me contar por que esse nome ou eu vou descobrir. E eu achei lindo. Aí tinha que ter um logo. Aí eu lembro, na época, eu fui procurar um pessoal que fazia logo, fazia desenho. Ah, é R$1.800,00. Eu falei: não. Eu falei: Luigi, vem cá. Desenha para mim o que é a Casa do Jardim. Ele fez o logo.

Luciano Pires: Luigi?

Katia Carvalho: Meu filho.

Luciano Pires: Teu filho mesmo fez?

Katia Carvalho: Fez. Ele fez o logo. Ficou bem legal. Aí, simples. Registramos, assim. Aí, esse empresário, ele ajudou. Que assim, ele pagava o nosso aluguel direto na imobiliária. E a gente corria atrás de tudo, alimentação. Então, as crianças vinham de segunda, quarta e sexta. A gente tinha um ônibus emprestado que trazia as crianças – até hoje traz as crianças – aí eles iam para a escola de manhã, chegavam à uma, almoçavam. Aí sempre foi esse esquema, desde aquela época. Então, segunda, quarta e sexta à tarde e sábado de manhã. Da uma às duas eles almoçam. Das duas às quatro é atividade. Então, atendimento psicológico, oficina de português. Então, tudo que a gente foi conseguindo.

Luciano Pires: Então, essas coisas você não tinha que ter licença para ter? Como que você pode dar atendimento psicológico, se você não é… você é o que, para dar atendimento psicológico?

Katia Carvalho: Então, quando você atende criança, você tem que se cadastrar ao CMDCA, Conselho Municipal da Criança e do Adolescente. Aí você entra com um projeto, toda documentação, contador, tudo direitinho. Aí, por exemplo, você pode dar aula de reforço escolar. Então você dá aula de oficina de português. Então, porque você tem que fortalecer a escola. Aí só que o problema – que é o problema até hoje – o voluntário, ele vem quando ele pode. Ele não está bem…

Luciano Pires: Isso que eu ia te perguntar. Você acabou tendo uma equipe, você teve uma sede e uma equipe, tudo voluntário?

Katia Carvalho: Tudo.

Luciano Pires: Nem a Dona Maria da limpeza…

Katia Carvalho: Tudo. Aí eu convoquei as mães. Então essas mães que estavam desde o começo da gente, do começo com a gente, elas sempre vinham ajudar, vinham na sede. Então vieram limpar. Eu preciso de duas e não tenho dinheiro. Vou dar cesta básica. Então eu sempre tive duas cozinheiras, uma moça para a limpeza. E a minha mãe cozinha muito. E a minha mãe é aquela mineira com turco. A criança não come salsicha. A criança não come chocolate à toa. Sabe? Mãe. Tanto que às vezes, vinha um voluntário super na boa vontade: eu queria fazer uma tarde de cachorro quente. Ela: impossível. A criança precisa comer coisa saudável. É frango. Não é frango frito. É frango assado ou é frango no molho. Tem que ter cenoura. Ah, mas eles não gostam. Vão começar a gostar. Então, um dia pudim, um dia gelatina, um dia é fruta, um dia é chocolate. Então aí eu falei: beleza. Minha mãe vai cuidar da alimentação. Tanto que eu falei que eu vinha, ela ficava assim: ai, conta a história do começo. Ela conta e chora. Eu não lembrava. É muita história. Ela ia no frigorifico – eu acho que é frigorifico que fala – no domingo, seis, sete da manhã comprar carcaça de frango. Então, as crianças comiam arroz com tudo que conseguia, milho… naquela época, o Banco de Alimentos de Santo André era muito bom. Naquela época ele era maravilhoso. Eu ganhava 700 quilos de banana. Assim, vinha um dinheiro não sei de onde, estado, não sei. Vinha para a prefeitura, para o Banco de Alimentos e eles compravam de pequenos sitiantes. Então você imagina, 700 quilos. A gente enchia os carros na terça e na quinta. Então era ovo, era cenoura assim, que acabou de sair da terra. Não era resto de mercado.

Luciano Pires: Vocês estavam cadastrados…

Katia Carvalho: Por causa da documentação e por causa do CMDCA.

Luciano Pires: Tinha várias outras entidades lá buscando?

Katia Carvalho: Todas. É.

Luciano Pires: Essa alimentação toda?

Katia Carvalho: Hoje eu não sei quantas são. Aí todo mundo buscava. Então, aí o difícil…

Luciano Pires: Quanto tempo durou isso? Nós estamos em quanto? Desde que você começou com aquelas crianças lá na calçada até você estar indo buscar comida nessa entidade lá? Quanto tempo levou isso aí? Um ano, dois anos, três anos?

Katia Carvalho: Não, menos, uns seis meses.

Luciano Pires: Em seis meses você estava com uma entidade montada e fazendo acontecer? Tá.

Katia Carvalho: E correndo o dia inteiro. Aí eu vi que eu não ia conseguir dar aula.

Luciano Pires: Essa era a próxima pergunta que eu ia fazer a você. Você está botando a tua mãe na jogada. Você está botando o teu filho na jogada…

Katia Carvalho: A minha irmã…

Luciano Pires: O teu marido na jogada. A tua irmã na jogada. Escuta, alguém tem que trabalhar. Alguém tem que…

Katia Carvalho: Meu marido. Meu marido. O meu santo marido.

Luciano Pires: É?

Katia Carvalho: Maravilhoso. A minha mãe era aposentada. O meu pai… tudo que eu ganho de medicação, passa pelo meu pai. Então ele fala: olha, você pode ter na Casa. Um remedinho para dor de cabeça, um para enjoo e coisas de curativo. Aí chegou doação. Ele mesmo separa. Esse você manda para tal lugar, que atende idoso, na-na-na. Vai ficar isso na Casa. Aí a minha irmã, ela começou a fazer Administração. Então, eu detesto essa parte de documento, pagar conta, não sei o que. Então isso, ela trabalha com isso. Agendar. Tem que buscar alguma coisa, toda essa parte é dela. Nessa época eu tinha as mães – até hoje – as mães. É que nesse começo a gente não tinha como pagar. Hoje eu dou ajuda de custo. Então eu tenho três mães que trabalham lá.

Luciano Pires: Quanto tempo depois? Hoje é quanto tempo depois disso? Quanto tempo faz?

Katia Carvalho: 2007, 11anos.

Luciano Pires: Sete? Então, 11 anos que você está nessa?

Katia Carvalho: 11 anos.

Luciano Pires: E lá em 2007, quando você começa essa loucura toda? Quando começa a envolver a família toda? Você parou um dia para olhar e falou: cara, eu estou mobilizando. Eu estou dando uma virada na minha vida. A minha vida está virando nesse momento aqui, na direção de um negócio que não vai me trazer sustento…

Katia Carvalho: Não.

Luciano Pires: Eu não vou ganhar um tostão com isso. Aliás, ninguém vai ganhar tostão com isso. Porque eu estou fazendo…

Katia Carvalho: Não deveria.

Luciano Pires: No teu caso, né? Não vou ganhar dinheiro. E eu estou dando a minha vida para essa coisa, sem ter em troca, no mínimo, o dinheiro que eu vou usar para comprar comida na minha casa. Esse dinheiro está vindo de outro lugar. Ou seja, você está se entregando a um voluntarismo com você e mais algumas pessoas, né? Você parou para avaliar isso? Em algum momento você falou: cara, eu vou mergulhar de cabeça e vou em frente. Porque é isso que eu quero fazer, ou: eu acho que eu tenho que ir mais devagar, por que tem um outro lado? Eu tenho… além desse amor todo aqui, eu tenho que dar o amor do outro lado? Além dessa energia, eu tenho que ter energia do outro lado? Você parou para pensar nisso?

Katia Carvalho: Não.

Luciano Pires: Ou você entrou de cabeça e falou: isso vai tomar conta da minha vida?

Katia Carvalho: Não. Eu vi que ia virar, assim, que não tinha como sair. Eu estava juntando… a gente estava juntando grana para levar o meu filho para a Disney – ele devia ter uns oito anos – a gente gastou na Casa do Jardim. Então, aí eu vi que não tinha volta. É algo apaixonante, assim. Quem vai lá, conhece as crianças, se vai mesmo, tipo: olha, eu quero conhecer. Eu acho legal esse trabalho. Eu quero ser voluntário. Quem vai de coração aberto não sai. Você não consegue sair. Então assim, tem criança, imagina: quem tem que te proteger? Teu pai e tua mãe. Aí acontece alguma coisa, você não tem o apoio desses dois. Você já não tem alimentação em casa direito. Não tem ninguém na tua casa que cuide de você. A tua casa está caindo aos pedaços. Eu tenho criança que chove mais dentro de casa do que fora. Ela não tem onde brincar. A escola é mal e mal. São 40 alunos, aquela bagunça. Então ela sabe: se você não sabe, você não repete de ano, você vai passando. De repente, aparece a Casa do Jardim para essa criança, na vida dela. Então ela chega…

Luciano Pires: Aparece de onde? De onde chega a Casa do Jardim para uma criança que está… você fala para mim: a mãe leva a criança. Eu consigo entender, tá? Uma mãe conta para a outra. De repente, uma criança dessas que está desassistida – e você nem falou na criança abusada, agredida, etc. e tal – como é que a Casa do Jardim aparece na vida de uma criança assim?

Katia Carvalho: Eu vivo muito em comunidade. Então… e sempre eu acho lindo na nossa molecada: é que um cuida do outro. Então, eu tenho a minha lista de espera, são 518 crianças. Eu tenho até que atualizar essa lista. Porque eu tenho criança que está na lista de espera já fez 17 anos e eu não consegui atender. Então eu tenho que tirar, porque pelo nosso estatuto é de 6 a 16 anos. Então, eu falo que acaba descobrindo, acaba chegando muita coisa em mim. Às vezes eu não quero nem… às vezes a pessoa vem falar alguma coisa para mim, eu não quero saber. Porque senão, eu vou entrar em mais uma história. Então vira e mexe vem criança: precisa cadastrar a minha vizinha. Porque aconteceu isso, isso e isso. Ela está em perigo. Você tem que trazer ela para cá. Eu tenho mães que dividem, que a cada 20 dias, se a mãe ou o pai trabalham e não vende, não troca por droga, a gente manda uma cesta básica com o que a gente tem: arroz, se eu tenho muito feijão. A gente monta. Cada criança, cada família ganha igual.

Luciano Pires: Como é que você monitora se não vende e troca por droga? Você tem olheiros? Você tem olheiros?

Katia Carvalho: Tenho olheiro para tudo quanto é lado. Tudo. Às vezes, me ligam meia noite. Tem um horário, é assim, chegou nessa fase, que eu tinha uma grana para viajar ou eu investia. Porque esse empresário ele falou assim: olha, eu fui pedir um terreno para o prefeito, ele foi irônico. Ele falou assim: você está cuidando, continua cuidando. Aí esse empresário me chamou e falou: olha, eu estou te atrapalhando.

Luciano Pires: O prefeito de Santo André?

Katia Carvalho: Não. O prefeito… o empresário é o empresário…

Luciano Pires: Não, esse que foi irônico. Era o prefeito de Santo lá da cidade?

Katia Carvalho: Era.

Luciano Pires: Certo. Eu não vou pedir para você falar o nome dele não.

Katia Carvalho: É.

Luciano Pires: Fica tranquila.

Katia Carvalho: Era de lá.

Luciano Pires: Mas era o típico representante. Que era o lado que eu queria começar a conversar com você, a hora que você terminar essa coisa que você falou. Quer dizer, ele foi irônico?

Katia Carvalho: É. Falou assim: você está cuidando, cuida, é tua. Ele falou: não é minha. Eu só pago o aluguel. Eu não sei nem…e eu sempre prestei conta para esse empresário. Eu estou com tantas crianças. Então, a gente ganhou prêmio e tal, social. Eu levei lá. A gente ganhou prêmio. Eu ganhei prêmio Madre Tereza. Essa criança era assim, agora ela está melhor. Essa está indo para trabalho. Essa… eu fui… sempre prestei conta para ele, até hoje. Ele não paga mais o nosso aluguel. Mas ele não existe. Eu acho que se não fosse ele, eu estava na rua até hoje. Eu pedi sempre, para todos os políticos. Eu não acredito neles. Eles não são nem pessoas. Eu considero o político um ser. Ele não tem coração. Nunca conheci um que tivesse. Eu respeito mais um criminoso do que um político. Assim, pode até me causar problema falar isso. Mas eu não sei em que categoria entra um político. Você vê uma entidade… a gente vive hoje com R$18.000,00, quando a gente consegue os 18 mil. Então, tem mês que eu pago água. As meninas, a minha irmã, do escritório, eu confio muito nela. Ela avisa: esse mês não dá para pagar internet. Porque eu tenho que ter internet para encaminhar para Jovem Aprendiz. Então elas monitoram: não tem, tem que fazer galinhada, tem que fazer feijoada beneficente. Como…

Luciano Pires: De onde vem esse dinheiro? É disso? É da galinhada?

Katia Carvalho: É. Às vezes, eu ganho brinquedo. Assim: às vezes chega uma bicicleta.

Luciano Pires: Você vende a bicicleta?

Katia Carvalho: Eu não posso dar. São 90 crianças. Vem um patinete super legal, se eu dou para uma criança, a outra vem: ah tá. Aí eu falei: gente, então tem que ser igual para todo mundo. Aí às vezes, vem roupa de marca. Se eu der para uma mãe – dependendo da mãe – ela vai trocar. E o que as pessoas não entendem até hoje: não adianta. Por mês eu gasto uma tonelada de comida. Para segunda, quarta e sexta, dá 12, 16 dias por mês. É uma tonelada e meia. Só à tarde são 300 pães. E não é pão à toa. É pão doce, pão recheado, pão com frios. É uma peça de presunto ou queijo, por tarde, 12 litros de leite. Então, eu sempre ganho muita comida. Às vezes, eu não sei nem de onde está aparecendo. A nossa despensa é sempre lotada para mandar para casa e para eles comerem lá. O que a pessoa não entende: se eu não tenho dinheiro, não adianta eu ter um depósito lotado. Eu vou para a rua. A gente já sofreu ação de despejo. Aí apareceu uma empresa que queria pagar. Eu falei: vai na imobiliária, paga lá. Não passe esse dinheiro pela gente. Vai lá, paga, pega o seu recibo.

Luciano Pires: Você sofreu ação de despejo por quê? Por falta de pagamento de aluguel?

Katia Carvalho: Por falta de pagar aluguel.

Luciano Pires: É?

Katia Carvalho: É. Aí apareceu…

Luciano Pires: Como é que uma comunidade tão boa assim… porque você está me dando um panorama que é o seguinte: essas mães são muito legais. Elas estão dispostas a ajudar. Elas se sacrificam. Elas andam de montão para ganhar um litro de leite. Depois elas vão lá, elas te ajudam. Elas fazem. Essas mães são… tem uma comunidade muito legal. Do outro lado, tem uma outra comunidade que é aquela que te dá doação, que te enche de alimento, etc. e tal, que tem gente para ajudar, você tem voluntários que te ajudam. Talvez não tenha tantos quanto tinha que ter, mas tem uma quantidade. Tem uma comunidade boa. Como é que essa comunidade boa gera esses políticos bandidos?

Katia Carvalho: Eu não sei, eu não sei.

Luciano Pires: Insensíveis?

Katia Carvalho: Eu não sei. Eles acreditam, assim, eles caem nessas histórias. A gente passou por quatro prefeituras. O meu marido fala que eu sou uma mulher que briga com os prefeitos. Você vê que não é investido em educação. Se a criança…  A gente conta… ontem a gente foi num evento buscar doação de… era gincana. A gente ganhou bastante coisa.

Luciano Pires: Esses caras não estão preocupados de você estar usando isso para teu benefício próprio?

Katia Carvalho: Não. Eles já tentaram de tudo. Em quatro gestões, entre ameaça de morte, ameaça de falar que a gente não tem documentação. A gente ganhou um terreno. Roubaram esse terreno da gente e deram para uma entidade enorme. Não entidade beneficente. Você tem que ir na imprensa. Enquanto é ameaça de morte é uma coisa. Porque eu acho que quem ameaça não vai te matar. Se eu quero te matar, eu vou lá…

Luciano Pires: Mas por que alguém vai querer te matar?

Katia Carvalho: Porque a gente falava muito. A gente parou de falar há uns dois anos.

Luciano Pires: Mas você falava o quê? Você reclamava? Você metia a boca? Você acusava? O que você fazia?

Katia Carvalho: A gente nunca brigou por dinheiro. Jamais. Na época, eu te falei, a gente ganhava muita comida do Banco de Alimentos. O outro prefeito, ele tirou. Aí as entidades começaram a ganhar lixo, resto de mercado. E ninguém fala.

Luciano Pires: Esse Banco acabou? Esse Banco de Alimentos que tinha lá, que era fantástico, um belo dia acabou?

Katia Carvalho: Acabou.

Luciano Pires: E por que…

Katia Carvalho: A gente recebeu um bilhete, era – eu acho – 06 de setembro, avisando que não ia ter mais a doação do Banco de Alimentos.

Luciano Pires: Quer dizer, todas as entidades que se abasteciam lá, dia para a noite…

Katia Carvalho: Recebeu bilhete. Aí eu falei: eu não entendi. Eu falei: é doação, como que vai acabar? E era eleição…

Luciano Pires: Só um segundo. Gente, você que está ouvindo a gente aqui. Eu só vou te dar uma dica. Porque eu estou vendo ela na minha frente aqui, você não está vendo, tá? Então, ela titubeia. Ela olha para o outro lado, para ver onde está a assistente dela lá, dando umas dicas assim: não fala, não fala, não fala. Ela assumiu o compromisso de não falar nomes aqui.

Katia Carvalho: É.

Luciano Pires: Então ela está cheia de dedos. Porque é para não arrumar uma confusão maior do que ela já deve ter no dia a dia. Então, essas gaguejadas que ela dá aqui não é uma dificuldade de falar não. É na hora que… ela dá uma encrencada e continua. Mas vamos nessa batidinha, que está indo. Está indo bem. Deixa eu te provocar um pouco mais aqui. Provocar um pouco mais aqui. Deve ter um monte de entidades na mesma praia que a sua – não vou dizer iguais à sua – na mesma praia que a sua. Algumas dessas entidades se aproveitam disso para pegar o dinheiro e vai levar o filho para a Disney, ok? E você está lá, é mais uma. Está na hora do evento, todas as entidades lá, você é mais uma na praia, você está lá. E aí eu imagino que isso seja um impeditivo. Que alguém olha de fora e fala: meu, o que essa mulher está querendo com esse negócio aí? Eu não acredito que alguém possa fazer isso tudo porque tem um bom coração. Por que isso aí? Ou é uma doença. Ou ela é doente, ela tem aquele problema, o pessoal falava do altruísmo – que a Ayn Rand falava muito disso aí – o altruísmo como uma ferramenta para você se sentir bem. Eu sou altruísta, porque ajudar você faz com que eu me sinta bem, com que eu me sinta superior, com que eu apareça bem para a sociedade, com que todo mundo me olhe com bons olhos, etc. e tal. Só por isso eu sou altruísta, ou seja, eu estou ajudando você porque isso faz muito bem para mim. O que, de certa forma, chega a ser até uma doença. É até doentio, né? E tem gente que não, que é altruísta porque fala: cara, eu consigo me colocar no lugar dessa pessoa. E ela está sofrendo tanto que eu consigo perceber o que ela tem e eu quero ajudá-la a sair dessa. E é muito difícil encontrar gente assim. Então as pessoas olham e falam: pô, ela só está nessa…

Katia Carvalho: Porque quer alguma coisa.

Luciano Pires: Ela está desviando. Botou a família inteira lá. É a irmã que cuida, é a irmã que faz, é o marido. Pô meu, isso é uma panelinha da família, que está usando para ganhar dinheiro. Está fazendo a vida dela em cima das coitadas das crianças, né?

Katia Carvalho: É. Aparecendo em foto. É.

Luciano Pires: Você já escutou isso?

Katia Carvalho: Assim, o que eu escuto muito: lá vem Casa do Jardim. Porque como a gente sempre – eu não diria arrumou confusão – na época desse Banco de Alimentos, que de uma hora para outra não tinha mais doação. Ninguém fala. Igual eu te falei: a gente não briga por dinheiro. A gente paga uma conta, não paga outra. Aí você de repente recebe um bilhete: não vai ter mais Banco de Alimentos. Eu liguei para algumas entidades. Ninguém vai arrumar confusão. Cada uma tem seu motivo. Mas eu preciso dos 700 quilos de comida. As minhas crianças engordaram muito. Como eu te falei: a gente pesa, mede, tudo direitinho. De repente, eu não tinha. Aí eu liguei para uma amiga jornalista e falei: olha, eu recebi um bilhete assim, assim, assim, que não vai ter mais Banco. Ela: epa, como assim? Isso é uma verba que vem não sei de onde. Eu detesto política. Eu detesto esses negócios. O que eu sei é que tinha essa verba. Eu não sei o que aconteceu. Aí ela falou assim: olha, eu vou investigar na segunda. Era feriado, 07 de setembro. Na segunda eu te ligo. Aí ela investigou que – não sei o que aconteceu – o prefeito cortou. Eu não sei o que aconteceu com o dinheiro. Mas não me interessa. E não ia ter mais. A gente ia ganhar resto de mercado. Então vai vencer amanhã. Resto de fruta. O que não é justo com as minhas crianças. Se tem esse dinheiro, corta de outra coisa. Corta não sei o quê. Corta carro. Aí não vai vir. Aí, o que eu fiquei mais chateada, aí que entra de a gente… as pessoas – algumas pessoas – não gostarem muito da Casa do Jardim. Aí a moça me ligou. Ela falou assim: olha, eu liguei para várias entidades, ninguém vai falar. Se você não falar, não tem matéria. Eu falei: cara… aí, eu não estou brigando. Eu não quero dinheiro. Eu quero a minha comida. A comida das crianças, né? Aí ela… aí eu fiquei pensando, aí eu falei para o meu marido. O meu marido: pensa. Faz de um jeito… que vai sair uma nota pequena no jornal. Beleza. Daí liguei para a moça. A Adriana está se matando de rir. Aí eu liguei para a jornalista, ela veio. Aí eu falei o que tinha acontecido, ela leu o bilhete que eu recebi. Eu falei: é muito importante essa comida para a gente, porque eu não tenho dinheiro. Hoje a gente gasta uns R$700,00 de feira. Porque a criança tem que ter verdura, legume. Você tem que comer. A nutricionista fica muito no pé da gente. Você tem que comer saudável. Carne, eu gasto R$1.400,00 a cada 20 dias. E fazia muita falta, né? Então eu não estava brigando por dinheiro. Eu sempre falei isso: eu não vou brigar por dinheiro. Nunca, até hoje, a gente brigou por dinheiro. Aí eu falei: vem que eu dou a entrevista. Eu dei a entrevista e aí eu falei: ah, deve sair coisa pequena, né? Aí eu lembro, era uma terça-feira. Eu ia levar o meu filho para jogar bola. Aí, ele devia ter uns 8 anos. Aí tem uma banca do lado do lugar que ele joga lá. Aí ele olhou assim e falou: mãe, dessa vez você vai morrer. Eu falei: como assim, Luigi? Olha o que saiu. Falava assim: prefeitura corta comida de entidade beneficente. Eu falei: seu pai vai me matar. Se eu escapar do prefeito, o teu pai me mata. Aí comprei o jornal, eu falei: cara, olha o tamanho disso. Aí a gente ficou batendo boca com prefeitura, eu acho que um mês.

Luciano Pires: Foram para cima de você?

Katia Carvalho: Foram. Vieram para cima. Aí, a partir dessa época, o meu filho foi blindado. Então, eu conversei na escola. Eu levava, buscava. Ele não saía sem mim.

Luciano Pires: Por quê? Por ameaça?

Katia Carvalho: É. Quando você mexe com o dinheiro dos outros, por exemplo, você espancou teu filho. Você não vai vim me matar. Não vai. Você vai me xingar, me processar, se eu denunciei. Eu pego o teu dinheiro, aí você vem me matar. Quando você coloca dinheiro nisso. Mas também eu acredito que se a pessoa te ameaça, ela não vai vim te matar. Eu quero te matar, eu vou. Eu não vou ficar te ameaçando. Ah, eu ameacei, não sei que lá. Aí nenhuma entidade falou alguma coisa. Eu fiquei muito magoada com uma entidade na época. Eu liguei antes de sair a matéria, para ver se essa entidade falava também. Eu falei: vocês também precisam da entidade. Aí o chefe lá da entidade falou assim: eu prefiro ganhar 360 mil por semestre, do que 20, 30 quilos de banana. Aí eu vi que a gente estava sozinho. Aí eu falei: vamos pôr a matéria. Aí a repórter ligou: ele falou que está tudo normal. E não estava. Aí repórter ligava: eu preciso ir lá na comunidade. Eu falei: vamos, eu te levo. Ela falou: não, eu quero ir sozinha. Me dá o endereço. Então, eu dei o endereço. Ela ia na hora. Então, foi nas casas das crianças. Então assim, então tem foto no jornal, os armários vazios. Então, criança pedindo banana. Aí naquela confusão de ter e não tem, não tem. Viram que não ia ter mais mesmo, aí o Banco ia voltar dando o que sobrasse de mercado. O que não ia vender. Aí eu ganhei um saco de sal. A gente foi com dois carros, eu ganhei um saco de sal. Aí eu falei: tá bom. Aí a gente começou a fazer bazar para comprar. Mas nunca fazer…

Luciano Pires: Sabendo que não vinha mais de lá, você começou a se virar?

Katia Carvalho: É.

Luciano Pires: A prefeitura chamou para conversar? Vem aqui, vamos ter uma reunião com a secretaria de…

Katia Carvalho: Chamou todo mundo. Todas as entidades. Aí no dia da reunião foi o máximo. Aí que eu fiquei esperta. Todas as entidades, a primeira-dama falando que estava tudo normal, não sei o quê. Aí tinha um senhor de pé aqui e dois atrás de mim. Eu falei: gente, você acha que eu vou fazer o que, aqui dentro?

Luciano Pires: Cercando você ali?

Katia Carvalho: É. Um do lado e dois atrás.

Luciano Pires: Quer dizer, ostensivamente te ameaçando ali? Só com a presença deles, você já se sabia que tinha alguma coisa…

Katia Carvalho: É. O dia que eu tiver medo de homem, eu ligo para ele. Quer dizer, está errado. A gente cansa. Eu não vou lá brigar: olha, eu fiz um projeto de 100 mil, não me pagou. Não. Eu não quero o dinheiro deles. Eu quero a comida. Ah, mas não veio. A prefeitura está quebrada. Problema seu. Não vire prefeito. Por isso que a gente não acredita. Aí esse foi o segundo. O primeiro não tinha terreno. E dava terreno para todo mundo. O segundo cortou nossa comida. Aí o terceiro… aí, a gente sempre teve muita doação. A gente conhece todo mundo. Aí, o que a gente decidiu desde aquela época? A Casa do Jardim é transparente. Você doou R$10,00, eu te dou recibo. Tem lugar que você: ah, depois eu te dou recibo. Você tem que dar o recibo na hora. O recibo que eu te dou, você doou R$10,00. Vai para o meu contador. Está lá. A Katia ganhou, a Casa do Jardim ganhou R$10,00. Está aqui. Ela gastou para isso, isso e isso. Vai para o balanço patrimonial, balanço não sei o que lá. Tem lugar que você doa, não sei o que, ninguém te dá recibo. A gente bate muito no pé. Peça recibo. Mas é R$10,00. Não interessa. Tem que pedir recibo. Ah, a gente conseguiu, no inverno agora, a gente conseguiu doação de um edredom para cada criança. Eu tirei foto com cada criança com seu edredom. Mandei para a pessoa que doou. Maravilhoso. Ele passou uma situação superdifícil. Isso que eu acho, vem muita tranqueira na Casa do Jardim. Vem muita gente querer explorar, com golpes, sacanear a gente. Mas vem muita gente maravilhosa. Esse ele é um escritor. Ele é maravilhoso, assim, não quer nada em troca. Ele escreveu um livro da vida dele. Ele passou uma situação dificílima. Eu não sei como ele achou a gente. Então aí, a gente pega muito no pé. Traz advogado para conversar com as crianças, médico. Aí esse amigo nosso veio. Ele contou tudo que ele passou. Então você vê criança se emocionando com ele. A criança fala: eu vou conseguir também. Aí voltando, aí ele doou um edredom para cada um. Ele falou: Katia, não precisa. Eu falei: você tem que ver a cara da molecada com o edredom. Porque eles só ganham coisa velha, coisa rasgada, que ninguém quer: ah, eu vou trocar meu edredom, comprei um novo, vou dar o velho. Se tivesse bom, você não dava. Então, quando a criança ganha aquele edredom fofinho, precisa ver a cara deles. Eu coloquei nome em cada sacola, para não perder, direitinho. É isso que tem que fazer, entende? E tem entidade – não falando mal de entidade – tem lugares que você doa e vai tudo para o porão. Você não sabe. Peça… hoje a gente está na Casa do Jardim. Daqui a 20, 30 anos, a gente não vai estar lá. Se você acostumar lá, eu trouxe isso. Eu trouxe um bolo para o lanche das crianças: não pode entrar. Não pode ter mais nada. Não pode… eu queria entregar essa boneca, porque a minha filha ganhou. Eu queria entregar para uma criança que não está bem hoje. Não, não pode. Tem coisa errada. Então, a gente tenta entregar tudo igual, para todo mundo. Mas venham conhecer. Vai doar? Vê para onde vai. Doou comida? A gente manda foto, manda o recibo. Tem que ser assim,

Luciano Pires: Essas crianças são de uma escola tradicional? Normal? De manhã?

Katia Carvalho: De manhã.

Luciano Pires: E à tarde elas estão com vocês, ali?

Katia Carvalho: Isso, eles saem segunda, quarta e sexta e sábado de manhã.

Luciano Pires: Segunda, quarta e sexta e sábado de manhã. A mesma turma? São as mesmas crianças?

Katia Carvalho: Não. Quem vai na escola de manhã vem à tarde. E quem vai na escola à tarde, vem sábado cedo. E eu tento colocar quem é mais… situação mais grave na semana. Aí eu converso na escola, se dá para inverter o horário, para que a criança venha segunda, quarta e sexta.

Luciano Pires: Qual é a tua… o teu foco aí? O que é? É engordar essas crianças para que tenham mais saúde. É educa-las? Qual é o teu foco? O que é o principal ali?

Katia Carvalho: Então, o que a gente quer?

Luciano Pires: O que acontece na Casa?

Katia Carvalho: A criança tem que sair de lá com uma profissão. Com uma profissão assim, não adianta você ficar nesse assistencialismo: ah, ela ganhou sacolinha de Natal, ela ganhou comida, ela foi para casa. Se você não der uma educação para ela. Assim, a gente não dá reforço, nada disso. Mas a gente consegue curso. Consegue um monte… e ela tem que ter na cabeça dela, que ela tem que sair dali um empreendedor. Ela tem que ter a ideia dela. A gente teve curso de barbearia, jiu-jitsu. Vai ter curso de desenho do Ivan Querino. Vai ter muita coisa. Ela pode sair dali… a gente conseguiu um curso que começa no dia 02 de setembro, para fazer vídeo game. Fazer…

Luciano Pires: Programação?

Katia Carvalho: Programação de game. Photoshop. Então, quando eu cadastro, a mãe, ela é obrigada a deixar o filho ir no curso. Eu não estou dando curso à noite, nem de madrugada. O curso é no horário que a criança vem. O ônibus emprestado. As crianças almoçam. O ônibus leva. A Adriana vai junto.

Luciano Pires: Quem paga o combustível desse ônibus?

Katia Carvalho: É tudo doado.

Luciano Pires: Legal.

Katia Carvalho: A gente ganhou uma doação.

Luciano Pires: Aí essa criança vai, vê a aula de game, que é aquela coisa maravilhosa. Puta, chega em casa feliz da vida e é abusada por alguém da família?

Katia Carvalho: Ela me conta.

Luciano Pires: Isso aí que eu queria te perguntar. Esse outro lado, que é esse suporte psicológico, social, etc. e tal, que vai além da questão da educação e da alimentação da criança? Como é que funciona isso? Você não é psicóloga…

Katia Carvalho: Não, fui convidada a sair de lá.

Luciano Pires: Psicóloga clínica, etc. e tal. Como é que funciona isso?

Katia Carvalho: É aí que entra o porque eu não saio da Casa do Jardim. Quando o ônibus chega, a criança, ela não sai correndo para o refeitório. Ela vem te abraçar. Imagina, você tem tua mãe e teu pai. Ou o pai vai embora… por algum motivo, aquilo não é uma família. Eu tenho muitas crianças que têm famílias legais, estão por um outro motivo ali. Mas eu tenho crianças que eu a não sei como ela vive. Eu não entendo. Assim, essa menina que veio conversar com o meu marido, que eu falei do sem futuro. Ela é meu exemplo. Então, com cinco anos, ela veio a pé para a Casa do Jardim. Ela andou numa avenida movimentadíssima, deve ter uns três quilômetros, eu acho, até a Casa do Jardim, da comunidade até lá. Ela veio sozinha. Não tinha ninguém para trazer.

Luciano Pires: Ela bateu lá e falou: alô?

Katia Carvalho: E veio. Ela quer – se não me engano – ela fala que ela quer ser presidente da Casa do Jardim. Então ela faz… ela se esforça na escola, ela cozinha. Pegou fogo no barraco dela, ela que salvou todo mundo. Eu fui visitar a comunidade o ano passado, eu andando para cima e para baixo. Aí só escuto assim: oxe, virou favelada? Eu olho, ela lá embaixo. Ela veio me visitar e não veio na minha casa. Aí você entra na casa delas e fala: o que é isso? Ela não tem uma cama. E o que tem de… que parece uma cama, está com cheiro de xixi. Não tem cozinha. Você não tem comida. Ela tem que lavar a louça. Ela que tem que cuidar dos irmãos. A mãe está dormindo. Então, quando a criança vem para a Casa do Jardim, ela sabe que eu posso conversar com essa, com essa. Se tem qualquer problema, ela vai. Porque a gente tenta resolver. Então, a primeira coisa que ela não tem – que muitas não têm – é atenção. Então, por “n” motivos. De maneira alguma eu estou dizendo que a mãe é negligente, a mãe é ruim, não sei o quê. Mas ela não… é diferente da gente: ah, foi bem na escola? E aí, tudo bem? Tá bom? Comeu? Tem criança que vai chegar em casa…

Luciano Pires: E a sinergia da mãe, por mais que ela tenha boa vontade, ela está – deve estar – no mínimo de sobrevivência possível.

Katia Carvalho: É. Tem criança que chega em casa seis horas, seis, seis e meia, que é a hora que eles saem da Casa do Jardim, até chegar na casa delas, ela tem que pular a janela. Porque a mãe está loucona, caída, no crack. Então aí, ela vai esquentar comida. Então, como eu sei cada criança, então a gente ganhou uma doação de pão. Vai, prioridade, é essa molecada.

Luciano Pires: Esse teu trabalho se estende para a mãe dessa menina, dessa criança?

Katia Carvalho: Também. Então, a gente tenta empregar a mãe na cozinha. Todo o atendimento psicológico. Sempre que aparece algum trabalho a gente divulga. A gente fez um grupo de mães. Mas tem mãe que não quer. Por algum motivo. Mas a mãe, a gente ajuda, na medida do possível. O nosso foco é a criança. Se eu não colocar na cabeça daquela criança… tanto que a gente expulsa criança. Tem criança que não está a fim. Aí vem e só quer bagunçar. Cara, não é isso. Você vai ter informática, você tem dança, roda de leitura, tem meditação, tem yoga, tem a psicóloga, tem Reiki, tem tudo que você imaginar. Vai ter curso de desenho. Fora toda essa parte de recreação, que eu detesto, que eu acho que a criança não tem nada que ficar recreando. Vem gente: ah, eu quero fazer recreação. Vai fazer recreação para o teu filho. O teu filho está estudando, por que você quer que o meu vá ficar brincando? A nossa molecada tem que estudar. Então, a gente fortalece a escola. Então a criança, ela já entra, a gente cadastra: chapa, é isso, isso e isso. Você vai chegar. Eu tenho criança que chega cinza. Porque ela só comia fubá e água. Então, na primeira semana, ela come feito uma doida. Seis pãezinhos, quatro, cinco pratos. Aí depois, ela vai acalmando: opa, aqui eu vou ter comida segunda, quarta, sexta e sábado. Então, quem vai na escola de manhã vem à tarde, quem está à tarde vem sábado. Aí, só que tem os passeios, tem festa. A gente sempre acha. Teatro. A gente foi ver o ensaio da Orquestra Sinfônica. A gente tem muito lugar para levar. Só que ele vai fazer informática. Não gosto. Problema seu se você não gosta. Você precisa saber o que é uma informática. Vai mexer no computador? Vamos jogar? Não vai jogar. Até as nossas de cinco, de seis anos, já estão tentando escrever palavrinha, nome. Porque se a gente não colocar na cabeça dela… vai ter esse curso que a gente conseguiu de fazer vídeo game lá. Eu mandei um bilhete para as mães autorizarem. Tudo é com autorização. A gente tem parceria com a doutora Shirley da OAB, maravilhosa.

Luciano Pires: Como é que você consegue um curso desses? Algum professor procura vocês e fala: escuta, eu tenho…

Katia Carvalho: Na verdade, a gente é meio chavequeira. Então vem… a gente fez uma campanha de alimento por causa de um curso, não sei o que lá. Aí eu já mando. Se é uma pessoa que só vem entregar, na-na-na, passa direto pela Andréia. A Andréia mostra a Casa, faz recibo, agradece, conhece e vai embora. Se eu vejo que é escola, eu já passo com a Adriana, que é mais chavequeira que eu. Porque eu tenho muitos meninos que desenham muito. Eles só precisam de uma chance. Aí tinha um deles. Ele desenha pra caramba. Aí, ele já tentou um curso nessa escola, mas era mil e cacetada. Ninguém tem dinheiro para isso. Aí essa escola veio trazer uma doação, que eles fizeram lá uma arrecadação de comida. Aí eu já avisei a Adriana. Eu falei: olha, se conseguir nem que for uma oficina, aí eles vão ver que tal e tal menino desenham…

Luciano Pires: Então a escola vem e faz com você essa…

Katia Carvalho: Eles vieram trazer uma doação. Aí eu já passei a Adriana para eles. Eles tiraram foto do que foi entregue, conheceram as crianças. Aí eu acho que uns 10 dias depois, o Bernardo ligou: olha, eu vou dar uma oficina para 30 meninos, 30 adolescentes seus.

Luciano Pires: Que legal.

Katia Carvalho: Aí eu já fiz autorização. Eles só saem com autorização de mãe. Para tudo tem que ter autorização. Aí eu fiz autorização. Mas eu já avisei a sala. Eu falei: não é se você quer ou não. É você vai. Eu não tenho a possibilidade de dar um curso desses para o meu filho. A maioria das voluntárias aqui dentro não tem. Você vai ganhar um curso caríssimo. Se ele vê que você tem jeito, você vai continuar lá.

Luciano Pires: Sim. Isso pode mudar a vida completamente.

Katia Carvalho: Tem um nosso, ele está com a gente desde os 6 anos. Ele é muito quieto. Nunca me deu trabalho. Eu já averiguei tudo, para ver se tinha alguma coisa, para ele ser muito quieto. Não. Eu falei: eu acho que é o jeito dele. O sonho é ser professor de inglês. E a gente tem parceria com a YES. Eles têm intercambio com o mundo inteiro. Eles ficam sete, oito semanas com a gente. Então eu já falo: Caio, gruda na intercambista. Ele fica o tempo inteiro. Aí tem uma escolinha de inglês do outro lado da rua. A Adriana foi lá, já conseguiu curso. Conseguiu assim: a gente levou – ela levou – o Caio para conhecer. Eles gostaram, viram que ele leva a sério. Eles deram o curso até ele se formar professor.

Luciano Pires: Puta esforço. Puta esforço, cara. Que loucura. Para ajudar 90 crianças.

Katia Carvalho: É.

Luciano Pires: 90 crianças. Passou pela sua cabeça que você como vereadora pode ajudar…

Katia Carvalho: Deus me livre. Não.

Luciano Pires: 9 mil crianças?

Katia Carvalho: Não.

Luciano Pires: 90 mil crianças?

Katia Carvalho: Não. É um ser que eu não sei quem é. Esses… não. Eu não sei o que acontece lá. Mas nenhum tem interesse. Nenhum. Eu já passei por todos. Eu já pedi para todos. Nenhum.

Luciano Pires: Que, olha a dimensão do que você está falando aqui, nesse pequeno estúdio que nós estamos aqui. Nós estamos todos focados na eleição de um presidente da República, na discussão de uma câmara de deputados, de um senado, que estão lá no fim do mundo, a milhares de quilômetros daqui, em Brasília e nós estamos discutindo aqui a situação numa cidade pequena. Vai, não é pequena. Mas é pequena, vai. É uma cidade pequena, onde os vereadores, normalmente as pessoas conhecem quem são. Sabe quem é o prefeito. É tudo gente conhecida. E você está pior com eles, do que deve estar com o senador e com o deputado, que está longe e que, talvez, você não consiga sentir tão proximamente esse desprezo. Essa falta de interesse.

Katia Carvalho: Não. O meu desprezo vai longe. O meu desprezo atinge tudo. Nenhum. Ninguém vai te ajudar. O dia que um vier, como voluntário na Casa, ficar três meses, sem dar nome, sem falar quem ele é, carregando. A gente carrega. Chega comida, a gente carrega. Você faz tudo na Casa. Ajudando a limpar. Ajudando a pintar. Passando atividade. Levando, buscando doação. Visitando comunidade. O dia que um deles ficar o dia inteiro lá, um mês lá dentro com a gente, sem aparecer, sem tirar uma foto, eu acho que eu posso até ter esperança de novo. Mas não tenho. Eu tive um terreno. A gente tem muito voluntário. Eu acho que eu posso falar. O Lyons sempre foi parceiro nosso, um Lyons super pequenininho de Santo André. Eram 20 senhores, 10 casais. E eles tinham um terreno que eles queriam doar para a gente. Tinha uma casa nesse terreno, com escorpião, suja, imunda, terreno, mato alto. Aí o presidente, uma graça. Até ele ficou muito doente depois que deu tudo errado. A esperança – o que ele queria? – porque esse terreno era na frente da comunidade. Essa menininha que andou três quilômetros a pé, sozinha, ela atravessa a rua, ela está lá dentro. Naquela comunidade, eu devo ter uma lista de espera com umas 200 crianças. O terreno era do outro lado. Era gigante. Eu acho que 15 mil metros. Aí era comodato do Lyons. O Lyons devolveu para a prefeitura. A prefeitura passou para a Casa do Jardim e virou lei. E essa lei foi revogada quando descobriram que vali 19 milhões. Você vai acreditar em alguém depois disso? Isso que a gente atende de graça. Eu falei para o prefeito: eu não quero um centavo. Eu quero um terreno. Eu quero uma casa. A gente paga três paus e meio de aluguel. Então, a gente vai pagar dia 25. Você acabou de pagar. A gente fez galinhada. Deu R$1.972,00. Ainda falta para pagar o aluguel. Aí você vai e campanha de apadrinhamento e vai, entra 10. Então, se eu tiver um lugar que não tenha essa preocupação, você paga água, depois você não paga luz. Você vai indo.

Luciano Pires: Sim. Mas esses que entram vão como benefício para a comunidade.

Katia Carvalho: É.

Luciano Pires: Quando você fala fila de espera, você atende 90 crianças hoje. E para uma criança nova entrar, uma tem que sair?

Katia Carvalho: Tem que sair.

Luciano Pires: O de 16 anos vai. Ou alguém muda?

Katia Carvalho: Ou alguém que não está a fim. Igual, eu tirei um dos pequenos. Ele está com a gente há muito tempo. Adoro esse moleque. Mas ele não estava a fim. Então ele entrou, ele devia ter uns 6 anos. Ele toca o terror. Ele não tem interesse. Aí assim, a gente vai tirar ele da Casa. Não. Ele passa com a psicóloga. Ele vai. Você vai tentando tudo quanto é oficina. Ele não quer. Ele quer bagunçar. Fica em casa. Porque direto, assim, pelo menos uma vez por semana vem mãe na minha porta, lá na porta dizendo que não tem um grão de arroz em casa, que a filha dela está sem comer. Têm muitos meninos carroceiros que vêm na porta. Eles querem chance. É difícil a gente cadastrar adolescente. Porque eu gosto de pegar eles pequenininhos e você: oficina disso, hoje é dança. Então, ele chegando na casa, da uma às duas eles almoçam. Comem à vontade. Comida muito legal, muito boa. Aí das duas às quatro é oficina. Então, eles vão lá para o fundo com a Adriana. Ela faz a lista, faz a chamada. Eles meditam, ela dá recados.

Luciano Pires: Quantos por vez?

Katia Carvalho: São 46 na semana e sábado são 57. Porque eu tenho caso grave na semana, que ele tem que vim…

Luciano Pires: Esses 46, segunda, quarta e sexta. Os mesmos 46?

Katia Carvalho: Segunda, quarta e sexta. Os mesmos 46. Aí no sábado eu tenho 57. Porque eu tenho alguns bem graves, que eles têm que estar todo dia ali. Infelizmente, de terça e quinta eu não tenho ônibus e eu não tenho como…

Luciano Pires: O que é bem grave?

Katia Carvalho: Abuso, não ter o que comer.

Luciano Pires: Como é que você resolve o abuso?

Katia Carvalho: Você não resolve. Eu vou pela lei. Eu faço a denúncia. Como eu te falei: eu tenho parceria com a doutora Shirley, que assim, é umas das 7 mulheres da Casa do Jardim. Essa doutora não existe. Ela está com a gente, eu acho que desde 2010. Então tudo eu investigo, para ver se a criança não inventou, não sei o quê. Aí você faz a denúncia. Aí eu passo pela doutora. Aí você faz a denúncia no Conselho, dependendo do caso tem que chamar a polícia. Eu já tive caso de implorar para a criança ir para o abrigo. Isso na outra gestão. Não é esse Conselho Tutelar que está aí – que eu não vou dizer se é bom ou ruim – o Conselho antigo, eu tinha 6 crianças. As 6 eram abusadas. E era horrível. Elas imploravam para não ir embora. E ao mesmo tempo, eu tinha…

Luciano Pires: E quem levava elas até você era o Conselho Tutelar?

Katia Carvalho: Não. A criança era cadastrada. Vinha normalmente na Casa. É isso que eu falo: a criança ela não tem uma noção. Muitas – têm algumas que sim – a maioria, ela não sabe o que é uma família. Ela não sabe o que é ela subir uma rampa, como eu chamo, quando ela chega na Casa do Jardim. Ela sobe, ela vem me abraçar. E já vem caguetando, já vem contando, já vem miando o que aconteceu, não sei o quê.

Luciano Pires: Mas aí elas contam para você, confiam em você.

Katia Carvalho: Elas confiam em mim. É.

Luciano Pires: Aí você vai até o órgão, que é o Conselho Tutelar: escuta, está acontecendo um problema na casa da criança tal. E essa situação não é resolvida imediatamente?

Katia Carvalho: Uma das nossas mães, pelos motivos dela, ela tentou se matar em 10 de junho. E o hospital ele tem que fazer – é um protocolo – porque o hospital, ele tem que contar para o Conselho. Porque essa mãe tem filhos, né? Aí, quando aconteceu, então, quando chega, tipo, nove horas em casa, eu desligo. Eu abaixo meu celular. Oito, nove horas. Para ficar com a minha família. Aí me ligaram, que essa mãe tinha tentado se matar. Não deu certo. E estava no hospital. A minha preocupação foi com as três filhas. Aí o hospital tem que fazer denúncia, para ver, para encaminhar essa mãe. Então, o hospital fez toda a denúncia direitinho. Foi dia 10 de junho. O Conselho foi sexta-feira. Porque no hospital que ela ia tentar e ia levar todo mundo. Ia levar as meninas. Ia matar as meninas. Na minha cabeça, isso é um risco grave.

Luciano Pires: Claro.

Katia Carvalho: Qual foi a atitude da Casa do Jardim? Eu não estava no hospital. Eu não escutei ela fazer, ela gritar que ia levar. O hospital ouviu. Eles fizeram a denúncia. Qual foi a atitude da gente? Trazer essa mãe o mais rápido possível para casa, para a Casa do Jardim, para ela passar com a psicóloga. Passa com a Adriana, com Reiki, meditação. Acolher essa mãe. Porque, por algum motivo ela fez isso. E às vezes, ela fez para chamar a atenção.

Luciano Pires: Sim. Mas isso extrapola totalmente a tua razão da atividade, né? Você não tem que cuidar da mãe. Você tem uma entidade que cuida das crianças.

Katia Carvalho: A minha preocupação era…

Luciano Pires: Claro, você está cuidando das crianças, indiretamente, vai cuidar da mãe. Mas quando você traz essa mãe lá para dentro, você está agora, você está atendendo, além de 90 crianças, uma mãe.

Katia Carvalho: Uma mãe. Aí a nossa psicóloga também, que é maravilhosa, ela… porque a mãe se recusava a fazer tratamento pela rede, né? CAPES, eu acho. Aí ela convenceu. Então agora, ela é tratada. Está indo. Eu acho que está tomando medicação. Eu sei que as meninas estão tranquilas. E ela veio. A mãe veio ontem conversar com a nossa psicóloga. Então, ela tem a liberdade de vir conversar. Mas se fosse uma ameaça verdadeira, assim, sei lá, 10 de junho para antes de… para sexta-feira, agosto. Quase dois meses? Teria morrido todo mundo.

Luciano Pires: Vocês estão sozinhos, então?

Katia Carvalho: É. Sozinhos assim, quem não… quem vem para fazer, para aparecer na Casa, não aguenta. Tipo: ah, eu quero ir lá aparecer. Eu quero ir lá, porque ego. A pessoa acaba indo embora. Porque a pessoa não tem que vir lá para tirar foto. Não é para tirar foto. Eu vou prestar conta do que foi entregue, não sei o quê. É uma outra pessoa. Mas a pessoa tem que vim para ajudar. E as crianças sentem. As crianças já chegam abraçando. Se alguém falta, por exemplo, às vezes eu não estou ou eu estou em algum lugar: cadê a Katia? Cadê não sei quem? A minha mãe operou a tireoide. Cadê Maria Luiza? E manda recado, e manda vídeo e manda desenho. Então a gente, por isso que a gente fica. Aí você não pensa que você não tem grana para comprar um tênis. Que você tem que pagar não sei o quê. Só da molecada… igual, quando eles ganharam o edredom. Estava um frio. Eles foram embora todos quentinhos. Com comida. Quentinho. E, na medida do possível, protegidos. A gente faz – em casos graves – a denúncia de abuso, o Conselho, precisa polícia. Mas na gestão antiga, você tinha que implorar.

Luciano Pires: Você já deve ter criança que passou por lá, com seus 20 anos de idade?

Katia Carvalho: Tenho. Tenho um, que eu falei com ele ontem. Coisa mais linda.

Luciano Pires: E aí?

Katia Carvalho: Está trabalhando.

Luciano Pires: Você tem um retorno dessas… já adultos?

Katia Carvalho: Tenho.

Luciano Pires: Jovens adultos, o que significou aquele período na Casa?

Katia Carvalho: Eu tenho muito… eles sentem muita falta. Esse casal. Tem uma que vai fazer faculdade de Odonto agora, vai prestar em janeiro. Eu tenho dois que estão trabalhando em rede de restaurantes, tem um que já virou gerente. Tenho duas que foram funcionárias do mês. Eu tenho um que o último emprego dele era num restaurante. Agora ele vai casar. Eu foquei mais nisso, ele mandou convite. Ele é uma graça. Ele ficou na Casa, eu acho que seis anos. Assim, eu amo esse menino. Ele é uma graça. Ele morava num barraco com a irmã e com a mãe. A mãe decidiu ir embora para o nordeste. Ao invés de levar no Conselho Tutelar… igual eu falo: a gente não julga ninguém. Se não nasceu para ser mãe, não tem problema. Deixa num abrigo. Deixa num órgão decente. Não larga essa criança. Ela colocou cadeado no barraco e pôs fogo, com esse casal, os dois. Esse que eu… eu adoro todos, mas é que ele sempre foi muito carinhoso.

Luciano Pires: Mas ela botou todo mundo lá dentro?

Katia Carvalho: Colocou o casal. Os dois meninos.

Luciano Pires: Lá dentro, com cadeado e botou fogo?

Katia Carvalho: É. Porque ela queria ir embora para uma vida nova, sem deixar nada. A vizinha do fundo entrou. Arrebentaram lá. E ela adotou os dois. E hoje ela é mãe deles. Ela é uma graça. Várias vezes eu fui visitar eles. Era para esse menino ter um ódio da mãe dele.

Luciano Pires: Sim.

Katia Carvalho: Não. Ela voltou. Ele ainda estava com a gente. Ela voltou… ele ficou uns 6 anos com a gente. Uns 4 anos depois ela voltou. Então, ele sempre passou com a nossa psicóloga. Mas sabe aquele moleque bom coração?

Luciano Pires: Sim.

Katia Carvalho: Ela voltou. Cara, se sou eu falo: cara, eu não quero falar com você. A minha mãe é essa. Não. Deu a maior força para ela. Tentou ajudar ela a sair das drogas, porque ela voltou usuária. Aí agora, eu vi ontem, que ele mandou – eu falo com ele pelo Messenger – que ele vai casar. Então você vê ele trabalhando. A irmã dele – que era para ter morrido – ela vai fazer faculdade. Eu fiquei assim, tão feliz que ele vai casar. Uma moça muito legal. A moça faz Jornalismo.

Luciano Pires: Você tem então, um filho só. Só não tem mais por que esse moleque não dormia?

Katia Carvalho: Não dormia. E agora dorme…

Luciano Pires: Que idade ele tem? Que idade seu filho tem?

Katia Carvalho: 16.

Luciano Pires: Tem 16. O seu filho deve sofrer de um TOC tremendo, que é um Transtorno Obsessivo de Ciúmes.

Katia Carvalho: Não. Sabe que não?

Luciano Pires: Porque ele divide a mãe com todas as crianças. Como é que é isso? Como é que ele trata isso? O que ele enxerga?

Katia Carvalho: Eu acho que o Luigi não liga. Porque como ele cresceu ali, ele já nasceu ali dentro. Ele tomava suspensão…

Luciano Pires: Sim. Ele frequenta direto? Ele está? Ele frequenta?

Katia Carvalho: Agora não. Agora ele está bem…

Luciano Pires: Antes ele frequentava também?

Katia Carvalho: Direto. Ele ia comigo, porque…

Luciano Pires: Fazia as aulas, tudo, com a molecada toda lá?

Katia Carvalho: No meio. Tomava suspensão. Teve um dia que a gente tinha que… na outra casa. Que a gente estava numa outra sede. Caiu o teto, a gente foi para uma outra, que é a que a gente está agora. Ele jogando bola. Tinha um espacinho para jogar bola. Ele e mais um brigaram, de um xingar a mãe do outro. Aí uma das educadoras trouxe e falou: está tendo confusão lá. Eu falei: traz. Vamos deixar em casa. Estão arranjando confusão na quadra? Fica em casa dois dias para pensar. Aí era o meu.

Luciano Pires: Aí era o teu?

Katia Carvalho: Era o meu. Eu falei assim: bonito, né criatura? É, mas o moleque está xingando minha mãe. O problema é da sua mãe. Não, mas você é minha mãe. Eu falei: chapa, aqui é todo mundo igual. Peguei o papelzinho e falei: você vai ficar em casa. Você vai ficar na casa da tua avó. Você volta na outra semana para cá. Aí ele falou: pô, mas como assim? Então, alguns casos, eu tento evitar de ele saber. Eu estava até falando no carro para a Adriana. A gente teve uma criança que cresceu com ele. Uma situação gravíssima. Muito tempo depois a gente conseguiu que ele fosse para um abrigo. Tudo pela lei, Conselho.

Luciano Pires: Uma criança que cresceu com ele?

Katia Carvalho: Com o meu filho, lá na Casa do Jardim.

Luciano Pires: Com o seu filho?

Katia Carvalho: É.

Luciano Pires: Amiguinho?

Katia Carvalho: É. Amigo da Casa do Jardim. Então o Luigi vinha, fazia as atividades com ele. Aí a gente descobriu abuso. Aí demorou muito. Eu acho que quase dois anos. Eles foram para o abrigo. E ele foi abusando 27 dias depois, lá dentro do abrigo.

Luciano Pires: No abrigo?

Katia Carvalho: No abrigo. Aí a gente ficou numa loucura. A gente pediu para entrar. Eu sabia quem tinha abusado. É isso que eu falo: mesmo sem você… você não quer, você não fica procurando. Não dá tempo. É muito rápida a Casa do Jardim. Às vezes eu coloco a minha mochila e vejo. Já está, deu cinco e pouco. A gente ainda sai atrasado. Veio no meu ouvido o que tinha acontecido. A pessoa me relatou. A gente checou. Era isso mesmo. Ninguém quis ouvir essa pessoa que viu. Aí na hora que a gente ficou, que a gente soube o que aconteceu… ela presenciou, ela voltou para a Casa do Jardim. Ela não conhecia a gente. Ela descobriu que esse moleque era nosso. Aí tiveram que segurar a gente para a gente não ir lá no abrigo. Por que aí você sai da lei, né? Porque tem que ser flagrante. Tem que ter mais provas. Eu sei que fizeram de um jeito, que dois anos depois chamaram a testemunha para ouvir. Não valia mais nada, né?

Luciano Pires: Você está envolvida… a gente está chegando no final aqui, agora. Mas eu tenho mais uma… você está o dia inteiro exposta a esses dramas. Que tem dramas aí que a gente nem faz ideia que possa acontecer. Imagino que você deve ter história para contar que não acaba mais. Como é que você assimila essa dureza desses dramas aí e não fica enlouquecida? Como é que essa tua armadura emocional te protege de não levar para casa. A hora que você botar a cabeça no travesseiro, virem esses demônios todos para te cutucarem? O que é? Você assimila isso tudo e transforma em energia para ajudar mais?

Katia Carvalho: É. Para resolver. Porque não adianta você ficar pensando. Eu tenho um monte. Eu tenho dois que sexta-feira eles vão embora da Casa do Jardim. A mãe deles tranca eles na casa, no barraco e ela volta terça-feira. Eles pulam a janela, dormem no mato. Porque aí vem polícia, porque viu que trancaram eles. Eles ficam lá. Voltam na segunda, mordidos de pernilongo. Ou vão para a casa da nossa cozinheira, que mora lá. Só que eu consigo ir até certo ponto. Porque aí que entra o Luigi. Se eu chego em casa e eu fico: falo com uma. Falo com outra. Eu vou lá agora, não sei o que lá. Têm coisas que eu não converso em casa. Que eu protejo ele. Esse caso desse menino. Tudo eu tenho que preservar. Então domingo é com ele. Sábado eu chego duas e pouco. É com ele. Se eu tenho um caso grave, eu vou resolver na segunda-feira. Eu tento resolver assim, teve um dia um abuso. A vizinha colocou a criança para falar comigo. Aí foi um erro gigantesco, meu. Porque aí a vizinha gravou. Chamaram polícia. A polícia foi, o Conselho não foi. Eram 11 horas da noite. Menina pequena. E ela implorava ajuda. Eu passei para a Adriana. Eu falei: matei a Adriana. Essa mulher chorava do outro lado.

Luciano Pires: Ouvindo a gravação?

Katia Carvalho: Ouvindo a gravação.

Luciano Pires: Da criança?

Katia Carvalho: Que na minha cabeça: eu não vou 11 horas para lá. Se eu fosse solteira, o Luigi casado. O marido… se eu não tivesse… eu iria. Mas eu tenho hora com o marido e com o meu filho. Então era onze e pouco. Eu até estava jantando. Eu vi que ficava: pla-pla-pla. Eu falei: é algum BO. Inventei de ir no banheiro, entrei no box e comecei a ouvir a mensagem. Eu falei: cara, eu não tenho como ir. Aí eu liguei para o Conselho, o plantão, para que eles fossem. Eu liguei para um coronel amigo nosso, que a base é lá, para dar esse suporte. E liguei para a Adriana para fazer um Reiki à distância. Aí ela: eu não aguento. Eu falei: cara… acabei com ela. Eu acho que ela nunca mais volta. Por que…

Luciano Pires: Isso que eu ia falar para você. Você tem parceria na polícia, você tem parceria?

Katia Carvalho: Tudo.

Luciano Pires: Todo lugar você tem alguém que você pode telefonar: cara, me ajuda?

Katia Carvalho: E eles ajudam. Por isso que eu falo: é muita gente ajudando. É muita gente do bem. Se eu precisar de alguma coisa. Eu preciso de remédio, não sei o que lá. Eu tenho uma rede que me ajuda. E se alguém precisar de remédio, também, a gente funciona. A gente vive com 18 mil. É muito pouco, 18 mil, as crianças almoçam. E não é um pratinho não. Eles comem muito. Então a gente gasta muito pouco. Isso, por exemplo, a gente ganha bolacha. Eu mando bolacha para os irmãos. Porque eu tenho famílias de quatro, cinco filhos. Se eu mando um pacote de bolacha, uma que a criança come no ônibus. Não chega. Eu tenho que mandar para todos. Então, é muito barato, pelo que a gente faz. A gente não é uma estrutura. A gente precisa de uma casa. A gente precisa de um lugar maior, adaptado. Tudo, assim, adaptado. Porque a nossa, que a gente está é adaptada. Eu preciso de mais espaço.

Luciano Pires: Depois você escute o LiderCast 100, 100 redondinho, tá? Da Neide. Você vai ouvir uma história enlouquecedora, que em algum momento cruza com a sua. Em algum momento ela vai cruzar com a sua, lá na frente, né? Mas escuta lá, que você vai ouvir uma história também, que vale a pena ouvir lá. Quem quiser conhecer? Quem quiser saber, como que é? Vocês têm Facebook? Tem site? Tem?

Katia Carvalho: Tem.

Luciano Pires: É a hora.

Katia Carvalho: O site é www.projetocasadojardim.com.br

Luciano Pires: projetocasadojardim.com.br? Tá.

Katia Carvalho: Ou se colocar Instituto Casa do Jardim no Google aparece várias matérias. Venham conhecer. Se a pessoa…

Luciano Pires: Onde fica lá?

Katia Carvalho: É Campestre, é quase no Centro de Santo André. É perto da Faculdade Fundação.

Luciano Pires: Dá o endereço aí.

Katia Carvalho: É Rua Jaguari, 571. Se quiser mandar mensagem, o meu WhatsApp, que é eu que canalizo. Eu mando. Se é voluntário, eu passo para a equipe é (11)97243-7023.

Luciano Pires: Dá o teu nome de novo, quem quiser anotar.

Katia Carvalho: Katia Carvalho.

Luciano Pires: Katia Carvalho, (11)?

Katia Carvalho: (11)97243-7023. Qualquer lugar que vocês forem ajudar, peça para conhecer a criança. Abrigo não pode. Porque é segredo de justiça. Mas qualquer lugar. Eu vou entregar isso, eu quero ver se a criança existe. Porque essa foi a nossa… foi a hora que a gente parou de – não diria brigar – de ficar denunciando. Porque a Casa do Jardim é transparente. Você vai doar nos outros lugares? Pode. Vai doar. Mas vem. Vem conhecer. Não deixa na porta. Entra. Essa é a criança. Essa é outra. Porque é um jeito de monitorar a gente. Agora a gente está aqui. Daqui a um tempo não está. Agora ninguém mais entra. E, por exemplo, você doou comida. Doei uma tonelada, durou um mês. Nossa, as crianças estão com fome, estão magras. Cadê a comida? Então, tudo tem que ser monitorado. Porque você não pode viver denunciando. Você morre.

Luciano Pires: E vocês aceitam doações de todo tipo de coisa?

Katia Carvalho: Tudo.

Luciano Pires: Quer dizer, roupa, o que for?

Katia Carvalho: O que for. Em bom estado. A gente ganha muita coisa meio…

Luciano Pires: Péssimo estado.

Katia Carvalho: Péssimo. Mas se puder doar, doa uma coisa que você vai usar.

Luciano Pires: E se puder doar tempo, está valendo?

Katia Carvalho: É.

Luciano Pires: Um professor que dê uma oficina, que dê um curso, alguma coisa assim, vocês estão interessados?

Katia Carvalho: E sempre pensar, não adianta você: ah, eu vou doar bolacha no farol. Você vai aumentar o assistencialismo. Esse cara, ele vai acostumar a ganhar, ganhar, ganhar. Uma hora que você não dá, ele vai te matar. Então, tenta evoluir essa criança. Eu passeio com cachorro. Eu quero ensinar a tua molecada a passear com cachorro. Eu corto cabelo. Sei fazer unha. Eu quero dar uma oficina que ela aprenda a fazer unha. Eu tenho um menino, que ele cortou… a gente tem uma oficina de barbearia. No domingo, ele cortou, eu acho que 15 cortes de cabelo. O pai foi embora. São três irmãs, a mãe. Ele sustentou elas. Com cortes de domingo, na casa dele. Então, a gente tem que quebrar esse ciclo de miséria. Você só quebra pela educação. E não adianta: ah, vamos levar eles para passear. É legal. Mas enquanto os meus estão passeando, um monte está estudando. É uma competição muito injusta. Então, quem quiser dar aula de espanhol, português. Oficinas para redação para primeiro emprego. Empresas que queiram contratar eles de Jovem Aprendiz.

Luciano Pires: Legal.

Katia Carvalho: Eu tenho um menino que está trabalhando. Ele ganha três vezes mais do que a mãe. Então, nessa família, ninguém trabalhou igual ele. Ninguém. É um emprego – não diria decente – é um emprego que ele tem a carteira assinada. Ele está dentro de uma empresa. Ele pode evoluir. Ele pode, se ele seguir essa linha direitinho, ele vai ter a casa dele, o apartamento dele. Ele não vai depender de assistencialismo nenhum. E não é difícil.

Luciano Pires: Não é mesmo. Você está ouvindo aqui a Katia, de Santo André. Se você mora do outro lado do Brasil, se você está lá no fim do mundo e fala: pô, eu queria arrumar um jeito de arrumar a Katia e tudo. Mas eu estou tão longe. Não dá. Procura a Katia da tua cidade aí, deve ter alguma. Em todo canto tem uma louca. Todo canto tem uma doida dessa aí.

Katia Carvalho: Tem.

Luciano Pires: Que pinta e borda. Mas ela deu a receita aqui: vá lá, conheça. Olhe no olho das crianças. Veja se é transparente. Veja se não tem um político por trás, querendo ganhar seu voto, etc. e tal. Mas ficou claro, quer dizer. Quando eu perguntei se você estava sozinha e você falou: nós estamos sozinhos. E esse sozinho quer dizer o seguinte: eu não dependo do Estado. Aliás, o Estado só me atrapalha.

Katia Carvalho: E eu não quero.

Luciano Pires: Ele só sabe me atrapalhar. Eu vou resolver como cidadã e como um indivíduo que posso juntar outros indivíduos e gente com vontade de fazer acontecer. Não vai resolver o problema do mundo. Mas 90 garotos aí podem ter um futuro totalmente diferente, por causa da tua iniciativa.

Katia Carvalho: Até hoje já passaram 567 crianças pela Casa.

Luciano Pires: Pois é.

Katia Carvalho: Nenhum foi para o crime. Nenhum foi morto. Nenhum está na droga. E é fácil. Quando eu falo que é fácil, o pessoal fala: não é. É fácil. Ah, mas eu vou ter a documentação? Tem que ter a documentação, tem que ter CNPJ, ata. Você tem que responder. Tudo que acontece na Casa eu respondo. Então, tem que ter um que responde. Mas cada vez vem mais gente. Olha, eu queria fazer isso, eu queria ajudar. Você montando um projeto. A gente está com o projeto Aueiki, que agora… durante 7 anos a gente cuidou da alimentação, de dar aquela proteção para aquela criança. Agora, a gente está cuidando da alma, assim, do coração deles, que eu não vou…. a gente faz – como eu te falei – a gente faz toda… se tem denúncia, tudo direitinho. Só que em casos de abuso, agressão, a marca é muito grande. Aí você entra com a psicóloga, direitinho. Com Reiki. Eu tenho um menino, situação horrível assim, as coisas que ele passou. Ele quer bater o recorde de meditação lá na Casa. Ele quer meditar uma hora. Ele é uma graça. Quando eu olho esse menino, assim, fora do ar eu te conto a história dele. Ele medita, eu vejo o Pequeno Buda, do filme. É o máximo. E fora isso, ele bagunça, né? Bagunça que é uma beleza. Mas a hora que ele está meditando, você vê outro. Ele fala que ali ele tem alívio. É esse alívio que eu precisava com esse projeto Aueiki, que é toda essa parte. Eles pedem para fazer Reiki. Então pede para meditar. Essa que eu te falei, do sem futuro, ela medita na casa dela. Então imagina, no centro da comunidade, sem comida, sem nada, aquele fim do mundo, ela tendo que fazer tudo, irmão pequeno. Ela para meditar. Uma pessoa normal surtava. Falava: eu vou embora. Eu não vou ficar aqui.

Luciano Pires: www?

Katia Carvalho: projetocasadojardim

Luciano Pires: Ponto com, ponto br. Entrem, visitem. Katia, o que eu posso dizer? Parabéns pela sua… eu não vou falar de competência. Eu vou falar: pela tua decisão de dedicar uma parte da tua vida para um projeto como esse, que vai muito além de criar o teu filho, de dar assistência para o teu marido. Você está mudando a vida de uma porrada de gente aí, que talvez, você nem veja mais na tua vida. Mas você sabe que fez a marca ali, que alguma coisa você provocou. Num Brasil como nós estamos vivendo hoje, sabe, histórias como essa, para mim é um prazer abrir o microfone, trazer você aqui e deixar que mais pessoas escutem. Porque deve ter umas Katias escondidas aí.

Katia Carvalho: Tem.

Luciano Pires: Que na hora que ouvir a tua loucura toda, vão sair para querer fazer também. E, sabe cara, dá para começar 30 crianças na esquina da rua.

Katia Carvalho: A gente começou assim.

Luciano Pires: Na chuva.

Katia Carvalho: Na chuva.

Luciano Pires: É isso aí.

Katia Carvalho: Não é difícil. Você não vai ser… não vai ter 500 na tua porta. Assim, eu queria te convidar para ir lá. O dia que você… aí você volta e você fala: olha, eu visitei a Casa do Jardim. Agora eu sei o que a Katia falou. Muita gente faz isso. A gente conta, conta. Aí quando vai embora, fala: agora eu sei o que… o pessoal mesmo IDUSA veio fazer um vídeo com a gente e perguntou: o que a Casa do Jardim? Eu falei: é um lugar onde a criança tem que estar. Eu falei. Aí eles foram almoçar com as crianças. E aí eu perguntei para ela: o que é a Casa? Ela falou: eu estou apaixonada. Eu não quero ir embora. Eles são demais. Eu estou te convidando. O dia que você puder ir lá, vai lá almoçar com eles.

Luciano Pires: Vou. Vou fazer um esforço e vou lá. Você não está muito longe daqui não.

Katia Carvalho: Não, eu venho te buscar.

Luciano Pires: Beijo, obrigado por ter vindo.

Katia Carvalho: Obrigada.

Luciano Pires: Muito legal. Espero que a gente consiga, com essa tua história aqui, que chova gente lá para te conhecer, para ajudar e para fazer a Casa do Jardim crescer, atender 180 crianças daqui a pouquinho.

Katia Carvalho: Ah, se Deus quiser.

Luciano Pires: Tá bom? Beijo.

Katia Carvalho: Obrigada.

Luciano Pires: Muito bem, termina aqui mais um LiderCast, a transcrição deste programa, você encontra no lidercast.com.br. para ter acesso a esta temporada completa assine o cafebrasilpremium.com.br e receba imediatamente todos os arquivos. Além de ter acesso ao grupo cafebrasil no Telegram, que reúne ouvintes dos podcasts Café Brasil e LiderCast, que discutem em alto nível, temas importantes, compartilhando ideias e recebendo conteúdos exclusivos. Lembre-se: cafebrasilpremium.com.br. Essa temporada chega a você com o apoio da Nakata, que é líder em componentes de suspensão. Cuide bem de seu carro com as dicas do blog.nakata.com.br.

 

Narrador: Você ouviu LiderCast, com Luciano Pires. Mais uma isca intelectual do Café Brasil. Acompanhe os programas pelo portal cafebrasil.com.br.

 

Você leu a transcrição do episódio 127 do LíderCast, que tem duração de 1 hora, 39 minutos e 12 segundos e pode ser ouvido/baixado de www.lidercast.com.br

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