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Luciano Pires -
Download do Programa

Luciano: Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LiderCast, um podcast que trata de liderança e empreendedorismo, com gente que faz acontecer. No programa de hoje temo Leide Jacob, empreendedora cultural e agora cineasta. Que transformou uma adversidade pessoal numa usina de ideias, que hoje impacta muita gente. Este não é um programa de entrevistas, não tem perguntas programadas, nem roteiro definido. É um bate-papo informal com gente que faz acontecer, que vai para lugares onde nem eu, nem meu convidado imaginamos. Por isso, eu não me limito a fazer perguntas, mas dou meus pitacos também. Você está entendendo? Não é uma entrevista. É um bate-papo. O LiderCast é lançado por temporadas. Os assinantes da Confraria Café Brasil e do Café Brasil Premium tem acesso imediato à temporada completa, assim que ela é lançada. São mais de 24 horas de conteúdo de uma vez só, cara. Os não assinantes receberão os programas gratuitamente, um por semana. Para assinar acesse cafebrasilpremium.com.br. Esta 10ª temporada do LiderCast chega até você com o apoio da Nakata, que é líder em componentes de suspensão. Cuide bem de seu carro com as dicas do blog.nakata.com br. Muito bem, mais um LiderCast. Faz tempo, hein? Eita, essa figura aqui, a gente se conheceu – deixa eu me lembrar – olha, faz no mínimo – no meu ponto de vista – 20 quilos atrás, no mínimo.

Leide: Eu acho que é um pouco mais.

Luciano: Para mim. Você está igualzinha. Eu estou 20 quilos atrás.

Leide: Não. Está ótimo.

Luciano: É coisa de 20 anos. Se não for mais.

Leide: Eu acho que é mais.

Luciano: Pode ser. Pode ser. A gente trabalhou junto uma época, ela como fornecedora. Bom, a gente vai contar essa história aqui, na sequência. Eu começo o programa sempre com três perguntas, que são as únicas que você não pode errar. Então, vamos lá: seu, nome, sua idade e o que você faz?

Leide: Meu nome é Leide Jacob. Eu vou fazer 48 anos. Eu tenho 47 anos. E eu sou publicitaria, sou produtora cultural. E agora, eu sou cineasta.

Luciano: Isso no Brasil, hein? Pior que isso…

Leide: Independente.

Luciano: Pior que isso só empreendedor. Aliás, o cineasta é um empreendedor.

Leide: É. Com certeza.

Luciano: E no Brasil, então, que tem que fazer tudo, né?

Leide: Com certeza.

Luciano: Pô. Mas vamos ali. Leide, onde você nasceu?

Leide: Eu nasci em Franca.

Luciano: Franca? Interior? E você não fala porta, porco, fermento. Perdeu?

Leide: Pô, eu falo direto.

Luciano: É?

Leide: Me perguntam se eu sou mineira.

Luciano: É?

Leide: Tem um sotaque meio mineiro.

Luciano: Que legal. Nasceu em Franca, você tem quantos irmãos?

Leide: Eu tenho dois irmãos.

Luciano: Dois irmãos.

Leide: Dois irmãos.

Luciano: Mais nova, mais velha?

Leide: Eu sou do meio.

Luciano: Do meio.

Leide: É.

Luciano: O que o seu pai e a sua mãe faziam?

Leide: O meu pai e a minha mãe eram advogados. Meu pai era fiscal de rendas do estado de São Paulo. E minha mãe é advogada. E minha mãe é advogada. No momento ela está aposentada. E meu pai faleceu há 20 anos atrás.

Luciano: Você cresceu numa família de advogados?

Leide: Advogados.

Luciano: E não seguiu a linhagem por quê?

Leide: Não segui. Não sei. Porque eu acho que leis, sabe? Aquela leitura, aquela coisa muito rebuscada. Eu nunca gostei muito. Mas sempre tive muita influência.

Luciano: Então, o que a Leidizinha… qual é o teu apelido de criança? Leidinha? O que é?

Leide: Olha só. Essa história é interessante. Porque o meu irmão, César, ele tem o mesmo nome do meu pai. E ele tem Júnior no final.

Luciano: Que é?

Leide: César Sandoval Moreira Júnior.

Luciano: Tá.

Leide: Eu tenho o mesmo nome que a minha mãe. Leide Consuelo Quereza Moreira.

Luciano: Mas não dá para botar Junia.

Leide: Pois é. Mas o meu irmão botou em mim.

Luciano: Ficou Junia? Você ficou Junia?

Leide: Juninha.

Luciano: Você é a Juninha?

Leide: Eu sou Juninha para os mais íntimos. Porque eu chamava ele de Juninho. Ele falou: não, se eu sou Juninho, você é Juninha.

Luciano: Isso aí. O que a Juninha queria ser quando crescesse?

Leide: A Juninha. Nossa. A Juninha queria ser jornalista.

Luciano: Jornalista?

Leide: Jornalista.

Luciano: Tem. Tem tudo a ver. Tem tudo a ver aí. Você estudou em Franca? Fez universidade lá?

Leide: Não. Quando eu nasci. Eu nasci em Franca, mas os meus pais já moravam em São Paulo. Então, eu morei nove anos em São Paulo. Depois a gente mudou para uma cidade chamada Ituverava.

Luciano: Minha Ituverava…

Leide: Exatamente. A própria.

Luciano: Isso aí é Ivan Lins, né?

Leide: Ivan Lins e Vítor Martins.

Luciano: Ivan Lins e Vítor Martins.

Leide: Demais.

Luciano: Mas olha…

Leide: Bom, fiquei lá na minha adolescência, até os 17 anos. Eu fiz o 3º ano lá, do 2º grau. E aí, cara, eu estava louca para mudar de Ituverava. Porque eu queria vim para São Paulo. Eu gostava de ler. Sempre gostei de ler.

Luciano: Que idade você tinha?

Leide: Eu tinha 17 anos. Eu fiquei dos nove aos 17 anos no interior, minha adolescência, que foi ótima. Tipo assim: amigos, turma. Vou passar na sua casa. Dois minutos. A pé, bicicleta. Então, foi muito bom. Mas eu queria mais. Eu queria… Ituverava não tinha muito mais, assim, para oferecer nesse sentido, de cultura, de desbravar o mundo, de fazer outras coisas.

Luciano: E não era porque você estava vendo as coisas na internet, não?

Leide: Não, não.

Luciano: Não tinha nada disso na época, né? Você estava simplesmente conectada…

Leide: Luciano, chegava o jornal em casa. Você não tem noção o que acontecia. A gente gostava muito de ler. Assim, a gente ficava eu e meus irmãos, a gente… o mais velho… porque são dois anos de diferença. O mais novo são quatro. Então a gente brigava quando chegava o jornal. Porque a gente corria para pega a Ilustrada. Pegava a Ilustrada, entrava no banheiro e trancava a porta. Para ler o jornal. Você acredita? Assim, de tanto que a gente curtia, assim.

Luciano: Muito legal. Os seus pais trabalharam bem. Fizeram a cabeça de vocês.

Leide: É.

Luciano: E você. Você é uma geração de televisão já.

Leide: De televisão.

Luciano: É uma geração de muita televisão.

Leide: Muita.

Luciano: Porque a tua infância e juventude era com Globinho, com Show da Xuxa, aquela coisa toda, né?

Leide: Sim. Exatamente.

Luciano: E é interessante. E foi aquela geração que foi se afastando da leitura, né?

Leide: Sim.

Luciano: A partir dali, né?

Leide: Mas assim, mas eu acho que eu era um ponto meio fora da curva, já lá, entendeu? Eu sempre me senti assim, um ponto meio fora, para te falar a verdade. Porque assim, porque as pessoas lá, mesmo assim, os amigos, as amigas, uma ou outra assim, ou um ou outro que assim, tinha assim, um interesse maior por leitura ou estava mais antenado com o que estava acontecendo, entendeu? As pessoas estavam mais na onda.

Luciano: Na vidinha delas lá.

Leide: É. Na onda. E aí…

Luciano: E na hora de você decidir então: eu vou embora daqui; eu quero sair daqui. Como é que foi isso?

Leide: Foi assim…

Luciano: Qual foi a chavinha que virou e você falou: chegou.

Leide: Não. Eu sempre quis, assim. Assim, essa coisa muito de independência, então. E uma coisa muito legal assim dos meus pais é que eles sempre deram muito assim, eles sempre incentivaram. E nunca podaram. Eu vou te falar uma coisa, eu não me lembro de um dia a minha mãe ter falado assim: não, você não vai. Ou: você não vai fazer isso. Só por limitação assim, de grana, financeira ou de condições ali no momento.

Luciano: Você não tinha, não tinha não pode na sua vida? Tinha não dá.

Leide: E tinha…

Luciano: Não dá.

Leide: É.

Luciano: Não dá. Não pode não tem.

Leide: Porque assim, o interessante, eu não me lembro da minha mãe ter falado assim: vai estudar. Eu não me lembro disso, cara. Ela nunca falou assim: vai estudar ou vai tal… sempre foi muito tranquilo. Então, mas aí a questão assim: eu não tinha assim, esse podar. Essa coisa assim: ah, isso não pode. Quando eu falei assim: eu quero morar fora, eu quero estudar fora. O meu pai assim, por mais dificuldade financeira… porque assim, o meu pai, ele era um cara muito louco, cara. Cara, ele jogava. Então assim, a minha mãe tipo, sempre teve que controlar muito as coisas. Então assim, sempre muitas brigas nesse sentido. Mas o meu pai, ele sempre muito ausente. Porque ele sempre estava jogando. Mas quando não estava ausente, ele sempre nos apoiava. Talvez por um contraponto. Pela ausência, entendeu?

Luciano: O jogar do seu pai era vício? O jogar era vício.

Leide: Vício. Vício forte. De perder muitas coisas, muitas coisas. E altas brigas. E de chegar em casa e falar assim: olha, meu, tem que pegar tipo assim, joias ou pegar tipo assim, ele falava: tem que vender o carro, não sei o que, não sei o que. Daí ele voltava daqui dois dias. Sabe aquela coisa? Tipo é bem… tipo é uma ausência forte assim.

Luciano: Muito louco.

Leide: É muito louco.

Luciano: Muito louco.

Leide: E nesse sentido, a minha mãe sempre foi muito mãe e pai. Sempre mãe e pai, de controlar, de tal, entendeu? Então… mas por outro lado, o meu pai sempre foi assim, por exemplo, ele… são loucos, né? Ele me ensinou a dirigir com 14 anos no interior. Eles deram Mobilete para a gente. Eu tinha, sei lá, 13 anos com uma Mobilete. Imagina que loucura? Eu não faço isso com os meus filhos. Tipo assim: é outra… outra medida. É outra… aí, quando eu falei que eu queria estudar fora e queria fazer jornalismo, eu passei em Bauru, na UNESP. E eu queria jornalismo. Mas eu falei que eu não queria. Assim, eu queria vir para São Paulo. Então como eu passei na ESPM, aí eu optei por São Paulo. E mesmo nas dificuldades, nas coisas, toparam. Tipo, sabe, apoiaram. Foi muito…

Luciano: Que ano que era isso?

Leide: 89. Eu me formei em 92; 4 anos.

Luciano: 89 a 92.

Leide: 4 anos. Eu tinha 17 anos.

Luciano: E você veio para São Paulo sozinha?

Leide: Vim para São Paulo sozinha. Mas eu morei em muitos lugares.

Luciano: Então, mas veio para ficar onde?

Leide: Eu vim para ficar. Fiquei seis meses na casa de uns parentes. Uma tia. Uma prima do meu pai, que foi superbacana, me acolheu. Depois eu falei… eu não queria mais ficar lá, porque eu achava que eu queria um espaço para mim. E também estava sentindo… não é legal ficar na casa dos outros. Assim, por mais que você… é legal você ter um espaço. Então, eu fui morar numa pensão. Depois fui para uma República. Depois morei na casa de uma amiga. Depois morei junto com um amigo. Depois eu voltei e morei com outra amiga. Depois eu voltei e morei com aquele outro amigo. Cara, eu morei em tantos lugares. Eu moro em qualquer lugar que você falar.

Luciano: Mas é legal. Isso tudo…

Leide: Um poder de adaptação, cara…

Luciano: Com 18 anos de idade, 19 anos de idade, né?

Leide: Aham.

Luciano: Vinda do interior, sozinha em São Paulo. Bom, você tem uma história parecida com a minha, até. Eu vim para cá também, com 18 para 19. Só que eu não fui morar na casa de ninguém. O meu pai alugou um quarto numa casa de família, do lado do Mackenzie. E eu, do dia para a noite, eu estava num lugar que eu não conhecia, vivendo numa casa que não era minha, com uma família que eu não conhecia os hábitos nenhum daquela família.

Leide: Nossa.

Luciano: E eu morava num quarto com 18 anos de idade. Eu tive que descobrir onde era o banco, abrir uma conta, ter um talão de cheque. Quer dizer, você amadurece 15 anos em 15 dias. Que de repente, você está por si só. Pô, eu estou em São Paulo, cara. Caipira em São Paulo.

Leide: E você tem que conquistar seu espaço.

Luciano: Pois é. E numa época da vida da gente, que você nessa época é um buraco negro. Você suga o que aparecer.

Leide: Você não sabe quem é você.

Luciano: O que vem, vem para dentro. E não me arrependo um pentelhésimo de ter feito isso. Quando me perguntam por que eu fiz? Eu respondo: não sei. Na época eu passei em Bauru na universidade, passei em Engenharia Eletrônica em Bauru e passei em Comunicação Visual em São Paulo. Todos os amigos foram para Engenharia. Meu pai me falou: se você ficar em Bauru eu te dou um carro. Eu tinha namorada – que é a minha mulher até hoje – em Bauru. Minha vida estava toda lá. E eu escolhi: não, eu vou para São Paulo. Sem nenhuma… não tinha nada aqui. Eu vim sozinho. E aí a vida acabou acontecendo aqui, daquele jeito que você não sabe. Vou ver o que dá. E quando eu me formar eu volto. Essa era a ideia.

Leide: E nunca volta.

Luciano: E nunca mais voltei. Fiquei aqui para o resto da vida. Mas aí você vem para cá e faz Jornalismo?

Leide: ESPM. Eu fiz…

Luciano: Você fez Escola Superior de Propaganda e Marketing? Tá.

Leide: Exatamente.

Luciano: E aí? Se formou com ideia de ir para onde? Porque você não veio para Jornalismo, então?

Leide: Não, não vim para Jornalismo.

Luciano: Você veio para um negócio parecido.

Leide: Mas eu optei. E na ESPM, eu comecei a curtir muito assim, artes. Aí comecei a fazer um estágio na USP, na ECA. Estudando o acervo que o Mário Schenberg deixou. Tipo, então eu escrevia sobre Volpi. Escrevia sobre as artes plásticas. Então eu tinha que estar lendo aqueles textos e trabalhando aqueles textos, outra pessoa revisava. Enfim, foi assim. E aí fui fazendo vários estágios. E aí eu…

Luciano: Sim. Mas você já tinha uma ideia de o que você queria ser?

Leide: Não tinha ideia nenhuma. Não.

Luciano: Ah, você estava…

Leide: À mercê… à mercê…

Luciano: Você estava – como é que é? – Você estava empenhando para depois desempenhar?

Leide: Mas assim, foi muito frutífero, assim. Foi quando eu descobri tipo, Itamar Assumpção.

Luciano: Sim. A banda Isca de Polícia.

Leide: Descobri assim, descobri as coisas que eu mais gosto hoje, assim. Sabe quando você tem várias opções e você vai selecionando aquilo que você mais curte de leitura, de música, de coisas, de artes plásticas, de estudo, as leituras.

Luciano: Eu tenho uma tese de que o que marca a trilha sonora da tua vida, as coisas da tua vida, os filmes da tua vida; é nessa faixa de idade, entre os 19 ao vinte e pouquinho. O que acontecer ali vai gravar de uma forma tal, que você nunca mais vai… então, se você perguntar para mim: qual é o disco da sua vida? Eu tinha vinte e poucos anos. Qual é o show da sua vida? Era vinte e poucos. Um filme? Era vinte e poucos. Tudo que aconteceu comigo, que é marcante até hoje foi naquele período.

Leide: Eu acho que é o que nos forma.

Luciano: Que é quando você está virgem das coisas. Eu estou virgem de tudo. Eu não sei nada.

Leide: Você faz as suas escolhas.

Luciano: Sim. Eu vi o Itamar Assumpção com a banda Isca de Polícia ali no teatro onde é a feira da… ah, meu Deus, me faltou o nome. O Lira Paulistana. Eu vi no Lira. O Lira era o templo da música inovadora naquela época. Então, eu vi o Itamar Assumpção, vi Clara Crocodilo, Arrigo Barnabé. Essas coisas estavam tudo acontecendo naquela época. E não dá para descrever aqui o que é o impacto de você estar dentro de um teatrinho minúsculo como aquele, com uma tribo de gente com o mesmo interesse. Você está a três metros de uma banda como a do Itamar, ele cantando na tua frente. E você recebendo aquilo com um impacto virgem. Era um solo virgem. Aquilo grava de um jeito tal, que eu nunca mais na minha vida eu vou me esquecer daquilo. E quanto mais passa o tempo, aquilo fica mais poderoso. Porque ele ganha uma aura de… é aquela história: qual é o melhor jogador de futebol que você já viu jogar? É o Rivelino. Por quê? Ele era tão bom e com o tempo ele só melhora. Só melhora. Então essas memórias vão ficando e forjam o que a gente vai ser lá na frente. Mas aí você, com esses contatos todos definem: eu vou para as artes. Eu vou seguir nas artes. Eu vou seguir para onde?

Leide: Não. Eu fui costurando. Eu fui cozinhando isso. Aí no meu TCC, no meu Trabalho de Conclusão de Curso da ESPM, a gente fez sobre o mercado de informática. E aí, o meu primeiro trabalho foi no departamento de marketing de uma empresa da área de informática. E aí eu fiquei alguns anos. Foi onde eu conheci o meu marido, que trabalhava na área comercial de lá. De lá, depois, aí essa empresa, eu tinha algumas amigas na área cultural. E uma atriz, que trabalhava com Teatro de Ornitorrinco, falou assim: Leide, poxa, nós estamos precisando de patrocínio e tal. E eu apresentei para o presidente dessa empresa, que topou usar a Lei Marcos Mendonça.

Luciano: Sim. Lá atrás.

Leide: Aí que começou essa história de lei de incentivo. Aí eu apresentei. Eles toparam.

Luciano: Para quem não sabe. Lei Marcos Mendonça era uma lei estadual, aqui de São Paulo.

Leide: Lei municipal.

Luciano: Municipal, da cidade de São Paulo.

Leide: ISS/IPTU.

Luciano: Que você podia usar ISS/IPTU, que é o que acabou virando a Rouanet lá na frente.

Leide: Não. A Rouanet é imposto de renda, né?

Luciano: Não, não. Eu digo o seguinte: de você poder usar um imposto.

Leide: O mecanismo.

Luciano: O mecanismo do imposto para, ao invés de eu pagar o imposto. Ao invés de eu dar dinheiro para o Estado, eu dou dinheiro para um produtor cultural e ele com isso consegue produzir e eu sou abatido desse valor que eu dei para ele, do imposto. Quer dizer, a mecânica é essa, né? Que é uma mecânica que tem no mundo inteiro, que funciona, na teoria, maravilhosamente bem. E que o pessoal mete a boca, porque entra bandido na jogada e faz todo tipo de falcatrua. Mas a gente vai falar mais disso lá na frente. Mas você, de repente, você testou e sem querer, você achou uma avenida?

Leide: Não, eu… é. Foi a primeira abertura assim, para efetivamente a cultura. E aí essa empresa topou patrocinar. Foi ótimo. Aí, nesse meio tempo, eu fui convidada para trabalhar numa empresa da área de alimentação, num frigorífico. Que até hoje eu não sei onde fica picanha. Era um departamento de marketing. Mas eu não sei onde fica picanha, onde fica… até hoje eu não sei. E assim, foi meio assim… foi uma fase meio assim, que eu não estava gostando do que eu estava fazendo. Mas foi um desafio. Daí eu fui gerenciar esse departamento. Aí essa mesma amiga chegou para mim e falou assim: Leide, o Cacá está precisando de uma produtora.

Luciano: O Cacá Rosset?

Leide: Cacá Rosset. Eu pensei em você. O que você acha? Eu falei na hora, eu falei assim: eu topo. Cara, e fui produzir o Teatro do Ornitorrinco.

Luciano: Sem ter feito produção de nada?

Leide: Sem ter feito nada. Ela falou assim: meu, vem que eu te ensino, eu te ajudo. E foi muito legal. E aí eu trabalhei com o Cacá Rosset. E aí, quando eu estava trabalhando com ele, algumas pessoas vinham para mim e falavam assim: Leide, como é que faz não sei o que, essa lei de incentivo, essa tal? E aí eu falei assim: poxa, as pessoas estão… por que não? Por que não ampliar isso? Por que não? E aí foi quando eu acho que a gente se conheceu. Porque eu saí do Teatro do Ornitorrinco. Eu comecei: não, eu quero fazer um negócio para mim. Eu comecei a estudar essas leis de incentivos. Ver o que o que o marketing tinha a ver com isso. Como que o marketing podia se utilizar da cultura para divulgar uma marca de uma empresa? E o que uma empresa teria? Quais são as afinidades? Como é que seria isso e tal. E aí foi quando eu conheci… comecei a fazer contatos com alguns produtores, que eles me pediram para fazer captação de recursos. Aí eu peguei um projeto chamado Pixinguinha e fui bater numa empresa que você estava lá.

Luciano: Você foi bater na Albarus?

Leide: É. Exatamente. Por indicação – se eu não me engano – da ideia visual do João, do [inint 00:19:13]

Luciano: Pode ser, do João e do [inint 00:19:15] pode ser. Você bate lá. E a gente estava numa época que eu já tinha toda essa… gostava muito dessa questão de cultura. Eu estava à frente de um departamento de marketing de uma indústria de autopeças, tentando encontrar formas de poder produzir algumas coisas legais, relacionadas a esse caminho. E eu me lembro que você chegou com um projeto. E se eu – me corrige, tá? – se eu não me engano, eu falei para você o seguinte, eu falei: Leide, adorei a história. Mas o teu projeto é um projeto pronto, acabado, que não me interessa. Eu quero alguma coisa que tenha a ver com o DNA da gente aqui.

Leide: Exatamente.

Luciano: E eu queria criar um projeto de nós para fora e não de fora para dentro. Eu não quero bancar o teu.

Leide: Exatamente.

Luciano: Eu quero financiar o nosso.

Leide: Aí você falou assim: eu tenho umas imagens de uns projetos, uns temas, tal. Pô, está lá no galpão, vai lá dar uma olhada nisso, se vira com isso, vê o que dá para fazer com isso. Aí eu me lembro que eu marquei. Fui lá, cataloguei e tal e tal e tal. E a gente desenhou um projeto juntos. No qual…

Luciano: Sim. Que era o Cultura Itinerante [ ] que foi uma ideia, que a gente tinha feito dois ou três livros na época. Esses livros tinha um material iconográfico muito legal. E eu tinha uma ideia de: como é que eu posso levar isso adiante? E nasce a exposição. Vamos fazer uma exposição. Mas tem que ser uma exposição itinerante. Uma exposição itinerante não pode se pesada, não pode ser complicada. Tem que ser um negócio simples. Aí a gente começou a conversar. Aí você acabou desenvolvendo para a gente, desde o display até a montagem. E aí a gente acabou contratando o trabalho e a Leide virou…

Leide: Mas o mais importante era atingir aquele público alvo, né?

Luciano: Sim. Exatamente.

Leide: Que era um público específico, da empresa e tal. Isso foi muito legal de fazer.

Luciano: E aí você virou um braço nosso, que era o braço cultural. Ou seja, todo esse projeto cultural que a gente fazia: Leide, vem cá e produz para a gente. E você virou fornecedora nossa, durante sei lá, foi um bom tempo.

Leide: Foi um bom tempo.

Luciano: Nós fizemos o livro Guerreiros sem Espadas, do Orlando Villas-Boas, que também foi outra exposição maravilhosa. Foram coisas bem legais. A gente fez uns trabalhos bem legais.

Leide: Aí depois teve aquela que foi com o Peninha também.

Luciano: Com o Peninha. Sim. Lá do descobrimento do Brasil. A gente bancou o livro dele. Pô, eu fiz coisas legais naquele tempo.

Leide: Muito legais.

Luciano: Pô, a gente realmente… e eram coisas que você… o que me movia naquela época e que me move, de certa forma ainda, é o seguinte: cara, dar dinheiro para alguém fazer um livro, ficar em cima de uma mesa, bonito? Não. Qual é o propósito disso? Por que eu estou dando dinheiro para alguém fazer cultura, a troco de quê? Para ter o meu logotipo no anúncio da peça de teatro? Não, cara. Não. Isso é muito pouco, né? Para dizer na frente que fui eu que ajudei? Não. Nada disso interessa. Como é que eu posso fazer com que isso tenha consistência? Então, todo esse projeto nasce – eu acho que isso é legal, eu nunca contei isso para ninguém – ele nasce num cartão de Natal. Nasceu tudo num cartão de Natal. Quando a empresa fazia, todo ano, um cartão de Natal, daqueles bem babacas e dava lá, 20 mil cartões de Natal. Aí um dia eu cheguei para os caras e falei: cara, você vai gastar dinheiro com cartão? Então, vamos fazer um cartão. E aí comecei a bolar um cartão de diferenciado. E um dia, eu estava em Bauru, num churrasco. E meu irmão estava com a gente no churrasco. O meu irmão é zootecnista, viajando o Brasil inteiro, metido com zoológico e tudo mais. Começa a descrever um ninhal no pantanal mato-grossense. Como que era um ninhal, que aquele ambiente. Pô, eu fiquei encantado com aquilo. E aquilo não saiu da cabeça. Ficou aqui atrás, na cabeça, trabalhando. E um dia, eu bolo um cartão de Natal da empresa no final do ano e dou um salto além. Eu chego para um diretor e falo: cara, vamos fazer o cartão de Natal e um calendário? Com o tema ninhal? Como assim? Pô, é, lá no pantanal a gente vai, faz as fotos. Eu bolei. Esse diretor virou um baita amigo meu. Também era um maluco. Ele consegue aprovar numa reunião de diretoria. E, de repente, eu saio de lá com a grana para bancar o projeto. E o projeto significava montar uma expedição, ir para o pantanal do Mato Grosso, ficar lá o tempo que for necessário, fazer as fotografias, voltar para cá, produzir o calendário e o cartão de Natal. Um dia eu vou detalhar isso tudo aí. Aconteceu que foi feito. Eu fui junto. A gente foi para lá. Ficamos 72 horas no pantanal. Voltamos com milhares de imagens. Tantas imagens, que eu produzi o cartão de Natal, produzi um calendário maravilhoso e saiu um livro. E eu consegui convencer os caras a fazer o livro também.

Leide: Ou seja, uma campanha.

Luciano: Nasceu um livro. E a minha… aí eu disse o seguinte: ao invés de dar aquela garrafa de vinho, ao invés de dar bolsa, cara, dá o livro. E a gente conseguiu transformar num brinde da empresa e foi uma coisa muito legal. Tanto que saíram quatro ou cinco livros. Foi quando nasceu essa ideia de que a cultura pode ser instrumento para levar o nome da empresa adiante, né? E quando eu te encontrei, você caiu como uma luva lá. Infelizmente a gente não conseguiu voar muito mais alto, porque eu nunca consegui convencer a empresa a investir o volume que eu gostaria que fosse investido, mesmo usando as leis. Tinha um sistema tributário muito complicado lá dentro. Então a gente acabou não indo. Mas deu para fazer coisas que até hoje o pessoal lembra, cara.

Leide: Eu acho que o mais legal nisso tudo é todo o processo, né? Você vê o negócio saindo do zero e vai costurando. Eu acho que dá muito mais prazer.

Luciano: Você lembra quando nós desenvolvemos o PROGRID?

Leide: Muito. Muito legal.

Luciano: Processo de Gerenciamento dos Recursos de Informação Dana. Qual era a ideia? Como é que eu pego uma ação que eu vou fazer em uma coisa específica e faço com que isso dê frutos para todas as áreas da empresa? E a gente acabou bolando, eu acho, aquele banner, que a gente acabou fazendo, né?

Leide: Eu acho que eu tenho.

Luciano: E a gente montou um processo que a gente chamava de: roda o PROGRID. Eu estou com uma ideia aqui: vou fazer um cartão de Natal. Legal. Pega o cartão na mão e roda o PROGRID. E quando você rodava o PROGRID, você falava: cara, esse cartão pode ser usado aqui, aqui, aqui, aqui. Aquilo ganhava um…

Leide: Imagina um gráfico, uma cadeia de comunicação, onde nesse desenho estavam detalhados todos públicos com os quais a empresa se relaciona. Desde os diretos, indiretos.

Luciano: Sim. Em todos os departamentos da empresa e todo o que tem lá fora. Então, a gente pegava o negócio: como é que eu consigo fazer…

Leide: Com que isso vire uma campanha.

Luciano: Com que isso atinja todo mundo. Que é aquela história: já que eu vou fazer 5 mil camisetas para aquela ação de ponto de venda, se eu fizer 5.500 camisetas, eu tenho 500 para usar dentro de casa. E essas 500 podem gerar uma campanha. E essa campanha pode atender o RH, que também, por sua vez, pode atender um processo de recrutamento e seleção. Cara, era uma coisa maluca. A gente começava a puxar um novelo. O resultado disso é que você acabava otimizando o uso da grana de uma forma brutal. A gente fazia coisas fabulosas com pouco dinheiro. Porque conseguia desdobrar aquilo para todo mundo. Foi muito legal aquela época.

Leide: Muito legal.

Luciano: Eu tenho saudade daquilo lá. Eu tenho saudade daquilo lá. Mas um dia você chega lá e entra na sala: Luciano, eu te apresento minha mãe. Minha mãe agora é minha sócia. Lembra?

Leide: É verdade.

Luciano: Agora ela está comigo, nós vamos estar junto aqui. E a sua mãe começou a estar com a gente lá, atendendo a gente e tudo mais. Bom. Foram-se. Passou o tempo. A empresa sofreu mudanças brutais lá. E a gente acabou que parou. Parou a campanha. A gente desfez e perdeu contato. A Leide tocou a vida. Eu lembro que você mudou o teu negócio. Eu lembro que a gente perdeu contato.

Leide: Não. Eu continuei com a minha agência. Continuei atendendo várias empresas, fiz projetos interessantíssimos. Projetos em parceria com a UNESCO. Que até convidei o Itamar para fazer um trabalho com a gente. Foi muito legal, assim. Eu continuei desenhando os projetos.

Luciano: Você continuou nessa linha de usar as leis de incentivo para promover arte?

Leide: Sim. O meu foco ficou sendo sempre assim, as empresas. Desenhar. Se a empresa se interessava em utilizar leis de incentivo, ok. Senão, a gente desenhava projeto. E foi muito legal. Porque a gente atendeu a Redecard. Foi muito bacana. Inclusive que patrocinou o livro do Petkovic, a exposição do Petkovic que a gente fez. A gente fez esse trabalho com a UNESCO, que foi muito bacana. A gente fez um prêmio Cota de Arte, que era um prêmio voltado para fachada de um prédio em São Paulo, no qual o Claudio Tozzi ganhou, foi muito bacana. A gente fez muitos trabalhos interessantes. Muito legal.

Luciano: Deixa eu especular você um pouquinho aqui. Você acabou ganhando uma puta experiência nas duas pontas do processo. Porque você estava lá na frente, convencendo um diretor de marketing, um diretor de comunicação ou um vice-presidente corporativo, sei lá o que de uma empresa, que está preocupado em vender mais e ganhar dinheiro, a investir o dinheiro da empresa num produto que é absolutamente – eu não quero usar essa palavra, mas vou ter que usar – supérfluo. Entendeu? Cara, se eu botar dinheiro na arte, legal. Se eu não botar, a minha vida continua. Eu vou continuar vendendo e fazer o que eu estava fazendo. Então, eu não dependo disso para viver. E se eu tiver que escolher entre consertar meu torno e dar um dinheiro para você fazer o livro do Petkovic, eu vou consertar o torno, porque é aqui que o meu negócio vai andar. Esse é o conceito que as empresas têm lá dentro. Por isso é tão difícil você convencer a que o dinheiro seja aplicado arte. E você fez isso durante anos. Durante anos, levar e apresentar. Como é que era essa… deixa eu ver se eu consigo elaborar legal essa pergunta aqui. Como que era essa história de: vou sair de casa para ir visitar a empresa XPTO, onde eu vou encontrar um cara que eu nunca vi na minha vida. Eu não sei se ele sabe do que eu vou estar falando. Ele não tem a menor ideia do que é isso aqui. Eu vou ter convencer esse cara a botar dinheiro num negócio que ele não sabe que precisa. Ou seja, não é vender um produto que já tem demanda. É catequizar alguém de que aquilo que ele está fazendo merece o dinheiro dele. E ele tem que bancar esse projeto e lá na frente vai sair uma coisa que ele não sabe bem o que vai ser aquilo. Ele só consegue enxergar um livro, né? Ele fala: eu vou ter um livro na minha mão, com o meu logotipo. Ele só vê isso. Mas na verdade é muito mais do que isso, né?

Leide: A meta era justamente essa. Era mostrar que tem todo um lado diferente. Então…

Luciano: Como é que era isso?

Leide: Então, poxa, eu sempre fiz visitas a empresas. Assim, sempre estudei antes as empresas, produtos. Então, eu ia assim, com bastante informação, assim. Bem focada no que a empresa tinha feito na área de cultura. O que poderia ser diferente. Sabe? Ter uma outra… estudava o público com os quais ela se relaciona. Então, eu tentava assim, eu sempre tentei ser muito assertiva nesse ponto assim. Ser bem assim, objetiva, para poder falar a linguagem dos caras, do cara de marketing, o cara financeiro, entendeu? Para mostrar que tem…

Luciano: A consciência do negócio. Quer dizer, você não estava indo buscar dinheiro pelo amor à arte. Ponha dinheiro aqui, porque nós amamos a arte, a arte é importante. Não era por isso.

Leide: Não. Eu não estava pedindo favor. Porque se eu fosse pedir favor, eu estou pedindo… eu não estava acreditando no meu negócio. Então, eu ia lá vender o meu negócio. Para mostrar: por que aquele negócio? Por que aquele trabalho? Por que aquele projeto? O que vai trazer de interessante para a empresa? Quais são os ganhos que a empresa vai ter? O que pode tirar disso? Quais são os desdobramentos depois? Então nesse sentido, eu sempre assim, busquei ser muito objetiva, para estar falando a linguagem que interessa.

Luciano: Tomou muitos nãos?

Leide: Muitos.

Luciano: Mais nãos ou sins?

Leide: A gente sempre leva mais nãos. Mas eu acho…

Luciano: E aí, como é que é essa…

Leide: A gente tem que ir em busca do sim. Então esse é o nosso objetivo: a busca do sim.

Luciano: Como é que é você chegar com o maior tesão, você montou aquele puta projeto maravilhoso. Ele está na tua alma. Aquilo, você senta na frente do cara, explica aquilo tudo e toma um não. Como é que é isso? O que é isso? É uma derrota?

Leide: Não.

Luciano: O que é?

Leide: É uma etapa. Essa foi. Vamos lá. Vamos passar para outra. Eu acho que é uma… Luciano, a vida é assim, né? Todo dia tem não. Na verdade, a vida, a gente já acorda com um não. Vamos em busca do sim. Vamos em busca de fazer acontecer. Vamos em busca de realizar. Então, cara, se a gente for desanimar em cada não que a gente escuta, pô, a gente não vai sair daqui, não é?

Luciano: Interessante. É uma área… eu sei, porque eu estava lá dentro, tá?  E eu sabia o que era vender para dentro da empresa, a loucura que a gente ia fazer lá. E era muito complicado. Na hora que você está na frente do controller. E mostrar para ele que aquele dinheiro tinha um retorno era complicado. A minha concorrência era um engenheiro com uma planilha excel, mostrando todo o retorno do investimento, dia por dia, hora por hora, quanto vai dar. Esse era o meu concorrente. Ele botava a planilha, ele falava: produzimos “x”, vamos vender “x” a mais. E vamos ganhar mais dinheiro. E aí eu chegava com os meus números românticos e botava a minha planilha e falava: olha aqui. Quanto vai vender a mais? Eu não sei, cara. Se eu investir um dólar em você, quanto vai voltar? Eu não tenho a menor ideia de quanto vai voltar. Para que fazer essa merda, caralho? Ah, porque é bom para a reputação, para a imagem da empresa. Mas era tudo romântico, né? Você não tem como quantificar isso e falar: não dá o dinheiro para o engenheiro, dá para mim. Para um controller, que ganha para fazer a empresa gerar dinheiro. Então, era um… cara, que perere. Como eu briguei lá dentro. Mas foi uma baita escola e serviu para me ensinar a falar a língua dos bandidos lá. Muito bem. Você continua, está tocando o teu negócio, a tua empresa está lá andando. As coisas estão indo. E aí?

Leide: E aí, em 2004, aí eu fiquei grávida do Pedro. O Pedro nasceu em 2004. Então o negócio já assim, como eu sempre estive na frente, então assim, foi um momento que a gente só ficou realizando. Não foi um momento de prospecção. Mas no final de 2004 a minha mãe, que era minha sócia, que cuidava da parte jurídica da empresa, ela começou a perder força no braço direito. Ela fazia bastante exercício, corria no Ibirapuera, tinha uma vida muito ativa. Mas de repente, lavando o cabelo, o lado direito, ela viu: poxa, esse braço não tá legal. Ligando o carro: pô, não tá… não estou conseguindo. A chave de casa. E ela… e foi uma perda progressiva. E aí foram várias consultas, vários médicos. E como ela morava – mora – sozinha. Então assim, eu acompanhei todo esse processo. Que é um processo sofrido. Você mergulha naquilo. Você… é um momento que você está toda focada ali. E aí, nesse momento assim, eu resolvi fechar a minha empresa. E ainda eu fechei…

Luciano: Você não sabia o que ela tinha ainda?

Leide: A gente… não. Isso foi no final…

Luciano: Você não sabia o que ela tinha ainda?

Leide: A gente assim… Foi no final de 2004. Em fevereiro de 2005, numa consulta… o primeiro médico falou que seria esclerose lateral amiotrófica. Mas assim…

Luciano: Fala de novo. Fala devagar, de novo. Esclerose?

Leide: Esclerose lateral amiotrófica.

Luciano: Amiotrófica?

Leide: É. Então, no final de 2004 ela foi perdendo força. A gente fez várias consultas, chegamos num neurologista em fevereiro, 16 de fevereiro de 2005. E ele falou que ela teria pouco tempo de vida e que o que ela tem é esclerose lateral amiotrófica.

Luciano: Eu não sei se você já tinha ouvido isso na sua vida?

Leide: Nunca.

Luciano: Nunca? E de repente alguém chega em você e fala o seguinte: ela está com sintomas de lateral…

Leide: Esclerose lateral amiotrófica.

Luciano: Esclerose lateral amiotrófica. E aí você faz aquela cara de: ué? E o que é isso?

Leide: O médico, ele foi muito frio com a gente. Um péssimo médico. Esse primeiro médico que a gente foi, que deu, sinalizou que seria isso. Ele simplesmente, ele falou assim: olha, vai atrás desse remédio aqui. Mas ele não vai fazer nenhum efeito não. E pode ir embora e tal. Não sei o que. E você tem pouco tempo de vida. E não deu assim, um encaminhamento. E foi muito assim, triste aquela…

Luciano: Mas e aí, o que é isso? Como que você sai de lá falando? O que é isso? Que doença é essa?

Leide: Aí a gente começou a pesquisar.

Luciano: Por conta própria vocês foram?

Leide: Por conta própria. E foi um susto. Foi um susto. Primeiro que ele passou um remédio chamado Riluzol. Esse Riluzol você tem que pegar, o governo te fornece. Mas para isso, você precisa de uma receita. Você tem que fazer um cadastro. Só que a gente saiu daquela… e ele falou assim: você pode fazer o pedido. Esse remédio é muito caro. Mas está aqui a receita. Cara, a gente ficou tão desesperada. A gente viu na internet onde comprar. E a gente encomendou. A gente pagou uma fortuna. Muito caro esse remédio. E esse primeiro… a gente já saiu de lá e já foi atrás desse remédio, assim, de tanto desespero.

Luciano: O que é esclerose lateral amiotrófica?

Leide: Esclerose lateral amiotrófica é uma doença que acomete toda a parte motora do corpo. Por que…

Luciano: É neurológica?

Leide: É neurológica. Porque ela afeta os neurônios que cuidam da parte motora. E ela é progressiva. Até o momento não tem cura. E ela vai acometendo todos os músculos da pessoa. Os músculos voluntários.

Luciano: E ela vai perdendo o movimento?

Leide: Ela vai perdendo o movimento, porque quebra-se uma conexão entre o neurônio e o músculo. Então, na verdade o músculo começa a ficar flácido. E a pessoa não consegue movimentar. Isso para todos os músculos. Então, respiração, deglutição, as pernas, braços.

Luciano: Quer dizer, um dia, isso mata a pessoa, por incapacidade de…

Leide: Comer, respirar.

Luciano: E aí? Como é que… a hora que vocês leem isso? E olha essa…

Leide: Não. Aí a gente continuou fazendo várias consultas, com vários médicos, vários exames. A minha mãe fez mais de 900 exames. E a gente fez um dossiê, fez dossiê bilíngue. A gente mandou para vários especialistas no mundo. A gente…

Luciano: Para ver se era isso mesmo ou já tendo certeza que era?

Leide: A gente consultou um outro médico aqui. Um médico que fundou uma associação chamada ABrELA, Associação Brasileira de Esclerose Lateral Amiotrófica, que é o doutor Acary, que é ótimo médico. Ele falou assim: sim. Ela tem ELA. Que ELAS são as iniciais de esclerose lateral amiotrófica. Ela tem ELA.

Luciano: Sim. Stephen Hawking tinha isso.

Leide: É. E a gente vai cuidar dela. Enquanto a gente está cuidando dela, a gente também consultou um outro médico muito bom, da USP de Ribeirão Preto, doutor Wilson Marques, que ele acreditava que não seria ELA, por conta de alguns detalhes nos exames. Porque ELA é o seguinte: não tem um exame que você faz, seja de sangue, de imagem, que vai dar aquela doença. É uma doença, que ela é por exclusão. Então você faz vários exames e depois que vai… se continuar perdendo força, só pode ser ELA. É mais ou menos assim. Então a gente continuou fazendo essas consultas, fizemos esse dossiê, mandamos para vários locais fora do Brasil. E através do doutor Acary, a gente cuidou dela. A gente está cuidando dela, das coisas. Porque começa a acometer assim, ela chegou, em agosto de 2005 ela não conseguia mais deglutir, não conseguia mais engolir.

Luciano: Foi muito rápido isso?

Leide: Foi muito rápido. Em fevereiro ela ainda corria no Ibirapuera. Ela parou de correr depois dessa consulta. Em agosto ela fez a gastrectomia, para poder se alimentar. Porque ela não conseguia mais deglutir.

Luciano: Que é um tubo jogando alimento dentro do…

Leide: Direto no estômago.

Luciano: No estômago?

Leide: É. E aí ela continuou perdendo força. E em novembro ela fez a traqueostomia.

Luciano: Para ela poder respirar?

Leide: Para respirar. Porque ela não conseguia mais respirar.

Luciano: Quer dizer, numa dessas ela estava completamente impossibilitada de qualquer coisa, né?

Leide: Totalmente dependente.

Luciano: Quando é que você olhou esse diagnóstico todo e parou para pensar de que: eu vou dedicar a minha vida, a partir de agora a cuidar da minha mãe, a ponto de fechar a minha empresa para poder ter mais foco?

Leide: Mas isso nunca foi para mim uma questão. Nunca foi assim: pô, vou fechar minha empresa. Vou parar de trabalhar. Nunca foi. Eu nunca… eu nunca me senti assim, que eu estaria perdendo alguma coisa. Eu nunca senti assim: oh, pô, coitada de mim. Nunca. Isso foi automático. É uma coisa assim: eu não teria outra coisa a fazer. No meu ponto de vista, assim, eu não teria outra atitude, que não essa.

Luciano: O teu marido estava com você nessa?

Leide: Sim, o meu marido 100% comigo. Total comigo. Ele falou: não, tranquilo. Vamos lá. Vamos… e assim, 2005 foi um ano muito difícil para mim. Foi um ano, tipo, de muitas perdas para ela. Para você ter uma noção: em 2005 eu, tipo, dei todos os banhos nela, com as meninas. Foi uma dedicação assim. Tipo assim, o meu garoto, que vai fazer 18 anos, ele tinha 4 anos quando a minha mãe começou. E, imagina, ela superpresente. Morava aqui em São Paulo, assim, cuidava dele e tal. E assim, eu acho que para ele foi muita perda também. Isso porque eu me lembro que num desenho que ele fez, ele… ah, faz o desenho da sua família. Ele colocou lá o pai dele, o Marcelo, ele, a babá e o Pedro, que é o meu mais novo. Então assim, e dentro daquele processo todo, a professora falou assim: e sua mãe? A minha mãe está cuidando da vovó. Então assim, foi um ano de muita perda. Mas quando você está inserida naquele… talvez, ele tenha sofrido muito mais que eu. Assim, pelo fato de ser pequeno e tal, né? Mas isso depois, eu fui descobrir com muita análise, depois, assim, de coisas que assim, que a gente vai… que a gente vai…

Luciano: Que ninguém passa incólume por um… eu não digo nem da pessoa que está sofrendo a doença. Quem está em volta.

Leide: Sim, né?

Luciano: A menos que vire as costas e se mande e não tenha nenhuma consciência, todo mundo vai ser impactado com isso, né?

Leide: Sim. Mas olha também que loucura. A minha mãe estava lá um dia. Ela estava na cadeira de rodas com gastrectomia. E ela pegou e falou assim. Ela estava na casa dela. Ela falou assim: eu não quero que os meninos me vejam assim. Porque eu tinha acabado de chegar com o meu garoto, com o Gabriel, o mais velho. E aí, só que ele passou assim, perto dela, ele passou assim e deu um beijo e falou assim: eu te amo, vovó. E deu um beijo assim e tal e já foi pegar um brinquedo, já foi para lá brincar. Foi como se fosse assim, uma coisa assim, ela falou isso e ele já veio e deu um beijo nela. E sabe, é tudo assim, é muita coisa misturada. É muito sentimento misturado. É muita… ao mesmo tempo que você está vivendo aquela coisa, de repente, tem essa coisa linda que acontece, entendeu? A minha mãe, ela, enfim. É porque assim, eu acho que ela só realmente, ela começou a fazer poesia quando ela descobriu, quando ela conseguiu aceitar a doença. E o fato de ela fazer poesia, para a gente assim, é assim, um alívio. É um respiro para toda essa dor. Então assim, a gente consegue encontrar a felicidade no fundo do poço. Dentro da caverna. Sabe? Ontem eu li um artigo muito interessante, do Jairo Marques, na Folha de São Paulo, Cotidiano. É um cadeirante também. Ele escreveu assim, que em muitos momentos, a gente precisa de alguém para nos resgatar da caverna. E assim, fazendo um paralelo para a vida, um paralelo para tantas… assim, a gente é humano, né? A gente não está sozinho. Então a gente tem tanta limitação. E às vezes, a gente precisa de alguém, meu, para tirar a gente daquele fundo, sabe? Daquela energia. A gente precisa. Então assim, dá para fazer muito paralelo com isso.

Luciano: Você está em 2005.

Leide: 2005.

Luciano: Tem o diagnóstico.

Leide: Sim.

Luciano: Essa coisa vai numa velocidade impressionante. E no final de 2005 sua mãe está numa cadeira. Estava em cadeira ainda?

Leide: Ela já estava deitada.

Luciano: Deitada.

Leide: No final de 2005 ela fez a traqueostomia.

Luciano: Traqueostomia. Alimentando por aqui. Quer dizer, ela estava entregue. Ela ganhou rapidamente a consciência de que ela ficaria prisioneira de um corpo que ela não podia mais fazer nada. Não dá para mexer, não dá para escrever. Não dá para pegar um copo d’água. Não dá nada. Não dá nada. Ela estava lá, inerte ali, aguardando que alguma coisa acontecesse, né?

Leide: Está na caverna.

Luciano: Está na caverna. Está lá na caverna. Vocês estão em volta, assistindo aquilo tudo acontecer, sabendo que a pessoa está plenamente consciente. Porque ela ouvia tudo. Ela via tudo. Ela não conseguia falar. Ela estava falando ainda? Falava ainda?

Leide: Uma semana antes, até depois de ela fazer a traqueostomia, a gente conseguia ler os lábios dela. Mas depois não mais.

Luciano: Depois não mais?

Leide: Não mais.

Luciano: E aí, de repente…

Leide: E nesse ponto, assim, pesquisando na internet, eu encontrei uma tabela visual proposta por um médico, doutor Carlos Arce, de Campinas, um oftalmologista excepcional. Onde ele propunha o uso dessa tabela para pacientes de esclerose lateral amiotrófica. Porque essa tabela seria com o movimento ocular. Então é uma tabela composta de colunas e linhas. Onde dentro dessas colunas e linhas estaria o alfabeto. Então coluna: 1, 2, 3. E ela mexe o globo ocular e a gente confirma. Está na coluna 3 a letra que você quer dizer? Sim. Linha: 1, 2, 3, 4. É o P? Ah, então ela olha para o sim. Então, depois do P tem vogal? Aí tem vogal. Então: a…

Luciano: Pelo movimento do olho dela?

Leide: Pelo movimento ocular. E aí quando eu apresentei essa tabela para a minha mãe, eu falei: mãe, olha, eu achei essa tabela e tal. O que você acha? Vamos fazer um teste? Aí vamos lá então, já, coluna: 1. 2. 3. E a gente foi nesse processo. Aí ela falou. Linha…

Luciano: Falou não, ela deu… ela interpretou. Você conseguiu um código Morse. Pelo movimento do olho dela…

Leide: Pelo movimento ocular.

Luciano: Você conseguiu, você ia escrevendo a letra que ela queria.

Leide: Ela foi falando e eu já fui escrevendo. Aí ela falou: minha vida vai se esvaindo. Não sei se vou chorando ou sorrindo. Sorrindo, pondo fim a uma agonia que não aguento mais. Chorando, por deixar para trás, pessoa que amo demais. Aí assim, eu engoli a seco, primeiro. E falei: mãe, isso é uma poesia. Que legal. Poxa, que bacana. Quer falar mais alguma coisa? Ela já me solta outra poesia. E aí começou todo esse processo.

Luciano: Quanto tempo leva para você escrever uma poesia nesse processo todo? Eu sei que era o comecinho, tudo, era pouca prática. No começo, pouca prática.

Leide: Não, mas naquele momento era rápido. Porque o globo ocular estava fácil naquele momento. Hoje está bem mais… hoje a gente está em 2018. São 13 anos. Então hoje a gente confirma mais vezes com ela. Não são todas as garotas que cuidam dela que têm essa… são poucas. Umas três ou quatro garotas que conseguem identificar bem. E a gente confirma também bastante. Mas naquele momento era rápido, Luciano. Ela conseguiu fazer uma coisa muito assim…

Luciano: Quer dizer, vocês encontraram um canal de expressão para ela.

Leide: Exatamente.

Luciano: De repente, ela podia se expressar.

Leide: E isso foi o que salvou, assim.

Luciano: Bom, naquela época você entrou em contato comigo. A gente se falou rapidamente. Você me deu assim, uma palhinha do que estava acontecendo. Eu não tinha a menor ideia do que estava acontecendo. E você me comentou que sua mãe tinha poesias suficientes e que vocês estavam pensando de fazer um livro, não foi isso?

Leide: Isso. Exatamente.

Luciano: E eu não tinha a menor ideia do que estava acontecendo. Eu não sabia de nada. Eu falei: como assim? Como? Quando eu descobri o que era, eu falei: meu, como? De onde? E aí você mandou para mim algumas poesias. E me convidou para fazer…

Leide: A abertura.

Luciano: O texto de abertura do livro.

Leide: Segundo livro.

Luciano: Era o segundo livro?

Leide: É. Porque esse primeiro, ela foi falando as poesias, foi juntando. Juntaram 40. São 40 poesias. Aí ela falou assim: vai na minha pasta no computador e tal. E quando eu vi, tinha um monte de poesias dela também. Então, a gente juntou mais 20 que já existiam. E aí gente fez um livro caseiramente. Para entregar, tipo, para os amigos no final do ano, em 2006 isso.

Luciano: O livro que eu fiz era o Letras da Minha Emoção?

Leide: Não. Você fez o Poesias Para me Sentir Viva.

Luciano: O Letras da Minha Emoção era o primeiro?

Leide: Era o primeiro.

Luciano: Era o primeiro. Então, eu me lembro que esse livro eu acho, que você me mandou.

Leide: Isso.

Luciano: E esse livro gerou um podcast?

Leide: Gerou. Eu lembro.

Luciano: Que eu fiz um Café Brasil, chamado Letras da Minha Emoção, onde eu conto essa história e uso os poemas dela ao longo do programa.

063 – Letras da Minha Emoção

 

Leide: E você leu o e-mail que eu te passei, contando tudo.

Luciano: Sim, sim. Esse podcast só foi até… eu vou ver até o número dele lá, para dar a dica. Mas eu vou botar o link dele no programa, Letras da Minha Emoção. Eu fiquei muito impressionado com aquilo, porque eu falei: cara, imagina o conflito que essa cabeça está vivendo nessa situação. Vendo o mundo passando em volta, presa dentro do corpo. E ela tem até um poema que ela fala isso, que ela está presa lá dentro. E ao mesmo tempo, começou a exprimir e começou a fazer poesia. Eu fiquei impressionado com aquilo. Eu fiz com muito gosto o prefácio daquele livro. E a gente perdeu o contato de novo. Perdemos contato de novo. Aí, eu naquela loucura. Eu acho que nessa época já era 2008 isso aí? Por aí.

Leide: É.

Luciano: Era quando eu estava saindo da Dana para começar o Café Brasil. Aí minha vida virou uma bagunça. Bah, foi uma loucura. E a gente perdeu contato. E eventualmente, eu cruzava com: a Leide está fazendo alguma coisa, alguma coisa, alguma coisa.

Leide: Mas eu sempre te acompanhando.

Luciano: Pois é. Mas a gente de repente trocava e-mail: aí, como é que está? Precisamos conversar, mostrar o material que eu tenho. A gente acabou não se vendo. Até que outro dia, há pouco tempo atrás, você mandou para mim um e-mail ou um convite?

Leide: Um convite.

Luciano: Você mandou um convite para lançar o seu filme. O lançamento do seu filme. Eu: como filme, cara? De onde? Aí eu bati o olho rapidamente no convite. Entendi do que é que se tratava. Não mergulhei fundo. Porque eu falei: cara, chegou a hora de eu chamar a Leide, para conversar com ela. E acho que essa experiência que você viveu é uma experiência que pode trazer para a gente muita… muito insight, muita inspiração aqui. Sua mãe, então, passou a viver a vida com cuidadores, você teve que montar uma estrutura na sua casa para poder atende-la.

Leide: Na casa dela.

Luciano: A tua vida passou a girar basicamente em torno dela. Quer dizer, você nunca se afastou. Pelo contrário. Vocês continuaram promovendo e transformando as coisas. Você lançou o livro. Eu lembro que o livro era lançado, não era em casa?

Leide: Não.

Luciano: Era no Teatro Folha. Até coisas assim. E começou a usar aquela tua expertise: não, eu sou produtora de eventos. Eu vou produzir os eventos. E eu acho que para a tua mãe foi fantástico. Ela começou a ver a produção dela acontecendo. E aquilo ajudou a mantê-la viva. Me conta a história que deu a fagulha para se transformar lá na frente, num filme.

Leide: Quando ela começou a fazer poesias e lançou o primeiro livro dela, o Gilberto Dimenstein fez um artigo sobre isso. E fez também um programa na rádio, na CBN, falando a respeito. E um amigo, o Ralph Peticov, ele ouviu esse programa e tal. Aí ele me ligou e falou: Leide, é a sua mãe? Cara, isso tem que virar filme. Não sei o que. E ele trabalhava numa produtora. E aí a gente começou a fazer alguns contatos. A produtora se interessou em fazer um filme. E eu achei interessante. Mas aí eu falei: poxa, mas fazer um filme? Você quer saber? Vou comprar uma câmera. Eu comprei uma câmera, cara e deixei. E falei para as garotas: toda vez que ela for se comunicar, vocês filmam, do jeito de vocês, filmam. E aí a gente começou a montar um acervo superinteressante, com essas poesias nascendo. Em paralelo, a produtora começou a falar: não, vamos entrevistar tal pessoa, tal pessoa. Começou a entrevistar outras pessoas para falar dela. E chegou um momento que essa produtora falou assim: olha, acabo, já filmamos tudo, agora vamos editar para lançar o filme. Eu falei assim: mas como editar? Porque eu tinha certeza que aquele material que eu tinha – que eu tenho – era um material muito mais interessante, que é um material dela, um material original, um material que está… onde a gente está vendo as coisas. A gente está vendo aquela emoção das meninas, descobrindo o que está nascendo. Entendeu? E aí a gente acabou rompendo com essa produtora, porque eu achei que não seria esse o filme, de alguém falando. Têm vários programas jornalísticos sobre isso. Tinha que ser uma coisa diferente. E aí a gente montou esse acervo. Só que esse acervo a gente foi costurando. Aí em paralelo assim, a minha mãe ia… depois do lançamento do segundo livro dela, que ela foi na Folha. A Mara Gabrilli foi, estava lá e falou assim: Leide, agora que você descobriu o caminho das pedras, vamos sair, vamos num cineminha e tal.

Luciano: Só me dá uma dica aqui. Quando você fala: ela foi na Folha. Sua mãe estava presente no lançamento?

Leide: Minha mãe estava presente no lançamento do segundo livro dela.

Luciano: Tá. A logística para você colocar a sua mãe no lançamento do livro dela?

Leide: Ah, isso é muito interessante. Porque assim, o livro pronto. Vamos lançar num lugar lega e tal? O que a gente pode fazer? E a Folha sempre deu muito apoio assim, sempre divulgou as poesias dela, o trabalho dela. Sempre fez entrevistas com ela. Sempre assim, divulgou bastante. Então eu falei assim: poxa, será que a folha… será que? Enfim. Mãe, vamos fazer um lançamento diferente? Você topa fazer esse lançamento? De repente, vamos ver se a Folha nos ajuda, vamos fazer um lançamento no auditório da Folha? Ela falou assim: olha, eu só vou se eu estiver deitada. Vamos de maca, então. Aí eu fui para a Folha. A gente viu todo o caminho que ela poderia fazer. A gente fez uma produção. Então ela entra por aqui, vai esse, o elevador. Tem um elevador lá maravilhoso, pelos fundos, tal, não sei o que, esse aqui dá certo. Enfim. Então, pô, foi legal. E a gente foi. E ela foi de ambulância e de maca. Então ela não saiu. Porque veja: você está toda flácida, para sentar é muito… assim, é muito difícil, né? Com dor. Não é fácil. Então deitada, pelo menos ela fica tranquila, fica na dela e consegue participar, consegue estar lá.

Luciano: Deixa eu te perguntar uma coisa aqui: lá atrás, numa cadeira de rodas, falando, ela falou para você: eu não quero que os meninos me vejam assim.

Leide: Sim.

Luciano: Agora, numa situação muito mais crítica, pior do que aquela, passou pela cabeça dela: eu não quero que as pessoas me vejam assim?

Leide: Não. Porque ela já tinha resolvido isso. Quando ela resolveu isso, ela fez essas poesias. Ela virou. Ela conseguiu… na verdade, não tem. Vergonha do quê? A gente é assim. A gente não… pelo contrário, assim. Assim: estamos resolvidos. A minha mãe está resolvida. Ela não tem mais a vergonha do neto ou a vergonha de qualquer… essa fase já foi. Ela aceitou a doença. A doença é aceita por ela. Então, nesse sentido, com a doença, assumindo a doença, vamos ser felizes com ela. Vamos ser felizes com o que… com o beijo do neto, com a poesia que nasceu, com o sorriso de alguém.

Luciano: Você conversou com ela sobre como é que ela recebe o processo ou se ela nem dá bola para isso? Aquela coisa das pessoas ficarem com pena? Da pessoa chegar para olhar. E olhar, e ela vê no olho da pessoa aquele: ah, meu Deus, que pena. Ai, que coisa. Porque isso é natural das pessoas. É natural. Por mais que a pessoa diga: não vou. Ela vai expressar algum tipo de sentimento. Você trata a sua mãe como é sua mãe e vamos embora. E vamos lá, mãe. Deve brigar com ela. Deve acontecer tudo isso com você. Porque você está totalmente integrada. Um estranho, que não conhece direito, ele vai bater o olho e ver a expressão: que pena. Ou: que horror. Ai, meu Deus, comigo não. Isso passa. Ela, em algum momento, ela comentou como é que ela recebe? Como é que ela percebe? Como é que ela processa isso ou não está nem aí para isso?

Leide: Não. Assim: a gente tem algumas regras, por exemplo, para entrar no quarto dela. Só entra avisando antes, se ela autorizar. E assim, para entrar no quarto dela ela já faz um… a gente já explica: olha, ela não está assim exatamente como a gente, ela mudou muito a fisionomia dela e tal. Mas assim: olha no olho dela e desencana que ela está doente, cara. Conversa como se fosse uma pessoa normal. Ô Dona Leide! Então assim, as pessoas entram lá: ô Dona Leide, tal e tal. Já conversa com ela. Isso é uma regra. Que é conversar com ela, perguntar para ela e não ou para a cuidadora ou para quem está do lado. Porque já aconteceu, por exemplo, de médico novo, da Home Care chegar lá no quarto dela e começar a conversar com a cuidadora sobre ela.

Luciano: Como se fosse um vegetal.

Leide: Como se fosse um objeto. E ela falou assim… e ele falar, por exemplo: ela está com dor? Ela passou bem hoje? Ah, então tá, não sei o que. E aí a mãe ficou desesperada com a situação. A cuidadora, muito eficiente, falou assim: Dona Leide, quer falar alguma coisa? Ela disse que sim. Ela olhou para o lado assim e elas foram para a tabela. A minha mãe falou: primeiro: bom dia, doutor. Porque ele entrou no quarto dela e não deu nem bom dia para ela. E depois ela falou: doutor, é comigo, não com as cuidadoras. É para falar direto comigo. Depois que isso rolou, cara, ninguém entra lá se não for para falar com ela, nos olhos dela, se dirigir a ela. Não tem problema de comunicação. Qualquer coisa, quem ajuda é a cuidadora ou quem está lá, entendeu? Então assim, é uma orientação que a gente dá.

Luciano: Perfeito. Me fala daquele evento. Daquele primeiro evento. É a primeira vez que ela sai de casa, na produção, vai para um local, onde vai ser lançado o livro dela?

Leide: Foi a primeira vez que ela saiu de casa naquela situação, com uma ambulância.

Luciano: Sim. E ali ela conseguiu ver o lançamento e ouvir o lançamento.

Leide: E participar.

Luciano: Porque teve as atrizes que leram as poesias. E devia estar um povo todo lá, né?

Leide: Nesse primeiro livro, que a gente fez o lançamento na Folha, que foi o segundo dela. Foi a Fernanda D’Umbra e a Cris Couto que fizeram a leitura. Ficou muito legal assim, foi…

Luciano: A Mara estava lá?

Leide: A Mara Gabrilli foi.

Luciano: Muito bem, a Mara Gabrilli, para quem não sabe, muita gente conhece. Hoje ela é uma política paulista, de São Paulo. Que há muitos anos atrás sofreu um acidente e ficou tetraplégica. Então, ela se movimenta numa cadeira de rodas. Ela tem movimento nas mãos, ela consegue mexer as mãos um pouquinho. E ela consegue pilotar a cadeira dela. Mas do pescoço para cima, ela está íntegra. Ela mexe, ela fala, ela consegue se movimentar. E ela acabou virando uma defensora de todas as ações, etc. e tal, que tem a ver com…

Leide: Com pessoas com deficiência.

Luciano: Com pessoas com deficiência de algum tipo. E ela estava lá no lançamento?

Leide: E ela falou para a gente, falou assim: Leide, pô. Ela falou: Leides, já que vocês descobriram o caminho das pedras e tal, pô, vamos sair um dia, vamos num cineminha e tal. E aí, um mês depois ia ter um show do Ney Matogrosso e a gente comentou sobre isso. Pô, mãe, o Ney Matogrosso e tal, não sei que, vamos? E ela topou ir.

Luciano: Ir no show?

Leide: Ir no show.

Luciano: Onde era o show?

Leide: No antigo Palace, lembra?

Luciano: No Palace. Claro que lembro.

Leide: E aí a gente… aí eu fui para lá para conversar com eles. Eu falei: olha, a minha mãe e tal, tem que ser com ambulância. Então, a gente tem que entrar uma hora antes das pessoas. Porque é muito aparato, assim, muitos equipamentos para entrar. Então, tinha que fazer toda a produção para poder leva-la. Aí os caras pegam e falam assim para a gente: ah tá. Ela está numa maca? Então ela vai ocupar o espaço…

Luciano: Quando você fala maca, não é… é uma cama especial? É uma cama com rodas.

Leide: É. É uma maca. No caso da minha mãe, a gente acaba alugando maca de obeso, para ela poder fica mais confortável. Não que ela seja obesa. Mas mais é para ter um pouco… porque a maca de obeso – se eu não me engano – são 90 centímetros, a outra são 70 centímetros de largura. Então é muito… entendeu? Então, ela não fica reta. Ela fica virada. Então, de um lado ou do outro. Então, ela fica mais confortável. E aí o pessoal lá, T4F, uma coisa assim, T4F, o cara falou assim, ele disse: olha, ok. Ela vem. Ela vai ocupar um espaço de 8 lugares. Mas como nós somos bonzinhos, nós vamos dar um desconto de 50%. Ela paga só 4. Então, eles vieram com a proposta para ela pagar 4 ingressos, só dela. Lógico, as outras pessoas, todo mundo estava pagando, enfim, a gente estava pagando. Mas eu voltei para a minha mãe e falei: mãe, olha, é isso. A gente falou: pô, que saco, meu. E assim, e com os meus irmãos, a gente falou: não gente, mas pera aí. A gente não pode desincentivar. A gente falou assim: vamos incentivá-la a ir mesmo assim. Poxa, porque vai ser uma conquista tão grande ela sair de casa. Isso nunca aconteceu. Para ir num show. Poxa, isso é tão importante. A gente achou que… e a gente acabou convencendo ela: vamos lá, mãe. Vai. Vamos nessa.

Luciano: Pagaram 4 ingressos?

Leide: 4 ingressos. Depois de dois, três meses, tal, teve um show da Maria Bethânia, que foi no Teatro Bandeirantes, onde eram cadeiras. Não eram mesas. Aí não tinha como eles cobrarem 4 ingressos. Não tem mesa é só cadeira. Ela ia ficar num canto assim. E aí ela pagou um. Aí teve de novo, um show do Ney Matogrosso, no mesmo local. E aí eu fui lá falar com eles de novo. Ele disse: não, 4 ingressos. Aí eu voltei para ela: mãe, e agora? Ela falou assim: eu não pago e eu quero ir. Aí a gente apoiou. A gente comprou essa briga. Aí a gente foi na Promotoria de Justiça. A gente fez um estardalhaço. A Mara deu um superapoio. Ela fez um artigo para a Folha de São Paulo, que saiu ali em Tendências e Debates: Pagar 4 Nunca Mais. Então… e assim, por pressão mesmo, eles resolveram cobrar um ingresso. Que na verdade é meio, porque ela tinha mais de 60 anos. E aí, nisso, a gente continuou indo. Inclusive, ela vai no show do Caetano dia 14 de dezembro, que a gente já está fazendo todo o esquema para ela ir e tal. Agora sempre pagando um ingresso, no caso, meio, porque ela tem 60.

Luciano: Eu vi uma – voltando para aquele primeiro show – eu vi uma foto do Ney ao lado dela.

Leide: Isso.

Luciano: Foi naquele primeiro show?

Leide: Foi naquele primeiro show.

Luciano: Que ele ficou sabendo, ele viu? Como é que foi isso?

Leide: Não. Aí, como a minha mãe também já tinha os livros, aí a gente falou com a produção dele, falou: minha mãe e tal, queria dar um livro para ele de presente, que ele autografasse os CDs dele e tal. Que a minha mãe levou no show para ele autografar. Então assim, toda vez que vai em shows, Ney, Maria Rita, Caetano e Gil. O próprio Nuno Mindelis, a gente foi ver no SESC Pinheiros, Ana Carolina a minha mãe também foi ver. Enfim, todos esses artistas deram muito, assim, apoio para ela. Então, eles vão encontrar com ela antes ou depois do show. Que como a gente chega antes, a gente chega, eles estão passando o som. Aí o Caetano e o Gil foram antes do show. A Maria Rita foi uma vez antes e foi uma vez depois. Ela foi em três shows da Maria Rita, foi em três shows do Ney. Então, são vários shows. Mas o primeiro, que deu esse problema. E depois, eles aceitaram. E depois, também, além do… porque eles tiveram que… eles receberam uma notificação da Promotoria, para fazer um Termo de Ajuste de Conduta. Até para nunca mais acontecer isso, tanto com a minha mãe, quanto com qualquer outra pessoa que fosse nessas condições. E a Mara Gabrilli era vereadora na cidade de São Paulo. Então, ela fez uma lei, chamada Lei Leide Moreira, que prevê multa para qualquer estabelecimento que queira cobrar mais de um ingresso por pessoa. Seja pessoa obesa… ocupe o espaço que for. Então, isso foi uma coisa muito legal. Então, voltando àquela história do filme, além daquelas imagens e aquele acervo que a gente estava guardando e fazendo e compondo e produzindo dela fazendo as poesias, dela na tabela se comunicando, a gente também começou a filmar esses momentos. Esses outros momentos. As festas na casa dela, os encontros com as pessoas importantes que iam lá. As coisas que estavam acontecendo ali nesse tempo todo. São 10 anos que a gente conseguiu assim, documentar tudo isso. E aí, nesse tempo, eu fiquei com isso na cabeça: pô, a gente tem que fazer um filme. Eu tenho que… e aí fui aprender como é que edita. Eu fui aprender final cut. Fui estudar. Fui aprender final cut. Fui estudar cinema, fiz uma pós-graduação em cinema documentário. Que foi muito legal.

Luciano: Deixa eu… isso aqui é um programa sobre liderança e empreendedorismo. Então é um programa sobre business. Eu tenho que sempre abordar esse lado do business. Tudo isso custa dinheiro, Leide. E não deve custar pouco dinheiro. A estrutura que você mantém lá, você deve ter cuidadoras, você tem todo um esquema lá.

Leide: Sim.

Luciano: Eu imagino que deve ter um plano de saúde por trás. Deve ter mil e uma arrumações ali no meio. Mas mesmo assim, mesmo com tudo isso, ainda custa uma grana. Você fechou a tua empresa.

Leide: Sim.

Luciano: Você se dedicou a isso. Como é que se sustenta essa estrutura toda?

Leide: A minha mãe, ela paga as despesas dela. A minha mãe, ela é aposentada. Ela é advogada. E ela é pensionista do meu pai. E o meu avô deixou alguns bens para ela. Então ela tem um sítio, o qual ela arrenda para cana e que é o rendimento que ela tem por mês. E eu acabo administrando esse dinheiro para ela. Assim, ela está tranquila com relação a essa questão econômica. A preocupação que ela tinha antes, de toda a economia, do dinheiro, que eu me lembro quando a gente era pequeno, sempre estava faltando alguma coisa, sempre, tal. É uma preocupação que ela não tem agora. Por incrível que pareça, né?

Luciano: Sim. Não, e é uma coisa interessante. O que eu sei de histórias de gente que tem posses, e por algum problema qualquer, pega uma doença, perde a capacidade. E aquilo tudo é dilapidado pela família, que destrói aquilo tudo. E a pessoa fica numa situação… ontem mesmo, eu almocei com um pessoal que trabalha com esquema de emissão de certificados digitais, contando uma história de um executivo de uma baita empresa aí, que também ficou incapacitado completamente. E os caras vieram para cima, querendo a chave digital dele. A família queria, porque ia entrar no meio. Os caras: não. Os caras não deram de jeito nenhum e tiveram que se virar de outra forma lá. Mas a família veio para cima. E o que tem de história, sabe, disso aí. Com vocês isso não aconteceu. Pelo contrário. Isso tudo serviu para – até me parece – para unir mais, né?

Leide: Sim.

Luciano: Para unir mais todos vocês, né? Como é que os teus filhos se… porque a essa altura, faz parte da vida da família deles. Isso é normal, natural?

Leide: É normal. Assim, tipo, quando o meu garoto mais novo tinha 4 anos, o mais novo, o Pedro. Ele, na minha mãe, lá, brincando, tal, não sei o que. Ele falou assim, ele olhou para mim e falou assim: mamãe, quando você for velhinha, eu vou cuidar de você. Aí assim, cara… aí, o que eu posso fazer? Tipo assim, na realidade eu acho que é uma coisa osmose é uma coisa. Ele está vendo o que a gente faz…

Luciano: Ele está com um exemplo. Ele está com um exemplo acabado ali.

Leide: E assim, cara, você vê, você dá esses exemplos para mim assim, a gente vê isso direto. Assim, cara, o dinheiro da minha mãe é 100% dela. É o dinheiro mais assim, administrado assim, tudo, continha. Mas ao mesmo tempo, cara, as meninas que cuidam dela – porque ela mora sozinha – elas que fazem compra para a casa dela. Eu só assino o cheque. Então assim, as meninas são muito comprometidas. A gente conseguiu montar uma equipe, você não tem noção, Luciano. Lembra da Ivânia? Eu não sei se você lembra da Ivânia, que trabalhou com a gente lá no escritório? Cara, ela é a principal cuidadora da minha mãe. Até hoje. A gente está falando, tipo, de 15 anos atrás.

Luciano: É o trabalho dela?

Leide: É o trabalho dela. Ela cresceu muito. Ela cresceu muito. Porque hoje ela coordena uma equipe que é formada de 11 pessoas. Quer dizer, além de ver toda a agenda da minha mãe, que não é uma agenda… a minha mãe faz fono, faz fisio, tem visita de médico semanalmente, visita de enfermeiro. Então assim, é uma… é muito assim, é dinâmico, entendeu?

Luciano: Termina a história do filme. Vamos lá. E aí você se vê, de repente, montando o seu próprio filme. Se eu conheço você…

Leide: Aí eu fui estudar.

Luciano: Se eu conheço você, você não terceirizou nada disso?

Leide: Não, não.

Luciano: Você foi para cima e falou: eu vou fazer. E aí?

Leide: Isso mesmo. Aí eu fui estudar cinema. Porque eu estudei edição, final cut. Mas só que eu me vi, tipo, com aquele material imenso. Muito material. E aí eu falei: o que eu vou fazer com isso? Como que é que vai sair esse filme? O que eu vou tirar disso? Eu falei: meu, eu preciso estudar. Eu preciso estudar cinema. Eu preciso saber o que rola. Eu preciso saber quais são as origens dos documentários, o que já foi feito, o que não foi? Que tipo de documentário existe? Que tipo que não existe e tal.  Eu fui mergulhar nisso. Eu tive isso como uma proposta assim. E ao mesmo tempo que eu ia trabalhando, assim, estudando, eu continuava a trabalhar com esse material. Eu já ia lá assistindo, selecionando onde que as poesias estão nascendo. Ah, essa aqui é a poesia tal? Eu já ia catalogando tudo. Eu já ia deixando tudo assim, preparado para facilitar, quando eu fosse escolher o que usar. Fazer o meu recorte de leitura. E aí, eu resolvi fazer um filme diferente. Porque o meu filme, a minha poesia, o meu primeiro filme, ele não tem entrevista, ele não tem depoimento de ninguém. Ele só tem poesias dela. Então, eu usei as poesias dela como morfologia para fazer a minha sintaxe. Eu peguei as poesias nascendo, que muitas viraram música. Nuno Mindelis, Élder Costa, Rafael Toledo. Músicas lindas. Então eu fiz esse recorte. Eu mostrei as poesias, só mostrei… e aí eu encontrei imagens dela boa e fui fazendo o contraponto, imagens. E aí eu percebia. Eu encontrei uma imagem muito legal de uma festa, que a gente estava se abraçando. Então assim, e eu percebi que eu também deveria personagem desse filme, que eu também deveria me colocar nesse filme. Aí eu fiz a locução das poesias dela.

Luciano: Legal.

Leide: Então, as poesias nascendo; algumas, música; outras, locução. Algumas imagens dela. E eu fiz esse recorte. Então aí, assim, eu fiquei muito contente assim, de ter…

Luciano: Quanto tempo o filme tem?

Leide: São 24 minutos.

Luciano: 24 minutos. É o primeiro filme que você fez?

Leide: O primeiro filme, 2016.

Luciano: E esse que eu vi agora é o segundo?

Leide: Esse é o segundo, que é Pagar Quatro Nunca Mais. Eu conto a história do…

Luciano: Mas você faz. Aí, de repente, você tem na sua mão um filme. Um produto com 24 minutos de duração. O que eu faço com isso?

Leide: Eu fui para os festivais. Me inscrevi em vários festivais. É um filme diferente – como eu te coloquei – porque eu uso as imagens que as cuidadoras fizeram. Então é um filme que tem uma estética diferente. Não é um filme onde você tem aquela luz, aquela imagem estática. Aquela coisa… é um filme diferente. É uma outra… é uma outra… e aí foi muito legal assim, a gente foi para Nova Iorque, num festival de filme independente de lá. E a gente foi para um festival também da Cruz Vermelha, que é o único realizado pela Cruz Vermelha, que é lá na Bulgária, em Varna. E aí lá eu ganhei um prêmio, de melhor diretora de documentário. Então foi um estímulo muito legal, para fazer o outro filme. Porque… sim, porque não é fácil, Luciano, você produzir, né? Então, eu produzi um filme diferente, porque é um filme que não é um filme que…

Luciano: Você sabia que não ia ter. Que isso não ia ter bilheteria…

Leide: Não, nenhuma.

Luciano: Isso não ia ter público.

Leide: Não.

Luciano: Isso não ia ser exibido na Rede Globo.

Leide: Não.

Luciano: Em coisa nenhuma. Você fez aquilo, você criou uma obra que para você, para a sua mãe…

Leide: Representa muito.

Luciano: Muito, muito, muito.

Leide: E para algumas pessoas também representa muito, se você tiver esse olhar. Se você tiver esse olhar diferente. Se você tiver essa… se você… na verdade, é um filme que é um filme, eu classificaria como autoral, onde eu não apresento nada fechado. Porque eu não estou apresentando uma ideia, uma entrevista. Eu não estou apresentando coisas, conceitos determinados. Você que vai tirar a sua ideia disso, a partir da sua experiência. Se isso vai te acrescentar alguma coisa ou não, vai depender da sua experiência, do seu olhar diante dessa obra.

Luciano: E não é todo mundo que consegue processar.

Leide: Não é todo mundo. É. Não é todo mundo. Então é…

Luciano: Esse filme está acessível?

Leide: Está no Youtube.

Luciano: Está no Youtube?

Leide: Está no meu canal no Youtube, em quatro versões.

Luciano: Vou botar o link dele aqui também.

Filme MINHA POESIA na íntegra:

Trailer do filme PAGAR 4 NUNCA MAIS

 

Filme RECADO PARA Dr PAULO (esse aqui é mais um dos recortes do nosso acervo audiovisual)

 

Para download do Livro NÃO ESPERE DE MIM APENAS POESIAS

http://www.leidemoreira.com.br/site/todos-projetos/nao-espere-de-mim-apenas-poesias/

Leide: Está em espanhol, inglês…

Luciano: Aí você gosta da história, gostou da brincadeira.

Leide: Adorei.

Luciano: Vou fazer o próximo. Foi instigada por aquele acontecimento todo. Vou fazer um filme agora, chamado Pagar Quatro Nunca Mais.

Leide: Exatamente. Para contar essa história.

Luciano: Em torno dessa história. E a consequência dela?

Leide: Exatamente. Para contar essa história. Que é uma história importante de inclusão, de acessibilidade. Para contar essa história que virou lei. E que é uma história importante, que a gente tem que conhecer. E aí eu coloquei as músicas dela. Coloquei todo esse material que ela produziu. Eu coloquei poesias e fui contando. Só que esse segundo filme tem um perfil diferente, que já não é mais tão autoral. Ele já tem entrevista…

Luciano: É um documentário mesmo?

Leide: É um documentário.

Luciano: É um documentário mesmo?

Leide: É um documentário mais tradicional, digamos assim.

Luciano: Quanto tempo ele dura?

Leide: 14 minutos e 43 segundos.

Luciano: Tá. É. São curtinhos. Esse também está disponível?

Leide: Esse não está disponível. Esse está nos festivais.

Luciano: Tá.

Leide: Vai começar agora.

Luciano: Que loucura. Você sabe uma coisa? Eu estou conversando com você aqui e eu estava vendo uma coisa. Eu consigo… eu consigo imaginar. É uma coisa assim… não dá para descrever. Imaginar que eu consigo fazer uma pergunta para você, que eu não sei se com outra pessoa ou com outra história eu conseguiria fazer. Que é perguntar para você – em nome da sua mãe, respondendo em nome da sua mãe – quais são os planos para o futuro? Imaginar que eu estou fazendo uma pergunta que não é para a Leide filha, é para a Leide mãe. E que ela deve ter planos para o futuro. E eu estou fazendo essa pergunta para alguém que sofre de esclerose lateral amiotrófica. Que não fala, que não anda, que não se mexe e que só tem o movimento dos olhos e ela escuta. E pergunto: quais são os planos do futuro? Porque eu acho que ela é capaz de responder. Não é?

Leide: Eu acho que sim.

Luciano: Eu acho que sim.

Leide: Eu acho que sim.

Luciano: Isso é muito louco.

Leide: Isso é louco.

Luciano: Isso é muito louco. Isso é muito louco.

Leide: É. Essa vida louca. E ao mesmo tempo, coisas assim, acontecendo assim, para você ver, por exemplo, antes de ontem, cheguei lá, ela estava tomando banho. Eu entrei no banho lá, com as garotas que ela toma banho, no banheiro, sentei ela numa cadeira e tal. Água bonitinha e tal. Beleza e tal. De repente, aquela correria, não sei quê. O aparelho, o oxigênio e tal, não sei que, uma sai correndo. Eu jogo o que eu tenho na mão e tal. Eu vou correndo para o quarto dela. Quando a gente vê, o fio do oxigênio estava prensado na cama. Porque é uma cama hospitalar, que elas descem. A menina desceu para poder arrumar a cama e daí prensou. E aí, quando a gente descobriu a gente falou: liga, não sei o que lá. Uh… assim. Ontem, tipo, antes de ontem para ontem, a sonda da urina vazou, tipo molhou toda a cama. Tipo, aí teve que trocar, na-na-na. Teve que chamar o enfermeiro para trocar. Trocou. Aí o cara não colocou direito, na-na-na. Teve que duas horas depois, colocar de novo, colocar… então, tipo assim, sabe aquelas coisas que você tem que administrar, tipo assim, administrar para viver?

Luciano: Não, não sei.

Leide: Você tem que… cara, você tem que…

Luciano: Nossa…

Leide: E também, para você manter, você tem que… mas assim, aí falei: deu certo? Dormiu? Vazou? Não? Pô, foi boa a noite? Yes! Então, tipo assim, a cada…

Luciano: É uma vitória…

Leide: É uma vitória.

Luciano: É uma vitória de curto prazo, diária.

Leide: Constante.

Luciano: Todo dia.

Leide: Constante. Tipo assim, é ao mesmo tempo… é assim: ao mesmo tempo que está no limite daquela coisa tensa, de repente, está aquele alívio. Você entende? Então assim, é bem assim. É loucura assim. É meio punk.

Luciano: Não. Eu acho que é muito punk.

Leide: É punk.

Luciano: Eu acho que é muito punk. Eu acho que para processar isso tudo aí, você também teve que fazer um… você teve que fazer um rearranjo de mindset aí brutal, né? Porque… tudo isso era novo para você?

Leide: Tudo.

Luciano: Para ela e para você, né? Ela não tinha muita escolha. Ela não tinha muita escolha. Estava acontecendo alguma coisa. Ela era passageira daquela doença. Você não. Você tinha milhares de escolhas, né? E você foi escolher um caminho que: cara, eu não só estou cuidando dela, como estou ajudando ela a produzir coisas. E estou fazendo dessa produção, parte da minha…

Leide: Produção também…

Luciano: Da minha produção. Quer dizer, você está criando o teu trabalho em cima do trabalho que sua mãe está fazendo.

Leide: Sim.

Luciano: Você é filha dela, tem a relação mãe e filha.

Leide: Vou ter que pagar direito autoral para ela.

Luciano: É, então? Então, tem toda uma loucura. Cara, que história.

Leide: Superprazeroso.

Luciano: Doido.

Leide: E agora, esse material que eu te falei, que é um material grande que foi filmado, que são mais de 250 horas, um material muito grande, que vai desde entrevistas dela, coisas de… tudo. Todas as músicas, todas as poesias, tudo que aconteceu, esses lançamentos, essas saídas. Tudo isso. Cara, têm vários recortes. Têm vários… assim, têm vários filmes aí dentro. Têm filmes assim, têm filmes, pô, desde… uma poesia, por exemplo, chamada Noite de Lua Cheia, para você ter uma noção, ela demora 37 minutos. Ela está filmada de cabo a rabo pelas meninas. Ela está a poesia inteira.

Luciano: Sendo feita?

Leide: Sendo feita.

Luciano: Sendo feita naquele momento?

Leide: 37 minutos. Noite de Lua Cheia. Isso está lá. Está lá guardado. Eu vou deixar isso lá? Eu não posso deixar isso lá. Nem se for, eu, agora, nesse momento, eu estou transcrevendo. Porque eu quero colocar. Eu quero legendar. Eu quero melhorar a cor. Então, eu quero fazer um tratamento de cor. Eu quero dar uma… e eu quero colocar ela inteira, sem corte nenhum. Assim, isso é uma coisa. Têm tantas histórias, mas têm tantos recortes dentro disso. E outras para serem processadas ainda, que eu nem sei o que pode acontecer, o que pode virar, entendeu? Então assim, é um trabalho que eu acho assim, muito legal, assim. Não desperdiçar isso, entendeu? Não desperdiçar. Porque a gente faz história, Luciano.

Luciano: Claro.

Leide: A gente faz história. E a gente tem que construir um mundo melhor. Então, o que a gente está fazendo, cara, a gente não pode cruzar a mão. Meu, a gente tem que produzir muito.

Luciano: Cara, você deve estar explodindo a cabeça de muita gente que está nos ouvindo aqui, entendeu? Essa história que você está contando é uma história que também têm mil recortes.

Leide: Mil recortes.

Luciano: Você não está aqui me contando a história: olha, tive uma tragédia familiar, que aconteceu assim, na-na-na. Não.

Leide: Mas isso de tragédia familiar, a gente superou.

Luciano: Mas esse é o grande ponto. Quer dizer, você tem esse impacto. Tem um momento de parada: bom, o que nós vamos fazer com isso? Então, aconteceu, está aqui. É assim. Não tem saída. Isso vai acontecer. O que eu faço com essa decisão daqui para frente? E você transforma isso daqui para frente num conteúdo, em ação, em movimento, em lei. Em lei que ajuda outras pessoas. Cara, isso é fabuloso. Isso é fantástico. As Leides são foda, meu. Essas Leides, eu vou te contar.

Leide: Obrigada, Luciano.

Luciano: Isso é girl power, entendeu? Isso é girl power.

Leide: Empoderamento.

Luciano: De boca cheia, sabe? Você fala: cara, isso é. Isso é. Que é: você transformou uma coisa que para todo mundo seria o fim, você transformou em outra coisa. Nasceu de novo. É outro começo. É outra…

Leide: Sim. Eu acho que de tudo isso, assim, eu vou te falar uma coisa, cara, depois que eu li. Esse artigo que eu li do Jairo Marques ontem, na Folha, foi um paralelo muito assim, importante. Que eu falei: meu, cara, a minha mãe, olha quanto conteúdo que ia ser jogado fora. Porque a gente não ia ter acesso. Cara, três livros. As poesias nascendo, os filmes, as coisas acontecendo.

Luciano: As músicas.

Leide: As músicas, tudo isso. Olha só. Agora, eu fico pensando nas outras pessoas que estão nesta mesma situação e que não têm esse apoio, essa atenção, essa paciência, sabe, das pessoas que amam.

Luciano: Não tem alguém em volta com o preparo que você tinha, com o teu treinamento anterior que você tinha. Que você era uma produtora e achou uma fonte para produzir em cima daquilo e transformar em outra coisa na frente. Mas eu vou um pouquinho antes disso aí, Leide. Eu penso naquelas pessoas que não estão no estado que a sua mãe está. A sua mãe é uma mente que produz, e consegue, de alguma forma, expressar isso. Só.

Leide: Isto é o limite.

Luciano: Só. Esse é o limite dela. Ela produz o pensamento. Eu diria que é uma expressão…

Leide: Eu diria que é uma situação muito limite. É como você falou: têm outras pessoas que não estão. A maioria não está nessa situação limite.

Luciano: Sim. Eu consigo me mexer um pouco. Eu consigo ter… eu não tenho essa limitação e tal. Isso serviu para me transformar em zero. Para zerar tudo. Quer dizer, perdi um membro. Não tenho um braço e, portanto, sou o fim do mundo, acabou. Cara, é tão… essa história da sua mãe é tão fora da curva. Você começou falando: eu era o ponto fora da curva. Sua mãe é um ponto tão fora da curva. Mas, de novo, sozinha não aconteceria nada com ela. Ela é um ponto fora da curva, porque tem… não é uma Leide. São as Leides. As Leides é que construíram isso tudo, sabe? Sem você, o que teria acontecido? Sem você, o que teria acontecido? Sem ela, você não teria toda essa produção. E sem você, ela teria? Ela não teria também. Não teria. Porque envolve muita… não era só alguém com boa vontade lá, do lado dela. Era amor de filha para mãe. Era aquilo que você falou lá atrás, quando você falou: nem passou pela minha cabeça se eu ia fechar, se eu ia parar. Cara, isso foi automático.

Leide: Foi automático.

Luciano: Vou cuidar da minha mãe. Estou entregue a isso aí e isso gera um good will, uma energia tão boa que cria toda essa… cara, que doideira. Que doideira.

Leide: Tipo assim: para o que der e vier, Luciano.

Luciano: Pois é. Eu não sei…

Leide: Quando a gente ama, cara, sei lá. Não tem… não tem limite, cara.

Luciano: E não dá para… não dá para se colocar no seu lugar. Não dá para tentar imaginar. Eu não consigo imaginar nada. Eu só consigo olhar para isso e admirar a força das duas, viu? Das duas Leides, viu?

Leide: Obrigada.

Luciano: E teus moleques. Teus moleques, que eles estão recebendo uma lição de, sabe, não só de vida. Mas é uma lição de amor, sabe, de família e tudo mais, que isso é muito raro hoje em dia.

Leide: É. Eu sei.

Luciano: É muito raro hoje em dia. Isso é muito bom para eles, viu?

Leide: É.

Luciano: Vão crescer…

Leide: Eu acho que ter isso, assim, ter essa diversidade, eu acho que deixa a pessoa mais “rica”. O meu irmão mais novo, o Cristiano, ele está aqui em São Paulo. Ele mora fora, ele mora em Los Angeles. E eles estão passando três semanas aqui. Eles estão na minha mãe, agora. Está a maior bagunça na casa da minha mãe. A minha mãe está louca de felicidade. E o meu sobrinho, que tem três anos, ele perguntou para a mãe dele, a Gabi, minha cunhada, perguntou assim: mãe, cadê o carro da vovó? Porque ele é ligado em carro, menino. Aí ela falou assim: não, a vovó quando sai, ela sai de ambulância. Aí ele falou assim… e ele assim, tem falado nos Estados Unidos: por que a vovó não vem visitar? Por que a vovó… e sabe essa coisa de chegar na minha mãe, dar um abraço nela, no quarto dela. Todo mundo lá e todo mundo interagindo e todo mundo… e ele saber que: agora eu vou para o Brasil da vovó Leide. Agora eu vou para o Brasil da… então assim, eu acho que isso é muito assim.

Luciano: Para ela é um presente.

Leide: Não, para ela é o céu, assim.

Luciano: Quais são os planos do futuro da Leide filha?

Leide: Bom, a Leide filha está encantada com o cinema. Eu quero mergulhar nesse material. Eu quero assim, esmiuçar ele ao máximo. Eu quero tirar assim, tudo que eu puder olhar assim, com a minha capacidade assim, tiver condições de fazer algum recorte. Então eu quero assim, esgotar isso. Em paralelo eu tenho alguns projetos de outros conteúdos, de outras ideias, de roteiros que eu tenho escrito. E eu tenho editado também. Então assim, eu quero também trabalhar os conteúdos e estudar. Assim, eu quero estudar. Eu quero continuar estudando.

Luciano: Legal. Que bom. Eu vou tentar achar esse artigo do Jairo…

Leide: De ontem, na Folha…

Luciano: Para a gente aqui. Eu vou tentar esse arquivo dentro do… porque quem ouve o LiderCast, escuta o LiderCast e se for ao site tem a transcrição da nossa conversa inteirinha.

Leide: Legal.

Luciano: E se botar no botão do resumo, também baixa isso aqui em PDF.

Leide: Legal.

Luciano: Tem esse material todo aqui. Eu vou tentar botar dentro desse PDF, esse artigo aí, para a gente ilustrar isso tudo. Muito bem, você deve estar nas mídias sociais. As Leides devem estar nas mídias sociais. Quem quiser se aproximar, conhecer o trabalho de vocês, ter acesso a livro e tudo mais, vai para onde?

Leide: Bom, o livro da minha mãe tem esse último, que é Não Espere de Mim Pelas Poesias, ele está na internet, no site dela.

Luciano: Aliás, esse livro é uma coisa muito legal. A Leide filha desenvolveu uma ideia que era a seguinte: o livro tem a poesia da Leide mãe do lado direito e do lado esquerdo tem as coisas que ela falou antes daquela poesia nascer.

Leide: É. Exatamente.

Luciano: E são coisas triviais. Estou com frio na mão. Eu quero um copo d’água. Esse cachorro está latindo. Tem muito barulho na sala. Ela escreve isso do lado esquerdo e do lado direito a poesia. E você tem um contato com a realidade do dia a dia dela de um lado e do outro lado, o poema que nasceu ali naquele momento. Ficou muito legal.

Leide: Esse livro está disponível no site dela: www.leidemoreira.com.br

Luciano: Leide, né?

Leide: L-E-I-D-E. leidemoreira.com.br.

Luciano: Tá na mídia social também? Facebook, a tua mãe?

Leide: Eu estou. Eu estou. E eu tenho canal no Youtube, onde é possível assistir o Minha Poesia, que é o primeiro filme.

Luciano: Como é que é o canal?

Leide: Leide Jacob.

Luciano: Leide. Esse Jacob é Jacob mesmo?

Leide: Jacob. J-A-C-O-B.

Luciano: Leide Jacob. Cai no seu canal. Aí dá para ver.

Leide: Exatamente.

Luciano: Esse vídeo vai estar aqui, embedado aqui no site, tá?

Leide: Legal. Legal. Muito bom.

Luciano: Legal, legal. Leide, o que eu posso dizer para você? Nada, além de parabéns pelo que você construiu. Parabéns para as Leides. A sua mãe vai ouvir?

Leide: Com certeza.

Luciano: Com certeza. Eu quero mandar para ela um beijão gigantesco para ela.

Leide: Aliás, ela sabe que eu estou aqui.

fotos: Marcelo Min

Luciano: Para dizer que a cada dia que passa, eu só posso admirar mais esse trabalho que ela fez e essa conexão, sabe? Mãe e filha, nesse nível de vocês, que é ponto fora da curva. Você tem razão total. A Juninha é um ponto fora da curva. Continua sendo até hoje.

Leide: Obrigada, Luciano. Pô, superprazer estar com você de novo, aqui.

Luciano: Imagina. Leide mãe, um beijão gigantesco. E Juninha, o meu beijo. Obrigado por você ter vindo aqui.

Leide: Valeu, Luciano. Um beijo. Show, obrigada.

Luciano: Muito bem, termina aqui mais um LiderCast, a transcrição deste programa, você encontra no lidercast.com.br. para ter acesso a esta temporada completa assine o cafebrasilpremium.com.br e receba imediatamente todos os arquivos. Além de ter acesso ao grupo cafebrasil no Telegram, que reúne ouvintes dos podcasts Café Brasil e LiderCast, que discutem em alto nível, temas importantes, compartilhando ideias e recebendo conteúdos exclusivos. Lembre-se: cafebrasilpremium.com.br. Essa temporada chega a você com o apoio da Nakata, que é líder em componentes de suspensão. Cuide bem de seu carro com as dicas do blog.nakata.com.br.

Narrador: Você ouviu LiderCast, com Luciano Pires. Mais uma isca intelectual do Café Brasil. Acompanhe os programas pelo portal cafebrasil.com.br.

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